Mostrar mensagens com a etiqueta Alemanha. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Alemanha. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, setembro 28, 2017

Com o mal dos outros posso eu bem...?
[Ou não é esta pergunta que deve ser feita?]


Isto agora está tudo profissionalizado. Por exemplo, uma reunião. Até não há muito tempo, quem tinha que tratar de uma reunião tratava. Muita ou pouca gente, mais ou menos trabalho. Agora não. Quem tem que tratar, contrata quem o faça. E uma reunião passou a ser um happening. Claro que não todas mas algumas. No outro dia, ao chegar a uma, parecia eu que ia para uma festa da Caras. Painéis e um fotógrafo que nos punha à frente do painel e nos fotografava. E fazia grupos, diziam ba-ta-ta e diziam para nos rirmos e... pumba, flashada para cima. E havia cocktail volante e palcozinhos entre as árvores. E, no meio do jantar, houve prelecções imprevistas e para a noite houve dança e bar aberto e, portanto, não sei se estão a ver. E havia fotógrafos e fazedores de filmes, tudo ultra eficiente.

Dentro de pouco tempo vou a uma outra destas cenas. E nova ultra produção deve estar a ser preparada pois já nos começaram a mandar coisas. No outro dia, estava eu naquelas minhas pseudo-férias, recebo um mail a dizer que abrisse o link e respondesse a umas perguntas. No meio das trapalhadas, não o fiz e nem mais me lembrei disso. Dias depois, novo mail a dizer que era o último dia, que era importante e que não demorava mais que uns minutos. Nesse dia eu estava sem cabeça para o que quer que fosse. Olhava para as perguntas e não sabia o que responder. Ainda por cima era o tipo de pergunta a que costumo recusar-me a responder. Mas uma coisa é a gente, em conversa, explicar a razão da recusa ou, em texto folgado, dissertar em volta disso -- e outra, bem diferente, é ter um espaço mínimo para responder e aquilo não aceitar não-respostas. Portanto, em sofrimento e muito contrariada, lá respondi o que me veio à cabeça.

Uma pergunta inquiria qual o meu filme preferido. Devem depois fazer algum filme ou arranjar surpresas com base nisso. Completamente esvaída, lá escrevi o nome de um de que gostei mas do qual, em consciência, não poderei dizer que foi o melhor de entre os melhores. E, tal como com outras perguntas abrangentes para redutoras respostas, fiquei contrariada. Entretanto, fiquei a pensar. Tinha que poder elencar uns quantos para me sentir confortável na resposta. E um deles seria, sem dúvida, 'A vida dos outros'. Aquela invisível fronteira entre o bom e o mau, entre o claro e o escuro -- que tanto me fascina.

Por exemplo, tenho um colega que é o maior traste. O maior. Horrível criatura. Acho que mente já sem dar por isso e acho que não se ensaia nada em prejudicar quem calha e fico com a sensação que nem se apercebe do mal que faz. Não o posso ver nem pintado.  E, no entanto, reconheço que, em determinadas circunstâncias ou, pelo menos na aparência, tem graça e parece demonstrar genuína franqueza conseguindo eu, nessas alturas, conversar normalmente com ele.

Na verdade, todos nós somos feitos de nuances e a mesma circunstância pode desencadear reacções antagónicas em diferentes pessoas. O mal não é óbvio nem facilmente reconhecível e os maus não têm caras de monstros. E podem ser maus para uns e amorosos para outros.

Tenho também constatado que a exposição a situações recorrentes de maldade, cria em nós uma quase habituação. E, com a habituação vem a tolerância. É um processo quase inconsciente. E se eu, indignada, perguntar. 'Mas por que raio fez isso?' as pessoas olhar-me-ão, espantadas, e dirão que o fizeram apenas porque sim. Já nem pensam. Fazem o que lhes parece normal. Hannah Arendt falou muito bem disso. A banalização do mal.



O filme A Vida dos Outros trata de um caso assim. Transcrevo:
O filme narra a história de um agente da Stasi, a polícia política da República Democrática Alemã (Alemanha Oriental) chamado Gerd Wiesler (interpretado por Ulrich Mühe, falecido em 2007) que se envolve num serviço de escutas clandestinas do apartamento de um casal da cena cultural de Berlim Oriental, o escritor Georg Dreyman (Sebastian Koch) e a atriz Christa-Maria Sieland (Martina Gedeck). Mais tarde, ele se vê envolvido na vida do casal e tem um papel decisivo em seus destinos.

E lembrei-me agora de escrever isto depois de ter começado a ler o livro Uma Vida Alemã sobre Brunilde Pomsel, a antiga secretária de Goebbels (que morreu este anos com 106 anos). O livro regista as memórias dela e, sobre esse registo, leio que foi também produzido um documentário. E é espantoso. É tudo espantoso. A banalização do mal entorpece.


Agora que a Alemanha acabou de eleger para o seu Parlamento um bando de nacionalistas, acho que tudo isto e, em especial a nossa própria natureza, deveriam merecer alguma reflexão -- até porque os outros somos nós.

Apenas dois excertos desse documentário.


...................................................

 Sexy

Maternal

Agora sai do  AfD e vamos lá a ver o que vem a seguir.

Com gente desta e, ainda por cima, com cara de anjo, nunca se sabe.

.....................................

quinta-feira, agosto 25, 2016

Vem aí a guerra e só os alemães é que sabem?
Para que é que vão armazenar água e alimentos?
Não sei.
Mas, do que conheço dos alemães, avanço com uma explicação.
[E, atenção, o que digo não é para causar alarme, é apenas para alertar para o que estamos fartos de saber]





Depois de ter louvado a iniciativa de Renzi atribuindo 500 euros a cada adolescente para consumir em cultura, volto-me agora para a notícia que está a causar estranheza e a lançar alguma suspeição nos europeus:

O plano de defesa civil, que inclui o conselho para os alemães armazenarem comida e bebida para dez dias, foi hoje aprovado pelo Governo.


O governo alemão aprovou hoje um plano de defesa civil, que pede aos cidadãos para fazerem aprovisionamentos de água e alimentos, permitindo uma resposta em caso de atentados ou catástrofes naturais. (...)
Entre as recomendações feitas à população, contam-se a necessidade de reservas de água, de "dois litros por pessoa e por dia, por um período de cinco dias". Os cidadãos devem abastecer-se de alimentos suficientes para dez dias.
Prevê também planos de emergência em caso de interrupção do fornecimento de água ou eletricidade, uma série de medidas de segurança em caso de crise de natureza química, atómica ou biológica, ou ainda em caso de ataques cibernéticos.


Soube disto e desde então já ouvi interpretações diversas e comentadores para todos os gostos a especular a razão de ser de tão inusitada medida: que tem a ver com a Ucrânia, ou com a Turquia, ou com o Daesh, ou com severas ameaças às centrais nucleares ou com indícios de terramotos bárbaros, ataques cibernéticos ou, acrescento eu, invasão por marcianos.

