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sábado, dezembro 13, 2025

Rosalia e as visões de Hildegard von Bingen

 

Ia ouvindo falar dela, mas o facto de meio mundo o fazer bem como o nome fizeram-me pressentir que fosse a Ágata lá do sítio, claro que versão 'antes' (porque Rosalía é uma flor a desabrochar, com metade da idade d'a gata madura). Afinal, convém não esquecer aquela coisa do What's in a name? Rosalía...? 

Mas um dia ouvi-a e deixei-me ficar a ouvir. Talvez houvesse ali uma qualquer coisa. 

Há pouco, o algoritmo, que antecipa os meus gostos e dúvidas, apareceu-me com ela e, ainda por cima, com o selo de qualidade do Bial. E, quando ela falou da freirinha da minha eleição, Hildegard von Bingen, pensei que talvez seja mesmo melhor pôr de lado os preconceitos e ouvi-la com alguma atenção.

Pedro Bial entrevista Rosalía | Conversa com Bial 04/12/2025

O clima da entrevista foi ao mesmo tempo intimista e universal — com toques de espiritualidade, reflexões artísticas e trocas sinceras sobre identidade musical, gênero, cultura e pertencimento. Para quem acompanha a carreira da cantora, o episódio representa uma poderosa declaração artística: Rosalía reafirma sua versatilidade e ambição, abraça referências ao redor do mundo e desafia o que se espera de uma popstar contemporânea.

Em síntese, a edição de 04/12/2025 do “Conversa com Bial” com Rosalía fez jus à sua reputação de programa de fôlego — uma conversa que mistura espetáculo, pensamento e emoção, e que entrega aos espectadores muito mais do que uma simples entrevista: um mergulho na alma de uma artista global em plena reinvenção.


Vou ouvi-la com outros olhos

ROSALÍA - Berghain (Official Video) feat. Björk & Yves Tumor


E votos de um bom fds

quinta-feira, outubro 16, 2025

Fazer graça com qualquer coisa

 

Tenho um amigo que está sempre a enviar-nos piadas, vídeos engraçados, anedotas de toda a espécie. Toda a gente o acha o maior dos pândegos. Ao vivo, sempre que a ocasião se proporciona, sai-se com uma. Na maior parte das vezes, rio-me não da piada em si mas do despropósito, da inconveniência, da inoportunidade. Vejo que ele fica contente quando nos vê a rir e não acredito que se aperceba de que é que nos estamos a rir. Mas estou a falar no plural e devia falar só em mim pois eu sei porque é que rio mas não sei porque o fazem os outros. Se calhar, riem-se da piada em si.

Acresce que aquela sua falta de sentido de oportunidade vale para tudo, para o humor ou para o drama. Há tempos, num jantar, a mesa cheia, eu de um lado da mesa e ele lá ao fundo, chama-me para me perguntar se me lembro de fulano de tal. Digo-lhe que sim, claro. Então, inopinadamente começa a falar-me dele, do seu feitio que foi ficando cada vez mais difícil, que volta e meia tinha coisas que deixavam os outros de cara à banda, tal o excesso, coisa à beira da histeria. Numa dessas vezes, ao ver-se no meio daquelas reacções furibundas, ocorreu perguntar-lhe se já alguém o tinha mandado fazer um tac à cabeça. O outro, muito espantado com o despropósito da pergunta, até esfriou o assomo em que estava. E ele, ali mesmo, lho prescreveu. Pois, imagina tu, contou-me ele lá da ponta da mesa -- uns estupefactos com a conversa, outros nem se apercebendo e continuando na deles -- que tinha mesmo um tumor. Eu de boca aberta, nem sei se pelo diagnóstico se pelo despropósito daquilo. Indiferente à minha reacção e à dos que estavam a prestar atenção, continuou descrevendo a localização do tumor, inoperável, estás a ver, ali não dá para mexer, e o que aquilo era, oh pá, um tamanho..., continuou ele. Eu sem saber se era suposto manifestar o meu desgosto pela pouca sorte da localização do tumor do outro nosso amigo, se o meu espanto por aquilo estar a vir à conversa, ali, naquele momento, a meio de um jantar, sem vir a propósito de nada. Mas ele continuou com a minúcia de quem ficou também transtornado com a pouca sorte do amigo: e espalhado, espalhado. E continuou com pormenores mais precisos. E acrescentou: nem sei porque me lembrei de lhe perguntar aquilo do tac, mas lembrei-me, estás a ver? Quase parecia arrependido de ter tido aquela ideia que, até a ele, lhe parecia quase peregrina. Só consegui abrir a boca para dizer: pois, coitado, eu sabia que ele tinha morrido mas não sabia desses pormenores... E fiquei aflita sem saber como continuar. Não ia continuar no mesmo registo, mantendo aquela interrupção dramática no meio de um jantar que decorria leve, divertido, todos bem dispostos. Mas, ao mesmo tempo, depois daquele drama, ia chutar para canto e desviar para um tema levezinho e sorridente? Fiquei naquele impasse até que alguém resolveu a coisa por mim, puxando um tema que não tinha nada a ver e fazendo de conta que aquela conversa não tinha tido lugar. Ele próprio pareceu agradecido por ter sido desviado do tema escuro em que nos tinha mergulhado. Mas, pouco tempo depois, já estava outra vez a dizer piadolas, algumas mais próprias de um adolescente com as hormonas aos saltos do que um homem feito e com a descendência espalhada pelo mundo.

Isto tem a ver com a maneira de ser de cada um. 

A convidada do Bial, Tata Werneck, que já conhecia vagamente de uma novela e a quem tinha achado piada, parece ser dessas pessoas que tanto entra num registo pesado, cheia de medos, carregando traumas e fobias, como, logo de seguida, passa para um registo divertido. Talvez não seja inoportuna ou inconveniente como o meu amigo mas também ainda é jovem, não se sabe como será quando tiver a idade do meu amigo e tiver passado aquilo por que ele já passou.

E o que eu vejo é que o Bial se ri a bom rir com o que ela diz. E eu gostei de ver e ouvir.

Pedro Bial entrevista Tata Werneck | Conversa com Bial

No Conversa com Bial, Pedro Bial recebe a atriz, apresentadora e humorista Tata Werneck para uma entrevista divertida, emocionante e cheia de boas histórias. Tata fala sobre carreira, maternidade, vida pessoal e os desafios de equilibrar humor e emoção em sua trajetória


Desejo-vos um dia feliz

quarta-feira, setembro 10, 2025

Ro Ro, ou a graça das mulheres-meninas

 

Confesso a minha ignorância: nunca tinha ouvido falar em Angela Ro Ro. Mas devota do Bial como sou, se ele a leva às suas gostosas conversas, eu estou lá. Portanto, pus-me a ouvir.

E, à medida que a ouvia, risonha, provocadora e engraçada como uma adolescente, mostrando continuar sequiosa de vida e diversão, pronta para os amores, ia-me lembrando de uma amiga que é assim. Muito, muito assim (apenas com a diferença de que Angela Ro Ro é gay e a minha amiga é hetero).

Tal como vejo, pela entrevista, que Angela Ro Ro tinha a fama de ser uma malandreca, também a minha amiga, quando entrou a sério na adolescência, virou uma bela safadinha. Tinha fama de alta namoradeira ou mais que isso, fazia coisas que, por vezes, me deixavam um bocado perplexa, sobretudo por achar que ela caía com demasiada facilidade nos braços errados. Mas ela não me ouvia. Não ouvia ninguém. Parecia tomada por uma urgência de experimentar tudo, de quebrar todos os tabus.

Mas, à posteriori, vim a verificar que, afinal, era muita parra e pouca uva. Muitas aventuras, muitos empolgamentos, e, depois, muitas decepções, muitos desgostos. Conta que foi várias vezes traída. No fundo acreditava demais em quem, se via à légua, que não merecia qualquer crédito. Mas ela não via o mesmo que os outros. Olhares racionais e objectivos não eram com ela, toda emoção, toda inocência.

