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sábado, janeiro 18, 2020

Não concebo que estejas ausente.
Julgo-te longe e distante.
[A palavra ao LS, Leitor do Um Jeito Manso, e Poeta]





O LS é um generoso Leitor que muito estimo e de quem recebo poemas, frequentemente lidos pelo próprio. 

Creio que ele não se importará da minha inconfidência: apetece-me partilhar com os demais Leitores deste meu jornal não apenas os dois poemas que hoje recebi bem como parte do texto que os acompanhava:
Sei que foge, a sete pés, dos estados melancólicos. Melhor, em si, a luz e alegria de viver interditam a ligação osmótica com a sombra e a nostalgia.
Apesar disso...
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Não concebo que estejas ausente
Num outro lugar, mesmo que inventado
Na substância que a invenção consente:
Foz de rio, mar navegado,
Recanto escondido no pensamento,
Caminho feito ao arrepio,
Rasgado no grito, aberto no lamento,
Coado na vastidão do frio.

Me dizem da irremediável partida
Algures num já distante dia
Com vozes caladas de despedida
Asas quebradas pelo vento,
Urgências que nenhuma força adia.
Me dizem da tarde inacabada
Do rasteiro voo de um tormento,
Vestígios de um débil respirar
Na voz quase apagada
Ímpio chicote vergastando o ar.
Me dizem e mesmo assim não acredito
Continuo a encontrar-te por aí
São falsas notícias para me deixarem aflito
Quem sabe, tentarem que me esqueça de ti.
Companheira nas mesmas viagens,
Como sempre imprevistas e casuais
Acontecidas no largo rio sem margens,
Nos gestos abrangentes e totais.
Não me deixarei pelo desespero dobrar,
Talvez chegues novamente com o chegar
De alguma, ainda que longínqua,  alvorada
Na minha memória, apesar de tudo, intocada




Julgo-te longe e distante,
Perdida num sítio indefinido do espaço,
Algures em algum levante
Onde o sol desenha a rota do seu passo,
Galopante,
Em redor do teu abraço.
Mas que sei eu de distâncias,
De enigmáticas lonjuras?
Das ressonâncias
Do caminhar nessas ruas escuras,
Da conversão do breu
Em rituais de rutilâncias
Onde a luz, de todo, ensandeceu?
Como entender o substantivo
Lugar, algures no infinito,
Onde fica cativo
O eco do teu grito?
Resta-me apenas esta dormência,
Esta estranha inquietude
Negando a tua ausência,
Forjando a plenitude
Deste incessante tateio
Sobre e sob a pele,
O abraço e o enleio
Do indomado e liberto corcel.


Não que as palavras do LS precisem de imagens mas isto é coisa minha: gosto sempre de as ter, tal como gosto de música que, neste caso, vem pela mão do pianista Sviatoslav Richter que interpreta Bach sobre filme Nostalgha de Andrei Tarkovsky. As pinturas que ilustram a melancolia são, respectivamente, de Olaya Caldera, Degas, Louis Jean François Lagrenée e Edvard Munch.

E obrigada, LS, pelos seus poemas

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E até já.

quinta-feira, junho 08, 2017

Eu devoro a solidão sem sujar as minhas mãos





Não confio em gente que cria passarinho em gaiola. Eu conheço essa dor. Tenho tantos sentimentos aprisionados dentro do peito, que nem lhe conto. Eles são tristes e sozinhos, mesmo assim, não sentem vontade nenhuma de cantar. Eu queria muito lhe comer com os olhos e lamber com a testa. Tenha dó. Faça festa. É dura a espera para os que têm fome. De que vale uma gaiola de ouro, se o passarinho não canta? O amor — eu já tinha ouvido falar nisso antes — é um fio desencapado.
Não confio em gente que conversa comigo olhando para os lados. A verdade está nos olhos, gracinha. Não insista. Não tenho lado. Um dia ainda me atiro inteiro em seus braços, baby.
Pode parecer um paradoxo, um conflito interior da maior magnitude, mas, eu não confio em gente que guarda rancor nos cofres da memória. Não minta pra mim, que meu peito não é de aço. Ele não possui chave nem segredo. Também sofro de injustiças, iniquidade e medo. Será que um dia eu cresço? Na minha idade, já devia demonstrar mais equilíbrio. Quase não rio, e isso não tem nada de intransitivo, de impessoal, pois, mesmo morando no centro-norte do país, onde o índice pluviométrico é pífio, eu continuo a chover de tanta melancolia. Você diz que eu deveria conjugar corretamente o verbo, ao invés de julgar as pessoas? Ora, não me faça estudar gramática a essa altura da vida. 

Não confio em gente que não dá a mínima para o que as outras pessoas estão sofrendo. A frieza, a falta de brio os fazem selvagens de arrombar introitos. Eu devoro a solidão sem sujar as mãos, e há pouca coisa que os editoriais possam fazer para amenizar a carnificina. Como diria o poeta, eu sou um poço de sensibilidade. Portanto, feche os olhos, tape o nariz, abra um sorriso e salte aqui dentro, docinho.


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Excertos do texto homónimo de Eberth Vêncio na Revista Bula

Vinicius canta Amor em Solidão

As imagens mostram "The street of loneliness de Carolina Soledad Salvatierra Seguel e "Two People: The Lonely Ones" de Edvard Munch

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sexta-feira, abril 21, 2017

Separação




Voltou-se e mirou-a como se fosse pela última vez, como quem repete um gesto imemorialmente irremediável. No íntimo, preferia não tê-lo feito; mas ao chegar à porta sentiu que nada poderia evitar a reincidência daquela cena tantas vezes contada na história do amor, que é história do mundo. Ela o olhava com um olhar intenso, onde existia uma incompreensão e um anelo, como a pedir-lhe, ao mesmo tempo, que não fosse e que não deixasse de ir, por isso que era tudo impossível entre eles. 

