Mostrar mensagens com a etiqueta Partidos. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Partidos. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, abril 28, 2026

Transparência, opacidade, independência, submissão e etc. -- e democracia

 

Não é uma questão de saber se a casa de um político tem elevador e meia dúzia de casas de banho -- e porque será que este exemplo, como diria o Montenegro, se aplica como uma luva ao criador da Spinumviva? -- ou de espreitar para os bolsos deste ou daquele ou de cusquice vã. Não senhor, nada disso. É mesmo ter a certeza de que a democracia funciona a bem dos cidadãos e não de grupos e grupinhos, é ter a certeza de que a política não está aprisionada por interesses que não privilegiam o bem da sociedade no seu todo mas, apenas, obter vantagens que passam por contornar a lei para enriquecimento ilícito ou de uma pequena minoria.

Nestas coisas, antes de me pôr a tecer considerações, gosto de me informar e de aprender com as experiências alheias.

E agora, com as extraordinárias ferramentas da Inteligência Artificial, é fácil fazer comparações. Claro que nisto, como já o era nos motores de busca, a chave está em fazer as perguntas certas. Ora, o que devemos saber para ficarmos com a ideia mais aproximada daquilo sobre o qual pretendemos formar opinião? Aí reside a dificuldade.

Neste caso, o que eu quero saber é qual o modelo de financiamento da actividade pública que melhor defende os interesses da população. 

Como casos de comparação, resolvi obter informação sobre os Estados Unidos (em que, no caso extremo e corrupto do regime trumpista, se percebe como os grandes doadores, as Metas, Teslas, Open AI, Amazon, empresários israelitas, etc, na prática mandam nos EUA -- e, por essa via, também, em parte no mundo), sobre os países nórdicos (em que há sociais-democracias, que me interessa conhecer melhor) e, talvez como contraponto, a Suiça (que, em quase tudo, corre em carris muito lá dela).

O que abaixo se pode ser é o que o Gemini (versão gratuita) respondeu às minhas questões:


1. Política e Democracia: Do "Big Money" à Democracia Direta


A forma como o poder é financiado define quem manda no país.

  • EUA: O sistema de "venda ao melhor licitante". As campanhas são máquinas de gastar dinheiro privado, criando uma elite política refém de doadores.

  • Países Nórdicos: Baseiam-se na transparência radical. O financiamento é maioritariamente público. Na Suécia, por exemplo, o foco é a igualdade de oportunidades para os partidos; o dinheiro privado é limitado para evitar que a riqueza distorça o debate.

  • Suíça: É o caso mais curioso. Sendo um centro financeiro, a Suíça tem menos financiamento público direto que os vizinhos, mas o seu "segredo" é a Democracia Direta. Como o povo pode votar em referendos sobre quase qualquer lei, o poder dos lobistas é diluído: não basta convencer um político; é preciso convencer a população.

2. Infraestruturas e Bem Comum


Quem decide onde se constrói a próxima ponte ou linha de comboio?

  • EUA: O modelo é de exploração. Muitas vezes, o Estado só consegue avançar se houver um interesse comercial privado por trás, o que gera desertos de infraestrutura em zonas pobres.

  • Países Nórdicos: O Estado é o arquiteto. As infraestruturas são vistas como a base da produtividade. O financiamento vem de impostos elevados, mas o retorno é visível em transportes públicos impecáveis que servem toda a gente, não apenas quem pode pagar.

  • Suíça: Um modelo híbrido de alta eficiência. O investimento em infraestrutura (especialmente ferroviária) é massivo e financiado publicamente, mas gerido com um rigor empresarial que faz inveja aos privados americanos.

3. Educação e Ascensão Social


O papel das universidades na perpetuação da elite.

  • EUA: As universidades são empresas. Os endowments bilionários de Harvard ou Stanford vêm de doações de magnatas, criando um ciclo onde os ricos financiam as instituições que educam os seus próprios herdeiros.

  • Países Nórdicos: A educação é um investimento público total. Do jardim de infância ao doutoramento, o custo é zero (ou quase zero). O objetivo é que o filho do operário e o filho do CEO estudem na mesma sala, financiados pelo Estado.

  • Suíça: Foca-se na qualidade e no ensino dual (profissionalizante + académico). As universidades públicas (como a ETH Zurich) são das melhores do mundo, têm propinas muito baixas e são financiadas pela Confederação, garantindo que a inovação não dependa de caridade privada.

4. Coesão Social vs. Filantropia


  • EUA (Filantropia): Se um milionário decide financiar uma ala de um hospital, ele é visto como um herói. O problema é que o milionário escolhe o que financiar, substituindo a vontade democrática pela sua preferência pessoal.

  • Países Nórdicos (Estado Social): Não esperam pela caridade. O contrato social dita que todos contribuem para que todos recebam. A saúde e o apoio social são direitos garantidos, não favores de patronos.

  • Suíça (Responsabilidade Individual e Coletiva): A Suíça equilibra isto com um sistema de seguros obrigatórios e uma forte descentralização (Cantões). O dinheiro fica perto do cidadão e a gestão é local, o que impede que grandes fortunas comprem decisões federais.


Comparativo de Modelos

CaracterísticaEstados UnidosPaíses NórdicosSuíça
Motor do SistemaCapital PrivadoEstado SocialDemocracia Direta
Financiamento PolíticoPrivado (Ilimitado)Público (Transparente)Misto (Focado no Cidadão)
Educação SuperiorNegócio / ElitistaDireito / GratuitaExcelência Pública / Acessível
InfraestruturaDependente de LucroPlaneamento EstatalEficiência Coletiva

Nota de Contexto: Enquanto nos EUA o poder económico domina a política, nos Nórdicos o poder político regula o económico e na Suíça o poder do cidadão (via voto direto) trava ambos.

Transparência

A transparência financeira é, talvez, a maior linha divisória entre estes sistemas. Enquanto nuns o dinheiro é um "segredo protegido", noutros é um "livro aberto".

Aqui está como funciona o acesso à informação sobre quem paga as contas da política:


1. Estados Unidos: O Labirinto do "Dark Money"


Nos EUA, a transparência existe no papel, mas é facilmente contornada.

  • Transparência Nominal: As doações diretas a candidatos (limitadas a valores baixos) são públicas e registadas pela Federal Election Commission (FEC). Qualquer pessoa pode pesquisar quem doou a quem.

  • O Problema do "Dark Money": O grande volume de dinheiro passa pelos Super PACs e organizações sem fins lucrativos (501(c)(4)). Estas entidades podem gastar milhões em propaganda política sem nunca revelar a identidade dos seus doadores originais. É aqui que os milionários e as corporações escondem a sua influência.

2. Países Nórdicos: A Cultura do Aquário


Nestes países, a premissa é que se queres influenciar o público, o público tem o direito de saber quem és.

  • Suécia e Noruega: As leis de transparência são extremamente rigorosas. Os partidos são obrigados a publicar relatórios detalhados. Na Noruega, por exemplo, existe um portal online onde qualquer cidadão pode consultar as receitas dos partidos, discriminando o que é público e o que é privado.

  • Cultura de Escrutínio: Mais do que a lei, a pressão social é enorme. Se um político recebe uma doação avultada de uma empresa privada, isso é notícia de primeira página e visto como um conflito de interesses quase imediato. O anonimato em doações políticas é praticamente inexistente.

3. Suíça: A Exceção Histórica (em Mudança)


Até muito recentemente, a Suíça era curiosamente um dos países menos transparentes da Europa nesta matéria.

  • O Passado: Durante décadas, o financiamento político era considerado uma questão de privacidade pessoal. Não havia leis federais que obrigassem a revelar os doadores.

  • A Mudança (2022/2023): Após pressões internacionais e internas, a Suíça implementou novas regras. Agora, para eleições federais, os partidos devem declarar doações superiores a 15.000 francos suíços. Embora seja um passo em frente, ainda é um sistema mais "fechado" do que o nórdico, refletindo a cultura suíça de discrição financeira.

4. Democracias Europeias Consolidadas (Portugal, Espanha, França)


  • Regras Estritas: Nestes países, as doações de empresas (pessoas coletivas) são geralmente proibidas. Apenas cidadãos individuais podem doar, e até um teto máximo relativamente baixo.

  • Publicação Obrigatória: As contas dos partidos são auditadas por entidades independentes (como o Tribunal de Contas em Portugal) e publicadas em Diário da República ou nos sites das instituições. Saber quem doou 1.000€ a um partido é uma questão de consulta pública.


Comparação de Transparência

RegiãoAs doações são públicas?Existem doadores "anónimos"?
EUAParcialmente (Transparente nos candidatos, opaca nos Super PACs)Sim, em larga escala (Dark Money).
Países NórdicosSim, quase totalmente.Praticamente impossível.
SuíçaAgora sim (acima de 15k CHF).Sim, para valores pequenos e locais.
Resto da EuropaSim, com limites baixos por pessoa.Não, empresas estão proibidas de doar.

Onde está o perigo?


Onde as doações são públicas mas os limites são inexistentes (EUA), o risco é a captura do regulador: o político trabalha para quem financiou a sua campanha.