Talvez por isso ou talvez porque a vida, por vezes, prega partidas a quem não o merece, amores verdadeiros, grandes, intensos, duradouros, que não a fizessem sofrer, não os teve.  

Mas não ficou ressentida nem desanimada. De facto, ainda agora continua a ser tal como se descobriu quando, adolescente, resolveu abraçar a vida sem reservas: alegre, brincalhona, sedutora, irreverente, com uma tremenda vontade de amar e de ser amada, a mesma adorável adolescente. E... continua a dar com os burrinhos na água pois continua a atirar-se, sem reservas, para os braços de quem não tem condições de retribuir a paixão. No entanto, continua, sorridentemente a acreditar que o melhor ainda está para vir, a correr atrás da sorte, do amor, da paixão. E eu, do mais fundo do meu coração, desejo que um dia encontre alguém que a ame como ela, desde sempre, desejou ser amada.

A voz INESQUECÍVEL de Angela Ro Ro | Conversa com Bial | GNT

No #ConversaComBial , uma homenagem especial à icônica Angela Ro Ro, cantora e compositora que marcou a MPB com sua voz potente e canções inesquecíveis.

Com uma carreira iniciada nos anos 70, Angela deixou clássicos como Amor, Meu Grande Amor e Compasso, tornando-se referência de autenticidade e emoção na música brasileira.



sexta-feira, agosto 29, 2025

Felca, o Senhor Influencer

 

Virou a mesa, destapou a tampa, atirou a bomba para cima da mesa. Mais de 49 milhões de pessoas já viram o seu vídeo Adultização. É obra. Na sequência na sua denúncia pública, já se legislou e a polícia já actuou. 

Ao ver este jovem (tem 27 anos) com uma figura algo bizarra a agir de forma tão determinada e corajosa, a demonstrar um sentido ético de responsabilidade cívica, fico a pensar que isto, sim, isto é um influencer a sério.

O tema que ele estudou e denunciou é tema que a mim me revolve as entranhas, me petrifica, me assusta a sério pois é como uma onda gigante a que dificilmente se consegue resistir caso nos passe por cima, ou, pior, se passar por cima de crianças. A única coisa a fazer é fugir, não estar por perto. Mas não é fácil pois o poder dos algoritmos e a difusão generalizada das redes tornam os perigos grandes demais.

Felizmente alguém como um improvável Felca -- e digo isto na maior ignorância pois só recentemente sobre a sua existência -- veio denunciar a exposição de crianças e adolescentes nas redes sociais, muitas vezes pela mão dos próprios pais, a adultização, a exploração a chantagem, os riscos tremendos das redes sociais que colocam os indefesos na rota dos predadores, dos pedófilos, dos criminosos de toda a espécie.

Sobre o Felca, transcrevo da wikipedia:

Felipe Bressanim Pereira (Londrina, 25 de julho de 1998), mais conhecido como Felca, é um youtuber, influenciador digital e humorista brasileiro. Conhecido por seus vídeos de reação e sátiras de tendências da internet, começou sua carreira como streamer em 2012, produzindo vídeos de jogos eletrônicos. Com o tempo, reformulou seu conteúdo e passou a criar vídeos humorísticos, principalmente com tom autodepreciativo.

Ganhou notoriedade em 2023 ao testar a base "We Pink", de Virgínia Fonseca,[1][2] e com vídeos criticando lives de NPC no TikTok,[3] que lhe renderam 31 mil reais, doando todo o valor arrecadado para instituições de caridade.[4] Em 2025, desmantelou uma rede de exploração sexual de menores com um único vídeo sobre adultização,[5] no qual denunciou várias pessoas associadas à exploração sexual de menores de idade na Internet, entre elas, o influenciador Hytalo Santos, que perdeu sua conta no Instagram após a repercussão negativa, e rendeu debates sobre a criação de leis para combater a exploração sexual de menores na Internet. (...)

Mas calo-me já e partilho uma conversa elucidativa na qual Bial eleva ainda mais o Felca a figura pública de excelência. 

Felca à conversa com o Bial sobre Adultização  


E, claro, aqui está o vídeo Adultização que, por muito que nos custe, tem mesmo que ser visto (a bem da compreensão deste fenómeno e a bem da defesa das nossas crianças e dos nossos jovens)

Adultificação



domingo, agosto 10, 2025

A vida dos muito ricos

 

Não sou mas conheço alguns. Nunca aparecem nas revistas. Nunca aparecem na televisão. Raramente vão aos restaurantes da moda. Raramente vão às praias da moda.

Geralmente estão nas suas casas. Um deles tem uma casa de férias, dizem que 'normal', ou seja, nada daquelas villas que ostentam fortuna por todos os poros e janelas, numa aldeia perto da costa vicentina. Dizem que vai, de calções e chinelos, ao minimercado mais perto, geralmente comprar peixe para assar. Digo 'dizem' pois nunca ninguém viu, foi um irmão que uma vez comentou isso e, quando contra-comentaram que ninguém lá deve desconfiar quem ele é, respondeu que claro que não, ninguém sonha. Esse que comentou, outro igualmente rico, também é especialista em churrascos. Gosta de assar peixe e carne não apenas para a família como para os amigos. Se lhe perguntarem se conhece algum daqueles restaurantes super estrelados dirá que isso não é para ele. Quando se vai ao restaurante com ele, não apenas escolhe restaurantes 'normais' como, no fim, se é ele que paga, no fim põe os óculos e está meia hora a olhar para a conta e a conferir se não puseram uma água ou um queijinho a mais.

Um desses muito ricos, quando em ambiente informal, em casa, mesmo que com convidados, no inverno usa geralmente um pullover de lã que é mais comprido de um lado do que outro, de tricot, já todo 'pendão' e com um ou outro buraco, de tipo malha caída. Todos os anos usa o mesmo pullover, gosta dele e acha que está bom, que não faz sentido deitar fora. 

É gente que parece ser despojada. Parece, mas não é. Pelo contrário são até forretas, 'poupadinhos'.

Uma vez vim ao lado de um deles numa viagem de avião. Tinha comprado uns charutos na freeshop. Vínhamos na conversa e, às tantas, quis ver o que eu tinha comprado. Quando viu a caixa de charutos, perguntou quanto tinham custado, e, pela entoação, foi quase como se achasse se eu tinha gastado dinheiro uma inutilidade, ainda por cima dispendiosa. 

As televisões e as redes sociais mostram-nos grandes hotéis, resorts de luxo, e, invariavelmente, estão sempre cheios. Mas não destes muito ricos, pelo menos dos old school. Aliás, do que conheço, penso que sentem um certo desprezo por esse jetset endinheirado que por aí anda gastando balúrdios e exibindo as suas férias, as suas toilettes, os seus luxos. 

Por exemplo conheço um que é rico, diria que bastante rico. Mas não é tão rico como os anteriores. Vai de férias todos os anos, duas semanas, para a Quinta do Lago, milhares como podem imaginar, e conhece todos os Belcantos desta vida, todos os vinhos renomados e envelhecidos, e frequenta torneios de golfe um pouco por todo o mundo e faz questão de ter sempre carros ultra topo de gama. Os primeiros, os muito ricos, de certa forma troçam, ainda que discretamente, com os luxos deste último, quase como se achassem que é coisa de gente deslumbrada. 

É grande a diferença entre o old money e o restante. 

Claro que há ainda as pessoas que conservam todos os hábitos do old money, porque em tempo o tiveram, apesar de já não serem tão ricos assim. Esses ignoram os novos-ricos embora, no íntimo, penso que invejem um pouco o seu sucesso e a sua ascensão, quase como se pensassem que são alpinistas socias que vêm ocupar, usurpar, o seu lugar na sociedade.