Pode ser. Mas, como não tenho espiões debaixo das saias da Merkel, de facto não faço ideia.

Contudo, já trabalhei diversas vezes com alemães, uma das quais recentemente. E já trabalhei em diversos contextos e circunstâncias, algumas vezes durante períodos bem longos.

Já aqui o disse algumas vezes: gosto de trabalhar com alemães embora venha achando que, enquanto organização (isto é, a nível não pessoal), se vêm tornando mais quadrados, tudo muito by the book. A nível pessoal continuo a achá-los descontraídos, simpáticos, até folgazões. Mas, a nível profissional, não brincam em serviço nem sabem desviar-se um milímetro do que antes planearam.

Contudo, se reconhecerem e lhes provarem, mas provarem bem, que uma solução menos ortodoxa parece valer a pena, então equacionam-na, enfiam-na no plano e deixa de ser heterodoxa e, portanto, passa a estar regulamentada, tornando-se admissível. E, uma vez estabelecido um plano, seguem-no ferreamente. Podem levar um ano ou mais a fazer um plano ao pormenor, quando, em iguais circunstâncias, os portugueses o fazem numa manhã, de forma não detalhada para deixar margem para os imprevistos que sempre acontecem. Os alemães não: os alemães elencam previamente todos os passos e todos os possíveis imprevistos e, neste caso, para cada um, estudam qual o antídoto. Só depois se abalançam à acção.

Para além do mais têm a paranóia da segurança e da propriedade das suas coisas. Podem optar por soluções pouco operacionais e pouco económicas mas priveligiam (ou melhor, exigem) a segurnça e o controlo absoluto das situações (a propriedade inquestionável e regulamentada da informação gerada nas suas organizações, a segurança à prova de bala das suas redes de dados, dos seus ficheiros, etc).

Ou seja, do que lhes tenho observado -- e, como disse, do que tenho constatado desde há alguns anos para cá, esta atitude vem-se tornando generalizada e inquestionável -- só se sentem bem se tiverem planos para tudo e, sobretudo, planos que garantam que, haja o que houver, eles estão sempre salvaguardados pois preveniram-se em terra antes de se fazerem ao mar.

Por isso, do que lhes conheço, não precisam de saber de alguma ameaça concreta para desencadearem estas medidas que agora aprovaram. Leio e acredito que isto faz parte de um plano global que vem sendo estudado desde de 2012 (ou seja, há 4 anos) e que visa substituir um outro que estava em vigor desde 1995.

Agir como eles, tem prós e contras. Eu acho que, com alguma frequência, tendem a levar a coisa ao limite do absurdo; acho que perdem a noção de que tamanha pre-ocupação é um excesso de zelo que pode não se justificar. No entanto, acho que entre a despreocupação portuguesa, de deixar tudo muito ao improviso, de não divulgar riscos para não lançar alarme, de se fiarem na virgem e não correrem e a confiança cega dos alemães em que tudo poderão prevenir haverá um meio termo virtuoso.

Por exemplo (e sem, de modo algum, querer cavalgar a onda da tragédia do sismo italiano), refiro um tema do qual já aqui, de resto, falei algumas vezes: algumas zonas do país e, em particular o Algarve, a Costa Alentejana e Lisboa e Vale do Tejo. são de alto rismo sísmico e o não ter voltado a haver um abalo violento como o de 1755 já é uma improbabilidade. Ou melhor, é uma grande sorte que devemos agradecer a todos os santinhos mas é, também, uma improbabilidade. 


Dito de outra forma: pode ser que ainda falte muito tempo e espero bem que sim mas o mais provável é que volte a acontecer e que, acontecendo, possa vir a ter efeitos devastadores.


Por isso, teríamos já mais do que tido tempo não apenas para reforçar as estruturas dos edifícios que não aguentarão um desses tremores de terra valentes como para traçar um plano de contingência e de recuperação (a todos os níveis) em caso de desastre. Mas qual o quê...

Este plano pressuporia ampla divulgação, realização de simulacros e intervenções de toda a ordem. Contudo, portuguesmente assobia-se para o lado e espera-se que, na nossa vida, tal não venha a acontecer.

Não sou eu que o digo, que eu não percebo nada do assunto. Mas ouça-se um dos maiores especialistas nacionais na matéria, o Engenheiro João Appleton:


Tivemos um bom exemplo com a Parque Escolar, em que os edifícios foram, de uma forma sistemática, analisados e reforçados do ponto de vista sísmico, mas esse programa foi interrompido. Foram feitas obras em 200 e tal escolas, mas as outras centenas de escolas estão esquecidas e abandonadas. E o que é que acontece aos hospitais, aos edifícios de bombeiros ou governamentais, onde trabalham diariamente aqueles que tomam as decisões? 
Estou plenamente convicto de que, se sofrêssemos um sismo de grande intensidade agora, colidiriam vários hospitais, vários quartéis de bombeiros, vários edifícios públicos de ministérios, porque não estão preparados para suportar um terramoto semelhante ao de 1755.
Quando acontece um sismo de elevada magnitude num qualquer lugar do planeta, especialmente quando é mais perto, as televisões salivam e a toda a hora são mostrados escombros e pessoas a chorarem. Depois aparecem os comentadores, os senhores da protecção civil, os do INEM, não sei se também o Nuno Rogeiro -- e, passados dois dias, já ninguém se lembra de nada. Ora isto com os alemães seria o oposto e, de certeza, já se iria na 50ª versão de um plano exaustivo, sempre melhorada, divulgada e ensaiada.

Portanto, mais do que enveredarmos por teorias da conspiração e desatarmos a especular sobre o que é que os alemães sabem e nós não, acho que deveríamos reflectir um pouco e talvez seguir-lhes o exemplo pois, em caso de atentados, desastre grave, acts of God ou seja o que for, os planos e as cautelas podem salvar muitas vidas ou, pelo menos, minorar o desconforto de algumas situações.

E tenho dito.

____

Lá em cima Marlene Dietrich interpreta uma das minhas canções preferidas de ever and forever: Lili Marlene

As imagens que escolhi para adornarem o texto mostram obras de pintores alemães, desta vez dos modernos. A saber, pela ordem em que aparecem: Franz Marc, Max Ernst, Paul Klee, Hans Hofmann, Tomma Abts e Gerhard Richter.

________

E queiram, agora, ir de visita aos antigos. 
No post abaixo falo a propósito de uma extraordinára medida de Renzi e peço ao nosso Ministro da Cultura que se inspire. 

___

segunda-feira, outubro 12, 2015

Escândalo Volkswagen - Bora lá gozar com os bem comportadinhos alemães que nunca pecam, que fazem tudo by the book, que dão lições de moral aos preguiçosos tugas e gregos (sulistas esses a quem, de caminho, corrompem para lhes conseguirem impingir submarinos alemães que não fazem falta nenhuma). Bora lá. E, de caminho, bora lá também falar um bocadinho a sério.


