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segunda-feira, abril 07, 2025

No reino da beleza

 

Desde que frequento as agitadas paragens do Instagram deparo-me com milhares (quais milhares... certamente milhões, biliões, zetaliões) de coisas. Cada um mostra ali o melhor que sabe e pode, ou o que lhe apetece, ou sabe-se lá o quê. Mil obras de arte, mil arranjos florais, mil restauros de móveis, mil maneiras de parecer mais nova, mil maneiras de parecer bronzeada, mil maneiras de cortar o cabelo, mil exercícios e mil dietas para perder barriga, mil maneiras de fazer bolos sem ir ao forno, mil maneiras de fazer panquecas, mil livros, mil citações, mil gracinhas do cão, do gato, dos filhos, mil arco-íris, mil decorações de nails, mil, mil, mil de tudo e tudo elevado a um expoente que transforma os mil em muitos, muitos mil.

Apercebo-me, como se me pusessem uns óculos de realidade aumentada, excessivamente nítidos, quase insuportavelmente saturados, que há gostos para tudo, conceitos díspares a propósito de tudo, teorias para tudo. Não que não o intuísse, não que não o soubesse da minha vida real. Mas a amostra era curta: era apenas a realidade que eu conhecia. Agora a amostra é o mundo. Aparecem-me imagens e vídeos e palavras de todo o mundo.

E, no entanto, se, ao fim do dia, eu quiser dizer o que é que me ficou de tudo o que vi, vou ter a maior dificuldade. Talvez fiquem umas palavras límpidas ou uma pintura singela de alguém que já conhecia de outras paragens e que fui ali encontrar, talvez as imagens genuínas e as palavras espantosamente sinceras e simples da Gina, talvez uma forma engraçada de dobrar camisolas com capuz.

Mas aquilo é o mundo. Uma tremenda cacafonia em que parece que o que é mesmo relevante se esbate no meio de tanta exposição.

Fica-me, isso sim, a vontade de silêncio, de alguma reclusão, de regresso às origens, às flores, à terra molhada, ao canto dos pássaros, a vontade da amabilidade sincera, simples, autêntica, a saudade de palavras transparentes.

Debruço-me, então, e vou em busca de uma pedra, de um cogumelo, de um líquen, de uma gota de água a escorrer de uma folha, do reflexo de uma nuvem na água que fica sobre a terra.

E depois é isso. Só isso. O reino da beleza das coisas simples. E chega-me.



segunda-feira, fevereiro 13, 2023

Há uma virtude sem a qual todas as outras são inúteis: essa virtude é o encanto.

 



Tenho dormido bastante. Depois de dias algo incómodos e noites mal dormidas com o joelho inflamado e dorido (só com cortisona é que foi ao sítio), eis que, no rescaldo, o corpo se tem desforrado. Durmo de noite e, a seguir ao almoço, é só encostar-me que logo adormeço.

De manhã fomos passear com a minha mãe. Deu-me uma joelheira elástica que era do meu pai. Coloquei-a e senti-me mais confortável. Parece que andava a sentir os ossos e as cartilagens como se estivessem à solta, agora que o inchaço passou e o quisto de Baker se esvaziou. 

Tínhamos pensado ir comprar comida chinesa para o almoço mas, afinal, o restaurante estava fechado. Já era tarde. Fui ao supermercado ver como resolvia a emergência e, como contra factos não há argumentos, trouxe frango assado. Devíamos estar com fome pois soube-nos lindamente.

A seguir, foi um sono tão profundo que até sonhei. Sonhei que o meu marido tinha lá chegado e, na brincadeira comigo, como se eu fosse uma menina de quatro anos, tinha pegado em mim ao colo e me tinha sentado na parte de cima de uma estante. E eu a protestar, que não gostava de estar nas alturas, e ele a troçar. Depois tinha ido buscar lenha para a lareira e tinha-me deixado ali. Eu a protestar, que me tirasse dali, e ele sem aparecer. Eu olhava para baixo para avaliar se tinha alguma hipótese de sair por mim. Não: muito alto para saltar e sem possibilidade de descer pela estante como se fosse uma escada pois esta poderia virar-se. Então, tinha resolvido que mais valia deixar-me ficar, aproveitar para dormir. 

Quando já passava das cinco, acordei e olhei à volta, convencida que ainda estava sentada lá em cima.

Levantei-me do cadeirão. O cão levantou-se também, tinha estado a dormir no chão, ao meu lado.

Se há prazer de que tenho desfrutado é vir para aqui à tarde. Afasto o cortinado para entrar a luz, pelo sim pelo não ligo o candeeiro de pé, cubro-me com uma mantinha leve e aveludada, ponho-me a ler... e deixo-me ir. Maravilha.

Quando me vê a dirigir-me para as escadas o ursinho cabeludo aparece logo, parece que pressente. Subo, ele também. Eu sento-me e ele também. Eu adormeço e, creio, ele também. 

Valiosos momentos de tranquilidade.

Hoje estava a ler a Biblioteca Pessoal de Jorge Luis Borges. Outro prazer. 

Ao fim da tarde fomos dar um passeio por aqui. O céu estrelado, a noite fria mas agradável. Só nós na rua. As casas com as luzes acesas, algumas com o interior à vista. Sempre gostei de passear à noite vendo o que, de fora, parece sempre aconchego e intimidade. Em algumas casas, a escadaria entre os pisos é acompanhada por um enorme painel de vidro que dá para a rua. Vê-se tudo, em especial à noite, quando têm a luz acesa. Pergunto-me sempre: não lhes acontece andarem meio despidos? Não se importam se alguém, na rua, os vir?

Há uma casa nova em que a cozinha dá para a rua, com uma janela de vidro de parede a parede. Quando estão a cozinhar ou a lavar a louça estão à janela, virados para quem passa. Fico sempre na dúvida sobre o que devo fazer: fazer-lhes adeus para os cumprimentar ou fazer de conta que não vejo. 

Na casa grande cujas traseiras dão para um caminho a partir do qual não há mais casas e em que tudo era envidraçado, sem estores ou cortinas, incluindo o grande quarto de dormir, há agora, justamente aí, um estore de lâminas verticais de madeira. Sinceramente, quando o vi até me senti aliviada pois temia o dia em que visse o que não queria ver.

Tirando isso: quase não temos visto televisão. E isso é muito bom.

Ligo o computador à noite e vou espreitar os vídeos. Gosto em particular de ver casas. Esta que aqui partilho é fantástica. Não que eu gostasse de morar numa casa assim. Mas gostaria de visitar o seu dono, andar a espreitar isto e aquilo, apreciar a elegância das escolhas. 
Claro que, como sempre, custa-me perceber como se limpa o pó a uma casa assim. E penso também noutra coisa: uma casa assim é uma casa para ser eterna. Ora, como ninguém é imortal, o que acontece a uma casa como esta, tão pessoal, tão especial, tão indissociável do seu dono, quando este se desprender da existência? 
Mas, enfim, ideias peregrinas à parte, é um gosto ver casas bem desenhadas e bem decoradas

Refúgio francês cheio de tesouros do designer John Galliano (com 7 objetos exclusivos) | Vogue


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Lá em cima, a música é de Handel: "Eternal Source of Light Divine", com Thomas Dunford, Jupiter, Lea Desandre, Iestyn Davies

O título do post são palavras de Stevenson citadas por Borges.

