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sexta-feira, março 06, 2026

Ah... aqueles que sabem sempre tudo...

 

No outro dia, um comentário -- que muito agradeço -- dizia: "E a proposito de desgraças e malvadez ou percepção delas, em linha com o comentário que deixei há uns minutos.." e deixava o link para o vídeo que aqui partilho.

Ao ouvir, lembrei-me também, de 'O escândalo do século'. Para quem não leu, o conto, que não é bem um conto pois assenta numa situação real que Gabriel García Márquez relatou, do princípio ao fim, quando ainda era “apenas” jornalista — mas já com o olhar agudo que viria a marcar toda a sua obra.

Tudo começa com a morte de uma jovem encontrada numa praia. Quase de imediato, a comunidade, a imprensa e a opinião pública começam a tecer teorias: suspeita-se do namorado, inventam-se motivos, surgem ligações a interesses obscuros, fala-se de política, de drogas, de conspirações. Em poucos dias, o caso deixa de ser uma tragédia pessoal para se tornar um escândalo nacional — com versões cada vez mais elaboradas, cada vez mais seguras de si mesmas, mas cada vez mais afastadas dos factos.

A investigação prolonga-se, desmontando lentamente as certezas precipitadas. O que se descobre, no fim, é muito mais simples — e muito menos sensacional — do que aquilo que todos tinham decidido acreditar. A morte não correspondia a nenhuma das histórias que tinham sido repetidas com tanta convicção.

O relato mostra como, antes mesmo de qualquer tribunal, já todos tinham julgado, condenado e explicado o caso. E expõe a facilidade com que a reputação de uma pessoa — viva ou morta — pode ser destruída pela soma de boatos, preconceitos e pela necessidade colectiva de encontrar culpados.

Mais do que um mistério, é uma reflexão sobre a sede de punição e sobre a ilusão de certeza que tantas vezes domina a opinião pública — como se a verdade pudesse ser substituída por versões repetidas com suficiente convicção.

O protagonista do vídeo que partilho é sobejamente conhecido e a história é recente. De qualquer forma relembro-a. 

Em 2017, o ator Kevin Spacey passou de um dos nomes mais respeitados de Hollywood a uma figura praticamente banida da indústria. Surgiram várias acusações de assédio e agressão sexual feitas por diferentes homens, muitas delas relativas a factos que alegadamente teriam ocorrido décadas antes, num contexto marcado pela vaga de denúncias associada ao movimento #MeToo.

Um dos casos mais mediáticos foi o do ator Anthony Rapp, que afirmou que Spacey o teria abordado de forma sexual em 1986, quando ele tinha 14 anos. O caso deu origem a um processo civil nos Estados Unidos. No Reino Unido, também surgiram várias acusações relacionadas com alegados incidentes entre 2001 e 2013, período em que Spacey dirigia o teatro Old Vic, em Londres.

Antes mesmo de qualquer decisão judicial, a reação pública e mediática foi imediata e avassaladora. Kevin Spacey foi afastado da série “House of Cards”, cortado de projetos em curso e substituído no filme “All the Money in the World”. Na prática, foi julgado e condenado na praça pública muito antes de qualquer tribunal se pronunciar. Durante anos, para grande parte da opinião pública, a culpa parecia já estar decidida.

Contudo, quando os casos chegaram efetivamente aos tribunais, os resultados foram diferentes. Em 2022, um júri em Nova Iorque decidiu que Kevin Spacey não era responsável pelas alegações apresentadas por Anthony Rapp. Em 2023, num tribunal de Londres, foi considerado inocente das nove acusações de agressão sexual que enfrentava.

Independentemente das opiniões pessoais sobre o actor, o caso suscitou uma questão importante sobre o poder da comunicação social e da opinião pública: até que ponto alguém pode ser social e profissionalmente condenado antes de existir um julgamento e uma decisão da justiça?

A presunção de inocência — o princípio de que, em caso de dúvida, não se deve condenar um inocente — é um dos pilares do Estado de direito. O caso de Kevin Spacey recorda como esse princípio pode tornar-se frágil quando o julgamento passa primeiro pela praça pública.

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O vídeo tem uma leitura interessante e um twist inesperado no final. Por isso, sugiro que o vejam na íntegra. 

De novo, relembro que, na rodinha dentada do vídeo, em baixo, podem escolher que tenha legendas e, depois, no auto-translate, seleccionar a língua portuguesa

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Vencedor por duas vezes de um Oscar, Kevin Spacey discursa na Oxford Union

Segundo se lê na apresentação da Oxford Union, trata-se da sociedade de debates mais prestigiada do mundo, com uma reputação inigualável por trazer convidados e oradores internacionais a Oxford. Desde 1823 que a Union promove o debate e a discussão não só na Universidade de Oxford, mas em todo o mundo.


