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quarta-feira, julho 16, 2025

Sobre a demolição de barracas

 

Vi, estarrecida, imagens horríveis de barracas a serem destruídas sem que qualquer solução fosse apresentada aos seus habitantes e destruído ficou o meu coração ao pensar na aflição daquelas pessoas. 

Fotografia de José Fonseca Fernandes

Hoje disse aos meus netos que se me saísse muito dinheiro no euromilhões, pegaria em parte do dinheiro e estudaria em conjunto com algumas das autarquias em que o drama é maior qual a forma mais expedita de dar casas com conforto e dignidade às pessoas que vivem em condições miseráveis.

Custa-me conceber que, por exemplo, se arranje dinheiro a rodos para a Defesa ou dinheiro para jorrar sobre os médicos do SNS (médicos ditos 'tarefeiros' num daqueles expedientes para fugirem ao fisco e a todo o tipo de controlo -- enquanto estupidamente se continua sem se perceber que o tema da Saúde tem que ser 'agarrado' a sério por gente competente) ou dinheiro aos montes para fazer cartazes que poluem as estradas e as rotundas de cada vez que há eleições ou, nas autarquias, dinheiro a perder de vista com assessores e parasitas partidários e, depois, não há dinheiro para encontrar uma solução para estes pobres coitados que não conseguem um tecto seguro e legal para se acolherem.

Não há muito vi fotografias de um parque de campismo gigantesco na Costa da Caparica. Não parecem tendas, parecem casinhas, ou tendas de campanha, não sei bem, todas iguais. Disseram-me que muitas pessoas vivem ali todo o ano. Perguntei se não poderia ser uma solução para instalar com um mínimo de conforto e dignidade as pessoas que hoje vivem em bairros clandestinos. Responderam que o problema destas soluções é que, em vez de provisórias, soluções assim tendem a ser definitivas. Claro que não sei qual a melhor solução mas parece-me que qualquer solução é melhor do que a indiferença perante a aflição de quem não tem onde viver, de quem não tem uma morada, de quem não tem onde se lavar ou de quem não tem um mínimo de condições decentes para ter filhos.

Não sei se o PRR previu verbas para alojar as muitas pessoas que, tantas vezes vindas de longe, tantas vezes completamente desenraizadas, desaculturadas, vulneráveis, e, ainda assim, trabalhadoras, não têm outra solução senão juntas chapas, cartões e o que encontram para fazer um abrigo mais do que frágil, mais do que impróprio para um ser humano. Se previu, previu pouco e virá tarde de mais. Se não previu, os irresponsáveis que não pensaram nisso deveriam ser corridos.

Há tempos vi uma reportagem com prédios devolutos que pertencem ás Forças Armadas. De que se está à espera para lá instalar pessoas? E quem diz isso diz muitas outras casas do Estado. Ou da Igreja. 

Marcelo, que tanto falava dos sem-abrigo, já se esqueceu? Ou só se lembra quando as televisões o filmam a distribuir a sopa dos pobres? Quanta hipocrisia.

E já nem falo no cagalhoças do Moedas, essa anedota que para aí anda a armar-se em bom. Mete-me nervos de cada vez que o vejo: um saquito cheio de nada, um daqueles sacos pequenos para apanhar o cocó de cão. Obra feita, zero. Real sensibilidade e capacidade de acção para o que é preciso, zero. Só conversa fiada, só, só.

E o de Loures, com aquela vereadora, insensível, empedernida, gente desalmada, que nervos que também me dão. Caraças.

