Fiz uma pergunta no título mas não tenho resposta para ela. Gosta-se porque se gosta e não me parece que seja fácil explicar porquê. Na arte, como na literatura ou no amor deve seguir-se aquele princípio que o Mr. X nos ensinou: Julio Ramón 'Ribeyro propôs ter em mente que um bom trabalho não tem explicação, um mau trabalho não tem desculpa e um trabalho medíocre não tem qualquer interesse.'. Tal e qual.
Se desde pequena convivi com livros, já o mesmo não posso dizer da arte. Até certa altura tenho ideia de apenas ter conhecimento de pintura 'clássica'. Havia em casa dos meus pais alguns quadros mas daquele género que considero trivial. Nem sei se era bonito ou bem feitinho, se calhar até era. Lembro-me apenas de que nada me diziam. Teria eu uns onze ou doze anos, a sala da televisão foi redecorada e lembro-me de ter ido com a minha mãe escolher um quadro. Provavelmente o meu pai também terá ido até porque o quadro era grande e só pode ter ido de carro para casa. Era um óleo que, do que me lembro, já tendia para o impressionista, senão para o quase abstracto. Era uma tela muito comprida e tinha um barco e todo ele continha cores solares, luminosas. Pela primeira vez eu via uma pintura de que gostava. Uma vez, foi parar lá a casa um livro de pintura e eu descobri um mundo novo. Apaixonei-me de tal forma por um do Paul Klee que convenci a minha mãe a deixar-me arrancar aquela folha e emoldurá-la. O que eu gostava daquela cara colorida, abstracta, circunspecta, o que eu gostava. Lembro-me de as minhas avós terem ficado admiradas com aquele quadrinho no fundo do corredor, não percebendo a graça que eu achava a tal desconformidade.
Nas casas dos meus amigos ou dos amigos dos meus pais eu não via nada que me despertasse atenção. E quando íamos visitar museus, só me lembro de ver arte sacra, arte muito realista, muito naturalista, tudo coisas que nada me diziam. Uma reprodução da realidade, tal e qual o pintor a viu, a mim não me desperta interesse. Não quero saber tal e qual o que ele viu. Porque haveria de me interessar isso? Quanto muito interessa-me a impressão que a coisa lhe causou ou o ângulo diferente e imprevisto que torna a visão especial. Agora anjinhos suspensos em nuvens, cristos escanzelados, camponeses muito factuais, naturezas mortas completamente maçadoras, nada disso me parecia estimulante.
Por isso, quando me vi por minha conta, aos dezassete anos, sozinha em Lisboa, um dos lugares que, desde logo, mais me atraíu foi a Gulbenkian e não tanto o museu que já conhecia razoavelmente mas com as exposições temporárias, artistas modernos que traziam o ilógico, o inexplicável, a graça inocente, as cores e os traços quase infantis, as cores abertas, desprendidas do seu contexto. A partir daí passei a procurar galerias, livros, exposições e quanto maior a abstracção, quanto mais surpreendente e provocador, mais eu queria ver.
Em algumas peças não encontrava 'arte' e não gostava mas, ao longo do tempo, o meu conceito de arte foi adquirindo matizes, foi sofrendo transmutações. Ainda não gosto de muita coisa, coisas que me parecem de mau gosto ou chachada pura, mas há outras que agora me agradam e que antes achava autênticos disparates.
Em algumas peças não encontrava 'arte' e não gostava mas, ao longo do tempo, o meu conceito de arte foi adquirindo matizes, foi sofrendo transmutações. Ainda não gosto de muita coisa, coisas que me parecem de mau gosto ou chachada pura, mas há outras que agora me agradam e que antes achava autênticos disparates.
De Lisboa passei para Madrid e para a grande curiosidade de tudo o que era novo, incluindo os pintores de rua. E também para Paris. Não o Louvre que sempre achei fora da minha escala, grande demais, gente a mais, demasiadas obras demasiado clássicas. Nem tanto o Pompidou, muito experimental, muito neutro. Em Paris, sim, o Jeu de Paume e, depois, o maravilhoso museu do Quai d'Orsay, lugar mágico, lugar de eterno retorno, lugar onde, por muitas vezes que o visite, sempre me emocionará, por vezes quase até às lágrimas.
E daí para todos os outros. E a inexplicável sedução que Rothko exerce em mim? Ou Chagall?
E, uma vez a mente bem aberta a todas as diferenças a todas as surpresas, o deslumbramento com as grandes telas de Caravaggio. Deus meu. Que carnalidade, que vida ali condensada, que materialidade. Que tormento não poder estar em silêncio, sozinha, diante daquelas telas, horas, horas a fio.