Desejo-vos uma happy friday
[Quando trabalhava, o meu colega britânico, chegava ao fim da semana e, todo feliz da vida, ia espreitar ao meu gabinete para se despedir: TGIF! (thank god it´s friday)]

quinta-feira, julho 27, 2023

Kevin Spacey, vítima inocente

 

Era o exemplo do abusador, do assediador, de predador sexual. A sua imagem ilustrou todos os movimentos de tipo #MeToo.

Perdeu o emprego, perdeu os patrocínios. Deixou de ser convidado para o que quer que fosse. Foi banido da sociedade. A sua honra foi desfeita. Tornou-se um proscrito, um ser infame.

Apareciam os que lhe apontavam o dedo por ele se ter aproveitado da sua posição para os assediar. Lembro-me da ofendida mãe de um rapaz. Kevin Spacey era um porco imundo, segundo todos quantos lhe apontarem o dedo e lhe mostraram que o único caminho era sair de cena.

Sempre se declarou inocente.

Mas ninguém ouve os que caem em desgraça: ele era culpado, ele tinha que pagar por todos os crimes. Vários crimes, nos Estados Unidos e no Reino Unido.

E, no entanto, eis que agora veio o veredicto. Tal como nos Estados Unidos já tinha sido declarado inocente também agora, no Reino Unido, o foi.

A notícia sai pequena, sem destaque.

Ninguém quer saber da inocência dos inocentes.

sexta-feira, novembro 10, 2017

Só estou para ver quando isto do assédio sexual chegar a Portugal...
Não vai haver uma única mulher que não tenha um marau para denunciar...
Cá para mim só vai escapar um homem... O Marcelo, pois claro!


Abro as revistas e os jornais online e não há cão nem gato que não tenha assediado mulher, homem, periquito ou whatever.

E que não se pense com isto que estou a desvalorizar. Não estou. Mas também vejo muita denúncia que a mim me apetece dizer que vou ali e já venho. Um piropo é assédio? Caneco. Só se for piropo badalhoco ou a despropósito. Uma atracçãozinha manifestada de forma menos disfarçada é assédio? Ora essa, não forçosamente.

Mas se isso é aceitável, razoável e, até, potencialmente apreciável já o que violente a dignidade ou vá contra a vontade do visado é intolerável e, relativamente a isso, concordo que a tolerância deve ser zero.

Aqui há dias, a propósito do Weinstein, contei aquilo de, há uns anos, me ter aparecido um big bear argelino no gabinete que me fez sentir em risco e que me incomodou demais. E agora que estou a escrever isto, lembrei-me de uma coisa que me aconteceu quando ainda era solteira. Estava muito engripada e achei que devia ir ao médico. Não sabia a que médico havia de ir. O meu namorado da altura perguntou aos pais e veio com a recomendação do médico que os acompanhava, médico prestigiado, considerado o melhor internista português. Eu novinha, novinha e ele com idade para ser meu avô. Simpático. Não disse quem me tinha recomendado. Portanto, para ele eu era apenas uma miúda que tinha aparecido no consultório. Auscultou-me. Depois quis ver-me ao RX (creio que era RX, sei que havia umas placas verticais onde eu me encostava, numa sala meio às escuras). Mandou-me pôr em tronco nu. E, juro que é verdade, começou a mexer-me nas mamas. Eu incomodada e ele a dizer que era para me encostar melhor, para se ver melhor. Tal como as técnicas de imagiologia que nos ajeitam as mamas quando fazemos mamografia, assim o estupor do velho ordinário.

Eu, sabendo-o o médico e amigo do que viria a ser meu sogro e com algum receio de que aquilo fosse mesmo assim, contive-me e não lhe preguei um par de estalos. Mas afastei-me, enojada.

Saí de lá a chispar. Mandou que lá voltasse uma semana depois. É o voltas...

Se fosse hoje teria saído dali para ir a uma esquadra denunciá-lo. Assim, engoli em seco e fiz de conta que não tinha acontecido.

Fui agora googlá-lo. Já morreu há uns anos, claro. Por isso não vou aqui dizer o nome do velho canastrão. Estou convencida que hoje já não há babacas descarados que se atrevam a fazer isto. Mas, se os houver, espera-se que recebam o devido troco e a merecida recompensa.

