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sexta-feira, outubro 04, 2019

No restolho da campanha
-- E Freitas do Amaral que não faz parte desta história --


Volta e meia coincide eu ir no carro e estar a dar um resumo da campanha. No outro dia, uma senhora dizia que, salvo erro, da Venezuela lhe tinham cortado parte da reforma ao que Catarina Martins se insurgia, que não estava certo, que devia receber a reforma por inteiro. E não sei se foi essa senhora, se outra, que lhe disse que ela lhe fazia lembrar a Princesa Diana. E a Catarina, em vez de dizer 'cruzes, canhoto, ó mulher vire essa boca mas é pra lá que não quero ter o fim triste que ela teve', fez um sonzinho enaltecido, acreditando-se já a princesa do povo, rainha dos corações. 

E isto foi o que registei na memória em vários dias.

Não, peço desculpa, registei também outra coisa: o Negrão, o tal puro que usou assinaturas de pessoas sem lhes pedir autorização, a dizer que o parlamento ia ficar cego, surdo e mudo durante a campanha por não ter sido aprovado uma reunião deles na sexta-feira para debaterem se o ministro sabia se não sabia.
E eu, ao ouvir aquela conversa desesperada, só me lembrei daquele jingle da TSF em que se ouve o dito líder da bancada do PSD, voz trémula, lançando um lancinante 'o senhor tem pelos no coração...!' ao Costa. É que, quando ouço aquele grito de dor, só me ocorre que ainda bem que foi ele e não Catroga que assim se manifestou.  
Logo a seguir, ouvi o Rio a dizer a propósito da conversa do seu líder: não morre ninguém por causa disso. E, ali no carro, sozinha, no meio do trânsito, desatei a rir. Cego, surdo e mudo, na volta também com pelos púbicos no coração mas, vá lá, morrer não morre. Menos mal.

Mas, portanto, da campanha, que me lembre, não registei mais nada.

Volta e meia, entre um e outro zapping, vi peixeiras ou mulheres no mercado ou na rua a convidarem candidatos para o quarto ou a dizerem brejeirices que deixam os pobres homens encabulados. Uma, sorrisinho malicioso no canto da boca, dizia para o candidato pôr a bandeira direita e perguntava se ele já não conseguia endireitar o pau. Geralmente, nestas ocasiões, o meu marido diz: 'Eu bem digo: as mulheres são muito piores que os homens'.
E eu, ao agora escrever isto, lembrei-me do comentário do Onirocrata e estou aqui a pensar que ele, o Ony, deveria fundar um #MeToo_Y para os homens com razão de queixa das mulheres, ou seja, para quase todos. É que as mulheres, essas malucas, são um perigo: umas deixam-se agredir física e psicologicamente pelos homens e outras apalpam-nos e fazem de tudo para desviá-los por maus caminhos. Um perigo, as mulheres. Tadinhos dos serzinhos do cromossoma y, sempre vítimas delaX.
Quanto a debates também não posso pronunciar-me pois tenho ideia que só vi um, o dos quatro contra o Costa. E entrevistas, assim de repente, acho que só o Ricardo Araújo Pereira com a Joacicine do Livre.

Mas até pode acontecer que tenha visto ou ouvido mais. Mas não me lembro, não ficou cá nada.

Para mim, estas campanhas são uma indigência intelectual, um desperdício político, uma canseira para os candidatos que andam em tournée, uma perfeita inutilidade para todos. Salvo quaisquer excepções de que agora não me lembro -- e nas tintas se alguém aí, Martin incluído, acha que o digo por sectarismo -- mas, na realidade, do pouco que vi e ouvi, foi o que constatei: acho que só o PS se limitou a dizer quais as suas intenções. O resto andou todo a malhar no PS: só chicana, maledicência, intrigalhadas, quadrilhices. Não me assiste. Ainda se essa grande figura da política nacional não tivesse desistido... Agora, com o grande Castelo Branco fora de combate, foi basicamente mais do mesmo. Sem graça. Sem conteúdo.

Não sei como é nos outros países. Nestas coisas acho que não vale a pena inventar a roda. Chama-se a isso fazer benchmarking. Gostaria, pois, de saber como fazem em países onde a democracia já leva mais anos de estrada. Não acredito que, em locais onde a malta é civilizada há mais tempo, os políticos andem em feiras a gritar 'toda a ciganada a votar no CDS', a insultarem-se, a lançarem suspeitas, a avacalharem a conversa ou a prometerem amanhãs que cantam mesmo que seja em Caracas. Ou a perguntarem o nome dos cães. Acredito que há maneiras evoluídas de mostrar aos eleitores quais as suas ideias sem ter que poluir o ambiente nem abalar a sanidade mental dos mais incautos.

Ah, é verdade, lembrei-me ainda de mais outra: aquela tal do Rio que num dia até prendia jornalistas por alimentarem a Justiça de tabacaria e, no dia seguinte, já esquecido do seu ponto de honra, os chamou para lançar a acusação contra um inocente (relembro: até prova em contrário toda a gente é inocente), fazendo o julgamento na praça pública do ministro Azeredo e do Costa. O mesmo Rio que, não tendo a malta toda desatado a apedrejar a mulher do Costa (sim, porque se o ministro sabia, o Costa claro que sabia e, logo, a mulher também tinha que saber), inventou outra: a de que o Centeno deveria receber uma aula do Sarmento, o ministro das finanças que o Rio já nomeou não se sabe bem para quê. Claro que o Centeno, que tem os dedos de testa que faltam ao Alpakas, o mandou dar banho ao cão.

E eu, que não sabia quem era esse tal génio da batata frita, o Joaquim Sarmento, resolvi googlá-lo, para lhe tirar a pinta. E tirei mas não me alongo. Hoje estou em dia bom: a santinha desceu em mim com o regaço a transbordar de caridade. Mas uma coisa eu tenho mesmo que dizer. É que, olhando o dito Quim, achei que o senhor até pode ser bom a dar aulas sobre a contabilidade das laranjas mas uma coisa ele não sabe: que as mangas das camisas do homem não devem ter vinco.

Tirando isso, noves fora nada, alekui-alekuá, xiripitatá-tatá. Urra. Urra.

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Hesitei. Freitas do Amaral merecia estar em melhor companhia aqui no Um Jeito Manso. Ou sozinho, num post apenas a ele dedicado. Mas, tudo sopesado, acho que estará bem aqui. A demonstração pelo absurdo é um método tão bom quanto qualquer outro. De um lado a Cristas, o Rio, a Catarina, o Ventura e etc e, do outro, ele.

Nunca votei em Freitas do Amaral nem sequer, em seu original tempo, alguma vez senti simpatia política pelas suas ideias. Depois, aos poucos fui adoçando a opinião. Fui achando que, independentemente das suas ideias, era um senhor, era uma pessoa respeitadora e digna. E comecei a sentir simpatia. Não propriamente pelas suas ideias que não me pareciam muito definidas mas por ele. Ou fui eu que ganhei maturidade ou tolerância ou foi ele que se chegou ao lado gauche da vida, seja lá o que isso quiser dizer.


