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quinta-feira, janeiro 11, 2024

Sobre hospitais públicos e privados. Episódios. Histórias. E sobre o DN, o JN, a TSF, e o The Guardian, o Madame le Figaro, o Correio da Manhã Jornal

 

Nem valerá a pena a gente pôr-se para aqui a dissertar sobre as pregas e os plissados da vida. Não há nada de novo a dizer. Desde o início dos tempos que se sabe que, por fora, de repente, vê-se uma coisa mas, ao pé, com tempo, se percebe que há a parte que é ocultada pelos efeitos, e isto já para não falar nos avessos.

Tenho experiência de frequentar hospitais públicos e privados. Já passei noites no exterior sem saber nada dos doentes que tinham sido devorados pela dinâmica hospitalar, já andei entre macas onde gente grita e tosse e escarra e vomita e chora e grita, eu própria já passei uma noite e uma manhã no meio de gente em camas encostadas umas às outras, gente que gritava que estava a urinar-se ou outras cujas fraldas eram mudadas à frente de todos, onde os doentes mentais gritavam e choravam a noite inteira desestabilizando ainda mais a desgraça que ali se vivia. 

Já tive os meus pais internados em hospitais públicos e em hospitais privados.

A grande e terrível diferença está nas urgências e nos serviços de observação. Nos hospitais públicos que conheço a falta de espaço, a falta de meios e a falta de organização são gritantes e a dignidade dos doentes e o respeito pelos acompanhantes são totalmente ignorados. 

Uma vez internados, as diferenças esbatem-se. A disparidade que subsiste terá mais a ver com a privacidade, especialmente quando, nos privados, se está num quarto individual. Mas não tenho razão de queixa nos internamentos (dos meus pais) em hospital público. Para os doentes, em particular quando estão mesmo doentes, na prática nem dão muito pelo local nem se importam com existirem ou não frescuras.

Estar num hospital privado, em quarto individual, é quase como estar num hotel com todos os serviços incluídos. Sobretudo há a preocupação do serviço ao utente e à família. Há sempre alguém que atende o telefone, alguém que está disponível quando queremos uma informação sobre o nosso familiar ou um médico que nos explica a situação e as perspectivas. E isso faz muita diferença pois ter um familiar internado e não conseguir encontrar ninguém que nos informe cabalmente é frustrante.

Mas, como tudo, é relativo. E, sobretudo, é para quem pode pagar (sobretudo, que tenha um seguro com um grande plafond ou tenha ADSE e poupanças). 

Contudo, uma coisa é comum: o sofrimento de quem está doente e a angústia dos familiares.

Vejo muitas vezes os familiares de um doente internado na mesma ala da minha mãe, que está num hospital privado. Tenho impressão que estão lá quase todos os dias e, não sei porquê, estão muito na sala de espera. Vejo sempre um homem que talvez seja um pouco mais novo que eu. E vejo um rapaz e uma rapariga que presumo que sejam irmãos. Os jovens conversam, riem-se, outras vezes falam com ar sisudo, parecem reflectir e recebem e fazem chamadas. Parecem esquecidos do homem que imagino que seja o pai. Acho que nunca os vi a dirigirem-se a ele, nem nunca vi o homem a falar com eles ou ao telefone. O mutismo daquele homem faz-me muita impressão. Já calhou partilhar o elevador com eles. Os jovens conversando, o homem em silêncio, um ar muito triste. De vez em quando vejo-os a irem ao quarto mas pouco depois saem. Imagino que seja a mulher do homem e mãe dos jovens que esteja internada. Como nada sei, só posso presumir e, dada a ala que é e dado o pouco tempo que estão no quarto, presumo que a pessoa esteja maioritariamente a dormir o que nem sempre é muito bom sinal.

No outro dia falei de um homem que saiu e voltou pouco depois com um jovem que pensei ser o filho. São outros, não estes de que agora falo.

Mas a angústia dos que temem perder o seu ente amado é a mesma. Nada sei da história de cada uma daquelas pessoas que ali está internada. 

Cada um terá a sua história.

No outro dia, por alturas do Natal, num fim de semana, no átrio cá em baixo, o átrio vazio, três tias podres de betas falavam muito alto (como as ultra betas sempre fazem). Uma dizia que não ia subir e as outras duas: 'Olha agora...', 'Olha-me esta...!', 'Deixe-se disso, venha lá...'. E a beta zangona: 'Não vou! Depois do que ele disse, que não queria ver-me, acha que ia aparecer...? Nem pensar, né...?', e as outras: 'Esqueça lá isso, não ligue, venha lá...'. Nisto chegou um super beto, alto, porte real, pinta de beto de Restelo, Estoril ou Cascais, ultra-pintarudo: 'Atão? Temos reunião aqui em baixo?'. E as outras: 'Imagine que esta agora não quer subir...'. E ele: 'Ah essa tem graça, conte-me lá...'. E a beta azeda: 'Disse que não me quer ver. Acha que eu ia?' e as outras: 'E ela a dar... Ouça: esqueça. Venha lá.'. Face ao impasse, o betalindão sacou de um cigarro, fez um sorriso complacente de macho alfa e disse: 'Vocês entendam-se que eu vou até lá fora fumar um cigarro'. 

Entretanto, despachei-me da obtenção da credencial de acesso e subi enquanto o grupinho continuava naquela. Apesar de preocupada, achei um piadão.

São episódios que, mais betice ou mais pobreza, mais tristeza ou mais euforia (porque nem sempre os hospitais são locais de sofrimento, também são locais em que se nasce e em que as famílias vão em festa) pontuam sempre estes locais, fait divers com que podemos sempre distrair-nos das nossas preocupações. Os tais refegos que nem sempre se veem, que nem sempre têm relevância, mas que, de uma maneira ou de outra, fazem parte da vida daqueles locais.

Lembrei-me agora de falar disto pois, com este problema dos jornalistas com salários em atraso, tenho pensado na minha própria experiência como leitora e nas diferentes motivações que me animam quando procuro a imprensa.

Os tempos são outros, não podemos recuar aos tempos da fundação dos brilhantes títulos (DN, JN, etc) nem podemos, sequer, recuar aos tempos a seguir ao 25 de Abril. 

Falo por mim. Já não leio jornais em papel. 

E o jornal que mais leio é o The Guardian. De longe, é o jornal que, para mim, melhor cobre a informação sobre uma variedade alargada de temas que me interessam. E tem boas fotografias, vídeos interessantes. De longe, o que mais me agrada.

Depois, se me apetece a leveza, alguma fofoca, alguns temas sobre moda ou decoração ou culinária, vou para o Madame le Figaro. Há superficialidade, claro, mas há também elegância e diversidade. E também preciso disso na minha vida.

Há outros nos internacionais mas aqueles dois são os primeiros do dia e os que, mesmo quando não tenho tempo ou cabeça para nada, não passo sem espreitar.