As pinturas são da autoria de Fujishima Takeji

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Desejo-vos uma boa semana a começar já nesta segunda-feira
Saúde. Serenidade. Paz.

sábado, dezembro 17, 2022

Uma sexta-feira com pouco de friday

 


Chegar a uma sexta-feira e ter que madrugar é uma coisa pouco simpática. Diria mesmo: pouco civilizada.

Se há coisa que almejo é poder acordar às horas que acordar, não ter que me levantar cedo e andar em contra-relógio,  cronometrar o que faço, a contar os minutos, a ter que me aperaltar à hora em que deveria estar a entrar no segundo sono. E tudo à justa. Engolir o pequeno almoço à pressa, lavar os dentes, mal ter tempo para olhar para o espelho e... mal dou por mim já estou sentada e pronta para a primeira reunião do dia.

E, aí chegada, eis que, estando já todos, constatamos que todos menos o 'artista convidado'. Passa um minuto e nada. Passam dois minutos e nada. Fico impaciente. Alguém contacta o retardatário. Entra pouco depois, que não tinha reparado nas horas. Não consigo dizer que não faz mal. Faz. Cada vez estou menos tolerante a atrasos. Frequentemente começo as reuniões antes de estarem todos. Quem não está, estivesse. Não suporto que alguém disponha do tempo dos outros, forçando-os à inactividade indesejada. Quando chegam, está a reunião em andamento. Geralmente não voltam a atrasar-se.

Outra coisa que também me custa cada vez mais são as pessoas que falam pelos cotovelos e que, quando se apanham com direito de antena, o usam e abusam sem respeito pela paciência dos outros. Para dizer uma coisa que se diz em menos de um minuto, dão voltas e voltas ao bilhar grande e a gente tem que aguentar ´para perceber a que propósito vem tudo aquilo e até que resolvam chutar à baliza. E, então, acontece-me interromper, dizer que já percebi e que digam onde querem chegar. Outras vezes faço ainda pior: interrompo e digo eu, em três tempos, o que o outro para ali anda a rabear. 

Penso que, quem é interrompido, deve achar que sou mal educada. Se calhar, sou. 

Mas, sinceramente, que se lixe: também eu acho que são mal educados os que, sem respeito, abusam da paciência dos outros. Mas, enfim, esforço-me por me controlar. A verdade é que reuniões que poderiam duram meia hora acabam por demorar três e quatro horas.

À hora de almoço fui para junto da natureza. 

Desesperada por não ter que aturar gente faladora, procurei a companhia das árvores, dos pássaros, da aragem. 

Sol de pouca dura.

Uma sucessão de telefonemas e de maçadas forçaram-me a almoçar já passava das três. E à primeira garfada na boca chegou uma chamada pela qual esperava com uma certa expectativa.

Por isso, acabei de almoçar tarde e as restantes horas foram igualmente preenchidas. E, com isto, já ia a chegar a casa da minha mãe quando me lembrei que me tinha esquecido de uma chamada crítica na qual era suposto tratar de um assunto que me preocupava há tempo. Como foi possível? Como fui esquecer-me? Fiquei a pensar: desinteresse, cansaço? Alguma vez, antes, eu ia esquecer-me de fazer uma chamada daquelas...?

Depois, já em casa da minha mãe, e ainda estava com chamadas. Uma sexta-feira com muito pouco de happy friday. Um saco.

Sorte que, vinda de lá, tarde e más horas, fomos passear para a beira da praia. Noite. Quase sem vivalma. Frio, o ar húmido. Gosto do ar assim. O frio percorre-me e eu sinto que é uma injecção de saúde. Acelerei. Apetecia-me andar depressa. O mar imenso, majestoso, um som quase discreto. O cão feliz da vida, a correr, a andar apressadamente, o rabinho a dar a dar, a farejar as pedras, a aspirar a maresia.

Voltámos para casa tarde, o pobre do cão já deserto por dormir sossegado. Dorme agora, enroscado. E eu vou fazer o mesmo.

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Mas, antes, deixem que partilhe convosco um belo, belíssimo, jardim e, a seguir, um loft, estúdio de artista

Visitando os jardins murados isolados em Petworth House 

The World of Interiors apresenta o Livro de Visitantes com Caroline Egremont na Petworth House. Como atual guardiã da Petworth House, Caroline recebe-nos nos jardins privados murados, localizados na paróquia de Petworth, West Sussex.

À medida que percorremos a paisagem pitoresca, desenvolvemos uma compreensão de como e por que Caroline guiou o fluxo dentro do espaço por meio do uso de pérgulas e passagens habilmente definidas: “Existem três arcos alinhados, ao longo do jardim de seis acres. E a razão para os arcos estarem alinhados é porque os cavalos e as carruagens costumavam descer para pegar os produtos da horta para levar para casa. 


Esta casa é o sonho de todo o artista - ele mora num loft industrial tipo armazém gigante
Ele sonhava desde criança em morar num loft todo aberto, estilo industrial, armazém com pé direito alto, espaços amplos. Morar e trabalhar no mesmo lugar...

O artista plástico Sandro Akel recebeu-nos na sua casa incrível para mostrar o estilo de vida descomplicado e muito inspirador!
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As fotografias são algumas das belíssimas que fazem parte da série 50 Times People Snapped A Picture And It Turned Out To Be An ‘Accidental Renaissance’ e vêm na companhia de Iestyn Davies que interpreta Handel: Saul, HWV 53, Act I: "Oh Lord, Whose Mercies Numberless"

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Desejo-vos um bom sábado
Saúde. Boa onda. Paz

segunda-feira, dezembro 05, 2022

Um ouriço-cacheiro, um ninho na roseira, uma avenida com árvores que têm pombas brancas suspensas, duas pessoas iguais. E etc.

 

Este meu fim de semana foi muito atípico, com alguns imprevistos francamente dispensáveis. Pelo que intuo, as coisas poderão não ser o que parecem e todos os transtornos poderão ter sido (e estar a ser) em vão. Mas, enfim, se eu tiver razão, menos mal. 

Por seu lado, os meninos finalmente parece que estão em fase de recuperação depois de se terem ido contagiando uns aos outros e depois de se estarem a livrar de todas as sequelas destas mal arraçadas gripes A (se é que tem sido isso que tem andado de uns para outros). Mas este fim de semana apenas os vimos por fotografias e vídeos. Apesar de se dizerem bem, estão fanhosos, ranhosos e com tosse. Mas já não há nenhum com febre ou com diarreias e, por isso, já se sentem bem. Espero que a partir de agora estejam bem e que a minha vida também se simplifique (e, claro, que a minha mãe fique bem) para que possamos estar outra vez todos juntos.

Apesar de tudo, antes de irmos para os nossos afazeres de ir buscar isto e aquilo, levar isto e aquilo, estar, voltar a ir levar isto e aquilo, conseguimos ir num saltinho até à Avenida da Liberdade, para um passeio com flavour natalício. Uma coisa é passar de carro e outra, bem diferente, é andar a pé a ver as montras, a ouvir as diferentes línguas de quem passa (muitos italianos!). As árvores estão lindas com pombas brancas suspensas. Muito bonito, simbólico. 