Viu-a assim por um lapso, em sua beleza morena, real mas já se distanciando na penumbra ambiente que era para ele como a luz da memória. Quis emprestar tom natural ao olhar que lhe dava, mas em vão, pois sentia todo o seu ser evaporar-se em direção a ela. Mais tarde lembrar-se-ia não recordar nenhuma cor naquele instante de separação, apesar da lâmpada rosa que sabia estar acesa. Lembrar-se-ia haver-se dito que a ausência de cores é completa em todos os instantes de separação. 

Seus olhares fulguraram por um instante um contra o outro, depois se acariciaram ternamente e, finalmente, se disseram que não havia nada a fazer. Disse-lhe adeus com doçura, virou-se e cerrou, de golpe, a porta sobre si mesmo numa tentativa de seccionar aqueles dois mundos que eram ele e ela. Mas o brusco movimento de fechar prendera-lhe entre as folhas de madeira o espesso tecido da vida, e ele ficou retido, sem se poder mover do lugar, sentindo o pranto formar-se muito longe em seu íntimo e subir em busca de espaço, como um rio que nasce. 



Fechou os olhos, tentando adiantar-se à agonia do momento, mas o fato de sabê-la ali ao lado, e dele separada por imperativos categóricos de suas vidas, não lhe dava forças para desprender-se dela. Sabia que era aquela a sua amada, por quem esperara desde sempre e que por muitos anos buscara em cada mulher, na mais terrível e dolorosa busca. Sabia, também, que o primeiro passo que desse colocaria em movimento sua máquina de viver e ele teria, mesmo como um autômato, de sair, andar, fazer coisas, distanciar-se dela cada vez mais, cada vez mais. E no entanto ali estava, a poucos passos, sua forma feminina que não era nenhuma outra forma feminina, mas a dela, a mulher amada, aquela que ele abençoara com os seus beijos e agasalhara nos instantes do amor de seus corpos. Tentou imaginá-la em sua dolorosa mudez, já envolta em seu espaço próprio, perdida em suas cogitações próprias - um ser desligado dele pelo limite existente entre todas as coisas criadas. 

De súbito, sentindo que ia explodir em lágrimas, correu para a rua e pôs-se a andar sem saber para onde...


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O texto 'Separação' é de Vinicius de Moraes in 'Para viver um grande amor"

Nina Simone interpreta 'Iy you knew'

As imagens mostram obras menos conhecidas de Edvard Munch

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Até já.

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quarta-feira, novembro 23, 2016

Medo




Não gosto de me vitimizar. Muito sinceramente penso que isto é coisa da minha natureza: acho que a pele de vítima não me assenta bem.

Contudo, a verdade é que, em geral, sempre achei que nem teria razões para isso; e, nas poucas vezes em que achei que seria razoável que me fosse abaixo, pareceu-me que seria absurdo puxar a mim o mau da situação ou os males do mundo e, por isso, segui em frente, se calhar, como se não fosse nada comigo. Aliás, arreliam-me imenso as pessoas que perante uma desgraça, desvalorizam o acontecimento, emoldurando antes a sua própria experiência pessoal. Por exemplo, se há uma trovoada desgraçada, queda de raios, árvores esfaceladas, casas inundadas, que sentido tem uma pessoa reduzir isso ao que se passou consigo própria: 'eu estava em casa e, quando ouvi aquele trovão maior, até dei um grito e encolhi-me e fiquei a tremer'? Todos nós as conhecemos (na família, na vizinhança, no trabalho ou, mesmo na blogosfera), as pessoas que querem sempre ser as mais infelizes, as mais desgraçadas, as maiores vítimas.

Fatigam-me um bocado, pessoas assim. Acho-as um bocado egocêntricas.

Eu sou o oposto. Não o digo com vaidade porque não apenas não é coisa voluntária, como nem sei se isso é grande coisa. Mas é o que é. Geralmente, em alturas em que seria normal eu mostrar medo ou preocupação, mostro-me surpreendentemente neutra -- quando não calma, imune aos riscos ou superior às emoções.

Posso ver à minha volta pessoas a chorarem, desoladas, a gritarem umas com as outras, num stress, ou numa aflição, a acharem que vai acontecer uma qualquer desgraça, e eu vejo-me como se fosse desumanamente fria ou -- como a minha mãe às vezes diz -- excessivamente racional.


Por vezes é quando tudo passou que, por um qualquer insignificante motivo -- e em privado -- me vou abaixo. Então, posso chorar como se fosse o fim do mundo. Mas, uma vez o choro acabado (e isto pode durar uns cinco minutos), fico fresca como se nada se tivesse passado e, geralmente, já nem me consigo lembrar do que provocou aquela breve fractura emocional.

No trabalho, tenho uma característica que, se eu conseguisse ver-me de fora, me faria assustar. Abomino aquele tipo de cautelas que levam a que, para não assumirem responsabilidades, por tudo e por nada, os gestores recorram a consultores externos. Cautelas ou cobardias. Os consultores começam por fazer levantamentos, depois fazem muitos power-points, produzem muitos entregáveis, falam em quick wins e tretazecas -- e recebem muito dinheiro. Tudo espremido geralmente não vale um caracol e qualquer gestor com um mínimo de testículos (metafóricos) teria feito dez vezes aquilo, em dez vezes menos tempo e a custo marginal nulo.