Pelos vistos os muito ricos do Brasil não são como os muito ricos em Portugal. Pelo que vejo no vídeo abaixo, não só gostam de ostentar a riqueza como acham que é pouca, que ricos são os outros. É uma questão cultural.

De qualquer forma, embora espelhando uma realidade diferente (pelo que ouço, os muito ricos do Brasil seriam considerados em Portugal novos-ricos), partilho o vídeo em que o Bial fala com um antropólogo que tem investigado a vida dos ricos.

Por que os RICOS OSTENTAM? Michel Alcoforado TE CONTA | Conversa com Bial | GNT

O antropólogo @‌michelalcoforado experienciou o mundo dos muito ricos através da chamada “observação participativa”, para entender como pensam, o que consomem e por que ostentam tanto.

No #ConversaComBial, ele explica como a riqueza no Brasil não diz apenas sobre dinheiro, mas também sobre poder, acesso e pertencimento. 

Desejo-vos um feliz dia de domingo

quinta-feira, agosto 07, 2025

Momento grande: Adélia conversa com Bial
-- Uma entrevista rigorosamente a não perder --

 

Desde que a descobri passou a ser companhia sempre presente na minha vida. Adélia Prado é daquelas pessoas luminosas de quem se pode dizer que é 'do bem'. Sorrindo, fala coisas sensatas, sábias, simples. Não é daquelas que se 'acha', não enrola a conversa em prosa armada. É daquelas pessoas com quem se aprende, com quem se ganham anos de vida, com quem apetece estar.

E o Bial é outro que tal. Todo ele cativa: sabe ouvir, sabe falar, sabe olhar. As entrevistas conduzidas por ele são conversas sempre gostosas.

Por isso, uma conversa entre os dois é maravilha pura. Conversam de tudo com aquela leveza, aquelas gargalhadas, aquele desassossego que alegra e rejuvenesce. Pode a conversa fluir em torno da morte, da vida, de sexo, de religião que as palavras não fogem nem se espantam. Adélia fala e Bial, embevecido, deixa-se ficar a ouvir. De vez em quando, parece que gostaria de ficar em silêncio, a pensar no que ela diz. Mas a entrevista tem que prosseguir e, então, lá vem mais uma questão. Outras vezes leem poesia e o prazer é redobrado: ambos parecem submersos nas palavras.

Esquecemo-nos da idade de Adélia, os seus 90 anos não pesam, não desgastam, não cansam: aqueles tantos anos luzem com graça e inocência, como as luzinhas do cenário em que se encontram.

Adélia Prado em "Conversa com Bial"

Adélia Prado, maior poetisa viva do Brasil e recém ganhadora dupla dos prêmios Camões e Machado de Assis, maiores honrarias prestadas a escritores de língua portuguesa pelo conjunto de sua obra, concedeu entrevista ao Pedro Bial, no programa "Conversa com Bial".

Prestes a completar 90 anos, a autora aclamada que publicou o primeiro livro aos 40 fala de suas experiências, de sua voz poética, de diferentes momentos da vida.




Dias felizes

sexta-feira, julho 18, 2025

Conversa em torno do abismo do não-ser

 

Fisicamente, Eduardo Giannetti é praticamente igual a um colega meu. Divertidíssimo, diziam-no pouco amigo de trabalhar mas, embora não o achasse um excepcional proactivo, dele nunca tive razões de queixa. Tinha como hobbies a fotografia e o cinema, participava em concursos e, em dias de evento, já sabíamos que podíamos contar com ele para registar o momento. E, ao pé dele, era forçoso que estivéssemos sempre todos muito bem dispostos. 

Não conheci a sua primeira mulher, por quem era apaixonadíssimo, sua comparsa nas fotografias e filmagens. Não tendo filhos, a disponibilidade de ambos para passeios e aventuras era permanente.

Até que um dia ela adoeceu. Para ele, foi um sofrimento terrível. Acompanhou-a incansavelmente.

Quando ela morreu, teve um grande desgosto. 

Fui ao velório. Como já contei, tenho pavor de mortos, é uma fobia que vem de quando era pequena. Nem entro na capela se a urna estiver aberta. 

Mas tendo feito centenas de quilómetros para lhe dar um abraço e estar com ele, seria estúpido não entrar. Só que a urna estava aberta. Portanto, não entrei mesmo. Saiu ele. E foi chamar a mãe para me apresentar, muito simpáticos. E começaram a contar-me os últimos dias dela, tudo envolto em ternura e tristeza. E, então, diz-me ele assim: 'Não quer ir ali vê-la? Está tão bonita. Está muito serena. E o cabelo... tão bonito...'. Quase me senti desfalecer. Pedi desculpa, disse que não conseguia, que me fazia muita impressão. Mas vi que ele ficou com pena que eu não fosse ver a defunta. 

Pouco tempo depois fui ter uma reunião com ele. Estava outro. Rejuvenescido, risonho, outra vez muito brincalhão. Tinham-me dito: 'Não me pergunte como é possível, mas é: o nosso colega já anda de namoro, todo in love.'. Fiquei estupefacta. Perguntei se era alguém conhecido. Não, nada. É que, se fosse colega, ainda me pareceria possível que, tão pouco tempo depois, já ele estivesse de namoro. Agora, em tão pouco tempo, desencantar uma desconhecida... Mas, então, fui ter ao gabinete dele. Em cima da secretária, numa moldura, uma fotografia de uma senhora toda desportiva, toda sorridente. Perguntei: 'Já soube da novidade e, pelo que ouvi dizer e pelo que aqui vejo, a coisa vai de vento em popa, já aqui tem a fotografia da namorada...'. Ele riu: 'Pois, não a quis ver lá na capela, não a conheceu... Esta não é a namorada, esta é a falecida...'. Fiquei sem saber o que dizer.

Mas isto só vem ao caso pois, ao ver o convidado do Bial, parecia mesmo estar a ver aquele meu colega bacano. Todo ele: o rosto, o cabelo, o corpo, os óculos, a forma como se veste. Iguais. Como é possível?

Mas vejam a entrevista, é outra daquelas conversas que nos deixam a pensar. Interessantes perspectivas.

É possível se tornar IMORTAL? Com Eduardo Giannetti | Conversa Com Bial | GNT

O economista e professor Eduardo Giannetti - e também autor do livro "Imortalidades" - vai ao #ConversaComBial para falar dos tipos de imortalidades sobre as quais escreveu. Aborda a pequenez dos seres humanos diante do desconhecido e como a crença na vida após a morte vai muito além da ciência, das tecnologias e da religião. 


Uma sexta-feira feliz

segunda-feira, julho 14, 2025

Dois Homens com H

 

Foi um domingo calmo, intercalando a leitura e os banhos de sol por períodos de alguma sonolência. Também andei a regar, pois se há coisa que gosto de fazer é de regar, de preferência descalça para sentir os pés molhados.

Não tive que cozinhar: comemos restos e mais um ou outro complemento. 

Ao almoço ligámos a televisão, mas não suportámos as más notícias. Bem sei que nos alienamos se nos afastarmos do que se passa no mundo. Só que se passam milhões de coisas boas mas se, no meio desse milhão, vier uma rajada de vento que levante uma telha, é nisso que os jornalistas se vão focar esquecendo tudo o que de bom aconteceu. O noticiário estava a ser uma sucessão de infelicidades, uma colecção de acontecimentos nefastos -- desistimos. 

Agora à noite, depois da nossa caminhada, o meu marido quis ver o futebol, era uma final, parece que tinha que ser nesta televisão. Fui para a outra sala. Posicionei-me nos Casados à Primeira Vista. E adormeci. Não sou capaz de dizer se vi alguma coisa pois, se vi, varreu-se-me instantaneamente.