Foi-se e eu, ao ouvir a notícia, senti pena. No outro dia, quando ia no carro com a minha mãe, passámos por uma casa que deve ter sido bonita e que está, há muitos anos, abandonada, cada vez mais degradada. Contou-me que era de dois irmãos, ambos sem herdeiros. Foram para uma residência, a casa ficou ao abandono. Agora que morreram ainda mais ao abandono ficou. Assim o CDS, uma casa que, percebi mas tarde, nasceu inteira, digna. Havia o Freitas e o Adelino. Gente inteligente, íntegra. Foi-se um, de uma maneira traumática, depois saiu outro. E o partido nunca mais foi o mesmo. Monteiro, Portas -- e, agora, descambou de vez com a Cristas. Agora que Freitas morreu, acaba a memória do CDS. Ficará ao abandono até que alguém o deite abaixo.

Mas Freitas do Amaral sobreviver-lhe-á -- quer através da obra que deixou, quer através da memória de coragem, dignidade e elevação na política que dele ficou.

Se há um panteão da memória da democracia portuguesa, de uma coisa podemos nós estar certos: Mário Soares está lá de braços abertos para receber o amigo.


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sexta-feira, abril 22, 2016

Catroga mete "cunha" para ser negociador de Costa.
Vende empresas, vende o País, se necessário vende a família, vende o que for preciso
-- desde que ele ganhe o dele e, provavelmente, desde que, em cima, ainda receba umas pratas*, umas porcelanas, uns cabazes -- talvez até um chapéu
(vidé os índios da Porta dos Fundos)


Catroga no momento em que fala a Costa sobre um eventual papel de "negociador", esta quarta-feira na cerimónia da EDP  |  ANDRÉ KOSTERS/LUSA

Podia ser anedota mas não é. Na fotografia Catroga insinua-se, oferece-se. Bem o conheço. Aliás, o País bem o conhece. Amigo do Cavaco, ex-ministro PSD, vendilhão do templo, de qualquer templo. Um dia que alguém lhe percorra os meandros do CV perceberá as habilidades da criatura. Onde fareja dinheiro, aí aparece a velha ratazana. Depois pode dizer que não, que não fez, que não disse. Pois, pois. Já o topamos. Gente desta dá mau nome aos portugueses. Se lhe cheira a meter empenhos, a negociar uns entendimentos, a ganhar uns trocos, aí ele até se arrepia por antecipação, ui, que bom. Pruridos? Ora, ora. 

Transcrevo do DN (e merece transcrição integral):

Catroga mete "cunha" para ser negociador de Costa


"Se você precisar de mim para dar aí alguns entendimentos eu disponho-me a isso", disse o antigo ministro a António Costa em cerimónia da EDP


António Costa esteve esta quarta-feira na sessão 'Prémios EDP Solidária 2016', onde agradeceu à empresa por suportar maior fatura devido à tarifa social da energia. Após a cerimónia, no Museu da Eletricidade, em Lisboa, o primeiro-ministro foi acompanhado na saída por várias das personalidades que marcaram presença na ocasião, nomeadamente Eduardo Catroga, que é atualmente o presidente do conselho geral da EDP.

Catroga, que já foi ministro das Finanças do PSD e assumiu o papel de "negociador" do partido nas conversações com a troika para definir o memorando de entendimento do último resgate financeiro, não quis limitar-se a conversar com Costa sobre as matérias que dizem respeito à EDP.

Sublinhando que os acionistas da empresa gostariam de falar com o primeiro-ministro, foi ainda mais solícito e, abraçado a António Costa, disponibilizou-se para, mais uma vez, servir de "negociador ". O momento foi apanhado pelas câmaras da SIC: "Se você precisar de mim para dar aí alguns entendimentos eu disponho-me a isso". Costa tentou escapar, percebendo que estava a ser filmado, e deu apenas resposta de circunstância, anuindo. E Catroga voltou à carga: "Porque eu tenho essa visão da política, que não é partidária", dizia, tentando meter uma "cunha" ao PM.

Sem se alongar, Costa continuou a dizer apenas "muito bem, sim senhor", e seguiu o seu caminho. Resta saber se irá aceitar a proposta do antigo ministro.


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Poderão dizer que sou uma ingénua, uma parva, que o combustível que faz mover o mundo é o dinheiro e mais a gente que não se importa de nele sujar as mãos. Pois. E eu não sei disso? Sei, sei muito bem. Agora não consigo é aceitar isto como banal, não consigo ficar calada, não consigo compactuar. Posso até ser prejudicada que não me importo. Nas tintas. 
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Esta de este Catroga andar sempre disponível para, a troco de cinco réis de mel coado, vender o que for preciso até me dá vontade de aqui incluir o último vídeo da Porta dos Fundos.


Colonizado


Conta a lenda que, há pouco mais de 500 anos atrás, o índio Apuã era ótimo na caça, na pesca, nas pinturas, nas batalhas de passinhos indígenas, mas péssimo em negociações. Um dia, Pedro, um português safado, querendo fazer um troca-troca de mercadorias, chamou exatamente Apuã para fechar negócio e se livrar de suas quinquilharias. Pedro propôs Apuã trocar 8,5 milhões de km² por espelhos e tecidos. O restante da lenda é meio confuso, surreal e escroto, não vale a pena continuar, afinal faz muito tempo e não tem mais nada a ver. 

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De outra notícia do DN, (Catroga desdramatiza recebimento de prendas no Natal), transcrevo:

(...) No seu depoimento ao tribunal, Eduardo Catroga afirmou que ao longo dos 40 anos em que exerceu funções de responsabilidade na área de gestão empresarial sempre recebeu prendas.

"Era uma prática usual sobretudo no Natal, e de vez em quando na Páscoa, oferecer e receber algumas prendas de fornecedores, clientes e bancos", referiu, acrescentando que, "malcriadamente", nunca agradeceu uma prenda, porque considerava isso um ato normal.

Questionado pelo advogado de José Penedos sobre o tipo de prendas que recebia, Catroga disse que se tratavam de artigos de consumo e decorativos, desde livros, caixas de vinhos, peças de prata e de cerâmica, cabazes de Natal e às vezes produtos das próprias empresas.

Apesar de admitir que quando era ministro das Finanças, a sala da sua residência ficava cheia de "montinhos de prendas", e após ter saído do Governo, "as prendas já cabiam debaixo da árvore de Natal", Catroga disse que nunca interpretou isso como uma tentativa de condicionamento.(...)
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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma sexta-feira muito feliz.

quinta-feira, novembro 26, 2015

João Galamba vê-se cercado por João Almeida do CDS (formado em Direito), Miguel Sousa Tavares crítico do novo governo do PS (também licenciado em Direito) e José Gomes Ferreira, alter ego do Láparo (formado em Comunicação Social mas que se arma em Economista). Os três, à uma, atacaram, forte e feio, o João Galamba pelo que o Governo do PS ainda não fez em matéria de Economia (matéria em que ele, João Galamba, é formado)


Eu, se fosse ao João Galamba, não aceitava mais participar num número destes. Não é que não tivesse chegado para aqueles três que falam, alto e bom som e com o maior dos à-vontades, de matérias sobre as quais não estão habilitados - só que estava tão em minoria que mal o deixaram falar. De resto, com a falta de conhecimentos que têm na matéria, mesmo que ele tivesse conseguido exprimir-se capazmente, também não o teriam percebido. Nem estavam ali para o ouvirem mas, tão só, para se auto-ouvirem.

Pasmo com os critérios que presidem à escolha dos comentadores para estes debates que mais parecem um circo. Esta comunicação social atenta contra a isenção da informação e, por tabela, contra os fundamentos da democracia, ao atirar para cima dos telespectadores tanta conversa balofa, tanta peixeirada, papagaiadas, bruá-ás, bla-bla-blas - em suma, desinformação em forma de espalhafato mediático.

