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domingo, setembro 13, 2020

Dia que começou vacilante, com alguma irritação à mistura, mas que teve um final feliz, com os meninos quase a pularem a cerca e até com uma raposa a atravessar a noite





Custou-me a adormecer. Pela primeira vez, hesitava. Sentia-me como se uma corrente me tivesse arrastado e, exausta, incapaz de pensar, tivesse acabado conformada com o lugar onde tinha ido parar. E, de repente, questionava: mas será que este é o momento? será que é mesmo isto que quero? que queremos?

De manhã, eu ainda a dormir pesadamente, o meu marido foi acordar-me. Tínhamos muito que fazer antes que o novo habitante nos viesse ser entregue. Tinha-se levantado cedo, como sempre, já tinha estado a fazer uma série de coisas com vista a preparar o alojamento desse nosso novo co-habitante. Verbalizei: 'Estamos a tomar a decisão certa? Já pensaste bem no que estamos a meter-nos?. O meu marido disse: 'Mal dormi. Não sei.'. Fiquei perplexa. Sempre foi entusiasta de cães, muito mais que eu. Confirmou: 'Não sei mesmo'. De repente, todas as reservas assomavam ao meu espírito: íamos perder a nossa liberdade, a partir de agora toda a nossa vida seria agendada em função do cão. É certo que com a covid pouco se passeia mas a pandemia há-de perder vapor, haveremos de voltar a uma vida em liberdade. O meu filho diz que ficaria com ele, nessas alturas. Mas uma coisa é um fim de semana de vez em quando, outra seria duas ou semanas, duas ou três vezes por ano. E têm lá eles vida para isso? E se o cão fosse de qualidade de dar cabo dos jardins? Do nosso, do dele? Um jardim tão lindo, este meu jardim. E o deles também tão bonito, tão bem arranjado. E ambos só víamos o lado negativo. Claro que o afecto, claro que a segurança. Mas e a perda de liberdade...?

Já tinha nome. Na véspera, quando o tínhamos ido ver, logo eles a fazerem festinhas, logo todos cheios de amor pelo bichinho, o bebé (que já não é bem bebé pois já tem três anos e meio) disse: vai chamar-se Meny que é como os manos me chamam. Disseram-me depois que é Manny que se escreve. Eu não quis fazer nenhuma festa. Senti que, se fizesse, para sempre ficaria incapaz de pensar, para sempre afeiçoada a ele.

E é que, depois, há outra coisa: o absurdo e insuportável fundamentalismo das senhoras das organizações que tratam da adopção de cães. Parece elas que alguém lhes conferiu poder para se armarem em justiceiras, em juízas de costumes, em grandes decisoras, uma espécie de autoridade à direita de deus-pai-todo-poderoso. Querem saber se temos uma família estruturada, se temos uma casa com condições, querem conhecer a casa, querem conhecer-nos a nós, querem que garantamos que as autorizamos a vir cá regularmente a casa verificar as condições em que vivem os animais e, se a coisa não lhe agradar, a virem resgatar os animais. E temos que assinar termos de responsabilidade, dar-lhes a cópia do cartão de cidadão, e temos que aturá-las dissertando como se fossem donas do mundo dos animais. Pensámos: 'Mas vamos alinhar nisto? Vamos meter-nos numa fria destas...?'. E tantas dúvidas formulámos que acabámos a concluir que não. Pelo menos por agora.  Ainda não. E não desta maneira. Telefonei, enviei mensagens. Quando consegui falar com uma delas, toda sentenciosa, respondeu-me: 'Agora não posso falar mas isso não é bom'. Passado um bocado, ligou-me outra, toda prosa, toda doutoral, falando como se fosse a dona de todos os cães do mundo, a dona de todas as verdades, inspectora-mora, magistrada do grande reino dos céus para cães adoptados. Falei cordatamente com ela mas intimamente só me apeteceu mandá-la para um lugar bem feio. Uma das coisas que me chocou foi a exigência de esterilizar os bichos. Mas quem são elas para nos exigir que esterilizemos os animais? Qual a ideia? Dizem que é para evitar que nasçam ninhadas. Ouvi aquilo com uma repulsa que mal consigo aqui descrever.