Depois, nos portugueses, percorro, geralmente en passant (até porque, ao não ser assinante, metade não consigo abrir), o Expresso, o Público, o DN. Mas basta ver um que os outros geralmente não diferem muito. Um que agora gosto de espreitar é o CM. Desgraças e parvoíces. Mas acho uma certa graça pois há ali muito do submundo que tem muito da vida real, a vida que se vê nos hospitais públicos, nos locais onde a vida se pode ver despida de selfies e instagrams. Como também não consigo abrir os conteúdos pagos, não consigo ir ao detalhe. Mas fico estupefacta com os que se matam, se esfaqueiam, os que desaparecem, gente que vive anonimamente até que um dia vai parar a uma morgue, um homem de 180 kg que teve que ser retirado pela janela, por bombeiros, uma igreja à venda numa cidade. Coisas assim. Não leio artigos de opinião nem notícias que envolvam política ou coisa do género. Ainda assim, pasmo comigo mesmo. Mas sinto que tenho que conhecer melhor este mundo que é bem paralelo em relação àquele que frequento.

Fazendo agulha para o tema do momento, a crise mediática de momento. Lamentando muito o que está a passar-se com os trabalhadores do Global Media Group, tenho que dizer que, nos tempos que correm, ou há qualidade, diversidade, diferenciação ou não vale a pena. Não reconheço isso no DN e o JN nunca frequentei. A TSF foi durante muito tempo uma rádio de referência. Com a saída de Fernando Alves desapareceu a minha principal ligação à TSF.

Agora um aspecto quero referir: o que está mal, muito mal nisto é que empresas e marcas importantes sejam vendidas, quase às cegas, a fundos que ninguém conhece e que nada têm a ver com as empresas que compram, que estão ali apenas para ganhar dinheiro, seja por vender edifícios seja por dispensar pessoas, reduzindo custos, seja pelo que for e não para desenvolver o negócio. Depois de tantos exemplos nefastos de fundos opacos com capitais em offshores, como se explica que ainda se continuem a fazer negócios destes sem que nenhuma entidade valide previamente a lisura, a transparência, a legitimidade, o cumprimento fiscal, etc?

Penso que nada há a fazer, a nível público, para salvar estas empresas pois, a salvar estas, ter-se-ia que salvar todas as outras de qualquer outro sector, e não vejo que nem o DN, nem o JN, ou a TSF ou as outras do grupo sejam estratégicas para o país. Penso que o que há a fazer é apenas, e não é pouco, obrigar os accionistas e os gestores a cumprir a lei,  caindo a pés juntos sobre os prevaricadores.

Mas, caraças, que sirva de exemplo para:

 1- Negócios futuros, seja em que âmbito for. Tudo deve ser escrutinado antes de qualquer operação se concretizar,

 2 - Para o jornalismo que compreende que tem que se reinventar e apostar na qualidade e na diferenciação, senão inevitavelmente soçobrará.

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Desejo-vos um bom dia

Saúde. Alegria. Paz.

segunda-feira, junho 14, 2021

Rogério Casanova ao lado da Joana Amaral Dias...? Não...

 

O meu domingo foi francamente descansado. Dormi bastante. 

De manhã, voltei ao viveiro. O meu marido protesta, aborrece-se, não quer mais flores, diz que depois não se dá conta de regar mas, ou porque acha que não vale a pena alimentar uma guerra comigo por isso ou porque começa a gostar de flores e da tranquilidade e beleza que nos trazem, acabou por não protestar demasiado quando me viu a escolher vasinhos. 

E trouxe uma taça para colocar uma florzinha que a minha me trouxe, uma kalanchoe, à qual juntei uma que eu cá tinha. Não parece mas é uma suculenta. Está, pois, junto às outras. É o meu jardinzinho de suculentas. No outro dia, o mais pequeno quando ia a sair pediu para ir ver as flores. Fiquei contente. Gosto que gostem do que eu gosto.

Hoje não fui descansar lá para fora. Depois de almoço, sentei-me no cadeirão relax ali de cima e fui pôr-me a ler o Desamigados do Mega Ferreira. Apesar de ter acordado tarde, voltei a adormecer. Dormi um bom bocado. Senti-me muito bem depois de acordar.

Depois, voltei a ler.

A seguir, fomos apanhar terra e areia. O jarrão grande de terracota que trouxe da copa da outra casa e que aqui está no terraço debaixo do alpendre tinha uns girassóis artificiais. Bonitos mas artificiais. A minha filha protestou, achou que não tinham ali cabimento. Concordei. Os girassóis foram para a estufa da horta. 

E hoje enchemos o jarrão com pedras, uma altura razoável (porque não tem furo para escorrer a água), depois areia e um pouco de terra. E, na abertura, coloquei uma echeveria. Gostava que vingasse pois teria tudo para ficar muito bem.

No portão da cozinha pendurei outros vasinhos. O meu marido também protesta, diz que vou entortar o portão. Espero que não. Mas, enquanto entorta e não entorta, está uma graça. A ver se amanhã tenho disposição para fotografar.

Também posso dizer que ando preguiçosa para notícias. Pouca coisa me interessa e na televisão também pouca coisa me desperta atenção. Este domingo vi o Got Talent. Há pessoas muito talentosas e muito trabalhadoras. E isso parece-me digno de registo.

Agora, antes de desligar o computador, por via das dúvidas, lembrei-me de abrir o Diário de Notícias para conferir que nada de mais tinha acontecido.

E fiquei chocada com a companhia em que puseram o Rogério Casanova. Tudo se abandalha, se desvaloriza. A cedência ao populismo é como uma lava de lama que tudo vai invadindo, um perigo. 

Ao lado dele, como cronista do DN,  eis que agora aparece a Joana Amaral Dias. Fiquei chocada. 

A que propósito é que o DN contrata uma pessoa desqualificada, desavergonhada como ela? Que ideias tem ela que leve um órgão de comunicação social como o DN (e é também a TVI que a contrata, não é? Ou o Correio da Manhã?) a contratá-la? É fútil, é oca, é malcriada, é insuportável, é pouco inteligente, é uma vulgar exibicionista. 

E agora põem-na ao lado do Rogério Casanova que, apesar de híbrido, bissexto e excêntrico, é uma pessoa culta e interessante, que escreve bem. É um desrespeito para o Casanova. E para os leitores.

Só para perceber o que a criatura faz, abri a sua crónica. Vi por alto pois de porcaria assim a gente deve guardar higiénica distância.

E é por coisas assim que me vou afastando dos jornais, da televisão, do lixo que vai tomando conta do que em tempos se dizia ser de referência.

O que vai ser preciso para que voltemos a ter jornais limpos e inteiros, televisões dignas? Que deixemos ir à falência os que hoje existem...? Se calhar, é. O pior são as pessoas decentes que lá trabalham e que, certamente, têm que engolir muito do seu orgulho maltratado, para sobreviver e que, se houver uma falência, ainda mais sofrerão.

