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segunda-feira, maio 13, 2024

Cidades-esponja

 

As imagens que nos chegam do Brasil, Rio Grande do Sul, um mundo devorado pela água, são impressionantes demais. À data de hoje, mais de cem mortos, mais de cem desaparecidos, centenas de milhares desalojados. Casas destruídas, as águas a inundarem os primeiros andares das casas que resistem, as estradas desaparecidas. Um pouco por todo o lado (Afeganistão, Indonésia, China, etc) tempestades, inundações ou, no verão, o reverso, temperaturas insuportáveis, incêndios que não se conseguem apagar.

O cenário apocalítico que em tempos pensámos que seria algo a ameaçar apenas as gerações futuras já aí está, a bater-nos à porta.

O tema das cidades esponja, que não é remédio santo mas, ao que parece, uma boa ajuda, é algo de que provavelmente ouviremos falar com cada vez mais frequência. Pelo menos, assim o espero.

Retiro do DN, um artigo interessante de 2022:

Cidades-esponja. O que são e como podem ser resposta às cheias e secas em meio urbano

Mais do que resolver os desafios dos fenómenos extremos, peritos apontam soluções de adaptação que as zonas urbanas devem adotar para melhor gerir chuvas intensas e ondas de calor. Alterações climáticas intensificam os fenómenos, mas não devem servir como justificação para a falta de ordenamento.

"(...) o cenário de catástrofe provocado por fenómenos climáticos extremos vai repetir-se. E, apontam os especialistas, com uma intensidade e frequência cada vez maiores. Importa, por isso, alterar o comportamento reativo para uma atitude progressivamente mais preventiva. "  José Carlos Ferreira, doutorado em Ambiente e Sustentabilidade.

Ultrapassadas as dificuldades do momento, o professor da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa (FCT-Nova) afirma que facilmente "nos esquecemos que estes fenómenos existem e que se estão a intensificar".

(...) O coordenador do mestrado em Urbanismo Sustentável e Ordenamento do Território da FCT-Novaacredita que a resposta está na alteração do modelo de desenvolvimento das cidades e na concretização de soluções que "transformem o território, ocupando-o de forma ecológica". Este caminho passa, sobretudo, pela alteração dos planos diretores municipais (PDM), para que evitem a construção em zonas de perigo, como em leito de cheias, mas também que integrem estratégias relacionadas com o conceito de cidade-esponja.

O termo foi cunhado pelo arquiteto paisagista e urbanista chinês Kongjian Yu e refere-se, essencialmente, a cidades ambientalmente adaptáveis que apostam em planos de gestão integrada da água. As soluções adotadas variam consoante a realidade hidrográfica das zonas urbanas e a sua configuração, mas podem incluir pavimentos permeáveis, jardins biodiversos e edifícios com coberturas verdes. É uma forma de "incorporar, de forma plena e holística, o ciclo da água no ordenamento dos espaços urbanos", explica Rafael Marques Santos.

O professor e investigador da Faculdade de Arquitetura da Universidade de Lisboa detalha que o urbanismo sustentável permite "intervenções cirúrgicas" em áreas com "grandes erros estruturais", sempre com o objetivo de reduzir os impactos, por exemplo, em cheias. Umas são mais fáceis, outras mais complexas e dispendiosas, como demolições pontuais em zonas particularmente perigosas.

"Não vamos conseguir retirar toda a urbanização de Alcântara ou de Algés", aponta. Mas a criação de elementos de contenção é uma opção, desde logo com bacias de retenção nos pontos mais altos das cidades que "atrasem" a chegada da água, a grande velocidade, às partes baixas. O essencial, esclarece, é "olhar de forma muito atenta para a água numa perspetiva de todo o ciclo" e implementar medidas que cumpram dois objetivos de uma só vez - prevenir os riscos de momentos em que existe água em excesso, assim como atenuar situações de seca.

"Os edifícios podem ter espaços de cisterna para acumulação de água que podem ser úteis", afiança. Se em tempo de chuva intensa os edifícios conseguem guardar alguma dessa água e evitar que seja escoada para a rua, noutros momentos esse recurso pode ser usado para regas, lavagens e outros fins.

O mesmo poderá ser feito em estruturas municipais e há bons exemplos de como isso pode ser feito. Em Roterdão, nos Países Baixos, a Waterplein Benthemplein é uma praça de betão usada durante todo o ano para atividades de lazer dos habitantes, mas é pensada para que em época de chuva intensa possa inundar e evitar a sobrecarga dos sistemas de escoamento da cidade.

Outra ferramenta complementar é a criação de jardins alagáveis, biodiversos e compostos por plantas com capacidade de absorção da água. Estes locais podem inundar e continuar a servir como espaço de recreio, bem como ajudar a refrescar as cidades durante o verão - exemplo disso são cidades como Taizhou, na China, ou Nova Iorque, nos EUA.

Em Setúbal, refere João Carlos Ferreira, o Parque Urbano da Várzea foi "muito eficaz nestas cheias", apesar de aquela cidade piscatória ter tido 30% mais chuva do que Lisboa. "Foi todo redesenhado para ser uma grande bacia de retenção e não inundar a Baixa de Setúbal. Esteve no limite, mas está a funcionar e a cumprir o seu propósito", atesta.