Enfim. Fico-me por aqui. Sinto-me verdadeiramente impotente perante a desgraça desta pobre gente que precisa urgentemente de habitação social. Estão a trabalhar para nós. Não podemos ignorá-los nem deixar que vivam como animais. Neste caso o tema não é o arrendamento acessível nem sem ser acessível pois estamos a falar de pessoas que primeiro precisam de se organizar, de se estabelecerem decentemente, só depois se pensa em como poderão pagar alguma coisa -- neste caso o tema é mesmo alojamento social, urgente, dar tecto e meios de higiene, dar uma morada e uma ajuda àquelas pessoas, permitir que sejam cidadãos de pleno direito.

segunda-feira, julho 29, 2024

O testemunho de Sige, uma jovem drogada, sem-abrigo

 

Quando se passa na Avenida de Ceuta não podemos deixar de ver as pessoas magras, por vezes em passo apressado, outras vezes sentadas, meio ao abandono. Agora vedaram a parte de baixo das escadas que era usada para se abrigarem, drogando-se à vista de todos.

Mas não é só na Avenida de Ceuta. Há vários locais em que a triste vida dos viciados está bem à vista. Não sei como é aqueles corpos resistem a tanta provação, não sei como sobrevivem. Mesmo referindo-me a como se sobrevive emocionalmente a vidas sem afecto ou amparo, eu espanto-me. Em muitos casos, percebe-se que era quase inevitável que a vida tivesse seguido um rumo sem destino.

Não é possível salvar toda a gente até porque para uma pessoa ser salva tem que querer ser salva. Sabemos que não há recursos para acudir a todos quantos precisam mas é muito triste que não possamos ouvir todos os que caíram no vício, tratar o seu sofrimento.

Hoje tinha a ideia de vir aqui dizer como é que tinha feito uma sopa de curgete e ervilhas mas vi o testemunho de Jesse, aqui dita Sige. A forma como, muito naturalmente, diz que já morreu, impressionou-me muito.

Sije - How I Became a Drug Addict | Miami Homeless Drug Addict Interview


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Desejo-vos uma boa semana

Tudo de bom para vocês

quarta-feira, abril 28, 2021

Os invisíveis

 

Na rua em que eu vivia apareceu um jovem com bom ar que ajudava os condutores a arrumarem os carros. Os lugares eram largos, não havia dificuldade. Ninguém precisava de ajuda. No fim pedia uma moeda. Nunca lhe dei. Uma vez enchi-me de coragem e disse-lhe que ele deveria ir ao centro de saúde pedir ajuda, que não deveria habituar-se a uma vida assim, que seria aconselhado e teria tratamento. Ficou estupefacto a olhar para mim. Nunca mais me estendeu a mão. Contudo, sempre fiquei na dúvida. Será que dizer isto a uma pessoa que vive de esmolas faz sentido? Era alcoólico. Andava sempre embriagado e com uma garrafa de cerveja na mão. Não sei se também se drogava. Mas deveria ter também a sua dignidade. E não sei se o que eu lhe disse lhe soou a uma vontade de ajudar ou a uma ingerência escusada.

Depois deixou de aparecer. E voltou a aparecer, cada vez mais debilitado, mais aos tombos. Depois desapareceu. Depois voltou a aparecer à porta de um supermercado, o cabelo a escassear, o rosto a mostrar a erosão dos excessos, sentado, encostado a uma parede, o boné no chão para recolher esmolas. 

Não imagino o que seja o sofrimento de uma mãe que tenha um filho que leva uma vida de autodestruição, que viva aos tombos, aos caídos. Não consigo imaginar.

Uma vez vi-o a sair de uns escombros. Ele e uma mulher escanzelada, cabelo quase rapado, sem dentes, com aspecto de ser mais velha que ele. Mas não se sabe. A rua estraga a saúde, envelhece. Ambos aos tombos. Iam a andar à pressa, como que a querer fugir mas tropeçando, quase caindo, um esperando pelo outro. Uma tragédia. Provavelmente viviam ali. Nunca me passaria pela cabeça que ali, por entre ruínas, pudesse viver outro ser vivo que não gatos ou pombos. 