Onde as doações são privadas e anónimas (como era na Suíça ou é no Dark Money americano), o risco é a corrupção invisível, onde o eleitor nem sequer sabe a quem o seu representante deve favores.

terça-feira, fevereiro 10, 2026

Seguro & Montenegro
-- A palavra ao meu marido --

 

Votei no Seguro sem entusiasmo mas com convicção. Com o panorama que havia e com os erros cometidos pelo Gouveia e Melo na campanha seria um enorme pesadelo, com consequências de longa duração, termos uma segunda volta entre o Andrézito e o Cotrim ou Marques Mendes. Assim, pelo menos, não temos formalmente a direita em tudo o que é órgão de poder em Portugal. 

Mas é desanimador percebermos, que 50 anos após o 25 de Abril, o PR e o PM são dois indivíduos que, antes de chegarem a estes cargos, não se diferenciaram por quaisquer iniciativas, ideias ou ações. Antes pelo contrário: passaram mais ou menos despercebidos e, mesmo nos respetivos partidos, não eram tidos em grande conta nem considerados quadros com capacidades diferenciadoras. Mesmo quando foram eleitos secretário geral e presidente dos respectivos partidos não geraram grande emoção. Mas a verdade é que as circunstâncias ditaram a chegada ao poder destes indivíduos. 

No caso do Luís, um golpe da Procuradoria e os erros sucessivos da "sumidade" política que é o Pedro Nuno permitiram-lhe ganhar as eleições por uma unha negra. Os factos têm permitido constatar que não tem nem as qualidades nem as capacidades necessárias para exercer o cargo de PM. 

No caso do António José, conseguiu passar toda uma campanha eleitoral a fingir que não existia e aguardou, expectante, que os candidatos que lhe podiam dar cabo da eleição dessem cabo deles próprios. Assim, passou pelo meio dos pingos da chuva e, como teve o apoio unânime e a mobilização do PS, lá chegou a PR. Na realidade, revelou uma perseverança notável que não lhe conhecia. 

Ontem, o Montenegro, com a arrogância que lhe é conhecida, tentou marcar território e sair vencedor, apesar de ter sofrido uma enorme derrota. Em resposta, o Seguro mostrou-lhe o pau e a cenoura. Vamos ver quais são as cenas dos próximos capítulos. É certo que o Montenegro é mau PM. Vamos o que faz o Seguro como PR. Tenho poucas esperanças mas posso estar enganado.

sábado, julho 12, 2025

Qual a razão para a Ministra da Saúde não ser demitida?
-- A palavra ao meu marido --

 

O que está a acontecer na Saúde é uma tragédia e existem dois responsáveis políticos pelo que está a acontecer, a saber, a ministra da Saúde e o Primeiro Ministro. 

Existe também um corresponsável: o Presidente. 

Em qualquer outro país em que os governantes tivessem um mínimo de decência, a ministra já se tinha demitido -- o Primeiro Ministro já tinha corrido com ela ou o Presidente já lhe tinha tirado o tapete. 

Em Portugal não. 

Não nos esqueçamos que o Montenegro, para ir para o Governo, prometeu que resolvia os problemas na Saúde em sessenta dias. 

A verdade é que escolheu uma ministra que todos os dias consegue agravar, e muito, a situação que herdou, que é responsável por situações que não se admitiriam como possíveis e que não resolveu nada, mesmo deitando dinheiro a rodos para cima dos problemas (já  alguém analisou o aumento dos valores pagos aos médicos?), aumentando os custos sem qualquer proveito para os Portugueses, antes pelo contrário.  

É uma ministra que diz que não se demite porque todos os dias trabalha para resolver os problemas. Admito que todos os dias vá ao ministério mas o único resultado é agravar os problemas.

Mas, então, qual será a razão para não ser demitida? E qual a razão para o Presidente respaldar situações inadmissíveis, como aconteceu com a adjudicação dos helicópteros para transporte de doentes? 

Posso estar enganado mas arrisco duas razões que me parecem prováveis. 

  • Uma tem a ver com o objetivo de passar a prestação de serviços de Saúde para os privados, nomeadamente, os serviços lucrativos. 
  • Mas existe, na minha opinião, uma outra razão, talvez a razão com mais peso. A ministra nomeou gentinha do PSD para tudo quanto era lugar, independentemente das capacidades. Assim, esta maltinha tudo fará para manter a ministra que sabem que os nomeia para as posições que ambicionam. 
Conclusão: a saúde dos portugueses que se lixe, o que é preciso é dar mais dinheiro aos privados e garantir que os boys têm jobs

Entretanto, o Governo atira para a comunicação social uns assuntos que fazem notícia na esperança que os verdadeiros problemas não sejam abordados. As questões da imigração, nacionalidade e (a urgência em despachar o assunto) TAP são bem um exemplo desta estratégia do governo. 

No entanto, foi nesta gente que muitos portugueses votaram. Pelos vistos é disto que gostam. 

terça-feira, maio 20, 2025

Reflexões na ressaca

 

Isto não está fácil, confesso. Não me apetece escrever. No domingo à noite deitei-me tarde, atordoada. Os resultados das eleições viraram-me do avesso. Eram seis da manhã e ainda não dormia. Já o dia clareava e eu sem sono. Depois acordei às oito e picos e parecia-me que já não tinha sono. Forcei-me a dormir mais um pouco. Mas pouco mais. Íamos ao ginásio e depois ainda tínhamos várias coisas a fazer. Ou seja, mal dormi.

Por isso, de tarde, lá para as cinco, deitei-me ao sol, na espreguiçadeira, e adormeci. Não muito pois as nuvens passavam a vida a cobrir o sol e ficava frio. 

Há pouco, estávamos a ouvir o Paixão Martins, adormeci de novo. Micro-adormecimentos mas o suficiente para não ter conseguido acompanhar com seguimento.

Ainda não recuperei do entorpecimento, do estupor catatónico em que, interiorente, fiquei.

Do que me chega, há pessoas bem na vida, instaladas, umas que ainda guardam ressentimentos do 25 de Abril e que votam no Chega pois acham que o Ventura vai ajustar contas com esse passado. Outras, quadros em boas empresas, querem simplesmente rebentar com 'isto tudo'. Se calhar, pessoas mal sucedidas na sua vida pessoal (mas isto já sou eu a dizer). Quando pergunto a quem conhece essas pessoas o que é que, na verdade, elas acham que o Ventura pode fazer por elas, a resposta é que isso não é questão que se ponha. Não pensam tão longe, limitam-se a querer rebentar com as coisas. O que vem a seguir é tema que não lhes ocupa o pensamento. Outro caso, nos antípodas, um conhecido que não estudou muito, que começou a trabalhar, trabalho pouco qualificado, faz uns 'ganchos' ao fim de semana para compor o ordenado. Vota no Chega porque diz que os 'outros' não fazem nada por ele, acredita que o Ventura é capaz de fazer. Pergunto: mas fazer o quê, em concreto? A resposta é a mesma: o pensamento dele não vai até esse ponto.

No outro dia, vi na televisão uma dessas que vive certamente numa realidade pobre, suburbana, mas que deve sentir que vive numa realidade alternativa ao viver permanentemente nas redes sociais. Percebe-se que, certamente, tem como ídolos algumas conhecidas influencers. Usava várias vezes a expressão: 'quero tudo a que tenho direito'. Ao ver as influencers andarem pelos hotéis, pelos ginásios, institutos de beleza e restaurantes, sonha, certamente, atingir esse patamar. Pela conversa, acredito que vote Chega. Deve ser daquelas que acha que o Ventura diz tudo o que tem a dizer, não tem medo de nada, tentam calá-lo mas ele não se fica. Ou seja, veem-no como um líder que merece ser seguido. Claro que se lhe perguntarem o que é que o Ventura pode fazer por ela, não saberá dizer. Isso já é uma segunda derivada e o raciocínio não vai tão longe. Se lhe perguntarem também em que é que os 'poderosos e corruptos' de que o Ventura tanto fala a prejudicam, claro que também não saberá o que dizer. 

O Ventura navega nestas águas turvas da ignorância, do ressabiamento, da ilusão. Em bom rigor, de concreto ele não promete nada. Aliás, de concreto, ele não diz nada. Limita-se a apresentar-se como um líder, o que está aqui para salvar os descontentes, o enviado de Deus, o que vai vingar os que se sentem prejudicados. As pessoas acreditam nele sem precisarem de provas, tal como acreditam em Deus sem precisarem de provas ou tal como, antes, acreditavam no PCP sem cuidarem de saber em que país é que aquele modelo comunista funcionava. As pessoas que votam no Chega, em larga maioria, fazem-no por uma questão de crendice, de fezada.

Numa reportagem de há pouco tempo, um pastor evangélico, no Seixal, um que aluga quartos num armazém sem condições, dizia que recomendava o voto no Chega. Os iguais reconhecem-se.

Porque é que nestes subúrbios há tantas igrejas maná, evangélicas, do sétimo dia e coisas assim? O que é que aqueles pastores fazem pelas pessoas? Nada. Ficam-lhes com o dinheiro e prometem coisas, umas divinas, outras estratosféricas. E as pessoas acreditam, gostam.

Não sei como se combate isto. As pessoas com ética, com sentido de responsabilidade, honestas, não recorrem à mentira, às promessas vãs, não se prestam ao papel de fazerem vídeos estúpidos, manipulados ou falsos, apelando à vingança ou  difundindo mensagens xenófobas ou racistas, nem usam a ignorância das pessoas para explorarem as suas emoções, os seus medos, os seus anseios. Ou seja, as pessoas decentes não são capazes de usar as mesmas 'armas' que os populistas. No fundo, o terreno está livre para que os do Chega, os das igrejas alternativas ou outros movimentos do género, possam ocupá-lo e aproveitar a crendice, a ingenuidade ou os ressabiamentos de quem ali se sente entre iguais.