Só se aparecerem empresários decentes que se cheguem à frente e, contra tudo e contra todos, tentem fazer um trabalho digno. Se não for assim não sei como vai ser isto -- certamente, uma crescente e colectiva pobreza de espírito. E, para os verdadeiros e impolutos profissionais, uma permanente e impiedosa humilhação. Que horror, isto.

sábado, julho 18, 2020

Jorge Jesus, Cristina Ferreira, Ferreira Fernandes - começou a época das transferências e, ao mesmo tempo, a silly season





Jorge Jesus vai e vem, faz e desfaz, salta de clube em clube, é aplaudido e vaiado, sai em ombros ou ao estalo, passa de rival em rival, atravessando a segunda circular ou o atlântico, dancing for money e cagando para o resto. Pelo caminho vai abichando uns milhões. Não há cá amor à camisola, conversa mais fajuta, há é profissionalismo. E os $$$$$ a crescerem na conta bancária (nas muitas contas bancárias) e quem o achar traidor que pense duas vezes: quem trai traidor deve ser como o ladrão que rouba ao ladrão, mil anos de perdão. E nham-nham-nham, rebenta o balão. (O balão do pastilhão, bem entendido)


Cristina Ferreira, outra caga-milhões, salta da TVI para a SIC e na SIC é recebida em ombros, deitam-se no chão para ela saltar em cima, o pastor Rodrigo fecha o noticiário com 'o país, o mundo e o bolo da mãe da Cristina Ferreira' e as engraxadoras da Arrastadeira Vermelha lambem as botas e os próprios pés da Cristina, e a Cristina guincha e escaganifa-se com risinhos escaganifobéticos e toda a gente aplaude, e vai aos globos de ouro armada em nossa senhora de fátima e toda a gente ajoelha e agora, sem mais nem ontem, a dita Cristina, santinha no altar das vaidades, caga de alto para os devotos da SIC e baldeia-se outra vez para a TVI. Cristina e Jorge Jesus, grandes profissionais do espectáculo e da carteira recheada. Diz que vai agora para accionista. Quem a venerou, babando-se enquanto a venerava, que vai agora dizer? (Pergunta retórica esta minha). 

E, provando e reprovando que abriu a época das transferências, eis que me cai o queixo ao chão. Na mesma onda dos anteriores, dou com mais uma troca-sensação. Ferreira Fernandes, ex-Público bandeou-se para o Diário de Notícias onde chegou a Director. E se eu gosto de lê-lo, caraças. Pois bem, bandeou-se outra vez para o Público. Faz sentido? Eu diria que não. Mas a minha segunda consciência diz-me: 'Define sentido'. Não sei. Dou-me uma segunda oportunidade: 'Define faz sentido'. Mas também não sei definir pelo que, na volta, isso de 'fazer sentido' não existe. Portanto, trocas e baldrocas é o que está a dar e que se fornique essa coisa do sentido. E eu, que não gostaria nada de estar a servir o FF na mesma travessa em que apresento o JJ e a CF, face às insólitas circunstâncias, vejo-me forçada a fazê-lo. Ele há coisas.

Depois disto, só falta o Durão Barroso, esse perfeito-nulo, porteiro das Lajes, nos aparecer como grande educador da classe operária, liderando o MRPP,  ou o Ventura, esse pintarolas manhoso, aparecer no PSD de braço dado com o Passos Coelho, esse grande estadista que, apesar de só ter feito merda, agora por aí anda ao colo de tudo o que é burro neste país e, para cerejar o topo do bolo, nos aparecer o Carlos Costa, essa mítica figura que esteve cega, surda e muda enquanto o sistema financeiro ruía, como gestor de offshores. 

Não sei porquê mas parece que só me apetece exclamar: Eh Lecas.

Tirando isto... que mais?

Quarenta e tal graus por aqui, uma temperatura desumana. Deve ser isso. Estas temperaturas de assar pimentos ao sol estão a virar as casacas do avesso, estão a virar frangos às cegas, estão a fazer cambalhotear as mais gradas figuras desta grande nação.

Eu própria tenho que pensar bem. Qualquer dia destes, se a coisa é pegajosa como o corona, ainda pego a pandemia e ainda vos apareço a assinar posts aí num outro blog, num daqueles que vos deixaria de cara à banda: What?! Esta aqui?!?! Não... Não é possível...

 Ah pois não, violão.

E vai daqui um beijinho para vocêzes. Com máscara, claro, que eu, noblesse oblige, com isto do corona, não facilito.


Um bom sábado. 

(E bebei água com farturinha, está bem?)

domingo, abril 12, 2020

O quanto lhes devemos





Nunca como antes ficou tão evidente o quanto todos precisamos de todos e o quão importantes -- e vitais -- são algumas das profissões de que tanto nos esquecemos ou que tão arrogantemente menosprezamos.

Se uma grande parte de nós pode estar confinada, protegida de contágios, trabalhando em casa, uma outra parte tem que continuar a sair todos os dias para manter os serviços essenciais a funcionar e para garantir que a cadeia de abastecimento não se interrompa, vencendo o medo, correndo riscos, muitas vezes separando-se da família. 

Claro que, desde logo, obviamente, os profissionais de saúde -- embora desses talvez não se possa falar tanto em baixos ordenados (pelo menos, de forma generalizada) mas em que, tema de cifrões à parte, o que há a enaltecer agora é a dedicação, a entrega, a superação que os leva a enfrentar o risco de peito feito -- mas, também, os técnicos que mantêm os equipamentos operacionais e os auxiliares, os bombeiros, os funcionários dos lares e residências de terceira idade.

E, uma vez mais, refiro também os que trabalham nas empresas de águas, nas empresas de electricidade, nos operadores de comunicações, os camionistas, os que se ocupam da recolha de lixo, os empregados dos supermercados, os agentes de segurança, os farmacêuticos, os motoristas de transportes públicos, os carteiros, os operários fabris cujas fábricas ainda laboram, os entregadores de tudo, os donos e empregados de pequenas mercearias, e tantos, tantos outros. 

A todos esses nunca agradeceremos o suficiente. E seria bom que a nossa memória, que é fútil e fugidia, nunca os esquecesse. Devemos-lhes tanto. 

Uma parte significativa das pessoas infectadas pelo corona serão, certamente, pessoas com essas profissões. Só ligados à Saúde, se bem registei, serão mais de mil e quinhentos os que já foram infectados.

Para nós que, quando vamos ao supermercado, chegamos a casa e nos lavamos e relavamos e que temos mil cuidados com as coisas que trouxémos (e fazemos bem), imagine-se os riscos que as pessoas que circulam, que lidam sabe-se lá com quem, com  o quê, correm. E, no entanto, todos os dias têm que fazer frente à inquietação e ir à luta.

