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sexta-feira, setembro 06, 2013

Ler poesia. Ouvir poesia. Sentir a poesia. Perceber a poesia. Analisar poesia. Escrever poesia. ------ [E mais um Cadavre Exquis Poético - para ajudar a responder à pergunta: faz sentido analisar a poesia?]


No post abaixo, festejo o regresso de Pedro Mexia à blogosfera. Um malparado muito diferente daquele a que nos habituámos. Mas isso é a seguir.

Aqui, agora, a conversa é outra e tenho que tentar ser breve porque daqui a nada tenho que estar a pé que me espera mais um daqueles dias que começa antes do sol raiar. 

Vou aventurar-me por terrenos em que escorrego mal ponho o pé. Sei bem disso. Mas fazer o quê? se gosto de andar por sítios assim. Vou escolher umas imagens que têm o seu quê de infantil para que vejam bem que não me tomo a sério e que, ao dizer o que vou dizer, assumo que, deve ser o meu lado pouco adulto (ou inculto) a manifestar-se.

^^



Música por favor, 
que esta é conversa que se debruça sobre o sonho (ou sobre a fala) dos anjos


Arvo Pärt


^^

Leio poesia há muitos anos, desde os meus treze anos talvez. Tenho uma estante própria e de boa dimensão para poesia e, ainda assim, a mesa em que escrevo tem a toda a volta (é redonda) vários montes de livros de poesia. Tenho uma necessidade que é da ordem da adição: todos os dias tenho que ler um poema, um ou mais. Apenas em férias interrompo. Mas, por vezes, como qualquer viciado em estado de carência, abro um livro e leio um poema, mesmo que de fugida, mesmo que a total despropósito. 




Sou leitora assídua de poesia mas não sou uma leitora exemplar. Sou aliás a antítese disso. Não pego num livro e não começo a ler de seguida, página após página. Nem consigo nunca começar pelo princípio. Não sei porquê mas não consigo. Mais depressa vou ler o último ou o índice. Gosto de ler o índice para ver se, pelo nome, consigo ir direitinha ao melhor. Se não acerto, o que faço é abrir ao acaso e ler e depois andar para trás ou para a frente. Se me agrada o início de um poema, leio-o todo, senão passo para outro. Depois não fico a interpretá-lo nem a tentar perceber o que significa. Impossível fazê-lo. Na poesia eu acho que as palavras saem porque saem ou saem porque têm um significado para quem as escreveu. Depois de o terem escrito de forma inconsciente, se calhar, os poetas rematam as pontas, tiram os alfinetes, sobem as bainhas, essas coisas, acabamentos. Se calhar, só depois o dão como pronto.




Que me desculpem os estudiosos, a boa gente séria que sabe como desmantelar um poema sem o estragar, para que à vista desarmada ele continue a parecer aquilo que era, um poema genuíno. É ignorância minha, eu sei, mas parece-me que querer descobrir algum significado num poema parece-me um acto de divinação absurdo, ou um acto de voyeurismo despropositado. Ou seja, interpretar um poema parece-me estultícia. Mas que não se zanguem comigo os que o fazem e fazem bem – como confessei, não sou bem comportada, não sou boa aluna, não sou by the book (em nada nesta vida). 

Mas isto de querer interpretar o que os outros fazem, sejam os outros poetas, pintores, músicos, faz-me lembrar uma entrevista a Paula Rêgo. Dizia ela com aquela sua irreverência inocente: sei lá porque é que pintei aquilo, apeteceu-me, saíu assim, às vezes está ali um espaço vazio e ponho lá qualquer coisa para encher. Numa tela, estavam uns tomates no chão ao lado de uma cama. Disse ela: sei lá porquê, não faço ideia de como lá foram eles parar


Miró


Miró disse o mesmo. Quando acabava e pintar, deixava os pincéis de molho. Quando no dia seguinte lá chegava, de novo, tinha que lhes tirar o excesso de água. Sacudia-os para cima das telas. Depois, a partir dos salpicos, ia desenhando pintinhas, bolinhas, quadradinhos, juntando umas coisas. Fartava-se ele de rir com as interpretações que lia depois sobre os símbolos e a significação e essas coisas.

É até ridículo eu agora juntar-me à conversa mas, afinal, quem me impede? Vocês que estão aí sossegadinhos desse lado, tão longe de mim? Têm lá vocês a capacidade de me porem uma mão à frente da boca? Não têm. Ou melhor: conseguem estender o vosso braço e agarrar a minha mão para que eu não escreva mais disparates? Não. Estão longe demais. Portanto, agora a protagonista passo a ser eu. Sempre inconsciente.

