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segunda-feira, novembro 07, 2022

Luzinhas, ternurinhas, caderninhos, coisinhas de casa.
E, a seguir, big little lies

 



Ontem deu-me para beber à noite um chá de uma misturada qualquer que para ali tenho e de cuja marca ou composição agora não me lembro. Tem um sabor bom, exótico. Só que me tirou o sono e, claro, também tive que me levantar duas vezes para ir à casa de banho. É que, ainda por cima, quando bebo chá, como gosto muito, bebo canecas cheias e, portanto, já estão a ver. 

Acho que só adormeci já perto de amanhecer. Portanto, desforrei-me e deixei-me ficar a dormir até mais tarde. Acordei com o urso cabeludo a dar-me beijinhos na mão. Tenho impressão que, quando durmo até mais tarde, pelo sim, pelo não, ele gosta de conferir se estou viva. Mal acordo, fica descansado e pára com as lambidelas. O meu marido já estava levantado certamente há séculos e devia andar nas dele, tendo deixado a porta do quarto aberta. 

O nosso dia foi calmíssimo. Longa e boa caminhada antes de almoço. Almocinho bom, simples.

Depois de almoço, estive a ver o Little big lies. O meu filho tinha-me aconselhado mas eu andava na Netflix, numa de The good doctor. Mas agora voltei à HBO e, de facto, é uma série tramada. Faz-me lembrar um bocado a onda do Twin Peaks. Para os mais novos, o Twin Peaks pouco ou nada deve dizer mas, na altura, deu que falar. Num lugar pacífico, tranquilíssimo, bucólico, onde nada acontecia e onde todos eram amigos, após a descoberta do corpo de Laura Palmer, aos poucos vai-se percebendo que, sob a fina capa das aparências, a inquietação vivia latente, sempre pronta a manifestar-se. A música era parte do ambiente de suspense, as cores e o excelente trabalho de David Lynch faziam o resto.

O Big little lies é um pouco assim. Num lugar de famílias ricas, casas fantásticas à beira mar, onde a escola e as actividades a ela associadas são um importante elo de ligação entre as famílias, aos poucos vamos descobrindo que sob a pele das mulheres elegantes e sorridentes e sob a pele dos respectivos maridos há mais do que o que aparece à superfície. A inquietação é crescente. Não há grandes acontecimentos, apenas pequenas mentiras, uma ou outra omissão, insignificantes encobrimentos. E o enredo vai avançando sobre essa mistura de acasos e opções que, na vida real, também desenha os destinos da gente. 

A banda sonora também é qualquer coisa. A música lá em cima, The wonder of you, faz parte do episódio em que há uma festa temática, eles de Elvis, elas de Audrey Hepburn, e em que o Ed, o marido de Madeline (fantástica Reese Witherspoon), protagoniza um momento em que se sente, quase fisicamente, que a desgraça está para acontecer. 

Há um crime, sabemos desde o início, mas não sabemos bem quem morreu. Mas vamos percebendo que qualquer um pode vir a ter um fim triste e que qualquer um pode ter estado envolvido no homicídio.

E há, a par disso, o extraordinário elenco de actores, nomeadamente de actrizes. Excelentes desempenhos. Citei Reese Witherspoon mas são todos incríveis.

[A grande arte da representação vai-se desviando do grande ecrã para o streaming. A evolução acontece muitas vezes (ou quase sempre) de forma inesperada, disruptiva.]

A seguir chegou parte da tribo. Chegam ruidosamente. Tocam à campainha mas os meninos fazem-se logo ouvir e a ferinha cabeluda salta de alegria e abala a correr para ir fazer-lhes a festa ao portão, saltos no ar, abracinhos, beijinhos. E eu vou atrás e só por decoro não me manifesto com idêntica exuberância.

Ontem tínhamos estado com a outra parte da tribo. Entre jogos de futebol, dois num clube, outro noutro, estudo para testes já para quatro deles, festas de anos, e, para ajudar à festa, as viroses que apanham nas escolas, nem sempre conseguimos fazer o pleno. 

Claro que, em especial os miúdos, preferem quando estão juntos. Mas é sempre bom, sempre.