Não sou moralista e detesto a caça aos culpados de cada vez que acontece alguma coisa. Mas esta situação da covid que, à primeira vista, parecia uma treta sem relevância, um corona como tantos outros, uma cagada em três actos, veio a revelar-se a gota de água que fez transbordar o desconchavo que é este mundo. Os países paralisados, as ruas desertas, as lojas fechadas, as escolas vazias, silenciosas, grande parte das fábricas paradas, alguns países a deixarem morrer ao abandono os seus mais velhos ou os mais pobres, mortos a serem deixados à espera de vaga na morgue, enrolados em plástico ou enfiados em caixões de cartão ou enterrados em valas comuns -- tudo coisas impensáveis nestes tempos que julgávamos de abundância, nestes tempos que julgávamos civilizados.
[E isto também já para não falar numa coisa de que um dia iremos perceber o alcance mas que, para já, não é tema para aqui chamado: em toda a linha da satisfação das necessidades vitais, equipamentos e tecnologia chinesa. Em tempo de guerra não se limpam armas e, estando em causa a vida humana, a nacionalidade das armas e munições é secundária. Mas é tema a que, quando estivermos saudáveis e fortes, a viver uma vida normal, certamente haveremos de voltar.] 
Para concluir, que hoje não me sinto de muita conversa: um dia que tenhamos que voltar à normalidade, à 'nova normalidade', certos de que ainda corremos riscos -- conscientes de que são sempre muitos os riscos que corremos porque essa é a nossa natureza, frágil, efémera, vulnerável  -- tendo que vencer o medo, é bom que nos lembremos de quem nunca pôde estar resguardado, de quem, todos os dias, venceu o medo para que nós, os fantásticos e os melhores do mundo, pudéssemos estar resguardados.

Embora por melhores palavras, é também isto que diz Emily Maitlis.

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Já depois de ter escrito isto, vi no DN que também o Pedro Marques Lopes fala no tema:
A menos democrática das crises

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Antes de começar o post, vinha para falar do meu dia -- que foi de trabalho de manhã e tranquilo à tarde, ao sol e entre passarinhos -- mas, não sei porquê, comecei a pensar no dia em que vamos sair da hibernação... e derivei para isto. Não nos vai ser fácil, imagino. O mundo que conhecíamos deverá, então, parecer-nos estranho. Deve parecer-nos pouco seguro. Depois, dei por mim a pensar outra vez nas pessoas que continuam a dar o corpo às balas enquanto os outros, como eu, se confinam, tudo fazendo (e bem) para quebrar os elos de propagação do vírus. Não sei como faremos para agradecermos a essas corajosas pessoas e, sobretudo, para que passemos a tratá-las com o respeito que lhes é devido.

Claro que não devia aperaltar o texto com macacadas, pinturas ou esculturas com máscaras,  mas é que acho que não vale a pena pôr um ar ensimesmado para falar de coisas sérias. E, de resto, andarmos com máscaras vai ser o que nos espera nos próximos tempos. E também sinto que deveria ter esperado por um texto mais adequado para aqui partilhar o Moving On pelo Leonard Cohen. Mas, na volta, não bato certo e o que melhor se me ajusta são coisas que pouco têm a ver umas com as outras. Seja como for, peço que também vejam o vídeo do Moving on, tão bonito.

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A quem atribua um sentido religioso ao dia, desejo que esta Páscoa traga a esperança que a ressurreição significa.

A todos, desejo força para lutarmos todos, juntos, por um mundo melhor, por uma vida mais feliz.

domingo, março 31, 2019

Uma grande, corajosa e sentida crónica de Ferreira Fernandes





Na altura disse-o e hoje volto a referi-lo. O futebol, tal como muitos outros espectáculos, vivem muito de patrocínios. Um patrocínio consiste geralmente em uma empresa contribuir financeiramente através de pagamento de utilização de espaços para publicidade ou através do financiamento de eventos em que usa a ocasião para se publicitar. Geralmente compra bilhetes para os espectáculos ou tem camarotes. Quando compra bilhetes, 'cadeiras' ou camarotes está a garantir receita de bilheteira. E depois, tendo esses bilhetes disponíveis, a empresa financiadora oferece-os a quem quer: a clientes, fornecedores, colaboradores, familiares de colaboradores, gente conhecida. 

E isto é o normal. As empresas para que tenho trabalhado costumam patrocinar eventos ou clubes. Por isso, poderia ususfruir. Como sou um bocado bicho de mato não costumo aproveitar mas já tenho usado ingressos que me estariam destinados para os meus filhos e amigos. E muitos colegas meus assistem regularmente a desafios de futebol ou espectáculos desta maneira.

Não há nisto corrupção, não há nada de mal.


Se os clubes de futebol, os concertos, os espectáculos de qualquer tipo não tiverem patrocínios dificilmente se aguentam. E, como se pode facilmente perceber, se os patrocinadores não arranjarem quem dê uso aos ingressos que adquirem ficará desagradável ver os lugares vazios.

E vem isto a propósito de um absurdo que há tempos aconteceu e que enlameou estupidamente três pessoas honestas.

Os jornalistas que estão carecas de saber disto, com a falta de escrúpulos que caracteriza tantos, passaram por cima disso pois querem é arranjar títulos e polémicas. E a 'malta', que vai atrás de todos os ossos que são atirados para a via pública, logo desatou a ladrar, a morder, a querer despedaçar. A 'malta' gosta de pisar quem vai ao chão, a 'malta' gosta de sangue, em especial do sangue daqueles que acha que são 'poderosos' -- como se trabalhar num governo fosse a mesma coisa que pertencer a um gang de ladrões.


E vem isto a propósito de uma das pessoas honestas que foram vítimas da sacanagem que com eles fizeram: João Vasconcelos, que morreu esta semana e sobre quem Ferreira Fernandes escreveu no DN a crónica que abaixo transcrevo quase na íntegra.



