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sábado, agosto 22, 2020

A casa está quase no ponto. E eu estou nas minhas sete quintas.
Tenho é pena dos pobres americanos. Um presidente que nem sabe ler o teleponto é abaixo de cão, abaixo de palhaço. Ver para crer.



Hoje o dia foi mais tranquilo. Intenso a nível profissional mas, em casa, as coisas começam a aproximar-se da estabilização. 

Tenho a dizer-vos que a estante em gris foncé não é, afinal, tão foncé quanto isso. E até gosto de ver. Claro que talvez fosse preferível toda a sala em clarinho uniforme. Mas não calhou ser. Portanto, olhando como se não fosse ser suposto ser outra coisa -- ter desgostos retroactivos não é apenas inútil: é disparatado --, talvez até se lhe encontre alguma graça.

A salinha-biblioteca está pronta. E, num cantinho, a mesinha onde talvez, um dia, quem sabe, me dê para escrever romances escandalosos, contos eróticos de fazer corar as mentes mais apertadinhas, quiçá, até, histórias quase normais. Também não é a mesa ampla que tinha na minha cabeça. Essa mesa, contudo, existe, está é numa outra sala. Portanto, que não seja pelo tamanho da mesa. Esta a que me refiro é pequenina, só eu e pouco mais do que o espaço para pôr o computador. Acho que vou gostar de estar aqui. É onde está a chaise longue que encanta a minha bonequinha mais linda. É também onde está o armário, disfarçado, onde guardei as minhas maquilhagens, écharpes e bijuterias. Os perfumes, se calhar, também deveriam estar aqui. Coloquei-os no closet mas estou aqui a pensar que, se calhar, vou ter que colocá-los junto das outras coisas imprescindíveis.

Hoje acabámos de colocar os quadros: com a tarefa mais simplificada para os quadros mais leves, com a cabeça e o corpo menos cansados, também já não houve o stress dos outros dias. 

As entrevistas, os ensaios, as crónicas, os diários, as autobiografias e as biografias também já estão arrumados. Alguns deram-me que pensar. O caminhos da floresta do Heidegger deve estar em que estante? Andei ali com ele às voltas sem saber. Ao pé do Walden, acho que sem dúvida, mas os dois ao pé de quê? Natureza? Filosofia? Well being? Lifestyle? [Kidding...]

E depois há um problema nestas arrumações: a gente percebe que esta gente da escrita, da edição e dos grafismos é gente desformatada: cada livro um de seu tamanho, cada um de sua altura e profundidade. Uma pessoa quer ter prateleiras com ar arrumado e uns saem para cima, outros saem para a frente, outros são mínimos e desaparecem na floresta. Devia haver uma norma, um formato standardizado. Que variem nas cores, nos bonecos, no tamanho da letra e, claro, no conteúdo em si, mas, caraças, respeitem um tamanho universal. Será pedir demais?

Volta e meia ocorre-me deixar-me de gaitas e organizar a biblioteca de uma forma mais intuitiva. Por exemplo, fazer uma estante com livros chatos. Outra com livros cada um de seu tamanho, tipo fungagá. Outra com livros que devem ser lidos de vez em quando, devagarinho. Coisa assim. E outra sem nada, livre para acolher os livros que me forem sendo recomendados por pessoas especiais e cujas recomendações sigo cegamente. Por exemplo agora ando com um aqui encasquetado. Mas quando conseguirei ir a uma livraria? Acho que vou ter que me converter às compras online para entrega em casa, seja para estantes, seja para candeeiros, seja para livros. O pior é se, quando o entregarem, ao pegar nele, odeio a paginação, odeio o papel, odeio a escrita, odeio as palavras, as acho deselegantes, escolhidas por quem não sabe que a escrita carece de uma linha de conduta, de um saber pisar e saber estar. Não sei se consigo aderir. Nos livros preciso de abrir, tomar-lhes o pulso, confirmar que é mercadoria fina. 

Enfim.

E, Gata, saiba que me converteu às coisas que colam. Andava sem saber onde pendurar o pano de cozinha e o pano das mãos. Furar azulejos é daquelas que deixaria o meu marido varado. Pois bem. Encontrei uns cabidezinhos simples, autocolantes, perfeitos. Portanto, aos poucos, tudo está a ganhar jeito, a ajustar-se ao meu gosto.

