Mostrar mensagens com a etiqueta Miró. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Miró. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, abril 09, 2019

Isabel, não posso dizer que seja um best of mas é uma amostra das maluqueiras de que sou capaz.
Mas, calma, há que dar desconto: vendo bem as coisas, acho que sou inimputável.





Já contei que, quando andava no liceu, atrás de mim sentava-se uma colega de quem eu gostava muito. Éramos totalmente diferentes. Eu andava sempre cheia de amores e gostava de me arranjar bem enquanto ela era desprendida, sem pingo daquela futilidade adolescente que em mim cintilava. Mas ela achava graça à minha maneira de ser e aos romances que giravam em torno de mim e ouvia atentamente as minhas conversas sobre variedades de rímel, soutiens Triumph, convívios dançantes ao sábado -- enquanto eu admirava a sua sobriedade desarmante, a sua disponibilidade para ouvir todas as parvoíces. Éramos ainda diferentes noutra coisa: ela era péssima a matemática mas excelente a desenho. Muitas vezes fomos ambas ameaçadas de nos anularem os testes por estarmos no copianço, eu desviada do que escrevia para ela, atrás de mim, copiar à vontade. Deixei-a também copiar a física e se calhar também a outras disciplinas. Achando sempre que o que eu respondia certo era fruto do acaso e admirando quem eu achava que tinha genuíno talento, eu via o que ela fazia com pasmo e achava que tudo o que fizesse para a compensar da falta de intuição para o raciocínio numérico e lógico e, ao mesmo tempo, para louvar a sua superioridade era pouco.


Lembro-me de umas bailarinas que ela pintou a guache. Estava lá a graça do movimento, estava lá a transparência dos tules, estava lá a beleza da dança. E fosse qual fosse o motivo, enquanto eu me esforçava para fazer alguma coisa bem feitinha que invariavelmente saía sem graça, ela, em duas penadas, traçava o espírito da coisa. Fosse aguarela, pastel, guache ou lápis de cor, tudo o que ela fazia era diferente de todos os outros. Separámo-nos quando fomos para cursos diferentes e, quando voltei a saber dela, já ela era escultora conceituada e professora universitária.

Voltei agora a pesquisá-la na net e dei com uma fotografia dela. Quase me emocionei. O tempo passa.  Ah, como éramos meninas naquela altura. Agora mulheres feitas. Ela serena e bonita como sempre. Não se percebe como, com aquele ar suave, tem força para trabalhar a pedra. Mas tem. É, como sempre foi, uma artista.


Sempre me dobrei perante a arte. Toda a minha vida frequentei exposições. Mesmo quando vieram as crianças. Arrastava-os para verem coisas que não percebiam. Penavam, faziam disparates, queriam fugir. Sempre achei que só podia fazer-lhes bem. Aceitar a diferença e o que inexplicável é parte do caminho que há a percorrer.

Cedo me afastei do figurativo, do perfeito. A arte abstracta, as manchas de cor, a ausência de peias e a liberdade para inventar formas, sobreposições, coisas nenhumas, isso sempre me atraíu. Por fim, os miúdos já não perguntavam 'o que é?', já rendidos à ideia de que as coisas são o que são e não o que querem parecer.

Tenho ideia de que já contei a surpresa que tive quando, sozinha, miúda, sem antes me ter informado, fui ver uma exposição de Miró. Achei uma loucura. Nem conseguia perceber que maluqueira era aquela, em especial as esculturas que incluíam sapatos, restos de coisas, quadros só com salpicos. E, no entanto, que alegria. Que coisa espantosa. Mais tarde já o vi com outros olhos mas com ainda maior pasmo. Que homem adulto tinha a ousadia de fazer tais infantilidades? Mas, de novo, que luminosa e inocente alegria aquela. Estrelinhas, luas, coisinhas sem sentido, bocas e olhos, céus coloridos e felizes.


Ou Paul Klee. Uma vez vi uma reprodução de Paul Klee, pequenina. Convenci a minha mãe a emoldurar. Uma cara redonda e cor de rosa, circunspecta, um olho no céu e outro na terra. Porque é que eu gostei, logo, tanto sem saber quem era o pintor, sem perceber que figurinha era aquele?

E Picasso e Gauguin e Van Gogh e Chagall e tantos outros. Mais tarde, Roth. Cada vez mais abstração, cada vez menos realismo, cada vez maior liberdade.

E, por gostar tanto de arte, nunca me imaginei sequer a cometer a irresponsabilidade de pintar.


Até que o meu filho me ofereceu aquilo que eu nunca pensei ter: material de pintura.

Ao princípio, punha-me a pensar no que ia pintar. Esforçava-me. Não queria desperdiçar telas ou tintas com a minha falta de jeito. Antes de pintar já eu antecipava a decepção.

Uma vez resolvi pintar um retrato da minha filha. Peguei numa fotografia dela do dia de casamento e pintei o vestido em tons de dourado.


O vestido despachei-o em três tempos. Mas o rosto, o sorriso, o olhar... Era ela mas não era ela. Quando alguém o vê, diz logo que é ela. Mas não é. O sorriso dela é mais aberto, os olhos mais alegres. Não sei explicar.

Foi o primeiro e o último retrato. É absurdo querer fazer igual. Para igual há as fotografias (e já a fotografei milhares de vezes). Uma pintura é para ser outra coisa. Mas, se é outra coisa, não é o retratado. Portanto, perante a total contradição dos termos, deixei-me de tentar ser retratista.

Mas foi um percurso. Pintar coisa nenhuma requer uma liberdade pela qual ansiamos mas que, tendo-a dentro de nós, temos dificuldade em usar.

Até que consegui libertar-me. Mulheres a andar por cima dos prédios, mulheres com o coração à vista, escadas que não iam dar a lado nenhum, galos faustosos, flores escandalosas. Não estava a pintar para ninguém nem para obter aprovação de ninguém. Pintava apenas pelo prazer infantil de pintar, o prazer do gesto, o prazer da liberdade, o prazer de transformar uma tela branca numa coisa cheia de cores.


E fiz como a Isabel: com medo de que acabassem as telas, comprei montes delas, com medo que acabassem as tintas, comprei montes delas.

E fui pintando. Ficava até de madrugada. Nunca me importei com a qualidade do produto final. Pintei para mim, para os meus filhos, para os meus pais. Queria pintar coisas neutras, incolores, simples mas, sem perceber como, as cores jorravam de dentro de mim. Por vezes, chegava ao fim e ainda juntava brilhos, purpurinas. Um exagero. Uma alegria. Depois já era apenas para guardar. Até que já não tinha onde pôr. Pintei, então, canteiros. E já estão, outra vez, a precisarem de ser pintados.