Momento erótico inspirado na VW


_____

Publicidade a cuecas para homem


____

Fotografia hiper-realista

____

E, agora, a sério.


Por cá, amiguinhos dos alemães que somos desde que o Láparo começou a portar-se como o caniche da Merkel e Maçães a ser visto como mais alemão que os alemães, e, além disso, com um certo gostinho por levar tau-tau da madrinha especialmente quando ela se dá ar de castigadora Fräulein, pouco falamos da big bronca da Volkswagen. 

Parece até que é coisa de pouca monta, que uma fraude escandalosa desta envergadura não tem gravidade, não afecta a credibilidade e a economia alemã e, por decorrência a europeia e, por consequência, a portuguesa. Com a Autoeuropa a ser um contribuinte líquido para o PIB português -- e, quem diz a Autoeuropa diz toda a rede de outras empresas que gira em volta dela -- quem leia a imprensa portuguesa ou ouça as televisões ficará com a ideia que não aconteceu nada, que estamos tranquilos. No pasa nada.

Somos assim, levezinhos.

Mas abrisse o Schäuble os olhos à Pinókia ou a Merkel apontasse o dedo à paspalhice do Láparo e logo toda a gente haveria de tiritar de medo, meio mundo se haveria de auto-culpabilizar - que sim, que merecemos ser fustigados, que sim, mea culpa, mea culpa, mea culpa, até já conversamos com comunistas, sim, é verdade, somos umas criaturas de miolo mole, mesmo a merecer punição.

Mas há lugares civilizados onde o assunto é analisado com o sentido crítico que ele merece. Poderia citar vários mas apontarei apenas para o primeiro, para o segundo e para o terceiro de que agora me lembrei. [E, por cá, de novo para aqui].

Convém não nos distrairmos para ver se na próxima crise não voltamos, mentecaptamente, a assumir responsabilidades que não são nossas - especialmente agora que há um sobressalto no PIB mundial ou numa altura em que, por cá, metade do País se encontra em risco de pobreza (“Temos um nível de prestações sociais inferior à média da União Europeia e, apesar disso, o país sofreu uma fortíssima redução nos últimos quatro anos”, afirma Farinha Rodrigues, Professor do Instituto Superior de Economia e Gestão).

Não é por nada.
____

Hitler reage ao escândalo da VW


--

E, de novo, a sério

O escândalo dosVolkswagen a diesel

..

Imagens, uma vez mais, da autoria do grande autor do blog We Have Kaos in the Garden

..

Bem. E agora vou ver o regabofe que a TVI preparou para levar ao colo até Belém o Prof Marcelo das Vichyssoises.


..

Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela semana semana a começar já por esta segunda-feira.

..

quinta-feira, outubro 08, 2015

Sobre os nossos impolutos 'amigos' alemães, sobre a VW, e sobre a forma como nós, os gazeteiros e preguiçosos do sul, somos papados que nem anjinhos, aconselho a leitura de 'Mestres dos Disfarces'






Quando eu for grande, gostava de ter o poder de contenção, a precisão algébrica, a limpidez de escrita, a capacidade de investigação e de síntese que leva a, em meia dúzia de palavras, agarrar em mil pontas soltas que reconheço no autor do fantástico blog Xilre (a que, aqui na minha galeria lateral, chamo Livro de Horas).

Em tempos, num outro blog, li que o Xilre é um dos melhores blogs de homens, ou o melhor (já não me lembro), e achei isso tremendamente injusto porque, classificando-o dessa forma, parecia reduzi-lo ao género, uma coisa quase tão deslocada como dizer que Ana de Amsterdam é um dos melhores blogues de mulheres. Um blog que é bom, é bom independentemente do sexo de quem o escreve, especialmente quando se distingue pela qualidade da escrita ou quando aflora temáticas que não estão agarradas aos limitados temas supostamente específicos do sexo do autor. 


Considero que um blog pode encaixar na categoria de 'blog de homens' quando grande parte do que escreve se dirige explicitamente ao sexo feminino, seja numa de galanteio, seja numa de provocação brincalhona (abundando, então, posts com títulos como, por exemplo: 'O problema das mulheres', 'aquilo de que as mulheres gostam', 'o que as mulheres não conseguem perceber', etc).

Ora o Xilre não é nada disso. Se, por vezes, ali se vêem descritos pequenos episódios do dia a dia ou referências culturais tantas vezes inesperadas e sempre gratificantes de ler, ou pequenos apontamentos poéticos, frequentemente haikus muito pessoais que certamente resultam de uma observação decantada do mundo ou das almas, e/ou uma cuidada e requintada selecção de pinturas ou músicas, é também ali que encontro das mais pertinentes, oportunas e bem fundamentadas reflexões sobre temas marcantes da actualidade.

Hoje li ali um post cuja leitura muito vivamente recomendo.

Sob o título Mestres dos Disfarces, o que ali se lê é o retrato a cru do que tem sido a actuação oportunista, prepotente e arrogante dos alemães tantas vezes em cima de práticas ilegítimas.


Transcrevo apenas a conclusão do post mas, repito, aconselho a sua leitura integral.

Wolfgang Münchau, do Financial Times, antevê: «a minha expectativa é que a VW seja mantida viva através de alguma combinação de ajudas ocultas ou visíveis por parte do estado.» Assim como já fomos chamados a salvar os bancos alemães, resta-nos saber quanto é que nos cabe na fatura das ajudas ocultas à indústria automóvel germânica. Ela chegará, não duvidemos, como a anterior. Só resta saber quando — e quanto.

...

A pintura lá em cima é de Marc Chagall: I and the Village (1911). 
Alfred Brendel com a London Philharmonic Orch. interpretam o concerto para piano "Emperor" de Beethoven

...

E, se para aí estiverem virados, desçam um pouco mais que verão a escola onde os PàFs aprenderam a fazer contas.

..

segunda-feira, julho 13, 2015

A ditadura vergonhosa da Alemanha e dos seus apoiantes sobre uma Grécia humilhada e perante uma Europa acobardada. Um nojo. Uma vergonha. Um susto. E as palavras de Saramago a propósito de uma democracia sequestrada, condicionada, amputada --- E as palavras de Paul Krugman sobre a ameaça de morte que paira sobre o projecto europeu.


Depois de, no post abaixo, ter falado do meu domingo, tão perfeito, tão feliz, agora falo do assunto que está na ordem do dia: a Grécia. Um assunto, pelo contrário, bem triste.


Os algozes impondo o sacrifício dos pobres

Euclid Tsakalotos, Greece's new finance minister with Christine Lagarde, managing director of the International Monetary Fund, at the eurozone finance ministers meeting in Brussels on Sunday.