Como se explica a uns e a outros, ao milhão e trezentos mil que votaram no Chega, que o que está a ser feito no País é isto e aquilo, que há contas e orçamentos, que, no caso dos que ganham menos, não pagam impostos e podem usufruir de tudo (hospitais, escolas, policiamento nas ruas, etc.) sem pagarem nada. ou que há um défice demográfico no País e os imigrantes são necessários, úteis e deveriam ser recebidos de braços abertos? 

Como falar com pessoas que não querem ouvir coisas 'complicadas', cujo tempo de atenção se esgota com uma frase de cinco palavras, que não querem saber da ética dos líderes que adoram? Que apenas querem imaginar um eldorado em que elas serão tratadas como princesas com tudo a que têm direito e eles serão machos, viris, ricos, com grandes carrões?

Aqui, em França, na Alemanha, em Itália, nos Estados Unidos... agora ou há cem anos... como se combate o populismo? 

Acresce a isso, a circunstância presente, ubíqua, desregulada: como se combate o efeito nefasto das redes sociais?

Não sei.

Ou será que nem vale a pena matar a cabeça a tentar matar a charada? Será que é esquecer esta franja que sempre votará irracionalmente? Ou não? Será que deve é haver um pacto entre a comunicação social para não dar cobertura aos populistas? Ou quem está no Governo deve, simplesmente, focar-se em resolver problemas concretos e divulgar eficazmente a sua resolução? Ou não é bem isso e o melhor mesmo é ser-se capaz de criar uma utopia -- mas uma utopia realizável -- e deixar que as pessoas que precisam de acreditar em miragens tenham algo com que sonhar... e depois concretizar esses sonhos?

Em paralelo, enquanto se pega pelos cornos (ou de cernelha) o populismo, tentando impedir que cheguem mesmo ao topo, há que construir uma alternativa. Vi na TVI uma caracterização do eleitorado do Livre e da Iniciativa Liberal: um alinhamento entre escalões etários (gente mais jovem do que nos outros partidos) e formação académica (largamente com formação superior). Reforçou a minha convicção de que o futuro passa por aqui. Tivesse eu menos uns quantos anos e era bem capaz de fazer de tudo para explorar as convergências entre eles e tentar arranjar uma plataforma que fosse o motor de um movimento progressista, dinâmico, arejado, que atraísse mais gente, que gerasse iniciativas agregadoras, que avançasse com propostas de melhoria nos diversos sectores da sociedade, que mobilizasse mais gente para participar na construção de novas propostas de acção.

Enfim. Ando para aqui às voltas, preocupada com o mundo cada vez mais estúpido, disfuncional e distópico em que vivemos.

Vou ver se durmo melhor esta noite. E vou ver se, durante o dia, me entretenho mais a olhar e a fotografar as florzinhas que estão por todo o lado. Estão viçosas, lindas, os campos estão cobertos, felizes da vida como se a os temas da política lhes passassem totalmente ao lado.

segunda-feira, maio 19, 2025

E agora...?
Agora é tempo para o pragmatismo

 

Depois de ouvir o discurso revanchista de Ventura, copiando o estilo ameaçador de Trump, depois de ver a esperada renúncia de Pedro Nuno Santos e ao ver o discurso de Montenegro que falou como se tivesse tido a maioria absoluta, fico com a sensação que o caldinho pode estar seriamente armado. Contudo o País tem que ser posto em primeiro lugar. Há prioridades que devem ser postas em cima da mesa e, uma vez identificadas, ir em frente e agir em conformidade.

1 - O País não pode correr o risco de estarmos sempre dependentes dos ajustes de contas, das ameaças, das provocações do Chega

2 - Ou seja, tudo deve ser feito para que o Ventura não tenha a última palavra. E essa preocupação tem que estar sempre presente.

3 - O País deve ser governado com inteligência, assertividade, com visão estratégica, tendo em conta os riscos internacionais e os riscos internos. Se o governo que vai nascer não conseguir bons resultados, nas próximas eleições o Ventura conseguirá melhores resultados e, se agora foi o PS que levou uma banhada, nas próximas eleições pode ser a AD a levá-la. E aí será o País, no seu todo, que estará nas mãos do Ventura (tal como os Estados Unidos estão nas mãos do Trump). E aí, adeus minhas encomendas.

4 - Há muitas reservas em relação ao 'centrão' e há certamente muita gente do PS que jamais vai querer dar uma 'mão' à AD. Percebo tudo isso. Mas as circunstâncias são o que são. Não vale a pena ir buscar exemplos do passado para provar os danos dos abraços de urso ou os malefícios do pântano dos centrões. Tudo isso pode ser verdade. Melhor, tudo isso foi verdade. Não tenho dúvidas. Mas, neste momento, o circo está a arder e é nesse cenário que devemos situar-nos. Chegámos aqui e é aqui que devemos situar-nos. 

5 - Ou seja, face aos riscos e face às circunstâncias, neste momento penso que o mais inteligente será barrar o caminho à influência crescente do Chega. Para isso, penso que o mais racional será o PS estabelecer um entendimento com a AD no sentido de criar condições para entregar à população resultados rápidos, palpáveis, demonstráveis. Têm que ser encontradas soluções rápidas (em gestão, chamamos quick wins, pequenos ganhos que fazem ganhar a adesão das pessoas) nas áreas problemáticas que geram mais descontentamento junto da população e sobre as quais o Chega cavalga. Ainda hoje o meu filho dizia que têm que se encontrar soluções rápidas nas áreas da Saúde, da Educação, da Habitação e da Segurança Social. Concordo. Encontrem-se soluções rápidas, sem dogmas. Se o mais rápido for, aqui e ali, fazer acordos com privados, que se façam. Não se diabolizem os privados. Como se vê pelo resultado das eleições, a maioria da população já não está nem aí. Seja-se pragmático: desde que os contratos sejam regulamentados, não há drama. Encontrem-se soluções: consultas e cirurgias rápidas, mais escolas, mais creches, residências para idosos e clínicas para doentes que precisam de reabilitação ou de cuidados paliativos, casas públicas, financiamento a cooperativas de habitação, etc. Seja-se criativo. Seja-se rápido.

6 - Pode dizer-se que, se o PS der a mão ao Governo AD, isso vai desvirtuar a sua linha ideológica. Talvez, sim. E dar a mão a Montenegro, um fulano que é um chico-esperto, chateia. Pois chateia. A mim chateia-me como nem imaginam. Detesto chico-espertices, habilidades no limiar da legitimidade, manhosices. Detesto. Mas o País tem que estar acima disso. E, de resto, seja como for, o PS tem mesmo que mudar. Por isso, não tem muito a perder em 'vergar-se' para ajudar a AD a governar bem - pelo contrário, o País reconhecerá o sacrifício, se for a bem do País. 

7 - Em paralelo, vejo espaço para um grande partido e era bom que esse partido fosse o PS, pois tem uma base matricial na formação da democracia em Portugal e tem grandes democratas no seu historial. Mas, se não for o PS, paciência. Já o disse, faz falta em Portugal um partido que aponte no sentido das democracias do norte da Europa, um partido civilizado, culto, moderno, desenvolvido, inspirador, mobilizador. Se o PSD não fosse um partido que tem enraizada uma matriz de videirinhos, de patos-bravos, de chico-espertos, poderia evoluir para um partido como o que antevejo. Mas a sua matriz não o deixará evoluir. O PSD tem a 'filosofia' dos esquemas, dos interesses, dos jobs for the boys metastizada em toda a sua rede de concelhias e distritais (e, se calhar, o PS também) pelo que duvido que consiga alguma vez desempoeirar-se. Por isso, antevejo que, mais dia menos dia, teremos um novo partido a adquirir pujança e a fazer uma frente eficaz ao populismo. Mas isso leva tempo. Enquanto essa alternativa não nasce e não se impõe, a prioridade -- e volto ao tema das prioridades - tem que ser travar o Chega. Por isso, para concluir, para mim, neste momento, pondo em primeiro lugar o bem do País, acho que tudo (tudo, tudo) deve ser feito para reduzir a base de apoio do Chega -- e, para tal, é preciso entregar bons resultados à população no que é determinante, ou seja, é preciso governar bem.

8 - Há um outro aspecto: qual o papel da Comunicação Social? Vai continuar a querer competir com as redes sociais? Vão continuar a andar com o Ventura ao colo? Vão continuar a alimentar a maledicência, o desgraçadismo, a levar misérias e crimes aos programas generalistas de dia, assim alimentando a ideia da insegurança de que o Chega se alimenta? Marcelo, que é um dos grandes culpados pela situação em que estamos, faria bem em chamar os responsáveis das televisões e apelar ao sentido de responsabilidade no sentido de preservar a democracia do nosso País.

9 - Há ainda o Ministério Público que tem actuado como um contrapoder, deveria também ser chamado à responsabilidade. Andar a queimar políticos, deixando-os a serem derretidos em lume brando ao longo de anos, é do pior para a democracia. O populismo alimenta-se da ideia da corrupção generalizada, o populismo diz que 'isto é uma bandalheira'. E o MP não pode ajudar a essa festa. Marcelo deveria também ter uma acção nesse sentido.