Ambientalistas, arquitetos e urbanistas concordam ser preciso agir, revendo os planos de ordenamento, criando estruturas verdes e multiusos nas cidades, mas, acima de tudo, implementando estratégias de longo prazo diversas e adaptadas à realidade de cada local. "Estes momentos de crise também servem para as adaptações necessárias", remata Rafael Marques Santos.

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How China is designing flood-resistant cities

These "sponge city" designs resist floods and increase biodiversity to help us adapt to a changing climate.

From rising sea levels in Mumbai to unbearable heat in Houston, cities around the world are feeling the effects of climate change. Unfortunately, they don’t always have the right infrastructure to handle its impacts — which is one reason why cities are beginning to reimagine urban design. One of these designs is a “sponge city.”

Although one city design certainly won’t save us from the effects of climate change, “sponge cities” can help with how we live with it. 


Votos de uma boa semana

domingo, fevereiro 20, 2022

20 coisas que eu nunca

 



1 - Eu nunca entrei num Starbucks e, a bem dizer, nem sei bem o que lá se vende. Café em balde? Café com cenas? Não sei. Não me interessa.

2 - Eu nunca bebi um whiskey. Já aflorei... mas beber, beber, não. Não gosto do sabor.

3 - Eu nunca bebi uma coca-cola. Também já aflorei mas não gostei. Nem percebo qual o propósito daquilo. Para o meu gosto é uma coisa que não presta.

4 - Eu nunca consegui ver um jogo de futebol com atenção do princípio ao fim

5 - Eu nunca vi um espectáculo de stand up nem ao vivo nem na televisão

6 - Eu nunca joguei a dinheiro seja no casino seja entre amigos seja onde for

7 - Eu nunca tive vontade de fazer vida na política

8 - Eu nunca consegui aprender a letra de uma canção do princípio ao fim

9 - Eu nunca consegui ter um autor (um único) preferido

10 - Eu nunca tive vontade de me casar pela igreja

11 - Eu nunca experimentei droga nem sequer fumei erva

12 - Eu nunca me deixei hipnotizar

13 - Eu nunca tive nenhum guru

14 - Eu nunca comi perninhas de rã

15 - Eu nunca tive paciência para aprender a jogar xadrez

16 - Eu nunca consegui fazer uma festa a um gato (mas não me importo de meter a mão dentro da boca de um cão)

17 - Eu nunca tive vontade ou paciência para tentar ler o Asterix ou o Tintim

18 - Eu nunca vi o Matrix 

19 - Eu nunca vou conseguir ter paciência para a Cristina Ferreira, para a Clara Ferreira Alves ou para a Catarina Martins (no fundo, acho que estão bem umas para as outras)

20 - Eu nunca percebi como é que o Nuno Rogeiro desencanta aquelas informações e aquelas fotografias que mostra para evidenciar que tem provas do que diz


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Fotografias feitas este sábado ao som de uma máquina de escrever muito musical

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Desejo-vos um feliz dia de domingo

segunda-feira, dezembro 13, 2021

Manhã junto ao rio, tarde junto ao mar.
Reportagem fotográfica com família e cão dentro

 



A minha mãe está sem saber o que oferecer ao médico. É médico e, de certa forma, amigo. Tem uma dívida de gratidão que não há como pagar. Há uma meia dúzia de anos, só por ela andar cansada, prescreveu-lhe uma sucessão de exames que o levaram, num ápice, a descobrir que era o cancro do cólon que andava a fazer perder sangue e, daí, o cansaço. Teve também a sorte de arranjar um excelente cirurgião que a operou rapidamente. Mas o seu médico assistente é o médico para todas as ocasiões, para todas as dúvidas. Deve ser da mesma idade, mais coisa, menos coisa. E é um espírito livre. 

Conheci o irmão dele, outro que tal, uma pessoa de quem toda a gente gostava. Excessivo, destemido, desbragado. Penso que já o contei. Um dia, um amigo comum, apareceu ao pé de mim e disse-me: 'Morreu o Manuel'. O nome não é Manuel mas não quero dizer o nome verdadeiro. Esse amigo estava abalado, tenho a certeza que tinha o coração descompassado. Não percebi a quem se referia. Passei em revista os Manuéis que poderiam morrer e não me ocorreu nenhum. 'Manuel? Qual Manuel?? e ele: 'O Manuel! Morreu!'. Fiquei na mesma. E ele, à beira de colapsar: 'O nosso Manuel!'. De repente, ocorreu-me que poderia ser mesmo o 'nosso' Manuel. Fiquei parada. Ele explicou: 'Caiu. De repente. Morreu'. 

Morreu. Era inteligente, brilhante. Vivia a vida no limite. Era um gozão para lá dos limites, um amante que, rezavam as lendas (e contava a namorada), era do mais loucamente apaixonado que se poderia imaginar, era um dos melhores garfos, um connaisseur dos melhores vinhos. Rematava os bons momentos com um demorado cubano. Era uma das suas imagens de marca. Onde quer que estivesse, se lhe dava para isso, na maior irreverência, puxava longas e perfumadas baforadas, recostava-se, ria.

Conheci a sua filha. Com ela convivi de perto durante algum tempo e com ela me diverti à grande. Detestava a namorada do pai que era mais nova que ela. Mas detestava também excessivamente, destemperada como o pai.