Assisto, aterrada, ao que se está a passar. Parece que uma perigosa demência colectiva está a alastrar entre a cambada de anormais que se aboletou nos postos de comando desta pobre e fraca Europa. 





Enquanto do lado de lá, os alertas não param:

A Greek Exit Would Be Costly

(The New York Times)





Although Greece makes up a small part of the overall European economy, the fate of the country is important.

A Greek default would cost European countries much more than extending emergency aid. And a deal is critical for Greece, which needs money to pay its significant debts and other bills. Without fresh aid, the country’s economy, which is already languishing, risks sinking even further. (...)


ou:

Killing the European Project - Paul Krugman


Suppose you consider Tsipras an incompetent twerp. Suppose you dearly want to see Syriza out of power. Suppose, even, that you welcome the prospect of pushing those annoying Greeks out of the euro.

Even if all of that is true, this Eurogroup list of demands is madness. The trending hashtag ThisIsACoup is exactly right. This goes beyond harsh into pure vindictiveness, complete destruction of national sovereignty, and no hope of relief. It is, presumably, meant to be an offer Greece can’t accept; but even so, it’s a grotesque betrayal of everything the European project was supposed to stand for.

Can anything pull Europe back from the brink? Word is that Mario Draghi is trying to reintroduce some sanity, that Hollande is finally showing a bit of the pushback against German morality-play economics that he so signally failed to supply in the past. But much of the damage has already been done. Who will ever trust Germany’s good intentions after this?

In a way, the economics have almost become secondary. But still, let’s be clear: what we’ve learned these past couple of weeks is that being a member of the eurozone means that the creditors can destroy your economy if you step out of line. This has no bearing at all on the underlying economics of austerity. It’s as true as ever that imposing harsh austerity without debt relief is a doomed policy no matter how willing the country is to accept suffering. And this in turn means that even a complete Greek capitulation would be a dead end.

Can Greece pull off a successful exit? Will Germany try to block a recovery? (Sorry, but that’s the kind of thing we must now ask.)


The European project — a project I have always praised and supported — has just been dealt a terrible, perhaps fatal blow. And whatever you think of Syriza, or Greece, it wasn’t the Greeks who did it.


do lado de cá, a Europa (onde, não nos esqueçamos, estamos integrados) continua entregue a totós que gostam de brincar com o fogo,


Eurogrupo quer transferir activos gregos para banco de Schäuble e Gabriel


A transferência de “activos no valor de 50 mil milhões de euros” detidos pelos contribuintes gregos para um “Instituto do Luxemburgo para o Crescimento” é uma das condições que o Eurogrupo procura impor à Grécia para iniciar negociações de um terceiro resgate. Este instituto é no entanto gerido pelo KfW, um banco estatal alemão, cujo "chairman" é Wolfgang Schäuble, ministro das Finanças alemão, e cujo vice-chairman é Sigmar Gabriel, ministro da Economia alemão.


(...) A polémica no entanto não fica por aqui. É que além de se tratar de um banco estatal, e além de ter a sua administração dominada pela classe política no poder na Alemanha, também o poder executivo desta instituição vem com um pedigree pouco recomendável: O CEO do KfW é Ulrich Schröder, que fez carreira no WestLB, banco que desde 2008 teve direito a um total de quatro resgates com dinheiros públicos.


A opinião pública mostra sinais de susto, as recordações de um passado medonho parecem aproximar-se. As imposições alemãs são absurdas, prepotentes, perigosas. Começo a recear o que possa estar para acontecer.



La directora del Fondo Monetario Internacional, Christine Lagarde, conversa con el prersidente del Eurogroupo, Jeroen Dijsselbloem.


Quieren que Atenas apruebe leyes de urgencia, en 48 horas. Reclaman endurecer las reformas y recortes que planeaba hacer Grecia en su petición de rescate (entre ellas, en pensiones y mercado laboral). Y plantean incluso la puesta en marcha de un fondo de venta de activos públicos por 50.000 millones, y bajo tutela de la UE, para forzar a Grecia a ir devolviendo la deuda a medida que vaya haciendo caja. La impulsora de esa idea y de la amenaza del Grexit, la canciller Angela Merkel, dijo a su entrada a la cumbre que en ningún caso habría “un acuerdo a cualquier precio”.

Los deberes que la UE pone a Tsipras


Fondo de privatizaciones. Es la principal novedad de las medidas discutidas ayer. Europa propone crear un fondo por valor de 50.000 millones de euros al que Grecia transfiera sus activos privatizables y cuyos beneficios sirvan para reducir la deuda. Aunque ese instrumento quedará en manos de las autoridades griegas, contará “con la supervisión de las instituciones europeas relevantes”, algo que puede resultar difícil de asumir para Atenas.
Cambios en las pensiones. La UE pide “reformas de pensiones ambiciosas” y medidas para lograr déficit cero en las cuentas públicas.
Mercado laboral. Las demandas europeas incluyen un endurecimiento adicional en las leyes laborales. Los socios abogan por “revisiones rigurosas” de la negociación colectiva, la política industrial y los despidos colectivos. Y sugieren “no volver a políticas del pasado”.
Sector financiero. Es el talón de Aquiles griego. Europa pide “medidas decisivas” en los créditos con riesgo de impago.
PrivatizacionesLos socios quieren más privatizaciones, incluida la red eléctrica, que Atenas pretende mantener en poder del Estado.

....

Um atentado. Uma vergonha. Uma coisa inadmissível.

....

Mas ouçamos quem fala com palavras que vêem ao longe. Ouçamos José Saramago: 

"A democracia em que vivemos é uma democracia sequestrada, condicionada, amputada..."




.....

A mim, conforme referi no post abaixo, o que a intuição me diz é que a solução digna para a Grécia seria pedir apoio e tempo para sair do euro pelo seu próprio pé. 

O atentado à soberania grega deveria merecer um repúdio firme por parte de toda a Europa mas, sabendo que a Europa está em grande parte na mão de uma cambada de pegas, de beatas, de virgens, de vendidos, de sacristãos lambe-cus, de totós, de atrasados mentais, temo bem que nenhum mexa uma palha para se revoltar contra o que está a acontecer. E, face a isso, mais valia que os gregos dessem com os pés nesta tropa fandanga e recuperassem a sua dignidade.
Os gregos e nós e todos os que se têm visto vergados aos pés desta cambada que impõe sacrifícios absurdos à população apenas para benefício de interesses financeiros agiotas, transnacionais, poderosos de tão omnipresentes e invisíveis que são.
...

Lá em cima, o vídeo mostra Zorba, o Grego. Ballet por Mikis Theodorakis - 
- Sofia National Opera and Ballet

...

Relembro que, se vos apetecer espairecer e ver como estão grandes os meus meninininhos mais fofos, mais lindos, e saber como passei o meu domingo, podem descer até ao post seguinte.

...

Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela semana a começar já por esta semana.

Coragem, dignidade, firmeza, orgulho.