Mas viver sem tecto não é apenas o destino de quem se vê à mercê de vícios, incapaz de uma vida entre família. Distúrbios mentais, pouca sorte, acasos, falta de chão quando a vida prega uma rasteira, desgostos destruidores, ausência de um amparo no momento em que ele mais é preciso -- tantas razões.

São os invisíveis. Os indesejados. O incómodo a céu aberto. Podemos vê-los sob os viadutos da cidade, em casas improvisadas com cartões, podemos adivinhá-los quando vemos cobertores, sacos, em alpendres ou escadas. De noite acolhem-se e, antes que o dia amanheça, desaparecem sabe-se lá para onde. Invisíveis.

Gente como nós.

Michael

Feliz. Perdeu os dois filhos. Perdeu o irmão. Tem um cancro em fase avançada. Sorri e diz-se feliz.


Michelle

Diz que o ex-marido é um homem rico. Vive na rua. Teve AVC´s. Diz que vai levantar-se.


Dakota tem 29 anos. Saiu de uma relação abusiva. Quando saiu de casa, o marido deu os filhos para adopção. Sente muita falta dos filhos.


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Desejo-vos um dia feliz

quinta-feira, dezembro 31, 2020

Na rua

 

Nada pode ser tomado como garantido. Nada, nada, nada.

Amores eternos soçobram ao fim de algum tempo. Paixões que se julga fortificadas por unirem almas que quase parecem gémeas esbatem-se e acabam reduzidas a nada. Empregos maravilhosos acabam sem que as pessoas tenham nisso qualquer responsabilidade. Pessoas saudáveis descobrem que afinal, sem o saberem, estão doentes. Gente que se acha o máximo, tratando os outros com mal disfarçada sobranceria, acaba, de um dia para o outro, por ser alvo de desprezo ou chacota. Qualquer de nós já testemunhou ou viveu situações destas. Por isso, quem se sinta titular perpétuo de privilégios, sejam de que natureza forem, está apenas a candidatar-se a um balde de água fria que o deixe desolado até à quinta casa. Mais vale a gente sentir-se agradecida pelo que tem e, a cada momento, estar mentalizado para a probabilidade de, um dia, ter que voltar à casa de partida e, passo a passo, voltar a conquistar tudo (a casa, o trabalho, o amor, a saúde, o respeito alheio, a dignidade)

Muitas quedas, doenças e desgostos podem quase anular uma pessoa e imagino o brutal esforço que é necessário para que se reergam, refaçam, reinventem. Imagino também que, se isso acontecer sem apoio ou companhia, seja muito mais difícil. Por isso, é importante que estejamos despertos para perceber quem, junto a nós, precisa de ajuda. Contudo sei também que muitas vezes quem o precisa não o pede: para não preocupar os outros, para não assumir a sua própria vulnerabilidade, com receio de inspirar pena ou repulsa. Reconhecer que se tem um problema e que se precisa de ajuda é fundamental e requer, muitas vezes, uma grande coragem.

O vídeo que abaixo partilho mostra-nos Paul, um jornalista desempregado, sem casa. A sua bonomia e a esperança que o anima são comoventes. 

Paul is a journalist.  Since losing his job, he has hitchhiked over 36 000km in 15 months across South Africa, looking for work. In a country described as one of the most dangerous in peacetime and with unemployment of well over 30%, his efforts have been in vain. But his journey has taught him many lessons about the kindness of ordinary people.

"We all have problems, we all have challenges.  But we all have the ability to do some good." - Paul 

Talvez o título 'On the road' devesse ser traduzido não por 'Na rua' mas, talvez, simplesmente, por 'Na estrada' ou 'A caminho', em especial pelo seu incansável caminhar, não menos do que uma média de cerca de oitenta quilómetros por dia ao longo de quinze meses. Comecei por intitular o post por 'sem nada' mas também não é verdade que Paul não tenha nada. Tem. Tem um sorriso cativante, tem força anímica para continuar a tentar ter uma vida mais segura, tem ainda o gosto pela leitura e pelos outros, tem esperança. Por isso, talvez tenha o que é necessário para continuar a procurar uma vida melhor. Fica, pois, simplesmente, 'na rua' 


E entrei naquela fase de despedidas do ano que me leva a expressar desejos para o ano que vem.