Eu escrevo, assim: "João Vasconcelos, ex-secretário de Estado da Indústria, morreu." Primeiro, o nome do homem extraordinário, para que se saiba logo a extensão da perda; e, de seguida, nunca escondendo a palavrinha fundamental que deixei escrita na frase do meu anúncio: ex. É, temos de pensar na palavrinha.
Ex, pois. Quando o João Vasconcelos morreu aos 43 anos, nesta semana, era um ex há quase dois anos. Evidentemente, não para os seus, nem para os que profissionalmente continuavam a beneficiar da sua inteligência e rasgo. Mas uma crónica de jornal é dirigida para o público e, oficialmente para os portugueses, ele estava assim: ex. E quem perdia com isso eram os portugueses.
João Vasconcelos governou-nos, deixara de nos governar e dificilmente haveria um governo que voltasse a interpelar os portugueses sobre a tentação de o trazer para o natural lugar dele: querem voltar a tê-lo como ministro? 
Já perdemos a noção da diferença entre um escândalo e um escândalo fátuo. Em havendo canzoada, vergamo-nos. "Eh pá, ele teve aquele problema... - Mas qual problema?... - Sim, sim, eu sei, não foi bem problema, mas..."
Enfim, mas. Esse argumento definitivo a que se vergam as sociedades assustadas pelo coro com os escândalos verdadeiros, os assim-assim, os nem por isso... Então, ele já era um ex-político quando morreu. Infelizmente para nós todos, o que nos remete para a obrigação de pensar a causa e o efeito da tal palavrinha, ex.
João Vasconcelos tornou-se um ex-governante por causa de um bilhete de futebol para jogo do Campeonato Europeu de Futebol. Ele e mais dois secretários de Estado aceitaram um convite para um jogo e a viagem em voo fretado pela empresa patrocinadora da Federação Portuguesa de Futebol, a Galp. Fez-se um caso, os secretários de Estado ainda pagaram as despesas de que beneficiaram, mas abriu-se um inquérito, eles foram constituídos arguidos, demitiram-se. O Ministério Público abandonou o assunto e uma juíza quer prossegui-lo. Em todo o caso, para o que diz respeito à nossa perda, era isto quando ele morreu: João Vasconcelos, ex-governante.
Os jornais chamaram Galpgate ao caso, os jornalistas nem foram admoestados por falta de imaginação nos títulos (o que é um erro profissional?), os diretores dos jornalistas não foram incomodados por terem ido com os mesmos bilhetes grátis (a hipocrisia é um erro moral, e então?), e o segundo político mais famoso comentador político desta vez não comentou, pois fora visto nesse verão de 2016, indo e vindo a Paris, com os seus habituais cachecol e bilhete de borla... Mas o facto foi: João Vasconcelos saiu definitivamente da coisa pública, passou a ex.
(...)
Mas o que aqui me traz, mesmo, é sublinhar a defesa do nosso interesse. O nosso, o de todos - lembrar como a histeria do patrulhamento leva, por razões fúteis, a perdermos os melhores. A modernização da indústria portuguesa, a evolução industrial da digitalização, o regresso dos nossos jovens mais qualificados - e nem meto siglas para impressionar, Web Summit, Startup Portugal, Indústria 4.0, porque não quero impressionar, quero que sintam a perda - enfim, expulsámos da nossa empresa, Portugal, o político João Vasconcelos, por causa de um bilhete de futebol. Não se entende. Pensem no tamanho desperdício de João Vasconcelos não nos ter governado nos derradeiros dois anos da sua já de si curta vida.
Nos últimos meses, conheci-o pessoalmente. O interesse era todo meu e, confesso, cronista da espuma das coisas com que construí a minha carreira, ele atraiu-me pela dimensão do "não se entende" como o Portugal político (metam políticos nisso, mas sobretudo a canzoada popular, incluindo a manhosamente organizada) o desperdiçou. Acontece que nos últimos tempos, porque diretor de um jornal, isto é de uma indústria de tão dramático presente e ainda mais de futuro promissor, precisei dele. Sabem? Paguei-lhe dois almoços e, confirmou-se a frase feita, não foram grátis. Fiquei a dever-lhe uma fortuna: fiquei ambicioso quando já não me pensava virado para aí.
O João Vasconcelos falou-me do pequeno e ágil, do bem feito e do ousado. Do mundo que nos espera, quanto mais cedo soubermos melhor. Tinha a cara de boxeur como a imagem das luvas com que um dia posou. A última vez que o vi, passou montado na ironia: uma trotineta que anunciava à Galp que ela tem de se reinventar... E, numa destas manhãs, quando soube, no que pensei, mas logo, foi logo, em mim: perdi-o. Calculem agora o que Portugal perdeu.

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Se calhar não faz sentido, num texto destes, estar aqui a colocar cantorias, cerejeiras em flor ou bailados mas eu gosto de aqui ter cor, música, voos e não creio que isso desvalorize as palavras. Pelo contrário, a minha intenção é que respirem, que, quem as lê, possa fazer pausas, deixar que elas melhor irradiem.


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domingo, março 24, 2019

O humor britânico ao serviço do Brexit



Sempre apreciei imenso o divertido fair play britânico e sempre fui entusiasta admiradora das séries de humor que passavam na televisão. 


Agora só não sinto falta disso porque a realidade inglesa ultrapassa a ficção e, em consciência, apenas me coibo um bocado de dizer que tudo aquilo a que se assiste -- por parte da enfarilhada Theresa May que não atina nem por mais uma e pelo tatibitate Corbyn que não foi capaz de se decidir sobre o lado para o qual cair, não dançando nem saindo da pista -- é de gargalhada porque começo a pensar que, por incrível que se possa pensar, ainda há o risco de se atirarem mesmo para o precipício.


Toda esta peripécia do Brexit mostra bem como, impensadamente, na maior ligeireza, um povo pode tomar uma decisão parva e, com isso, se pode não apenas ridicularizar perante o mundo como, sobretudo, pôr o reino em sério risco de grave e descontrolada convulsão social e económica -- e, mais: sem que a Rainha se mexa.


Se a monarquia é isto, então vou ali e já venho. Perante o carnaval macaco com que o poder britânico brinda o mundo, da realeza nem um pio.

Continuam a aguardar a chegada de mais um bebé real,  certamente tremendo que o desbocado pai ou a pérfida irmã de Meghan saiam de novo à cena, e continuam com as suas visitinhas, a Rainha com as suas toilettes coloridas e os seus adoráveis chapelinhos, Kate sempre elegante e sorridente, os príncipes sempre simpáticos como a sua simpática e eterna mãe e o eterno-putativo rei Carlos com a sua bem amada Camilla de férias, ambos sempre naquela boa onda, fotografados em fato de banho, numa praia nas Caraíbas.

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Hoje, quando passei os olhos pelo DN, tive esperança que, por ser sábado, a crónica do grande Ferreira Fernandes estivesse aberta. E fui lendo:

Conhecem a última anedota do Brexit?


Quando uma anedota é uma anedota merece ser tratada como piada. E se a tal anedota ocupa um importante cargo histórico não pode ser levada a sério lá porque anda com sapatos de tigresa. Então, se a sua morada oficial é em Downing Street, o nome da rua - "Downing", que traduzido diz "cai, desaba, vai para o galheiro..." - vale como atual e certeira análise política. Tal endereço, tal país. Também o número da porta de Downing Street, o "10", serve hoje para fazer interpretações políticas. Se o algarismo 1 é pela função, mora lá a primeira-ministra, o algarismo 0 qualifica a atual inquilina. Para ser mais exato: apesar de ela ser conservadora, trata-se de um zero à esquerda. Resumindo, o que dizer de uma poderosa governante que se expõe ao desprezo quotidiano do carteiro?

No Brexit rir não é o melhor remédio. É o único remédio. Ah, como seria lindo ver o John Cleese, de chapéu de coco, casaco e colete escuros, calças cinzentas - enfim, um funcionário british como já não os há - e com aquele andar de quem trabalha no Ministério dos Passos Esquisitos! Bastaria um dos brilhantes e bizarros Monty Python andar atrás de Theresa May, nas tristes e bizarras andanças dela nos últimos três anos, para se confirmar que o programa inteiro da política inglesa são passos esquisitos. (...)

[E a partir daqui só com assinatura que não tenho. ]

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E, portanto, à falta da crónica completa do FF e à falta dos Monty Python ou do Little Britain, tenho que me contentar com imagens da mega manif deste sábado em Londres:

Put it to the people














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You shall not pass, Brexit




E ti-jaei

terça-feira, novembro 20, 2018

Uma situação horrível


© Pedro Rocha/Global Imagens

Já o vi vezes sem conta. Intrigava-me, parecia-me sempre o mesmo mas pensava que era impressão minha. Podia lá ser? Fotografei-o várias vezes para tentar tirar a prova dos nove. Mas, pelo meio, esquecia-me. Barcos no Tejo é o que não falta. E petroleiros são petroleiros, pensava. 

Mas eis que leio a sua história. O Rio Arauca afinal está mesmo parado no rio há mais de uma ano. Lá dentro pessoas que de lá não podem sair. Uma situação aterradora. Vão levar-lhes mantimentos e eles ali, cidade à vista -- e, no entanto, lá confinados. 

