Quando chego a uma qualquer terra -- ou melhor, quando chegava... -- mais do que ir logo enfiar-me nos museus, procuro os jardins ou parques públicos. Tenho para mim que a alma de uma terra está nos seus jardins.
Dantes, por cá, era muito amante do Jardim Botânico, lugar romântico e onde já fui muito feliz. Por vezes tinha que vir o seu guardião expulsar-nos, não dávamos pelo passar do tempo. Claro, também, dos Jardins da Gulbenkian, lugar sempre mágico e do qual sinto muito a falta. Até meados de Março, pelo menos à sexta-feira à hora de almoço, ia sempre passear por lá. Ou almoçava num dos restaurantes ou ia ao nepalês ali perto e depois ia para lá passear, quer nos jardins quer nas livrarias. Mal comecei a circular por minha conta e risco pela cidade, era para a Gulbenkian que os meus passos me levavam. As exposições atraíam-me muito, mesmo quando era confrontada com coisas que me deixavam doida de incompreensão. Era, então, demasiado jovem para saber que a maioríssima parte do conhecimento me seria estranha para o resto da vida. O riacho, o lago, os recantos onde poderíamos estar a bom recato, eram outras tentações. Por lá namorei, primeiro com o segundo, depois com o terceiro, por lá tenho andado com os meus filhos desde bebés até agora, e agora também já com os meus queridos pimentinhas que sobem às árvores a que os pais subiam, que vêem os netos dos patinhos que os seus pais viam.
Havia a Estufa Fria mas coisa sempre organizada demais para o meu gosto. Nunca foi destino de predilecção. Não é bem jardim, muito menos é Parque, é Estufa. Lugar de descoberta mas, na realidade, para mim nunca lugar de espanto e rendição. Com os miúdos também o Jardim Tropical, adoravam as raízes daquelas árvores gigantes, subir e descer e saltar, descobrir, brincar. E ainda o do Palácio de Queluz, bonito mas muito civilizado, muito feito a régua e esquadro, muito estruturado para o meu gosto. Sou mais pela natureza a l'aise, sem coleira ou preceitos.
E ainda me lembro de um amigo me falar do Parque Urbano do Porto. Mora perto, ia contando sobre o andamento dos trabalhos, ia antecipando o lindo que ia ficar. E ficou muito bonito, começa na cidade, vai até ao mar. Não nisso de descer até às águas mas no resto é um parque com afinidade com o Parque da Paz, também uma maravilha.
Numa altura em que ia várias vezes por ano a Madrid não podia deixar de andar pelo Retiro. Havia sempre alguns musts em Madrid: a loja de lingerie da Serrano que me tirava do sério, tal a elegância e ousadia das suas peças, e os passeios nas belas alamedas e recantos do Retiro. Claro que também as temporárias dos três museus do triângulo ou os petiscos ao início da noite ou aquelas belas zarzuelas de marisco que comia antes de confirmar, a duras custas, que sou alérgica a marisco de casca encarnada -- mas, enfim, isso agora não vem ao caso.
Sintra é Sintra é Sintra mas, em Sintra, para além de uma certa casa de que aqui apenas falo quando a disfarço de fantasia, casa essa onde me ensinaram a gostar de vinho, para além dos travesseirinhos quentes que se compram ali perto, para além dos passeios pela serra ou pela lagoa, são os verdes e as grandes árvores de Monserrate que sempre ali me prenderam.
E, numa de cerises a puxarem cerises, de muitos outros parques ou jardins poderia aqui dar conta. Como aquela primeira vez em Hyde Park em que, vinda de um país onde não era costume desfrutar a vida ao ar livre, fiquei muito surpreendida por ver concertos no meio do jardim, as pessoas a puxarem uma cadeira e a assistirem na boa, na maior informalidade, outras deitadas na relva, tudo na maior felicidade.
E é verdade, já me esquecia, a esplanada do parque rente a um lago perto dum outro recanto com estátuas, lugar de romance e mil beijos, tantas e tantas tardes lá passei, tanto que por ali cirandei, no alto do Parque Eduardo VII, uma esplanada resguardada, tão, tão, agradável -- e, houve uma altura que agora também não vem ao caso, tão irresistivelmente clandestina.
Ah, sim, claro, é verdade, outro que também me maravilha: Serralves. Tão bonito. Sempre alguma coisa a descobrir. Lindo, lindo. Há tanto tempo que não vou ao Porto, que saudades.
Aliás, há tanto tempo que não vou a lado nenhum. Como estarão os parques das cidades? São os últimos refúgios dos seres humanos?
Agora me lembro, nunca conheci parques que adoraria conhecer: os etéreos do Japão. Não serão luxuriantes como os que costumam fazer-me cair de paixão mas, sim, elaboradamente requintados, a beleza reduzida à sua mais íntima essência. Como me sentiria lá? Depurada? Sereníssima como nunca antes? Nem conheci aqueles outros, igualmente longínquos, em que as árvores e as suas raízes rebentam em verde por entre ruínas, uma simbiose perfeita entre a exuberância da natureza e a decadência mágica de antigas esculturas ou edificações. Gostava muito de ainda vir a conhecer essa realidade que apenas conheço remotamente. Penso que choraria de emoção, as minhas raízes entrelaçando-se com as das árvores mais antigas.
Vem-me este gosto desde a minha meninice vivida à larga, perto do campo, casas com jardins e hortas tudo sempre de porta aberta, vida de largueza de movimentos, à rédea solta, de admirar os rapazes subindo às árvores, de meninas sentadas à sombra, da menina que fui andando a apanhar pinhões que depois comia depois de os partir com uma pedra. Ou virá de qualquer outra coisa. Talvez noutra encarnação tenha sido árvore. Ou pássaro ou outro bicho que tenha vivido no mato, em florestas. Sei lá.
E aqui fica a sugestão: que os nossos autarcas, todos, invistam em projectos deste género em que o contacto próximo com a natureza seja estimulado.
Boa?