Ainda teremos que ir buscar várias coisas à outra casa: só veio uma panela grande, um panela média e um tachinho pequenino. A ver se amanhã trazemos os demais. De pirex só veio um tabuleiro grande. Coisas assim. E um móvel pequeno que ficou esquecido, onde estavam os livros de culinária. E uma colcha de renda que a minha filha acha que deve fixar bem sobre a que agora tenho posta. Acredito que sim. E faltam os nossos casacos de inverno, parkas, chapéus de chuva, sapatos. Portanto vai ser o que tem acontecido nos últimos tempos: mal a gente pensa que arrumou quase tudo, chega novo carregamento de sacos que é preciso arrumar. Com isto, parece impossível mas praticamente ainda não consegui usufruir do jardim. 

E ainda falta colocar uma série de bibelots. A ver se a minha filha vem completar o décor que eu gosto das composições que ela tem estado a fazer. Ainda hoje dei por mim a passear pela casa, a observar, encantada.

Mas, pronto, aqui estou eu, uma vez mais, a falar do mesmo. E juro que, quando comecei a escrever, ia falar do Trump. A sério. Tinha visto um vídeo do além e era sobre esta degradação intelectual, social, moral e sei lá que mais que levou a que uma nação como os Estados Unidos acabassem desgovernados por um palhaço pulha, narcisista psicopata. Mas a minha cabeça está incontornavelmente presa a este processo de me reinstalar e levou-me outra vez para onde quis, para a minha alegre casinha. Seja como for, aqui está o vídeo:

Fox News Is Right: Any Idiot Can Read Off a Teleprompter | The Daily Show



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Pinturas de Willem de Kooning ao som de Delibes: Lakmé - Duo des fleurs na interpretação de Sabine Devieilhe & Marianne Crebassa

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E saúde e ânimo.

Um sábado feliz.

sábado, maio 09, 2020

Neste novo mundo, os meninos descobrem que também sou outra




Durante quase dois meses a casa estava sempre arrumada. As coisas não mudavam de sítio sozinhas e nós também não as mudávamos. Agora tudo levou uma volta. Melhor: uma permanente reviravolta. Olho à minha volta e tudo se alterou. Pode até nem estar propriamente tudo desarrumado. Simplesmente as coisas mudam de sítio. Os meninos têm aulas, fazem trabalhos, brincam, lancham várias vezes por dia, mudam de poiso, levam as coisas com eles. Há um movimento constante cá em casa. Hoje havia ao mesmo tempo três adultos em videoconferência e dois meninos em aulas remotas, e eles sempre circulando. 

A dada altura a professora dava aula em inglês e ia mandando um e outro desligar o microfone, depois punha-os a fazer trabalhos em grupo mas mandava um estar quieto, outro desligar o microfone, outro que participasse. E eu a ter reunião e a ouvir a minha filha, a ouvir o meu marido, o outro menino a ouvir uma aula. Tempos novos.
Como o mundo mudou tão depressa... Como foi possível que tudo levasse tamanha volta e que nós, em cima de um mundo em reviravolta, nos aguentássemos em pé, alterando o nosso modo de vida de uma maneira tão radical? Custa a perceber. Se um dia por cá aterrasse uma nave espacial e de lá saíssem uns seres esquisitos a dizer que vinham tomar conta da Terra e que ficássemos sossegados como ratos assustados, em três tempos ficaríamos todos enfiados em casa, sem darmos luta, acobardados, manietados. E se a seguir chegassem outros e nos dissessem que cavássemos buracos no chão para nos enfiarmos lá dentro, fá-lo-íamos também. 
E digo isto incluindo-me no grupo dos confinados já que faço parte da grande multidão que recolheu às boxes, que se modificou de uma ponta a outra, que aceitou na boa que nos isolássemos. O medo é o nosso maior inimigo. Ou aliado -- nem sei.
Por vezes, ocorre-me que, na volta, até já apanhei o bicho e já estou imunizada. Mas o esquisito é que também não sei se quero voltar exactamente à vida antiga. Não quero. 
Enfim. Paradoxos.
Adiante.

Hoje estava eu a ter uma reunião, uma daquelas que me tira do sério -- porque a incompetência e a estupidez natural cada vez mais me tiram do sério -- e o menino mais novo, que estava a fazer trabalhos na outra sala, pegou no seu iPad e veio sentar-se à minha mesa, em frente, para me ouvir atentamente. Se eu o encarava, ele sorria e fazia de conta que voltava aos seus trabalhos mas logo a seguir punha-se a olhar para mim com uma atenção admirada. Não conhecia esta minha faceta e dir-se-ia que estava estupefacto. A seguir, o mais crescido, quando a aula acabou, veio sentar-se também e ali ficou, identicamente atento. Presumo que pouco tenham entendido, mas estavam atentos como se não pudessem perder pitada.

