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sábado, outubro 08, 2022

Dúvidas existenciais. Velhos hábitos. Coisas de casais.

 



Comecei o dia a fazer análises. Agora, de vez em quando, para aí uma ou duas vezes por ano, tenho que ser vigiada. O que vale é que não me faz impressão nenhuma que me tirem sangue. Aliás, já fui dadora. Só deixei de ser por mero comodismo. Quando iam lá à empresa, era só descer até ao posto médico. Quando deixaram de ir, perdi a noção de onde ir ou quando. 

Pensei que aproveitaria para ir, a seguir às análises, num instante, tentar descobrir livros da Annie Ernaux. 

Mal me levantei, organizei-me. Tudo arquitectado: arranjei um saquinho de papel da farmácia para levar o frasquinho com a primeira urina da manhã e pus o saquinho à vista para não correr o risco de me esquecer da urina.

Tinha também pensado guardar uma banana e uma maçã lavada para comer enquanto conduzia, a caminho da livraria. Contudo, estava na dúvida: onde guardar a banana e a maçã? A maçã estaria lavada, tinha que ir num saquinho de plástico, daqueles de congelação. Estando num saco, talvez também pudesse ir no saco de papel da farmácia. Mas a banana? Não ia à solta dentro do saco de papel, ao lado do frasquinho da urina. Portanto, por via das dúvidas, coloquei o frasquinho da urina dentro de um saco e dei-lhe um nó. Portanto, seria assim: um saco de plástico com o boiãozinho da urina, um saco de plástico com a maçã. E, à solta no saco de papel, a banana.

Também não podia esquecer-me da prescrição. Fui à procura, guardei-a na carteira. Nem da chave do carro. Fui buscar.

Arranjei-me. Disse ao cãobeludo: 'A dona já vem. Fica a tomar conta da casa que a dona já vem'. Estava enroscado a dormir, levantou uma orelha e deixou-se ficar.

Saí apressada a ver se o tempo me dava para tudo. 

Quando ia a meio do caminho, dei por ela: com tanta dúvida, esqueci-me de guardar a maçã e a banana. Caraças. Detesto andar em jejum. Mas já não dava para voltar a atrás.

Portanto, lá fui. 

Quando me despachei, saí com o carro do parque na dúvida: iria em jejum ou voltaria para casa? Abrandei. Avaliei a situação. Fome, fomeca, a tensão certamente baixa. Sem uma bananinha, sem uma maçã, sem um aconchego. Voltei para casa. 

Tomei o pequeno almoço, trabalhei, telefonei, fiz o que tinha a fazer. À hora de almoço, fui fazer o passeio higiénico com o dog.

Almocei a correr e ala moça, lá vai ela, antes que se fizesse tarde. A caminho do shopping. Quando estacionei, tomei nota do lugar, da cor, do piso e enviei uma mensagem para mim própria. Não quero correr o risco de ficar no mato sem cachorro, sem saber onde deixei o carro e sem ter quem me ajude. Quando frequentava assiduamente estes locais, já tinha lugares mais ou menos orientados. Agora não, agora é onde calha e, por isso, tomo providências.

Encontrei o 'Acontecimento'. 

Lá, para rentabilizar a ida, resolvi entrar numa ou noutra loja. A ideia é a de sempre: 'Não é para levar, é só para ver, não preciso de nada'. Mas, no canto da consciência, a vozinha matreira do costume: 'Só se for uma oportunidade imperdível'. E assim foi. Encontrei duas blusinhas bonitas, tecido com bom cair, padrão bonito e... a cinquenta por cento do preço. Quase black fruday. Negócio irrecusável. Fui provar. Ah, céus, que sensação boa: estar sozinha às compras, num provador... Ainda assim, a santa-madre poupadeira que existe no tal canto sacristeiro da minha mente alertou: 'Mas que falta é que isso faz?'. Respondi de mim para mim: 'Nenhuma'. Beatamente, pendurei-as nos respectivos cabides e fui devolvê-las ao expositor. Mas eis que passa a empregada e me tenta: 'Hoje está com dez por cento adicionais'. Pronto. Varreram-se-me as dúvidas existenciais. Trouxe-as. Baratíssimas. Vou ter aí umas reuniões presenciais, coisa decisiva de ou vai ou racha. E tudo num sítio todo xpto, tudo gente ultra xptosíssima, e agora vou parecer toda elegante com umas calcinhas brancas, saltinho alto e umas blusinhas todas fashion a preço de uva mijona. Ou seja, regressei contente com a vindima.