Por exemplo, gostava de dizer que penso que deveremos sentir compaixão pelos que, sem que alguma vez lhes tenhamos feito algum mal, nos insultam, nos tratam desrespeitosamente. Mas só até ao ponto em que o que nos fazem de mal não nos afecte. A partir daí, há que ter a coragem de lhes dar um claro 'chega para lá', em especial quando o mal já roça a violência, mesmo que apenas psicológica. Em contrapartida, é bom que demonstremos a nossa estima pelos que nos querem bem. O afecto é um dos motores da estabilidade emocional e a sua demonstração, mesmo que não efusiva, é a base na qual assenta a harmonia entre as pessoas. Claro que há muitas pessoas que vivem sozinhas, sem contacto com família ou com amigos, e estão bem assim. Talvez alguns deles tenham amigos virtuais e, de vez em quando, descarreguem as suas frustrações insultando 'conhecidos' por quem alimentam ódios de estimação. Para esses também deveremos, creio eu, reservar alguma compreensão. A vida é curta. Saborearemos melhor o privilégio que nos é dado por vivermos se o fizermos em paz, connosco e com os outros.


As fotografias são da autoria de Steve McCurry
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Que de 2020, ainda assim, vos fiquem bons momentos.
Que o 2021 venha por bem.

quarta-feira, dezembro 11, 2019

Um Merry Christmas by Banksy


Há quem tenha um grande coração e, não obstante, prefira o anonimato. 

Há quem siga com preocupação e tristeza o devir deste nosso descomandado mundo e consiga transmitir esses simples sentimentos em desenhos que aparecem numa parede.

Há quem lute, à sua maneira, por causas que são murros no estômago e, ainda assim, fuja dos holofotes.
Não se deixa fotografar ao pé das suas obras (excepto se disfarçado), não tira selfies, não se desloca com os jornalistas atrás, não se deixa filmar a entrevistar sem-abrigos ou a distribuir comida em cantinas. Não se deixa ver, não se deixa conhecer, não quer ser vedeta. Quer apenas chamar a atenção para temas que o entristecem.
Banksy. 
Quando ele esteve por cá, se é que ele é quem se pensa que é, tive esperança que aparecesse uma obra sua por aí. Mas, até ver, não se soube de tal. Tenho pena. 

A sua mais recente obra revela a sua inteligência, o seu sentido de oportunidade, o seu humanismo.

Gosto tanto dele.

Transcrevo do artigo Have a Banksy Christmas: his Birmingham reindeer are an artistic miracle no The Guardian:
(...) Banksy’s team of reindeer painted on a wall in Birmingham’s Jewellery Quarter, pulling a bench that homeless people use as a bed, is rightly popular. In a video that underlines his message, Banksy shows a man called Ryan having a drink before positioning a bag as a pillow and lying on the bench – to be, in dreams, lifted in the air by those magic reindeer while the soundtrack plays I’ll Be Home for Christmas. It has so far had nearly three million views on Instagram.
Once again Banksy reaches the parts other artists miss. This is a good painting – the reindeer are nicely three-dimensional and solid enough to make the trompe l’oeil segue from street bench to wonderland work. But the cleverest thing about this bighearted artwork is that it does not depict “the homeless”. By attaching his reindeer to an empty bench, it lets homeless people represent themselves. (...)
E este foi o vídeo que Banksy publicou:


Something special.