As grandes marcas estão lá todas a preços galácticos (ou seja, com preços à altura da carteira do Ronaldo e da sua Georgina do rabo alçado, mas muito aquém das carteiras dos vulgares mortais). Acho que, mesmo que me saísse o euromilhões, não quereria dar mil euros por uns pirosos ténis de plástico dourado ou dois mil por um vestidinho da treta, curto e de alças. Não gosto de gastar dinheiro mal gasto. Claro que poderia abrir uma ou outra pequena excepção como, por exemplo, num casacão largo de veludo muito fino em profundo azul marinho, quiçá Armani. Mas, enfim, preços à parte, há montras bem apelativas e é engraçado olhar lá para dentro, para os clientes. Como o zoom da minha máquina fotográfica não funciona, não tenho motivação para fazer as minhas habituais reportagens. Tenho que ver se arranjo tempo para ir ver se tem reparação.

Tive vontade de ficar por lá numa esplanada mas não apenas o nosso urso (antes felpudo e agora um fininho dog quase skinhead) estava connosco e costuma fazer má vizinhança pois, quando assentamos arraiais, seja onde for, acha que tem que nos guardar e em cada pessoa vê um possível agressor, como estava chuviscoso, pouco convidativo para esplanar (não confundir com explanar). Além de mais, o nosso programa de festas para depois de almoço estava carregadinho. Por isso, fomos comprar uma pizza e viemos despachá-la a casa antes de nos pormos a caminho.

Por tudo isto e porque quase nenhum tempo tive para mim, pouco tenho a dizer. 

Só me ocorre contar que, no outro dia, quando passeávamos à noite, o nosso amigo deu uma corrida sobressaltada em direcção a um muro. Lá chegado, estacou a ladrar, posto assim naquela posição de quem descobriu coisa, de quem está à espera que lhe deem pretexto para saltar em cima (quando aprender a falar, em ocasiões destas, certamente dirá 'make my day'). Olhei espantada e não vi nada. E, aqui chegada, repito em minha defesa: era de noite. Além disso, sou míope e não uso óculos. O meu marido ao princípio também não percebeu. Depois disse: é um ouriço. Aproximei-me. Há montinhos de caruma nos passeios e era isso que me tinha parecido. Mas, vendo bem, era mesmo: um ouriço! Usei o telemóvel e dei-lhe uma flashada a ver se o apanhava. E apanhei. Aqui o têm, abaixo. Até parece que era de dia, tal a luz que lhe foi despejada em cima. Ali estava encostadinho, certamente assustado com o ladrar e os saltos da fera, com a nossa presença.

No dia seguinte passei lá de dia e nem sinal dele. Aquilo que podemos observar, de dia, é uma pálida parte da animação que é a vida nocturna.


Também posso referir que no outro dia tive uma agradável surpresa. No meio dos ramos da roseira trepadeira junto à nossa entrada, um ninho. Um ninho relativamente pequeno mas, reparem abaixo, uma graça. Penso que deve ter sido feito relativamente depressa pois não tenho ideia de o ter visto antes. Ainda não tinha ovinhos lá dentro. Fiquei encantada. Os pássaros confiam no nosso pacifismo e isso deixa-me feliz. Costumo ver os ninhos nas árvores, em cima, e aqui também temos dois encostados à parede da casa, perto do telhado. Devem ser feitos com lamas e ramos pois parece que estão mesmo colados à casa. Este aqui não, este está pouco mais que à altura da minha cabeça, à altura das nossas mãos.


Também posso contar que hoje, quando íamos a passar na Avenida, vi um amigo nosso sentado numa esplanada. Ri-me, tirei os óculos escuros para me aproximar e cumprimentar. Espantei-me por ele ter ficado impassível e até surpreendido a olhar para mim. Em situações normais, ter-se-ia levantado e vindo a rir para nos cumprimentar. Foi nessa altura, quando estava mais próxima, que percebi que era uns palmos mais alto do que o nosso amigo. Disfarcei, segui, e disse ao meu marido: 'Viste? Não é igual, igualzinho ao Zé?'. O meu marido limitou-se a dizer: 'O dobro do Zé'. Rebati: 'Igual, igual. Só que é mais alto que o Zé. Só percebi isso quando me aproximei'. O meu marido acabou por me dar razão: 'Ao princípio também pensava que era ele'. 

Mas fiquei impressionada. Como é que é possível? Duas pessoas com caras iguais. Iguais. Que coisa tão estranha, tão estranha.

A mim já me aconteceu confundirem-me com outra pessoa e jurarem a pés juntos que era igual e que até a voz era igual. Uma coisa nos limites da improbabilidade. 

Enfim. 

E não me ocorre mais nada para contar.

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A música com que me despeço não tem propriamente a ver com o que escrevi. Mas agrada-me e quero ficar com ela aqui a acompanhar-me.

Lea Desandre interpreta Handel: 

The Triumph of Time and Truth, HWV 71: "Guardian Angels, Oh, Protect me"


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Desejo-vos uma boa semana a começar já por esta segunda-feira
Saúde. Confiança. Boa sorte. Paz.

terça-feira, novembro 01, 2022

O grande Raminhos e o seu TOC

 


Volto à saúde mental. Uma expressão que muito me agrada é aquela de que o cérebro é a última fronteira. Nada sabemos do que o habita. Ou melhor, saber até sabemos. Mas não conhecemos inteiramente o que há para além do que se sabe. Isso não sabemos. E isso é muito.

  • Somos o que a nossa mente é? 
  • E a mente é o que o cérebro processa? Ou é o que é, independentemente das faculdades dos neurónios e das sinapses?
  • E se há ligações no cérebro que, por doença ou acidente, não estão a funcionar bem? Deixamos de ser quem, na verdade, somos?
  • É a nossa maneira de ser, a nossa personalidade, que se altera ou, simplesmente, há algo que tem que ser tratado?

Por felicidade minha -- felicidade ou sorte, não sei -- até hoje ainda não sofri de depressão, não sofro de distúrbios obsessivos compulsivos e, se sinto ansiedade, parece-me legítima e controlável. 

Mas conheço quem já tenha sofrido ou sofra destas perturbações. E sei como sofrem... Um sofrimento terrível, muitas vezes dúvidas sobre se alguma vez vão conseguir ter uma vida normal ou ser capazes de experimentar a felicidade. Ouço as pessoas falar: acordar já com ansiedade mesmo não sabendo exactamente porquê, ter medos, por vezes medos abstractos, indefinidos, medos incapacitantes. 

Ou ter ataques de pânico, crises que se confundem com quase-morte. 

Há algum tempo alguém me contava que tinha tido mais um ataque e que, estando em casa sozinho, com medo de estar sem ter quem o acudisse e medo que fosse um problema de saúde 'a sério', ataque cardíaco, por exemplo, saiu e foi para o carro. Assim, se sucumbisse, talvez alguém o visse e socorresse.

De pessoas que têm assiduamente problemas deste tipo, medos, ansiedades, crises que parecem mesmo de saúde física -- e não de foro "mental" [como se o 'foro mental' não fosse também de ordem física...] -- pode dizer-se que essa é a sua maneira de ser, uma maneira de ser depressiva ou ansiosa, ou são pessoas que apenas estão doentes e a necessitar de tratamento?

Conheço uma pessoa que é obsessiva compulsiva e que, por exemplo, se está na dúvida sobre se desligou o computador, pede-nos a nós que vamos verificar senão ele já sabe que lá terá que voltar umas três vezes a fazer essa verificação. Já se conhece bem, já identificou o seu problema e já consegue lidar com ele, verbalizando as suas dificuldades. Mas não o consegue ultrapassar. Conta que, por exemplo, já se programa para sair mais cedo de casa do que seria necessário pois sabe que é mais que certo que volte várias vezes a casa para verificar se fechou a porta ou se desligou o gás ou a água. Conta que sabe que é absurdo mas que, se não o fizer, a meio do caminho dá meia volta e vai a casa fazer essa verificação.