Hoje, enquanto uns jogavam futebol, a minha menina quis vir ver onde estavam as bolas grandes de Natal. Não me lembrava, pensava que estavam nos baús que estão numa arrecadação que temos num compartimento do sótão. Mas não, devem estar nos baús que estão na garagem. Mas ela não se desmoralizou. Nessa arrecadação há uma zona que, nos tempos dos anteriores proprietários, era usada como a sua biblioteca particular. O senhor levou os livros, claro, mas deixou ficar todas as estantes pois tinham sido montadas à medida. É aí que arrumo todas as carteiras, malas, malinhas e malões, sacos, mochilas, necessaires. Uma maravilha para mim que sempre tinha desejado tê-las bem arrumadas, tudo bem à vista e bem organizado. E uma tentação para ela. Resolveu pôr-se a abrir as mais pequeninas, as que eu usava em casamentos, cocktails, alguns eventos que requeriam coisa mais artilhada. A ideia, disse-me ela, era ver se descobria alguma coisa imprevista. Diz que gosta sempre de ver pois descobre sempre qualquer coisa. Descobriu moedas, papelinhos e descobriu um caderninho muito bonito que, em tempos, pensei usar como diário. Foi nos tempos pré-blog. Subtraí-lho pois não sei o que para lá estará. Por vezes tenho pensamentos impróprios para consumo. Mas prometi-lhe que vou reler e, se for, coisa capaz, a deixo ler. De resto, do que rapidamente folheei, parece que não deve ser mais do que meia dúzia de folhas escritas. Deve ter acontecido o mesmo de sempre: tudo o que entra nas minhas carteiras parece que se perde para todo o sempre. Mudo de malinha e lá ficam as coisas. Se volto a usar ou mudo o que lá está dentro para qualquer outra ou deixo ficar mas parece que o conteúdo se funde entre si. Por isso, fiquei tão surpreendida como ela quando ele lindo caderninho saiu à cena.

Entretanto, no outro dia comprei no supermercado uma grinalda de luzinhas pequeninas, que funciona a pilhas, e que na embalagem a mostrava dentro de uma taça de vidro. Hoje coloquei-a dentro de um copo grande e coloquei-o na mesa cá de fora. A minha menina deve ter achado que estava a modos que um bocado pobrezinho e foi lá dentro buscar uma espécie de taça baixa em aço brilhante e, então, em cima o dito copo. Ficou melhor, as luzinhas reflectiam-se na taça. Bonito. As luzinhas assim fazem sempre um ambiente acolhedor.

Para o lanche quiseram, e assim foi feito, sandes em pão de rio maior, quentinho, com tomate, queijo de cabra, brie e um fio de azeite. Em duas das sandes, também orégãos. Depois, para quem quis, diospiro às rodelas polvilhadas com canela e regadas com um fio de mel.


E, agora, ao chegar aqui, liguei-me no Youtube e ele, sabendo que sou dada a casas, a ambientes de aconchego e de afecto, apresentou-me o vídeo abaixo, muito bonito, com várias belas peças de artesanato, daquelas que me dão vontade de me atirar à obra.

Inside This Curator’s Bohemian L.A. Home Filled with Handcrafted Objects | Vogue

Step inside gallerist Alex Tieghi-Walker's avant-garde Los Angeles home in Vogue’s latest “Objects of Affection” video. As Alex walks around his property filled with handmade, one-of-a-kind objects, he regals us with the unique tales that make up the essence of these wonderful pieces. Watch as Alex discuses everything from his eye-popping ceramic cabinet to a handwoven Argentinian mountain hat that will forever reside in his bedroom.


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As imagens mostram partes das belas tapeçarias do criador Bernat Klein, um pintor e designer têxtil sérvio

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Desejo-vos uma boa semana a começar já por esta segunda-feira
Saúde. Aconchego. Paz.

quarta-feira, agosto 03, 2022

Os mais qualquer coisa de entre os bloggers que sigo (Parte 2):
o mais cirúrgico e o mais inesperado.

 

No seguimento do post de ontem no qual festejei o blogger mais jovem, a mais criativa e o mais romântico, seguem-se hoje outros que se destacam.


O mais cirúrgico. Um dos mais oportunos, mais precisos e mais contundentes nas análises ou denúncias que faz. Não vai em cantigas, mantém-se fiel aos seus princípios e, por mais canelada que leve, não desarma nem baixa os braços. E não manda dizer por ninguém, não rodeia, não usa meias palavras. E como escreve bem... Para além do dia a dia há a série Revolution through evolution -- as recomendações ao início da semana, cada uma mais relevante ou curiosa que a outra. E depois há a turminha do desacato que atrai e que, à porta do blog, nos comentários, arma sempre uma divertida baderna. Esmeram-se nos nomes que inventam e batem-se taco a taco com os nomes que já fazem parte da mobília. Se fosse um bar, seria daqueles em que, a par de uma boa tertúlia, frequentemente acabam todos à batatada (para no dia seguinte lá estarem, de novo, todo caídos).

Valupi do Aspirina B

Alguns exemplos:

Ao assistir à entrevista a Luís Montenegro, dei por mim a concordar com o que sempre achei dele: eis aqui um tipo simpático, bonacheirão, com quem deve ser impecável estar na comezaina e na copofonia. E deste assentimento confirmado saltei para um estado de empatia. Sentia que conseguia sentir o que ele sentia acerca de si próprio ao ser apertado pelo excelente Paulo Magalhães. Foi assim que fiquei a saber, graças à magia da empatia, que o Montenegro sabe que mesmo nos seus melhores dias não passa de um político inane, merdolas.