Portanto, quando tenho carta branca, faço o oposto. Mas completamente o oposto: é com a prata da casa e é para a frente, à bruta e sem medo. Acontece, no entanto, uma coisa: quando estou no rebentar da onda, naquele momento em que não há volta atrás, em que já envolvi todo o mundo de uma forma irreversível, dou por mim a pensar: 'caraças, outra vez; que risco estúpido; e se isto não corre bem?' e aí, sem que ninguém o suspeite, sinto um medozinho agudo no estômago. Mas bola para a frente porque para a frente é que é caminho. E, se correr mal, remedeia-se.

Isto a nível profissional ou social.

Mas já senti medos agudos, daqueles que nos apertam o peito, o pescoço, o estômago e, em boa verdade, todo o corpo por razões um bocado à toa.


Quando os meus filhos eram adolescentes, era uma luta interna que eu travava. Iam sair à noite, cada um com os seus amigos ou amores. Normal. E eu pensava que era bom que saíssem e crescessem.  E tudo bem. O pior era  resto. Se se atrasavam, eu ficava num pânico crescente. Ao meu lado, na cama, o meu marido dormia a sono solto. E eu ficava a ver as horas a passarem, acordadíssima, incapaz de dormir, a ouvir o elevador, a tentar perceber se ia parar aqui à porta, se eram eles, e via e revia as horas... e esperava até achar que não aguentava mais e que tinha que acordar o meu marido. Por vezes virava-se para o outro lado e continuava a dormir, outras vezes também se assustava.

A minha filha padeceu mais do que o irmão com estes meus medos. Tinha medo que ela andasse na rua, tinha medo que algum meliante estivesse na escada, tinha medo que alguma coisa lhe acontecesse. Medo, medo. Quando ela chegava mais tarde, dava-me umas fúrias pelos riscos que eu achava que ela tinha corrido e pelo que ela me tinha feito sofrer; e, não raras vezes, a coisa dava para o torto, mal a ouvia a abrir a porta. Sublimava o medo em fúria, porque ela não percebia os riscos que corria, porque ela não queria saber dos meus conselhos para nada. 

Quando chegou a vez do meu filho, quase três anos mais novo, já eu tinha aprendido a controlar-me um bocado melhor. Além disso, sendo muito alto e tendo aprendido artes marciais, achava que ele tinha mais possibilidades de se defender. Tinha medos, só que eram outros: que bebesse, que fizesse disparates, que houvesse algum acidente. Ao fim de semana chegava, por vezes, madrugada alta ou de manhã. As minhas noites eram passadas em branco, numa inquietação.


Pior ainda foi quando deixaram de ir connosco para o campo e ficavam de me ligar mal entrassem em casa. E ele, volta e meia, esquecia-se ou ficava sem bateria ou qualquer coisa e não ouvia nem atendia o telemóvel. Chegou uma altura em que a minha filha já não morava connosco e, portanto, nestas aflições eu não tinha a quem ligar para ir ao quarto dele ver se já tinha chegado. Muitas vezes, cheia, cheia de medo, depois de já lhe ter ligado umas 20 vezes para o telemóvel, já queria que nos metessemos no carro para vir à procura dele. Até me custava a respirar, tanto o medo que sentia. Por acaso, felizmente nunca tal foi necessário porque aconteceu sempre que, por fim, lá atendia, todo aborrecido por ver mil chamadas minhas no telemóvel.

E medos também senti quando os meus pais estiveram doentes e tocava o telefone fora de horas: ficava gelada, transida, à espera que fosse alguma notícia terrível. 

Tirando isso, não me lembro de muito mais medos. Não me lembro de ter medos quando era miúda.

Por vezes, quando o meu pai ia à pesca de noite, ficava preocupada porque ele nunca mais chegava. A minha mãe era para o lado em que dormia melhor. Eu não, ficava a vigiar os sons de carros na estrada. Mas não sei se isso era medo. Acho que era preocupação.


Quando tinha para aí uns doze ou treze anos, tinha aulas de manhã e a minha mãe dava aulas de tarde; nessa altura, ainda não saía para ir ter com o meu boyfriend, passava as tardes em casa, sozinha, a ler. Lembro-me de ter lido o Allan Poe e de ter ficado com um bocado de medo de sair da sala ou do quarto para ir lá dentro, tendo que atravessar o que, na altura, me parecia um longo e perigoso corredor. Imaginava que saíssem braços da parede, que ouvisse gemidos, que visse sangue a sair de debaixo de algum móvel.

Tirando isso, medos de jeito, acho que não tive. E sinto-me afortunada e agradecida.

Uma vez uma Leitora contou-me que andava sempre com medo, que sentia uma angústia um pouco inexplicável, como se qualquer perigo estivesse sempre iminente, que mal acordava já se sentia cheia de medo. Li também, uma vez, uma entrevista com Manuela de Freitas na qual ela dizia que tinha vivido parte da sua vida com essa insidiosa sensação de medo dentro de si. Deve ser uma coisa horrível. Imagino que uma pessoa nem consiga ver o lado bom da vida, nem estar descontraída a sentir a simples felicidade de viver. Na ausência de motivos concretos, não sei se isso é sintoma de depressão ou se é coisa que se cure mas imagino que, quando doentio, o medo possa ser tratado.

E a ausência de medo festejada.

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Vem isto a propósito de um vídeo que vi. Depois de uma mal sucedida aventura doméstica -- que pôs o meu marido fora dele e a mim a rir -- vim aqui para a sala.