De tarde pensei que hoje poderia escrever sobre o livro que estive a ler pois, lendo aquelas crónicas, uma opinião se vai formando sobre o que é a motivação, o móbil de vida de um editor, em particular aquele que ali vai desfiando memórias, Manuel Alberto Valente. Creio que o que dali depreendo explica muita coisa. Mas ando com um espírito que não sei se é vadio, se é veraneante, se é simplesmente preguiçoso... Por isso, deixo essa conversa para outro dia. E talvez seja mesmo melhor adentrar-me mais na leitura para não correr o risco de tirar conclusões precipitadas.

À noite, geralmente depois de escrever aqui, como escrever me obriga a estar de olhos abertos, aproveito para ver alguma coisa antes de ir dormir. Nos últimos dias tenho visto o Homem com H. Dado ser sempre tarde e dado estar com sono, tenho visto pouco de cada vez pelo que ainda me falta um bocado para acabar. Mas tenho estado a gostar de mais. 

Ney Matogrosso é um personagem extraordinário. E quanto mais o tempo passa mais extraordinário o acho. Há uns anos, embora gostasse muito de o ouvir, havia ali qualquer coisa que era tão extravagante que eu não sabia se era totalmente genuíno ou um certo gosto em provocar e essa dúvida levava-me a não aderir a cem por cento. Gostava, ouvíamos bastante, mas parece que ficava sempre ali a pairar a questão: ele é mesmo assim, tão superlativo e tão fora da caixa, ou há ali uma encenação que exagera o que ele é? Mas, quando evoluí, fui percebendo que isso era de somenos e que a dúvida, que era minha, não podia levar-me a olhá-lo com alguma reserva. Tinha era que aceitar sem questionar. 

Ney era um bicho, um bicho extraordinário, cantava maravilhosamente, tinha um reportório também fantástico -- e tudo isso tinha que ser suficiente para gostar dele sem qualquer reserva. 

E escrevi que ele era, escrevi no passado, só mesmo por burrice, pois ele está vivo, bem vivo, em forma, jovem, ninguém diria tratar-se de um octogenário. Aliás, olha-se, ouve-se e não se acredita. Afinal tantos excessos não lhe causaram danos, parece que bem pelo contrário, deram-lhe foi saúde.

Mas o filme, que tenho visto na Netflix, misto de filme e de documentário, não apenas retrata a vida de Ney Matogrosso em todas as suas dimensões, não apenas a artística mas a pessoal -- e, neste domínio, a activa e algo louca vida sexual (como ele diz, marchava tudo) -- como tem um intérprete que é igualmente fabuloso. 

Reproduz o Ney de uma forma perfeita, quase assustadora de tão perfeita. Segundo abaixo se verá, Jesuíta Barbosa perdeu 12 kg para reproduzir os 53 kg que Ney tinha nessa altura, estudou os seus trejeitos, os requebros, a forma de olhar e falar.

E há algo nele que parece estar desenhado para encarnar o espírito e a carnalidade de Ney. 

Ver para crer.

A quem tenha a oportunidade de mergulhar no filme, muito vivamente o recomendo. E, para abrir o apetite, aqui fica a conversa de Bial com ambos, a cópia e o original, dois homens extraordinários. E botem h nisso.

Pedro Bial entrevista Ney Matogrosso com participação de Jesuíta Barbosa | Conversa com Bial

No último Conversa com Bial (24/04/2025), Pedro Bial recebeu o icônico cantor Ney Matogrosso e o talentoso ator Jesuíta Barbosa, protagonista do filme Homem com H, cinebiografia que retrata a trajetória de Ney.

Desejo-vos uma boa semana a começar já nesta segunda-feira

Be happy

domingo, julho 13, 2025

Uma conversa entre duas pessoas que admiro, mas em que se fala em algumas coisas pouco agradáveis levadas a cabo por portugueses
... Outros tempos... outros tempos...

 

Apesar de tudo, apesar de ter servido 'buffet' variado -- e, feito por mim, apenas a sopa e a preparação das saladas --, a verdade é que por ir buscar comida aqui, ali e acolá, e se calhar pelo peso da idade ou por outra coisa qualquer, à noite, o sono avançou sobre mim à força toda. 

E os meninos até eram para ter dormido cá. Mas, afinal, um deles, apareceu com covid. Assim de repente, estando ele febril, houve que tomar uma decisão. Mas não foi difícil. O tempo este sábado já não esteve de chuva, do outono da véspera passámos para uma simpática primavera, pelo que esteve bom para almoçarmos ao ar livre. E o resto da tarde, tirando os rapazes do futebol que gostam de se fechar na sala a ver não sei o quê, futebol, vídeos ou cenas, estivemos sempre na rua. Portanto, apesar de o covid já não ser o bicho papão de há cinco anos, se pudermos evitar apanhá-lo melhor. Eu e o meu marido estamos convencidos que ficámos agarrados pelo long covid pois, depois de o termos, nunca mais nos libertámos do peso do sono que parece que continua a apertar connosco muito mais do que antes e muito mais que o razoável. O médico diz que há muita gente com estes sintomas e que se espera que acabe por ir passando.

Mas, meu rico menino, nada lhe tira o apetite. E, estando mais murchito, esteve menos reguila. Fofo, só me apetece dar-lhe beijinhos. Está um rapazinho crescido mas, claro, ainda longe dos primos que estão crescidos, uns homenzões grandes, de voz grossa, ou da mana, alta, uma belezura, ou como o mano que ainda não entrou propriamente na adolescência mas que para lá caminha com ansiedade, com vontade de ser grande, peludo e malandreco como os mais crescidos.

Agora à noite, quando ficámos só os dois, fomos fazer a nossa caminhada nocturna e, no regresso, depois de tratar de uns expedientes, sentei-me aqui e pimba, tiro e queda, adormeci.

Claro que não faço ideia do que se passou no país ou no mundo e, sinceramente, nem vou tentar saber. Não me apetece arranjar argumentos para me tirar desta doce paz de espírito em que me sinto tão bem.

Aqui ao meu lado, deitado no sofá 'dele' (sofá que os netos adoram, há sempre algum deitado no 'lugar do avô'), o meu marido dorme a sono solto. A esta hora já costuma estar na cama mas, desta vez, depois de ter ligado a televisão e posto no 24"Kitchen, adormeceu que foi um regalo. Como não me importo de ir ouvindo falar em noodles, couve chinesa cozida, anis estrelado, empratamentos elegantes e etc., não lhe digo para mudar de canal e deixo-o estar a descansar.

Nos últimos dias tenho acordado sempre mais cedo do que o habitual pois tem havido sempre algum afazer matinal e, como não continuo a não conseguir ir para a cama mais cedo (senão não prego olho), acumulei algum sono atrasado.

Por isso, hoje fico-me por aqui. Li os vossos comentários mas não tenho energia para escrever mais. As minhas desculpas.

Vou antes partilhar uma conversa entre dois comunicadores que, na medida das minhas possibilidades, vou seguindo: o charmosíssimo e empaticíssimo Pedro Bial e o médico que fala claro sobre tudo, Drauzio Varella. A conversa rola gostosa sobre vários assuntos, até que o tema da 'descoberta' do Brasil pelos portugueses e o que eles fizeram aos índios vem à baila. Interessante. Claro que tudo tem que se pôr em perspectiva, situar no tempo e no espaço. Não dá para pensar no que se passou, usando os cânones de agora.

MEDICINA, Amazônia e HISTÓRIAS | Conversa Com Bial | GNT

Em uma conversa profunda, Drauzio fala sobre seu novo livro "O Sentido das Águas: histórias do Rio Negro", uma obra que mergulha nas vivências das comunidades ribeirinhas da Amazônia. Ele também compartilha reflexões sobre a medicina como arte, seu compromisso com o cuidado humano e a importância de ouvir, com empatia, os relatos das pessoas por onde passa.