Em vidas anteriores, lidei com navios. Por vezes aconteciam casos mais complicados que agentes e autoridades logo se apressavam a tratar, evitando crises complicadas já para não falar nos gastos que as sobrestadias sempre implicam. Mas nunca por nunca soube de um caso que se parecesse com um drama destes.

Leio que estão sem agente. Entregues à sua sorte.

Transcrevo apenas um pequeno excerto do artigo O que faz um petroleiro parado no meio do Tejo há mais de um ano? do Diário de Notícias:
"Em outubro de 2017 essa dívida foi paga e o navio teve autorização para sair de Lisboa, mas não o fez", diz a Administração do Porto de Lisboa (APL). "Provavelmente por falta de fundos da Venezuela, que não tinha crude nem dinheiro para pôr o navio em marcha." Então o Rio Arauca ficou estacionado no Tejo, o que lhe criou um segundo problema. E um segundo arresto.
Por cada dia de estadia em porto os navios têm de pagar uma taxa, que no caso de um Suezmax é superior a 20 mil euros. A dívida do Rio Arauca ao Porto de Lisboa ultrapassa neste momento um milhão de euros - e agrava-se a cada dia. A APL recorreu por isso ao Tribunal Marítimo, o navio voltou a ser arrestado e o processo está em segredo de justiça. O DN contactou o embaixador venezuelano em Lisboa, Lucas Rincón Romero, e o representante legal do navio, o advogado Tiago Dias Carlos, para perceber se havia alguma perspetiva da saída do navio do meio do Tejo. Nenhum deles respondeu.
No dia em que entrou pela primeira vez no porto, o agente de navegação do navio - a Navex - demitiu-se do cargo. Oficialmente, o Rio Arauca não tem agente oficial que trate da rendição dos homens, dos abastecimentos ou dos processos de desembarque com o SEF. A APL diz que uma outra empresa, a Orey Shipping, assumiu estes encargos por uma questão humanitária e contratou a Knudsen para que a tripulação do petroleiro não se veja isolada.
Sugiro que conheçam esta situação incrível. O artigo relata uma história que um dia destes vai estar em filme e aí toda a gente prestará atenção. Enquanto a situação é apenas real, não interessa. Estes desgraçados estão há mais de um ano a viver este drama e só agora soubemos disto.  

Bom trabalho o do DN. O jornalismo, de vez em quando, sabe mostrar como a comunicação social é importante. Já agora: o noticiário da noite da TVI à segunda-feira também é diferente: Miguel Sousa Tavares veste a sua pele de jornalista e responsabiliza-se pela sua edição. Vale a pena ver.

quinta-feira, agosto 16, 2018

Os uritrottoirs que estão a fazer estalar a polémica em Paris.
E Avital e Nimrod, o gay e a queer que não se entenderam com as suas comunicações exuberantes e exageradas


Pois muito bem, sim senhores. Agora que já jantei um caldinho de se lhe tirar o chapéu e que já relatei a minha ida à praia, relato esse devidamente ornamentado com os cromos possíveis, passo para as notícias que se destacam na actualidade estivalense. Claro está que vou fazer descer o oblívio sobre temas mais sérios ou pungentes. Por exemplo, recuso-me a falar sobre a queda da ponte de Génova. Não apenas não percebo patavina de engenharia civil como presumo que possa lá ter passado não há muito tempo e, sobretudo, é das cidades que mais me impressionou quando a conheci.

Estamos a meio de Agosto, estou a precisar de férias e a minha vida agitou-se numa altura em que seria suposto navegar em águas paradas. Portanto, cansada, encalorada e levemente saturada, a minha capacidade para abarcar temas mais complexos anda na vizinhança da linha de água.

Deve, pois, ser por isso que, de entre tudo o que se passa pelo mundo, Portugal incluído, só duas notícias chamaram a minha atenção.

1ª - Uritrottoirs


Primeiro, a cena que inventaram para ver se as ruas de Paris deixam de ser um mictório a céu aberto. Talvez a moda pegue e venha a ser adoptada também por cá. Se até há algum tempo era raro ver-se algum homem a urinar em público e apenas víamos homens que, aflitos, procuravam um canto -- admitindo nós (eu, pelo menos, admitia) que fosse alguém com algum problema na próstata -- agora, volta e meia, vejo um qualquer descarado, na maior descontracção, a urinar num lugar que não lembra ao diabo, indiferente a quem passa. 

Mas volto à cidade luz. Não sei se por haver poucas casas de banho públicas ou porque grande parte de quem anda em Paris é gente a passeio e, portanto, que passa parte do dia na rua, a verdade é que Paris enfrenta o problema da falta de higiene, de falta de decoro, de falta de civismo. Pois bem. A ideia é daquelas em que, notoriamente, se não os vences, junta-te a eles. Inventaram urinóis no meio da rua. Têm um desenho moderno, têm flores em cima e, no interior, têm palha que, pelos vistos, absorve o pivete. A palha ensopada é misturada na terra que, assim enriquecida, fica adubada. Só ecologia. Mas também tecnologia: os urinóis estão sensorizados de modo a que, quando estão cheios, é enviado um alerta para que venham esvaziá-los.

Aparentemente uma ideia razoável. No entanto, a polémica estalou e, vendo bem, com montes de razão. Em primeiro lugar: só os homens é que são mijões? Então e solução para as mulheres? Em segundo: e quem garante que isto não é chamariz para exibicionistas?

Defendem-se os autores da ideia: o problema que sempre existiu era com homens, não é costume verem-se mulheres, acocoradas pelos cantos, a fazerem xixi. Sabido é que as mulheres são mais reservadas, preferem aliviar a consciência, a bexiga e tudo o mais com alguma privacidade. Dizem ainda que pode não ser uma ideia à prova de defeito mas que mais vale assim do que paredes e passeios sujos e mal cheirosos.

E eu, sobre isto, o que tenho a dizer é que me parece um despropósito. Ao menos que tivesse umas palas de lado porque ninguém tem que dar de caras com uma cena destas, um mijão em pleno acto. Mas, se isto ajuda os homens que não conseguem conter-se, então, olhem, paciência, que seja.

2ª Avital Ronell e Nimrod Reitman numa versão estapafúrdia do #MeToo


Aqui a coisa é toda ela amalucada ou, pelo menos, assim me parece. Transcrevo excertos do DN.

Avital Ronell é uma conhecida professora universitária, filósofa e feminista. Ensina Literatura Alemã Comparada e foi numa pós-graduação que teve como aluno Nimrod Reitman, o estudante que a acusou de assédio sexual. A Universidade de Nova Iorque (UNI) investigou e, ao fim de 11 meses, concluiu que ele tinha razão e suspendeu a docente.

Reitman, que tem agora 34 anos e é professor visitante em Harvard, diz que Ronell o assediou durante três anos, facto que o levou a apresentar queixa dois anos depois de se doutorar. Acrescenta que a docente o beijou e tocou repetidamente, dormiu na cama dele, exigiu que ele se deitasse na cama dela, mandou-lhe mensagens, e-mails e que lhe ligava insistentemente recusando-se a trabalhar com ele se as suas atenções não fossem retribuídas.