(E há bocado comecei a ler 'O acontecimento'. Escrita corrida, a gente pela mão da Annie.)

E é isto.

Contar mais o quê? Fomos caminhar para a praia, o entardecer lindo, imensos bichos negros na água a cavalgar as ondas, os areais cheios de gente, tudo na maior boa onda. O sol a mergulhar nas águas e um mundão de gente a curtir a paz do mar e da maresia e da vida ao ar livre.

Enquanto caminhávamos, telefonei à minha mãe que me contou que viu a entrevista à Júlia Pinheiro conduzida pelo marido. Muito amorosos, amigos um do outro, disse-me ela. Há bocado a minha filha enviou mensagem a dizer que tinha posto para trás e estava a ver o mesmo, para eu ver também.

Deu luta. O meu marido não queria alinhar, que era bater no fundo: entrevista de Júlia Pinheiro e marido, tema sentimental, coisa lamechas, era o que faltava pormo-nos a ver coisa mais brega. Não disse brega. Deve ter dito pior. Mas não sou de desistir tão facilmente. Vimos. Gostei de ver. E acho que ele também pois não adormeceu nem se levantou nem dirigiu impropérios nem ao casal ali derretido nem a mim por estar a querer ver aquilo.

No fim, quando se levantou e ia a sair da sala, disse-lhe que ele devia ser como o Rui Pêgo, assim romântico, a dar presentinhos, a ser amoroso e fofo. Ele disse que também não viu a Manuela a mandar vir com o marido. Perguntei: 'A Manuela?'. Já ia no corredor. Voltou atrás: 'Ao que chegámos, a ver uma entrevista ao casal Pinheiro'. E lá foi.

E agora, porque nada melhor que rir, aqui ficam momentos de atrapalhação e risota nas gravações do The good doctor.

The Good Doctor Bloopers

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E porque se não nos levantarmos por algumas coisas, cairemos por coisa nenhuma, o Dude with sign juntou-se-nos uma vez mais.

Maro e Salvador fizeram-nos companhia com We've been loving in silence

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Um bom sábado
Saúde. Boa sorte. Boa disposição. Paz.

quarta-feira, julho 21, 2021

Against all odds, na companhia do Dude With Sign e pensando nos vindouros dias da liberdade

 



Mais um dia meio parvo. Não sei o que passa pela cabeça de algumas pessoas para ligarem para outras antes dessas pessoas estarem bem acordadas. Nos tempos longínquos em que uma pessoa tinha uma hora de trânsito pela frente, de certeza que às oito e tal estava toda a gente mais do que a pé. Agora quando uma pessoa trabalha em casa, what's the point? Claro que há os madrugadores que, ainda nem o sol raiou, já estão a pé. Não é o meu caso. Quando os madrugadores se levantam talvez as galinhas também já acordadésimas. Eu não, a essa hora estou no primeiro sono. E pouco antes dessa hora, nomeadamente agora, ainda eu estou a escrever aqui. 

Mas, pronto, há gente para tudo. Ainda por cima uma pessoa atende a ver qual a urgência e não é urgência nenhuma. 

Enfim. Coisas desagradáveis.

Depois, ao estar instalada no canto de que fiz o meu office, vendo a agenda, disse, toda contente: vai ser um dia calmo. E uma vez mais se verificou aquilo de não dar sorte a gente falar cedo demais. A meio da manhã um telefonema complexo. Dei as minhas indicações mas era complexidade a mais para ser só decisão minha. Liguei para quem devia. Nada. O telefone a tocar, tocar e nada. Enviei uma mensagem descrevendo o que se passava e pedindo que ligasse para a pessoa que me tinha ligado.

Junto à hora de almoço fomos fazer a caminhada. Quando estava longe de casa, um telefonema. Era ele. Fiquei desconfortável. Não ia atender ali, no meio da rua, a andar. O meu marido disse que ficasse parada. Não quis. Sabia lá se o telefonema iria demorar meia hora. Não ia ficar plantada no meio da rua. Quis regressar a casa. Ele achou um disparate. Disse-lhe que ia eu, que continuasse a andar. Veio comigo. Uma verdadeira caminhada aeróbica. Em metade do tempo, percorremos o caminho de volta. Já em casa, liguei. Conversámos, analisámos hipóteses, combinámos estratégias.