Agora pouco pinto. Mas tenho saudades. Volta e meia 'pinta' uma vontade louca de ir buscar uma tela grande e desatar a pintar, a espalhar cores, brilhos, loucuras. Mas, em vez disso, ponho-me para aqui a escrever, a soltar palavras ao vento.


.............................................................................................

Já viu, Isabel? Não custa nada. Só é preciso descaramento, não ter vergonha, nem medo, nem nada. Aliás, que mal pode fazer a gente fazer 'obras de arte' destas...? Alguém nos vai mandar prender...? Acho que não. Pelo menos, eu continuo livre para fazer das minhas.

__________________________________________________

Flores e cores


E, para que haja arte neste post, três dos muitos pintores a sério de que muito gosto







E haja alegria para que os dias sejam felizes.

terça-feira, maio 09, 2017

Acho que hoje, por aqui, a noite não está estrelada, Vincent


Leio que Vincent Van Gogh não estava certo da sua arte e que, de cada vez que pintava uma coisa, achava que era um fracasso.

Tal aconteceu também com The Starry Night. Achou que era obra sem préstimo. 




Consta que, de facto, apenas vendeu um único quadro enquanto vivia. E se era um pintor prolixo. Apesar de apenas ter pintado durante dez anos (entre os 27 e os 37 que tinha quando se suicidou), deixou cerca de 900 pinturas e mais um monte de desenhos e esboços, num total de cerca de 2.000 trabalhos.

Igualmente prolixo a escrever, foram também da mesma ordem de grandeza as cartas que escreveu, nomeadamente ao seu bom irmão Theo. Nas cartas ou postais, por vezes fazia o esboço do que estava a pintar e escrevia sobre isso.


Lendo sobre isso e vendo as suas cartas e constatando a prolixidade, fez-me lembrar a Gina G. que também fotografa, cria e escreve e descreve. E não venham os puristas dizer-me que a Gina está a milhas do Vincent porque não sei, não -- e, de resto, acho que a vida não tem que ser um pódio nem sequer há uma única escala. Gosto imenso de ver a torrente criativa das palavras da genuína Gina, das suas fotografias tantas vezes surpreendentes. Tudo lhe é motivo, tudo ela transforma em algo que, depois, partilha com o mundo. E é sempre uma surpresa e uma graça (mesmo quando há alguma sombra a toldar-lhe os dias).



Na altura, também havia muito quem achasse que o que Vincent não tinha a ver com nada. Ainda hoje o que não devem faltar são pessoas que, perante uma 'noite estrelada' ou uma jarra com girassóis, pensam: 'Tretas, como se eu não fosse capaz de fazer igual. Não, igual não... Qual igual...? Melhor, muito melhor'


A vida muda a perspectiva segundo a qual observamos o mundo. 

Lembro-me de, em tempos, uma prima me ter recomendado uma exposição da Paula Rego e de eu, com inabalável convicção, lhe ter dito que nem pensar, que não gostava nem um pouco da obra de tal pessoa. Hoje acho-a extraordinária.


Identicamente lembro-me de, numa outra vida, ter ido ver uma exposição de Miró e de ter vindo de lá desconcertada. Nada daquilo parecia fazer-me sentido. Tempos houve em que eu procurava o sentido de tudo e, não o encontrando, rejeitava-o. A vida tem vindo a ensinar-me que o sentido das coisas não tem que ser percepcionado para que as coisas nos emocionem. Agora gosto imenso de Miró. E gosto especialmente se olhar para as suas pinturas sem tentar reconhecer o que quer que seja. Acho que há uma elegância intrínseca, uma leveza, uma harmonia cromática e espacial. E uma simplicidade que afasta pretensas explicações.


Não será exactamente pelos mesmos motivos que gosto de Miró e de Paula Rego. Na Paula Rego é outra coisa, aí penso ser a afinidade -- e o grão de loucura, o agudo sentido de observação, a ironia, o desprendimento em relação à opinião alheia.

Igualmente era completamente insensível em relação à pintura renascentista. Nos museus passava por essas salas sem me deter nem um minuto. Agora, não que seja de minha predilecção ou que lhe seja particularmente sensível, mas já olho, já tento encontrar alguma estética que, de alguma forma, chegue até mim.  No entanto, ainda não cheguei completamente lá. Tudo o que me pareça querer ser fiel à realidade me maça. Se algum ângulo de visão ou alguma figura é imprevista ou parece deslocada no contexto, então já talvez me desperte interesse. Procuro o que é incomum, desconhecido, incompreensível. Procuro o que não existe a não ser ali.

Parte de O Juízo Final - Fra Angelico
(E desta parte eu que gosto bastante)

Somos diferentes uns dos outros e somos diferentes ao longo das nossas idades. O meu gosto tem vindo a evoluir no sentido do despojamento, do silêncio.

Rothko, claro. Mas muitos outros. Contudo, quando penso na atracção pela pintura do nada e do silêncio, é em Rothko que logo penso.


No entanto, acho que o meu sentido estético sempre assentou numa matriz de desconcerto. Lembro-me de ser bem miúda, ainda desconhecedora de tudo, e ter visto numa revista uma imagem que me fascinou. Recortei-a. Pedi à minha mãe para a emoldurar. Ela fez-me a vontade. Uma moldurinha pequenina. Era de Paul Klee. Não fazia ideia, na altura, de quem fosse. E, no entanto, era como se fosse coisa que me fosse familiar, um ser imaginário que existia sem propósito, apenas para estar ali. Um mundo perfeito onde tudo tem lugar, sem explicações.


E estava eu a ler o texto 10 Things You Might Not Know About Vincent van Gogh no Google Arts & Culture quando reli que uma das músicas de que muito gosto tinha sido inspirada em Van Gogh. E lembrei-me de como, não há muito, dei por mim a sentir-me como tantas vezes me sinto: a mais burra de todas as burras. Parece que, por vezes, sou distraída para além do que é normal e admissível. A desatenção das coisas faz-nos ignorantes e, talvez por isso, tantas vezes distantes.

Por inacreditável que possa parecer nunca, antes desse dia, tinha reparado que a canção se referia à pintura de Van Gogh e a ele mesmo. E se a ouvi e ouvi. Gostava sem motivo racional, sem pretender descortinar-lhe o sentido, gostava apenas por gostar. E, no entanto, depois que o soube, parece-me tão estupidamente óbvio que não compreendo como é que nunca o tinha percebido.

Mas, enfim, as coisas são o que são e nem vale a pena tentar perceber tudo o que nos rodeia. Muito menos o que se passa dentro de nós.

Fresh snow in distant mountain by Okuda Genso

__________________


Sobre pinturas de Van Gogh, A Prayer de Max Ehrmann lido por Tom O'Bedlam


_____

Um dia feliz a todos quantos por aqui passam.