domingo, novembro 10, 2019

Sara, 22 anos, sem-abrigo, mãe de Salvador





Quando se está grávida, depois da emoção da descoberta de que vem aí um bebé, começa por haver a expectativa de ir vendo que se está mesmo a concretizar, que vai adiante. Há alegria em ver o ventre a arredondar, depois a surpresa de sentir o primeiro movimento. A princípio mal de sente, fica-se até na dúvida se foi. Depois é nítico. Pequenos movimentos, uma alegria, um serzinho de verdade ali dentro. O ventre crescendo, o bebé a mexer. Depois começam os seios também a crescer, os mamilos a aumentarem. Sente-se como que repuxar, o volume a pressionar a pele, os seios cada vez mais tensos. Para o fim os movimentos do bebé são mais fortes, o bebé, apertado, estica-se, espeta um joelho, espeta um pé. A barriga parece deformar-se para um lado, depois para o outro. Há um bebé de verdade dentro do nosso corpo e sentimos que, não tarda, ele vai querer sair. 

Ao mesmo tempo que há alegria, há também a expectativa: como será o bebé? estará mesmo tudo bem com ele? E como será depois? Quem ficará com ele, quando formos trabalhar? Pensamos, avaliamos. Queremos o melhor. Já nos custa a perspectiva de o deixarmos entregues a outros que não nós. Transportamos dentro de nós um ser, carne da nossa carne, queremos tê-lo nos nossos braços e tudo faremos para que seja o mais feliz possível.

É bom termos quem nos acompanhe num período em que as emoções fervilham, que partilhe os nossos receios e anseios, quem nos ajude. A família, os amigos, o pai do bebé, todos unidos na alegria de estarem prestes a acolher uma criança que é e sempre será um motivo de felicidade. Preparamos o enxoval, o berço, preparamos tudo para a sua chegada.

Para o fim da gravidez, quase não há posição quando estamos deitadas. E o ventre pesado pressiona a bexiga e temos que ir muitas vezes à casa de banho, mesmo quando estamos a dormir e acordamos amiúde.

Até que um dia aparece um sinal, um pouco de sangue. É o rolhão mucoso que sai dando sinal de que o dia se está a aproximar. E depois rompem-se as águas. E aí sabe-se que vai mesmo acontecer.

O ventre contrai-se, fica muito duro. Dói. Pode doer muito, muito, muito. Há anestesias mas, quando as não há, as dores podem ser insuportáveis. Contracções cada vez mais seguidas, cada vez mais dolorosas.

Se é importante que uma gravidez seja acompanhada para que os exames atestem a viabilidade do feto, para que haja a garantia de que a mãe está de boa saúde, para que o bebé também venha saudável, no momento do parto ainda mais acompanhamento deve haver. Não só é necessário garantir assistência em caso de problema da mãe ou do bebé como o pós parto pode exigir cuidados para um ou para outro. E, não menos importante, o apoio emocional, o afecto. Num momento tão especial, tão física e emocionalmente intenso, a presença de quem nos ampare e dê carinho é quase indispensável.

Até que o grande momento chega: o bebé sai de dentro de nós, por vezes rasgando-nos. Ensanguentado, frágil, dependente de nós.

E logo todas as dores param, advém o supremo alívio.

E logo a seguir há a suprema emoção e alegria de sentir o bebé nos nossos braços. Nasceu. Um filho a quem desejamos o melhor do mundo. Para sempre quereremos o seu bem, para sempre contará com o nosso amor.

E logo o leite começa a subir, os seios a incharem, todo o corpo preparado para alimentar e ter o bebé nos braços. E imediatamente se estabelece a cumplicidade entre mãe e filho, aquela intimidade boa que queremos que dure a vida inteira.

Nada disto sentiu Sara, a jovem de 22 anos que atravessou a gravidez sozinha, escondida. em situação precária. Sem acompanhamento médico, sem acompanhamento afectuoso, sem apoio emocional. Como se alimentava? Se queria ir à casa de banho, onde iria? Quando lhe custava estar deitada, como se deitaria? Numa pequena tenda, assente em chão duro, como ajeitaria o corpo? Nestes dias em que choveu e em que a temperatura desceu à noite, como se aqueceu? Quando pensava como seria o seu bebé e que vida lhe poderia proporcionar, que abismo se desenharia perante os seus olhos? Pensaria, com lágrimas escorrendo, que não tinha roupinhas, não tinha berço, não tinha apoio familiar, não tinha futuro?