Ou a luz de Vermeer. Olhar e tentar perceber como é possível uma coisa assim, tentar perceber se foi um homem normal que fez aquilo. Ah, os grandes mistérios.
Ou a luz de Vermeer. Olhar e tentar perceber como é possível uma coisa assim, tentar perceber se foi um homem normal que fez aquilo. Ah, os grandes mistérios.
Um dia, há muitos anos, uma prima minha dada às artes perguntou se eu já tinha ido ver a exposição da Paula Rêgo. Fui taxativa: não, nem iria porque me parecia tudo muito disforme, forçadamente repelente. Ela sorriu, disse: 'Olha que não, olha que não. Vai ver e vai com a mente aberta. Sei que vais gostar'. Hesitei. Ao fim de algum tempo, fui. E rendi-me. De repente nem percebia como tinha sido possível não gostar. De facto, gostava, gostava muito. Olhava para aquela outra que não gostava sem a identificar comigo, como se tivesse sido outra pessoa, uma estranha, uma rude criatura. E Graça Morais. A Graça Morais no casa-musei da Vieira da Silva. Que maravilha. E Pomar. E tantos outros.
Porque gosto de uns e não gosto de outros? Se calhar pela mesma razão que me leva a gostar de uns escritores e não de outros, a gostar de umas pessoas e não de outras.
E ocorreu-me pensar nisto pois, há bocado, ao abrir o YouTube, o meu amigo algoritmo tinha um vídeo que, segundo ele, era recomendado para mim. Marc Jacobs: between collections. Fui ver. E gostei. Caraças, gostei mesmo. Estupor do algoritmo que sabe levar-me na boazinha, que me conhece mesmo, que adivinha os meus gostos. A casa e as obras de arte de Marc Jacobs. Nem comento a graça que é ouvir conversar uma bicha dada às artes. E que não me venham com tretas de preconceitos: não sou homofóbica. Nem pouco mais ou menos. Convivo assiduamente com uma e, lá está, se a minha filha me diz que não percebe como tenho paciência para me dar com a bicha eu nem tento explicar. Sim porque sim. Mas, à parte esse suplemento de graça, as obras que ele ali tem. Que casa bonita a dele. Como eu gostaria de visitá-lo. O que eu gostaria de ser aquela ali, a conversar com ele sobre obras de arte, sobre moda, sobre modelos, sobre fofocas, sobre costura, sobre o seu processo criativo, sobre as cidades onde tem lojas.
E ocorreu-me também o vídeo abaixo (Why is modern art so bad?) que Leitor, a quem agradeço, me enviou e que me levou a dizer-lhe que o que Robert Florczak ali diz são banalidades sobre extremos, sobre caricaturas, obras que não representam o que globalmente se pode designar por arte moderna. E ele já me respondeu dizendo que não tenho razão, que o pintor o professor Robert Florczak é objectivo e que há arte e arte. Seja. Cada um pensa conforme sabe ou pode. Eu gosto de várias obras que Marc Jacobs tem em casa e, se calhar, não gostaria de ter nenhuma das pintadas por Florczak (e digo isto por dizer pois, na verdade, ainda não pesquisei para ver como é a arte que ele produz).
Mas fazer o quê? São os nossos genes, as nossas circunstâncias, o ar que respiramos, a nossa pele, o nosso olhar, afinidades que jamais saberemos explicar. Gosta-se porque se gosta. E é bom gostar.
Mas fazer o quê? São os nossos genes, as nossas circunstâncias, o ar que respiramos, a nossa pele, o nosso olhar, afinidades que jamais saberemos explicar. Gosta-se porque se gosta. E é bom gostar.
Mas, então, cá está o anti-vídeo de Florczak, um genuíno anti-Jacobs.
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As fotografias que usei para ilustrar o post foram feitas este domingo no Ginjal e eu olho aquelas paredes como uma galeria de boa arte a céu aberto. Quando falo no Ginjal invariavelmente as pessoas dizem que não se percebe como é que nunca mais aquilo é arranjado, que aquilo é uma decadência de dar dó. E eu penso que tomara que qualquer obra nova ou de reabilitação que ali façam saiba preservar a beleza extrema e fatal daquelas paredes sobre as quais todos os dias alguém escreve ou pinta uma coisa diferente. Mas, lá está, gostos não se discutem.
A primeira fotografia, a dos ramos da árvore, e a última, a da gaivota, levaram um banho de cor -- e ainda bem que vocês não são curiosos e não me perguntam porque as tingi daquela maneira porque não saberia responder. Ou melhor, talvez pudesse tentar mas, tenho a certeza, soar-vos-ia a conversa de maluca.
Desejo-lhe a si, a si em especial, uma boa terça-feira.