Desejo-vos um feliz dia de domingo

sexta-feira, junho 27, 2025

Nós somos a matéria dos sonhos mas somos também a matéria que sonha

 

As coisas vêm ter comigo. É aquilo de ir na rua e alguém, que não conheço, chegar ao pé de mim e começar a contar-me a sua vida. Ou estou com uma em mente, abro o youtube e, sem que antes tenha feito pesquisas (porque 'ele', o algoritmo google, poderia migrar informação do motor de busca genérico para o motor de busca do youtube), aparece-me um vídeo que tem tudo a ver com aquilo em que ando a pensar. Não sei porque é que isso acontece. Mas acontece. Coincidência ou coisa do caraças, eu não sei.

Sei que ando numa onda zen (o que V. poderão já ter testemunhado pelo que vou divagando por aqui e que os vídeos que tenho estado a publicar no instagram também demonstram) mas, quando abro o youtube, não vou à procura de nada. Limito-me a ver o que 'ele' tem para me mostrar. Gosto de ser surpreendida.

E abaixo já verão qual o vídeo que hoje estava em posição de destaque e que estive a ver até agora.

Chegámos a casa perto das dez da noite. Depois de nos instalarmos, pusemos a reportagem sobre o Sócrates. Falarei disso depois pois tenho que deixar assentar. A seguir abri, então, o Youtube.

Hoje tive mais um dia calmo, com arrumações domésticas, com caminhadas, com um passeio bom, e, pelo meio, com mais uma tentativa de prosseguir a leitura da biografia do Herberto Helder -- mas a achar aquele tijolo um repositório ora excessivamente detalhado ora desnecessariamente ficcionado --, a espreitar  'O outro lado dos livros', Memórias de um editor, Manuel Alberto Valente, e a achá-lo um bocado 'seco' (seco ou seca?), e, pelo meio, a olhar as árvores, a sentir o perfume das flores, a ouvir os passarinhos, a olhar o céu.

Fui buscar uma espreguiçadeira e levei-a para um sítio onde não costumo estar, debaixo de uma árvore onde antes nunca tinha estado a preguiçar. 

E foi uma maravilha, um encantamento, uma sensação de que eu poderia ser uma folha, um fruto a ganhar forma, um dos passarinhos que passarinha por aqui, uma pétala de rosa. Por acaso, sou esta que agora aqui escreve e que dá conta da perplexidade agradecida que sente por estar viva, por poder presenciar tanta beleza, tanta harmonia entre todos os elementos. 

E, com este estado de espírito, abro o youtube e dou com uma conversa entre o Bial e Marcelo Gleiser, um físico que me deixou fascinada a ouvi-lo.

Apetecia-me transcrever várias coisas que ele disse e que correspondem ipsis verbis ao que penso (ou que me deixam a pensar), coisas como estas duas aqui abaixo que podem não ser a última coca-cola do deserto mas que são grandes verdades (pelo menos a mim tocam-me bastante pois é destas evidências que parece que meio mundo anda esquecido):

  • Celebrar o privilégio de estar vivo neste mundo 

  •  Cara, acorda, você é feito de estrelas!

Somos feitos da mesma matéria que as estrelas, da mesma matéria que as árvores, há átomos de outras coisas e de outras pessoas dentro de nós. Somos magia, um acaso que, por milagre, se materializou em nós. 

O vídeo é um bocadinho longo mas acreditem que é interessante do princípio ao fim. Espero que gostem.

ESTRELAS, ÁTOMOS e mais com o físico Marcelo Gleiser | Conversa Com Bial | GNT

Um bate-papo que mistura ÁTOMOS, ESTRELAS, NATUREZA e o "mundo sobrenatural": o físico e astrônomo Marcelo Gleiser chega no #ConversaComBial para uma entrevista de expandir mentes.


Dias felizes

sexta-feira, novembro 01, 2024

Conversa gostosa entre desempoeiradões com mais de 60

 

Quando eu era mais nova tinha para mim que quem tinha mais de sessenta estava a caminho de ser velho, terceira idade pura e dura. 

Ainda me lembro de um amigo, uns anos mais velho que eu, ao fazer 60, me dizer 'sou daqueles de quem, se tiverem o azar de tropeçar e cair na rua, vão dizer que foi um idoso, um sexagenário caído no passeio'. E era.

Ainda me lembro bem da minha avó paterna que, antes dos 60, já me parecia uma velhinha. Ao contrário da minha avó materna que pintava o cabelo, se vestia de forma mais arejada, passava temporadas em Lisboa ou na Figueira da Foz ou em Faro em casa de primas ou primas de primas e tinha um aspecto mais 'conservado', a minha avó paterna, com o seu cabelo grisalho, o vestuário que seguia os seus critérios de adequação' à idade e os seus reumatismos que condicionavam a sua agilidade, sempre pareceu mais velha do que era (e creio que ela própria se sentia velha).

Agora que sou eu que já cá estou, vejo as coisas de outra maneira. Não sei bem como é que as vejo mas sei que os 60 vêm com uma boa dose de ingredientes diversos, grande parte deles bastante bons (tolerância, ignorância [sim, quanto mais velhos, felizmente mais ignorantes], etc). Claro que os há menos bons mas a gente desvaloriza.

Se os mais jovens assistissem às brincadeiras, às irreverências e ao gosto pela aventura dos meus amigos sexagenários ficariam muito admirados.

O algoritmo do Youtube, que me topa à légua, hoje tinha este vídeo que aqui partilho para me mostrar. E, na realidade, gostei de os ouvir. Conversa leve, solta, alegre, descomplexada. E o Bial é uma graça, um belo pedaço de homem.

Astrid Fontenelle fala como o ENVELHECIMENTO não abalou sua FORMA DE VIVER! | Conversa Com Bial


Dias felizes

sábado, setembro 07, 2024

Quando as coisas podem ser muito boas e muito más

 

Quantas vezes já aqui falei dos tremendos benefícios da Inteligência Artificial e dos tremendos riscos se não houver um apertado, sérios e muito rigoroso controlo na sua utilização? Muitas, muitas.

Sou assídua utilizadora do ChatGPT, uma das mais extraordinárias ferramentas de uso comum, ou de outros tipos de IA. Na Saúde a IA deve vir a proporcionar incríveis avanços. Mas em todos os ramos do saber se sentirá um incremento exponencial na precisão e na rapidez dos processos de decisão.

Mas os riscos, senhores, os riscos...

Se já estamos a ver os riscos de termos ferramentas de uso tão geral, tão ubíquo, tão intenso (como o X, ex-Twitter, o Facebook, o Instagram, o WhatsApp) nas mãos de gente estranha, auto-centrada, mais amiga de regimes autocráticos do que de regimes democráticos, gente que não respeita a legislação dos países em que opera, gente não por acaso apoiante de Trump, não será difícil antever os riscos de potentes motores de Inteligência Artificial nas mãos de quem se está nas tintas para regulações ou constituições 'locais'.

E uso a expressão 'locais' pois é assim que as grandes empresas tecnológicas que operam em vários países, em vários continentes se referem à legislação desses países. Respeitar as diferentes 'localizações' é daquelas maçadas a que se obrigam se contratualmente a isso estiverem vinculadas. Não o estando, é para o lado em que se deitam melhor.

No Brasil, exigiu-se que houvesse no Brasil alguém que respondesse pelo X. Não há como não há em quase todo o lado. E do Facebook há em Portugal? Ou do Instagram? Ou de tudo isso...? Um dia que se queira reclamar, bate-se a que porta?

A questão é que o Elon Musk se está nas tintas. Proibir  X no Brasil...? Está bem, está? Tecnicamente como é que isso se garante? 

Esta gente é fora-de-lei, é gente que pensa de outra maneira. Não querem saber de danos colaterais, não querem saber de problemas éticos, de questões constitucionais. É gente que está noutra. Um perigo.

A Inteligência Artificial pode ser um precioso auxílio para o desenvolvimento, para a democracia. E para a humanidade. Mas também pode ser totalmente destrutiva.