____

domingo, março 27, 2016

Uma vez mais:
O que é a arte?
-- a palavra aos Leitores Joaquim Castilho e P. Rufino


Pintura que integrou a exposição 'A felicidade em Júlio Pomar'

 


O que é a arte? Para que serve a arte?


Para que serve uma paisagem desértica ou uma montanha nevada?

A arte, tal como por exemplo uma paisagem, pode transmitir-nos emoções agradáveis ou penosas, evocar memórias, ampliar a nossa sensibilidade, permite-nos ver e sentir para além da realidade racional, objectiva e “ utilitária” do quotidiano.

Contrariamente ao que normalmente sucede com uma paisagem, a arte é uma construção levada a efeito por um produtor, um “artista” que pretende realizar com volumes, cores palavras, com fixações em telas ou em papel fotográfico, por exemplo, as emoções ou uma qualquer mensagem que ele próprio pensa ter descoberto e que julga interessante dar a conhecer a outrem. Esta actividade exige “inspiração e transpiração” e é muitas vezes penosa de realizar até o artista julgar ter conseguido atingir o objectivo pretendido.

Aprendi, como engenheiro de telecomunicações, que para comunicar algo a alguém é necessário um emissor, o artista, um receptor, o público interessado na fruição da obra de arte, e um meio de comunicação, o objecto artístico, mas também uma linguagem que seja compreendida pelo receptor sem a qual não existirá transmissão do que quer que seja.
Se um chinês me comunicar na sua língua qualquer coisa eu não irei receber nada porque não falo chinês.
Se não me for acessível a linguagem utilizada pelo artista, ou se ele não me facilitar essa compreensão, não posso entender o que ele me quererá dizer e não posso fruir a obra de arte.

Muitos artistas constroem uma linguagem que nos é perceptível pelo facto das suas obras nos conseguirem transmitir as emoções que teriam pretendido expressar mas nem sempre são exactamente as que o artista terá querido exprimir mas uma transmissão funcionou.

Ubu Roi III - Miró, 1966

Gosto do Miró ou do Pomar porque sou sensível à sua linguagem reproduzida em inúmeras obras. 

Detesto o Cabrita Reis por não consigo “sentir” o que ele me quer dizer. Chego mesmo a pensar que ele não “fala“ qualquer linguagem. Mesmo os especialistas que a procuram traduzir por palavras escrevem numa linguagem tão hermética que eu sou incapaz de a perceber.


I dreamt your house was a line - Cabrita Reis, 2003

As linguagens vão evoluindo através dos séculos. Há artistas que morreram e outros que continuam vivos porque as linguagens que utilizaram continuam vivas.

É normal que os artistas procurem sempre outras linguagens, sempre foi assim, mas procurar não significa necessariamente encontrar. Um dos problemas da arte contemporânea é que há demasiada sede de procura e raramente se encontram linguagens perceptíveis à nossa sensibilidade de “receptores” comuns mesmo que a procuremos ir educando e façamos um esforço nesse sentido.

Depois aparece a “máfia” dos galeristas, dos colecionadores, dos críticos, dos gestores de museus, curadores de exposições e editores revistas de arte etc. etc. desejosos de “valorizar” as obras de arte dos “se” artistas que ainda complicam mais a situação.
_ _ _

Acrescento ainda alguma coisa à minha longa “narrativa“ (...) uma vez que (...) talvez seja falando de música, da linguagem musical, que o meu texto possa ganhar alguma verosimilhança! 

O canto gregoriano, a ars nova, as linguagens trovadorescas medievais, as oratórias. os madrigais, o nascimento da ópera, a música pré-barroca, o barroco, a musica clássica, o romantismo, o impressionismo etc., etc.

Linguagens que poderemos ir compreendendo e que nos vão facilitando a recepção de sonoridades diversas, de diversas épocas, que traduzem emoções, memórias, planícies e montanhas que descobrimos e por onde é bom viajar.

Die Lebensstufen (The Stages of Life), Caspar David Friedrich, 1835
Encontrámos desde o século passado o dedecafonismo, a musica minimal repetitiva e outras linguagens como a do referenciado Eric Satie, inclassificável como ele próprio, depois becos sem saída como Scelsi, Stockausen, Boulez, Xenakis que sábia e honestamente tentaram novos caminhos. Novas clareiras com Gubaidulina, Ligeti ou Part e tantos outros que procuram e talvez tenham encontrado e que terão aberto caminhos que os “mais famosos” vieram a revelar.

Botas como as de Van Gogh ou torturadas paisagens como as Caspar David Friedrich enriquecem-nos porque terá havido sempre e continuará a haver alguém que, através da Arte, nos quererá dizer qualquer coisa e nos irá sendo possível sentir o que nos querem transmitir mesmo sem os compreender. Ligação absolutamente necessária entre o emissor criador e o receptor fruidor da obra de Arte .


Texto da autoria de Joaquim Castilho, enviado através de comentários a posts abaixo

_ _ _

Este tema, sobre o que é a Arte, é muito interessante e estimula uma boa e saudável discussão. 



Aqui há uns bons meses comprei um livro na FNAC que aborda esta questão de uma forma curiosa e mesmo cativante. Uma excelente obra. O autor é Julian Bell e o livro intitula-se, “Espelho do Mundo – Uma Nova História de Arte”. Já conclui a sua leitura há uns tempos e não me arrependi um momento sequer. É um livro grande, de muitas páginas, que leva tempo a ler – com atenção. (...)

No fundo, o significado de Arte tem também a ver com as sensibilidades de cada um. Da percepção que temos de objectos (um quadro, uma escultura, por ex) e sons (música), por exemplo. Mas, julgo também sobre o sentido desses mesmos objectos e sons. Da sua beleza. Da sua capacidade de nos atrair. Daquilo que podem significar e transmitir. E talvez também da dificuldade da sua execução (quer pela duração da sua concepção, quer pelo esforço mental que exigiu, etc).

Há muitas variantes no que respeita ao conceito que nos leva a definir Arte. E a Arte e o seu conceito evoluiu, ao longo dos tempos. E houve momentos em que aquilo que se seguiu, um novo estilo, foi rejeitado de início, para ser admirado mais tarde. Na Pintura (recordemos as primeiras reacções aos artistas Impressionistas, um dos vários exemplos), como na Escultura, como na Música (Stockausen, Xenakis, etc, aqui mencionados por outro Leitor que gosto de ler). Mas, também na Literatura. António Lobo Antunes, se bem me recordo, teve os seus contestatários pela forma como se revelou a escrever, ao não seguir a escrita com a pontuação tradicional (o mesmo para Saramago, que depois foi Prémio Nobel). Nalguns casos, o que chocou o conceito de Arte foi a sua (total) inversão.

Por exemplo, como dizia um crítico, a desconstrução de se conceber Arte.

