Mostrar mensagens com a etiqueta privacidade. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta privacidade. Mostrar todas as mensagens

domingo, outubro 10, 2021

E que tal deixar de alimentar o monstro?
[Conhece bem todos os riscos que corre ao usar o Facebook ou o Instagram?]

 



Quem por aqui me acompanha sabe que não estou no Facebook ou Instagram (que são basicamente a mesma coisa embora com aparência distinta). Desde o primeiro momento, achei que o modelo de negócio é escuso, enganador, perigoso. Aplica-se na íntegra aquilo de que quando não percebes qual o modelo de negócio é porque o negócio és tu.

Poderia dissertar aqui sobre o perigo que é haver milhões e milhões de pessoas a alimentar aquele imenso reservatório e processador de informação com os seus dados pessoais, as suas fotografias, as suas preferências, os seus contactos mas, afinal, já quantas vezes o fiz antes...? É que o grave não é apenas isso, o mais grave é que é possível cartografar e indexar toda a informação. É possível saber por rua, por bairro, por cidade, por pais, de que gostam e desgostam as pessoas. É possível dar uma volta ao cubo e saber a mesma coisa mas agora por profissão. Ou por empregador. Ou por estado civil. Ou por faixa etária. Ou pelo que se quiser. É possível mapear cada pessoa e os seus contactos e os contactos dos seus contactos e por aí fora, percebendo até onde pode chegar uma informação que cada um, na sua inocência, julga que trocou de forma privada. Esquece-se que essa pessoa pode partilhá-la, privada e secretamente, com outra e assim sucessivamente. As pessoas não percebem (ou não querem perceber) que plataformas assim são uma guloseima para quem queira prejudicar, manipular, chantagear ou ameaçar alguém. 

Na melhor das hipóteses são o terreno fértil onde a publicidade pode ser plantada. Ou a falsa informação.


Uma geração que mal lê e que se alimenta de notícias truncadas, mal processadas, mal digeridas, falseadas, uma geração que se alimenta de casos e, a partir de casos individuais, constrói teorias, é uma geração que desperdiça parte da sua vida alimentando um mega-monstro, enquanto distorce a sua personalidade. Ocupadas a ver as fotografias dos outros ou as partilhas das partilhas das partilhas,, as pessoas abdicam de se informar correctamente, abdicam de se cultivar, abdicam de pensar genuinamente nos outros, entretidas que estão a autofotografar-se ou a fazer reportagem das suas irrelevantes acções. Tornam-se frívolas, autocentradas.


Tem coisas boas? Claro que terá. A informação pode circular livremente e, quando é boa informação, claro que isso é bom.

Mas sendo uma ultra poderosa, ultra ubíqua, ultra ramificada e totalmente desregulada rede com milhões de pontos de acesso é um perigo que não será possível de controlar.

Começam a aparecer denúncias e, a mais alto nível, começam a surgir preocupações. Mas vêm tarde. O gigante já colocou as patas em tudo o que era sítio e, em todo o sítio, é diligentemente alimentado pelos seus fiéis seguidores.

Por razões que não alcanço, as pessoas parece que sentem necessidade de mostrar à sua rede de 'amigos' todos os sítios por onde andam como se a sua existência dependesse de os outros saberem disso ou, talvez, dos gostos e corações que os outros lá deixam. As pessoas parece que se tornaram como o cão de pavlov, colocando fotos e esperando a recompensa de um smile ou de um coração como se fosse uma guloseima. Não percebem que estão, simplesmente, a alimentar o monstro. E não percebem que o grupo de amigos se está nas tintas para o que lá põem, a não ser no que se refere à bisbilhotice que é também fomentada e diligentemente alimentada, mostrando aos outros onde se foi, com quem se foi, como se estava vestida ou penteada. Futilidades. 


E, nessa ânsia de mostrar aos outros as mais completas irrelevâncias, esquecem-se que estão apenas a fornecer elementos úteis para o funcionamento da máquina amoral que é o Facebook e o Instagram.

Quando vejo que algumas empresas assentam a sua publicidade e, por vezes, até o seu negócio em plataformas como estas penso que não devem estar cientes que aquilo pode deixar de funcionar, que tudo o que lá põem pode ser perdido ou mal usado e que depois, se se quiserem queixar, podem muito bem ficar a chuchar no dedo.

Poderão dizer que também escrevo no blog. É verdade. Mas o modo de funcionamento da plataforma do blog nada tem a ver com a da plataforma do Facebook ou Instagram. E não coloco os meus dados pessoais, não tenho redes de 'amigos', não há partilha em modo de grafo (como nas redes sociais), não sou campo em que o blog possa plantar publicidade. E ainda assim, apesar de não haver comparação possível, sei os riscos que corro.

Seria bom que os matemáticos, na Academia, desenvolvessem modelos que demonstrassem ao público, em especial aos que pensam que só estão a partilhar informação pessoal com os sues 'amigos', a total devassa que são estas redes. Seria ainda interessante que demonstrassem, com situações facilmente compreensíveis, o poder arrasador e descontrolável que plataformas como o Facebook ou o Instagram podem ter na propagação de notícias falsas, notícias que espalhem o pânico, o ódio, a desinformação em geral.