E tive um colega que, quando havia reunião, nos pedia para fazer a acta, mesmo que tal não fosse necessário. Levava três cadernos e algumas canetas, cada uma de sua cor. E, consoante o que lhe parecia ser o tema dominante, escrevia em seu caderno, usando canetas de cores com sentidos por ele pré-definidos. Raramente participava na conversa tão concentrado estava no registo do que se passava. Antes de começar a escrever, era como um ritual: colocava à frente dele, muito alinhados, os três cadernos e as canetas. Nunca ninguém quis saber daqueles apontamentos. Dizia que tinha estantes cheias de cadernos. Contudo não o dizia com orgulho. Era quase como se fosse uma penitência à qual não conseguia fugir. Dizíamos-lhe que não era preciso, que deixasse para lá, que não se preocupasse em escrever a acta. Qual quê. Parecia que tinha que ser, que era uma compulsão. Claro que era alvo de gozação pelas costas e pela frente. Mas não conseguia parar. Uma vez pediu para sair da empresa, queria negociar a saída. Saiu, claro. Depois disso já publicou vários livros que acho que ninguém deve ler. Dizem-me que são livros chatos, intragáveis, ilógicos. Deve continuar a escrever, certamente de forma muito sistemática, mesmo que que não exista um propósito. 

Ainda existem muitos estigmas sobre as doenças mentais. Quem as sofre teme ser visto como maluco. Para os outros, alguém que se trata em psiquiatras ou psicólogos pode ainda ser visto como um fraco ou como um perturbado, inapto para funções mais exigentes. Ou confunde-se a doença com traços de personalidade. Muito desconhecimento, muito preconceito.

E falo isto sem conhecimentos, apenas pelo que ouço, pelo que leio. 

O que sei é que geralmente quem tem este tipo de problemas sofre muito mais do que sofresse de gastrite, de enxaquecas, de angina de peito ou de rinite alérgica. É que, nestes casos, a doença é reconhecida facilmente como doença e não há pudor ou receio em tratar. Já no caso de uma doença mental não apenas não é ainda frequentemente reconhecida como doença como, sendo-o, há algum receio de tratar-se, receio de adquirir habituação aos medicamentos, receio de ficar com as faculdades limitadas, receio de ficar conotado com uma personalidade fraca ou disfuncional.

Por isso, é importante partilhar testemunhos. Quem sofre não é o único a sofrer. Quem sofre deve poder saber que há tratamento, que há uma saída.

No outro dia já aqui partilhei a entrevista de João Vieira de Almeida sobre a depressão. Hoje partilho a entrevista ao Raminhos sobre o seu transtorno obsessivo compulsivo, a dúvida metódica transformada em paroxismo, em inferno. Uma vez mais, trata-se de uma entrevista da série Labirinto do Observador. Muito sincero, muito lúcido, muito explícito. 

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Raminhos: “‘Eh pá, não penses nisso’ é o pior que se pode dizer a alguém que lida com ansiedade"

Sentiu logo o estigma quando lhe falaram em medicação: "é porque sou maluco". António Raminhos fala sobre o seu transtorno obsessivo-compulsivo, que chegou a impedi-lo de sair de casa, no 'Labirinto — Conversas Sobre Saúde Mental'.


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Esculturas de Bruno Walpoth na companhia de Joyce DiDonato com Lascia ch'io pianga

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Um bom dia feriado
Saúde. Serenidade. Paz.

sábado, fevereiro 19, 2022

Escrever sem filtros

 

Não vou falar muito do meu dia. Deve ser uma seca para quem me lê, é sempre mais do mesmo. Por isso, limitar-me-ei a dizer muito pouca coisa. 

Tinha uma reunião manhã cedo e, de véspera, tinha-me queixado disso. Esta mania de marcarem reuniões de madrugada. Como não quero dizer que me deito às quinhentas, não tenho pretexto para dizer que à hora a que gostam de fazer reuniões estou eu ainda na melhor parte dos meus sonhos.

De facto, estava ainda a dormir, a sonhar que estava numa casa com uma parede azul-verde-turquesa-esmeralda e que estava a escolher objectos curiosos para a decorar. Lembro-me de uma caixa muito bonita com uma tampa de vidro e eu estava a colocar colares lá dentro e ia pendurar a caixa como objecto decorativo, ao alto, a tampa de vidro a parecer uma portinha que deixava ver a colorida pedraria dos colares. O tecto era branco e tinha a meio um florão estucado com um candelabro de Murano pendurado. Nisto, ouvi o meu marido a perguntar-me: 'Mas não tens uma reunião agora?' Levantei-me de um salto. Ele até disse: 'Calma! Não precisas de te levantar assim...' Pensei que me tinha esquecido de pôr o despertador. Afinal não. Devia já estar tão a dormir que o pus para uma hora depois. Por isso, tive cerca de quinze minutos para me preparar para me apresentar fresca, arranjada e desejavelmente assertiva na reunião. 

Portanto, começou assim o meu dia... e seguiu sempre a abrir.

Mas a seguir à hora de almoço peguei no livro e fui lá para fora, para o sol. Só que não havia sol. E o dog em vez de se deitar a dormir ao sol, talvez pela ausência do mesmo, resolveu pôr-se de pé a puxar por mim, a pôr a pata peluda em cima do livro, a esburacar-me as mangas. Fui buscar-lhe um ossinho a ver se se entretinha a roê-lo mas, qual quê, andou a atirá-lo, a saltar-lhe em cima, a escondê-lo e, pelo meio, punha-se de pé para me puxar o cabelo, para me descalçar as meias ou simplesmente para me moer a paciência. O meu marido critica-me: 'Não te impões... Bate-lhe'. Então, de vez em quando, dou-lhe uma tapa. Ele salta e volta ao mesmo ainda mais animado, até parece que a rir. O meu marido diz: 'Isso é que é bater? Para ele isso é uma brincadeira.'. Mas claro que não sou capaz de lhe bater com mais força. A coisa geralmente acalma-se quando o meu marido lhe dá um daqueles seus violentos gritos. Aí abana-se todo, como se para se sacudir (eu acho que é para fazer reset), e vai fazer outra coisa. Mas, muitas vezes, apenas faz um intervalo pois rapidamente volta ao mesmo. Até se cansar.

Mas, no meio, consegui ler mais um bom bocado do livro O ano do pensamento mágico. Não tarda estou a acabá-lo. É um livro muito tocante, muito sincero. A fragilidade de Joan, viúva, exposta de uma forma muito inocente, é verdadeiramente tocante. 

Já o falei: há no que ela diz muito do que a mim também me faz muita impressão -- a transição de um estado para o outro é coisa de um instante, de um acaso. Está-se bem e, no instante seguinte, já não se está. Ela interroga-se: e se, naquele dia, em vez daquilo, eu tivesse feito outra coisa? Joan percorre, de memória, todos os passos dados em conjunto, todas as palavras trocadas, tenta ver no computador dele as últimas palavras que escreveu. Tenta encontrar vestígios do que estava para vir, receia ter estado desatenta perante sinais que eram óbvios, tenta perceber se ele antevia, de alguma forma, que a sua vida estava prestes a extinguir-se. Percebo-a muito bem. Joan sente que, se de alguma forma conseguir desvendar o mistério, talvez consiga entrar melhor no mundo vazio, sem John. Tenta encontrar alguma racionalidade num mundo que, sem ele, lhe parece irracional. E, de uma forma muito íntima, muito ilógica, Joan deseja que o que aconteceu possa ser revertido. Um milagre da ciência ou qualquer outra coisa, não importa qual.