La soupe - Pablo Picasso, 1902-1903

Picasso e outros foram exemplos disso (todos os movimentos que se seguiram ao Impressionismo, para além do Cubismo, o Surrealismo, o Expressionismo, Fauvismo, Futurismo, etc, ousaram reinventar a concepção de Arte).

Passaram a conceber a Pintura de uma forma até ali completamente diferente. Foram ousados e criaram um novo estilo. Inovaram. Goste-se ou não, ninguém discute hoje as suas qualidades artísticas e o seu lugar – relevante - na História da Pintura.

Le Rêve - Picasso, 1932

Naturalmente que há e houve em muitos casos, na concepção de determinada obra (Pintura, Escultura ou Composição musical), razões de natureza pessoal, experiências ou vivências desse tipo que levaram à concretização dessa obra. Os exemplos são vários, alguns até fascinantes. Agora, também terá de haver algum rigor para se considerar, ou incluir no conceito de Arte, determinada obra. É que nem sempre um excesso de ousadia, ou de inovação, ou de desconstrução, ou de abstracção, pode, ou deve, ser considerado Arte. Ou não deveria. Hoje, todavia, relativizou-se muita coisa, até na Arte. Por mim, desde que uma composição musical, um quadro, uma escultura, um livro, me fascine, pelo gozo que me deu de o desfrutar, já me sinto feliz. 

Les Deux Sœurs - Auguste Renoir, 1881

(PS: tenho imenso respeito por Martin Heidegger (com quem Herbert Marcuse colaborou, em particular num trabalho sobre Hegel – sempre admirei muito Marcuse), mas ainda hoje me custa entender aquela sua atitude perante o Nazismo, sobretudo vindo de alguém da sua estatura intelectual. Ficou a dever bastante a Hannah Arendt (com quem teve um “affair”, a sua recuperação, ou “desnazificação”). Outra nota: embora goste de Van Gogh, prefiro, por ex, Renoir (ou Monet, Manet)).


Texto da autoria de P. Rufino, enviado através de comentário a post abaixo

____

Agradeço a ambos os Leitores os seus contributos e espero que não levem a mal que tenha puxado os seus comentários para o corpo principal do Um Jeito Manso.

A selecção de obras que usei para ilustrar o texto é da minha responsabilidade embora tenha sido feita a partir das referências dos seus textos.

A música lá em cima, Magnificat, é da autoria de Arvo Pärt.

____



segunda-feira, dezembro 28, 2015

Casinhas às cores, delicados mirós, corpos flutuando ao vento, muita beleza em azul


O mar descansa-me. Uma manhã de inverno ameno, andando junto à água, é um privilégio de que, sempre que posso, usufruo. Com mau tempo também gosto mas o passeio não poderia ser tão longo como este que vos vou contar.

Quase ninguém. Uma paz imensa, uma largueza de horizontes, uma frescura branca, a música das ondas e do vento ao de leve, roçando a areia.

As gaivotas adultas deviam andar ao largo. Por aqui, apenas gaivotinhos brincando tranquilamente na água, uns afoitando-se junto à rebentação, outros, talvez outras, vendo-se ao espelho no pano de água que se estende pelo areal. Quando me aproximo, esta jovem levanta ao de leve a cabeça, confere que não vou perturbar e depois continua.




Ao longo da praia vou vendo as casinhas coloridas, quase casinhas de brincar. Alguém as imaginou, escolheu os materiais, as cores. Algumas simulam moradias de veraneio, sóbrias, janelas dando para um varandim onde deve ser bom ver o sol fazer de conta que mergulha num mar em chamas. Ou ver a neblina branca por onde se escondem os barcos, os pássaros, as ausências, os dolentes silêncios.


Deve ser bom estar lá dentro destas casinhas ouvindo o mar. Deve ser ainda melhor em noites de vendaval como o que agora se levantou, que bem o ouço, de rugidos do mar, de gritos de gaivotas. Deve ser bom ler um livro dentro de uma casa destas, ouvindo música, a música dos homens, e, ao fundo, a música do mar, do vento inquietando o mar, das sereias inquietando os pescadores. Deve ser bom.


Como será uma casa destas por dentro? Gostava de ver. Terá confortos? Ou será quase nada, um colchão, uma mesa e cadeiras, um armário? Tanto faz. Quem faz o ambiente são as pessoas, o que faz a magia é o espaço que nos envolve.

Sempre desejei ter uma casa junto do mar. Uma vez andámos à procura de uma casa rente ao mar. Mas as casas que víamos eram casas impreparadas, e um alertava para as humidades, outros para os salitres, outros para a pesada manutenção. E os miúdos não queriam, estavam habituados a estar no centro, à mão de semear para qualquer amigo. A custo desisti. Conformei-me com a cidade mas o apelo do mar é sempre muito forte.


Nos dias de marés vivas deve ser assustador, terror de que uma onda vadia arraste a casa para o mar alto, a despedace sem clemência, destrua memórias, apague os gemidos de amor que se inscrevem nas suas paredes.

Mas elas sobrevivem. Pintadas, arranjadas, as cores alegres de quem está habituado a conviver com os prazeres primários: o prazer do sol sobre a pele, o prazer da água sobre o corpo, o prazer do amor no meio de nada. O prazer de viver.


Vou caminhando. Não tenho pressa, tenho uma vasta extensão de areal à minha frente, tenho um mar muito belo ao meu lado. De vez em quando tenho que correr: uma onda mais forte traz a água até mais longe, quase me molho.

Quando se recolhe, observo os pequenos despojos. E o que vejo são composições graciosas, a aleatoriedade feita arte, o outono longínquo trazido pelas águas até aqui, até junto aos caminhos que os meus passos desenham.


Tal como há tempos, penso em Miró. Sinais, signos, estrelinhas, pontos de luz, conchinhas, pedrinhas, restos de vida que o mar afeiçoou. Não mexo em nada. Limito-me a ver a harmonia das composições: uma pena quase azul, uma pena maior -- e eu penso que, talvez, com ela eu conseguisse escrever, inventar um abecedário invisível, escrever palavras cá minhas que o vento levaria, que o mar guardaria, que as ondas levariam até alguém que as soubesse decifrar -- e uma outra mais escura, e uma folha trazida de longe, bolinhas brancas, um pauzinho. E eu em volta, maravilhada, fotografando, soletrando sóis, árvores, amores intemporais, alegrias, saudades, poemas cheios de luz.