Mas, antes do vídeo, conto a aventura.

Ontem, quando depois de jantar lavei a louça, ele foi buscar a esfregona e disse, com ar censório, que eu, a lavar a louça, tinha sido uma festa. Não percebi. Disse-me, então, que o chão ao pé do lava-louça estava molhado. Não tinha dado por nada. Nem liguei. Aliás, acho que lhe perguntei se achava que, por causa de uma mísera gota de água, valia a pena pôr a nossa relação em risco. E saí da cozinha. Quando chegou à sala, ironizou: afinal, a tal simples gota de água que quase fizera perigar o nosso casamento, era um cano roto debaixo do lava-louça.

Hoje apareceu com um tubo (uma bicha?) e resolveu provar que é sempre bom a gente ter um homem em casa. Enfiou-se lá por baixo, praguejou, pediu-me ajuda e... no fim, em vez de gotejar, aquilo começou a escorrer água franca. O alguidar que se pôs por baixo, rapidamente ficou a transbordar. Passado um bocado, fui ao lava-louça e a torneira também já estava meia desmanchada. Perguntei se teria também que tirar a pedra da bancada. Não achou graça.

Agora não se pode, pura e simplesmente, usar o lava-louça. Mas não faz mal, amanhã lavo a fruta do pequeno almoço no lavatório da casa de banho. A louça posso lavar no bidé. Claro que, chegado a esta fase, já não aceita que eu goze com ele, está furioso. Diz que se calhar o problema está na bicha, que tem que trazer outra. Colecção de bichas cá em casa, portanto. E mais não digo porque ele lê isto e vai ficar fulo por eu estar a desvalorizar os seus fantásticos dotes de canalizador. Não estou nada. Acho até que fez um lindo trabalhinho. 😂

Mas, dizia eu, cheguei aqui e pus-me a ver vídeos e dei com este aqui abaixo, no qual Paula Rego fala do medo que sente.

(E, então, deu-me para escrever o que acabaram de ler.)

Paula Rego on Fear


Pintar para dar um rosto ao medo


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As pinturas que mostram o rosto do medo são de Graça Morais - mas o Corvo é de Karen Margulis e o Grito que é de Edvard Munch.


A música lá em cima é de Ry Cooder e faz parte da banda sonora de Paris, Texas.

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quinta-feira, agosto 18, 2016

O que os homens dizem de si.
Auto-retratos no masculino


Se ontem mostrei auto-retratos no feminino 
-- e, note, Rita, que, se me causa alguma confusão a necessidade quase compulsiva que algumas pessoas têm em fazer selfies, a verdade é que gosto de ver auto-retratos, gosto de ver como é que os artistas se vêem (tal como gosto de ler diários ou corespondências) -- 
hoje, tal como ali tinha referido, volto-me para os masculinos.

Os primeiros de que me lembrei foram Lucien Freud, o corpo orgulhosamente decrépito, ou Francis Bacon, o rosto diluindo-se na vida vivida no limite, ou, até Picasso, o criativo insolente. Mas porque essas escolhas eram, para mim, previsíveis, resolvi partir para outros. Claro que fugi dos muito aprumadinhos, dos que se puseram todos posudos para se retratarem, dos que quiseram dar de si a imagem de compostinhos. Não aprecio o género, é sabido. Andei, andei e, quando dei por mim, tinha aqui arranjado uma bela colecção de cromos.

Há no prazer da auto-desconstrução ou da auto-ironia qualquer coisa que me atrai. Acho que as pessoas interessantes não se levam a sério. As que têm teorias para tudo, que censuram tudo e mais alguma coisa nos outros e que se acham superiores aos demais são, a meu ver, umas chatas de primeira, gente com o seu quê de limitado e maçador.

Por isso, com vossa licença, cá vão alguns auto-retratos masculinos à maneira -- e a ordem é aleatória. O Ducreux vem com marca de água e tudo mas paciência, tinha que o ter aqui. São homens que, de alguma forma, mostraram gostar deles próprios quase como se fossem outros que os divertissem, como se fossem talvez uma mana com quem gostassem de chacotear.
Ou, então, quem sabe, talvez fosse uma forma de se auto-desafiarem ou olharem para o outro que há em si, mesmo que com uma secreta perplexidade. Ou insolência perante os outros que os viam de fora.
[Enfim, estou a generalizar. Munch não parecia estar especialmente divertido no seu hell - mas também tinha que ter aqui algum toque de ansiedade, para contrastar].

Ora bem, que comece o desfile e que Antony se achegue com 'you are my sister' que vai ficar em boa companhia.

Giorgio de Chirico, 1953



George Hendrik Breitner, 1882

Egon Schiele, 1910

Jean Siméon Chardin, 1775

Johan Zoffany, 1756

Joseph Ducreux, 1783

Dae-Won Yang, 2011

Moritz Daniel Oppenheim , 1814-16

Edvard Munch, 1903

Robert Mapplethorpe 1980
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Um dia destes tenho que voltar ao tema porque deixei agora alguns para trás que é uma pena.

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sexta-feira, novembro 14, 2014

Sobre os Vistos Gold, sobre as detenções de 11 altos funcionários do Estado, sobre a regozijo da Ministra da Justiça e sobre a impunidade que agora, com ela, acabou e sobre as demissões que ela aconselha, e, finalmente, sobre estes tempos que regurgitam aberrações por todos os cantos e esquinas


No post abaixo, relembro Manoel de Barros, poeta de minha afeição, que neste dia 13 se foi embora. Deixou-nos, no entanto, palavras que mais do que chegam para nos irmos lembrando da sua agramática, da sua simplicidade e do seu amor pela língua portuguesa. Gostava que descessem até ao post seguinte pois o Manoel de Barros que ali tenho veio pela mão do Cine Povero, e isso, sabemos bem, é sinónimo de qualidade e sensibilidade.