Enquanto tentava recuperar-se da perda do marido, a filha estava gravemente doente. O que Joan sofreu, o desgaste físico e psicológico a que esteve sujeita foram brutais. Perdeu imenso peso, ficou uma frágil pluma. 

Mas, ao contrário do que poderia pensar-se, não é um livro de autocomiseração. Escrito de forma seca, despojada, não há ali uma só lamechice. É uma escrita sem filtros. Quase parece uma escrita sem edição. As mãos escavando a mente e a alma.

Encontro também ali uma ideia que me é familiar. No meio da maior desgraça, eu dou por mim a tentar encontrar o lado positivo da coisa. Não há uma única situação em que isso não aconteça. Muitas vezes, interiormente condeno-me por dar por mim a tentar descobrir o lado positivo de uma coisa que é má de uma ponta a outra. Mas é involuntário. Apesar de ser uma coisa que nasce espontaneamente em qualquer ocasião, a verdade é que me ajuda a suportar os maus momentos e, ao mesmo tempo, ajuda-me a tentar ajudar os que estão inconsoláveis pelo que aconteceu.

Mas isto, a leitura, foi à hora de almoço.

A tarde foi bas (= business as usual). 

Mas conseguimos acabá-la um pouco mais cedo. Fomos caminhar e ainda era de dia. Ver os dias a crescerem traz-me alegria. Antes, ainda fui fotografar as magnólias que, prenunciando a primavera, já estão em flor. É uma árvore de um fantástico simbolismo: dá flor quando está despida. E se são belas e simples as suas flores. Emociono-me com as flores deste jardim que herdei, que uma mulher, antes de mim, imaginou, plantou, cuidou. Sei como é deixar para trás uma casa mas não imagino o que seja deixar para trás um jardim. Espero nunca ter que deixar.

Depois fomos ao supermercado. Depois à pet shop e dali ao restaurante buscar o jantar. Felizmente havia dinheiro nas duas carteiras pois o multibanco estava em baixo. 

Jantámos tarde, claro, mas, embora para aqui esteja como sempre estou (com sono), acho que foi um dia bom e, como estamos a entrar no fim-de-semana, sinto-me como se estivesse a entrar em férias. Contento-me com pouco e sinto-me agradecida com tudo. 

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Joan Didion's nephew reflects on her legacy and inspirations: 'Life was her material'


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Fotografias de Zara Carpenter na companhia de Emőke Baráth, Philippe Jaroussky, Artaserse – Handel: Lotario, HWV 26: "Scherza in mar la navicella"

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Desejo-vos um sábado agradável
Paz de espírito. Beleza. Afecto. Alegria.

quarta-feira, maio 26, 2021

O que é preciso para termos um dia bom?

 



No domingo passado olhei para a agenda desta semana e pensei que a semana ia ser mais calma. Afinal surgiram marcações diversas, incontornáveis, que se juntaram a outras minhas e o final acabou por sair sobrecarregado.

Hoje, em cima disto, apareci com uma dor num pé que não sei a que propósito veio. Deitei-me bem e acordei assim. Como geralmente durmo o sono dos justos, uma verdadeira pedra, não sei se estive horas a dormir em cima de um pé mal posto. O que sei é que não fui fazer a minha caminhada da hora do almoço. Agora estou com gelo. Ao fim do dia, enquanto telefonava, estive a andar lá fora mas devagar e a coxear. Coisa bonita, esta. 

E, agora aqui no sofá, voltei ao mesmo de ontem. Talvez devido ao conforto que o gelo proporciona, sentei-me e logo adormeci. 

No fim de semana não deu para descansar. No sábado fomos ao campo e não foi obra mole. Esta semana entrámos em pinturas. Para meu desgosto vamos mesmo manter as paredes rugosas. O pintor disse-me no outro dia: uns a quererem pôr as paredes assim, para darem um ar rústico, e a senhora a querer pô-las lisas. Pois é. A única pessoa que encontrámos que poderia fazê-lo, tentou tudo para me dissuadir e, no fim, nem orçamento apresentou. Os meus filhos e o meu marido não desgostam de as ver assim. O meu filho, então, achava um verdadeiro disparate metermo-nos num trabalho tão difícil para um resultado tão pouco diferenciado. Acabei por desistir, claro. 

Mas, para além das paredes pintadinhas de novo, todas as portas vão ficar branquinhas. Os tectos de madeira da zona mais antiga também vão ficar brancos. Perguntei ao senhor, que é uma simpatia, se poderia pintar também o aparador da sala de jantar e a cómoda e as duas mesas de cabeceira do meu quarto. Torceu-se todo, que é muito trabalho, que não lhe rende. O meu marido avisou-o: 'ela é sempre assim, começa com uma coisa mas depois não pára...'. Ao ouvir isso, o senhor deve ter tido pena de mim e disse: 'depois trago o mostruário das cores'. Portanto, se calhar vai mesmo adiante.

As janelas também serão novas e espero que, para além do conforto, fique tudo muito mais claro e bonito.

Os tapetes de arraiolos que fiz, com o generoso colorido da época, réplicas tão exactas quanto possível, provavelmente vão para a tal zona mais antiga da casa, a que tem as mezzanines e escadas em pedra. E, para a sala de jantar e de estar, a que há quem chame sala-comum, que é também, entre nós, chamada por sala da lareira, a ver se arranjo tapetes claros. Tenho muitas ideias e estou desejando pô-las em prática. Fecho os olhos e imagino-me lá, rodeada de luz e de paz. A minha filha enviou-me links para tapetes claros muito bonitos. Se for adiante com aquela mesa em branco patinado e tampo em carvalho cerusado que ando a namorar e se sempre pintarmos o aparador num cinza mate muito claro, acho que ficará bonito. Penso que toda a casa ficará ainda mais luminosa do que já é. 

Só gostaria de ter tempo para me atirar a vários outros móveis que lá tenho. Já vi umas latas de spray em lindas cores em tons pastel a matizar o branco. Há brancos de todas as cores. Tenho vontade de experimentar. Aquele frisson gostoso que sentia quando começava a pintar um quadro, sinto-o agora quando me ponho a pensar nisto e a imaginar-me a pintar alguns dos meus móveis.

No sábado retirámos e arrumámos as últimas coisas, as últimas roupas, os últimos quadros. O estúdio está cheio que nem um ovo. Com a casa quase vazia, só móveis, parte deles afastados das paredes, fiz uma limpeza. O meu marido achou um disparate: diz que a casa precisará de limpeza depois das pinturas, não antes. Mas faz-me impressão que alguém esteja em minha casa e a veja com algum cotão à vista. 

Mas, com isto, vim cansada. Salvou-me o geladão de que já falei

No domingo, vieram todos cá para casa. Não me canso de os cá ter. Todos: grandes, pequenos e a minha mãe que fomos buscar e levar à noite. O meu marido não estava tão convencido. Dizia que precisava de descansar e que queria ver a final da Taça (ou lá o que era). Mas depois também fica feliz. Já se sabe que é sempre aquela festa, aquelas brincadeiras, conversas, lanches reforçados. Estava vento e fazemos questão de estar na rua e isso foi o pior. Só a minha mãe é que está vacinada. Por isso, há que ter cuidado. Tivemos que nos agasalhar, claro. 