Mais à frente, outra imagem que me deixa fascinada. Fascino-me com coisas assim. Há muita beleza não declarada, invisível. Há muita beleza que se constrói por quem pousa, ao de leve, o olhar. Há beleza que é só nossa, secreta, misteriosa. O tempo acrescenta nuances -- uma sombra que prolonga o movimento, um desenho que se adivinha como se tivesse saído da nossa imaginação, talvez a dolorosa e bela tatuagem no coração de um amante inexistente --, o mar lava o supérfluo, deixa os ramos nus, a pele macia, e tudo é quase branco, quase novo, um ramo que é quase imaterial, talvez o bouquet que alguém, lá longe, quis atirar ao mar para que eu, aqui, o olhasse embevecida. Mas pode ter sido apenas o vento, ou talvez a mão de alguém sem corpo, sem nome, talvez alguém de um outro tempo, de um outro mundo, alguém que sonha os meus sonhos e adivinha as minhas palavras.


E eu deixo para trás o belo ramo que se espraia na areia, e sigo. Sei que, um outro dia, o terei de novo; talvez um dia pegue nele e o guarde comigo, num lugar especial. Talvez nesse dia ele esteja ainda mais requintado na sua essência branca, mais depurado, mais pronto para ser meu.

Mais à frente, uma menina dança, salta, contorce-se: parece uma flor oscilando ao vento. Junto a ela um cão que, certamente habituado à graciosidade da dona, já nem a olha. Brinca à sua volta, inocente e livre como ela. E a menina bailarina brilha como um raio de luz pousando no areal, e as suas pernas curvam-se no ar e toda ela é graça, ausência de gravidade, suave leveza. A vida inteira pela frente e ela ainda sem saber que são loucos os caminhos que se lhe hão-de desenhar ao longo dos tempos (assim ela os saiba perceber), que são imprevisíveis os jardins, os labirintos, os atraentes abismos, as perigosas escarpas de onde se alcança a melhor vista, que é bela a vida, tantas as sombras, tantos os esconderijos, tantos os miradouros, as grutas, os píncaros, o infinito fundo do mar, os bosques acolhedores, o amor dos homens, a ternura dos abraços. E que raras são as palavras capazes de dizer o que vai no mais fundo de nós, e que férteis são os ventos que transportam as gotas do mar e o perfume das flores de carne e paixão, e que amáveis são as mãos que escrevem, que afagam, que amam, e que doces são os olhares que se escondem lá longe, lá longe.


E eu continuo. Na volta, mais calor, o mar mais tranquilo. Nada e ninguém perturba a paz que o ondular suave do mar nos traz.

E, então, mais à frente, um outro corpo oscila. Olho-o. Durante muito tempo assim está este homem, parece um caule elegante balouçando ao vento. E um outro cão. Este descansa, talvez medite, talvez pense na graça das coloridas casinhas ou se admire com a força dos braços do seu jovem dono. Amor fiel e incondicional o de um cão pelo seu dono: o dono demora-se e ele, paciente, aguarda.

Talvez o jovem aspire o perfume que sobe da areia molhada, talvez goste de tocar o céu com a pele nua dos pés, talvez imagine que caminha sobre o azul intangível do imenso espaço.


Caminho para regressar, sem tempo, com vagar. 

Um corpo reluzente em negro sai do mar transportando uma esguia concha branca. Do outro lado, as serras desenham sombras azuis sobre o céu azul, elevando-se sobre as águas também azuis. Olhando bem, vê-se que, naquilo que talvez sejam cidades, os pontinhos brancos são casinhas, talvez casinhas de brincar habitadas por pessoazinhas de brincar, iguais a mim e a si, Leitor, pequenos seres, irrelevantes na nossa pequenez face à imensidão da beleza azul desta natureza generosa, tolerante, abençoada. Podia esta paisagem ter sido imaginada, um sonho, um deslizar do pensamento sobre o vago ondular da espuma do mar. Mas é verdadeira. Aqui, só eu sou inventada.

....

Muitos dos que me lêem são de longe. Todos os dias, muito mais de cem pessoas chegam do Brasil e quase outras tantas dos Estados Unidos e outras de vários outros países. Todos os dias, desde há muito tempo. Talvez sejam leitores regulares, talvez já sintam que me conhecem, talvez gostem de estar perto das minhas palavras. Penso que, a esses em especial, tenho o dever se mostrar os lugares que me trazem esta felicidade simples e boa. E, mesmo de entre os que são de Portugal, talvez haja quem não tenha a sorte de sentir o bem-estar feito de passeios dados na areia molhada, num tranquilo dia de maresia branca evolando-se de águas azuis. É dezembro, já foi o natal, e em vez de andar sobre a neve, os meus pés procuram a água do mar, esta água bravia, cheia de vida. É dezembro, o ano está a acabar, e eu sinto-me cheia de sorte por saber que, aí desse lado, está alguém que gosta de estar aqui comigo. 

Sorrio enquanto escrevo e só tenho pena de não saber depositar o meu sorriso nas vossas mãos, no vosso olhar. E de não poder levar-vos o perfume molhado das águas do mar.
....

Balada del mar no visto

....

As fotografias foram feitas neste domingo de manhã no vasto areal da Caparica, um lugar de sumptuosa e tranquila beleza.

A música, The heart asks pleasure first, da autoria de Michael Nyman, pertence ao filme O piano

Para os que nunca viram este mar -- o poema Balada del mar no visto é de León de Greiff cuja voz se ouve no vídeo.

Mis ojos vagabundos,
mis ojos infecundos...:
no han visto el mar mis ojos,
no he visto el mar!
....

E, embora depois de ter escrito isto e de ter escolhido estas fotografias para vos mostrar, não me apeteça, digo-o na mesa: a seguir encontrarão um texto escrito num outro comprimento de onda. Aí falo sobre a entrevista concedida a Judite Sousa pelo incontornável Jorge Jesus e, ainda pior... falo também sobre o golden boy Marques Mendes, um que também já podia ir pregar para o deserto (é que já não se aguenta tanta conversa maltrapilha, com casacos tão apressadamente virados do avesso e sempre com aquele sorrisinho lampeiro de vizinha linguaruda que já cansa).

...

segunda-feira, agosto 31, 2015

Miró à beira-mar


De manhã fui caminhar na praia. Para mim, cada vez mais, estar na praia é sinónimo de caminhar junto à orla do mar. Excepto quando em grupo, que aí é certo que terei que pousar, a praia para mim é lonjura, andar na areia molhada, sentir o espraiar das ondas, andar, andar.

Ao longo da caminhada vou reparando nas pessoas, vou reparando no que fazem, vou lamentando não poder fotografá-las, tantas tatuagens, os corpos todos pintados, e corpos ginasticados, o corpo como um instrumento passivo da vaidade, ou corpos vencidos pela vida, ou corpos nus, lisos, sem pêlos, quase estranhos, ou corpos torrados pelo sol, ou gente solitária, caminhando também ou simplesmente olhando o mar, ou casais, ou encontros clandestinos esgueirando-se pelas dunas. Disfarço, finjo que não reparo. E, assim, vou deixando que o olhar vá ao longo do horizonte, para longe, longe, o areal só uma linha clara ao longe, perdido entre a neblina do mar, ao longe.