Mas, pelo que leio, as denúncias sucedem-se. Parece que não há actriz ou modelo que não tenha sido incomodada e que não há actor que não tenha pisado o risco. E todas elas virgens e altamente beatas e eles todos uns violadores em série. Parece que se está a passar da total permissividade para com os verdadeiros abusadores para um mundo governado por santinhas. É que são os exageros e o excesso de puritanismo que, a prazo, vão fazer com que se desvalorizem as denúncias sérias e se parodie tudo o que é queixa. Qualquer dia um olhar que faça corar uma senhora mais pudorenta já é crime, não?

Volto a dizer: não desvalorizo o (verdadeiro) assédio sexual. Apenas digo que há que distinguir o que é sério do que não é coisa alguma.

No outro dia, falei aqui incomodada com o sururu que estava a ser feito em torno de Kevin Spacey quando tudo não teria passado de uma tresloucadice de bêbado desencabrestado. Parece que afinal foi mais do que isso já que, daí para cá, não têm conta as calças masculinas que Kevin já penetrou para avaliar a genitália do respectivo dono. Toda a vida, diziam, a manter reservada a sua vida sentimental e sexual para agora esta desgraça, denúncias atrás de denúncias. Tenho pena. Só pode ser doença.



Enquanto estava a ler alguns destes artigos estava a ver, na televisão, o nosso ubíquo Marcelo a empolgar as massas no Web Summit. Depois, distraí-me e já andava ele na rua abraçado a miúdos e graúdos o maior forrobodó selfítico. Já está tão pro que ajeita o telemóvel, debruça a cabeça, abraça a preceito. Mas é tudo tão inocente que, apesar de abraçar e beijar meio mundo, ninguém vai ousar dizer que pisou o risco. E deve ser o único que está acima de qualquer suspeita. E isto, claro, porque está a caminho de alcançar o estatuto de santo em vida, tanto o conforto e qualidade de vida que distribui por via de todo este afecto que tem para dar.



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E queiram descer para assistirem à converseta entre duas brasas do mais feministas (no bom sentido) que há

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quarta-feira, novembro 01, 2017

Bárbara Guimarães e Manuel Maria Carrilho -- a violência doméstica, o alcoolismo.
Kevin Spacey -- a homossexualidade, os excessos de uma noite regada a álcool.
[Dramas privados de quem vive exposto ao público]


Não sou dada a moralismos e, muito menos, gosto de pisar quem está na mó de baixo. Custa-me saber de sofrimentos vividos em carne viva, à vista de todos. Por isso, custa-me saber da intransigência e maldade de quem se apressa a puxar o tapete que resta a quem já escorregou.

Da mesma forma, por oposição, faz-me alguma impressão o deslumbramento cego que, algumas pessoas demonstram nos momentos de sucesso, como se não se apercebessem de que tudo é efémero, de que tudo é relativo e que a exposição excessiva esvazia a alma. Pensam que compram a estima eterna quando, afinal, estão a empenhar a sua liberdade individual junto de um público que, na realidade, em momentos de fraqueza dos seus ídolos, não conhece a tolerância, a piedade, ou, sequer, a empatia.

Bárbara Guimarães foi, em tempos, uma jovem bonita e talentosa, que transmitia uma imagem de alguma ingenuidade embora, desde logo, fosse notória a sua sensualidade. Foi progredindo na carreira de figura mediática e a sua imagem de mulher carnal com um corpo sinuoso foi encurtando a sua carreira profissional.


No auge da fama, institucionalizou a sua beleza glamorosa, casando com um ministro. Mas...  afinal... o casamento não foi bem um casamento porque... afinal... já era casada, e afinal o casamento que não era casamento também não foi bem uma cerimónia privada porque... afinal... tudo foi fotografado para uma revista (coisa que hoje é banal mas que, à data. foi relativa novidade). 

E assim foi avançando a sua vida. Com uma imagem cada vez mais sensual, por vezes já brejeira, foi também muleta para a campanha eleitoral do marido, um filósofo com um temperamento também sinuoso.

As emoções expostas ao público, a necessidade de aparecer sempre bonita e sorridente, o marido ciumento e numa fase mais complexa da sua vida profissional e política, as tensões crescentes mas sempre tudo disfarçado, o casal perfeito e sorridente. As revistas sempre por perto. As poses, os sorrisos, os olhos nos olhos, só amor.