A minha mãe até andou de baloiço. Diz que quando cá está, ainda por cima a andar de baloiço, lhe parece que está num espaço zen. 

Mas, com isto, a verdade é que não consegui descansar. Às vezes sinto que uma sestazinha me cura de cansaços pretéritos e me previne de cansaços futuros. Mas não deu. Claro que foi infinitamente melhor assim. Gosto tanto de estar com eles. Acho que, para os meninos, o estarem juntos, na brincadeira, em total liberdade, é uma grande felicidade. E eu também sinto uma felicidade imensa na companhia de todos deles.

A minha mãe tricotou uma blusinha de fio fininho para a minha filha. Trouxe-a e fica-lhe lindamente. Nem a provou enquanto estava a ser feita. Apesar disso, assenta-lhe como uma luva e tem umas cores que lhe ficam mesmo bem. Vai fazer uma igual para a bisneta que, logo ali, provou a da tia para a minha mãe calcular as malhas que terá que retirar. Estava-lhe quase boa. 

Com as aulas na universidade sénior, com as suas caminhadas, com os seus tricots e com as suas leituras, a minha mãe está sempre ocupada. Ninguém diz a idade que tem, nem pelo aspecto físico nem pela energia e total independência que tem. Espero que os seus bons genes cheguem ainda melhores a toda a descendência. 

Tirando isso, estamos quase a entrar no verão. A nespereira grande está carregada e não temos como lá chegar. A romãzeira está a ficar com as suas belas florzinhas carnudas. Todas as flores estão a abrir em toda a sua alegria. Há pássaros por todo o lado. 

Pensando bem, isto pode ser uma caminhada feliz.


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As fotografias foram feitas aqui em casa  e vêm aqui na companhia de Lascia ch'io pianga (da ópera Rinaldo de Händel), com as Voices of Music e com Kirsten Blaise como soprano

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E antes de me ir, deixem que partilhe convosco um vídeo que achei muito bonito com um encantador de falcões.


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Gostava que todas pessoas do mundo pudessem ficar felizes a ver as flores a romperem a caminho da luz e do verão. Mas esse é um desejo para as misses dos concursos de beleza. No mundo real há guerra, terrorismo, raptos, ameaças, refugiados que arriscam a vida na esperança de dias melhores, que entregam os filhos ao desconhecido e a todos os riscos do mundo certos que o desconhecido será melhor do que a miséria e o medo em que vivem. No mundo real há mesquinhez, maldade. Há secas, vírus, poluição. Há doenças e sofrimento. Sei de tudo isso. Mas como também há coragem e valentia e beleza e generosidade, pode ser que, no cômputo geral, valha a pena.

Um dia bom para si que está aí a ouvir-me a respirar.

quinta-feira, agosto 20, 2020

O dia foi bom. A casa começa a mostrar-se uma casa feliz.
Pior mesmo só o que se relaciona com o IKEA. Muito mau.




Já estou quase a sentir-me a dona do pedaço. Fiz duas máquinas, estendi a roupa no estendal que há logo ao sair da porta da cozinha. E fiz peixe cozido para o almoço com feijão verde, batata, cenoura, ovo. Quase como se estivesse a viver normalmente em minha casa. Esta começa a ser a minha casa e não a casa nova. Pelo meio, arrumei mais uma porção de sacos e caixas. Uma delas, bem grande, tinha material que me deixou passada: montes de livros 'estrangeiros'. Agora que eu tinha concluído a empreitada.

A sala ainda está um caos: falta arrumar os ensaios, os clássicos, as entrevistas, os diários, as correspondências. Não sei por que ordem arrumar nem sei em que estantes pois, no local para onde estavam destinados, parece que o espaço já escasseia. E as caixas de artes: cheias E as arquitecturas: tantas, todas cheias. Em grande parte, livros grandes, altos, de dimensões irregulares. Mas a ficção estrangeira, que eu pensava que estava esfolada, aparece-me agora ainda com aquilo tudo para encaixar. E isto já para não falar dos 'livros não livros' (como o rapaz das mudanças leu os 'livros não lidos') que ainda não sei como fazer. 

Mas o dia teve um momento menos bom: aconteceu uma coisa que me deixou deveras descoroçoada. Estava há tanto tempo a imaginar uma salinha toda com portugueses, só com portugueses. Tinha aquela dúvida que, por fim, ultrapassei decidindo que seria toda a língua portuguesa. E não só a prosa mas também a poesia. A estante dos portugueses da outra casa era do ikea em branco acinzentado metalizado e eu idealizei complementar com mais uns módulos, iguais, para ficar tudo em clarinho. Só que, para não ir lá, porque nem tenho tempo, encomendei online. O cinza do site causou-me alguma dúvida, não fiquei certa de que não seria mais cinza do que o meu branco acinzentado. Mas não havendo nada mais para além do branco-branco, admiti que fosse distorção cromática da fotografia. Hoje, como previsto e dando cumprimento ao meu 'cravanço', o meu filho veio montar as ditas cujas. Contou com a prestimosa colaboração da mulher que, surpreendentemente, tem um jeitão para aquilo que me deixa espantada e, confesso, com uma certa invejinha (mas invejinha das brancas, inocentes) já que eu não me acerto nada com aquilo. 

Depois de a semana passada não terem aparecido e de ter suado as estopinhas para saber o que se tinha passado e para conseguir reagendar -- coisa que só com a ajuda da minha filha consegui pois só lá foi via chat e facebook já que, por telefone, está quieto -- ficou para esta quarta-feira. Das 9 às 13:00. Eram quase duas da tarde e nada. Pensei que ia ser um déjà-vu. Mas não. Apareceram. Sem máscara, com má cara, sem uma explicação para o atraso, sem um pedido de desculpa, um deles só a tossir. Perante tão desconfortável panorama, pedi que deixassem as big caixas à porta, não os quis dentro de casa. 

Quando o meu filho e a minha nora chegaram expliquei porque é que aqueles pesadelos não estavam no sítio. Ele disse logo: 'Já percebi, as caixas estão cheias de covid' e, portanto, desembalaram tudo, deitou-se o cartão fora, desinfectaram as mãos. Não me senti nada confiante com aquela dupla mal amanhada de entregadores, nada como ter todos os cuidados. 

Mas o pior foi a má notícia que o meu filho e a minha nora me deram quando viram a cor daquilo. Cinza rato. Fiquei para morrer. Nada, nada a ver com o branco platinado da outra. O meu filho chama-lhe cinzento urbano mas eu, desconcertada, só me apetecia era chamar-lhe cinzento de m.... Aquilo diz cinza metalizado e, na fotografia, parece cinza bem claro. Nada a ver com o que recebi. A minha vontade é dizer que venham buscar. Só que, para isso, teria que gastar horas e horas e horas a ouvir música sem que ninguém me atendesse, haveria  de passar por chatices e mais chatices, haveriam de dizer que agora não dá para trocar porque já se deitou fora tudo o que é embalagem. Ficámos ali a olhar para aquilo, sem saber o que fazer. Cansada do ikea e do péssimo serviço com as entregas e do péssimo (ou, melhor, do inexistente) atendimento, resolvi que se montasse. Isto na esperança que, quando montadas, a apanhar a luz, a cor se mostrasse aclarada. Mas aclarada uma ova. O meu filho diz: agora que foi montada já não dá para devolver. Uma chatice. A minha filha diz que não lhe parece mal, que, como tem portas de vidro e como vai estar cheia de livros, não vai ficar mal. O meu marido, por seu lado, quando lhe pergunto o que acha, diz que não acha nada. O meu filho e a minha nora dizem que eu troque as portas por portas brancas. E, por isso, não montaram as que vieram. Mas não sei. Fundo cinza com portas brancas ao lado de uma em branco acinzentado capaz de parecer uma coisa que nem é carne nem é peixe. Que raiva. É o inconveniente de fazer compras online. Nada como ver ao vivo.