10 - Termino, repetindo-me: penso que é tempo de todos, todos, todos -- todos os que amamos a democracia -- nos unirmos para que o País e a democracia sobrevivam à chaga populista que está a alastrar perigosamente. 

Os resultados eleitorais
-- A palavra ao meu marido --

 

Os resultados eleitorais de hoje são chocantes. 

O Ventura teve 25 por cento dos votos. Embora seja difícil entender como é possível que tanta gente vote no Chega é para mim óbvio que as redes sociais, o bota abaixo, a incapacidade de análise, a vontade de acreditar só no que interessa foram preponderantes na escolha que fizeram. Também a frustração por não terem atingido os padrões das redes sociais e as reais dificuldades que enfrentam no dia a dia terão contribuído para esta votação. 

Mas, mesmo assim, como é possível votar num tipo que sai do hospital cheio de pensos com ar de criança mimada, que só diz mentiras e cujo partido é ele e só ele? 

Por mais que tente listar razões, continuo sempre a ficar pasmado com a estúpida opção que um quarto dos votantes fez. 

Mas é preciso recordar que chegámos aqui também porque, durante vários anos, o Marcelo andou a desestabilizar o País, o MP fez cair o governo e o Montenegro preferiu ir para eleições do que dar o lugar a outro. 

O Marcelo, o MP e o Montenegro são também relevantes na posição alcançada pelo Chega. E a Comunicação Social também não é isenta de responsabilidades pois tem andado com o Ventura ao colo. Veja-se a vergonha do outro dia, quando estiveram a dar, em direto, o percurso do Ventura para o hospital. 

Nesta altura de crise, Portugal podia ainda estar a ser governado por um governo eleito por maioria absoluta e, assim, ter melhores condições para enfrentar os problemas. 

Hoje, os laranjas podem estar satisfeitos por terem ganho, mas, com o novo impulso do Chega, ainda lhes vai ser mais difícil governar. 

A esquerda perdeu em toda a linha. A derrota do PS é um desastre. A esquerda tem que aprender que a união faz a força e que os verdadeiros objetivos são, como diz o Sérgio Godinho, a habitação, a saúde e a educação, a segurança social. Transmitam uma mensagem de esperança sobre a resolução destas questões -- e sobretudo resolvam-nas quando forem poder --, e conseguirão voltar a ter preponderância na política portuguesa. 

Caso contrário, vão acabar numa posição residual e a extrema direita -- em coligação ou não com a direita -- vai ser poder por muito tempo. 

Tenhamos esperança que as coisas mudem.

Muita apreensão, muita tristeza

 

Na altura das eleições internas do PS, não me pareceu que Pedro Nuno Santos fosse a melhor opção para o PS. As pessoas de que se rodeou não me pareceram uma opção inteligente. A campanha que fez também não me pareceu inteligente. Ponderei não votar PS. Ponderei votar em branco. Mas, perante as perspectivas, achei que não deveria juntar o meu voto a quem baixa os braços e deixa, indiferentemente, que a direita e o populismo acéfalo progridam. Portanto, com pouca convicção mas por um sentimento de dever democrático, votei no PS.

Mas este PS notoriamente não dá resposta aos anseios de uma parte significativa da população. Aquelas pessoas descontentes, umas com razão e outras apenas porque gostam de ser do contra, muitas mal informadas que aceitam ser iludidas, muitas pessoas que gostavam de ser como os seus ídolos do Tik Tok e do Insta, os que votavam contra e que davam o seu voto ao PCP (ou, mais tarde ao Bloco), essas maioritariamente agora votam Chega. Se juntarmos os que votam AD, temos que o PS já é marginal face ao total AD+Chega.

É, portanto, mais do que óbvio que tem que haver uma revolução dentro do PS. E uma revolução não se faz a pensar da mesma maneira com que se tem pensado até aqui. Há que arejar a cabeça, deixar entrar novas ideias.

Por muito absurdo que possa parecer, o que venho defendendo no meu inner circle é que vejo como necessário um partido que saiba apontar a uma política aberta, com visão estratégica, em que haja justiça social, igualdade de oportunidades, mas tudo sem dogmas, uma fusão inteligente entre o que norteia o Livre e o que norteia a Iniciativa Liberal. Liberdade económica, sim, mas balizada por liberdade inclusiva, moderna, desempoeirada, sem preconceitos, respeitando a matriz democrática da justiça social. Tem que haver quem tenha visão, pulso, determinação... e ir adiante, trilhando esse novo caminho.

Não sei o que vai dar isto que hoje está a passar-se. Só ver a sala vazia do Altis me dá ânsias. Para onde foi toda a gente que antes enchia aquela sala? Fugiram? Tudo gente cobarde? De facto, com gente assim não se consegue modernizar o regime.

Já volto.

terça-feira, maio 13, 2025

Quais os 'melhores' países europeus para quem lá vive (segundo indicadores de riqueza, justiça social, inovação e felicidade), quais os partidos dos respectivos governos e quais os partidos equivalentes em Portugal?

 

Lá está, sinto sempre uma certa necessidade de ver as coisas por outras perspectivas. É da minha formação: não dar nada por certo até testar as diferentes hipóteses e verificar a validade de cada uma. Ainda assim, é falível pois testa-se em relação a um conjunto de parâmetros mas quem nos garante que não há outros ainda mais determinantes? Mas, ainda assim, podendo ser imperfeita, sempre é uma análise sistemática e racional.

Não sou dogmática. Não sou ortodoxa. Analiso, comparo. 

Por exemplo, hoje pedi ao ChatGPT que pegasse nos programas eleitorais e os comparasse área a área. A primeira surpresa foi que nem todos os partidos têm os seus programas eleitorais disponíveis. Por isso, nessas análises foram tomados os últimos documentos afins disponíveis, por exemplo, o das últimas eleições.

Quando penso em opções políticas, tento ter um modelo. Por exemplo, penso sempre em que género de sociedade é que eu gostaria de viver. Não tenho dúvidas: uma sociedade justa, civilizada, desenvolvida, culta, estimulante para todos, inclusiva, livre, em que as pessoas não receiem ter filhos, em que as ruas sejam seguras, cheias de crianças, em que haja condições dignas para os mais velhos, em que haja tempo livre para as pessoas desfrutarem o convívio com a família e com os amigos, em que haja um profundo respeito e amor pela natureza. 

Por exemplo, jamais quereria viver num país 'comunista'. Os questionários que faço confirmam isso: estou a milhas do PCP (e, logo a seguir, do Bloco). Ortodoxias, ideias feitas e antiquadas, estruturas mentais preconceituosas, dogmas, ausência de uma democracia saudável -- odeio tudo isso. Pelo contrário, os países escandinavos parecem-me bastante agradáveis. 

Contudo, para conseguir ajuizar sem subjectividade, tentei fazer uma análise mais estruturada. Pedi ao ChatGPT que me desse os países europeus com melhores indicadores financeiros, de inovação, de justiça social e de felicidade. E que, depois, comparasse os programas eleitorais ou de governo do partido dominante de cada um desses países e dissesse qual o partido português equivalente.

Não vou estar a trazer tudo para aqui mas, admitindo que o ChatGPT não se baralhou, é uma análise interessante. Pedi para não incluir o Luxemburgo e a Suíça pois são países que, pelas suas características, neste âmbito, não quero considerar.

Fui analisando, vendo para cada indicador, quais os países com melhores resultados. Ou seja verifiquei, para a riqueza, os melhores países, ordenados decrescentemente. Para a justiça social, idem. Idem para os outros indicadores. Depois usei a seguinte métrica: A cada país foram atribuídos pontos consoante a posição nos quatro indicadores (3 pts ao 1.º, 2 pts ao 2.º, 1 pt ao 3.º). Depois, os pontos foram somados para obter o ranking final. Desta forma teria um ranking dos países em que a vida será melhor segundo aquelas quatro vertentes.

Conferi algumas coisas mas, naturalmente, não tenho como validar tudo. Por isso, admitindo que não houve erros, aqui está o quadro com as conclusões, em que aparece em 1º lugar o país que obteve a melhor pontuação, Finlândia.

1º - Finlândia (6 pts) – KOK (Petteri Orpo) → Equivalente PT: Aliança (PSD/CDS)
2º - Islândia (5 pts) – Social Democratic Alliance (Kristrún Frostadóttir) → Equivalente PT: PS
2º - Suécia (5 pts) – Moderaterna (Ulf Kristersson) → Equivalente PT: Aliança (PSD/CDS)
3º - Irlanda (3 pts) – Fianna Fáil (Micheál Martin) → Equivalente PT: Aliança (PSD/CDS)
4º - Noruega (2 pts) – Labour Party (Jonas Gahr Støre) → Equivalente PT: PS
4º - Dinamarca (2 pts) – Socialdemokratiet (Mette Frederiksen) → Equivalente PT: PS
5º - Países Baixos (1 pt) – PVV (Geert Wilders) → Equivalente PT: Chega

Não aparecem aqui países como a França ou a Alemanha pois no ranking dos países mais ricos, mais justos, mais inovadores ou mais felizes não aparecem nos tops e, para uma análise mais simples, restringi a análise aos melhores países.