Depois, à vinda, já mais cansada, venho mais devagar, e vou atentando nos despojos do mar - conchas, penas, limos, cores suaves, lavadas - e, então, começo a fotografar estas pequenas composições que as águas aleatoriamente desenham no areal.


Há muitos, muitos anos, vi uma exposição de Miró. Por essa altura ainda eu sentia alguma estranheza perante o que não me era evidente. Olhava as telas pintadas com pontos de cor, sinais inocentes, incompreensíveis signos, pequenos nadas, e interrogava-me sobre o sentido de tanto inusitado. Não sabia ainda que o que eu via reflectia o desconhecimento que eu, então, tinha sobre o não-explicado de que a vida é feita.

Com o tempo, fui sentindo que era do estranho e inesperado que o meu gosto se ia aproximando. Aos poucos, o não-explícito passou a ser o que o meu olhar e a minha mente melhor reconhecia.

Depois dessa vez, várias outras vi Miró.

Uma estrela azul, um sol branco, uma lua laranja, uma bailarina, uma nuvem com coração, um sonho a voar, uma chama, uma sombra, um olhar aberto, um avião perdido, um pássaro nunca visto.

Deixei de estranhar porque há muito percebi que o melhor da vida é o que não tem explicação. Há muito que aprendi que o maior prazer vem daquilo que o pensamento não tenta domesticar.

O efémero, o aleatório, o imprevisto, o inexplicável - é daí que hoje vem o que verdadeiramente me emociona.



Assim as pequenas composições que o mar deixou na orla da água e que eu fotografei para vos mostrar.









....

Jeux d'eau


....

E, aceitem o meu convite e desçam, por favor, até ao Tejo.

...

sexta-feira, fevereiro 21, 2014

Xavier Barreto tem um gémeo de quem foi separado à nascença?


No post a seguir a este poderão ver uma anedota que mete o Adão, a Eva, a Popota Merkel, o Garanhão Hollande, o Camarão e o Láparo de Massamá. Talvez já conheçam. Eu não conhecia e achei graça. 

*

Aqui agora a questão é outra. Suspense. Suspeição. Coisas que se dizem à boca pequena.

Miró produziu um Xavier Barreto avant la lettre ou a realidade é ainda mais penosa? 

Será aquela figurinha o gémeo separado à nascença que, finalmente, Xavier Barreto descobriu, tentando apressadamente livrar-se dele?

Tantas perguntas no ar. O mistério vai-se adensando.

Gémeos univitelinos separados à nascença que o destino juntou?
Um segredo de família que Xavier Barreto quer esconder....?

*

terça-feira, fevereiro 04, 2014

Christie's cancela leilão da colecção Miró. Xavier Barreto diz que temeu que houvesse ilicitude na expedição dos 85 quadros para fora do País mas, assim como assim, deixou que a operação prosseguisse e pergunta se as pessoas preferem pagar mais pela saúde para manterem os Mirós. Fiquei pasma a ouvir as barbaridades que aquela estranha e irrelevante criatura disse e, sinceramente, duvido que esteja ligada à Cultura. Deve ser coveiro ou coisa do género.


El somriure de les ales flamejants

Joan Miró

Menos mal que a leiloeira Christie's tenha cancelado a venda dos 85 quadros de Joan Miró mas, ó senhores, teríamos nós, Portugueses, que passar por mais esta humilhação nacional? 


No meio de ilícitos e outras atitudes pouco claras, negligentes e ignorantes, teve que ser uma leiloeira que ainda por cima nem é portuguesa a perceber o ensarilhamento que ali estava armado?

Teve que ser uma leiloeira a travar mais uma barbaridade que esta gente desalmada e trapalhona queria levar a cabo?

Juro que isto me mete nojo. Nojo. Até me custa falar nisto. Sinto-me humilhada.

Estamos entregues à mais desqualificada gentalha de que há memória. Desprezam o povo, desprezam o património, desprezam a cultura.

Pergunto-me: todo este empobrecimento está a ser feito em nome de quê?

Pintura de Miró
(de quem já aqui falei algumas vezes)
Para pagar a dívida não é porque quando pegaram no governo ainda não tinha atingido os 100% e, depois disto tudo, já vai em cerca de 130%.

Para travar o desemprego também não é, porque o desemprego disparou brutalmente com eles.

Para travar a emigração não é, porque os jovens não param de fugir do país.

Para eliminarem as ditas 'gorduras de Estado' não é porque não pararam de crescer.

Para relançar a economia não é porque as falências dispararam dramaticamente.


Então, se não é para resolver os problemas do País, é para quê?

Para preservar a cultura é que não é. 


E, como dizia Churchill, se não é para preservar a cultura, então para que é que estamos em guerra?


No meio disto, deste pântano infecto em que parece não se perceber quem foram os incompetentes e ignorantes que conduziram este vergonhoso processo, não vou deter-me na irrelevante criatura que parece não ter sabido da coisa a tempo e horas e que, quando soube, segundo o meu marido, deve ter dito 'que se f...' - e deixou andar.




A criatura é irrelevante, não está lá a fazer nada, deve sair não por isto mas por tudo, porque não faz falta, porque ninguém no governo lhe liga patavina e porque ele próprio não se dá ao respeito. Não vale a pena perder tempo com ele. 

Eu responsabilizo por isto duas pessoas: o Primeiro-Ministro e o Presidente da República. Se não estão cá para zelar pelos interesses nacionais estão para quê?

Por mim, há muito tempo e cada vez mais, para esta gente a porta da rua é a serventia da casa. 

sexta-feira, setembro 06, 2013

Ler poesia. Ouvir poesia. Sentir a poesia. Perceber a poesia. Analisar poesia. Escrever poesia. ------ [E mais um Cadavre Exquis Poético - para ajudar a responder à pergunta: faz sentido analisar a poesia?]


No post abaixo, festejo o regresso de Pedro Mexia à blogosfera. Um malparado muito diferente daquele a que nos habituámos. Mas isso é a seguir.

Aqui, agora, a conversa é outra e tenho que tentar ser breve porque daqui a nada tenho que estar a pé que me espera mais um daqueles dias que começa antes do sol raiar. 

Vou aventurar-me por terrenos em que escorrego mal ponho o pé. Sei bem disso. Mas fazer o quê? se gosto de andar por sítios assim. Vou escolher umas imagens que têm o seu quê de infantil para que vejam bem que não me tomo a sério e que, ao dizer o que vou dizer, assumo que, deve ser o meu lado pouco adulto (ou inculto) a manifestar-se.

