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domingo, fevereiro 15, 2026

No rescaldo do dia de S. Valentim, uma bela história de amor

 

Ontem, um dos comentários ao texto que eu tinha escrito tocou-me particularmente. Não sei se foi o inesperado da história pessoal contada pelo Daniel, se foi a forma como escreve. Aliás, desde que conheço o seu blog, A minha Honda, que o acompanho e me encanto com a singeleza dos temas, com a limpidez das observações, com a franqueza que transparece das suas palavras. 

Por isso, ao ler o que escreveu, achei que a 'história' deveria merecer o destaque da página principal. Com a sua devida autorização aqui está, com os meus agradecimentos e votos de uma vida feliz, vivida em harmonia, leveza, cumplicidade, compreensão e muito afecto.

Escreve sobre a beleza como quem resgata telas de uma inundação: com a urgência de quem sabe que o que é valioso exige cuidado, mas também uma resistência brava.

Identifico-me profundamente com essa "disponibilidade para a beleza" que menciona, sobretudo quando ela desafia as convenções. As suas reflexões sobre o corpo e a arte fizeram-me pensar na "minha" moldura. A minha mulher é 16 anos mais velha do que eu. Para o mundo — esse mundo que consome imagens de catálogo e descarta o que não é liso — o nosso abismo cronológico seria o fim. Davam-nos um mês. Olhavam para os quatro filhos dela, para a exigência da multideficiência de um deles, e viam "fardos" onde eu vi vida, verdade e uma energia que me desarma todos os dias.

Enganaram-se no cálculo, porque não contaram com a variável do afeto. Caminhamos para os 10 anos. Ela luta, por vezes, com a insegurança de quem se sente "velha" perante o meu reflexo. Mas a resistência emocional que construímos ensinou-me a dizer-lhe, com o peso de quem não brinca com palavras: "Velho estou eu, e sinto-me imensamente bem aqui ao teu lado".

A beleza dela não é um estado estático; é um ato de resistência. Está nas virtudes e nos defeitos vincados que a tornam uma mulher real, inteira, habitada. Tal como as suas pinturas que, mesmo entre o cheiro a mofo e o chão molhado, mantêm a dignidade de quem foi criado com alma, o nosso amor resiste porque não é feito de aparências, mas de uma "cola" que a idade e a vida só tornam mais forte. a beleza que importa é a que tem história, a que é "habitada por uma alma", como tão bem escreveu. Se o corpo é uma obra de arte, o dela é a minha exposição favorita.

Que a chuva dê tréguas a essa cave, mas que essa força de olhar para o corpo e para a vida com orgulho nunca seque.