Enfim. Adiante.

E puseram-se mais uns quantos quadros, sempre debaixo da embirração do meu marido, porque, depois de posto, se percebe que ficou mais acima ou abaixo do que devia e ele não quer arrancar e fazer outro furo, porque diz que nas paredes onde queremos (eu e a minha filha) é betão e não se consegue furar, porque fura e não cobre o que está por baixo e, ainda por cima, fica zangado quando me zango com ele. Desde que me lembro que pôr quadros na parede é esta cena.

E a minha filha andou nas decorações, em parte em conjunto com a sobrinha. Está a ficar muito bonita, a minha casa. Clara, ampla, luminosa.

Os miúdos organizam-se, correm, brincam. Uma festa. Penso que sentem que é também já a casa deles. 

Tirando isso, trabalhei. Ainda não estou de férias. Portanto, não foi fácil. Telefonemas, mails. Como muita gente está de férias, tenho conseguido ter uma vida um pouco mais facilitada. Mas esta quinta-feira já vou estar com reuniões e, portanto, o equilíbrio tem que ser mais esforçado. E à noite tratei do que não consegui fazer durante o dia. Nunca sobra trabalho para o dia seguinte, isso é ponto de honra. Tenho é muita coisa para tratar a nível pessoal como, por exemplo, mudar a morada em tudo o que é sítio. Devia ter uma semana sem mais nada que fazer, só para pôr estes assuntos em ordem. Mas nunca disponho desse tempo.

E a ver se sossego e se tenho tempo para ler notícias e ver televisão para, ao menos, ter assunto.  E já nem falo em não cair a dormir mal aqui me sento. A querer despachar trabalho e só a sentir-me adormecer. Senhores.

Mas calo-me já. Imagino como deve ser fastidioso ler estes longos relatos sobre temas que, sendo importantes para mim, a vocês nada vos devem dizer. Sorry.

Amanhã a ver se vou às compras que há alguns dias que nem daqui saio. Tenho o frigorífico quase vazio. Tenho a casa cheia e, chegados à hora de jantar, cada um vai à sua vida pois nada tenho para lhes oferecer. Uma coisa que, em mim, é contranatura. 

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As imagens pré e com sorriso são uma graça, não são? Obtive-as através do Panda Chateado (Pics Of People Before And After They Were Asked To Smile).

Acompanha-nos a bela Nè men con l'ombre d'infedeltà de Handel na interpretação de Sophie Junker

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E votos de um dia feliz. Saúde a esperança em dias melhores. 

[E a quem está mal de amores o que digo é que há mais marés que marinheiros. Se o actual marinheiro é fraco e aparentemente não é capaz de levar o barco a bom porto, então pouco há a perder. E isto, obviamente, é válido para marinheiros e marinheiras. A vida não deve ser desperdiçada com quem não sabe ser a companhia que desejaríamos. A vida é para ser vivida em amor. E, se ainda não o encontrou, então é de ir à procura dele. Amores à espera de serem encontrados é o que não falta]

sábado, junho 20, 2020

Nem perfumes, nem relógio. Brincos e vai lá, vai.





Quando aqui chegamos a primeira impressão quando a porta se abre é o cheiro. Melhor: o perfume. Não sei definir que perfume é. Sei que a sensação que desperta é boa. Tudo me acolhe. A casa fechada, silenciosa, em paz, na penumbra, perfumada. Muito agradável. Do lado da sala, a janela, virada a oeste, deixa entrar uma luz dourada que a atravessa e chega até ao hall. Umas boas vindas douradas e perfumadas. Digo que cheira bem e o meu marido diz que é bom regressar aqui. E é mesmo. Quando chego ao quarto da minha filha, e que agora é o meu quarto de vestir, o perfume é mais evidente, um mix de perfumes suaves, bons. Desde o dia 13 de Março que não me perfumo. É das coisas que, de vez em quando, tenho saudades. Brincos ainda ponho. Não consigo estar numa vc (videoconferência) sem me arranjar. No outro dia, o bebé ficou espantado: porque é que estás assim? 'Assim' era com um tonzinho nos lábios, um framboesa natural com um leve brilho, um tonzinho nas pálpebras superiores para ficar um smoky ligeiro. Expliquei: vou ter uma reunião. Ele ripostou, como que a corrigir-me: uma call. Pensei que, para ele. talvez não fizesse grande sentido mas tenho para mim que, em contexto profissional, o dress code não deve ser exactamente o 'trazer por casa'. E, portanto, visto-me, penteio-me, ponho uns brinquinhos, passo um brilhozinho nos lábios, uma sombra, quase nude, nos olhos. Talvez seja quase como uma barreira. Esta não sou eu tal e qual, esta sou eu com alguma distância. Talvez um dia destes passe a pôr um esguinchinho de cheirinho bom.


Aconteceu uma coisa, esta tarde. E vou confessar porque isto é anónimo. Tive uma vc bem chata. Mais do que chata, estúpida. Inútil. De faz-de-conta. Sendo o assunto importantíssimo, por não o saberem agarrar, optaram pelo do costume: consultoria e dinheiro para cima. A acompanhar, pessoas que não pescam boi do assunto. Portanto, tudo aquilo é uma fantasia. O tipo de coisa que me tira do sério, que me encanita, que me dá brotoeja, que faz com que eu fique à espera que alguém 'make my day'. Mas desta vez deu-me para outra coisa: para não me chatear. É uma premiêre mas acho que está na altura de começar a dar descanso à consciência. Reunião com magna participação. Não sei quantos mas, no mínimo, uma dúzia. Por não saberem o que dizer, puseram o pobre do consultor a fazer toda a despesa. Aos poucos, todos foram retirando a imagem. Nem som nem imagem de vivalma excepto do pobre coitado que, com voz monocórdica e sem qualquer interrupção dos demais participantes,ia desfiando os slides. Enquanto isso, eu ia trocando mensagens divertidas com um outro que também estava a (não) participar e que decidiu, meanwhile, tratar de assuntos mais concretos. O meu marido foi-se sentar ao meu lado, na mesa, a trabalhar. Volta e meia eu ia conversando com ele. Ninguém na reunião me via, ninguém me ouvia. Às tantas a reunião acabou sem que se tivesse percebido o que é que ali se tinha passado. Acabou quase meia hora mais cedo. Só abri o microfone para dizer adeus. E disse ao meu marido. Para a próxima, sento o bebé no meu lugar e, no fim, abro a câmara e aparece ele. O meu marido disse: ou eu. Fartei-me de rir. Havia de ter piada, no fim da reunião, em vez de mim, aparecia ali um ilustre desconhecido. A seguir ele sugeriu outra coisa mas essa já eu não posso dizer aqui, só posso dizer que haveria de deixar toda a gente de boca aberta, sem reacção. Imagino eu.


Bem. Voltando aos perfumes. Sempre que aqui estou, olho os meus perfumes com alguma saudade. Também nunca mais pus relógio. Nunca saía de casa sem relógio. Contudo, ele não funciona bem. Está sempre com horas de atraso. Em tempos, longínquos tempos, um colega dizia-me: 'Usa-o como uma jóia, não é?'. Sim, uma jóia. Não é apenas a estética, é também o peso, a habituação àquela presença elegante e silenciosa ali no meu braço. 