Claro que uma coisa são as políticas e outra é a competência, a credibilidade ou a honorabilidade de quem as aplica mas isso é mais difícil de traduzir em rankings objectivos.

domingo, março 23, 2025

Será que as sondagens mentem tanto como o Montenegro?
-- A palavra ao meu marido --

 

Desde quinta-feira que temos o regabofe instalado na comunicação social. Como foi publicada uma sondagem em que a AD tinha 20% das intenções de voto, o PS 15% e o conjunto da esquerda 3%, a maioria dos comentadores e algumas televisões (claro que a SIC foi a mais entusiástica) não se calaram a tecerem loas à governação do Montenegro, concluindo que Portugal são uns Estados Unidos em miniatura e que, tal como o MAGA em relação ao Trump, a malta se está nas tintas para os "enviesamentos" (para ser meigo) do Montenegro.

Mas vale a pena analisar a sondagem com mais profundidade e rigor do que foi feito propositada ou involuntariamente (quiçá por falta de conhecimento) por alguns dos jornalistas e comentadores. 

Segundo  a ficha técnica da sondagem, o universo da amostra é 802 pessoas (que correspondem aos escassos 15% que responderam às questões o que, já de si, mereceria uma ponderação). Analisemos, então, os números, segundo a informação publicitada.

  • Na AD afirmaram ir votar 160 pessoas, 
  • 120 pessoas afirmaram votar no PS
  • 72 pessoas têm intenção de votar no Chega 
  • na IL temos 32 pessoas 
  • e, em cada um dos partidos de esquerda, menos mal, lá houve uns 8 que têm intenção de votar ou no PC ou no Livre ou no BE. 

Não parecem quantidades de respostas impressionantes para que tanto alarido tenha sido feito.

Aliás, na mesma sondagem,os dados mais interessantes talvez até tenham sido estes:

  • 313 pessoas responderam que ainda não tinham decidido 
  • e 417 pessoas responderam que os esclarecimentos do Montenegro são insuficientes.

Portanto, as conclusões -- admitindo que com um número de respostas tão pequeno podemos considerar os resultados válidos --  são:

  • temos mais indecisos do que o conjunto de intenções de voto nos dois maiores partidos, PDS e PS
  • e mais pessoas do que o total de pessoas que afirmou terem intenções de votar em qualquer dos partidos responderam que pretendem saber mais sobre o Luís e a sua empresa (Spinunviva). 

Ou seja, afinal, as "historietas" do Luís não passaram à história.  

Apresentar os dados desta forma é bastante diferente do que tem sido alardeado pelos órgãos de comunicação social. Seria mais honesto e mais ético apresentar os números como eles são (honi soit qui mal y pense).

Nota: o total das percentagens não dá 100% pelo que pode haver uma questão de casas decimais e/ou de intenções de votos em pequenos partidos aqui não mencionados ou, mesmo, imprecisões nos dados divulgados. 

Já agora, e não querendo aborrecer o Luís, pergunto:

  • Não parece esquisito que, a ser verdade o que tem sido noticiado e não desmentido, o valor do metro quadrado de construção declarado por ele para a luxuosa casa de Espinho -- que até elevador tem --, tenha sido inferior ao preço médio da construção em Espinho? 
  • O valor declarado estará relacionado com alguns subsídios? Ou terá também a ver com alguma 'optimização fiscal'? 
  • Não parece esquisito que uma empresa que se dedicava a atividades relacionadas com o RGPD, só 18 meses depois de iniciar a atividade tenha cumprido os requisitos legais nesta área? 
  • Não parece esquisito que não estejam reduzidos a escrito os contratos relacionados com as avenças da Spinunviva? 
  • Não parece esquisito que alguém que pormenorizou o número e tipo de árvores que tinha em cada terreno não se tenha lembrado das relações comerciais da empresa de que era proprietário? 
  • Não parece esquisito que o advogado Luís não soubesse que a passagem das quotas para a mulher o mantinha como proprietário da Spinunviva?
  • Ou que não podia unir andares com diferentes proprietários?
  • E que os pedidos de licenciamento não podem se apresentados trinta dias depois do início das obras?~
  • ... 

E finalmente, mais uma cereja no topo do bolo. A célebre Inês Patrícia afirmou numa entrevista que  a Spinunviva se auto geria. Até fiquei comovido: recordou-me o PREC e as empresas em autogestão. E das duas uma: ou estamos perante perigosos revolucionários ou querem enganar-nos. Só faltava mais esta pérola! Não parece esquisito... é, no mínimo, muito esquisito!

  • Questão adicional: não seria mau, para sabermos se também não será esquisito, conhecermos quais as despesas contabilizadas na Spinunviva. Terão sido contabilizadas despesas não decorrentes da estrita atividade da empresa? Estando  a empresa em "autogestão", não terão sido indevidamente consideradas admissíveis? Senhores Jornalistas temos e devemos saber!

E uma sugestão aos Senhores Jornalistas: leiam 'Como mentem as sondagens' do Luís Paixão Martins. Talvez vos seja útil.

quinta-feira, março 06, 2025

O que aí vem

 

Não vejo como é que o PSD vai aceitar que quem irresponsavelmente atirou o País para eleições antecipadas, depois de andar a tentar esconder o que já estava à vista de toda a gente (e ando a ouvir dizer com alguma insistência que ainda mais está para vir a lume), seja o líder que vai conduzir a campanha eleitoral que aí vem.

Além disso, começam a ouvir-se outros nomes no seio do partido. Portanto, não sei se a instabilidade dentro do PSD não virá juntar-se à instabilidade em que Montenegro lançou o país.

Acresce que o tipo parece não ter noção. Faz coisas de uma leviandade que não lembram ao diabo. Baldou-se a uma cimeira da maior relevância e, ao mesmo tempo, é visto a transportar o carrinho dos tacos de golf enquanto, ao lado, o amigo da Solverde vai de mãozinhas. Podendo alojar-se na Residência Oficial de S. Bento, fica num hotel cujos custos não se percebe como paga com o ordenado que ganha, hotel esse onde se passam todos os grandes eventos do PSD, levando a que já haja quem tema que ainda venha a saber-se que está a ter um tratamento 'especial'. Dá ideia que é aquela mania que tem que quer, pode e manda e não tem que dar satisfações a ninguém. Aliás, na Assembleia da República, até deixou sair que 'tem mais que fazer do que estar ali a dar explicações'. Talvez por isso nem se tenha dado ao trabalho de informar o Presidente da República que ia fazer um anúncio no sábado à noite, rodeado pelo governo, que, mais que certamente, ia atirar o País para nova crise. Uma desconsideração um bocado surreal demais.

Portanto, sendo o menino do calibre que já se viu, o PSD vai aceitar ser conduzido para o desastre eleitoral sem tugir nem mugir?

Do CDS não falo. Não existe.

Do lado do PS, tenho algumas dúvidas. Numa lógica de que há que ter estabilidade, o Partido Socialista tem feito de tudo para que não haja crise: deixou passar tudo o que o PSD quis e agora queria tudo menos eleições. Pedro Nuno Santos queria fazer uns Estados Gerais ao longo de 1 ano para daí emergir um Programa de Iniciativas que desse origem a um programa de governo e uma equipa ministerial. Portanto, eleições agora é tudo o que o PS fez tudo para evitar. 

Mas as coisas são o que são. Num mundo ideal fazem-se as coisas ponderadamente, com tempo, step by step. Mas o mundo real geralmente atropela o mundo ideal. Portanto, situemo-nos no âmbito em que estamos, ou seja, no meio da confusão.

Sempre achei o José Luís Carneiro mais sólido, mais estruturado, do que o Pedro Nuno Santos. Mas não foi isso que o PS quis. Portanto, é Pedro Nuno Santos que tem que ir à luta. E só espero que se saiba rodear dos melhores. Há nos quadros do PS gente muito capaz, há que saber contar com eles. E há que saber recrutar gente capaz na sociedade civil, não necessariamente dentro do partido. Os timings são apertados, a conjuntura internacional é do caraças -- ou seja, nada disto é para meninos. Portanto, há o PS tem que dar ao pedal e manter a cabeça no lugar. 

Quanto ao PCP, tudo o que faz é ao lado, é cada vez mais uma nulidade, nem vale a pena pensar nisso. 

O Bloco está esvaziado, não sei se ainda consegue tracção para ir à luta.

O Livre não consegue agarrar senão um eleitorado restrito, mais intelectual e purista. Uma base eleitoral exígua.

A Iniciativa Eleitoral tem sabido manter-se sóbria, com intervenções racionais, sem embandeirar em arco, sem ceder a facilitismos. Provavelmente continuará a aguentar-se e talvez até a subir junto do eleitorado mais jovem e mais escolado.

Sobra o Chega. Nesta perspetiva, isto é, nas próximas eleições, para mim uma incógnita. André Ventura tem uma agilidade e habilidade mental notáveis. Consegue sacudir de si todos os escândalos que têm recaído sobre os seus deputados. É aquilo que se diz: nestes partidos, escândalos que não ferem o líder, não abalam as opções de voto dos simpatizantes. E, neste caso concreto, André Ventura pode capitalizar dizendo que, ao apresentar a 1ª moção de censura, fê-lo cedo demais pois o tempo (e não foi preciso muito) veio a dar-lhe razão. André Ventura consegue ocupar a agenda mediática: é sempre o primeiro a falar para a opinião pública, é sempre o primeiro a pronunciar-se e sabe falar com clareza e eficácia. Compreende-se que uma parte significativa da população se sinta confortável a votar nele.