Depois do telefonema, já mais descansada por ter partilhado preocupações, voltámos à rua e terminámos a nossa caminhada.

Depois de almoço, fui outra vez optimista: pensei que a tarde não se afigurava má de todo, talvez me desse para uma sesta de quinze minutos. Alonguei-me no sofá, pus os braços para trás como gosto de fazer (coisa de que a minha mãe me diz que já leu que não se deve dormir assim porque tem ideia que faz mal a alguma coisa) e, de imediato, senti que estava a deslizar para o sono. Mas isto é fatalidade: o mundo conspira para não me deixar pôr o sono em dia. Uma sonora mensagem.

Claro que poderia tirar o som ao telemóvel mas não consigo, tenho sempre receio de que alguma coisa requeira a minha imediata disponibilidade. Mais uma pancada minha, esta de que tenho que estar sempre em estado de prontidão. O meu marido, de vez em quando, recorda-me: 'sabes aquilo de que há sítios cheios de pessoas insubstituíveis?' Claro que sei. Mas não me acho insubstituível, quero é estar disponível para o que for preciso. E confesso: não sei se isto é caso para procurar um psiquiatra mas, se for, agradeço que me avisem que eu vou. 

Resultado. Nem cinco minutos consegui passar pelas brasas. E depois foi toda a tarde a bombar.

Lembro-me frequentemente daquilo que uma colega que se reformou recentemente me disse uma vez que me encontrou no Colombo, poucos dias antes do apocalipse de Março do ano passado. Estava toda gira, ela, mais jovem, um corte de cabelo todo moderno, melhor pele, uma roupa toda fashion. Ouvi um grito: 'Olha para ela...!'. Reconheci logo a sua voz. Tinha-me visto. Estava apressada, ia encontrar-se num restaurante com uma amiga. Disse-me ela: Ai é tão bom não trabalhar. Penso muitas vezes que, se quem trabalha soubesse que é tão bom não trabalhar, ficariam todos muito infelizes. Ai é tão bom poder fazer o que me apetece. Faço ginástica, encontro-me com amigas, vou aos concertos da Gulbenkian, vou ao cabeleireiro, durmo a sesta, vou até Sagres, faço o que quero.

Aqui em casa, em teletrabalho, penso muitas vezes que é uma tristeza não conseguir gerir o meu tempo por forma a guardar algum para me sentir mais livre, nem que seja por apenas umas horas. De quando em vez lá acontecem uns lampejos que me deixam toda feliz da vida, até faço de conta que estou a entrar em férias. Mas dias como o de hoje, a meio de Julho, já com várias pessoas de férias, com a agenda pouco sobrecarregada, em que penso que vai ser pera doce e, afinal, um telefonema, um mail, uma reunião, outro telefonema, e mais outro, entristecem-me um bocado. O dia vai decorrendo assim, sem tempo para descanso e, quando chega ao fim, acho que foi uma estupidez. Uma seca.

Mas é um propósito que tenho, por todas as razões e mais a que se prende com o que me aconteceu há mês e picos: ir doseando a carga de trabalho e ir aprendendo a guardar algum tempo para mim. Tem que ser.

Quando estava naquela maca de hospital, no meio de gente aos gritos, sem perceber bem o que me estava a acontecer, não posso dizer que tenha sentido grande medo. Acima de tudo o que me ocorria era que seria uma chatice se a minha vida terminasse mais cedo do que era suposto ou se ficasse com limitações. 
Penso muitas vezes no caso do meu colega que trabalhou para além do que era suposto pois foi acedendo a todos os pedidos para que se mantivesse por mais algum tempo em funções e que, ao fim de poucos meses, quando finalmente se reformou -- e quando começava a gozar a liberdade de fazer caminhadas, de almoçar com amigos, de estar mais tempo com a família --, num dia igual a todos os outros, sem que nada o fizesse prever, sentiu um cansaço, sentou-se, apoiou os cotovelos nas pernas e pousou a cabeça nas mãos e, sem qualquer sinal de alguma coisa se passasse, caiu morto. Morte santa, sem dúvida. E não ficou cá para lamentar a morte prematura mas, se tivesse sabido qual o desfecho que lhe estava reservado, certamente teria sabido gerir melhor o seu tempo, guardando mais tempo para si e para os seus em vez de se ter entregue, quase por inteiro, à empresa.