O tio, médico da minha mãe, é outro irreverente. Canta, escreve, diverte-se. 

Também não sei que presente apreciará ele. Se fosse eu, arriscaria um presente igualmente irreverente. Mas a minha mãe é mais convencional, mais tímida, tem sempre receio do que os outros pensam.

Também eu tenho algumas dúvidas em relação a alguns presentes. Antes da pandemia, naquela minha outra vida de frequentadora das catedrais de consumo, eu conseguia, nem que fosse a correr à hora de almoço, ver o que por ali havia que pudesse ser apropriado para uma e outra pessoa. Agora estou a leste.

Este domingo, de manhã, fomos buscar a minha mãe para irmos passear na zona ribeirinha, agora tão arranjada, tão bonita. Estava uma boa temperatura, sol. O urso peludo adora a minha mãe e ela gostou de ver como o pequeno terrorista, nestas circunstâncias, se porta tão bem. Tirei-lhes fotografias. Toda jovem e sorridente, num cenário luminoso.

Depois de almoço, fomos para outra praia, desta vez de mar, onde o meu filho e a sua trupe se nos juntaram. Foi a primeira vez que o little teddy bear esteve na praia, tal como foi o primeiro dia que esteve face a face com outros cães, em contacto directo, farejando-se, avaliando-se. 

Os meninos, cada vez mais mais crescidos, disputam o passeio à trela, os meninos correm, os meninos brincam, os meninos brigam uns com os outros para disputarem a condução da trela. E o maluco, portando-se como um cão ajuizado, porta-se à altura, (relativamente) bem comportado. Mesmo sem trela portou-se bem.



Provou como é bom andar na água, escavou, correu, brincou. E sentiu o afecto bom de estar em família.



Mas, mal chegou a casa, deitou-se no chão do corredor e ali ficou, como se estivesse inanimado. Vinha exausto, pois claro. Pensámos: cansado como está vai dormir até amanhã.

Sim, sim...

Passado um bocado acordou, comeu e, na maior euforia, tentou virar a casa do avesso. O bom comportamento esvaiu-se num instante. Há sempre um momento do dia, geralmente ao fim do dia, em que um pico de energia o faz dar-nos conta do juízo.

E nesta vida acelerada em que parece que nada acontece mas em que todos os dias estou ocupada de manhã à noite dou-me conta que, sem perceber como, o ano está quase a chegar ao fim. O Natal é para a semana e o Ano Novo logo a seguir. Não sei se os cientistas estão atentos a este fenómeno: o tempo está a correr mais depressa do que devia.

Estive a ouvir as previsões do Economist para 2022. Ou tudo muito previsível ou tudo muito distante. Senti uma grande indiferença em relação ao que ouvi. Gostava de ter ouvido outras coisas: descobertas científicas revolucionárias, inesperadas tomadas de consciência colectiva, altamente promissoras reviravoltas políticas, o mundo das artes a assumir um insólito e saudável protagonismo... coisas assim. Mas não, nada disso. 


Quanto às notícias do dia, o que posso dizer é que não quero saber de nada do que dizem se forem meros veículos para mostrar a imagem de um homem levantado da cama, de pijama, com barba por fazer, a instantes de ser preso. Mostrar isso é infame e os jornalistas que aceitam isso são cúmplices da canalhice sancionada. Rendeiro pode ter sido um canalha mas os que o desrespeitam de forma tão vil merecem-me igual desprezo. Rendeiro fez muito mal porque teve inteligência e pulhice intrínseca para saber mover-se sem ser apanhado. Estes jornalistas só não fazem tão mal como o Rendeiro porque não têm a mesma inteligência. Mas em maldade e indiferença perante os direitos alheios estão ao mesmo nível.

Esta imprensa acabará por definhar pois, mais cedo ou mais tarde, os seus consumidores deixarão de tolerar tamanha mediocridade. Apenas os mais medíocres de entre os medíocres a apreciarão mas esses, estou em crer, não estão para gastar dinheiro em jornais nem têm paciência para ver noticiários.


Mas o mundo, apesar de tudo, ainda é um lugar maravilhoso e isso é o que importa.

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Desejo-vos uma boa semana a começar já nesta segunda-feira
Saúde. Alegria. Esperança. Confiança. Ânimo.

domingo, setembro 29, 2019

O espanto do meu marido perante o silêncio de Marcelo, Comandante Supremo das Forças Armadas, face à forma como a acusação do Ministério Público expõe as Forças Armadas.
E o que a minha mãe diz do Caso de Tancos, do Rui Rio e da Cristas.





O dia foi preenchido. De manhã tratámos de coisas cá em casa, depois fomos ao Leroy comprar parafusos e buchas, goma autocolante para fixar quadros pequenos sem ter que furar a parede e umas ripas de madeira para o meu marido tentar desempenar uma tela de um metro por oitenta cuja armação tem vindo a retorcer-se.

A seguir fomos levar algumas compras aos meus pais e, dali, seguimos para almoçar fora com a minha mãe. Umas belas sardinhas assadas. Depois fomos passear com ela à beira-mar e estava-se bem, calozinho bom, um sol ameno, uma aragem suave. Fotografei os veleiros e o mar e só não estivemos mais tempo, não por ela -- que está para as curvas -- mas porque o trabalho que nos esperava ainda era bastante. 