O vídeo abaixo é muito interessante. 

Yuval Harari fala sobre lançamento de Nexus e inteligência artificial! | 

Conversa com Bial

Yuval Harari, escritor israelense e autor do best-seller internacional Sapiens: Uma breve história da humanidade, se desdobrou no consumo da informação e na comunicação desde a idade da pedra até a inteligência artificial em seu novo livro Nexus: Uma breve história das redes de informação. No #ConversaComBial, o autor debateu sobre os prós e contras da evolução da comunicação atual 


Dias felizes

quinta-feira, agosto 01, 2024

O que fazer quando uma separação não dá certo...?
E outros aspectos relacionados com isto de se ser mortal.

 

Tinha aqui um outro vídeo para partilhar apesar do que a minha filha já gozou comigo. Não acha nada que a voz seja parecida com a do Castelo Branco, acha até que o comentário de que estou mais para a voz da Lady Betty está certo. Diz ela que falo com um fiozinho de voz, quase a desfalecer. Explico que deve ser por estar a andar sozinha e não me dar jeito falar alto. Ela diz que quem está a narrar para um vídeo deve falar como se estivesse viva e não a dar as últimas. 

Mas, para fazer o teste, sugeriu que desse aos meninos para eles ouvirem. Nessa altura já só estavam cá os filhos dela, os outros meninos já tinham ido com o pai. Comecei por dar a ouvir ao seu mais novo. Ouviu até que se fartou, achou que cinco minutos a falar de abelhas era tempo a mais. Quanto à voz, achou normal, não achou estranha.

O mais velho parece que também não achou nada de mais, percebi que achou que a voz era a minha, mas não posso acrescentar mais, já apanhei a opinião meio de raspão quando já estavam a arranjar-se para sair.

Mas se não partilho hoje o terceiro vídeo não é por isso, é porque lá me atiro aos alienados do PCP que apoiam o Maduro como se não tivessem qualquer neurónio na cabeça. E hoje não me apetece falar nisso ou poluir o meu bloguinho com coisas que não me agradam. Até o PC venezuelano se demarcou da pretensa vitória do Maduro. O nosso PCP é que continua ao lado do Maduro. Não descansam enquanto o partido não tiver menos do que 1% nas eleições. 

Enfim.

Adiante.

Li o livro 'O meu pai voava' da Tânia Ganho e, apesar de ser um livrinho de apontamentos, li-o de gosto. E que não se pense que o diminutivo tem a ver com a qualidade do livro. Não será literatura da grande mas, ao contrário do lixo e das tretas que por aí circulam, este é genuíno e lê-se com prazer.

De certa forma relacionado com a temática, estou agora a ler o 'Ser mortal' de Atul Gawande que, por mero acaso, a minha nora me recomendou depois de uma amiga, médica no IPO, lhe ter recomendado a ela. 

Até há uns meses eu fugia a sete pés de livros sobre estes assuntos (lidar com a finitude da vida, a própria ou a alheia), achando que eram mórbidos, deprimentes. Agora não acho. Quando lidei com a situação terminal da minha mãe não sabia o que fazer, o que dizer. Quando um dia lá apareceu um padre, só não escorracei o homem a pontapé por falta de energia mas fiz de tudo para o interromper. Uns dias depois entrou outro padre e mais uma vez tentei pô-lo fora do quarto. Temi que a minha mãe percebesse que estava muito mal e que pensasse que tínhamos chamado o padre para a extrema-unção. O padre disse que, se a minha mãe quisesse, podia rezar com ela. E a minha mãe disse que queria. Quando o ouvi rezar a pedir para a Nossa Senhora receber a minha mãe tive outra vez vontade de o expulsar a pontapé. Não queria que ela pensasse que estávamos a desistir dela e que estávamos a aceitar que ia morrer.

Mas sempre fiquei na dúvida sobre o que dizer: animá-la? Dar-lhe falsas esperanças? Ou o quê? As enfermeiras diziam que ela lhes dizia que não queria morrer. E eu sei bem como ela queria viver até ao fim dos tempos. Não aceitava que um dia iria morrer. Por isso, até ao fim tentei fazer de conta que isso não iria acontecer.

Mas foi tudo tão difícil que me senti totalmente impreparada. Muito, muito impreparada para lidar com tudo. A minha mãe também estava impreparada para aceitar o que ia acontecer. Quando eu falava com os meus, lamentava que a minha mãe não aceitasse que o fim haveria de chegar. Mas pensava: se fosse comigo, estaria eu preparada para perceber que o fim estava a chegar e aceitá-lo-ia com serenidade?

Ainda estou no início do 'Ser mortal' pelo que não sei se vai ser esclarecedor em relação às minhas dúvidas.

O livro da Tânia Ganho não é exactamente sobre isso mas trata do luto, da aceitação de quem fica, da aceitação que a culpa não tem sentido.

E agora, quando estava por aqui a veranear, depois de um dia cheio de alegria e de brincadeiras e de juventude, apareceu-me o vídeo que aqui partilho. E gostei de ver e ouvir. É importante perceber que não estamos cá para sempre. Ou seja, o fim é natural. E é bom que saibamos lidar com isso. Talvez não seja forçoso que o fim seja triste, doloroso.

Este vídeo fala nisso.

Flávia Pedras: casamento com Jô Soares, a relação e os últimos momentos juntos | Conversa Com Bial


Dias felizes

sábado, junho 22, 2024

Demissexual...? Ele há com cada uma...

 

Eu acho que até sou uma mente aberta. Acho... Mas, às tantas, acho mal. Na volta, tenho o meu ladinho de conservadora... 

Por exemplo, quase me parece que isto de haver tantas orientações sexuais já é fantasia... Qualquer coisinha agora dá origem a uma nova orientação. Por exemplo, se eu só me sentir atraída por homens que usam capachinho, quem me garante que um dia destes não chego à conclusão que me encaixo numa nova orientação sexual, a dos capachinhossexuais?

Eu pensava que era (relativamente) normal as pessoas só quererem ter relações sexuais quando se sente qualquer coisa, pode ser até coisinha, pela outra pessoa. Pensava eu. Afinal hoje fiquei a saber que isso são os demissexuais. Demi. A meio caminho da pessoa ser assexuada. Na volta, num extremo estão as pessoas-bonobo que saltam para cima de qualquer um que passe pela frente. Na outra ponta, os assexuados. E a meio, essa estranha casta das pessoas que só estão a fim de truca-truca quando sentem algum afecto pelo trucado. 

Acho tudo isto uma coisa do além.

Mas, enfim, vejam com os vossos olhos e ouçam com os vossos ouvidos. O Bial é um charme e uma graça (para além de um belo homem) e o casal entrevistado é uma animação.

Giovanna Ewbank e Bruno Gagliasso falam sobre Surubaum, sexo, carreira e família | Conversa com Bial

Giovanna Ewbank e Bruno Gagliasso são uns dos casais mais falados da internet. No papo com Pedro Bial, o casal fala sobre o Surubaum, o novo programa comandado pelos dois, sexo, família e carreira! 😍


domingo, maio 12, 2024

Pode uma octogenária seduzir um jovem?
E essa coisa do beijo técnico... existe mesmo ou é cascata?

 

Dias tranquilos, bons. Podei árvores, reguei, dispus umas suculentas num canteiros onde nada medra, apanhei nêsperas, arrumei coisas, cozinhei (inclusivamente entrecosto guisado com favas e temperado com coentros), andei a caminhar de biquini para apanhar sol, li, escrevi.

Podia abrir um parêntesis para dizer como faço o entrecosto com favas, de que gostamos bastante, mas vou antes dizer que estou a livro a que resisti mas de que estou a gozar muito. Muito. Por muitos motivos e até pelos emotivos. Mas também porque já aprendi várias palavras que desconhecia. E fico na dúvida: terá sido o Gabo, quando a mente já começava a dar sinais de que estava a ir para um caminho sem retorno, a rebuscar palavras pouco usuais ou terá sido o tradutor que resolveu caprichar? Por acaso gostava mesmo de saber. Gosto de livros assim. Vemo-nos em Agosto. Um livro belo, povoado por garças azuis.