Naquele fatídico dia de inícios de junho, estava eu na maca, sem perceber se o meu coração se preparava para deixar de trabalhar, auto-vigiando os sintomas pelos quais tanto me perguntavam -- tem dor no peito? custa-lhe a respirar? está a transpirar? sente alguma má disposição? náuseas? sente formigueiros? -- e ia pensando que era uma chatice se ainda gozava menos a vida que o meu colega.

Claro que estava também muito chateada por estar assustar tanto a família. E pensava que, se lá ficasse internada ou se tivessem que me operar, ia estragar-lhes o fim de semana. Sobretudo pensava que o meu marido nem devia ter jantado, que, na volta, mal dormia tal a preocupação de se levantar ainda mais cedo do que o costume. Medo de morrer acho que não senti, só chatice e incompreensão pelo que estava a acontecer. Mas, naquela noite terrível, agora que penso nisso, penso que, sobretudo, senti muita solidariedade e compaixão pelo sofrimento alheio a que ali estava a assistir. 

Quando, de manhã, se aproximaram de mim para me repetirem todos os exames, o braço já cheio de cateteres, senti ansiedade mas era sobretudo medo de se descobrir mais alguma coisa estranha que os fizesse querer que eu continuasse lá, preocupação pela preocupação do meu marido e do meu filho lá no hospital e da minha filha em casa sem saberem se eu tinha alguma coisa grave, preocupação de que fosse coisa complicada que tivessem que contar à minha mãe, sabendo eu, de antemão, que ela iria ficar em pânico.

Mesmo quando, antes, accionaram o protocolo dos acidentes cardíacos e chamaram do INEM e me vi enfiada numa ambulância, as luzes azuis a rodar, não tive medo de morrer. Foi mais apreensão por aquilo tudo. Ou talvez, até, incompreensão: bolas, mas será que me está acontecer alguma coisa grave? será que vou desta para melhor sem ter tido tempo de gozar a liberdade do meu próprio tempo? Caraças, que é isto? O susto que estou a pregar a toda a gente, que chatice... Tomara que não se assustem muito... Será que há o risco de isto estar a acabar para mim...? Haverá risco de ir desta para melhor sem sequer me ter prevenido...?

E pensei, uma vez mais, naquela outra vez quando o meu carro ficou sem travões, numa descida que ia dar a uma rotunda cheia de trânsito. Percebi que havia sérios riscos de me espetar. Quando vi que estava a galgar uma rotunda e a ir desenfreada contra uma estrutura metálica, pensei que aquilo me poderia cortar o pescoço. Também não tive medo. Pensei apenas que, se calhar estava a viver os últimos instantes da minha vida e que se calhar nem tinha tempo de pensar em cada um dos meus queridos para mentalmente me despedir deles. Naqueles breves instantes, pensei isso com muita tranquilidade.

Nestas coisas não tenho medo de morrer. Aliás, nem penso nisso. É como aquilo de andar de avião. Não tenho medo. Penso que se tiver que ser, será. E não penso mais no assunto. Não tento controlar ou evitar o que depende do acaso e da lei das probabilidades. Penso que o que for soará.

O que gostava era de, até que a guia de marcha chegue, para além de me manter disponível para os meus, ter também tempo para fazer o que me der na gana: preguiçar, ler, fotografar, passear, dormir, não fazer nada, jardinar, escrever contos, escrever um diário, escrever inacreditáveis maluquices, estar mais perto da natureza, ir comer um gelado quase todos os dias, aprender a fazer coisas, conhecer outras pessoas, vadiar, um dia ter o cabelo azul, noutro platinado, noutro cor de violeta, ousar, experimentar, descobrir estrelas, descobrir poetas, descobrir diseurs. Rir. Dançar. Nadar. Festejar a minha liberdade. Coisas assim.

E é para isso que, mentalmente, tenho que me ir preparando, abrindo caminho.

Tirando isso, tá-se.

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É com alegria que aqui recebo, uma vez mais, o fantástico Dude (with sign), Seth Phillips de seu nome, que, como anteriormente, vem reivindicar grandes medidas. 

O som é Bird's Teardrops || Estas Tonne feat. Peia.

Tenho cá para mim que o título, em especial naquilo das odds, não tem lá muito a ver --

-- mas ando com esta expressão na cabeça e assim, escrevendo-a, talvez me passe.

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Desejo-vos um dia feliz

Saúde. Bons sonhos. Sorrisos. Força.