Mas isso é mais abaixo. Aqui, agora, a conversa é outra. Aqui deixo a poesia porque a conversa é prosa e da seca.


Esta quinta-feira fomos surpreendidos com mais uma: uma razia de detenções. Isto é todo o santo dia: ou é uma desgraça, ou um escândalo, ou uma bacorada governamental. Não há um dia de folga. Mesmo que eu queira vir para aqui dar largas à minha imaginação, acabo sempre por não ter oportunidade pois não consigo passar ao lado destas maçadas correntes.


Mas vamos com música que vamos melhor.

Story of my life pelos The Piano Guys





Transcrevo excertos desta notícia e destoutra, ambas do Expresso:


de Edvard Munch

A Polícia Judiciária deteve esta quinta-feira 11 pessoas - incluindo altos quadros do Estado - por suspeitas de corrupção, branqueamento de capitais, tráfico de influência e peculato, no âmbito de uma investigação sobre atribuição de vistos gold.


Os 11 detidos pela Polícia Judiciária vão passar a noite na prisão e são presentes ao juiz de instrução criminal esta sexta-feira. Em comunicado, a Procuradoria-Geral da República (PGR) explica ainda que "foram também realizadas seis dezenas de buscas em vários pontos do país, incluindo nos ministérios da Administração Interna, da Justiça e do Ambiente, Ordenamento do Território e Energia". 

Entre os detidos encontram-se o diretor nacional do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, Manuel Jarmela Palos, a secretária-geral do Ministério da Justiça, Maria António Moura Anes, e o presidente do Instituto dos Registos e Notariado (IRN), António Figueiredo. 

de Paul Klee

O caso que está a ter maior impacto e a causar maior estupefação na sociedade portuguesa é o do diretor nacional do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF), Manuel Jarmela Palos, que ocupa este cargo desde 2005. Palos entrou para o SEF em 1993, ou seja há 21 anos, e fez aquilo que se costuma chamar 'carreira de sucesso' dentro desta força policial.
A detenção de Maria Antónia Moura Anes, 56 anos, é quase tão surpreendente quanto a de Palos. Nomeada a 1 de novembro de 2011 para o cargo de secretária-geral do Ministério da Justiça, pela atual ministra Paula Teixeira da Cruz, Maria Antónia foi coordenadora do sector de formação do Instituto dos Registos e do Notariado (IRN) entre julho de 2010 e setembro de 2011.
de Edvard Munch
É aqui, no IRN, que esta licenciada em História que iniciou a vida profissional como professora de liceu, até entrar para os serviços de documentação do Centro de Estudos Judiciários em 1987, se cruza com um outro dos 11 detidos: António Figueiredo, presidente do IRN desde 2007. 
Refira-se ainda que a secretária-geral do Ministério da Justiça, entre outras funções, foi funcionária da Polícia Judiciária e adjunta de José Pedro Aguiar-Branco, durante menos de três meses, quando o atual ministro da Defesa tinha a pasta da Justiça.
Albertina Gonçalves, secretária-geral do Ministério do Ambiente e sócia do escritório de advogados do ministro da Administração Interna, Miguel Macedo, foi ouvida no âmbito da operação vistos gold. Não foi detida, mas o seu gabinete foi objeto de buscas.

O Expresso apurou que três cidadãos chineses e três funcionários do IRN estão entre os 11 detidos. 



A inexplicavelmente ainda ministra


Há bocado vi também Paula Teixeira da Cruz, lourésima melena descendo quase até ao rabo, toda destravada, deitando foguetes. para ela todos estes são culpados e deveriam apodrecer no quinto dos infernos ao contrário do que acontecia com os ladrões, corruptos e criminosos de toda a espécie que, antes dela, andavam aí pela rua roubando a pensão dos velhinhos, surripiando o subsídio de desemprego aos desempregados.

E mais: quer mais, quer sangue. 


de Velazquéz

Paula Teixeira da Cruz falava à agência Lusa quando questionada sobre o eventual afastamento do cargo da secretária-geral do Ministério da Justiça (MJ), Maria Antónia Anes, e do presidente do Instituto dos Registos e Notariado, António Figueiredo, hoje detidos âmbito de uma investigação sobre a atribuição de vistos "gold".


"Qualquer pessoa que ponha em causa uma instituição deve imediatamente apresentar o seu pedido de demissão ou o seu pedido de suspensão de funções em função daquilo que é a imagem das instituições e da instituição que dirige. Portanto, seguirei a minha linha, como sempre segui", afirmou a ministra. 



.... & ....


Ora, face toda esta cegada, o que tenho a dizer é o seguinte:


de Velazquéz

1 -  O País não tem dinheiro. A dívida privada é descomunal, bem mais preocupante que a pública. O País precisa de investimento como de pão para a boca e não tem investidores. Antes da crise financeira, viviam todos em cima de financiamento bancário e não queriam saber de misérias. Qualquer um via que não tinham como alguma vez pagar mas vá de pedir dinheiro ao banco e os bancos vá de emprestar. Claro que, com a troika e com imposições europeias, os bancos tiveram que reconhecer que jamais receberiam essas dívidas e, portanto, viram-se forçados a registar imparidades (e daí os prejuízos que vêm apresentando).