Depois de irmos pô-la a casa, fomos ao supermercado e foi mais um daqueles valentes carregos. Ao regressarmos, enquanto o meu marido foi aos seus afazeres, fui logo tratar do jantar que era trabalhoso pois deu-me para ter prato de peixe e prato de carne e, logo a seguir, chegariam todos (todos menos o mais crescido que foi passar a noite a casa de um colega da escola; não te esqueças que já é um pré-adolescente, avisa-me a minha filha quando me vê triste por não o ter cá também). E assim foi: chegaram, como sempre fizeram aquela festa quando se encontraram, conversámos, os pequenos brincaram alegre e ruidosamente, e etc. Depois jantámos e, a seguir, os dois rapazinhos mais crescidos foram brincar às lutas e, pouco tempo depois, regressaram ambos à cozinha e, directamente da travessa, desataram a comer os restos como se não houvesse amanhã e, claro, como se não tivessem acabado de jantar meia hora antes.


Mas, recapitulando, almoçámos com a minha mãe. No restaurante, a televisão estava ligada e a dar o noticiário. Quando apareceu o Rui Rio, a minha mãe quase tapou os olhos, virando a cara com ar enjoado, 'Já não tenho paciência. Olha aquele papagaiozinho. É mesmo um papagaiozinho. Um parvalhão. Não consigo ouvi-lo. Quando aparece, mudo logo de canal, vou ver aquele programa dos dois irmãos que restauram casas. É como aquela regateira da Cristas. Outra parvalhona. Já não consigo ter paciência.' Rimo-nos com a veemência dela. 

Quis saber a opinião dela sobre O Caso: 'Então, mãe, e aquilo de Tancos?'. Responde ela, igualmente enjoada: 'Uma pouca-vergonha. Nesta altura é que se saíram com aquilo. Não descansam enquanto não derem cabo do PS. Uma autêntica pouca-vergonha'. 

Contei-lhe aquilo de os ladrões terem transportados as muitas caixas das munições em carrinhos de mão e contei que a vedação é longe do quartel, que deve ter sido giro os ladrões a roubarem caixas pesadíssimas em carrinhos de mão, para trás e para a frente, vários percursos com o carrinho de mão. Ela desatou-se a rir.

O meu marido voltou à conversa que tínhamos tido no carro: 'A mim o que mais me intriga é o Marcelo não falar. Fala sobre tudo e sobre nada e perante uma coisa destas, uma acusação que põe a ridículo a PJM e a malta do quartel e as hierarquias das Forças Armadas de que ele é o Comandante Supremo das Forças Armadas... e não diz nada? E se o Chefe da Casa Militar de Belém foi informado, ele não foi? E não diz nada? Deixa que as Forças Armadas sejam todas postas em cheque e não tem nada a dizer? Acho isso tudo muito curioso...'. A minha mãe, que geralmente está de acordo com o genro, disse: 'Pois é... Tem razão. Mas, se calhar, como disse que não é o papagaio, agora quer mostrar que sabe estar calado. Mas tem razão, é curioso. Mas a mim o que me chateia mais é isto ter saído em cima das eleições. Uma pouca vergonha'.


Confirmei: 'Vai votar, certo...?'. É que, volta e meia, especialmente quando há coisas destas que a deixam incomodada, parece que desalenta, fica a achar que já não tem paciência para 'tanta porcaria', perde a vontade, quase tenho que lhe pedir encarecidamente que não se abstenha. Se, em cima disso, está de chuva ou frio (o que não é o caso de dia 6, que até vai estar calor), então, ainda mais perde a vontade. Nessas alturas, ofereço-me para a levar mas não quer, diz que a escola é perto, que não é preciso. E já cheguei a apanhá-la hesitante em quem votar. Penso que tem oscilado entre o PS, se calhar algumas vezes PCP, se calhar alguma vez o BE e, cá para mim, também já votou alguma vez no PSD (mas isso, pouco assumidamente, quase como se tivesse sido um mau passo). Mas desta vez respondeu convictamente: 'Claro que sim!'.

E eu, sendo indiscreta: 'E pode saber-se em quem?'. A resposta foi imediata: 'No PS'.

Fiquei contente.

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E garanto-vos que o que escrevi é rigorosamente verdade, não estou a pôr palavras minhas na boca da minha mãe ou do meu marido. Aliás, ele está aqui ao meu lado e não me deixa mentir.

Embora concorde com ambos, as minhas palavras são estas:

Tancos: factos, dúvidas e conclusões. E muitas perplexidades.


terça-feira, outubro 16, 2018

Portanto, dizia eu: só se algum flamingo salvar a coisa...


Dizia eu, ontem à noite, depois de ter elaborado um raciocínio em torno das cuecas da menina Louise e antes de apagar, que ia ver se me ocorria alguma coisa esperta para dizer ou, se não fosse bafejada pela sorte, se algum flamingo salvava a coisa.

Acontece que a coisa se resolveu de outra maneira. Fui violentada pelo Morfeu que se aboletou aqui em cima de mim e que não apenas não pediu previamente o meu consentimento como veio ao engano já que não trouxe um único sonho de presente.