E agora ao ir espreitar o youtube dei com o fantástico Bial a entrevistar a fantástica Susana Vieira. Só a forma como se cumprimentam já é uma graça. Mas tudo o que ela diz é uma graça. Olho para ela e não consigo acreditar que já tem 81 anos. De facto, os tempos já não são o que eram. Pensava-se numa mulher com mais de oitenta anos e imaginava-se uma velhinha. Pois, no caso dela e de cada vez mais mulheres acima dos oitenta, velhinha uma ova. 

Susana Vieira fala sobre sua parceria com José Wilker e mais | Conversa com Bial | GNT


terça-feira, abril 13, 2021

Trabalhos, penteados e uma entrevista saborosa

 


Hoje comecei o dia, recebendo telefonemas atrás de telefonemas estando eu ainda na cama, a acordar. Não gosto. Gosto de acordar na minha hora, quando o meu corpo se sentir confortável com o despertar. Se acordo quando o meu marido se levanta, peço para abrir a janela. Abrir a janela é como quem diz, pô-la basculante. O estore em si fica apenas chegado até abaixo mas com os buraquinhos todos abertos para entrar luz e ar. O meu marido protesta com os meus pedidos, diz que não está tempo para abrir a janela, que entra ar frio. Eu gosto. O ar frio da manhã com canto de pássaros à mistura é muito bom. Daqui por algum tempo, poremos o sistema de rega a funcionar. E, portanto, acordarei com o frescor da aurora, o som da rega, o canto dos pássaros, o cheiro das flores do canteiro sob a janela. Geralmente volto a adormecer, tranquila, encantada, e acordo com o despertador.

Ao fim de semana, não havendo compromissos, acordo e fico um bom bocado no quentinho, no bem bom, curtindo o prazer de estar entre lençóis em pleno dia. 

A antítese de tudo isto é estar a dormir e acordar com o telefone. Uma neura. Pior ainda se, atendendo, estiver do lado de lá alguém cheio de problemas, alertas, ralações e que faz questão de os passar inteirinhos para mim. Detesto. A minha cabeça gosta de ter um tempo de setup generoso. 

Outra coisa que também me estraga o dia é ter que acordar à pressa, com aceleradas abluções e petit dejeuner sem um mínimo de vagar e qualidade e, sem tempo para me ver ao espelho, ajeitar cabelo ou passar um brilhozinho nos lábios, entrar em reunião e, de súbito, ter que me sintonizar num outro comprimento de onda. Não gosto. Nada.

E esta segunda-feira, dia já de si desagradável, acordei assim. Telefonemas, telefonemas. Depois, tantas as emergências, tive que marcar reunião e, de supetão, entrar nela. Estava a entrar na dita e a pensar: isto não vai correr bem. Penso que só os distraídos é que ainda não perceberam que não deveriam pôr-se a jeito, ainda por cima a uma segunda-feira de manhã. Não correu bem, claro. Dei por mim a falar devagarinho, baixinho, nitidamente a conter-me para não me portar mal. Depois, na seguinte, a que estava planeada, a que era para ter corrido rapidamente, atrasou-se. Um incómodo. 

Fomos caminhar à hora a que deveríamos estar a almoçar. Podia não ter ido e limitar-me a almoçar. Mas preferi andar. Como a seguir tinha outra para a qual tinha que ler um documento antes, almocei uma banana. Horas nisto. 

E assim fui até que terminei por volta das sete e tal, hora a que tive que ligar a um colega, depois à minha filha, depois à minha mãe. Felizmente, o jantar foi um resto que estava parqueado no frigorífico, senão daria para belas horas. A seguir estive à conversa com o meu filho. E mal me instalei, novo mail a pedir-me uma opinião antes da reunião de amanhã. Pensei: gaita, lá terá que ser, vou mas é despachar já senão amanhã, em vez de acordar com os passarinhos, acordo com um pedido de opinião. 

E é isto. Ainda me lembro de um dos meninos me ter perguntado: o que é que tu fazes? E eu ter ficado sem saber bem o que dizer. Como se explica a uma criança a vida que levo? Não curo doentes, não construo ou projecto casas ou pontes, não defendo prisioneiros, não sou professora, não sou cabeleireira ou polícia, não sou jardineira. Faço o quê? Só isto que aqui vos conto e que, espremido, não sei se dá algum sumo.

E, assim, neste comprimento de onda, os dias vão passando. À hora do almoço, o tempo estava razoável, havia raios de sol, a temperatura estava amena. Quando, ao fim da tarde, saí para o jardim para apanhar ar enquanto falava com a minha filha, estranhei: estava frio, o céu escuro, fechado, o chão molhado, alguma coisa tinha chovido. Cheguei a casa, tive que me agasalhar, parece que a própria casa tinha esfriado. Não percebi.

Usei hoje o poncho de lãzinha fininha que a minha mãe me fez e que, por causa do confinamento, só ontem recebi. Tem aquela cor de que tanto gosto, é solto e macio, e é quentinho. 

E agora aqui estou. Do que me apercebo, continua o fuzuê em torno de Sócrates e de Ivo Rosa, com as vizinhas comentadeiras a comentarem-se umas às outras. A coisa já deve ir na quinquagésima derivada, com o gato e o cão a desfiarem palpites sobre a relevância das provas indirectas e sobre se há razão ponderosa para que o grande Perna, afinal, não seja tratado como o DDT mas apenas como um pindérico portador de um canivete suiço. E, aproveitando o descaso, o coroninha dos pink totós, agora todo feito prosa, a dar-se ares de primo da rainha, todo posh, vai pulando toda a cerca que pode, deslizando do verdinho para o amareladinho, já com tonzinho laranja, a namorar o encarnadinho. Blink, blink.


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As fotografias mostram uns penteados que me deixam roída de inveja. E não é da branca, é mesmo da tinhosa. Gostava mesmo que o Alexis Ferrer me fizesse um penteado assim, com pinturas a preceito.

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E, já agora, deixem que partilhe uma entrevista gostosa. Gente inteligente e desprendida é outra coisa.

Fernanda Montenegro - Conversa com Bial 

No ano em que comemorou seus 90 anos, a atriz lançou seu livro de memórias, "Prólogo, Ato, Epílogo". A obra foi o assunto do Conversa com Bial de 03/10/2019, que celebrou a grande dama do cinema e da dramaturgia do Brasil. Marta Góes, a biógrafa, também estava na conversa e é definida por Fernanda como "uma excelente parteira". O livro é fruto de 18 entrevistas transcritas e editadas por Marta e a conversa foi uma aula de vida e de atuação.


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Desejo-vos um dia bom

sexta-feira, fevereiro 19, 2021

Allen. Woody Allen.



Não sei onde foi que o vi pela primeira vez. Tenho ideia que o Manhattan vi no cinema pequeno por cima do Império. Como se chamava? Satélite? Estúdio? Podia ir procurar mas não interessa. O que interessa é que achei espantoso. Eu era uma jovem que se deslumbrava com o que parecia ser um mundo novo, com grandes imagens, com vozes que destilavam inocências, com histórias que juntavam amor, humor, ironia, melancolia.

Mas acho que antes tinha visto o Annie Hall e esse não me lembro onde foi. São Jorge? Apolo 70? Uma graça. Uma doçura sorridente, uma irreverência moderna, uma graça permanente. Tenho também ideia de ter gostado imenso do Zelig. Será que foi o Zelig que vi no Apolo 70? Ah, ainda hoje o chamo à liça de cada vez que vejo gente que muda de opinião, que se metamorfoseia para ficar igual aos que acham mais poderosos, os que se descaracterizam porque, na verdade, não têm carácter. Mas o Zelig acho que nem era pelo poder, era porque era mesmo assim, um camaleão humano. A graça que ele tinha. 