Toda a conversa (pelo menos na parte a que assisti) girava em volta dos cenários macro-económicos previstos no que será o programa do Governo do PS. Ora, ainda o Governo não entrou em funções e já a SIC está a atirar três que são do contra às canelas dos socialistas - neste caso, 3 contra 1, uma coisa ridiculamente desigual.

E depois há aquele fala-barato que, com ar de esperto, fala como se percebesse alguma coisa que diz. Quem não o topasse pensaria que, dando-se aqueles ares, estaríamos perante um economista falhado. Mas, qual quê?, qual economista? Leio na Wikipedia o seguinte:
No seu tempo escolar, José Gomes Ferreira auto-caracterizou-se como "um aluno mediano a Matemática. Até tinha dificuldades para perceber equações"
Ora bem. Enquanto estudou matemática (não economia mas matemática, que é um dos principais pilares da economia) o artista em causa nem percebi equações -- e agora já se lhe meteu na cabeça que tem competência para discutir cenários macro-económicos.

O único ali que percebia de economia (e de contas) era o Galamba. Mas viu-se cercado por aqueles três que, sem saberem do que falavam, largavam 'bocas' de toda a espécie, acusando-o nem se sabe de quê.

Será que na SIC ninguém se enxerga? Ninguém percebe que gente destas e espectáculos pimbas destes afastam os telespectadores?

Quanto a João Almeida do CDS, coitado, acabado de sair de um desgoverno falhado, não se pode esperar muito dele e o Miguel Sousa Tavares, não sei se por efeito da influência mulher se do compadre, parece que anda um bocado confundido. Depois de criticar anos a fio o governo PSD e CDS agora parece que está com saudades. Diz-se e contradiz-se sem grande coerência, uma conversa quase desarticulada.

Uma desgraça, esta televisão. Não tirei fotografias deste circo porque estava a jantar.

No post seguinte já falo do que apanhámos no outro canal quanto fugimos a sete pés da SIC: um outro número rocambolesco.

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Entretanto, enquanto acabo de escrever isto, o meu marido pôs-se a fazer zapping e não é que foi dar com o mesmo José gomes Ferreira a entrevistar o Catroga...! Imaginem bem quem ele foi desenterrar...? 


Aquele Cavaquista empedernido -- que se pela por dinheiro como macaco por banana -- para ali está a papagaiar a narrativa que os pafs inventaram, e o outro a babar-se enquanto ouve a história da carochinha pelo troca-tintas-mor que se andava a gabar que o programa da troika quase tinha sido feito por ele para depois, quando a coisa deu para o torto, lavar as mãos como se nem soubesse de que é que se estava a falar. Pois bem: foi este sujeito -- que vai para onde for preciso desde que ganhe o dele (e que seja qualquer coisa com muitos zeros à direita, que ele gosta de ter as continhas bem recheadinhas) -- que a SIC foi buscar para aqui estar a causar orgasmos mentais ao José Gomes Ferreira. Não há paciência. Qualquer dia faço com a SIC o mesmo que fiz com o Expresso: nem mais um tostão para o Balsemão. 

sexta-feira, fevereiro 07, 2014

Pergunta: "E a conversa fiada foi feita por quem? Pelo vice-primeiro-ministro Paulo Portas?" - Responde o eurodeputado francês Liem Hoang Ngoc: "Maria Luís Albuquerque também não esteve mal nesse aspecto."




O economista e professor universitário Liem Hoang Ngoc, nascido em Saigão, é eurodeputado  francês e é um dos dois responsáveis do Parlamento Europeu pela investigação em curso à acção da troika nos países sob programa de ajuda externa – Portugal, Grécia, Irlanda e Chipre. O relatório de que é co-autor vai ser discutido em Março no Parlamento Europeu.


O Público divulga uma interessante entrevista que merece atenta leitura. Transcrevo alguns dos pontos abordados.


Mas quem é que falhou aqui? A Alemanha e outros países ditos rigorosos que impuseram as suas escolhas, ou a Comissão, que não desempenhou o seu papel de guardiã do interesse geral europeu?
(...) Também sabemos todos que a Comissão é fraca e que certos Estados, em 2009, quiseram uma Comissão fraca e por isso reconduziram Durão Barroso [como presidente] e nomearam comissários também eles fracos.

E o actual Governo o que disse?
(...) Barroso e a Comissão modificaram os critérios de cálculo da dívida portuguesa em 2011, o que resultou num défice maior que levou à imposição de medidas de austeridade negociadas no memorando mais duras do que as que Sócrates queria. E, depois da sua vitória, o Governo português aplicou medidas de austeridade ainda mais duras. Em Portugal procedeu-se a uma desvalorização interna [de salários] pretendida pelo FMI em simultâneo com uma consolidação orçamental acelerada. E o cúmulo do cúmulo é que não só o PSD aplicou uma política de austeridade mais dura, como há coisas bastante opacas que aconteceram: a privatização da Energias de Portugal (EDP) fez-se em condições que merecem ser esclarecidas. Podemos perguntar-nos se não houve um conflito de interesses quando observamos que o senhor Catroga está à frente da EDP privatizada que é hoje detida pelos chineses.


Pensa que a dívida portuguesa também deveria ser reestruturada?
É uma questão, mas não a invocámos na viagem. Ninguém levanta esse problema, porque Portugal está a regressar aos mercados para se financiar e toda a gente teme que uma reestruturação provoque uma tensão sobre as taxas de juro. Não ouvi ninguém em Portugal colocar o problema, também porque o que o Governo nos fez foi conversa fiada.

Os outros governos foram mais abertos?
Muito mais, muito mais mesmo. Na Grécia, com Stournaras, tivemos um debate muito bom. Na Irlanda, Michael Noonan [ministro das Finanças] disse claramente que quer que o ESM [mecanismo de socorro do euro] resolva retroactivamente o problema dos bancos, assumindo 30% da dívida irlandesa resultante do salvamento dos bancos feito quando o ESM ainda não existia. E, em Chipre, as autoridades são muito críticas face à troika e à política de dois pesos e duas medidas assumida em função dos interesses financeiros de cada um.

Então o Governo português é o mais "pró-troika"?
Absolutamente! É conhecido que o Governo português é o melhor aluno da troika, foi por isso mesmo que fomos lá em primeiro lugar.

E a conversa fiada foi feita por quem? Pelo vice-primeiro-ministro Paulo Portas?
Maria Luís Albuquerque também não esteve mal nesse aspecto.

Entre Portugal e Grécia, qual é o programa mais duro?
A Grécia e Portugal são dois exemplos de aplicação dos dois travões ao mesmo tempo, a austeridade orçamental e a deflação salarial, com as mesmas consequências catastróficas sobre o crescimento económico e sobre a dívida. A Irlanda é um caso à parte, porque foi no início uma crise bancária que se fez pagar depois com um resgate que pesa sobre as pessoas através da austeridade.

Que conselho é que daria ao Governo português para sair desta crise?
Aconselharia o Governo a considerar que as reformas estruturais estão feitas e que é preciso aplicar uma política macroeconómica adequada para apoiar o crescimento. Isso pressupõe que se recupere margem de manobra, nomeadamente em matéria de política orçamental, o que significa renegociar algumas coisas no quadro do memorando a propósito da redução do défice. O que temo é que, num contexto de regresso ao mercado e de programa cautelar [para proteger o país de eventuais flutuações excessivas das taxas de juro], se venham a endurecer as políticas de austeridade.