Portanto, ontem à noite os flamingos ficaram a fazer equilíbrio nos pernões para nada. Mas, lá está, guardado está o bocado para quem o há-de comer e ei-los aqui, agora, para nos virem brindar com a sua rosada existência.



As fotografias estão assim a modos que etéreas porque foram feitas de longe, quando estava a fazer bird watching no domingo à tarde num lugar lindo demais para explicar.

Foi a minha filha que me falou e que nos convenceu a ir lá passear. Juntámo-nos lá. De longe fiquei espantada com a altura dos meninos. Estou com eles todas as semanas mas, sei lá, talvez seja seja por vê-los ao longe, ao pé da mãe. Tão grandes. Não tardará muito que não estejam da altura dela. E ela é alta. Ou seja, antes disso, vou eu, quando estiver ao pé deles, parecer uma insignificante vovózinha lilliput. 

Mas, então, dizia eu, fomos dar a um lugar que parece fora deste mundo. Se eu andasse com veia poética poderia aqui descrever aquela paisagem encantada. Mas não. Ando prosa, prosa, prosa. Mas prosa de primeiro ciclo. Só consigo dizer coisas terrenas, básicas, assim como as vedes. 

Onde é que eu ia? Ah, sim. Que os fotografei de longe. Zoom ao máximo e uma aragem desmiolada. Ou seja, algumas desfocadas e outras reduzidas a pormenores no infinito.

Salvaram-se umas quantas -- e vai lá, vai -- que, com vossa licença, aqui partilho convosco.


E isto para dizer uma coisa que se tem vindo a firmar dentro de mim como irrefutável e horrorosa: a gente passa pela vida sem saber nada. Julga que sim mas está bem, abelha. Por exemplo: até há algum tempo pensava que conhecia razoavelmente a terra onde nasci. 

Pois bem. Basta ir a um lugar destes para perceber que conheço é uma ova. Nem sonhava. Ia andando e parecia que estava a entrar num outro comprimento de onda. Salinas, sim, já tinha visto não muito longe, zonas de sapal, também mais ou menos. Mas uma coisa destas. Que surpresa. Horizontes largos, ar limpo, uma luz clara, uma forma de natureza inesperada.

Pássaros, flamingos (que não são bem pássaros mas enfim; pelo menos acho que não fazem piu-piu), barcos de verdade onde não se espera. 


E o espaço do Moinho de Maré muito bem reabilitado, uma sala de estar que não dá para acreditar,  só mesmo vendo, uma  esplanada muito acolhedora, uma varanda pequenina e com uma vista ampla. Tudo muito recomendável. 

E esculturas de flamingos no passadiço. Uma graça, uma ideia agradável.
Não sei se tudo aquilo tem dedo da presidenta mas não me admiraria que tivesse pois parece ser mulher de acção e bom gosto. 
Chega-se à Mourisca e, ao aproximarmo-nos do moinho, vamos vendo aquelas elegantes esculturas da autoria de Pedro Marques e percebemos logo que estamos a chegar à terra deles.


Fiquei a pensar: se calhar, numa casinha aqui talvez eu conseguisse ser escritora. Uma casinha pequenina -- e não era para brincar aos pobrezinhos, era mesmo só para ser fácil de limpar -- com vista para os flamingos, com um pinheiro manso no quintal, com chão de tijoleira e uma mesa azul encostada à janela. E vasinhos com flores na parte de fora do beiral das janelas. Podia fazer caminhadas por entre as pequenas lagoinhas, podia fazer fotografias, quando a maré estivesse cheia podia pôr-me num barquinho a remos e, quem sabe, ir à pesca. Se apanhasse peixinho podia assá-lo num fogareiro. Depois, podia ir beber um café ao moinho. E à tarde poderia ficar sentada numa cadeira de balouço a ouvir os pássaros.

Não sei é quando é que escrevia. Se calhar, tinha que ser a partir das onze da noite. E na volta tudo se haveria de resumir a um post fajuta no blog. Uma sina, um desconsolo. 


Bem, escritas à parte, aquele lugar é abençoado. Muitos deuses esvoaçam por ali.

Acho que vou ter que lá voltar para melhor os poder ver e fotografar a voar. Uma mancha alada e rosada.

Também gostava de os ver a marchar. Les flamants roses. Um pequeno exército de vaidosos insolentes que só têm de desculpa o serem tão deliciosamente efeminados. Uns pássaros não vos digo nem vos conto: bichas, bichas, bichas. Parecem ser divertidos e alegres como as bichas malucas costumam ser.

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Lá em cima coloquei o Manon (uma coreografia Kenneth MacMillans dançado pela Tamara Rojo e pelo Carlos Acosta do The Royal Ballet) porque foi o que me ocorreu quando me apeteceu ter aqui um bailado interpretado por humanos.