Sabem que eu pinto. Agora menos, tenho cada vez menos tempo para fazer tudo o que gosto (isto dos blogues ocupa-me muito do tempo que usava para pintar). Pois eu, por vezes, era tomada por uma vontade compulsiva de pintar. Mas pintar – e a frase acaba aqui pois era de pintar que tinha (e por vezes ainda tenho) vontade, não de pintar alguma coisa em concreto. Vontade de olhar para uma tela em branco e depois, sem saber como nem porquê, ir juntando cores ou figuras. Depois as pessoas olham e vêem coisas e pedem-me explicações. Fico sem jeito, receio passar por mais maluca do que sou na realidade. Mas, a sério: não sei o que responder. 

Houve uma altura em que havia sempre duas freirinhas, ajoelhadas a um canto. A pintura podia meter mulheres nuas, corpos expostos, flores viscerais, sexos, montes, cavalos, gente em cima de árvores, portas, muros, labirintos, a sombra caindo sobre um muro, o que calhava, mas lá estavam sempre a um canto aquelas duas, vestidas a rigor, ajoelhadas, a rezar. Matéria para análise é o que não falta ali. Podem dizer que era a libertinagem total e que as freiras representavam a minha consciência. Tretas. Apareciam-me como uma paródia. O que sei é que pintar assim é a loucura, o prazer da liberdade total. 

Uma vez pintei uma ‘cena’ completamente improvável. Nessa altura andava a pintar cidades, torres que se cruzavam, camadas de prédios, o sol a bater nos prédios, viadutos e pontes que entravam e saíam dos prédios, prédios de formas bizarras, curvos, superfícies irregulares, cada parede de sua cor, cidades abstractas, feéricas. Pois bem, numa dessas pinturas pintei as pernas de uma mulher de saltos muito altos, uma mulher que, pela proporção, devia ser gigante pois andava sobre os prédios, um pé em cima de um, outro pé em cima de outro. E num canto do quadro via-se uma outra coisa: uma mão de mulher pegando no pobre pénis de um homem, pegando com o cuidado que se usa para pegar numa coisa frágil. 

Estas imagens, a das pernas da mulher e a mão da outra a pegar naquele pobre órgão, estavam a preto como se fosse quase uma sombra que se projectava naquela paisagem urbana. Uma coisa de que gosto especialmente é de dar nomes aos quadros. Só dou no fim porque só no fim é que vejo o que saiu. Àquele dei o nome ‘Women rule’. Reparem: não pensei que ia pintar um quadro que representasse o poder das mulheres nas sociedades modernas. Nada disso. Foi exactamente ao contrário.

Como gostei dele, emoldurei-o e coloquei-o na sala. Faço coisas assim, sem pensar. Lá em casa geralmente estamos nós, os filhos (já habituados – mas ainda não confortáveis com o que vêem ou lêem) e netos (na altura ainda não existiam), o genro (que deve achar isto uma coisa do além), a nora (que talvez ache piada), na altura os meus pais (o meu pai não dizia nada e a minha mãe ria-se como se eu fosse um caso perdido). Mas o pior foi no dia em que, pela primeira vez, depois de eu lá ter colocado o quadro, lá foi uma família, agora nossos parentes, pessoas conservadoras, tradicionais, católicos praticantes, gente atilada, tudo o que eu não sou. Quando ele começou a fazer o périplo por aquelas pinturas eu senti um calafrio, ó caraças que não me lembrei, devia ter escondido o sacana do quadro. Bonito serviço. O que é que ele vai pensar? Ai… Mas enfim, educado e cavalheiro, reparei que esboçou um quase imperceptível sorriso e seguiu, sem fazer uma referência. Depois disse que tinham muita força, muita vida, coisas assim. Pois. 

Agora imagine-se se algum sábio da coisa, um crítico de arte ou coisa do género, se metia a comentar aquilo. O que eu me ia fartar de rir.