O futuro da direita não decadente precisa da lhaneza e virtude de Moreira da Silva ou similares. Isto para começo da conversa.

in Empatia para Montenegro

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Quem ler mais esta ladainha contra as democracias liberais – Estamos a matar a democracia? – facilmente conclui que o putinismo da Soeiro Pereira Gomes é a consequência de já não se ouvirem os amanhãs que cantam. Passam agora os dias a olhar para o abismo, com as consequências que o outro há muito descreveu.

in Tadeuismo

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«Quando eu ponderar uma vida no crime, a primeira coisa que eu vou fazer é construir um altar todo em talha dourada em honra de Ivo Rosa lá em casa e rezar-lhe uma oração todas as noites.»

Araújo das piadolas

Existe uma campanha contra Ivo Rosa, a qual une a direita política e mediática num coro de perseguição obsessiva como nunca se viu igual a respeito de um juiz em Portugal – só comparável à perseguição a Sócrates. Tal deve-se à Operação Marquês, tendo começado logo que Carlos Alexandre ficou em risco de perder o controlo absoluto sobre o seu desfecho. É uma campanha que não aflige os partidos da esquerda pura e verdadeira, nem o PS, nem o ministério da Justiça, nem o sindicato dos juízes, nem o Presidente da República, nem a minha vizinha do 4º andar. Trata-se de uma campanha alegre, portanto, e que continua porque todo o dano que se lhe conseguir fazer promete trazer ganhos para o dano maior que se deseja venha a atingir Sócrates (logo, a também atingir o PS, embora o PS de Costa conviva muito bem com essa armadilha onde os direitolas estão enfiados a ver a caravana do poder a passar).

O Sr. Araújo e coleguinhas televisivos pagos pelo Balsemão são três dos mais influentes carrascos de Ivo Rosa na comunicação social “de referência”. Fazem-no a coberto do registo “humorista”, para que o cinismo e a sonsaria atinjam o grau máximo de veneno no espaço público. Na citação acima, este “comediante” recorre ao sensacionalismo para broncos e trata literalmente Ivo Rosa como cúmplice de criminosos. Só rir, né? O Estado de direito e as legítimas diferenças na interpretação e aplicação da Lei que se fodam, viva o culto dos justiceiros que despacham a bandidagem com cordame e autos-de-fé.

Um estudo da Marktest analisou 60 e tal figuras públicas e descobriu que Ricardo Araújo Pereira é a personalidade com quem os portugueses sentem mais empatia. Ocasião para recomendar a leitura do Against Empathy, onde a tese é precisamente a de que a empatia pode boicotar, e mesmo anular, a deontologia e a ética – ou seja, a empatia pode servir para as maiores canalhices. É o caso com esta pulharia paga a peso de ouro, as vedetas da indústria da calúnia.

in Against empatas 

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O mais inesperado. Inconstante. Incerto. Indescritível. Intuitivo. Insólito. Nem sei bem dizer porque lhe acho a graça que acho. Mas acho. Apesar de uma certa maluqueira, encontro ali opções estéticas que me agradam e um certo gosto pela provocação que também me agrada. Talvez seja um dos bad boys da blogosfera. É pena que seja tão maçadoramente bissexto e é pena que não se esforce mais. Não fora isso e habituar-me-ia ao seu encanto. Assim, apenas está quase lá...

O anão gigante

in Sharing is caring

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Paul Outerbridge
André Kertész

in Projecto Díptico vertical #283

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todos os instantes de

infalibilidade e glória

em que estive 

certo, axiomático, infalível, convicto,

por conhecimento ou instinto,

com e/ou sem argumentos,

vencendo adversários, contendas e litígios,

trocaria por este

em que a verdade é minha

e tudo o que quero 

é estar 

errado


in Summa cum laude 

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The Sisters of Mercy, Henriette Browne
Word of the Day por Bella Tokaeva

Empalidece a arte ao encarar o fruto da natureza.

Summa Theologica, S. Tomás de Aquino c.1272

 in  Ars autem deficit ab operatione naturae

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Amanhã tentarei continuar. Tenho ainda que falar do melhor mestre relojoeiro que, afinal, é um disfarce pois a verdade, verdadinha, é que poderia fazer parte da mesma tropa de choque a que também pertence o sniper mais certeiro da blogosfera. Ou do historiador mais lhano e objectivo cujos textos gosto de ler em voz alta para o meu marido. E de outros. Ou outras.

Contudo, o tema dos novos precários também está a pedir para eu o agarrar. O mundo mudou e a precariedade assume novos contornos e toca os mais insuspeitos. Noutros casos, são os precários que não querem deixar de ser precários. De uma forma ou de outra somos todos descartáveis e é bom que o assumamos com humildade. Mas é um tema caleidoscópico. Apenas a malta mais obtusa o vê como um tema linear suceptível de ser resumido num slogan que seja martelado em manifs de aspecto vintage.

No entanto, para falar disto terei que ter disposição para falar um bocado a sério e não sei se tenho paciência ou se aí desse lado há quem, a meio da silly season, tenha pachorra para uma conversa desse tipo.

Amanhã logo vejo.

Pormenor de Apocalypse Tapestry, Angers, França

Como la cigarra (Jaroussky/Andueza/Pluhar)

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Um dia bom

Saúde. Boa disposição. Paz.