Acontece-me, com alguma frequência, pensar que devo ser mentecapta por não ver o que que todos os outros parecem ver. Acontece que, quando isso acontece, sou uma verdadeira mula: obstinada. Dizem-me que o caminho é por ali, ouço louvar a maravilha do caminho e, não o vendo, não apenas me questiono sobre a minha falta de perspicácia como me recuso a encarneirar, a fazer coro. Nem consigo disfarçar. Nem consigo estar por perto.
Se não padecesse eu um pouco do síndrome do impostor em que, de vez em quando, penso que se expuser abertamente todas as minhas convicções ou pensamentos corro o risco de passar por convencida e parva, e diria que já era tempo de dizer abertamente que quando uma coisa não me convence é porque não tem pernas para andar, tarde ou cedo, a maravilha vai ao fundo.
Já me aconteceu isso com diversos unicórnios ou tendências ou negócios altamente auspiciosos, louvados, incensados, levados ao colo pela comunicação social, pelos investidores, pelos deslumbrados.
Em tempos, lá onde eu trabalhava, convidavam um ícone da inovação e do empreendedorismo, na altura quase uma pop star. Não digo a quem me refiro pois não vale a pena bater num ceguinho que já passou à história. Mas, na altura, em reuniões mais restritas ou em encontros de quadros, lá estava a estrela convidada a dissertar sobre o sucesso dos seus métodos, dos seus negócios, de como motivava as equipas, de como todos eram o máximo. Ar blasé, ele sorria de mansinho ouvindo os elogios vindos de todo o lado. E eu agoniada, achando tudo um bluff, desde a ideia, o negócio, até ele próprio. Baldei-me a uma ou duas, sendo considerada deselegante, quiçá de vistas curtas, conservadora. Mas não aguentava. Era demais para mim.
Inclusivamente, assisti a forjaram-se joint ventures, entrar como investidores, apostar no boost, injectar dinheiro para a coisa alcançar a lua. E eu achava que devia estar tudo parvo, que eu não meteria um euro meu naquilo, que aquilo nem do sítio onde tinha nascido conseguiria sair.
E não saiu. Anos depois fui tudo ao fundo, falido, um bluff, um balão cheio de nada, uma treta. Não se aproveitou nada de nada.
O meu colega e amigo que gostava de me aconselhar e que se cansava a apelar à minha contenção e moderação, viria a dizer uma vez mais: concordo, tinha razão. Mas ter razão antes de tempo é o mesmo que não ter razão.
O que aquilo me cansava.
Agora é a Farfetch.
Antes era o máximo. A bolha crescendo, o homem como um astro. Grandes artigos sobre ele.
[São os mesmos jornalistas burros que não conseguem ver um palmo à frente do nariz e que se entretêm a maldizer todos os que querem genuinamente trabalhar enquanto endeusam os fazedores de unicórnios e os vendedores de banha da cobra.]
Claro. Já foi. Os investidores ficaram a chuchar no dedo, agora a marca é coreana, vai ser injectado dinheiro a uma taxa de juro de 12,5% (imagine-se!) e vamos ver o que será feito daqueles jovens que andavam tão entusiasmados. Estão revoltados, claro. Arranjarão outro trabalho, claro. Mas, pelos vistos, também tinham embarcado, não tinham percebido que o fulano, com ar de actor de novelas da Globo, deveria ter tentado a carreira artística.
| Rodrigo Lombardi, gémeo separado à nascença, é Moretti em Travessia |
Mas o que fico sempre a pensar nestas situações é isto: como podemos confiar na presciência dos jornalistas económicos quando falam da economia real se já os apanhámos tantas vezes em falso? Ainda por cima nunca se retratam. Poderiam vir depois pedir desculpa, reconhecer que se tinham enganado, poderiam vir prometer que doravante seriam mais escrupulosos, mais exigentes, mais rigorosos.
Mas não.
Assim andamos. Parece que gostamos de ser iludidos, parece que mais depressa endeusamos os bluffs do que reconhecemos o mérito a quem realmente o tem. O mundo parece que é uma gaiola de malucos. Essa é que é essa.