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domingo, julho 08, 2018

A tarde cresce com o seu passo de tigre sobre as hortas




Almocei um peixe a saber a mar na beira-praia. Antes tinha ligado à minha mãe, que se arranjasse, que passaríamos lá a apanhá-la. 
Não, não, o teu pai. Não. Já sabes que não. Não quero. Já sabes. Não.
       -
Sempre isso. O pai nem dá por nada. É como ir às compras. Vá.
Não é, não é a mesma coisa. Não. Não gosto de sair e deixá-lo aqui. Já sabes.
       - Ora, deixe-se disso e vá-se arranjar. Não demoramos. Vá.
Mas tenho que avisar a Z., tenho que lhe pedir que fique cá. 
       - Sim, claro, ligue-lhe.
Mas agora ela foi tratar de uma senhora longe daqui e nunca leva o telemóvel. 
       - Vá, então ligue daqui a nada para o fixo de casa dela 
Pouco tempo depois, apanhámo-la. Tudo combinado com a Z. Com a blusa nova em tricot, de meia manga, muito elegante, acabada de fazer por ela a partir de fios de linha que há muito tempo uma tia do meu marido lhe tinha mandado, um em cor de pérola e outro em cor de mel claro. Estava como sempre, toda jovem e solar, sorridente e conversadora.


Gostou do restaurante, relembrou o lugar que tão bem conheceu quando não era nada disto. Agora tudo está mais bonito. Aliás, é geral: as cidades estão todas mais bonitas.

A comida boa mas o serviço demorado. Portanto, almoço longo. A ver o mar, os barquinhos, as pessoas na praia. Bom. Sem pressas.

Regressou contente e eu feliz por vê-la feliz. 

Depois, já só nós dois. Aqui chegados, estava aquele verão que aqui é tão intenso e bom. Biquini, espreguiçadeira, o perfume da figueira, os pássaros.


Mas, antes de preguiçar, caminhei, contemplei as flores, observei as diferenças desde a semana passada, a caruma que cresceu nos caminhos, os orégãos mais floridos, os figos a deitar corpo.

Quis registar-me imersa em verde. Fotografei-me. Um dia ainda me rendo à moda das selfies, provavelmente quando as selfies tiverem passado de moda. Não sei porquê, a mini-mini maquininha disparou o flash. Sabe que não quero mostrar-me e mostrou ser mais inteligente do que eu supunha.


Depois, deitei-me entre a sombra da figueira e a do telheiro. Pensava que ia dormir mas não. Olhei as telhas. Estão aqui há mais de vinte anos. Vão mudando de cor. Cada vez estão mais bonitas. Com o tempo estão tão verdes como o verde que aqui nos rodeia.

A estrela de vidro que tem lá dentro uma vela mantem-se amarelinha e eu gosto de vê-la suspensa das traves de madeira.


Uma paz tão boa, tão doce e luminosa.

Não sei porquê, resolvi fazer um exercício. De olhos fechados, pensei: agora a perna -- e senti a perna --, agora a outra -- e senti a outra --, devagar, agora o braço. Pensei: isto, se calhar, é meditação. E é bom.

Tranquila de corpo e alma, pus-me a ler.

Depois veio o meu marido e armou-se em cigano, daqueles que não conseguem ver sem mexer. E então, para nosso espanto, ouvimos um pipilar furibundo. Uma valente desanda, alto e bom som, com irritação e veemência. O meu marido tirou a maozinha e deitou o olhar ao alto, tentando descobrir o pássaro puritano. Eu também, intrigada. Mas só depois o vi a bater as asas apressadamente, enquanto levantava voo. Disse-lhe: Como vês, até irritaste o pássaro. Não ligou, riu-se. Não aprende a portar-se bem nem por mais uma.

Continuei a ler.


A prosa boa que conheci do blog que a autora em má hora tirou do ar. E eu, under a fig tree, os passarinhos, os verdes all around, tudo tão bom, chego ao apontamento 83 onde, a terminar, leio assim:
A tarde cresce com o seu passo de tigre sobre as hortas.
Parei. Gostei. Uma coisa que não lembraria a ninguém mas que me soou bem. Imaginei. Lá em baixo, na minha horta, um tigre, com o seu passo subtil e vagaroso, a avançar, lento, inteligente, perigoso.  Haveria de ser azul.

Gostei mesmo da ideia. De olhos fechados, para mim, repeti a frase. A tarde cresce com o seu passo de tigre sobre as hortas. Muito bom.


Numa horta ninguém espera que apareça um tigre. Se eu soubesse que, aqui in heaven, existia um tigre, eu haveria de andar, a respiração suspensa, arrepiada de curiosidade e medo, evitando a gruta e os locais mais sombrios do bosque, aqueles em que ele, traiçoeiro, haveria de se pôr escondido.


E, por isso, que susto sentiria quando inocentemente fosse à horta e... do nada... sentisse um olhar felino ameaçadoramente pousado sobre a minha pele, um olhar cor de mel num corpo sedoso e azul.

Resolvi transcrever aqui a frase.

Só que agora, ao transcrever, reparei que não era bem aquilo. A frase, afinal, é assim:
A tarde cresce com o seu passo de tigre sobre as horas. 
Reli, espantada. Horas? Afinal não é hortas? Bolas. Não pode ser. Logo agora que começava a habituar-me à ideia de que andava um tigre na minha horta.


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E, já agora, por falar em tigres azuis: Jorge Luis Borges


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As fotografias foram feitas este sábado.

Lá em cima Cohen canta Take this Waltz por sugestão contida no apontamento 119 do livro Dano e Virtude de Ivone Mendes da Silva

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domingo, junho 17, 2018

Um lugar privilegiado




Há um restaurante sobre o rio azul de onde se avista a cidade que contorna a mais bela baía do mundo e também a península solar que se estende como uma língua de areia rematando o outro lado do horizonte.