Ronell, de 66 anos, nega qualquer tipo de assédio. "As nossas comunicações, que Reitman agora diz terem sido assédio sexual, foram entre dois adultos, um homem gay e uma mulher queer, que partilham a origem israelita, assim como a inclinação para comunicações exuberantes e exageradas decorrentes de experiências e sensibilidades académicas comuns", respondeu ao NYT. Sublinha que as comunicações "foram correspondidas e incentivadas por ele ao longo de três anos". Etc, etc, etc (...)

Ou aqui, no Expresso:

É a hora do nosso beijo do meio-dia. 
A minha imagem durante a meditação: estamos no sofá, a tua cabeça no meu colo, a acariciar a tua testa, brincando suavemente como teu cabelo, acalmando-te, dor de cabeça acaba. Sim?". Se esta mensagem fosse enviada por um professor universitário a uma sua estudante 30 anos mais nova, muita gente não hesitaria em dizer que era um comportamento impróprio. Para mais se o professor tratasse a aluna com termos equivalentes aos que uma distinta professora na NYU, em Nova Iorque, dirigiu a um seu estudante: "Bebé fofinho", "meu adorado", "anjo bebé amor", um arriscado "gostava de te poder raptar" e um atrevido "cock-er spaniel" (um trocadilho que mistura uma alusão ao pénis, 'cock', com uma raça de cão"). (...)

A polémica desencadeada pelas feministas em defesa da bizarra Avistal não se fez esperar, com Nemrod a perguntar se o assédio só é para levar a sério se for ao contrário.

E eu, face a isto, o que me ocorre é que este caso deve dar um filme e dos cómicos. Só de imaginar as cenas em que a a Avital perseguiu o Nimrod, o beijou, se enfiou na cama dele e exigiu que ele se enfiasse na cama dela, tudo no maior forrobodó, tudo em exuberante... já me dá vontade de rir. Deve ter sido de gritos. E o facto de ela se vir justificar, dizendo que o que se passou foi o normal entre um gay e uma queer, parece-me ainda mais delicioso. Podia ter-lhes dado para pior, é o que eu tenho a dizer. E isto para não ficar calada.

terça-feira, maio 08, 2018

Fernanda Câncio e a tragédia de Sócrates:
ou quando uma mulher usa a sua condição de jornalista para ajustar contas com o ex-namorado


Faz dois anos escrevi aqui sobre os escritos de Fernanda Câncio sobre Sócrates. Dizia, então, que sentia alguma (genuína) pena dela e aconselhava-a a seguir em frente, não ficando enredada nas memórias e nas justificações face ao que sabia ou deixava de saber sobre o ex-namorado.

É certo que Sócrates congrega ódios e paixões pelo que não me custa a imaginar que uma mulher como Fernanda Câncio, toda ela igualmente temperamental, depois da rotura amorosa, possa ter passado da paixão ao ódio. Mas, lembrava-a eu, nessa altura, há sempre mais vida para além da morte de um relacionamento e que o melhor é seguir com a bola para a frente. Ressentimentos e desejos de vingança nunca foram bons conselheiros.

Ainda há dias voltei a ouvir a divulgação pública de telefonemas seus para Sócrates e imagino como se sente ridícula e arrependida daquelas conversas. Todas as brincadeiras, meiguices ou malandrices são permitidas na intimidade de uma conversa a dois mas, quando expostas fora de contexto, facilmente podem ser apenas patéticas. Eu sentir-me-ia humilhada se fossem minhas aquelas palavras.

Mais: tendo namorado com aquele homem poderoso, carismático e de raciocínio ágil, imagino como se sentiu ela ao descobrir que, afinal, pouco sabia daquele homem. Mais ainda: como mulher, imagine-se a perplexidade ao saber como Sócrates não apenas já estava de namorada nova como também ajudava financeiramente outras mulheres. Facilmente uma mulher que se sente enganada se sente furiosa e com vontade de se vingar. Imagine-se, então, uma mulher como Fernanda -- do que lhe tenho visto, facilmente se transformará numa irascível gata em telhado de zinco quente  pelo que dela tudo se poderá esperar.

Imagino-me, eu, no seu lugar. Imagine-se se, ao ligar a televisão, ouvia a minha voz dengosa falando com ele, querendo convencê-lo a comprar uma casa caríssima, ou ouvia alguém a relembrar as minhas férias com ele, referindo que frequentávamos belíssimos restaurantes, e eu, tonta ingénua, na altura, convencida de que ele nadava em dinheiro. Imagino quão ridícula e parva me sentiria agora, ouvindo isso. Eu a querer uma casa cara e ele a chamar-me à razão, eu, ivozinha infantilóide, a dizer 'buraco és tu...'. Ah, quanta raiva. Como teria podido ser tão burra, tão inconsciente a ponto de não ter percebido nada....? Como? E a ouvir a cumplicidade dele para com a mãe dos filhos.... Ah, quantos ciúmes.

Imagino a mágoa, a incredulidade, a vontade de lhe atirar à cara mil impropérios. 
Então, afinal, não eras rico? Então vivias às custas de um amigo...? Mas onde, à superfície da terra, alguém nos dias de hoje vive às costas de alguém...? Filho da mãe que não confiaste em mim, que não me contaste nada! Um pelintra sem ter onde cair morto e, veja-se bem, armado em bom,  a dispensar pagamentos, como se tudo aquilo fosse dinheiro da mãe ou de empréstimos. Falso, falso! E, se foste falso a esse ponto, quem garante que não foste corrupto e que tudo em ti não é um logro? Alguma vez me amaste? Alguma vez me falaste verdade? Como foste capaz? Como deixaste que eu me expusesse, defendendo-te, quando não passas de um vulgar mentiroso? Odeio-te, odeio-te, odeio-te agora e na hora da tua morte. Safado, sacana, filho da mãe! E eu que gostei tanto de ti... Como pudeste fazer-me isto, Zé...?
E Fernanda, sentindo pena de si própria, as lágrimas escorrendo-lhe no rosto, sentindo a raiva a crescer-lhe dos dentes, varada de ódio e ciúme, não podendo deitar as unhas de fora e arranhá-lo de alto a baixo, atira-se ao computador e, com a força das suas palavras, mentalmente chamando-lhe bandido, aldrabão, sacana da pior espécie, e jurando a pés juntos que nunca mais na vida lhe dirige a palavra e que, se se cruzar com ele, virará a cara e fingirá que não o conhece, vai escrevendo:
(...) Urdiu uma teia de enganos. Mentiu, mentiu e tornou a mentir.
Mentiu ao país, ao seu partido, aos correligionários, aos camaradas, aos amigos. E mentiu tanto e tão bem que conseguiu que muita gente séria não só acreditasse nele como o defendesse, em privado e em público, como alguém que consideravam perseguido e alvo de campanhas de notícias falsas, boatos e assassinato de caráter (que, de resto, para ajudar a mentira a ser segura e atingir profundidade, existiram mesmo). (...)
Chocante, porém não surpreendente. De alguém com uma tal ausência de noção do bem e do mal, que instrumentalizou os melhores sentimentos dos seus próximos e dos seus camaradas e fez da mentira forma de vida não se pode esperar vergonha. Novidade e surpresa seria pedir desculpa; reconhecer o mal que fez. Mas a tragédia dele, que fez nossa, é que é de todo incapaz de se ver.
Fernanda é, ao escrever estas palavras, não uma isenta jornalista, mas uma mulher ferida. Uma mulher que usa o púlpito do Diário de Notícias para ferir José Sócrates tanto quanto ele a feriu a ela. 