Mais do que termos medo de André Ventura ou mostrarmos nojo do Chega, penso que o mais inteligente é perceber como é que a forma de comunicação deste partido e desta pessoa são tão eficazes. Abstraiamo-nos da demagogia, do populismo, da falta de vergonha e fixemo-nos na eficácia, no sentido de oportunidade, na construção das frases e na escolha das palavras. Talvez haja ilações que possam ser úteis.

Uma coisa é certa: a política de amiguismo, de nomeações por filiações partidárias, os 'tachos', levadas a cabo por partidos que têm ocupado o poder merecem profundo repúdio por parte da população. Ventura cavalga em cima disso. Mas o PS deveria interiorizar também estes princípios pois são essas práticas que minam a confiança do eleitorado.

Tirando isso, o que se me oferece dizer sobre tudo isto é que, para já, coitado do Marques Mendes. Ganda nóia.

quinta-feira, agosto 15, 2024

No discurso do Montenegro, foi chato aquilo do será-lhe

 

Não vi tudo. Só comecei a ver quando ele falava -- e bem -- do poder corporativista dos médicos e da necessidade de o enfrentar, abrindo mais vagas para os cursos de Medicina. Aleluia. 

Claro que antes de atirarmos foguetes, primeiro é preciso ver se cumpre ou se não estará, uma vez mais, a cavalo de algumas medidas já engendradas e preparadas pelo PS. Mas, se levar adiante, e se, de uma vez por todas, se formar os médicos de que o País precisa, já não será mau.

Também vai dar um suplemento aos pensionistas com mais baixas pensões. À partida, é uma medida simpática. Mas, nestas coisas, às vezes é preciso ver o filme todo.  Já agora também seria simpático -- e justo -- que passassem a aumentar as pensões todas e não apenas as que são abaixo de 12 IAS. 

Mas se, na parte que vi, me pareceu genericamente bem, a verdade é que, às tantas, Montenegro teve um daqueles lapsus que me deixam cheia de comichões. No meio da frase saiu-se com um desconcertante será-lhe. Mas, vá, no calor do comício, a gramática às vezes vai para as calendas... Portanto, vou relevar. Mas vou ficar de olho.

______________________________________

É verdade... que é feito do PS? O Pedro Nuno Santos ainda anda a vender bolas de berlim na praia?

segunda-feira, junho 10, 2024

Europeias 2024 -- os quês e os porquês
Análise, partido a partido

 

PS - Com uma AD que deu origem ao actual governo -- um governo desgraçado, que tem revelado uma atitude videirinha, pacóvia, ignorante e chico-esperta --, seria expectável e razoável que o PS conseguisse uma distância mínima de 5% em relação à AD. Mas não conseguiu. 

E não venham dizer-me que o PS ainda está a arrumar a casa, a juntar os cacos (como ontem ouvi, na televisão, um débil mental a dizer). Qual desarrumação? Quais cacos? Acaso o PS estava desarrumado? Acaso alguém tinha partido a louça toda? Estão malucos ou quê? O PS estava a governar e bem, tinha a casa arrumada. Poderia estar ainda muito agarrado a velharias, gente ainda muito saudosa dos maravilhosos tempos que se seguiram à queda da ditadura, gente que continua a sonhar sobretudo nos amanhãs que cantam. Mas, tirando o aspecto da renovação que já era (e ainda é) indispensável, era um partido bem dirigido. António Costa era um líder inquestionável.

A razão residirá, isso sim, muito na forma como este PS de Pedro Nuno Santos se posiciona. Continua a querer ressuscitar a geringonça, continua a querer agradar ao eleitorado mais à esquerda, mesmo quando está mais do que claro que esse eleitorado já praticamente não existe. 

Além disso, Pedro Nuno Santos funciona na base do eucalipto: à sua volta, nada. E isso foi bem patente na forma como se apresentou agora a cantar vitória. Em vez de aparecer rodeado pela equipa dos deputados eleitos, não senhor, apareceu ele, ele e ele. E num lado a Marta Temido e no outro o Carlos César. Muito mau. Depois de ter corrido com uma mão cheia de deputados notabilíssimos, nem para com os agora eleitos teve o gesto de os levar para o palco.

Da mesma forma como na política nacional não se sabe rodear de figuras de enorme qualidade como Mariana Vieira da Silva ou Fernando Medina ou Duarte Cordeiro (e outros a quem António Costa soube valorizar). Parece apenas dar ouvidos aos geringônticos Alexandra Leitão (e, de certa fora, Mendonça Mendes).

Ao parecer querer livrar-se de todos os que eram figuras de destaque na governação de António Costa e ao parecer não saber compreender a nova realidade, o PS não sabe ir buscar um eleitorado novo nem sabe recuperar a classe média que se deslocou para a sua direita por não se rever neste PS que, com Pedro Nuno Santos, aparece aos olhos do eleitorado como anquilosado e encostado a uma esquerda moribunda.

Ouvi Pedro Nuno Santos anunciar que vão lançar uns novos Estados Gerais. Espero que daí nasçam novas ideias. Espero que percebam que não é com Carlos César e outras peças de museu ou com Alexandra Leitão e outros saudosos da Geringonça que vão conseguir contrariar a tendência descendente que se vem desenhando. De resto, também não sei se a noite eleitoral era o momento ideal para falar nisto. Sendo estas eleições europeias tão relevantes, Pedro Nuno Santos esqueceu-se disso e só falou de política nacional. Muito curto em termos de visão estratégica. O que ali vi foi sobretudo o PS a olhar para o seu umbigo, parece que incapaz de olhar para o que o rodeia e para o contexto europeu.

Espero que consigam mudar (para melhor) pois o País precisa de um bom partido social-democrata.

ººººººººººººººººººº

AD - Beneficiam da inércia e da deficiente informação dos eleitores tal como beneficiam do colo que a comunicação social lhes dá. Com Portas e Marques Mendes a fazerem campanha activa em horário nobre, ao domingo, em canal aberto (com a conivência da Comissão das Eleições) e com uma profusão de comentadores a manipularem a opinião política, conseguiram aguentar-se. Com o que têm demonstrado desde que formaram Governo, com um eleitorado bem informado e com um PS mais assertivo e inteligente, a AD teria levado uma banhada. Não levou. Mas é o que temos. De qualquer forma, penso que é uma questão de tempo.

Montenegro, na noite eleitoral, também não se lembrou de que se estava a tratar de eleições europeias. Não deve sequer saber quais os problemas europeus. Tudo o que disse me soa a conversa videirinha, saloia, a falar muito e sem acrescentar nada.

ººººººººººººººººººº

Chega - Felizmente sofreram um trambolhão. Gostava que lhes acontecesse qualquer coisa como a que aconteceu ao PRD, ou seja, que um dia destes o Chega acabasse. Mas não sei, não. André Ventura não acabará, arranjará maneira de andar por aí pois nitidamente tomou-lhe o gosto, é um populista que não vai ser capaz de parar. André Ventura é inteligente, é ubíquo, é uma máquina, e, como sabe lançar sound bites em permanência, a comunicação social não o larga e isso chama os eleitores. Mas, enfim, assim como assim, os eleitores souberam dar-lhe um chega para lá e isso talvez faça André Ventura refrear a sua energia destrutiva.

ººººººººººººººººººº

Iniciativa Liberal - Subiram e subiram bem. A democracia liberal é um caminho aberto e o eleitorado jovem e com sangue na guelra  bem como uma classe média informada e exigente que se vê abandonada pelos partidos do dito centrão dar-lhe-ão ímpeto para subir ainda mais. A nível europeu, o espaço da democracia liberal será, creio que cada vez mais, o oxigénio de que a democracia precisa para impor, com alguma modernidade e juventude, os seus valores, fazendo uma barreira contra o populismo e contra a direita reaccionária que tanto nos ameaça.

ººººººººººººººººººº

Bloco de Esquerda - Caiu e caiu bem. O Bloco é um partido que por vezes está bem mas, na maioria das vezes, está mal, sendo frequentemente populista, agarrando-se a causas marginais, assumindo atitudes justicialistas e arvorando-se em dono da verdade.

Na intervenção que tiveram a propósito dos resultados eleitorais, considero patética a sua  alucinação a cantar vitória, a rirem, às palmas, todas contentes como se não tivessem percebido que a sua representação se viu reduzida a metade. De loucos.

ººººººººººººººººººº

CDU -- Caiu e caiu bem. Continuam agarrados a ortodoxias de antanho, defendem já não se sabe bem o quê, não percebem que já não representam quase ninguém, ignoram tudo o que de novo e relevante se passa à sua volta. A intervenção de João Oliveira e do Raimundo é alienação em estado puro. Marimbaram-se para a política europeia (realidade que, a bem da verdade se diga, lhes passa ao lado), marimbaram-se para os temas mais relevantes da actualidade e sorrindo de gosto, eufóricos, cantaram vitória e reincidiram na única e estafada lenga-lenga que conhecem. Já vão em 4% dos votos, só conseguiram um deputado, e ali estiveram, contentes como se tivessem ganho as eleições. Não sei se isto deve ser visto como uma perturbação do foro psicológico ou cognitivo mas alguma é.