Nas vcs verifico que a grande maioria dos meus colegas ou das pessoas com quem me encontro por esta via estão em casa. Alguns voltaram ao escritório mas rapidamente retornaram a casa. Não encontram grande vantagem em deslocar-se até ao escritório. Claro que os operacionais estão no terreno, sempre estiveram. Mas a malta que pode estar em casa -- a trabalhar, a consumir mais água, mais electricidade, etc, e a proporcionar ganhos às empresas (ouviu senhor comentador que acha que se devem cortar os ordenados aos trabalhadores em teletrabalho?) -- opta por estar em casa.


Mas há excepções: dois colegas, ambos com várias crianças pequenas em casa e ambos quase doidos com isso, optaram por fazer meio-dia no escritório. Ambos dizem que precisam de desanuviar. Acredito.

E eu estou para aqui a escrever mas, como deve dar para perceber pois notoriamente não estou a dizer coisa que avance a direito, estou francamente cansada. Tirando aquele bocado daquela reunião super-importante em que descansei a mente, tive várias outras reuniões e vários telefonemas e muita outra coisa e tudo junto tornou-se demais. Cheguei ao fim do dia exausta. Agora tenho os dedos em roda livre, vão-se esticando e encolhendo, saltando e dançando e eles lá sabem por onde anda. Escolhem as teclas e, por sorte, o que sai são palavras que existem. Não tenho ascendente sobre os meus dedos, nem quero. Estou out.

Fui.
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Christiane Karg interpreta Felicissima quest’alma de Handel
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Um bom sábado

quinta-feira, junho 11, 2020

Desconfinar a la maison, em família e em festa, no Dia de Portugal




Começo a escrever quando o dia de Portugal e de Camões já virou a página. Não tive oportunidade de ver pingo de comemoração e aqui não tenho como pôr o tempo a andar para trás. Na cidade há uma magic box que guarda o tempo. Aqui não, aqui ou se vê na hora ou já era. Coisa que não deixa de ser boa. Mas, portanto, não tendo visto, só agora li que as imagens de Marcelo num espaço quase vazio e que as suas palavras algo cruas causaram impressão. Ou que as palavras de Tolentino Mendonça foram poéticas. Ainda bem. A poesia é do melhor que o mundo tem. O mundo ou a língua. Uma língua que se transforma para incorporar música e emoção, e para acolher a rendição da luz e do tempo é uma língua feliz. 

Não sei se as palavras de Marcelo são sinais de algum desejo de reorientação nas políticas sociais do país ou se são meras palavras de circunstância paramentadas de pias bolas de efeito. O que sei é que continuo a pensar que um grande debate público, chamando quem de melhor temos (embora, lá está, quem decidiria quem seriam os melhores?), me pareceria de grande utilidade. Pelo menos nestes próximos dois a três anos significativas quebras vão acontecer em alguns sectores. Pode acontecer que, estruturalmente, sejam quebras que venham para ficar. Parece-me, pois, indispensável pensar em que sectores -- úteis para o país numa perspectiva não apenas imediatista -- se deverá apostar para empregar todos quantos já estão e virão a entrar no desemprego. Identicamente, a nível do ensino e, em especial, da academia, se deverá perceber quais as valências necessárias para dar corpo a uma reorientação estratégica. O mundo mudou. Está a mudar. E, se não está, deveria estar. Cabe aos líderes apontar o sentido da corrente. E Marcelo deveria ser capaz de mobilizar a sociedade para este debate e para a apresentação de propostas.


Não sou muito de me entusiasmar com movimentos marginais que têm mais de lírico do que de racional e sustentável. Ir para o interior para viver de zero lixo ou de hortas para plantar e vender meia dúzia de alfaces ou umas cenourinhas atrofiadas em mercadinhos biológicos pode dar para fazer blogues com piada, postas no Face ou histórias no Insta -- mas não resolve a vida dos milhares de pessoas de pessoas desempregadas face a quebras incontornáveis no turismo, no comércio, na restauração. E etc.

Mas hoje não vou falar nisto. Vou é contar porque é que só agora estou a ver televisão. 


Este Dia de Portugal foi para mim dia grande, dia feliz. Tive cá a maltinha toda em casa. Desde meados de Março que não passávamos um dia todos juntos. Ora estava com uns, ora com outros. Mas todos juntos, os meninos todos juntos na maior farrinha, todos na conversa ou à volta da mesa, isso só neste abençoado Dia de Portugal.

A ideia ainda era manter a distância. Nada de grandes proximidades. Mas durou, de novo, escassos minutos. Os meninos não se largaram. Felizes, felizes, felizes. Os dois mais crescidos já a quererem dar ares de se prepararem para entrar na pré-adolescência, alinhados no modo de falar, nos gostos, os dois do meio muito cúmplices, muito amigos, o bebé cada vez mais explicado, mais esperto, já a saber fazer jogos de computador com autonomia, incentivado pelos manos e pelos primos.

Consolei-me de os ver todos tão próximos, quase como se não tivesse havido interrupção. De vez em quando alguém ainda se lembrava do distanciamento... mas coisa de pouca dura. Estamos tranquilos quanto a isto pois temos estado todos tão confinados e tão cuidadosos que estamos certamente limpinhos da silva.

Antes de almoço, em cima da mesinha baixa da cozinha, o bebé viu uma cestinha de kiwis. Disse-me: 'Na nossa casa não temos kiwis. Posso comer? Estes já não têm covides?'. Garanti-lhe que não e preparei-lhe um. Menino mais querido.


A noite passada voltei a dormir mal. Não adormeci logo e, a meio da noite, acordei com calor e algumas preocupações e custou-me a readormecer. Quando o despertador tocou estava eu a dormir como se estivesse a começar a descansar. Mas tive que me levantar cedo pois o dia tinha afazeres sem tréguas de permeio. Portanto, com tudo isso e com a animação e a agitação aqui em casa, depois do lanche e estando os crescidos a conversar uns com os outros, os meninos na brincadeira, tudo na rua, a apanhar o sol brando, vim até ao sofá em que agora estou, reclinei-me e, cá para mim, devo ter adormecido de imediato. Por pouco tempo. Penso que nem cinco minutos Acordei com um dos meninos, o meu corajoso menino, mano do meio (do grupinho de três), a surpreender-se por me ver ali deitada a dormir e a dizer: 'Estás aqui? A descansar?' e, acto contínuo, debruçou-se sobre mim, abraçou-me e deu-me um beijinho. E, também acto contínuo, deu um salto para trás, 'Ah... não se pode dar beijinhos...'. Meu amorzinho querido. E lá saiu a correr. O que a porcaria de um corona da treta nos faz a todos. Mas menos mal. Estamos bem, de boa saúde e, se continuar como até aqui, talvez adquiramos imunidade sem sofrermos infecções de maior. Bicho mais estúpido do qual ninguém parece conseguir perceber o 'racional'.

E agora, se não se importam, fico-me por aqui. Não vou dizer que estou a dormir para não ser repetitiva para além da conta mas vou ter que tentar chegar até à cama porque esta quinta-feira vai ser outro dia com animação. 
                                                                                

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Fotografias de  Keyezua, participante num dos LagosPhoto Festival

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Um bom dia feriado. Saúde e boa disposição.