^^



Música por favor, 
que esta é conversa que se debruça sobre o sonho (ou sobre a fala) dos anjos


Arvo Pärt


^^

Leio poesia há muitos anos, desde os meus treze anos talvez. Tenho uma estante própria e de boa dimensão para poesia e, ainda assim, a mesa em que escrevo tem a toda a volta (é redonda) vários montes de livros de poesia. Tenho uma necessidade que é da ordem da adição: todos os dias tenho que ler um poema, um ou mais. Apenas em férias interrompo. Mas, por vezes, como qualquer viciado em estado de carência, abro um livro e leio um poema, mesmo que de fugida, mesmo que a total despropósito. 




Sou leitora assídua de poesia mas não sou uma leitora exemplar. Sou aliás a antítese disso. Não pego num livro e não começo a ler de seguida, página após página. Nem consigo nunca começar pelo princípio. Não sei porquê mas não consigo. Mais depressa vou ler o último ou o índice. Gosto de ler o índice para ver se, pelo nome, consigo ir direitinha ao melhor. Se não acerto, o que faço é abrir ao acaso e ler e depois andar para trás ou para a frente. Se me agrada o início de um poema, leio-o todo, senão passo para outro. Depois não fico a interpretá-lo nem a tentar perceber o que significa. Impossível fazê-lo. Na poesia eu acho que as palavras saem porque saem ou saem porque têm um significado para quem as escreveu. Depois de o terem escrito de forma inconsciente, se calhar, os poetas rematam as pontas, tiram os alfinetes, sobem as bainhas, essas coisas, acabamentos. Se calhar, só depois o dão como pronto.




Que me desculpem os estudiosos, a boa gente séria que sabe como desmantelar um poema sem o estragar, para que à vista desarmada ele continue a parecer aquilo que era, um poema genuíno. É ignorância minha, eu sei, mas parece-me que querer descobrir algum significado num poema parece-me um acto de divinação absurdo, ou um acto de voyeurismo despropositado. Ou seja, interpretar um poema parece-me estultícia. Mas que não se zanguem comigo os que o fazem e fazem bem – como confessei, não sou bem comportada, não sou boa aluna, não sou by the book (em nada nesta vida). 

Mas isto de querer interpretar o que os outros fazem, sejam os outros poetas, pintores, músicos, faz-me lembrar uma entrevista a Paula Rêgo. Dizia ela com aquela sua irreverência inocente: sei lá porque é que pintei aquilo, apeteceu-me, saíu assim, às vezes está ali um espaço vazio e ponho lá qualquer coisa para encher. Numa tela, estavam uns tomates no chão ao lado de uma cama. Disse ela: sei lá porquê, não faço ideia de como lá foram eles parar


Miró


Miró disse o mesmo. Quando acabava e pintar, deixava os pincéis de molho. Quando no dia seguinte lá chegava, de novo, tinha que lhes tirar o excesso de água. Sacudia-os para cima das telas. Depois, a partir dos salpicos, ia desenhando pintinhas, bolinhas, quadradinhos, juntando umas coisas. Fartava-se ele de rir com as interpretações que lia depois sobre os símbolos e a significação e essas coisas.

É até ridículo eu agora juntar-me à conversa mas, afinal, quem me impede? Vocês que estão aí sossegadinhos desse lado, tão longe de mim? Têm lá vocês a capacidade de me porem uma mão à frente da boca? Não têm. Ou melhor: conseguem estender o vosso braço e agarrar a minha mão para que eu não escreva mais disparates? Não. Estão longe demais. Portanto, agora a protagonista passo a ser eu. Sempre inconsciente.

Sabem que eu pinto. Agora menos, tenho cada vez menos tempo para fazer tudo o que gosto (isto dos blogues ocupa-me muito do tempo que usava para pintar). Pois eu, por vezes, era tomada por uma vontade compulsiva de pintar. Mas pintar – e a frase acaba aqui pois era de pintar que tinha (e por vezes ainda tenho) vontade, não de pintar alguma coisa em concreto. Vontade de olhar para uma tela em branco e depois, sem saber como nem porquê, ir juntando cores ou figuras. Depois as pessoas olham e vêem coisas e pedem-me explicações. Fico sem jeito, receio passar por mais maluca do que sou na realidade. Mas, a sério: não sei o que responder. 

Houve uma altura em que havia sempre duas freirinhas, ajoelhadas a um canto. A pintura podia meter mulheres nuas, corpos expostos, flores viscerais, sexos, montes, cavalos, gente em cima de árvores, portas, muros, labirintos, a sombra caindo sobre um muro, o que calhava, mas lá estavam sempre a um canto aquelas duas, vestidas a rigor, ajoelhadas, a rezar. Matéria para análise é o que não falta ali. Podem dizer que era a libertinagem total e que as freiras representavam a minha consciência. Tretas. Apareciam-me como uma paródia. O que sei é que pintar assim é a loucura, o prazer da liberdade total. 

Uma vez pintei uma ‘cena’ completamente improvável. Nessa altura andava a pintar cidades, torres que se cruzavam, camadas de prédios, o sol a bater nos prédios, viadutos e pontes que entravam e saíam dos prédios, prédios de formas bizarras, curvos, superfícies irregulares, cada parede de sua cor, cidades abstractas, feéricas. Pois bem, numa dessas pinturas pintei as pernas de uma mulher de saltos muito altos, uma mulher que, pela proporção, devia ser gigante pois andava sobre os prédios, um pé em cima de um, outro pé em cima de outro. E num canto do quadro via-se uma outra coisa: uma mão de mulher pegando no pobre pénis de um homem, pegando com o cuidado que se usa para pegar numa coisa frágil. 

Estas imagens, a das pernas da mulher e a mão da outra a pegar naquele pobre órgão, estavam a preto como se fosse quase uma sombra que se projectava naquela paisagem urbana. Uma coisa de que gosto especialmente é de dar nomes aos quadros. Só dou no fim porque só no fim é que vejo o que saiu. Àquele dei o nome ‘Women rule’. Reparem: não pensei que ia pintar um quadro que representasse o poder das mulheres nas sociedades modernas. Nada disso. Foi exactamente ao contrário.

Como gostei dele, emoldurei-o e coloquei-o na sala. Faço coisas assim, sem pensar. Lá em casa geralmente estamos nós, os filhos (já habituados – mas ainda não confortáveis com o que vêem ou lêem) e netos (na altura ainda não existiam), o genro (que deve achar isto uma coisa do além), a nora (que talvez ache piada), na altura os meus pais (o meu pai não dizia nada e a minha mãe ria-se como se eu fosse um caso perdido). Mas o pior foi no dia em que, pela primeira vez, depois de eu lá ter colocado o quadro, lá foi uma família, agora nossos parentes, pessoas conservadoras, tradicionais, católicos praticantes, gente atilada, tudo o que eu não sou. Quando ele começou a fazer o périplo por aquelas pinturas eu senti um calafrio, ó caraças que não me lembrei, devia ter escondido o sacana do quadro. Bonito serviço. O que é que ele vai pensar? Ai… Mas enfim, educado e cavalheiro, reparei que esboçou um quase imperceptível sorriso e seguiu, sem fazer uma referência. Depois disse que tinham muita força, muita vida, coisas assim. Pois. 