*



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Este Governo é uma vergonha para o País. E é um desastre para os Portugueses.


sexta-feira, outubro 25, 2013

Paulo Portas e o mistério do desaparecido Guião da Reforma de Estado; a birra entre os quero-posso-e-mando de Angola e os pategos e os machetes de Portugal; as apostas sobre se é um programa cautelar ou um segundo resgate que aí vem embrulhado em condicionalidades; as opiniões divididas sobre a linguagem de Sócrates e sobre se aquilo da ditadura é mero pretexto para vir chatear o Santana Lopes ou o Tozé Seguro; as interpretações sobre o convite que o mesmo Sócrates diz ter feito a Passos Coelho; o Catroga que acha que o Sócrates (sempre ele) deveria ser julgado; a Merkel que tem andado a ser escutada pelos americanos, etc, etc. Tudo coisas sem importância. Importante mesmo é tentar descobrir quem foi o casal que foi apanhado a praticar um 'acto indecente' no elevador de uma estação de comboio em Inglaterra.


Ora bem, sobre estes assuntos aqui referidos acima o que tenho a dizer é que não vou falar deles. Não me interessam, são areia atirada para os olhos do zé povo, são coisa nenhuma, balelas, tretas, irrelevâncias, inconsequências, déjà-vu, coisas que dão em nada, palha, disfarces, fogo fátuo, manobras de diversão.

Nem vou falar do nonsense pegado que é o OE especialmente quando visto em perspectiva, comparado com um novo rectificativo e com os resultados da execução orçamental do último trimestre: nada faz sentido, nada bate certo, nada tem lógica, nada tem explicação possível. Ou é tudo um barrete mal engendrado ou é incompetência em estado puro, ou é obra de malucos encartados. Venha o diabo e escolha.


Que são uns amanuenses incompetentes, disso não há dúvida, uns joguetes inofensivos, também não. Mas que sejam tão incompetentes, tão nabos, tão, tão, tão nabos, mas tão nabos, isso já me parece chocante para além da conta. Já é maluquice a mais, já é atraso mental, nem sei.

O País está a ficar cada vez mais pobre: sem empresas portuguesas, sem massa cinzenta jovem, sem uma população coesa, com pobres que nunca mais acabam, com gente insegura e com medo - e o assustador é que isto, às mãos destes sujeitos, está a tender rapidamente para a irreversabilidade.

Esta gente tem que ser corrida. Mas tem mesmo. São larvas que estão a comer a carne do país.


Mas não quero falar nisto. Estou cansada.

Vou é aqui deixar lavrada a minha perplexidade pelo que se está a passar em Inglaterra. Vejam bem isto.




These are the people British police want to speak to after cameras caught a couple “engaged in sexual activity” in a railway station lift.



Enquanto em Portugal um grupo de pessoas pode f... um país inteiro e nada lhes acontece, enquanto os americanos podem f... a paciência do mundo inteiro espiolhando conversas que dizem respeito apenas aos próprios e nada lhes acontece, enquanto outros roubam, chantageiam, põem e dispõem e nada lhes acontece, enquanto meio mundo faz toda a espécie de tropelias ao outro meio mundo e nada acontece - em Inglaterra uma senhora esteve num elevador durante 10 minutos durante os quais praticou um "acto indecente" a um senhor e já anda a polícia a divulgar as suas fotografias pelo mundo inteiro como se algum crime grave tivesse sido cometido.


Que as câmaras os apanharam, que é uma pouca vergonha, que alguém podia ter entrado no elevador e mais não sei o quê - um drama...! Só falta porem cartazes do casal a dizer que se oferecem alvíssaras a quem os entregue, vivos ou mortos.

Digam-me, por favor: isto é normal? Ou isto é o mundo de pernas para o ar?

Porque é que nos outros sítios, cá em Portugal por exemplo, não se divulgam fotografias dos presumíveis culpados de crimes a sério para que estes sejam publicamente envergonhados, punidos?  
Como é que vamos permitindo toda a espécie de abusos e desmandos? Cá e por todo o lado? 
Espionagem avulsa e gratuita, corrupção, intimidação, roubo, confisco, esbulho... tudo é permitido? 

Em que raio de gente passiva, cobarde, domesticada como infelizes cobaias, nos estamos todos a tornar, senhores?!

E que raio de país é aquele que tal relevo dá a inofensivos fait divers a ponto de divulgar as fotografias de duas pessoas nos media só porque se entretiveram durante dez minutos num elevador, esquecidas de que agora há câmaras por todo o lado?

Raios partam tanta maluquice.

E que, meus Caros Leitores, consigam perceber a moral de toda esta história: cuidado com as câmaras everywhere. Desgraçadamente, Big Brother is watching you.



*

Bem. Hoje, de resto, também não estou nos meus melhores dias. Cheguei a casa tarde, um bocado cansada, e, como poderão perceber lendo o post a seguir a este, tive notícia de que o Livreiro Velho partiu - e isso encheu-me de tristeza. 

Contudo, deixem-me ainda convidar-vos a virem até ao meu Ginjal e Lisboa, onde Joana Lapa nos deixa mais um poema e as minhas palavras ficam suspensas numa ponte que não leva a lado nenhum. E a seguir há ainda jazz.

*

Desejo-vos, meus Caros Leitores uma bela sexta feira. 
E não deixem que este breve instante que é a vida passe sem que vocês dêem por ele, está bem? 

quarta-feira, outubro 09, 2013

三三峽深喉嚨chinocas陰毛,不可撤銷的端口部長後,他們的嘴,對電力部門對中小企業的稅收信息傳輸 ___ [Uso o tradutor do google para ajudar os meus Leitores que ainda não dominam o chinês: "Three Gorges garganta profunda chinocas pêlos pubianos, o ministro porta irrevogável após suas bocas, o setor de informações fiscais de transferência de eletricidade para as PME" ] /_ /// _/ Texto revisto com a chave do mistério (ou seja, com a versão original do texto em português)




此聖保羅關閘認為什麼?難怪他們叫它保利尼奧展銷會:我認為你可以打開你的嘴,說一件事,它的對立面,只要你分發笑聲。所以想了一會兒到其他可以敞開你的嘴和威脅會惡化稅的?不知道他,扔開拋出開來,沒有人打我們,三峽?我們最不稱職的,先生們,我們從來沒有見過這樣的事情,即使給衛生署,射線休息。聽好了:不但不採取任何更多的蝸牛粘彷彿還在磨,提高了營,我們傳揚到另一個教區,然後總是希望看到吸吮拇指,他說,硬幣,皮帶和兔子件。這怪胎走動以威脅衝擊期望的可怕之處認為,我們都怕他......?UI,UI,嚇得...



*

Uma vez mais, para os meus caros Leitores que ainda não aprenderam a sair da sua zona de conforto e ainda se limitam a falar apenas o inglês ou francês (e é se for) - para além, é claro, de arranharem o português - e que, ainda por cima são preguiçosos todos os dias e não estão para se dar ao trabalho de pegarem neste texto e irem ver o que diz o tradutor do google, aqui vos deixo a tradução:



Este encerramento São Paulo acha o quê? Não é à toa que eles chamam de feiras Paulinho: Eu acho que você pode abrir a boca e dizer uma coisa, o seu oposto, contanto que você distribuir gargalhadas. Então, pense por um momento para outro pode abrir a boca e ameaçou piorar imposto? Eu não o conheço, e abriu abertas, ninguém nos atingir, as Três Gargantas? Nossa mais incompetente e senhores, nós nunca vimos uma coisa dessas, até mesmo para o Ministério da Saúde, os raios de descanso. Ouça-se: não só não agüento mais caracol pegajoso se ainda moagem, melhorando o acampamento, pregamos para outra paróquia, e sempre quero ver chupar o dedo, diz ele, moedas, cintos e peças de coelho. Este movimento ameaçou impacto expectativas do geek é assustador que estamos com medo dele ......? UI, UI, com medo ...