Nada sei de Sara a não ser que ninguém sabia que estava grávida, que fugia de quem pudesse descobri-la, que vivia numa pequena tenda, que talvez seja de ascendência cabo-verdiana.

O corpo dela passou pelas mesmas transformações de todas as mulheres grávidas mas em vez de alegria talvez sentisse apenas medo e desespero.

Quando soube do que aconteceu, foi nela que logo pensei. Coitada, coitada. Que coisa mais triste. Como deve precisar de um abraço, como deve precisar de se sentir amada. Coitada. Que pena sinto dela. Coitada, coitada. 

Li que vivia em condições de extrema vulnerabilidade e que quando descoberta, não tinha sinais de ter consumido drogas, não ofereceu resistência e pareceu estar triste.

Não sei como funciona a justiça neste casos nem sei do que se passou com Sara para chegar ao ponto a que chegou. Mas sei que, com o meu desconhecimento, o que eu faria seria acolhê-la numa daquelas casas que acolhem mães desprotegidas, trataria de que sentisse apoio, carinho, companhia, tudo faria para enquadrá-la socialmente, para lhe arranjar um trabalho e para que sentisse que tinha um lar.

E se, nessas circunstâncias, ela sentisse que queria criar  seu filho, nada faria para impedir que esse vínculo se estabelecesse. Pelo contrário, ajudá-la-ia de todas as maneiras.

Não há amor maior que o amor de uma mãe pelo seu filho e toda a sociedade se deveria mobilizar para que nenhuma mãe sentisse alguma vez não ter condições para criar o seu filho e, temendo pela sua vida futura, o abandone. Nunca.

O mesmo amor que o bebé precisa, precisa, certamente, Sara, sua mãe.

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As fotografias de grávidas provêm do site Photo-Maternité

terça-feira, maio 29, 2018

Um anjo da guarda chamado Mamoudou





De vez em quando o homem aparece. No inverno, quando chego é muito de noite. Ele põe-se no recanto junto à porta. Ali é abrigado, não chove, não bate o vento. Quando se vem da rua, não se vê. Apenas quando se vira para entrar no prédio é que de vê. Assusto-me sempre. Não se vem à espera de ver um vulto ali no chão. Não via se era novo ou velho, estava escuro e ele deitado. Se era mais cedo, por volta das oito e picos, estava soerguido, encostado à parede que lhe serve de cabeceira. Assustada, não tentei nunca olhar bem, creio que por pudor, respeito pela sua privacidade. 

Agora voltou e é de dia até mais tarde. No outro dia, não estava nada à espera, como sempre assustei-me. Nesse instante, desejei que ele não tivesse visto que eu me tinha assustado. Estava outra vez encostado à parede, em cima dos cartões, coberto por uma manta escura. Percebi que estava um vulto ao lado, talvez uma mochila ou um saco. Num relance vi que é de meia idade, talvez mais novo, talvez abaixo ainda dos quarenta, que tem barba, que estava vestido de preto. Desviei o olhar, abri a porta. Pensei que deveria ter dito boa noite. Mas não sei se o incomodaria com isso, talvez não queira ser visto assim. Não sei.

Faz-me impressão. Um sem abrigo a dormir à nossa porta é coisa que incomoda. Não sei definir porque me incomoda. Talvez porque é a constatação próxima do abandono. Ou a constatação de que o infortúnio pode apear qualquer um. Ou porque há uma tristeza muito grande numa situação assim e a gente não sabe o que fazer. Ou porque pensa que é um caso em muitos.