Nesse restaurante há um relvado que tem, pousado nele, um piano que não sei se é um piano ou algum dia já foi uma espécie de piano ou, talvez, um musical coração de ferro.


E há uma esplanada sobre um chão de madeira com árvores que fazem uma sombra rendilhada e boa, que tomba sobre o azul das águas e do céu.


Por baixo desse restaurante há uma pequena praia. Não me lembro de, antes, haver essa pequena praia. Se calhar havia, eu é que não a frequentava. Não me lembro. A partir daí há umas pedras que fazem uma barreira sobre o mar. Aí, na fase em que o meu pai, nos seus tempos livres, experimentou ser pescador à linha e em que gostava de ir para lá, às vezes eu e a minha mãe íamos com ele. Não queriam que eu andasse em cima das pedras, podia escorregar e cair. Lembro-me que levávamos cadeiras desdobráveis e eu levava um livro e a minha mãe talvez levasse revistas ou um tricot. Não me lembro de a ver a ler livros quando la estávamos. Aquilo de que me lembro é da atenção que eu prestava ao acto de pescar. Gostava de ver o isco, por vezes era eu que escolhia aquelas grandes minhocas que, por vezes, também ajudava a apanhar na praia do outro lado, na areia entre as rochas. 
Andávamos curvados, atentos, à procura de bolhinhas a sair da areia. Sinal de que havia ali, enterrado, um casulo. Púnhamos umas pedrinhas de sal no mal percebido buraquinho e os dedos em volta, com as costas da mão para baixo, encostadas à areia. Passado um bocado, lá despontava a minhoca que, com rapidez, apanhávamos e puxávamos para fora. 
Mas o meu pai não deixava que eu as prendesse no anzol -- quer ele, quer a minha mãe tinham medo que eu enfiasse o anzol nos dedos.


Depois o meu pai atirava a linha para longe e ficava à espera. E eu ficava também a olhar para a ponta da cana. Mal estremecia ou vergava, logo eu estremecia também, na expectativa do que aí vinha. Peixinhos bons. Enquanto lá estava, o meu pai punha água do mar num balde e, quando os retirava do anzol, os peixinhos ali dentro. Quando 'dava' robalo ou massacote ou bodião, calhava render um balde deles. A minha mãe maçava-se um bocado com isso, especialmente quando ele ia pescar sozinho, por vezes até ser de noite, e chegava a casa, já tarde e carregado de peixes para escamar e amanhar. Sempre que eu podia, amanhava-os eu. Adorava amanhar peixe, jogar as mãos às vísceras e puxá-las para fora, ensanguentadas. Tentava sempre aproveitar o fígado, sempre gostei muito de fígados de peixe.


Agora já ninguém deve ir para ali pescar à linha. Nesse lugar, há agora um eco-parque de campismo cuja localização é privilegiada.

Também ali houve uma discoteca. Acho que, na altura, se deveria chamar boîte. Era mesmo em cima da praia. Lembro-me de uma passagem de ano que lá passei com os meus pais e com o meu namorado da altura. Achei uma coisa meio parva. Aquilo não fazia bem o nosso género mas, face à minha vontade de passar a virada do ano com o meu namorado, os meus pais lá se lembraram de combinar aquele número com uns amigos. Lembro-me bem de achar aquilo despropositado.

A Gávea era um lugar a modos que mítico entre os jovens e não jovens da altura. Lembro-me de um amigo, ainda não há muito, dizer que não tem conta as vezes em que saía de lá de madrugada, e que tinha que ir muito devagarinho para não sair da estrada já que a bebida, condimentada pelo sono, não era propriamente um anjo da guarda muito confiável. Hoje é apenas memória e dá nome ao restaurante do Cais onde se come bem e se está ainda melhor.


E eu, em lugares assim, é como se estivesse de férias. Podem ser curtas, podem ser de tipo rapidinha, pode ser o que calhar, mas sabem-me a férias e eu não quero saber, nem que não sejam de verdade nem que sejam de curta duração. Mindfulness também é comigo.

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PS: Com a minha máquina fotográfica de estimação irremediavelmente lesionada (o arranjo da lente é quase o preço de uma máquina nova), ando agora com uma que, há uns anos, ganhei de oferta (oferta, não presente) não faço ideia de quê nem a que propósito. Estava em casa e nunca me tinha sentido tentada a dar-lhe uso pois uma coisinha assim, para mim, não é aquele objecto de prazer que uma máquina a sério é. Só dá um zoom de oito, é ínfima, cabe-me na palma da mão, pouco ou nada posso fazer dela. Mas, enfim, em tempo de guerra não se limpam armas, quem não tem cão, caça com gato e branco é, galinha o pôe. Ou seja, não havendo mais nada e havendo este vício de fotografar, foi mesmo com ela que fiz estas fotografias. Enfim.