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A primeira imagem provém, como lá se pode ver, do inspirado blogue We Have Kaos in the Garden.


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Ora, então, o prometido é devido.

É sabido que isto do Google a traduzir é um perigo. A versão original, em português, antes de ser vertida para chinês, era a que vos vou mostrar de seguida.  Um texto muito correcto - o google é que deu cabo dele, como podem ver.


Paulo Portas
aqui a fazer biquinho e a bater palminhas,
tudo para ver se evita apertar a mão ao senhor da Three Gorges



Título da mensagem na versão original:


Mensagem da Three Three Gorges transmitida pelo garganta funda dos chinocas, o tal dos pelos púbicos, ao irrevogável ministro Portas na sequência das suas bocas sobre as pequenas e médias taxações sobre o sector da electricidade



Texto da mensagem na versão original:


Esse Paulo Portas pensa o quê? Não é à toa que lhe chamam o Paulinho das feiras: acha que pode abrir a boca e dizer uma coisa e o seu contrário desde que distribua sorrisinhos. Então acha que de um momento para o outro pode escancarar a boca e ameaçar que vai agravar os impostos? Não sabe ele que, escancarar por escancarar, não há quem nos bata a nós, os das Três Gargantas? Que gente mais incompetente, senhores, nunca vimos coisa assim, até dá dó, raios os partam. Escutem bem: não apenas não levam nem mais um caracol furado como, se continuam a moer, levantamos arraiais, vamos pregar para outra freguesia e depois sempre os quero ver a chuchar no dedo, a ele, ao moedas, à tangas e ao cacos coelho. Aquele totó que anda para aí a ameaçar com o papão do choque das expectativas acha que a gente tem medo dele...? Ui, ui, tanto medo...




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[Nota: Como podem constatar, o tradutor do google não deve ser usado em assuntos de responsabilidade. Comecei por escrever este texto que acabaram de ler em português, traduzi-o para chinês (texto lá de cima) e depois retroverti esse texto em chinês para português (texto do meio). Viram a volta que o google lhe deu...? Cá para mim o Passos Coelho e restante comitiva traduzem os documentos da troika com o google. Daí não perceberem nada de nada nem serem capazes de se fazer entender.]

sábado, janeiro 21, 2012

Cavaco Silva, sem dinheiro para as despesas. Horta Osório, o ex deus ex machina. As insuportáveis provações dos muito ricos e, pior, muito pior ainda, as insuportáveis provações dos pobres. E Mario Testino, Natalia Osipova e Ute Lemper.

  
O tema do dinheiro ganho é, neste momento, um tema sensível.

Esta sexta feira deram brado as afirmações de Cavaco Silva que, com voz agastada, referiu os seus hábitos familiares de poupança e enunciou as parcelas da sua pensão de reforma, concluindo que a verba recebida (que os jornalistas referem ser cerca de 10.000 euros mensais) nem seria suficiente para cobrir as despesas. Vinha no carro e, logo a seguir, ouvi Fernando Nobre chocado, enumerando, em contraponto, exemplos dramáticos de quase miséria e agora, na televisão, já ouvi várias outras censuras.

Mas como não percebi qual o contexto em que Cavaco falou, nem ouvi toda a intervenção, não me vou pronunciar. Também não me vou referir aos esquemas de cálculo das pensões pois é tema que desconheço e não gosto de falar de cor.

Mas falemos de ordenados. Para quem tem de ordenado mensal 1.000 ou menos, ou mesmo 2.000 ou 3.000 euros por mês, ouvir falar em valores de 10.000 ou 15.000 ou verbas desta ordem, pode soar excessivo. São ricos, que paguem a crise, que se lhes aumente os impostos até sangrarem, que paguem a saúde, o ensino, que sejam proibidos de usar transportes públicos.

Ridículo. Ordenados da ordem dos 10.000 ou 15.000 ou mesmo um pouco mais não são nada de extraordinário e deveriam ser o padrão de uma classe média alta. E a classe média é essencial à manutenção do consumo e, por isso, da economia.

A classe alta deve ser situada para rendimentos mensais já bem acima disso. E a classe alta é também indispensável a um país pois puxa pela franja de economia atrás da qual vai a classe média alta e, atrás desta, vai a classe média e por aí fora e assim se ajuda a manter viva a economia.

Mas, dito isto, quero referir que se verbas desta ordem me parecem normais e aceitáveis, já verbas da ordem dos 50.000 euros por mês (45.000 em ordenado e 4.500 por mês para um ppr) para funções que não são executivas nem exigem trabalho a tempo inteiro me parecem exageradas, especialmente se forem usufruídas por pessoas que se fartam de pregar que os excessos têm que acabar, que tem que haver austeridade, que se têm que reduzir custos para se ser competitivo.


Não defendo (muito longe disso!) que a cada um segundo as suas necessidades; mas o contrário disso não deve a tresloucura de uns ganharem 500 e outros 50.000 - dizendo o que ganha 50.000 que o que ganha 500 tem que ser sujeito a mais austeridade. Rendimentos como aquele para funções como as referidas ou verbas que são o dobro ou o triplo disto são tão elevados que me parecem descabidos, ilógicos, atentatórios, quase uma provocação perante uma população a quem se exigem esforços, perante os desafortunados que desgraçadamente caem no desemprego e a quem agora se vai baixar o subsídio. Há qualquer coisa de imoral em coisas destas.

Mas entorpecidos que estamos por anos de coisas ilógicas e tão atormentados perante sucessivos anúncios de catástrofes, austeridade a doer e à toa, retrocessos fatais, já aceitamos, bovinamente, quase tudo.

Vem isto a propósito do endeusamento que se tem feito relativamente a Horta Osório que, por ter estado 2 meses a recuperar de excesso de stress, achou por bem abdicar de um bónus superior a 2 milhões de euros. Como é sabido, não se passou cá, passou-se no Reino Unido, no Lloyds.


Ora, quase tudo nesta história me indispõe. Não está em causa o mérito de Horta Osório. O que está em causa é a estupidez para a qual esta sociedade tem evoluído.

Horta Osório trabalhava horas de mais, sob grande pressão e, às tantas, começou a ter distúrbios de sono. Tal como ele, inúmeras pessoas em todo o mundo têm o mesmo problema. Excesso de trabalho, excesso de pressão - e acabam por cair para o lado. Nada de muito grave. Tratam-se e curam-se. Há coisas bem piores, há quem caia morto.

Mas Horta Osório fez um a cura de sono, pôs-se bom – e, até aqui, tudo normal.

Agora entramos nas coisas ridículas.

Depois do médico que o tratou o ter declarado recuperado, teve que ser sujeito a uma auditoria médica ‘independente’ para ver se estava mesmo em condições - como se fosse uma máquina que, antes de ser colocada em funcionamento, tem que ser inspeccionada e reinspeccionada. Depois, três administradores, à vez, foram a casa dele ver com os seus próprios olhos se ele estava mesmo bem. E ele, submisso, a deixar que o observassem, que o interrogassem, a mostrar que já estava bom.