Acontece que, quando estou focada, nada me desfoca. Observava-os mas continuei na minha.

Ouvia que, ao lado, na cozinha, a minha filha servia e aquecia a comida. O meu marido também passou por ali, mas ao largo, para ir para a cozinha mas, habituado, não ligou.

Quando acabei, fui logo ter com a minha filha a ver se precisava de alguma coisa. Disse ela: 'Aquilo ali estava complicado...'. E logo a seguir disse aquilo que eu tinha pensado. Aqueles incompetentes apanharam-me pela frente bem como, por sorte, mais três colegas que, em conjunto comigo, fizeram uma barreira de fogo que, espero eu, tenha neutralizado a parvoíce perigosa que estava ali a armar-se. Mas e se, em vez de nós, tivessem apanhado uns verdinhos, daqueles que comem tudo o que lhes dão a comer e que comem e calam? Quantas alarvidades acontecem assim. Falava-se ali que, numa situação destas, se poderiam suprimir não sei quantos fte's aqui, ali mais outros tantos, acolá mais uns quantos. E, para quem não saiba o que são fte's, eu informo: o equivalente a tempo inteiro. Mais concretamente: uma pessoa a tempo inteiro. Isto usa-se porque, por exemplo, se eu disser que aquele empregado está meio dia sem nada que fazer e outro também meio dia, pode dizer-se que ao todo tenho uma pessoa disponível (meia pessoa + meia pessoa) pois posso passar o meio dia de trabalho de uma para a outra. Ficarei com uma ocupada a tempo inteiro (1 fte) e dispenso a outra. 

Mas isto não se pode ver assim. E não vou agora aqui explicar porquê mas dou um exemplo limite para exemplificar que não se pode usar uma lógica redutora: se tenho um director que só tem trabalho para meio dia e um motorista que também só tem ocupação durante meio dia, faço o quê? Corro com o director e ponho o motorista meio dia a ser motorista e a outra metade do dia a ser director? Ou vice versa? Disparates.

Chegam ao fim de um trabalho e gabam-se que têm um plano para 'capturar' 'eficiências', reduzindo custos que nunca mais acabam mas, se formos a espremer, são só disparates. Acresce que a maior parte das eficiências são pessoas que ficariam sem emprego. E até poderia ter mesmo que acontecer. Mas tem que se ter a certeza que é mesmo isso e que não se sacrificam postos de trabalho, poupando de um lado para se gastar mais de outro.

Não há pachorra.

A seguir ao almoço, os meninos pegaram nas suas coisas e vieram, de novo, abancar em volta da minha mesa. Tenho, pois, agora, assistência. Habituados à sua Tá que gosta de fazer comidinhas para os ver a enfardar ou que gosta de lhes dar beijinhos e que arranja sempre maneira de os deixar ser livres, deparam-se agora com uma outra mulher que fala de assuntos diferentes e que se revela surpreendentemente diferente da que conhecem.

Antes de jantar, estava eu a confeccioná-lo e a minha filha a fazer uma óptima sobremesa cuja receita tinha combinado ao telefone com a minha mãe, recebeu ela uma chamada e eu outra. Ambas de trabalho. E então andávamos as duas de telemóvel preso entre a cara e o ombro e a preparar a janta. Pelo meio, um e outro a entrarem e a saírem da cozinha. E isto também é atípico pois eu, habituada desde sempre a barafunda à minha volta, sempre precisei de espaço e sossego quando estava a telefonar. Agora já nem isso. 

Depois de jantar, ligaram os outros meninos. Meus lindos. Gostava tanto que cá estivessem todos. Sinto muita falta de os ter fisicamente todos à minha volta, todos ao mesmo tempo, vê-los a brincarem uns com os outros na maior animação e confusão. 

Felizmente temos agora o fim de semana. Não haverá reuniões, não haverá telefonemas de trabalho, não haverá stresses. Haverá limpezas, descanso, fotografias, convivência. Tão bom.


Se há coisa que me faz passar dos carretos é quando alguém fala em regressar ao trabalho. Regressar ao trabalho? Caraças. Acho que nunca trabalhei tanto. Estou é a precisar de férias.

Portanto, meus Caros, descansem também. E portem-se mal. E tenham um belo sábado. Saúde.

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Mas antes de me ir vou aqui ouvir um poema. Assim como quem bebe um copo. 


[Ah, é verdade: pinturas de Willem de Kooning]