Por isso, porque cá não há empresários com dinheiro que se veja, é uma boa política que se faça captação de investimento e que haja qualquer coisa de atractivo para que isso aconteça. 
Claro que se admite que não se acolherão foragidos, que o país não será transformado numa lavandaria de dinheiro sujo.

2 - O investimento de que o País precisa é de investimento reprodutivo. Um bom investimento é aquele em que há criação de riqueza, criação de postos de trabalho, pagamento de impostos.


3 - Vender casas a estrangeiros não é um investimento do tipo dos que são necessários para ajudar o País a tirar o pé da lama. 
de Paul Klee


Mas, admitindo que se está a falar de gente honesta e que o dinheiro é limpo, comprarem casas devolutas ou em mau estado não é mau. Pode até ser razoável, se houver lugar à reconstrução ou arranjo das casas - sempre haverá alguma relativa animação a nível da construção civil, sector que está nas ruas da amargura e que bem precisa de algum estímulo. O que é, é pouco. Seria bom se fosse um pequeno complemento; é curto, muito curto, se for só isto. Mas, repito, o desejável é que venham investimentos como os da Auto Europa ou outros, indústria de preferência.


4 - Não interessa, pelo contrário, se o que vier for gente obscura, com dinheiro em notas dentro de malas, que usará o Visto Gold para poder circular livremente na Europa em vez de trazer actividades que criem valor e que paguem impostos em Portugal. Também não interessa fomentar a proliferação de bazares chineses, que só vendem produtos importados, que não criam postos de trabalho, que não vendem produtos portugueses.


de Paul Klee

5 - Nisto dos Vistos Gold não faço ideia se houve ou não corrupção invadindo a máquina de Estado como uma gangrena, devorando a integridade de pessoas que se imaginariam honradas como o Director do SEF ou todas as outras pessoas que passam esta noite na prisão. Não faço ideia. Acho preocupante se é verdade e acharei delirante se tudo isto não tiver passado de um indesculpável excesso de zelo.

O que espero é que - com o tão pesado manto de desconfiança que isto lança sobre a máquina de Estado, com o lodaçal em que pareceria que Portugal se estaria a transformar se isto fosse verdade - se apure rapidamente a verdade e se faça justiça. Rapidamente, repito.


Paula Teixeira da Cruz
que, infelizmente, já ninguém consegue levar a sério

6 - Por outro lado, fico incomodada com as afirmações inacreditáveis da Ministra da Justiça que já dá todas aquelas pessoas por culpadas, afirmando que quer que os indiciados que trabalham no Ministério da Justiça se demitam e, em mais um surto histérico e paranóico, declarando que agora, sim, acabou a impunidade ao contrário do que antes acontecia. 
É certo que não precisou a que período histórico se referia, poderia estar a reportar-se ao tempo de algum reinado em particular. Não se sabe. Da boca daquela transtornada senhora - que, não nos esqueçamos, não se ensaiou nada para enlamear dois técnicos de informática, que viram os seus nomes espalhados pela comunicação social, como se fossem uns perigosos sabotadores - já espero tudo.

de Paul Klee

Em síntese - Depois da destruição económica, parece agora a vez da destruição moral. A loucura, o destempero, a irracionalidade, a podridão cívica e ética parecem vir alastrando de forma preocupante.

As notícias que se sucedem a um ritmo alucinante e que provêm invariavelmente dos lados das mais altas instituições de Estado levam a que a população desacredite da bondade do Estado Democrático.

Tende a parecer que isto é tudo uma corrupção pegada, um fartar vilanagem, que tudo foi tomado de assalto por uma seita desqualificada. E este pensamento é do pior que há: abre a porta a populismos, a autoritarismos.

Poderíamos esperar que o Presidente da República pusesse água na fervura, mostrasse sensatez, sensibilidade, pulso, sentido de Estado. Infelizmente não. De cada vez que fala, com aquelas mensagens criptadas e crispadas, toda a gente encolhe os ombros desejando é vê-lo pelas costas.

A continuar assim, neste clima malsão e com esta sucessão de destrambelhamentos e desgraças, neste ano que falta até às eleições o país ver-se-á transformado num manicómio ou num decadente prostíbulo (e, por falar em meio mundo de perna aberta e tudo à venda por dez réis de mel coado, ainda me apetecia falar da venda da TAP mas é muito tarde e já não tenho energia para isso).


de Botero
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Alonguei-me, eu sei. As minhas desculpas. Para atenuar a aridez do tema não sei se as pinturas que escolhi ou a música lá em cima foram suficientes. Por isso, deixem-me que ainda partilhe convosco um surpreendente vídeo de dança.


Horses never lie



Bailarina e coreógrafa: Caroline Richardson
Filme de Kathi Prosser


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Manoel de Barros deixou-nos esta quinta-feira e eu relembro-o no post abaixo, socorrendo-me dos belos vídeos do Cine Povero. Se conseguirem, gostava que se juntassem a nós em volta das belas palavras do Poeta. É que, quando tudo arde, salva-se a arte.


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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma boa sexta-feira.

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terça-feira, agosto 20, 2013

Se o expressionista Munch a tivesse conhecido, que quadro pintaria?, pergunta-me jrd. Vou jogar os búzios, socorro-me de Erik Satie, de uns quantos poetas, faço um cadavre exquis e depois interpreto o que os búzios me dizem. A resposta está mais abaixo. Faz sentido?



Se o expressionista Munch a tivesse conhecido, que quadro pintaria?, pergunta-me jrd.


Impossível saber. Mas posso deixar-me ir, numa deriva, e ver se obtenho uma resposta que faça sentido (embora ao lado). 