Quando comuniquei à família a nossa decisão, ficaram decepcionados. Mas acho que perceberam. Sobretudo, senti que acharam muito bem que não assinássemos aquele absurdo termo de responsabilidade. Fascistas, disse o meu filho. Fundamentalistas, disse a minha filha. Gente estranha, digo eu.

De seguida, aliviados pela decisão (mas, intimamente, com pena: o cachorrinho era uma fofura), fomos caminhar pela orla do mar.

Dali fomos tratar das argolas para o cortinado. Como não as encontrámos tão grandes quanto necessitávamos (obrigada, Amofinado, mas precisava de vinte e duas bem grandes, de um castanho envelhecido, nada que o Preço Justo me resolvesse), tivemos que trazer outro varão. Dali seguimos para o supermercado. Almoçámos depois das três. Ainda deu para descansar um pouco. Quando chegaram os primeiros convivas, estava eu a dormitar. O meu marido trouxe para junto do alpendre um grelhador grande que os anteriores proprietários deixaram junto à horta. O meu filho preparou uma bela grelhada mista com carnes que trouxe: piano, bifes de borrego, asinhas de frango, alheiras. Fiz arroz e salada de tomate. Depois houve fruta, gelados e a minha filha fez o bolo de iogurte que fica sempre bom. 

E jantámos no jardim e depois ali ficámos. Os meninos a brincarem às escondidas, a trepar às árvores, a correr, e nós a vê-los. Depois as meninas do outro jardim começaram a meter-se com eles e depois eles com elas e depois foram buscar bancos para espreitar para o jardim dos vizinhos e foi uma festa, uma alegria, os rapazinhos todos malucos com as meninas. A minha filha fotografou-os e é um momento que vai ficar para a história. Uma imagem do mais inocente, divertido e inesperado que é possível.

Quando se foram, por volta das dez da noite, o céu limpo e estrelado, ainda não estava frio. Pouco depois de ter estado, no portão, a despedir-me da minha filha, liga-me ela. Mas não era ela, era o mais crescido ao telefone, todo excitado: tinham visto uma raposa. Ao fim da rua, uma raposa. Grande, um rabo grande e peludo. Tinha estado a olhar para eles. Fotografaram-na. Mandaram-me a fotografia. Fiquei emocionada, arrepiada. Afinal, aquele vulto, no outro dia, com um grande rabo felpudo ali na horta, era mesmo uma raposa. É uma sensação estranha, curiosa. A sensação de um mistério vogando por aqui. 

Vai doce o mês de Setembro. E estes dias, com todos juntos, são ainda mais doces. Dias inesquecíveis.

Parece que o tempo vai mudar. Ainda não vivi esta casa em dia de chuva. Mas sei que vai ser bom, talvez ainda mais acolhedor. Se calhar, quando não pudermos estar no jardim, porque chove ou faz frio, iremos para o sótão que é amplo e, creio, confortável. Esqueci-me de dizer que quer os miúdos quer alguns dos graúdos estiveram de máscara. Eu não. Esqueci-me ainda de dizer que sinto saudades de os puxar para o meu colo, de abraçá-los e cobri-los de beijos. Se tento, logo alguém me diz: 'olh'ó covid...!'. Mas, havendo cuidado, haveremos de nos ir aguentando e logo, logo, já poderei andar agarrada a eles, meus meninos mais lindos, mais queridos.

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E, por hoje, nada mais tenho a declarar a não ser que as pinturas são de Sargent Claude Johnson com Patrick Watson interpretando Good morning Mr Wolf

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Desejo-lhe um feliz dia de domingo