Pergunto eu: com isto tudo, não se sentiu humilhado? Tratado como se fosse um débil mental, incapaz de avaliar por si próprio a sua própria condição física?

Não, pelos vistos achou normal.

Pergunto eu: se o mal não fosse o sono, como seria? Por exemplo, se tivessem sido problemas de próstata, iriam na mesma lá a casa e far-lhe-iam o toque rectal? E ele acharia igualmente normal?  


Depois, uma jornalista do Expresso entrevistou-o e tratou-o como se ele fosse um débil mental e ele respondeu como se, de facto, o fosse. ‘Então e o que é que aprendeu?’ e ele, menino culpado, lá respondeu que tinha aprendido uma grande lição. E ela ainda não contente: ‘E a nível pessoal , o que é que aprendeu?’ - e ele em vez de a mandar bugiar respondeu que também tinha aprendido que tem que dormir e dar mais atenção à Ana.

Ridículo, tão ridículo.

Agora, depois de ter sido inspeccionado por dentro e por fora, depois de ter pedido desculpa, depois de ter voltado a ser aceite no posto de trabalho, eis que, numa derradeira assumpção de culpa por ser tão imperdoavelmente humano, renuncia a um bónus milionário. E é o delírio!

Claro que é um gesto inédito e surpreendente. Mas mais surpreendente é que estas pessoas recebam verbas tão obscenas, mais surpreendente é que existam disparidades tão obscenas, surpreendente é que uma pessoa se sujeite a ser tratada como se fosse menos do que um ser humano, como se fosse uma máquina sem dignidade nem sentimentos, surpreendente é que se ache que tudo isto é normal.

Não é. Nada disto é normal. Isto tudo é obsceno.




A sociedade não deveria permitir nenhum destes disparates, nenhumas destas absurdas disparidades.


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Mudança de tércio

É fim de semana, meus amigos, tempo de descontrair. Nada de pensar em toques rectais ou outras coisas que tais. Tempo de lavar o olhar para ver se a lavagem chega até à alma.

Venham pois comigo até sítios em que tudo é limpo, alvo, belo.

Sienna Millher por Mario Testino

eu volto o rosto para cheirar-te quando passas
para decorar de ti algum contorno
saber por fim que lume trazes
junto ao corpo

que incêndio apagas
ou amotinas


[Lume de João Miguel Henriques in 'Isso passa']





Natalia Osipova do Bolshoi interpreta La Bayadere




Ute Lemper, a magnífica.

ooooooo

Bom sábado!
 

domingo, janeiro 15, 2012

José Castelo Branco, a Imperatriz, acompanhado por D. Betty e por Nelson, foi ao tribunal dizer que não se lembra de ter participado em orgias; não há quem conheça a explicação para Celeste Cardona ir parar ao Conselho Geral e de Supervisão da EDP; e eu não consigo perceber como é que Luís Menezes, um gaiato, tem tanto relevo no PSD. Só mistérios.



Mistério Nº1.  Madame José Castelo Branco, segundo ela própria vestida de imperatriz mas mais parecendo uma viúva negra, ou uma versão feminina do Rei Nimba, ou uma árabe milionária vestida de homem vinda de uma expedição à Namíbia, nem sei, e Senhora Dona Lady, Betty Grafstein de seu nome, vestida de cossaca, apresentaram-se a tribunal.

Diz a Imperatriz Condessa Zeza Castelo Branco que não se lembra de ter participado nas badaladas orgias, ao que parece de cariz sado-masoch, que até já foi a um vidente, que já se submeteu a uma sessão de hipnose para ver se, regredindo no tempo, conseguia recordar-se de por lá ter andado a fazer uma perninha  - mas nada, não tem ideia de nadica. Pediu, então, à juíza que o deixasse ver o filme das ditas para ver se tinha tido algum orgasmo mas, imagine-se, a juíza não o satisfez.

E, no meio dos disparos dos fotógrafos, lá saíram as duas mais o motorista e guarda-costas Nelson, cheios de glamour, sem que o mistério se tivesse esclarecido, ela confessando-se cansada e a Senhora Dona Lady , como sempre, caladinha e sorridente. 

O País continua, portanto, à espera que coisa se esclareça. Ao que parece haverá nova audição e, portanto, lá estaremos todos, à porta do tribunal, à espera do show que aquelas duas sempre proporcionam. A Imperatriz Zeza (brilhantésima, cheia de charme, extraordinárias toilettes) e sua Senhora (sempre com toilette a fazer pendant, inacreditavelmente ainda pelo próprio pé,  e sempre com aquele seu fantástico sorriso) nunca desiludem - aparições plenas de surrealismo estão garantidas!

...

Mistério Nº2. O outro mistério que nos anda agora a preocupar é igualmente perturbante. Ninguém consegue perceber como é que Celeste Cardona apareceu naquele albergue espanhol (ou deverei dizer bazar chinês?). Para os outros, ainda parece encontrar-se uma lógica - um porque é um conhecido humorista (a piada pubiana correu mundo), outro porque esteve em Macau, outro porque tem ar de inteligente alucinado, outro porque faz uns poemas muito engraçados e pinta uns quadros minimalistas que são verdadeiramente do além - ... agora para a Dona Celeste ninguém consegue perceber que piada é aquela.  Quem é a que a escolheu? E a propósito de quê? O senhor presidente Catroga também está intrigado, não faz ideia.


Talvez Paulo Portas pudesse desvendar o mistério mas, como parece que é o único inteligente ali para as bandas do governo, anda caladinho, caladinho, a ver se passa despercebido. Os outros vão-se espalhando ao comprido a cada passo que dão e ele, sorridente, passando entre os pingos da chuva. 

...

Mistério Nº3. Como é que uma criança é agora a voz mais avalizada no PSD para botar faladura sobre o que quer que se passe neste mundo e no outro? Alguém me explica? Em terra de cegos quem tem um olho é rei, é bem certo. Face ao estado de penúria de competências que reina no PSD, a criança (que usa barba para disfarçar) até já conseguiu chegar a vice-presidente da bancada. Parece anedota mas não é.


Dá pelo nome de Luís Menezes, o filho de seu pai. E opina sobre as decisões de Carlos Costa, governador do Banco de Portugal, opina sobre Cavaco Silva, opina sobre política nacional e internacional e sobre o que quer que seja desde que lhe ponham um microfone à frente. Convicto, sábio, vivido, carregadinho de mundo e de experiência de vida,  hoje ouvi-o pedir ao governo que não se desfoque da política de austeridade, e que, uma vez que a Standard & Poors baixou a nota da dívida portuguesa para 'lixo' - invocando que, com esta política de austeridade o país não vai conseguir pagar o que deve (ah pois não! É que nisto a S&P tem toda a razão) - o gaiato concluíu que o que o Governo tem que fazer é reforçar as medidas de austeridade. Esperto. 

É o que dá entregar o destino do País a miúdos inexperientes.

Eu talvez o aceitasse como estagiário, para ver se ele aprendia o que é a vida real. Mas não, ele optou por mais interessante carreira. Como disse em cima, e desculpem se me estou a repetir, o catraio chegou a deputado e, aí chegado, em vez de o porem nos juniores, não: puseram-no como cereja em cima do bolo, já é vice-presidente da bancada do partido da maioria. Como é que isto é possível?