...

terça-feira, junho 16, 2015

Berlim em Julho de 1945


Acabei de receber um mail - que agradeço - com um vídeo que, de facto, tal como se anuncia, é impressionante.

Transcrevo o texto que acompanha o vídeo depois de o ter aportuguesado 
(chegou-me com cheirinho a português do Brasil):

Material filmado logo após o fim da segunda guerra em Berlin, que só recentemente se tornou disponível.

Note que  95% dos  edifícios foram destruídos; peões e ciclistas circulando, raros automóveis. Mulheres limpam entulhos sem ferramentas; pisos e calçadas sendo restauradas por meninos. Há autocarros  em circulação e o metro  já funcionava. Soldados  americanos e russos em toda parte e polícias  alemães controlam o tráfego.O lento retorno à  vida “normal”.

Foi a Segunda Guerra Mundial, a ser  lembrada  para que as novas gerações evitem desastres iguais..!



Sensationelles Filmmaterial! Berlin nach der Apokalypse in Farbe und HD - Berlin In July 1945


Entretanto, creio ter descoberto o filme completo. 



....

quarta-feira, novembro 05, 2014

Angela Merkel diz que Portugal tem demasiados licenciados. Pudera. Há exactamente dois anos, Nuno Crato fez um acordo com ela relativo à importação para Portugal do modelo de ensino profissional e disse que "dentro um ou dois anos gostaria de ver metade dos alunos portugueses a frequentar o ensino profissional." E a matrafona está a cobrar. Olha quem. Os alemães levam os negócios muito a sério. O problema não está nela, o problema está em quem nos governa.




Esta terça feira deu que falar a boca da matrafona Angela Dorothea sobre Portugal ter licenciados a mais.


Ora bem. 

Sabendo-se que a percentagem de licenciados em Portugal está bem abaixo da média europeia e da média da própria Alemanha, a gente pode interrogar-se: mas a mulher não se informou? 

[Em 2013, 25,3% das pessoas na União Europeia têm cursos superiores (25,1% na Alemanha), enquanto a percentagem portuguesa era de 17,6%]

Manda bocas sobre o que não lhe diz respeito a que propósito?

Olha se o Passos Coelho diz em público que na Alemanha há mulheres a mais a usarem cuecas de gola alta? Saltavam-lhe todos em cima, e muito justamente, que ele não tinha nada a ver com isso.

Claro que esta minha suposição é meramente académica já que Passos Coelho, sabendo que a sua santa Merkel só usa cuecas da avó, jamais criticaria quem usa lingerie do mesmo tipo que ela.

Também claro está que se o dito Capacho-de-pêlo-de-Coelho tivesse algum brio, lhe saltava em cima, Olhe lá, ó sua bardajona, dá-lhe jeito que a malta cá se fique pelos cursos para canalizadores e cabeleireiras para irem fazer a ménage lá nas vossas casinhas e para ver se arranjam penteados que favoreçam mais as sargentonas como você, não?

Mas é escusado. Habituada a ver-se como o único ser dotado de testículos, a Angela Dorothea fala grosso e diz o que lhe apetece e quem não goste que coma só as batatas.

Mas, deixemo-nos de teorias.


A chanceler alemã, Angela Merkel, disse nesta terça-feira que países como Portugal e Espanha têm demasiados licenciados, o que faz com que não tenham noção das vantagens do ensino vocacional.
Citada pela agência de informação financeira Bloomberg, a chanceler alemã afirmou que o enfoque nos estudos universitários como um feito de topo da carreira é algo do qual deve haver um afastamento.
"Caso contrário, não conseguiremos persuadir países como Espanha e Portugal, que têm demasiados licenciados", dos benefícios do ensino vocacional, acrescentou a líder alemã, durante uma intervenção na confederação das associações patronais daquele país (BDA, na sigla em alemão).

Ora bem. Chegámos ao ponto. 

A badocha não se enganou nem está a «filosofar": está simplesmente a fazer um ponto de situação. Havia um compromisso para os alemães venderem formação profissional a Portugal e, pelos vistos, não se estão a atingir os números pretendidos. 

Os alemães, meus Caros, não brincam em serviço (e isso é mérito deles).

Deixem que vos diga. Estou habituada a trabalhar com alemães. É gente focada. Querem planear tudo, não deixam nada ao improviso, tornam-se maçadores prevendo todos os cenários possíveis e imaginários. Mas, uma vez estabelecido um plano, são como cães: não largam o osso mas nem por mais uma. 

É o que a badocha está a fazer. 

Recuo no tempo, exactamente dois anos, 4 de novembro de 2012, e transcrevo de novo:

Nuno Crato assina acordo em Berlim para reforçar ensino profissional


Na capital alemã, o governante português vai reunir com a ministra da Educação e Investigação, Annette Schavan, com que vai assinar um memorando de entendimento para a cooperação na área do ensino profissional.
Isto porque, vincou Nuno Crato, existe em Portugal um "grande desfasamento" entre a preparação que é fornecida aos jovens e as necessidades do mercado de trabalho.
Uma situação que, com a "difícil situação económica" que o país atravessa, torna mais "prioritário" ainda apostar num ensino que permita aos jovens uma "entrada mais rápida para uma profissão".
A possível aplicação, em Portugal, de um sistema dual de formação profissional, à semelhança daquele que vigora na Alemanha, é um dossier que está a ser gerido pelo Ministério da Educação e Ministério da Economia e do Emprego Nuno Crato explicou à Lusa que a ministra da Educação alemã decidiu "antecipar" a assinatura do acordo, uma vez que o ensino profissional será um "tema importante" durante a visita oficial que a chanceler alemã Angela Merkel realiza, a 12 de novembro, a Portugal.

Nessa mesma altura o C-Rato, essa infeliz criatura a quem é permitido que ainda se mantenha em funções como Ministro da Educação, dizia:

(Nuno Crato, falando no encontro empresarial luso-alemão no âmbito da visita da chanceler Angela Merkel): dentro um ou dois anos gostaria de ver metade dos alunos portugueses a frequentar o ensino profissional.

Não fez por menos. Metade!

Ou seja, nada de ilusões, meus Caros, a matrafona defende os interesses alemães como um cão defende o dono e parvos são os que não fazem o mesmo ou se deixam subjugar como pássaros atordoados perante a goela aberta de uma jibóia: a Alemanha faz regulamentos que obrigam as escolas a terem climatização cujos requisitos apenas são cumpridos por equipamento alemão, faz acordos dos mais diversos tipos em que se compromete a apoiar qualquer coisas mas sempre a troco de se lhes comprar mais isto, aquilo, o outro e ainda um par de botas, e só não vendem a mãezinha deles porque têm ainda muito para vender antes de chegar a vez da mãe.