E eu, no fundo, tenho pena dela e dele. Estão unidos pela mesma tragédia.


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Cecilia Bartoli interpreta "Sposa son disprezzata" de Vivaldi
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quarta-feira, agosto 23, 2017

A Secretária de Estado Graça Fonseca, em entrevista a Fernanda Câncio no DN, assume a sua homossexualidade.
E eu, no Um Jeito Manso, assumo a minha heterossexualidade.
E a minha miopia e calçar o 37 (e, no caso dos sapatos de modelo apertado, o 38) e o gostar de iscas e de gostar de escrever e ser dextra e mais umas quantas coisas.
So what...?





Logo no Duas ou Três Coisas eu percebi que devia haver coisa. Dignidade e a fotografia da Secretária de Estado Graça Fonseca e mais nada. Já tinha visto a entrevista no DN mas muito por alto. Fui ver com mais atenção. Então era aquilo? Tinha-se assumido publicamente como homossexual e isso era visto como um acto de coragem ou de dignidade. Depois foi o Eduardo Pitta no Da Literatura, escrevendo Honra a Graça Fonseca.  Diz sentir orgulho e agradece-lhe.


E eu fico até um bocado incomodada porque na primeira vez que vejo uma entrevista a esta senhora que exerce funções governativas, e a entrevista até é interessante e ela até parece ser uma mulher consistente nas suas ideias e atitudes, tudo o que ela diz parece ser canibalizado por um facto que é da sua vida pessoal, coisa com que ninguém tem nada a ver e que, de repente, parece a coisa mais importante de tudo.


É como se eu, que escrevo aqui que me desunho, que aqui falo do que gosto e do que não gosto, que ficciono, que mostro fotografias minhas ou alheias, partilho músicas e o escambau, de repente fosse falada apenas porque calhou revelar que calço o 37. Caraças. O que é que o tamanho dos meus pés teria a ver com o que é feito aqui no blog? O blog pode ter piada ou ser uma estucha mas é pelo que é e não pelo facto de eu calçar o 37. O meu pé é o que é, fazer o quê?

Claro que não posso fazer-me de extra-terrestre pois sei que, para muita gente, uma pessoa ser homossexual ainda é um aleijão para o qual se olha de lado. Mais: sei que algumas pessoas que, pela sua natureza, o são não o assumem por receio do estigma social. Mais: sei que essas pessoas, para disfarçarem, são das que mais gozam e mais anedotas contam sobre gays. Mais: sei como se pode passar uma vida inteira a fazer-se de conta que se é hetero, casando, tendo filhos, forjando uma inclinação que notoriamente não é a sua. Sei. Sei e lamento.
É que, caraças, se a pessoa não é capaz de agir de acordo com a sua natureza e estraga toda a sua vida apenas com receio da opinião alheia, que podemos sentir por ela senão pena...?
Claro que ser homossexual é estar em minoria. Mas estar em minoria não significa ser marginal, pôr-se a jeito para ser escorraçado ou gozado, ou ser desprezível. Significa apenas isso mesmo: a maioria das pessoas tem preferência pelo sexo oposto e eles, os homossexuais, uma minoria, preferem parceiros do mesmo sexo. Nada de mais nem de menos. Nada de mal nem de bem. É o que é. 

Sou como sou e não preciso de coragem para me assumir assim mesmo. E isto deveria ser o normal para toda a gente. Gordos, magros, feios, bonitos, cabeludos, carecas, canhotos ou dextros, narigudos ou narizinhos, comilões ou fuinhas, habilidosos de mãos ou uns pés, sorridentes ou carrancudos, brancos ou pretos, homo ou hetero, sensíveis ou calhaus, inteligentes ou broncos -- todos são seres de direitos iguais e todos têm direito a fazer parte, por igual, deste habitat que é o nosso.

Graça Fonseca é homossexual e a verdade é esta: estou-me nas tintas para isso. Que seja competente na sua função é o que me interessa. Quanto ao resto, é lá com ela e que seja feliz. Se a revelação pública da sua orientação sexual for um incentivo para quem viva vidas de mentira, pois tanto melhor. Mas, ora bolas, não nos foquemos na sexualidade das pessoas como se isso fosse o factor principal da sua identidade nem negligenciemos as qualidades que têm, em especial quando exercem funções públicas.


Entretanto, vejo que o assunto saltou para outros jornais e que as redes socias, especialmente as ligadas às comunidades LGBT, estão ao rubro, como quando um elemento de uma agremiação ganha uma medalha e há festa rija. Não sei, não. Olho para estas reacções com algum desconforto. Muitas vezes parece-me que são estas associações que cultivam o gheto ao auto-tratarem-se como pessoas diferentes, com direito a atenção especial. Tal como eu não tenho orgulho em ser hetero, por que raio de carga de água é que um homossexual há-de sentir orgulho em sê-lo? Esforçou-se por isso? É mérito seu? Ou é porque é e porque não pode senão ser -- e ponto final...? 

Tenho uma colega que é lésbica e que, na sua vida pessoal, vive como tal. Profissionalmente nunca o revelou e eu serei das poucas, senão a única, a sabê-lo. É uma excelente profissional e em momento algum me passa pela cabeça que seja relevante ela assumir-se como tal perante os colegas, tal como em momento algum me passa pela cabeça ajuizar o seu desempenho profissional em função da sua orientação sexual. Não faço ideia o que pensará ela deste fuzuê em torno da entrevista da Graça Fonseca. Provavelmente pensa o mesmo que eu, que a Secretária de Estado foi revelar uma coisa sobre a qual ninguém tem nada a ver. Mas imagine-se que lhe dava uma travadinha e, inspirada pela dita Graça Fonseca, aparecia no trabalho a dizer: 'Oi, meus amigos, querem saber a melhor...? Sou lésbica.' Disparate. O que é que a malta lhe haveria de dizer: 'Ah, sim..? Pois, que lhe faça bom proveito'. 


E é isto. Nada mais tenho a dizer. Só que espero que apreciem algumas evidências artísticas de que a homossexualidade existe desde sempre (desde Michelangelo a Courbet, passando por muitos outros, suas as obras estão aí para o testemunhar -- e isto para não descer às profundezas da Grécia Antiga, de Roma e de tutti quanti)

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Olha... desci.
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Sobre os cavalos azuis que passam aqui in heaven falo no post que se segue.

Sobre uma bola de pedra tatuada, falo ainda mais abaixo.

Em ambos os casos falo, de novo, do meu dia como camponesa-lenhadora -- e não só.

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