Vou fazer como se deitasse os búzios, parece-me uma boa opção.

Vou buscar Satie (cuja subtileza, aqui, corre em cima das mulheres de Modigliani - mas não é Amedeo nem a sua Jeanne que hoje são para aqui chamados), vou pegar nuns quantos livros de poesia, ao acaso, perfeitamente ao acaso, vou abrir cada livro também ao acaso, vou transcrever um verso de cada, aqueles que vierem ao chamamento de Satie, e depois logo vejo se adivinho que quadro é que Munch pintaria para ilustrar a mulher que teria escrito o poema obtido através de Satie e do cadavre exquis que daqui nascer.



Música, por favor



Erik Satie, Gnossienne nº 2 - interpretação de Reinbert De Leeuw

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                                              Não quero mais mundo senão a memória trémula       1
                                              Partes, o céu demora-se
                                              a entardecer e a lassidão flutua      
                                              como as volutas do incenso a arder         2
                                              Ninguém nos vem em socorro
                                              ninguém nos liberta os braços        3
                                              Ah o terrível, o trémulo que tão fácil dissipa o universo inteiro      4
                                              Quem sofre está sempre em situação de
                                              espera        5
                                              A terra é absorvida pelos poros
                                              da alma         6  
                                              É verdade que quando eu contigo
                                              me inclinava o mundo por instantes
                                              recuava.      7
                                              Se tudo é pureza apaixonada,
                                              direi somente que és tu o meu retrato         8
                                              Oh, a absurda melancolia do teu olhar         9


Então, agora que lancei os búzios, como é que Munch pintaria a mulher que teria escrito este novo poema ao som de Satie?

Reparo que o resultado foi nostálgico, melancólico. Face a isso, eu diria que Munch pintaria a mulher que, a existir, teria escrito o que acima se pôde ler, como pintou Inger numa outra noite de verão, uma mulher que, em tudo, até fisicamente, parece ser o meu oposto. 



Edvard Munch, Summer Night – Inger on the Beach, 1889

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No cadavre exquis cada verso assinalado foi retirado de:


  • 1 - Herberto Helder, Servidões, pag. 82
  • 2 - Soledade Santos, Sob os teus pés a terra, Poema 'Azul da quase noite', pag.58
  • 3 - David Mourão-Ferreira, A arte de amar, poema 'Romance de Pompeia', pag. 205
  • 4 - Herberto Helder, As magias, tradução do poema 'Iniji' de Henri Michaux, pag, 24
  • 5 - João Miguel Fernandes Jorge, Oferenda, poema XXVII, pag.67
  • 6 - Armando Silva Carvalho, Canis Dei, poema da pag. 29
  • 7 - Margarida Vale de Gato, Mulher ao mar, poema 'Feiticismo', pag. 34
  • 8 - Ricardo Gil Soeiro, Espera vigilante, poema III, pag.18
  • 9 - Manuel Gusmão, Pequeno tratado das figuras, poema #18, pag.97



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(A ver se ainda cá volto.)


terça-feira, março 13, 2012

Vita Brevis - o mal pode estar dentro de nós ou à nossa espreita (com exemplos práticos: Paula Rego, Hieronymus Bosh, Edvard Munch e Renoir); e, para aligeirar, uma sugestão: que Nuno Crato, para a próxima, em vez de nos desiludir mais, nos surpreenda e imite Jacob Bovia


Música, por favor
(pf carreguem na setinha de play mais em baixo, à esquerda, para não saltarem para o Youtube)

Rodrigo Leão - Vita Brevis


Falamos, arreliamo-nos, enfurecemo-nos, gritamos, insultamos, adiamos, negamo-nos, e sempre como se tivéssemos tempo para corrigir os erros, para viver melhor, para darmos largas aos nossos ensejos.

Mas quem nos garante que esse amanhã existirá?

Paula Rego - A dança


Às vezes vejo fotografias de festas, casamentos. Tantos familiares que lá aparecem saudáveis, felizes e que, algum tempo depois, desapareceram. Às vezes, posteriormente, descobria-se que nessa altura em que riam e festejavam e que julgavam estar resplandecentes de saúde, estavam afinal a alimentar, no seu interior, um monstro inclemente que se multiplicava em silêncio, disfarçado, alarve.

Hoje eu falava sobre uma nomeação pública que não percebia, tal como não tinha percebido a anterior demissão. Disseram-me: ‘tem um cancro e é dos mauzinhos’. 

(Não explica nada mas, enfim, tendemos, face a isto, a ser mais tolerantes.)

Depois há isto, 'dos mauzinhos', porque, nestas coisas de seres criminosos há diferenças. Há os maus que, se forem descobertos a tempo, são fáceis de vencer e há os outros, os que são mesmo maus, maus como as cobras. Mas a natureza é a mesma, bichos falsos que a fazem pela calada.

Tenho medo. É uma coisa que me mete muito medo.

Hieronymus Bosh - pequeno excerto de uma grande tela (aqui pretendo ilustrar o medo)


Já vi partir alguns que me eram próximos às mãos desta bicheza malvada. Pensa-se que se tem uma vida inteira pela frente e podemos correr o risco de, sem sentirmos nada, estarmos afinal a ser devorados por dentro, invadidos, dominados. Térmitas brancas, sonsas, dissimuladas, manhosas, infestantes. Claro que hoje, felizmente, grande parte destes animais tenebrosos que, em silêncio, tecem horríveis teias, já são, afinal, vencíveis e quem os vence sente-se, depois, vitorioso, feliz, renascido, mas, enquanto não se sabe que a guerra está ganha, que susto, que susto, que enorme coragem é necessária. Tenho, pois, uma sentida admiração por todos quantos têm essa força, essa coragem, essa esperança que os leva a enfrentar o mal e a vencê-lo.