É como a poesia. Leio e gosto ou não gosto. E por vezes não me diz nada, outras abre-me portas, outras varre-me a pele, outras é uma melodia que murmura dentro de mim. O que eu gosto de fazer, e faço muito (quando escrevo no Ginjal - coisa de que tenho andado arredada porque o tempo de verão leva-me para outras solicitações), é escolher um poema, copiá-lo para o blog e depois, sem pensar, tem que ser logo de seguida, enquanto as palavras do poema estão à solta dentro de mim, ou seja, ainda não assentaram nem se dissiparam, desatar a escrever o que me ocorre acerca daquilo. Recrear a situação, ou inventar uma situação em que as palavras do poema fizessem sentido. Ou outra coisa qualquer. Não sei. Não paro para pensar. E mal acabo de escrever, bye, bye, fecho o Ginjal e parto para outra. Aquilo fez sentido no estrito momento em que ocorreu, mal acabou, já sou outra. Já me aconteceu, raramente mas aconteceu, reler o que escrevi (acontece, por vezes, quando me quero certificar de que ainda não coloquei um certo poema, fazer uma pesquisa e ir parar a certa pagina que releio). Fico sempre espantada com o que escrevi.  Mas nem tento perceber o que escrevi, nem o que poderia aquilo ter significado na altura, ou as técnicas que usei ou o que for. Felizmente ninguém se deita a tão inútil e descabido exercício.




Li o exercício que o JCM escreveu na quinta feira no seu excelente Kyrie Eleison. Claro que, lendo o que ele escreveu, percebo que faz sentido. E está bem escrito e é inteligente o que ele diz. Mas acrescenta o quê à compreensão do poema? A intenção é que, quem o não tinha percebido, lendo a explicação, o releia com outra atenção e o compreenda melhor? Se calhar é. Quando tive aulas de língua Portuguesa no liceu fazíamos este tipo de exercícios. Tanta gente se entrega a isto que com certeza faz sentido. Eu é que sou atípica ou rústica (e não estou a  ironizar). Eu leio o poema sobre o qual o JCM se debruçou e a única coisa que me ocorre é que gostava que o meu amor o decorasse e mo dissesse num sussurro ao ouvido. Em francês de preferência. Mais do que isto não sei dizer sobre "Le Toucher".




Já no outro dia o JCM tinha falado sobre a análise poética e trocámos impressões sobre o tema. 

Para mim, ler aqueles exercícios de análise é como se eu, gostando de uma flor - e tanto que eu gosto de flores - em vez de me limitar a vê-las, tocar-lhes, cheirá-las, fotografá-las, pintá-las, me pusesse a ver compêndios de botânica, a estudar a respectiva taxonomia, a ver se o rebordo da folha é assim ou assado, se a superfície da folha é assim ou assado, etc. Devo dizer que tenho livros desses: por gostar muito de flores, pensei que, estudando-as, as apreciaria melhor. Errado. Não apenas não tenho paciência para isso como não percebo qual a utilidade prática para mim que sou amante em estado bruto. A beleza para mim tem que vir nua, em estado primitivo, sem taxonomias, gramáticas, burocracias.



Paul Klee


Já aqui uma vez o fiz e é exercício que gosto de fazer: um cadavre exquis poético. Ou seja, pegar em bocados de outros poemas e ir juntando peças até que soem como um poema. O resultado pode parecer um poema que nasceu pelas vias normais mas eu sei que nasceu de um exercício de assemblage, que é um patchwork, um ser fabricado.

Mas vamos supor que eu não explicava isso. E vamos supor que, por algum estranho acaso, algum estudioso resolvia analisá-lo. Poderia resultar um exercício muito racional. Mas faria sentido atribuir significados a coisas que resultaram de puro corte e costura?

Não sei. 

Agora que falei nisto, vou fazer outro cadavre exquis. Vejamos o que vai sair.




                                                    Olho. 
                                                    Um mecanismo de seda
                                                    de gaivotas traídas pelo fogo da tarde
                                                    rasga o horizonte 

                                                    São as horas solitárias em que a noite nasce,
                                                    traça um rumor de alfazema sobre a terra

                                                    A noite desceu pelo rio da saudade. 
                                                      
                                                    Sentemo-nos no silêncio desta hora.
                                                    Ergue-se flamejante
                                                    a sombria sombra da minha sombra. 
                                                    a sombra da minha sombra ao partir.

                                                    E deixo fermentar as imagens
                                                    que trago no fundo do corpo.
                                                    São restos do mundo que amei,
                                                    os montes, a luz verde da salvação.


Gosto de fazer isto.

Todos os versos foram retirados dos vários poemas do JCM publicados durante este mês de Agosto no Kyrie Eleison. O que é que eu quis dizer com este poema? Nada. Não escrevi por mim uma única palavra. E, no entanto, agora que o leio, parece fazer sentido e parece ser algo que eu, um dia, poderia ter dito ou vir ainda a dizer. Vá lá alguém explicar isto.




***

Uma vez mais que me desculpem os linguistas, os estudiosos apaixonados pela língua, os amantes de literatura, os investigadores. Sabem o que fazem. Eu se calhar não. Mas é que eu acho mesmo que da poesia ou se gosta ou não - e a única coisa a fazer em relação a isso é ler. Ou ouvir ler. Ou esperar que a vida nos traga a maturidade ou a leveza para que saibamos gostar. Pode ser um ano, uma vida. Ou um dia. E por vezes, ah por vezes, num segundo se evolam tantos anos.