Se os portugueses aprendessem a portar-se como gente em vez de se portarem como capachos, se batessem o pé em vez de levarem raspanetes de orelha caída, se lutassem pelo desenvolvimento do seu País em vez de aceitarem ser um exportador de mão de obra barata, se defendessem a aprendizagem e a investigação em vez de aceitarem uns indigentes mentais como governantes que só querem arruinar o ensino em Portugal, talvez a furona Angela Merkel se mantivesse sossegada dentro das suas fronteiras.

Portanto, de cada vez que ouvirmos que deveríamos ser canalizadores ou pedreiros em vez de pretendermos ser engenheiros ou doutores, não deveríamos ficar furiosos contra quem nos diz isso mas sim contra nós próprios, cambada de bananas.


.....

sábado, junho 07, 2014

Normandia. As praias do desembarque - um dos passeios que, até hoje, mais gostei de fazer






O meu marido gosta muito de história. Eu nem tanto, apenas pela rama, de forma superficial ou genérica. Ia dizer que o meu marido sabe tudo sobre a II Guerra mas seria disparate dizê-lo. Ninguém sabe tudo, muito menos um simples amador. Mas sabe muito. O meu filho, sobretudo por influência de filmes e séries - tantas vezes que ele viu o Resgate do Soldado Ryan e Band of Brothers, uma das suas séries de culto - também sabe bastante e a 'cena' do desembarque sempre foi um momento que o emocionou bastante.

Por isso, há algum tempo, não muito - o meu filho vivia ainda connosco e a minha filha era recém-casada -resolvemos ir fazer um passeio pela Normandia, conhecer as praias do desembarque.

Ela não foi, claro, e bem preocupada estive enquanto andava por lá, com Portugal a arder - víamos na televisão, e ela acabada de vir da lua de mel, com o marido num sítio que os sogros têm no Alentejo com os sobreiros a arderem e a quererem defender o máximo de árvores e eu com medo que lhe acontecesse alguma coisa. Quando chegávamos ao hotel e víamos as notícias, só víamos os incêndios a varrerem Portugal de uma ponta a outra e víamos como aquela zona estava atravessada por incêndios incontroláveis e, depois, falava com ela e ficava ainda mais preocupada, não havia bombeiros que chegassem, tentavam eles próprios apagar o fogo, ele, o irmão, o pai, o caseiro, e eu tinha medo que ela também andasse por perto ou que o fogo cercasse a casa. Uma pessoa estar longe numa altura destas custa um bocado. Quando regressámos. fomos lá e fazia muita impressão, uma extensão enorme toda queimada. Uma árvore ardida e ainda de pé é uma coisa triste de se ver. Mas algumas ressuscitaram. A natureza é extraordinária.

Mas, enfim, essa inquietação foi o aspecto negativo da viagem (e isso aconteceu mais para a parte final - lembro-me muito bem, por exemplo, de estar a jantar numa esplanada de Saint-Malo e falar com ela por telefone e ela estar tão assustada que o jantar nem me soube a nada, de preocupada que fiquei), porque, tirando isso, foi dos passeios que mais gostei de fazer. Gosto imenso de França, conheço razoavelmente Paris e o meu marido ainda mais que eu, mas a Normandia não conhecíamos.

Tirei muitas fotografias mas, sendo eu tão adepta de modernices, nisto da fotografia mantive-me clássica até não há muito tempo. Tinha uma Pentax que parecia fazer parte de mim, focava, tinha zoom manual,  regulava a abertura, a exposição, e ainda com rolo que depois mandava revelar, e parecia-me um atentado à arte o uso de máquinas digitais. Estupidez. Tinha na altura uma digital, HP, tinha sido cara mas não me parecia ter qualidade suficiente, não me seduzia. Além disso, a bateria esgotava-se rapidamente. Andava com ela mas, de facto, não a usava. Por isso, dessa viagem fiz muitos rolos que depois passei a papel mas, agora, se quisesse mostrar aqui teria que fotografar as fotografias.

Por isso, não vou usar as minhas fotografias dessa bela viagem. Vou usar as que encontrar através do google.


Em termos turísticos, seguimos o Guia Michelin e percorremos as belas aldeias, imaculadas e floridas, experimentámos os restaurantes recomendados, comemos excelentes ostras em esplanadas sobre os rios, em locais divinos, deliciámo-nos com mexilhões em restaurantes típicos localizados em pracetas históricas, ficámos em hotéis especiais (um deles, um dos que melhores memórias me deixou até hoje, o Le Chat em Honfleur e do qual já aqui falei).


Mas, em termos históricos, fomos pelo conhecimento deles. Visitámos todos os locais marcantes, todas as praias e, nestas, os bunkers, os locais de vigilância nas dunas.

Uma vez andávamos por lá, nas dunas, e o meu filho e o meu marido diziam que deveria haver ali, num determinado sítio, um bunker - mas não se via e eu dizia, sabem lá vocês, mas afinal, no meio da vegetação, lá estava.


Visitámo-los por dentro, tal como visitámos os pequenos museus locais com fotografias, memoriais, armamento, fardas.

E posicionámo-nos nos locais de onde melhor se via a praia e, tão vívidas as imagens que temos dos filmes, facilmente imaginávamos o que teria sido aquilo no dia D.

Por um lado parece coisa de filme mas, depois ali, os pés na areia, tudo tão real, percebemos que aconteceu mesmo e que não foi assim há tanto tempo.

A água naquelas praias estava quente.

Em algumas zonas da costa de França passa uma corrente quente que não esperamos encontrar quando estamos ali.

E há muitos limos, altos, uma coisa compacta. Faz impressão. Ninguém usava aquelas praias como praias.

No entanto, eu não resisti e entrei sempre pela água mas fez-me muita impressão. Os limos roçavam-me nas pernas e a água estava mesmo morna, uma sensação muito estranha. E o meu filho, para me assustar, perguntava se eu não sentia nenhum braço a puxar por mim de dentro de água.

Acabava sempre por sair da água meio assustada, quase me pareceria normal que a água estivesse ensanguentada.

Omaha, Utah, o meu filho e o meu marido a falarem de estratégias, de nomes, de datas, de episódios. 

E as aldeias onde sabemos que se dançou na rua a festejar a libertação. Senti-me sempre emocionada nestes locais.


E os cemitérios. O cemitério americano, cruzes brancas num imenso relvado de onde se vê um mar muito azul. Andei lá pelo meio. Tantos nomes. Tão impressionante. Tantos, tantos, tantos jovens deram a vida pela libertação. 

Quem hoje menospreza a democracia e a liberdade saberá que tantos jovens morreram por elas?

Logo a França, logo a França que testemunhou o desembarque dos que vieram libertá-la, está hoje como está a nível político.

Nessa altura visitámos também a Bretanha, igualmente com casas encantadoras, tudo muito arranjado e florido, até as paragens de autocarro no meio de estradas ladeadas por árvores, têm canteiros e vasos de flores.