Quem pense que estou paranoica lembre-se de como a campanha (bem sucedida) do Brexit foi conduzida com recurso a marketing político dirigido com base em informações 'sacadas' ao Facebook. A população, grande parte dela totalmente ignorante das consequências do Brexit, foi conduzida a votar sim à saída da União Europeia. Deverão estar lembrados que no dia seguinte ao voto favorável à saída, o google foi bombardeado por parte dos britânicos com a  pergunta: O que é o Brexit?

Qualquer matemático que goste de modelos fica a salivar perante o manancial de possibilidades que os dados e metadados residentes nessas plataformas podem proporcionar. Digo-vos: poderá fazer-se o que se quiser. Nas mãos de gente doida ou mal intencionada, aquilo serve para o que se quiser.

Uma vez que a regulação já não é possível, só há uma maneira de se vencer a besta antes que a besta nos vença a nós: deixar de a alimentar.


Tal como a Greta Thunberg teve o mérito de pegar na bandeira da causa das alterações climáticas, seria bom que emergissem figuras que soubessem erguer também bem alto a bandeira do fim das redes sociais tais como hoje as conhecemos. 






___________________________________________

Desejo-vos um bom dia de domingo

terça-feira, maio 11, 2021

Quando a invasão de privacidade nos surge pelas nossas próprias mãos

 


O meu telemóvel novo agora sugere-me que passe  colocar despertador para não me esquecer da hora de ir para a cama. Sugere-me, até, qual a melhor hora para me deitar e levantar. Vejo isto e sinto-me invadida. A moral e os bons costumes agora aparecem pela 'boca' de um aparelho que, em tempos, apenas servia para fazer telefonemas.

Acho isto de um quase ridículo. Mas o quase aqui faz toda a diferença. É que é um quase em evolução. E, pior, não é apenas quase ridículo: é quase absurdo, é quase assustador. Talvez dentro de algum tempo tenhamos que deixar cair os quases. O quase está a tender para totalmente.

A minha conta de mail recebe um mail da aplicação a sugerir-me formas de ser mais eficiente. Diz-me o tempo que passei a ler e a escrever mails, contabiliza o tempo de reuniões, faz-me sugestões. Claro que já nem abro esses mails. Dentro de algum tempo, talvez me impeça de fazer o que quero.

Vou marcar uma reunião, pergunta-me se não quero acabar quinze minutos antes para não ter reuniões contíguas. Estou na reunião, aparece-me uma mensagem a avisar-me que faltam cinco minutos para acabar. Estou cada vez mais controlada. É para me ajudar. Dir-me-ão que é para isso, para me alertar. 

Mas eu pedi alguma ajuda? 

Recebo uma chamada e, ao atender, recebo um aviso de que, se não der acesso às minhas fotografias e mais não sei o quê, não poderei atendê-la. Não dou. Portanto, não posso atender. Perco a chamada. Tenho eu que fazê-la por outra via. Como se meteu outra coisa, não a fiz. À noite recebi uma chamada: eu não tinha ajudado quem precisava de ajuda. E tudo porque não quis que a aplicação tivesse acesso às minhas fotografias e mais não sei o quê.

E já não recebo mensagens da aplicação dos passos, quando estou a dormir, a dizer que está na hora de começar a andar porque lhe bloqueei as notificações. 

Mas há pouco, ao ir ver quantos passos tinha feito, apareceu-me um anúncio a ver se queria instalar outra app. Não quis. Mas não consegui sair dali. Desliguei tudo. Que se marimbem. Estou farta destes abusos.

Tenho andado a ver cómodas claras. Comecei por ver como se pintam e depois andei à procura delas à venda. Para conseguir ver, ou aceitava os cookies ou tinha que ler trapalhadas para as quais não tive pachorra. Aceitei tudo. Mea culpa. Agora, esteja a ler o que for, seja onde for, a que hora for, aparecem-me cómodas de todas as cores. Sou bombardeada com cómodas. 

Tem graça? 

Por acaso, acho que não. Pode parecer inócuo. E, se calhar, é. Ainda é.

Até ao dia em que nos sentirmos severamente manipulados, invadidos, incapazes de resistir. Até ao dia em que, se não capitularmos, nos veremos impedidos de comunicar, definitivamente reféns.

E assim, aos poucos, os algoritmos e a inteligência artificial e todos essas cenas de machine learning vão tomando conta de nós.

Bem sei que fazem muita coisa boa mas a forma desregulada como tudo vai avançando só pode significar que há riscos enormes que estão a ser subestimados.

É o modelo de negócio destas plataformas, destas apps, destas coisas todas. Bem sei que sim. Mas sei também que é a invasão consentida.

Não nos podemos queixar: somos nós que aceitamos tudo. É bem verdade: o nosso mundo é cada vez mais o nosso telemóvel ou o nosso tablet ou pc. O nosso pequeno mundo. Um pequeno mundo que, aos poucos, vai cerceando cada vez mais a nossa pequena liberdade.


____________________________________

Pinturas de Wiliam Blake ao som de Tom Waits em "Strange Weather"

_____________________________________

Uma boa terça-feira