ººººººººººººººººººº

Livre -- Tenho pena que não Francisco Paupério não tenha sido eleito. O Livre é uma esquerda moderna, ambientalista, humanista, informada. Como tenho vindo a dizer, acho importante que haja uma esquerda inteligente, informada, aberta aos novos temas. Gostava que, em Portugal, o Livre crescesse pois a democracia precisa de partidos assim. E a Europa precisa também de vozes jovens, civilizadas, democráticas, abertas ao futuro.

ººººººººººººººººººº

Abaixo, as Primeiras impressões

sexta-feira, junho 07, 2024

Antes que se entre em período de reflexão, se é que isso ainda existe, informo já que, desta vez, não vou votar no PS
[Acho que seria escusado dizer mas, para que não fiquem a pairar quaisquer dúvidas, claro que não é no Chega]

 

Depois de aturada reflexão, achei que tinha que ser consistente nos actos face ao que pensava. Concretizo:

  • Não gosto de ver que algumas das vozes mais relevantes do PS estejam reduzidas a uma injustificada insignificância (ex: Mariana Vieira da Silva, Duarte Cordeiro, Ana Catarina Mendes, etc.), 
  • não gosto de ver a razia que foi feita na lista das Europeias, afastando deputados de reconhecida qualidade e centrando toda a campanha em Marta Temida (não obstante ser uma respeitabilíssima socialista e uma ministra da Saúde a quem muito devemos) e não dando qualquer voz a outras pessoas de igual qualidade, 
  • não gosto da escolha de Alexandra Leitão para líder parlamentar pois é palavrosa para além da conta e tem um pensamento que não descola da Geringonça, 
  • não gosto de ver o PS a pautar a sua actuação política encostado às ideologias do PCP e do BE, tratando a classe média como se fosse uma seita de privilegiados que importa castigar.

Considero que com estas escolhas e estas atitudes, o PS está a fazer uma deficiente oposição a uma AD que é tragicamente incompetente (e saloia e chica-esperta e burra) e a deixar a descoberto a defesa de uma classe média amiga do desenvolvimento, dos valores humanistas, da liberdade, classe média essa que deveria ser acarinhada pois é, e sempre foi e sempre será, o verdadeiro motor da economia. Ao actuar assim, este PS está a deixar espaço para quem o queira ocupar.

Portanto, em coerência com o que penso, nestas eleições vou mandar o PS às urtigas e vou votar num outro partido que me parece civilizado, europeísta, humanista, com ideias arrumadas, sem estar preso a geringonças ou a ideias antiquadas, capaz de pôr o pedal no desenvolvimento inteligente da sociedade. 

Devo dizer que deixei o meu marido estupefacto. E percebo-o. Mas as coisas são como são e eu penso que a inteligência está em sabermos interpretar as circunstâncias, em avaliar alternativas, em avaliar o que melhor se adequa ao que defendemos. Não há escolhas bacteriologicamente puras, não há partidos perfeitos, não há pessoas ideais. Mas é face às condicionantes e aos momentos que vivemos que deveremos equacionar qual a melhor resposta para se alcançar o que parece ser o melhor caminho.

Portanto, num salto quântico que deixou o meu marido em total estado de perplexidade, vou votar em quem nunca votei (nas legislativas, que me lembre, sempre votei PS) e em quem há algum tempo não me passava pela cabeça que viesse a receber o meu voto. Não o faço por impulso ou por uma reacção emotiva: faço-o racional, conscientemente. E, como sempre, decisão tomada, é decisão concretizada. Não volto atrás.

É isto.

quarta-feira, março 13, 2024

Foi o Marcelo? Foi a Lucília? Foi a Comunicação Social...? Sim, foram eles todos.
Mas... e agora, o que fazer? Fazer coro com o Chega para deitar o governo da AD abaixo...?

 

O que eu digo, disse-o hoje António Costa. As legislaturas, em princípio, são para cumprir. Nesse sentido, não me parece que, a menos que a AD esteja a propor asneira da grossa, o PS se coloque ao lado do Chega para deitar o Governo abaixo. Se a AD estiver a executar o seu programa, para o qual supostamente terá legitimidade e, do que propõe, não houver consequências gravosas para o País, penso que é mais inteligente o PS abster-se do que andar feito baderneiro a votar contra só porque sim. O papel de chantagista e arruaceiro deve ser deixado para o Chega.

O PS deve portar-se com idoneidade, com inteligência, com respeito pelos cidadãos e percebendo que, em aspectos críticos e estruturantes, pode ser vantajoso para o País que haja, com o PSD/AD, pontualmente, pactos de regime.

Chamo ainda a atenção, e repito-me, para o facto de que o PSD está a herdar uma situação assaz confortável podendo fazer flores que agradarão ao eleitorado. Quem impeça o governo de as pôr em prática será forçosamente mal compreendido por grande parte da população. O PS pode e deve chamar a atenção para o que for pertinente mas, se as medidas estiverem no programa do Governo e não forem de lesa majestade, será preferível que se abstenha e as deixe passar.

Esta é a altura para a cabeça fria, para a inteligência racional. Repito: não é altura para revanchismos, para pensamentos regados a testosterona, para clubites ou ajustes de contas.

Esta é a altura para interiorizar que o primeiro milho é para os pardais. 

O Chega, se lhe dermos corda, vai mostrar, mesmo aos mais cegos, que é um bando de oportunistas, de vira-casacas, de gente impreparada, ressabiada, reaccionária, muitas vezes boçal. A população que votou neles precisa de perceber que votar em gente que diz uma coisa e o seu contrário, que promete tudo e um par de botas, e que assenta a sua actuação no princípio de que os 'outros' não prestam, vai acabar por perceber que a os do Chega não apenas fazem parte dos tais 'outros' como são do pior que a sociedade produz, são o verdadeiro rebotalho.

Outro aspecto: não é claro para mim que o PSD tenha mais votos que o PS no final da contagem mas é claro para mim que, se o PS formasse Governo, a AD, o Chega e o Presidente Marcelo não o deixariam governar.

E ainda outro aspecto: concordo que quem tramou tudo isto foi Marcelo. E foi o Ministério Público. Mas foi também a Comunicação Social. E foi a campanha massiva das redes sociais capitaneadas pelo Chega e pelos movimentos que o apoiam (e era bom que tal fosse investigado). E foi o movimento corrosivo dos professores, dos médicos, dos polícias, movimentos corporativistas, certamente infiltrados por gente que, cavalgando o legítimo descontentamento dos seus profissionais,  quer a baderna, a confusão.

E quando, lá em cima, me refiro a 'isto' refiro-me à instabilidade sistemática, explícita ou implícita, que os acima referidos foram instilando na opinião pública, refiro-me ao clima de suspeição malsã contra incertos (todos os 'poderosos', todos os 'políticos' em geral), refiro-me à maledicência generalizada, refiro-me à omissão pelos inquestionáveis bons resultados que os Governos de António Costa obtiveram apesar da conjuntura desgraçada.

Mas se houve um caldo social que criou a apetência, por parte dos eleitores, pelo voto num partido que é um saco de vento e de sound bites populistas e incendiárias, a verdade é que há, e isso há que humildemente aceitá-lo, um fundo real de justificação para que parte da população tenha votado no Chega e isso deve ser escalpelizado e estudado com objectividade.

Não valerá tanto a pena perder muito tempo com os ignorantes, os burros e os ressabiados crónicos, gente de todos os estratos sociais, já que são, na maioria, casos perdidos, mas vale a pena perceber os fenómenos de não inclusão, de marginalização, de grandes dificuldades que parte da população enfrenta bem como os casos de jovens que não valorizam a democracia e a liberdade nem o bem comum e que, acefalamente, vão atrás de quem mais parece um dirigente de uma claque futebolística. E compreender isso e avaliar a melhor forma de lidar com isso é trabalho a que o PS deve dedicar-se.

A Mortágua, toda sorrisos, esquecida do seu lado de justiceira castigadora e esquecida das vezes em que o Bloco se juntou a quem calhou para impedir o PS de governar ou para vetar orçamentos socialistas, agora anda a bandear-se para o lado do Pedro Nuno Santos, a querer conversinhas com a CDU, com o Livre e com o PAN. Espero bem que o PS a mande dar uma grande volta. Há que não esquecer que quem gosta do BE e da CDU vota neles e que, no conjunto, valem 7% dos eleitores. São, de facto, dois pequenos partidos, partidos de nicho. Não é com eles que o PS deve perder tempo.

O PS deve reorientar-se por si. Como aqui o tenho defendido, deve abrir-se à sociedade, perceber como melhor colher os reais anseios da população e como melhor comunicar com ela nesta era das redes sociais e da comunicação directa e em tempo real. Dos agentes políticos actuais, vejo, e repito-me, que seria proveitosa uma aproximação com o Livre.

Não tenho falado muito na AD que, aparentemente, vai formar Governo. Não sei o que vai sair dali, não sei quem vão ser os ministros, não sei se vai ter pernas para andar. Espero que não vá desencantar múmias, gente de má fama. Seja como for, se um eventual Governo AD for cumprir o programa com o qual ganharam os votos, é legítimo e democrático para quem está na oposição fazer uma política séria, construtiva e civilizada.