Um outro dia, era já mais tarde, regressávamos os dois, já ele dormia ou, pelo menos, estava deitado e todo tapado. Assustei-me com o vulto. Disse: 'Mas com tanta assistência, porque não procurará ele apoio? Não será que deveríamos avisar que viessem cá oferecer-lhe guarida?'. O meu marido achou que não, que o deixássemos estar em paz. Lembrei-me do curso que fiz, do que nos ensinavam, que deveríamos sempre respeitar as opções de cada um, que muitos sem-abrigo vivem na rua por opção sua.

De manhã, por mais cedo que seja, já lá não está. Nem vestígios dele. 

Quando passo na A1, na zona de Vila Franca, olho sempre aqueles prédios grandes que nunca foram acabados. Entre pilares, há sempre roupa estendida, uma cadeira, provas de que ali vive gente.

Admiro-os desde que vi uma reportagem na televisão. Gente digna. Gente muito pobre. Nada têm e, no entanto, do pouco que conseguem fazem uma casa. Diziam, na vizinhança, que são pessoas simpáticas, bondosas. Apenas não conseguem trabalho, apenas lhes falta suporte, apenas se viram despojados de tudo.

Há uns dois ou três anos vi um filme que me impressionou muito. Samba. A história de um imigrante, sem documentos, clandestino, vulnerável. Um filme extraordinário que mostrava a vida da gente invisível. Com medo de ser preso e de ser deportado, sujeitava-se a tudo, a toda a espécie de exploração e violência. Tinha um coração grande e era lindo. A rapariga do filme apaixonou-se por ele. É certo que as raparigas dos filmes gostam de se apaixonar pelos rapazes corajosos que se encontram em situações de fragilidade. Quando são bonitos, têm umas mãos generosas de quem sabe dar abraços longos e quentes e um olhar meigo e carente ainda mais.

Hoje vi aquele filme com o Mamoudou Gassama.

Vi sem perceber como era aquilo possível. Como é que uma pessoa normal trepa a um quarto andar em meio minuto, sem cordas, sem qualquer apoio? Se eu visse uma criança suspensa num quarto andar, desatava a gritar, a chorar, haveria de querer ligar para os bombeiros e não saberia que número ligar, talvez me pusesse de braços abertos cá em baixo sabendo que de nada serviria, impotente, aflita. Não me ocorreria trepar para salvar a criança. Não sou ginasticada, por muito que tentasse não o conseguiria. Mas será que o Mamoudou alguma vez suporia que seria capaz de tal milagre? Se calhar não. Conseguiu-o porque a generosidade falou mais alto, porque a coragem superou o medo.

A França rendeu-lhe homenagem mas é pouco. Todos os presidentes de todos os países da Europa deveriam fazer o mesmo. Todos deveriam abrir-lhe as portas, dar-lhe emprego. Todos deveriam abrir o coração aos imigrantes, aos pobres, aos que nada têm senão a sua alma, a sua força. A velha Europa precisa do sangue nobre desta boa gente.

Emociono-me ao ver o filme. Já vi algumas vezes sem perceber como é que um vulgar ser humano consegue subir a um quarto andar mais depressa do que voasse pelas escadas. Talvez Mamoudou seja um anjo, talvez os seus fortes braços sejam longas asas, talvez seja o anjo da guarda do menino que estava sozinho em casa, o menino cujo pai se calhar também tem uma vida complicada e cuja mãe, noutro país, se calhar também não tem uma vida fácil. A vida não é fácil para os pobres, para os despojados. O que os salva é a sua força de deuses e o seu coração de fazedores de milagres.



E o que Mamoudou, 22 anos apenas, já andou para ali chegar. O que ele já viu. O que ele já viveu.

E, no entanto, quando viu a criança pendurada apenas pensou em ir salvá-la. No vídeo abaixo ele conta.


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(No post que se segue a conversa é outra. De resto, nada de mais: é sabido que eu é mais bolos)