Agora imagine-se se algum sábio da coisa, um crítico de arte ou coisa do género, se metia a comentar aquilo. O que eu me ia fartar de rir.




É como a poesia. Leio e gosto ou não gosto. E por vezes não me diz nada, outras abre-me portas, outras varre-me a pele, outras é uma melodia que murmura dentro de mim. O que eu gosto de fazer, e faço muito (quando escrevo no Ginjal - coisa de que tenho andado arredada porque o tempo de verão leva-me para outras solicitações), é escolher um poema, copiá-lo para o blog e depois, sem pensar, tem que ser logo de seguida, enquanto as palavras do poema estão à solta dentro de mim, ou seja, ainda não assentaram nem se dissiparam, desatar a escrever o que me ocorre acerca daquilo. Recrear a situação, ou inventar uma situação em que as palavras do poema fizessem sentido. Ou outra coisa qualquer. Não sei. Não paro para pensar. E mal acabo de escrever, bye, bye, fecho o Ginjal e parto para outra. Aquilo fez sentido no estrito momento em que ocorreu, mal acabou, já sou outra. Já me aconteceu, raramente mas aconteceu, reler o que escrevi (acontece, por vezes, quando me quero certificar de que ainda não coloquei um certo poema, fazer uma pesquisa e ir parar a certa pagina que releio). Fico sempre espantada com o que escrevi.  Mas nem tento perceber o que escrevi, nem o que poderia aquilo ter significado na altura, ou as técnicas que usei ou o que for. Felizmente ninguém se deita a tão inútil e descabido exercício.




Li o exercício que o JCM escreveu na quinta feira no seu excelente Kyrie Eleison. Claro que, lendo o que ele escreveu, percebo que faz sentido. E está bem escrito e é inteligente o que ele diz. Mas acrescenta o quê à compreensão do poema? A intenção é que, quem o não tinha percebido, lendo a explicação, o releia com outra atenção e o compreenda melhor? Se calhar é. Quando tive aulas de língua Portuguesa no liceu fazíamos este tipo de exercícios. Tanta gente se entrega a isto que com certeza faz sentido. Eu é que sou atípica ou rústica (e não estou a  ironizar). Eu leio o poema sobre o qual o JCM se debruçou e a única coisa que me ocorre é que gostava que o meu amor o decorasse e mo dissesse num sussurro ao ouvido. Em francês de preferência. Mais do que isto não sei dizer sobre "Le Toucher".




Já no outro dia o JCM tinha falado sobre a análise poética e trocámos impressões sobre o tema. 

Para mim, ler aqueles exercícios de análise é como se eu, gostando de uma flor - e tanto que eu gosto de flores - em vez de me limitar a vê-las, tocar-lhes, cheirá-las, fotografá-las, pintá-las, me pusesse a ver compêndios de botânica, a estudar a respectiva taxonomia, a ver se o rebordo da folha é assim ou assado, se a superfície da folha é assim ou assado, etc. Devo dizer que tenho livros desses: por gostar muito de flores, pensei que, estudando-as, as apreciaria melhor. Errado. Não apenas não tenho paciência para isso como não percebo qual a utilidade prática para mim que sou amante em estado bruto. A beleza para mim tem que vir nua, em estado primitivo, sem taxonomias, gramáticas, burocracias.



Paul Klee


Já aqui uma vez o fiz e é exercício que gosto de fazer: um cadavre exquis poético. Ou seja, pegar em bocados de outros poemas e ir juntando peças até que soem como um poema. O resultado pode parecer um poema que nasceu pelas vias normais mas eu sei que nasceu de um exercício de assemblage, que é um patchwork, um ser fabricado.

Mas vamos supor que eu não explicava isso. E vamos supor que, por algum estranho acaso, algum estudioso resolvia analisá-lo. Poderia resultar um exercício muito racional. Mas faria sentido atribuir significados a coisas que resultaram de puro corte e costura?

Não sei. 

Agora que falei nisto, vou fazer outro cadavre exquis. Vejamos o que vai sair.




                                                    Olho. 
                                                    Um mecanismo de seda
                                                    de gaivotas traídas pelo fogo da tarde
                                                    rasga o horizonte 

                                                    São as horas solitárias em que a noite nasce,
                                                    traça um rumor de alfazema sobre a terra

                                                    A noite desceu pelo rio da saudade. 
                                                      
                                                    Sentemo-nos no silêncio desta hora.
                                                    Ergue-se flamejante
                                                    a sombria sombra da minha sombra. 
                                                    a sombra da minha sombra ao partir.

                                                    E deixo fermentar as imagens
                                                    que trago no fundo do corpo.
                                                    São restos do mundo que amei,
                                                    os montes, a luz verde da salvação.


Gosto de fazer isto.

Todos os versos foram retirados dos vários poemas do JCM publicados durante este mês de Agosto no Kyrie Eleison. O que é que eu quis dizer com este poema? Nada. Não escrevi por mim uma única palavra. E, no entanto, agora que o leio, parece fazer sentido e parece ser algo que eu, um dia, poderia ter dito ou vir ainda a dizer. Vá lá alguém explicar isto.




***

Uma vez mais que me desculpem os linguistas, os estudiosos apaixonados pela língua, os amantes de literatura, os investigadores. Sabem o que fazem. Eu se calhar não. Mas é que eu acho mesmo que da poesia ou se gosta ou não - e a única coisa a fazer em relação a isso é ler. Ou ouvir ler. Ou esperar que a vida nos traga a maturidade ou a leveza para que saibamos gostar. Pode ser um ano, uma vida. Ou um dia. E por vezes, ah por vezes, num segundo se evolam tantos anos.




E por vezes, David Mourão-Ferreira


***

É tarde e daqui a pouco estou a caminho. Tenho que me ir deitar e, por isso, não vou reler. Espero que não existam erros graves, coisas sem sentido, porque não vou poder corrigir. E mal chegue a casa, ao fim do dia, tenho baby sitting. Por isso, vou fazer figas para isto não estar tudo baratinado, tal o sono que tenho em cima de mim e dado que não vou poder atender a SOS's que me avisem de enganos.

Relembro: as coordenadas para o novo blogue do Papa Pedro Mexia estão no post seguinte.

***

E nada mais senão pedir-vos desculpa, uma vez mais, pelos meus excessos: se isto é tamanho que se apresente na internet, senhores...? 

E, sobretudo, resta-me desejar-vos uma belíssima sexta-feira!