Alguém me explica um mistério destes? É que isto ainda é mais difícil de perceber que aquela cena maluca de um tal Mário Mendes, professor universitário em Évora, que se fazia passar, na internet, por Ana Sofia Magalhães, mulher sedutora, e depois passava a infernizar a vida dos pobres homens que caíam na esparrela. Ele há coisas...

Valham-nos todos os santinhos ... que já começo a temer que 2012 seja mesmo o ano do fim do mundo.

...

by Robert Maplethorpe

E assim, envolta em mistérios, me despeço por agora, desejando-vos um bom domingo!
  

sábado, maio 14, 2011

Santana Castilho, Eduardo Catroga, Carlos Moedas, Fernando Nobre os perigosos, Miguel Relvas e Miguel Macedo os pacíficos, Felícia Cabrita a diva, Laura Passos Coelho a mulher do cozinheiro - A equipa PSD, ou melhor, the dream team of Pedro Passos Coelho --------- Não tem nada a ver mas sabem dizer se já fechou o Miguel Bombarda? Ouvi dizer que iam transferir os doentes que ainda lá estavam para uma moradia ali para a São Caetano à Lapa. Será?


Pedro Passos Coelho: há qualquer coisa nesta cara que não bate certo.
Mas o que não bate mesmo nada certo é a equipazinha que ele arranjou, escolhidinhos a dedo, os piores da liga, uma gargalhada sempre garantida.


Santana Castilho, com Passos Coelho, na mesa de honra, com um sorriso amarelo, petrificado, numa sala cheia de gente, com a comunicação social a gravar o momento, disse que o programa do PSD para a Educação não tem ponta por onde se pegue
Agoram mandaram-no de férias para ver se não baralha ainda mais a comunicação social, a população, o PSD: diz-se e desdiz-se, é vulgar, inconveniente, despropositado e deve estar com uma valente hipertensão. Além disso, acho que está mesmo a pedir que lhe façam uma depilação brasileira.

Não pode ser: meninos assim, engenheiros civis-fiscalistas, com vozinha esganiçada, não deviam ser permitidos. Sugiro que a mãe o ponha de castigo.

Tanta parvoíce disse que arreliou toda a gente. Fecharam-no num quarto escuro há semanas e ainda lá está, não sei se alguma vez o vão tirar de lá
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E depois temos os de sempre, os bandarilheiros que para ali andam a tentar ajeitar as coisas. Mas com muita dificuldade, muita...

A vizinha aventaleira, rabalona, Miguel Relvas

E o Miguel Macedo, olhos cada vez mais esbugalhados, coitado
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E as mulheres da vida de Passos Coelho

Laura Passos Coelho, ri-se muito, acha muita graça ao papinho de anjo do maridinho, o farofinha doce, o coelho queijadinho

A diva Felícia Cabrita, a biógrafa oficial

Face a isto, meus amigos, será preciso gastar dinheiro com sondagens?! Então não basta olhar para eles para ver que isto é uma equipa ganhadora ..?

quarta-feira, maio 11, 2011

A estratégia eleitoral do PSD - Pedro Passos Coelho, Eduardo Catroga, Miguel Relvas, Diogo Leite de Campos e, como fiscalista convidado, a estrela do momento, o engenheiro civil Carlos Moedas

Há coisas cuja lógica me escapa. É certo que o Governo caiu por ter sido aberta uma crise política que teve subjacente uma crise económica e financeira. É certo que o próximo Governo vai ter como prato forte a gestão das finanças e da economia. É certo que, quem sair à liça nestes debates televisivos, deverá saber dominar estas matérias.

Mas oh senhores, será que, para andar pelos media, o PSD não arranja ninguém mais adequado do que o Dr. Catroga e o seu ajudante de campo, o engenheiro civil Carlos Moedas?

O Dr. Eduardo Catroga, emérito cidadão a caminhos dos 70 anos, tem-se revelado não um sensato e experiente economista e gestor mas um radical, impaciente, destravado, arrogante, ultra-liberal, incapaz de ouvir, incapaz de explicar calmamente, incapaz de se relacionar socialmente com os adversários políticos.

Depois temos o rapazola Moedas: esganiçado, ar de menino da mamã, irritadiço, parece que sempre à beira do amuo e do chilique, impaciente também, um menino engenheiro civil com experiência essencialmente na área imobiliária que, por ter andado um tempinho pela área de investimentos imobiliários da Golden Sachs, de repente, se viu alcandorado ao lugar de guru-fiscalista do PSD, imagine-se.

É certo que o PSD também conta com algumas figuras respeitáveis que, de vez em quando, aparecem nas televisões a dar alguma credibilidade ao partido; é certo que o PSD também conta com o apoio de alguns social-bloggers enjoados por natureza com o estilo Sócrates – mas a quase omnipresença nos media tem ficado a cargo de pessoas que causam estranheza e desagrado junto da opinião pública.

Dou exemplo dos sucessivos desastres:

+ Diogo Leite Campos, o senhor que acha que são remediados os que ganham 5.000 e tal euros líquidos por mês e que os desempregados são todos uns oportunistas,

+ Eduardo Catroga que quase parece ter uma apoplexia de cada vez que o irritam, não percebendo as contradições em que ele própro se enreda,

+ Carlos Moedas o menino marrãozinho que quase dá gritinhos porque o fazem explicar muitas vezes a mesma coisa,

+ Miguel Relvas, a vizinha anafada, com ar pretensamente blasé mas que, por não ter cara para isso, parece sempre uma comadre ressabiada a fazer de respeitável deputado e, finalmente,

+ Pedro Passos Coelho, o impreparado que, de cada vez que abre a boca, solta uma boutade suburbana com que toda a gente se entretém no dia seguinte.

* Quanto ao número 2, o ami Fernando Nobre, devem-no ter metido num quarto escuro para ver se as pessoas se esquecem dele, não vá ainda destruir mais eleitorado.


Alguém percebe esta estratégia? Com esta turma, quem é que o PSD pensa cativar? Não é possível, não é?

quinta-feira, maio 05, 2011

O texto do acordo da troika/governo que consubstancia o memorando de entendimento: já o li, 34 páginas de um pdf muito bem feito

Pois é, já o li, embora, confesso, numa leitura algo superfial. É o documento típico de uma equipa de gestores experientes e multi-competentes. Muito objectivo, indicando o planeamento de execução e a economia expectável para cada medida, sector a sector.

Se eu tivesse recebido a incumbência de propor um plano deste tipo, fá-lo-ia da mesma maneira: tipo carro-vassoura, percorrendo todas as 'casas' em que há descontrolo, em que há ineficiência, em que há constrangimentos.

Li-o e, do que conheço do país, revi-me nas medidas enunciadas.


Claro, meus caros, que há aspectos em que a leitura é acompanhada por um frio no estômago. Custa ler o capítulo da flexibilização dos despedimentos, a redução dos prazos e dos montantes dos subsídios. No entanto, conheço pessoalmente vários casos que, só por si, justificam a justeza das medidas e, além disso, estende-se agora, a protecção no desemprego às pessoas em regime de recibo verde o que é positivo. Mas a questão nem é essa: a questão é que tenho esperança que, com estas medidas, haja um desvio da população activa e dos recursos financeiros do sector administrativo estatal para a economia real e que, dentro de uns dois anos, a economia cresça, criando novos empregos, criando oportunidades reais de trabalho.

