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terça-feira, março 06, 2012

Uma mulher livre e inconformada, Hélia Correia, com A Terceira Miséria e com Abril (texto inserido no livro Mulher ao Mar de outra mulher livre, Margarida Vale de Gato). O prazer das palavras não acomodadas. (E, por 'não acomodadas', Mísia canta Senhora da Noite, poema também de Hélia Correia)

   
Já por três ou quatro vezes me cruzo com Hélia Correia. Ainda há dias almocei no mesmo restaurante que ela. Nessas alturas esforço-me para não ficar, feita saloia, a olhar, como os pacóvios olham as pessoas conhecidas.

Mas há nela qualquer coisa de avezinha pouco habituada a andar com os pés na terra, parece vogar, parece-me um pouco perdida (mas há um ser protector que a guia) - e fascina-me ver seres assim, meio gente, meio pássaro, especialmente quando sei que deles nascem palavras livres.

Hélia Correia tem (ou faz este ano) 63 anos e ao olhá-la parece-me ter ainda muito de menina, parece que fala a rir, nasceu em Lisboa, licenciou-se em Filologia Românica, foi professora, é poetisa, dramaturga, tradutora, ficcionista.



Tenho aqui comigo, acabado de sair em Fevereiro, 'A terceira miséria', livro de poesia da Relógio d'Água, grande livro.

Este é o primeiro poema:

                                Para quê, perguntou ele, para que servem
                                os poetas em tempo de indigência?
                                Dois séculos corridos sobre a hora
                                em que foi escrita esta meia linha,
                                não a hora do anjo, não: a hora
                                em que o luar, no monte emudecido,
                                fulgurou tão desesperadamente
                                que uma antiga substância, essa beleza
                                que podia tocar-se num recesso
                                da poeirenta estrada, no terror
                                das cadelas nocturnas, na contínua
                                perturbação, morada de alegria;

e eu leio e fico agarrada a estas palavras que me fazem lembrar Maria Gabriela Llansol ou Herberto, gente com o seu quê de rústico, gente cujas mãos que escrevem nascem das vísceras, ou cujas palavras nascem do ventre, não sei explicar bem. 

E penso naquela mulher de andar vacilante, por vezes de chapéu, mala às costas como uma mochilinha, olhar e andar de pássaro. Às escondidas espreito-a e fico admirada de a ver sentada a uma mesa de restaurante. Mais facilmente a veria numa árvore, olhando o céu.


Hoje no Ginjal e Lisboa escolhi um algo estranho poema de Margarida Vale de Gato, o Mulher ao Mar (e, quem me lê, sabe o que eu aprecio coisas estranhas), sobre o qual, depois escrevi um texto que me deu muito prazer escrever. Gostava que lá fossem espreitar.

Mas foi ao transcrever o poema Mulher ao Mar que reparei que este livro, que também se chama Mulher ao Mar, um livro tocante como costumam ser os livros estranhos, também da Editora Mariposa Azual, contém, no final, um texto de Hélia Correia. Um texto magnífico, devo dizê-lo.

Se me permitem, vou transcrever uma parte e vou já avisando que os espíritos mais sensíveis devem precaver-se - é uma mulher livre que vai falar:



Surpreendentemente, o lugar em que o novo deveria encontrar um espaço propício para se impor foi ocupado, com grande alvoroço, pelo velho. Onde julgámos que podia haver sustentabilidade para o confronto, achamos uma artrose. Onde o suposto autor dispôs de um campo de edição infinito, desperdiçou-o para repetir, para imitar modelos falecidos. Assistimos, nos blogues, à subserviência, à poesia em vestidinhos de cambraia - a que os mais habilidosos põem rima, os menos põem uma prosa adolescente cortada aos bocadinhos, para fingir. Há evidentemente subversão na internet, uma gloriosa reescrita colectiva. Mas o assunto puramente criativo do indivíduo nem sequer estrebucha. Está deitado sobre a esterilidade realista e o fanado lirismo de janela. Pois tudo continua a ser a gasta, a vulgar linguagem. E os autores continuam a ser bem comportados e repetitivos, confundindo o seu pântano com o mar. Largaram o caderno e imaginam que assim se modernizam. Reproduzem, afinal, os encontros para o chá.  (...)

O arcaico é intrinsecamente feminino. Tem essa força, essa multiplicidade de seios de grande deusa, a mãe mediterrânica, a mulher venerada, a matriarca. E a força do novo deve muito ao que ainda nos vem do subterrâneo, da humidade e da escuridão, daquilo que é redondo e que se deita. Não admira que em certas formas de vanguarda das artes haja mulheres, ainda quando tudo as empurra para trás. Que levem o quotidiano para o poema, que lhe intercalem certos palavrões. Ou que sejam abstractas na pintura. Isso não é, porém, o novo. É um atrevimento grupal, enquanto o novo é sempre singular.  (...)

Na escrita, o novo pega na massa poética, assegurando que os ingredientes são os mesmos de sempre - a palavra, a prosódia, a rima, o lírico, a evocação e a invocação. Não pretende dar origem ao irreconhecível mas ao reconhecível que se estranha, à familiaridade estilhaçada. É a infiltração de uma desordem, de um descaramento. (...)

Apraz-me muito regressar, num texto novo, à palavra ainda não utilitária, ainda não serva, ainda não feita para passar mensagens. A uma palavra física, temível, que às vezes se atirava para matar. Nós já não praguejamos, já não tememos o malefício da palavra; vivemos, pois, imensamente aborrecidos. (...)


Grande texto. Dois livros cuja leitura me permito, pois, recomendar-vos.

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Aproveito para vos mostrar Hélia Correia falando do livro da sua vida, O Monte dos Vendavais de Emily Brontë. Interessante a forma estruturada e inteligente, muito apelativa, como ela apresenta o livro.



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E, para concluir, a Mísia cantando Senhora da Noite, um poema de Hélia Correia.



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Acabo com o último poema do novíssimo A Terceira Miséria


                                              De que armas disporemos, senão destas
                                              que estão dentro do corpo: o pensamento,
                                              a ideia de polis, resgatada
                                              de um grande abuso, uma noção de casa
                                              e de hospitalidade e de barulho
                                              atrás do qual vem o poema, atrás
                                              do qual virá a colecção dos feitos
                                              e defeitos humanos, um início.


(E não vos conto sobre o tema do livro para não estragar o efeito. Digo-vos apenas que é muito actual e que lê-lo é um enorme prazer. Abençoados os poetas.)

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Vamo-nos, pois, preparando para o início que um dia destes despontará por aí.

Até lá, meus Caros, desejo-vos uma boa terça feira.