É tudo tão bonito que só não vos sugiro que vão até lá este verão porque a vida está difícil e, assim como assim, o nosso país é também tão belo que é mal empregado irmos gastar dinheiro lá para fora em vez de o mantermos cá dentro.

Mas, a quem possa, ou quando puder, acho que é um passeio tão bom que é pena que um dia o não façam. E até dá para ir de carro já que é tudo bonito. As portagens em França são fogo mas, enfim, cá também já o são.

Bayeux, Saint-Malo, Honfleur, Dinard, locais tão bonitos. Penso muitas vezes que tenho que lá voltar. Há qualquer coisa de romântico, de envolvente, sentimo-nos tocados por aqueles locais. Não sei se é o peso histórico, se é a beleza natural, se é o carinho que as pessoas põem na preservação daqueles locais. Talvez seja tudo isso.

E também a gastronomia... Eu, que adoro ostras, por lá há-as com fartura, fresquíssimas, praticamente cruas a saberem a mar, servidas sobre gelo, apenas com limão ou manteiga para quem as queira temperar.

Amar a Europa é amar os locais onde a Europa se fez, onde os valores mais nobres se afirmaram, onde a nobreza de carácter, a generosidade, a bravura e o despojamento ficaram impressos na terra, nos edifícios, na memória das pessoas. Amar a Europa é querer que se mantenha livre e democrática, é festejá-la, é senti-la como ela deve ser sentida: um ideal vivo pelo qual vale a pena lutar, não uma teia burocrática, entregue a espíritos mesquinhos e ignorantes.
_  _



___

Desejo-vos, meus Caros Leitores, um bom fim de semana.

_

terça-feira, março 18, 2014

Depois de uma relação não consumada com António José Seguro, Passos Coelho parte esta terça feira para ver se dá a volta à Merkel. Há uns dias já lá esteve o seu discípulo, o alemão arraçado de polaca Bruno Maçães, para explicar aos alemães que têm muito que aprender com Portugal.


Bem. Ora deixem cá ver. No post a seguir a este, ensino uma certa pessoa - e a quem mais achar útil - como tratar do torcicolo de uma senhora (atenção, convém certificar-se que é mesmo uma senhora, não vá o diabo tecê-las). 

No post ainda mais abaixo tenho uma massagem especial para homens. 

Ou seja, depois deste, os posts não são para almas sensíveis - e não digam que não avisei.

Mas isso é depois. Aqui, agora, a conversa fia fino.

*

Que entre o Toreador



*


Passos Coelho, esse castigador, resolveu convidar o TotóZero para uma sessão a dois. Convidou por carta, todo ele armado em convencional. Deve ter passado o fim de semana a sonhar com a noiva, longas tranças, debruçada à janela do Rato. No intervalo destes arroubos, Passos vai roubando velhinhas e viúvas, pisando doentes e sacando o pão da boca das criancinhas mais desfavorecidas. Depois, volta e meia dá-lhe para isto, para o romantismo.

Imagino-os esta segunda feira, durante o encontro. O putativo barítono todo fanfarrão, fácies hirto, sorrisinho irritante, todo ele moralista, armado em bom, preparado para usar a sua posição dominante. E, à sua frente, o Totó, carinha de piu piu, muito agastado, a começar cada frase por 'eu peço desculpa...'.

Li agora nos jornais online que a coisa não resultou. Três horas andaram os dois à volta da mesa mas não pintou. Não houve clima. E, se não pintou, muito menos rolou. Não sei a qual dos dois atribuir a disfunção que fez falhar o acto. O mais certo é que tenham falhado os dois. O Tozé cheio de nódoas negras pelo corpo todo, tantos biqueiros tem levado de todo o lado, o Láparo habituado a agir à bruta, sem cuidado nenhum. Não funcionou, pois. Insanável, diz o Totó.


Era expectável.

Depois desta nega, o Láparo segue esta terça feira para a Alemanha onde vai ver, junto da matrafona Merkel, o que é que ela o deixa fazer. Aí passa-lhe toda a farronca. Ele sabe que, se lhe apetecer mijar fora do penico, a Merkel vira Gonzaga e aplica-lhe o bónus mesmo sem massagem prévia nem óleo.

Por isso, quando vai ao beija mão à madrinha, o Láparo vai de fininho. Piu, piu, aqui quem pia agora sou eu.

Além do mais, já fez saber que aquela do Bruninho no outro dia foi coisa à toa: o catraio estava com os copos, estava a querer impressionar umas polacas, não sei o que passou pela cabeça, é disfuncional, o gaiato, quando se vê rodeado de louras, solta-se, torna-se inconveniente, arma-se em bom sem tento nenhum na língua, terá ele mandado dizer.

Transcrevo a notícia de 11 de Março para os que não sabem do que é que estou a falar: 

"Todos sabemos a força do setor industrial alemão" (...) mas o setor dos serviços "não é competitivo do mesmo modo", afirmou Bruno Maçães no encerramento do II Fórum Luso-Alemão, que decorreu esta segunda-feira e hoje na capital alemã.


"Parece-me claro que, sobretudo no setor dos serviços, há muitas reformas que a Alemanha precisa de fazer", defendeu, em declarações à Lusa.

(...)

"Um setor de serviços mais aberto e competitivo teria mais investimento, mais empresas novas, o que levaria os trabalhadores menos qualificados do setor industrial a mover-se para o setor dos serviços. O setor industrial alemão subiria na cadeia de valor (...)


Quando leram estas palavras, imagino os ideólogos do regime, os iluminados Poiazita Madura e Lombinha dos ex-Briefings, a nem quererem acreditar. A questionarem-se: 'Mas what the hell...? Estaria com os copos ou teria inalado substâncias alucinogéneas? Raios partam o Brunocas! Aquilo viu-se rodeado de louras e resolveu armar-se em super herói". 

Depois a irem logo a correr, avisar o Láparo que terá mandado falar com o Machete, para ver se ele amaciava a Merkel e o seu cão de guarda, o das finanças.

A ver como corre esta terça feira a delegação dos indigentes. Lá deve ir o Láparo mais a pinókia e o porta-moedas, sabujos, servis, de gatas e às arrecuas. Não sei se vão levar o vice-irrevogável mas tanto faz.

A Merkel, aperreada com o que se está a passar a leste, a ser acusada de falta de sensibilidade e que será dela a culpa se a 3ª guerra mundial eclodir, deve estar bem a marimbar-se para este bando de pobrezinhos, ó atraso de vida.


Isto é tudo uma palhaçada, é o que é. Não dá para se levar a sério rábulas tão mal paridas com tão fracos personagens, pois não?

**

As imagens provêm, como é bom de ver, do blogue We Have Kaos in the Garden

Lá em cima é Ludovic Tézier a interpretar o 'Toreador ' da ópera Carmen de Bizet

**

E, assim sendo, sigam por favor para bingo. Desçam um pouco mais e encontrarão um endireita à altura da minha assistente Martina Hill e, a seguir, uma massagem com bónus no final.