Mas, tirando a questão do desemprego (que é, de facto, o lado negro da crise), e tirando um novo sangramento fiscal sobre a classe média, o que vejo ali é um guião para uma forte reorganização em sectores que estão a funcionar de forma ineficiente, ineficaz. Fundir sistemas informáticos, gerir compras em conjunto capturando benefícios, montar serviços partilhados (para além dos incipentes que hoje timidamente existem), centralizar orgãos de gestão, reforçar a componente técnica de auditoria na máquina fiscal, acabar com repartições antiquadas, fundindo organismos afins, etc, tudo isso me parecem medidas muito, muito ajustadas.


Estou a ouvir o Dr. Silva Lopes na televisão, que, com o Professor Jacinto Nunes está a falar com o José Gomes Ferreira, a lamentar que o documento não tenha ido até às tributações extraordinárias nos grandes rendimentos mas, tal como ele diz, há que analisar isto a nível mundial pois os grandes geradores de lucros facilmente levantam arraiais e vão para outro lado.

Refere também ele que o documento deveria atender ao grave problema que é o despedimento de longa duração. Mas não sei se o documento deveria ir a tudo. Isto, de facto, é um problema fatídico mas a solução aí passará provavelmente pela sociedade civil, por nós todos que temos que ser diferentes, mais solidários, mais activos.

Claro que ao ler o documento há um outro aspecto que me embaraça: têm que vir técnicos estrangeiros para nos arrumar a casa? Que cambada somos nós que não temos cabeça para tão comezinhas arrumações?

Mas a questão é que somos mesmo uma cambada. Apenas vi um pequeno excerto da entrevista do Pedro Passos Coelho e não é o que lá o ouvi outra vez que, se for governo, vai logo jardinar as medidas do documento que vai assinar? O fulano não é bom da cabeça. Então vai assinar um Memorando de Entendimento e, ainda nem o tendo assinado, já ameaça que, se for para o governo, se marimba para o documento e vai fazer outra coisa.

Isto é o tuga rasca no seu pior, aquele que mal chega ao governo, destrói o que o antecessor fez.


O sistema de saúde, o sistema de justiça, o sistema educativo, o sistema de gestão autárquica e por aí vai, também foram varridos e também aparecem aqui boas medidas mas nisto há sempre dois lados: se os apodrecidos poderes corporativos e os anquilosados sindicados resolvem minar tudo isto, então não valerá de nada o facto de estarmos perante um bom plano, esta será mais uma oportunidade perdida e sermos pedintes pela europa fora será o futuro que nos espera.

Mas, se um conjunto fortíssimo de competências, com grandes capacidades de liderança, com uma sólida estrutura moral, democrata, humanista, agarrar as rédeas do país e governar a sério, então esta pode ser a oportunidade de ouro para tentarmos sair da cauda da Europa.

Apetecia-me aqui fazer uma análise técnica do documento, área a área, mas o post vai longo, aqui não é sítio para textos minuciosos. Por isso, vou apenas referir um outro aspecto: o País tem que largar as brincadeirinhas com que se tem andado a entreter e dedicar-se à produção de bens transaccionáveis. Temos que importar menos e exportar mais. Não podemos continuar a importar tudo. Extinguimos a indústria, a agricultura, as pescas e isso saíu-nos tragicamente caro.

E foram as Mckinseys, as Boston Consulting Groups e outras majors que andaram a vender, a peso de ouro, estratégias que, a pretexto da criação de valor para o accionista, aconselharam o desinvestimento de tudo o que tivesse a ver com sujar as mãos: bom eram os serviços, as participações financeiras e coisas do género.

Depois há um outro aspecto: tirando dois ou três, não temos capitalistas em Portugal. Todos os grupos portugueses foram feitos a partir de dinheiro nenhum. Salvo uma ou outra irrelevante excepção, todos os grupos económicos nacionais alavancaram-se em cima de fianciamentos bancários, operações  pomposamente designados por project finance. Muitas vezes (ou todas as vezes?) esses empréstimos são pagos 'a la longue' com o 'pêlo do cão' ou seja, com dinheiro que sai da empresa que se compra ou se cria. Ou seja, as empresas são 'sangradas' para pagar os empréstimos com que se comprou ou montou a empresa. Subindo as taxas de juro, o custo dos empréstimos sobe e as empresas ficam ainda mais afogadas.

Como já referi aqui várias vezes, é o próprio regime fiscal que estimula a alavancagem financeira. Ora, como se viu, isso é perverso e, se a banca está como está, é também porque se descapitalizou a enfiar dinheiro nas empresas, dinheiro que mal consegue recuperar.

É todo um modelo que tem que ser repensado porque, como se provou ( q e d), não funcionou. As finanças ficaram exangues, a a economia paralisada.


Quando no outro dia, creio que no 1º de Maio, ouvi uma jovem numa manisfestação a dizer que ainda 'não está à rasca' porque ainda está a estudar mas que se estava a manifestar porque, se calhar, quando se licenciar, vai para o desemprego, fico mal disposta quando, tendo-lhe sido perguntado o que estava a estudar, a ouço responder: "Culturas e artes comparadas".

Não pode ser, como se chegou a isto? Tanta gente com cursos destes... Numa altura em que são precisas competências em áreas que sirvam para fazer coisas concretas, temos, ao invés,  multidões de estudantes com licenciaturas, mestrados e doutoramentos em áreas que são totalmente desadequadas para a economia real.

Tudo isto derrapou de uma forma estúpida: falhou na análise demográfica, na análise finnaceira, na análise económica ou mesmo na cultural. O modelo de desenvolvimento está estupidamente errado e o resultado é o que está à vista.

Aos olhos dos outros países parecemos tontos, totós, relapsos, malucos, saloios.

Por isso, intervenções patarecas como as do Catroga ontem depois da conferência de Sócrates ou a do palerma de Passos Coelho a dizer que não vai assinar de cruz e que, mal possa, jardina aquilo tudo, é tudo o que Portugal não precisa.

Finalmente uma palavra para a reacção inteligente de Paulo Portas. Uma vez mais teve palavras responsáveis e inteligentes. Isto, em terra de cegos, quem tem um olho é rei e por isso ele nem diz nada de muito especial mas, enfim: diz que obviamnete que vai assinar e que, com um bom governo, o acordo ainda pode ter melhores resultados.

E é de uma atitude construtiva assim que Portugal precisa.

Reparem no peixe: o pescador estava todo orgulhoso, o peixe rabiava que se fartava e ele, ali, todo feliz, a posar para que eu o fotografasse

Por isso também se compreende a atitude optimista (optimista, por vezes ao ponto de raiar a alienação ou a manipulação) de Sócrates: temos que, solidariamente, sem tricas estúpidas, ir em frente e, já que quando somos bem orientados, demonstramos ser uns trabalhadores competentes e produtivos (quando emigramos, por exemplo), deixemo-nos agora governar.


Nota: Claro que as fotografias não têm nada a ver com o texto. Mas hoje, depois do trabalho, ao entardecer, fui passear para o pé do rio e tirei estas fotografias. Como o texto está maçudo, lembrei-me de as colocar aqui.

Outra nota: É verdade, claro que tudo o que estava no PEC IV está aqui neste documento, com alguns ajustamentos. Mas este documento é muito mais ambicioso, mais abrangente, limpa o pó, varre, arruma a casa (quase) toda. O PEC IV era um apertar de cinto: isto é todo um restyling. Ou seja, são irrelevantes e absurdas as discussões sobre se isto tem ou não a ver com o PEC.