Até que um dia a casa veio abaixo e, de novo, tudo às escâncaras: afinal já não havia amor, apenas violência, álcool. E vieram as difamações espalhadas pelas revistas, as vinganças, os insultos graves. As crianças metidas no meio da crise. Tudo exposto ao público, num perigoso crescendo.

Soubemos agora de mais um triste incidente: Bárbara alcoolizada a sair de um hotel de madrugada, o seu carro a bater em dez carros estacionados e ela, confrontada com os factos, a assumir publicamente os seus problemas e a necessidade de tratamento. 


Depois Manuel Maria Carrilho a pedir a guarda da filha, invocando riscos e a referir um recente acidente que a menina terá sofrido supostamente numa briga mal explicada com a mãe e do qual terá resultado uma sutura com mais de 30 pontos. 


Agora saíu a sentença de um dos processos dele: condenado por violência doméstica, 4 anos de pena suspensa. Diz que vai recorrer. Um ministro, professor, antes com algum prestígio e agora isto. Saíu do julgamento a espezinhar ainda mais a ex-mulher, como se os problemas que atravessa no presente fossem desculpa para as suas agressões no passado. E, claro, tudo isto perante as câmaras de televisão, os flashes das revistas, os sempre presentes e cúmplices microfones. 


E, quase em tempo real, nas revistas, jornais online e televisões, vamos sabendo do que se passa na vida privada destas pessoas -- e é com tristeza que penso na situação dramática que estes dois estão a viver, eles que antes viviam uma vida de glamour e que agora parecem quase uns corpos exangues, consumidos pelo mediatismo.

Foi também esta semana que o actor Anthony Rapp contou que, quando tinha 14 anos,  foi assediado sexualmente por Kevin Spacey, então com 26. 


Confrontado com a notícia Kevin pediu desculpa e , de caminho, ganhou coragem e assumiu que é homossexual. 

E meio mundo caíu-lhe em cima pois o que estava em causa, dizem, era um episódio de pedofilia. Ser homossexual não é desculpa para se atirar a um jovem adolescente. 

E as consequências não se fizeram esperar. Kevin Spacey não mais continuará a dar corpo ao inesquecível Francis de  House of Cards.


E eu, que sou admiradora do seu trabalho, fico também com pena. Ao saber do sucedido, não me ocorreu sentir-me com direito a censurá-lo ou a dar-lhe lições de moral. A percepção da gravidade de certos actos é diferente agora do que era há cerca de 30 anos e o que hoje é um crime grave, era, até não há muito tempo, tolerado. Tolerado à boca pequena. Melhor: silenciado. Ainda me lembro de ouvir a um empresário que um certo ministro gostava de meninos. Dizia-se assim, em privado. E sorria-se. Gostos inconfessáveis de que os outros sorriam com alguma comiseração ou complacência. Ninguém denunciava às austeridades.

Seja como for, não me custa admitir que um jovem que, há 30 anos, vivesse a sua sexualidade com alguma ambivalência e escondesse as suas tendências, vivendo num ambiente de representação, filmagens, festas, num momento de embriaguez, e, portanto, com a libido não reprimida, tivesse tido uma atitude destemperada. Eu que tanto (tanto, tanto!) me choco com a pedofilia, não consigo crucificar alguém que, há 30 anos, naquelas circunstâncias e num momento de irreflexão, tenha perdido a tramontana. Não aplaudo, não fico confortável -- mas não crucifico.

Mais. Em situações assim, em que a opinião pública perde o sentido de compreensão e compaixão para com quem se encontra exposto e, talvez, desamparado, sinto que há na natureza humana uma crueldade que me assusta. Mais do que ter vontade de destruir quem esteve mal, eu, pelo contrário, sinto vontade de tentar perceber o que se teria passado.

Tal como me repugna ver as capas das revistas a expor a situação triste pela qual Bárbara Guimarães está a passar também me custa saber que Kevin Spacey passou de um momento para o outro de bestial a  besta, sem que ninguém se levante para estar ao seu lado neste momento de assumpção do erro, de pedido de desculpas -- e de assumpção pública da sua homossexualidade, coisa que deveria ser normal e isenta de riscos mas que, sabemo-lo bem, pode comportar toda uma avalancha de reacções, muitas das quais desagradáveis, que podem fragilizar quem passou uma vida inteira a querer preservar a sua intimidade.


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Bárbara: a exposição sem defesas



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Kevin Spacey: um excelente actor.

Aqui com as suas conhecidas imitações


E a graça com que canta: no The Tonight Show Starring Jimmy Fallon


Ragtime Gals - Talk Dirty



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Um dia feliz a todos quantos por aqui passam.

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