**

Hoje vinha imbuída das melhores intenções, até vinha a pensar numa daquelas em full white, silêncio e palavras brancas. A sério. Não parece mas é verdade. Mas, vá lá eu saber porquê, uma driving force qualquer puxou-me para isto. E agora estou cheia de sono. As últimas semanas deram cabo de mim. Ando cheia de sono, nem sei o que é isto. Ainda só é uma da manhã e já estou a escrever de olhos meio fechados. E amanhã tenho que sair de casa mais cedo do que é costume e, só de pensar nisso, mais sono ainda me dá.

Por isso, despeço-me já (e desculpem, uma vez mais, não responder aos comentários).
Desejo-vos, meus Caros Leitores, um belo dia e desculpem lá qualquer coisinha.


quinta-feira, dezembro 12, 2013

74 refugiados sírios retidos no aeroporto dão uma chatice diplomática e causam uns transtornos com a Guiné-Bissau que só visto. Gente destas só sabe dar maçadas, não aprendem a estar na moita, a fazer as coisas sem ninguém dar por eles, não vêem como age o Deutsche Bank e a Goldman Sachs que, no maior low profile, já abicharam 7% dos CTT. Nem aprendem com aquela malta que se passeia com malas cheias de dinheiro e a quem ninguém faz perguntas e a quem se deixa que paguem impostos apenas quando lhes apetecer. Irra que esta gente não aprende...!


Quando na terça feira de manhã já estava a sair da autoestrada, ouvi que um grupo de pessoas tinha ficado retido no aeroporto. Não sabiam pormenores. Quando ao fim do dia vinha de volta, a notícia era mais concreta. Eram 74, provinham da Guiné-Bissau e desconfiava-se da veracidade dos passaportes. Na quarta feira de manhã, eu a caminho do trabalho, já referiam que eram sírios, que os passaportes eram falsos. Na quarta feira ao fim do dia já havia um conflito diplomático com a Guiné-Bissau e a TAP já tinha suspendido os voos.


Agora fui tentar saber mais alguma coisa mas já quase não encontro a notícia. Está em vias de deixar de ser notícia. Pouco consegui saber sobre estes 74 portadores de passaportes falsos que estão a causar tantos transtornos.

Quando estava quase a desistir de procurar, descobri que "há 12 crianças e uma mulher grávida, que já foi levada para o hospital. Apesar de os passaportes serem falsos, o SEF já conseguiu identificar que entre os passageiros existem várias famílias". 

Não sei quantos são homens, mulheres, novos, velhos. Não sei o que procuram, de que fogem, se deixaram familiares para trás, que riscos correram, que sonhos abandonaram, que amores sacrificaram. Mas, de tudo, faz-me ainda mais pena pensar que, entre os que estão retidos e a passarem por tudo isto, estejam 12 crianças. Tão cuidadosa que eu sou com as minhas crianças e estas para aqui andam em bolandas, a salto, a tentar ludibriar as autoridades, provavelmente transidas de medo. E os pais das crianças que queriam que elas escapassem à guerra, à fome, que tivessem um futuro melhor, agora são tratados não como pais corajosos mas com a indiferença que merecem os que atrapalham a diplomacia e o fluxo das carreiras aéreas regulares, gente que falsifica documentos, que mancha a fama de serviços que se querem eficientes.

E os jornalistas, formatados para se papaguearem uns aos outros e para se fazerem eco do que as agências de comunicação engendram, também os ignoram. Não interessam. Não são gente. São apenas 74 que para ali estão à espera que alguém resolva o que fazer com eles.

*
Música, por favor



Calabrese Máfia Music (Ndrangheta, Camurra e Máfia)


*

Entretanto começa a conhecer-se o resultado da venda dos CTT, nomeadamente o nome de alguns compradores de referência. 


Um é o Deutsche Bank com cerca de 2%, outro é a Goldman Sachs, com cerca de 5%. 



Supostamente são investidores financeiros e não estratégicos, gerem fundos, filam onde a carne é mais tenra, atiram-se à jugular das presas mais fáceis. O capitalismo sem rosto, os tubarões invisíveis, a imaterialidade do dinheiro sem pátria, o território onde não entram os fracos, os loosers, gente como os portugueses vítimas da crise que se apegam a constituições e outras inutilidades, nem, muito menos, criaturas sem identidade verdadeira como os 74 sírios portadores de passaportes falsificados.

*

Quem se salva no meio de todos estes mares de águas turvas, tormentosas?

Os de sempre. Por todo o lado. Os imediatamente acima referidos e os que abaixo agora se referem. Os mesmos. Sempre. Os que pagam a governantes fracos, os que mandam no mundo, os do mundo paralelo, os que não precisam de leis para se orientarem, os que, aliás, desprezam a lei.


Vejamos mais esta, por cá. Pago os meus impostos atempadamente, pelas vias normais. Se me atrasar, pagarei certamente coimas, isto se não vierem penhorar-me qualquer coisa.


No entanto, quem tem grandes dívidas fica ilibado: não apenas não paga coimas como, imagine-se!, pode aparecer com malas cheias de dinheiro - e isto sem que ninguém lhes vá à perna.


Transcrevo: As dívidas à Segurança Social vão poder ser pagas em dinheiro, independentemente do valor em causa. O governo publicou ontem um despacho mudando as regras para a regularização de dívidas, no âmbito do "regime excepcional e temporário" aberto no início de Novembro.


O Secretário de Estado voltou a aligeirar as regras para a regularização de dívidas dos contribuintes e empresas à Segurança Social, anulando as condições estabelecidas há pouco mais de duas semanas, a 22 de Novembro. Nessa altura, o pagamento de valores em falta através de numerário ficou limitado ao valor máximo de 150 euros. Mas, com o despacho publicado ontem em Diário da República, o governo admite a regularização de dívidas com um pagamento ilimitado em dinheiro. 


Corrupção, ladroagem, tráfico de bens ilícitos, lavagem de dinheiro - todos bem vindos desde que paguem os impostos. Ninguém questionará de onde vem o dinheiro em notas e ninguém os fará pagar juros de atrasos de pagamento.

É o Governo português a lavar as mãos da moral, dos bons costumes, da ética.

Nada de mais: já o fez várias vezes antes e, até que seja apeado, muito mais vezes o fará. Aliás, fá-lo-á sempre que puder.

**

Hoje não me ocorre nada agradável para aqui vos deixar. Lamento. Pode ser que amanhã aconteça um milagre e eu apareça aqui a festejá-lo.

Entretanto, para que não fiquem com amargos de boca, sugiro que venham até ao meu Ginjal e Lisboa onde hoje tenho O'Neill dito e cantado e, para quem os quiser seguir, também escrito: há palavras que nos beijam. Valha-nos isso.

***

Desejo-vos, meus Caros Leitores muita saúde e um dia muito feliz!