A par do Crescimento Económico e da Fiscalidade, temas basilares e centrais que tem inúmeras derivadas, há os temas emergentes. Os temas da Saúde, do Ensino ou da Segurança estão longe, muito longe de se extinguir nas questões sindicais: há temas de fundo, de organização, de modernização, de reformulação de práticas. E são temas que têm que ser agarrados de forma séria, racional, ponderada, urgente e, não menos importante, musculada. A AD terá as suas ideias e é bom que sejam válidas e, se o forem, que seja bem sucedida a implementá-las. Mas o PS, mesmo que na oposição, tem a obrigação de estar na linha da frente do estudo de soluções para tão graves problemas. O País saberá reconhecer quem se interessa pela resolução séria dos seus problemas.

_____________

Podem tresler o que escrevi, podem acusar-me de tudo e mais alguma coisa mas já sabem que me dá igual. Penso pela minha cabeça e, perdoem-me a imodéstia, não me considero mentecapta. 

Pelo contrário, vê-se o resultado que conseguiram os que acham que o caminho é o da viragem à esquerda (ou seja, convergir com os 7% do eleitorado). E, quanto aos que acham que, a partir de agora, a actuação correcta é o bota-abaixo, em concorrência com o Chega, também acho que estão altamente equivocados. O Chega, afinal, também apenas obteve 18%. Há todos os outros eleitores que não vão nas cantigas e não se reveem nas práticas do Chega. 

Mas o tempo o dirá.

terça-feira, março 12, 2024

E agora? Que faremos com estes resultados...?

 

Em 2015, o Bloco e o PCP valiam 18,4% do eleitorado. Isso correspondeu a 36 deputados. Apesar de tudo, tinham uma expressão não negligenciável.

Agora valem apenas 7,7%. Menos de metade do que era naquela altura. Dizendo de outra maneira: mais de metade das pessoas que se reviam nas políticas do PCP e do Bloco mudaram de ideias, fartaram-se.

Ou seja, a esquerda que eles representavam é hoje marginal. 

Hoje são 9 deputados (num total de 230). Ou seja, na verdade são apenas 4% dos deputados da Assembleia. Sejamos objectivos: quase nada.

Isto significa que a sociedade tem vindo a cansar-se e a desiludir-se do que o PCP e o Bloco têm para oferecer.

O eleitorado privilegia agora outras coisas. 

O eleitorado deslocou-se para o centro. 

O PS perdeu também eleitorado para a direita.

Por isso, o PS deverá perceber que o eleitorado tem hoje outras aspirações, diferentes das de há uns anos. Hoje o eleitorado já não quer ver-se livre da austeridade, do láparo, dos vestígios do cavaco, naquela gente que vendia o país ao desbarato. 

A página foi virada e os problemas, reais ou percepcionados são outros. Hoje as pessoas querem estabilidade, qualidade nos serviços (educação, saúde, segurança), quer retorno do resultado do seu trabalho (melhores rendimentos e uma carga fiscal menos pesada), quer qualidade de vida. 

Por isso, sempre que a conversa for dirigida para o que era o eleitorado de esquerda em 2015 falhará o objectivo de cativar mais eleitorado.

Quanto ao Livre, penso que é diferente. Rui Tavares mostra-se europeísta, civilizado, uma esquerda 'moderna', não caciquista, não anquilosada, não justicialista. A população urbana, que dá valor á democracia, à liberdade, a causas humanitárias e ambientalistas, tende a rever-se no programa do Livre. Os eleitores do Livre, em meu entender, não vêm do Bloco ou do PCP mas sim do PS.

Por isso, aqui referi que teria sido inteligente se o PS e o Livre tivessem feito uma aliança pré eleitoral. Haveria menos votos perdidos por via do método Hondt.

Não o fizeram antes das eleições mas estão ainda a tempo de se aproximar e pensarem em conjunto o futuro.

____________________________________________

No rescaldo destas eleições antecipadas, o PSD/AD está a herdar uma situação fértil. O PS fez um trabalho fantástico (que o PS e Pedro Nuno Santos não souberam louvar e divulgar de forma eficiente). Hoje há dinheiro em caixa (o défice é mínimo ou inexistente), há dinheiro nos cofres (há uma almofada, ie, reservas), há dinheiro a cair (do PRR). Portanto, a AD tem margem para fazer as flores que quiser. Tem margem para pôr em prática medidas que vão impressionar muito favoravelmente parte do eleitorado tradicional do PS bem como muito do eleitorado do Chega. 

E pode, se assim o entender, pôr em prática as suas medidas eleitorais sem ter que submeter um Rectificativo a votos.

E, portanto, pode seguir até ao OE 25 sem grandes sobressaltos.

Mas, se a AD for antes a votos, à luz da leitura que hoje faço dos factos, eu, se fosse ao PS, apostaria na abstenção, deixando o Rectificativo passar. E isto porque se um Rectificativo chumbasse e se se entrasse numa crise com novas eleições ainda este ano, não vejo como é que o PS poderia melhorar os seus resultados pois parte do eleitorado, que sentia que iria ser beneficiado com as medidas da AD, penalizaria quem chumbasse esse Orçamento. 

O que o PS deve fazer agora é perceber como deve reorientar a sua estratégia. Para começar, deve ver-se livre do que ainda subsiste de aparelhismo, de assessores e da lógica ainda instalada dos jobs for the boys. E depois deve orientar-se para o que os eleitores realmente querem: estabilidade, qualidade de vida. Os mais jovens querem condições para ter filhos e para poder proporcionar-lhes uma boa vida. A população em geral quer segurança nas ruas e isso significa integração das populações mais marginais (imigrantes, nomeadamente), quer segurança a nível de saúde com Centros de Saúde e Hospitais funcionais, quer boas escolas e professores a cumprirem os horários, quer paz social.  Claro que os ordenados devem subir mas, para isso, o mundo laboral tem que deslocar-se para profissões mais especializadas, em que a produtividade seja significativa. E todos querem receber uma parte maior do que ganham já que hoje, em especial os que passam a ser um pouco mais que remediados, a carga fiscal é um peso que custa a aceitar. Se queremos que os que emigraram regressem e que os que estão a pensar sair não vão, temos que assegurar-lhes maior liquidez, seja por via de salários mais altos seja por um expressivo alívio na carga fiscal.

Depois há os pensionistas, uma fatia enorme de qualquer eleitorado. Aqui o que há a assegurar é que as pensões acompanham o crescimento da economia e que haverá igualmente um alívio fiscal. E, também aqui, que o SNS seja uma resposta efectiva às necessidades. Hoje é muito difícil. Em especial nos grandes meios urbanos, que são os que melhor conheço, é muito complicado. Dou o meu exemplo. Mudei de casa vai para quatro anos e não consegui mudar de médico de família pois, onde agora vivo, não há médicos de família disponíveis. Mas com o meu também não é fácil pois, se marcar hoje uma consulta, só tenho vaga para Junho. E não é um exemplo inventado, é a realidade. E um dia destes vou fazer exames. Se alguma coisa não estiver bem, tenho que esperar por Junho ou, em alternativa, ir às oito da manhã, ou antes, para arranjar vaga para o dia, podendo ser atendida por um qualquer médico. Se estiver com alguma coisa que requeira análises ou RX tenho que ir para as Urgências do Hospital sujeitar-me a longas horas. Sei pelo que passei diversas vezes com os meus pais. Como tinham seguro, por vezes fomos para o Privado e aí, claro, as condições são outras. Ora é indispensável reorganizar todo o SNS por forma a que a resposta do SNS seja equivalente à dos Privados. Se enfrentar horas de espera, estar estendido horas a fio em macas em corredores pejados de gente, em que a privacidade e a dignidade das pessoas é posta em causa, é muito mau para toda a gente, ainda é mais ingrato para pessoas frágeis, de idade.

E é também indispensável que se perceba que essa larga faixa eleitoral é composta por uma população felizmente a viver até cada vez mais tarde em que o pão nosso de cada dia são os problemas complicados. E, por isso, deve haver mais Unidades de Cuidados Continuados ou Paliativos e deve haver muito mais Residências assistidas, dignas, com qualidade, e a preço acessíveis. Hoje a oferta com alguma qualidade é caríssima (acima de 3.000€/mês, o que não está ao alcance da maioria da população). 

Para além disso, há as grandes questões de fundo: a demografia e as alterações climáticas.

Por isso, o PS tem muito em que pensar. Tem que se reorientar e tem que ter tempo para isso.

Não sou de clubites nem tenho testosterona a correr-me nas veias em vez de sangue. Penso com a cabeça e não com as hormonas. Quero paz e desenvolvimento e não guerra e ajustes de contas.

Assim, acho que é de deixar a AD fazer o que se propôs e para o qual recebeu os votos dos eleitores (e que se entendam ou deixem de se entender com o Chega). Ou seja, que não possam alegar que não podem satisfazer as aspirações dos eleitores por culpa do PS.

A política, em meu entender, requer políticos que, no dia a dia, pensem no melhor para os cidadãos, e no médio e longo prazo, no melhor para o País. Requer políticos que pensem sob diferentes perspectivas, que estudem as matérias, que planeiem as suas medidas e avaliem os seus impactos.

Com uma abertura ao futuro, com generosidade, com abnegação pessoal, com os pés na terra e com uma proximidade atenta aos cidadãos, será possível ao PS preparar-se para as próximas eleições.

Se souberem ser uma oposição ponderada, bem informada, bem intencionada, próxima das pessoas, serão reconhecidos.

É o que eu penso.