Edvard Munch - O grito

Hoje também, quando ia para o trabalho, do outro lado da auto-estrada, uma confusão das antigas. Veículos parados, muita gente fora dos carros, ar aflito, muitos polícias, o trânsito, a seguir, todo parado ao longo de quilómetros. Entretanto, vinham a chegar ambulâncias do INEM e dois ou três carros de bombeiros, apitando, numa urgência, e ziguezagueando impacientes entre os carros parados .

Do lado que eu ia, o trânsito fluía sem dificuldade, gente que seguia normalmente para mais um dia de trabalho numa manhã de primavera, quase verão.

Separadas apenas por uma barra metálica, duas realidades tão diferentes. Eu e os outros que seguíamos no mesmo sentido, chegámos bem ao nosso destino; do outro lado, alguém que antes ia também descontraidamente para mais um dia igual aos outros, afinal, naquele momento, sofria na estrada - e tomara que fosse apenas um sofrimento passageiro. E, atrás, muitas centenas de pessoas, fechadas nos seus carros, pessoas que iriam chegar atrasadas, aborrecidas pelo contratempo e, sabemos lá nós, se, em alguns casos, esse atraso não ia também causar outros problemas.

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É a precariedade do ‘normal’, do ‘estar-se bem’. É a aleatoriedade absoluta do ‘ser’. É o julgar-se que se está bem e que se é imortal e, no instante seguinte, constatar que se é pouco mais do que um ser vulnerável à espera de salvação.

Renoir

Por isso – mas talvez também porque geneticamente sou como sou – não consigo entregar-me a raivinhas, a rancores, a ressabiamentos, a pequenas invejas. Talvez também por isso, tenho muita dificuldade em perceber as pessoas que perdem tempo a congeminar ajustes de contas, pessoas que se consomem a remoer o que fizeram, o que deviam ter feito, o que gostariam de fazer, o que os outros fizeram. Nada disso me interessa. Para trás das costas o que é passado (especialmente o que não é declaradamente bom) e para a frente é que é caminho.

Também não posso compreender estratégias políticas que assentam em empobrecimento, desemprego, insegurança, medo. Não as compreendo (porque são estúpidas), nem as aceito (porque são desumanas).

Vita brevis, tempus fugit - que é como quem diz, a vida é curta, o tempo foge. Não a desperdicemos, não sejamos tão mal agradecidos quanto isso, dando-nos ao absurdo luxo de a desperdiçarmos, por um minuto que seja.

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Se a música de Rodrigo Leão já acabou, então, música, de novo, por favor
(pf carreguem na setinha de play mais em baixo, à esquerda, para não saltarem para o Youtube)
Katie Melua - Blowing in the wind


E porque estes temas são pesados e eu não gosto muito de carregar com eles, voltemo-nos então agora para coisas levezinhas (ou melhor: parvinhas).

  • Como a daquele tipo, Jacob Bovia, 28 anos, bem apessoado por sinal, que foi preso por andar a mostrar o pénis às meninas da universidade no estado de Maryland. O engraçado é que não era o verdadeiro, era um pénis falso. Brincadeirinha, terá ele dito – mas olhem, foi dentro na mesma.
  • Como a do Nuno Crato que tinha, ao menos, a obrigação de saber fazer contas mas que, ao que parece, nem sabe ler, nem sequer sabe fazer os cálculos mais elementares pois distorceu completamente o relatório elaborado pela Inspecção Geral de Finanças (IGF) após auditoria à Parque Escolar. A ser verdade o que hoje se leu um pouco por todo o lado, parece que nada do que ele diz corresponde à verdade e, para os casos em que há desvios, eles são explicados essencialmente por razões que não têm que ver com a qualidade da gestão. Aliás, há tempo, pessoa conhecedora destas matérias já tinha comentado que o caderno de encargos exigia que se cumprissem regulamentos que foram feitos por alemães (... para obrigarem as empresas de todos os países a comprarem equipamentos alemães que são os únicos que estão conforme os ditos regulamentos; e assim se percebe porque foram gastos equipamentos dispendiosíssimos que poderão fazer sentido em países cujos climas inclementes podem justificar aquecimento a sério mas não entre nós).

Mas, para verem a resenha do relatório da IGF e se perceber do que se fala, convém ler o artigo do Daniel Oliveira publicado no Expresso Online.

Este Nuno Crato não pára de me desgostar, são umas atrás de outras, francamente.

> Nos EUA um tipo é preso por andar a fazer uma graçola e aqui um ministro pode fazer e dizer o que lhe apetece que nada de mal lhe acontece. Assim como assim, acho que preferiria que, na próxima, em vez de aparecer a deturpar a realidade, Nuno Crato nos aparecesse antes a pregar partidinhas, como por exemplo a mostrar-nos um dildo. 

Exibicionista - obtido no Jow Cartoons


Tinha mais graça e de certeza que com isso não corria o risco de atirar com muitos milhares de pessoas para o desemprego nem nos maçava com tão grosseiras faltas de rigor.

«/\»

[Hoje no Ginjal temos Helga Moreira, uma Senhora que é Física e Poeta, uma conjugação virtuosa. Acompanha, claro, com Clair de Lune, um Debussy vintage. ]

«v»

Tenham, meus caros, uma bela terça feira. Aproveitem-na bem e divirtam-se à grande.