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segunda-feira, janeiro 04, 2016

Postal de amor ao som de Olha o rouxinol




Sentas-te aí a olhar para mim, moço, e eu fico sem jeito, baixo os olhos, recurvo os ombros, passo a mão pelo decote não vá os seios estarem a assomar, e tu olhas, olhar insistente, um meio sorriso e eu sinto-me enrubescer, tenho vontade de dizer 'não olhes, não olhes, por favor, poupa-me que eu não sou forte'. Mas nada te digo, sem fala, eu, que estou tão tomada de amores, que me falta a voz e as palavras e se me esvai o sangue e me falta a respiração e quero cobrir o rosto com a mão, e dizer que não, que não vejas o efeito que produzes em mim, moço, que me fazes virar a cabeça do avesso, que tanta luz me encandeia, ai.

Ai, não faças isso. Porque o fazes? Pára, pára. Ai, ai que me fazes tão mal.
Ai, meu passarinho, meu menino, meu bem, que me encantas, meu passarinho que me olhas como se quisesses ver-me a voar, meu passarinho que isso eu não posso, que voaria às voltas, cairia, tonta, no teu colo. Ai, moço, que me fazes tanto mal.
Mas tu não me ouves. Não percebes a minha inquietação? Não? Não...?

Sentas-te aí e nada dizes. E se eu te perguntar: O que é? Tu vais dizer que Nada.
Nada? Nada, como? -- se me olhas como se quisesses pousada em ti e tu pousado em mim, e como se quisesses levar-me nos teus braços e eu a ti abraçada, ai que me dás volta ao juízo, ai que me viras do avesso quando assim pousas os teus olhos em mim. Ai, moço, ai de mim, ai.
E tu nada dizes, nada dizes.


Mas olha que ouço os teus pensamentos -- tu tem cuidado, moço, olha que eu sei que o teu silêncio é abraço no calor dos lençóis, beijo roubado num recanto de sombra, mão na perna na última fila no cinema.
Mas tu não tens cuidado, tu olhas, olhas, e eu tapo os joelhos, puxo a saia, mas só tenho vontade de a levantar para que me vejas toda, toda, toda só tua. Ai moço. Que é de mim assim, moço?
Sentas-te aí, e, tanto o embaraço que em mim causas que ficas, tu também, embaraçado, amor assim não há igual, amor para o qual não há palavras, amor inocente, amor sem esperança. Já não sorris, só olhas, só olhas e eu já não sei o que fazer, se me levante e te levante e me agarre a ti, ou se me deite no chão e espere que a terra me devore ou se espere que venhas e me cubras, para sempre, para sempre. 

Um dia vou lembrar-me do teu olhar cravado em mim, que ele já está cravado no meu coração, moço. Um dia, vou sentar-me à sombra, ouvindo o canto do rouxinol e os sinos tocando ao longe, vou ler as tuas cartas, passar a mão pelo papel macio onde as tuas palavras desenhavam corações e amores infinitos e vou pensar que, estando tu em silêncio, é do teu canto que eu ainda me lembro, do teu canto doce, do teu canto que escondia o perfume do mar, que guardava a música dos ventos ao longe, que transportava a pureza dos teus sonhos impossíveis. Ai moço, moço, o que fizeste tu comigo?
Ai. Ai, meu amor que te quero tanto, ai meu amor que me queres tanto. 
Não deixes nunca de me olhar. Meu amor. Meu amor.


(Nem te ausentes da minha memória, amor meu, perdição minha).

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Amanhã, de manhã cedo ou à hora de almoço, tentarei publicar o post que tenho praticamente pronto sobre Oppenheimer, o pai da bomba atómica, um texto que se chamará: 'Que consequências têm as nossas acções?' e que aborda a frágil fronteira entre o bem e o mal.

Enquanto, isso não fica disponível, convido-vos a descerem. Não tem nada a ver com a rêverie em forma de postal ou de toada de amor que acabaram de ler mas tem uns vídeos que acho interessantes onde Alberto Manguel fala de alguns escritores bem conhecidos e mostra a sua imensa biblioteca.

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sábado, maio 10, 2014

Nem sequer o amor que os ligava poderia salvá-los, visto que na ausência do mundo até o amor é impotente








À sua volta tudo é de um branco leitoso, não se distingue o chão, nem as paredes, e estas parecem flutuar como espectros na estranha bruma que em breve as engolirá e apagará.





Nós não sabemos de verdade o que são os mundos nem do que depende a sua existência. Algures no universo está acaso inscrita a lei misteriosa que preside à sua génese, ao seu crescimento e ao seu fim. Mas sabemos isto: para que surja um mundo novo, é preciso que, primeiro, morra um mundo antigo. E sabemos também que o intervalo que os separa pode ser infinitamente curto, ou pelo contrário tão longo que os homens têm de aprender durante dezenas de anos a viver na desolação para descobrirem infalivelmente que não são capazes e que no fim de contas não viveram.



Talvez possamos até reconhecer os sinais quase imperceptíveis que anunciam que acaba de desaparecer um mundo, não o silvo dos obuses por sobre as planícies esventradas do Norte, mas o ruído do obturador, que mal perturba a luz vibrante do Verão, a mão esguia e estragada de uma jovem mulher que fecha tudo suavemente, no meio da noite, uma porta sobre o que não deveria ter sido a sua vida, ou a vela quadrangular de um navio que sulca as águas azuis do Mediterrâneo, ao largo de Hipona, trazendo de Roma a inconcebível notícia de que ainda existem homens, mas já não o seu mundo.




Na insignificância das suas pobres presenças humanas quando o chão lhes fugia debaixo dos pés não lhes deixando já outra opção além da de flutuarem como espectros num espaço abstracto e infinito, sem saídas e sem direcções, do qual nem sequer o amor que os ligava poderia salvá-los, visto que na ausência do mundo até o amor é impotente.


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  • O que se lê são excertos do belíssimo livro O sermão sobre a queda de Roma de Jérôme Ferrari da Divina Comédia Editores numa tradução de Pedro Tamen. Este livro ganhou o Prémio Goncourt 2012

  • A música lá em cima é de Gabriel Fauré - Sicilienne, para violoncelo e piano, Op. 78

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Caso, depois disto, vos apeteça estragar tudo e ler sobre debilidades mentais, inconseguimentos fiscais em tempo de saídas apressadas, e sobre fácies que mostram bem a desgraça que lhes vai dentro, (des)aconselho o post seguinte.

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E, por agora, por aqui me fico. Desejo-vos, meus Caros Leitores, um belo sábado.

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