Adorava ver os filmes dele. Ficava a comentá-los, desatava a rir quando me lembrava de algumas cenas, era tema de conversa, repetíamos algumas coisas que ele dizia para se auto parodiar, eterno desajeitado, eterno inseguro. 

E, no entanto, como tantas vezes acontece com os homens feios mas inteligentes e com domínio da arte da ironia, sempre com sorte ao amor.

Ou o Alice. O charme discreto da burguesia no feminino, a rebeldia contida e bem perfumada, a insegurança como maneira de ser, a vontade de transgressão não assumida. Pelo menos assim a lembro. Aquela que viria a fazer-lhe a vida negra. Na realidade, não nos filmes. Ou, creio que antes de Alice, o September. As crises, os dramas, os risos, os segredos. Mia, a musa. 

Mesmo mais recentemente, já o escândalo tinha rebentado há tempo e os efeitos ainda se faziam sentir, outros filmes, já outras as musas. Por exemplo, gostei do Match Point ou, não há muito, do A Rainy Day in New York. Não quero saber que sejam levezinhos. Gosto de ir ao cinema e ver um flme que me deixe bem disposta. Gosto de sorrir ou rir. Ou de uma emoção mesmo que apenas ao de levezinho. Gosto de cidades bonitas, gosto de cores harmoniosas, gosto de subtilezas elegantes e suaves, sejam elas felizes ou nostálgicas. 

Uma vez, a passear em Oviedo, uma estátua de um homem meio desmanchado a andar na rua. Woody Allen. Gostei de ver, parecia que estava a ver alguém conhecido.

Sobre o que se passou, nunca percebi bem. A mente humana tem cavernas e o ciúme o despeito são uma tortura para os próprios e para os que deles são vítimas. Acredito na inocência de Woody Allen mas acredito porque sim. E imagino que deve ter sofrido bastante. Ele e a que era filha adoptiva da que foi sua mulher. Não deve ter sido fácil. Um rasgão difícil de sarar.

Conheço uma pessoa de quem, em tempos, se chegou a dizer que fazia parte de uma certa lista. Falava-se à boca pequena. De concreto, nunca nada. Mas circulava pelas redacções. Por vezes, as televisões mostravam peças em que as câmaras se detinham sobre ele. Homem que sempre tive por íntegro, homem de família. Estava muitas vezes com ele ao fim do dia, dali cada um seguia para sua casa. Contava-me muito da sua vida. Corriam vivos os rumores. Nunca lhe perguntei nada nem ele me disse nada. Até que um dia, um ou dois anos depois, emocionado, quase com lágrimas nos olhos, me disse: 'Não imagina, ninguém imagina. A vergonha que sentia, o medo que tinha que acreditassem no que se dizia, que desconfiassem de mim. Um tipo morre um pouco com uma mancha destas a pairar sobre a nossa reputação.' E a verdade é que, mesmo por entre quem o conhecia tão bem, surgia a dúvida insidiosa, matreira, rasteira, silenciosa. 

Não consigo malquerer ou malpensar a propósito de Woody Allen. Tem agora 85 anos e ao seu aspecto desconjuntado junta-se agora o aspecto etéreo que algumas pessoas de idade adquirem. Soon Yi tem 50 anos e, segundo dizem, é feliz ao lado de Woody.

Vi uma entrevista no Youtube que é uma graça, uma daquelas conversas a que se assiste de gosto. Contudo, não consigo aqui colocar o vídeo pois parece que foi interditado não sei bem porquê, direitos de autor de quem o publicou, qualquer coisa assim. Nem consigo que o link vá lá dar mas, just in case, deixo-o na mesma, pode ser que volte a estar disponível

Woody Allen em entrevista a Pedro Bial

Mas partilho uma outra entrevista.


E mais esta, também gostosa.


E tenham, por favor, uma happy friday.

segunda-feira, janeiro 11, 2021

Maria, a sedutora

 

O dia foi o do costume, a rasar a linha de água. Nem sim, nem sopas, nem bom nem mau. Faz-se o que há para fazer e, enquanto isso, o tempo vai passando. Pode ser que um dia me habitue a viver assim, sem falta de tempo, sem nada que fazer. Se estivesse calor ia para a rua, punha-me ao sol. Assim, com o frio que está, nem a rua me chama. 

Já pensei ir buscar um tapete de arraiolos que tenho incompleto e voltar a tornar-me bordadeira. A questão é que já não tenho onde pôr mais tapetes e fazer por fazer não me interessa. Aliás, ter até talvez tivesse mas seria uma situação forçada e aborrece-me usar o tempo com coisas de utilidade duvidosa. Podia usar o tempo livre de uma qualquer outra forma útil mas ainda não aprendi a usar tempo livre. A casa está limpa, não vou limpá-la de novo. Há folhas secas no terraço mas não vale a pena varrê-las pois o vento está a todo o momento a trazer folhas novas. Não é preciso regar. Cozinhei: costeletas, ao almoço, com arroz. Ao jantar, pizza. Tinha uma pizza margherita congelada. Juntei-lhe um pouco de fiambre, mozzarela em quantidade generosa, bocadinhos de bacon, tomate cherry, orégãos, sementes variadas, azeite, um fio de mel. Levei ao forno. Estava boa. Acompanhámos com salada. A seguir comi um diospiro que, gulosa, incorrigível gulosa, acompanhei com gouda.

Tenho três livros aqui comigo. Vou lendo. Contudo a indolência, quando toma conta de mim, tira-me a vontade até de ler. Devia hibernar a sério. Se bem que hibernar também não é garantia de nada. Li que 14 freiras em clausura, cada uma em sua cela, sem contactos com o exterior, estão todas com covid. Penso que a chave que desvenda o mistério está umas frases mais à frente, quando se diz que os dois párocos capelães vão mudar-se para casas isoladas. Tal como o jornalista que escreveu a notícia, também eu não comento. 

O que digo é que não vejo a hora de estar calor, de não haver perigos. Ainda não interiorizei a necessidade de andar sempre a desinfectar as mãos, ainda não me habituei a estar bem de máscara. Hoje de manhã fomos à outra casa ver se está tudo bem, trazer correio. Aproveitei para ir à lojinha lá perto comprar batatas, cebolas, feijão verde, mais diospiros. Andei sempre de máscara. Quando liguei à minha mãe, ela preocupou-se: 'Então, agora também estás rouca?'. Não. Ou melhor, sim. Andar de máscara seca-me a boca, o nariz, a garganta. E com a garganta desidratada fico rouca. Quando cheguei a casa bebi água, fiquei normal. Porcaria de máscara. Mas isto não me acontecia... agora até a porcaria da máscara me desidrata.

Bem. 

Tirando notícias que me deixam intrigada e a ter que disfarçar o sorriso como a acima referida das freiras ou aquela de ter aparecido um esqueleto atrás do porco imundo quando estava a discursar no Cineteatro de Serpa,  a única coisa que me desperta interessa são os vídeos que o algoritmo do YouTube me sugere. Agora foi uma entrevista com Maria Bethânia. Não há muito estive a vê-la no Coliseu. Espectáculo extraordinário. Esta entrevista aqui abaixo é longa mas vale cada minuto. Revelações inesperadas. 

Quem diria?  Bethânia, uma namoradeira? Bethânia, uma sedutora? E... de alto calibre...? Mas não é só isso, claro. São as histórias com os manos, com os amigos, com o Chico, claro. Buarque, como ela o trata. Para ele, ela é Maria. Mas a forma como ela o diz. Sobrenatural.


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Abaixo poderão encontrar Chico a falar do jantar com Clarice

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Desejo-vos uma boa semana a começar já por esta segunda-feira