E por vezes, David Mourão-Ferreira


***

É tarde e daqui a pouco estou a caminho. Tenho que me ir deitar e, por isso, não vou reler. Espero que não existam erros graves, coisas sem sentido, porque não vou poder corrigir. E mal chegue a casa, ao fim do dia, tenho baby sitting. Por isso, vou fazer figas para isto não estar tudo baratinado, tal o sono que tenho em cima de mim e dado que não vou poder atender a SOS's que me avisem de enganos.

Relembro: as coordenadas para o novo blogue do Papa Pedro Mexia estão no post seguinte.

***

E nada mais senão pedir-vos desculpa, uma vez mais, pelos meus excessos: se isto é tamanho que se apresente na internet, senhores...? 

E, sobretudo, resta-me desejar-vos uma belíssima sexta-feira!


terça-feira, agosto 20, 2013

Se o expressionista Munch a tivesse conhecido, que quadro pintaria?, pergunta-me jrd. Vou jogar os búzios, socorro-me de Erik Satie, de uns quantos poetas, faço um cadavre exquis e depois interpreto o que os búzios me dizem. A resposta está mais abaixo. Faz sentido?



Se o expressionista Munch a tivesse conhecido, que quadro pintaria?, pergunta-me jrd.


Impossível saber. Mas posso deixar-me ir, numa deriva, e ver se obtenho uma resposta que faça sentido (embora ao lado). 

Vou fazer como se deitasse os búzios, parece-me uma boa opção.

Vou buscar Satie (cuja subtileza, aqui, corre em cima das mulheres de Modigliani - mas não é Amedeo nem a sua Jeanne que hoje são para aqui chamados), vou pegar nuns quantos livros de poesia, ao acaso, perfeitamente ao acaso, vou abrir cada livro também ao acaso, vou transcrever um verso de cada, aqueles que vierem ao chamamento de Satie, e depois logo vejo se adivinho que quadro é que Munch pintaria para ilustrar a mulher que teria escrito o poema obtido através de Satie e do cadavre exquis que daqui nascer.



Música, por favor



Erik Satie, Gnossienne nº 2 - interpretação de Reinbert De Leeuw

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                                              Não quero mais mundo senão a memória trémula       1
                                              Partes, o céu demora-se
                                              a entardecer e a lassidão flutua      
                                              como as volutas do incenso a arder         2
                                              Ninguém nos vem em socorro
                                              ninguém nos liberta os braços        3
                                              Ah o terrível, o trémulo que tão fácil dissipa o universo inteiro      4
                                              Quem sofre está sempre em situação de
                                              espera        5
                                              A terra é absorvida pelos poros
                                              da alma         6  
                                              É verdade que quando eu contigo
                                              me inclinava o mundo por instantes
                                              recuava.      7
                                              Se tudo é pureza apaixonada,
                                              direi somente que és tu o meu retrato         8
                                              Oh, a absurda melancolia do teu olhar         9


Então, agora que lancei os búzios, como é que Munch pintaria a mulher que teria escrito este novo poema ao som de Satie?

Reparo que o resultado foi nostálgico, melancólico. Face a isso, eu diria que Munch pintaria a mulher que, a existir, teria escrito o que acima se pôde ler, como pintou Inger numa outra noite de verão, uma mulher que, em tudo, até fisicamente, parece ser o meu oposto. 



Edvard Munch, Summer Night – Inger on the Beach, 1889

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No cadavre exquis cada verso assinalado foi retirado de:


  • 1 - Herberto Helder, Servidões, pag. 82
  • 2 - Soledade Santos, Sob os teus pés a terra, Poema 'Azul da quase noite', pag.58
  • 3 - David Mourão-Ferreira, A arte de amar, poema 'Romance de Pompeia', pag. 205
  • 4 - Herberto Helder, As magias, tradução do poema 'Iniji' de Henri Michaux, pag, 24
  • 5 - João Miguel Fernandes Jorge, Oferenda, poema XXVII, pag.67
  • 6 - Armando Silva Carvalho, Canis Dei, poema da pag. 29
  • 7 - Margarida Vale de Gato, Mulher ao mar, poema 'Feiticismo', pag. 34
  • 8 - Ricardo Gil Soeiro, Espera vigilante, poema III, pag.18
  • 9 - Manuel Gusmão, Pequeno tratado das figuras, poema #18, pag.97



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(A ver se ainda cá volto.)