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Quando eu era miúda, foi com muito orgulho que comprei o primeiro disco com o meu próprio dinheiro: Daydream dos Wallace Collection -- e lembrei-me agora disso ao ver o que o José Ricardo Costa postou.

terça-feira, outubro 03, 2017

A grande vitória do PCP em Setúbal.
Perdão. Corrijo: a grande vitória da Maria das Dores em Setúbal.
E a grande derrota do PCP em Almada.
Perdão. Corrijo. O voto de confiança de Almada na Inês de Medeiros


Enquanto nas televisões e nos jornais todos se afobam a ver quem aparece com o comentário mais inteligente e todos têm explicações elaboradas para tudo o que aconteceu, eu, moça simplória, para tudo o que acontece tenho explicações simples.

A saber.

Setúbal.

Vitória do PCP coisa nenhuma. Vitória da Maria das Dores, isso sim. Por acaso, a Maria das Dores é do PCP mas podia ser do PS, do BE ou ser independente. Algures no tempo deu-lhe para ali e por ali se foi deixando ficar. Mas, cá para mim, é tão comunista como eu. Mas também não é grave porque, para o efeito, não faz grande diferença.


O que ela é é trabalhadora, empática, gosta de ter a cidade arranjada, vê-se obra. 

Em tempos passou por lá, por Setúbal, um burgesso, qualquer coisa Cáceres, não me lembro do nome do homem. Toda a gente abominava tal pessoa. Uma coisa na base do pato-bravo desqualificado que descaracterizou a cidade e deixou má memória.

Setúbal assolada por crises de desemprego, as fábricas a despejar gente para as ruas e, na autarquia, um matrafão que arrancava árvores, que empedrava tudo, que atafulhava a cidade do que a cidade não precisava.

Foi-se embora mas a fasquia inferior ficou bem definida. Uma coisa assim, jamais. De facto, a preocupação, ao votar, é que seja em alguém que seja o oposto dele. Depois dele, a malta só quer gente civilizada, de boas contas e boas maneiras, e capaz de sorrir.

Acontece que a Maria das Dores, pelo que se tem visto, é assim mesmo -- e, portanto, a milhas do tal bicho de má memória. E é bonita, bem arranjada, sorridente. Não sei como consegue ter sempre o cabelo tão bonito e ter tempo para aparecer sempre bem maquilhada e bem vestida. É agradável para a população ter uma presidente assim. E a cidade está bonita, cuidada, tem sido valorizada, e há eventos culturais, e ela tem sabido promovê-la e os turistas enchem a cidade, tornando-a vívida, alegre.

Portanto, sem pestanejar, as pessoas votam nela. E votariam se ela fosse de outro partido qualquer pois votam é nela. E era bom que o PCP percebesse isto. 

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Inês de Almada - a rive gauche a quem a merece


É o reverso do que aconteceu em Almada. As pessoas votavam no PCP porque, em regra, se admite que os comunistas são autarcas geralmente competentes e porque nunca tinha surgido candidatura alternativa com boa cara. De facto, os outros partidos sempre olharam para Almada como uma coutada comunista. Por isso, nunca lá punham ninguém de jeito. 

Desta vez o PS pôs a Inês de Medeiros. E ela é simpática, fala bem, olha-se para ela e espera-se que se porte bem, que traga uma maneira diferente de fazer política -- e o PS apresentou um bom programa. Portanto, uns eleitores, talvez aqueles mais conservadores, ainda se deixaram ficar -- mas os outros resolveram ver se é desta que aparece uma boa lufada de ar fresco. Tão simples quanto isto. 



E era bom que o PCP também o percebesse. Nem tanto a ver especialmente com o PS, nem com o efeito da Geringonça (que esvazie o papel do PCP) ou com qualquer outra razão metafísica.  Almada votou na Inês de Medeiros sobretudo porque existe saturação da pasmaceira comunista e uma vontade de ter orgulho na cidade em que se vive e de ver acontecer coisas novas (como a Isabela explica no seu blog).


A velha guarda que votava no PCP por razões ideológicas, recordando os duros tempos do fascismo, é cada vez menor. Agora, para quem não é dos tempos da 'longa noite fascista', das torturas de sono, das vidas clandestinas, etc, os comunistas são vistos como os da CGTP... e pouco mais. E, nas autarquias, são vistos como gente competente e honesta mas sem grande rasgo, sem asas, sem serem capazes de abrir caminhos de modernidade.


A minha mãe hoje dizia-me: 'Antes do 25 de Abril, o PCP ainda se justificava. Agora hoje...? Não. Já não se justifica'. E, no entanto, votou na Maria das Dores. Chamei-lhe a atenção para a contradição. Mas ela confirmou o que eu já sabia: 'Não. Não votei no PCP. Votei foi nela'. Tal como em Almada votaram na Inês de Medeiros.


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terça-feira, agosto 29, 2017

Caíu um relâmpago em cima da NOS.
A Coreia do Norte lançou um míssil para cima do Japão mas ele partiu-se em três, atingindo uns incautos que gostam de andar à pala mais os da NOS que se pelam por ser simpáticos.
Parece que há alerta amarelo no País mas, para já, só a malta que foi ver a Huawei é que está a meter água.
-- E, quanto a breaking news, parece que é o que há --



Tive um dia muito preenchido que abarcou de tudo um pouco: compra de sapatos para os dois (aliás, começou por ser só para ele mas, já que ali estava para dar opinião, aproveitei para uma deitada de olho e, lucky me, catrapisquei logo unzinhos que não puderam lá ficar), caminhada, fotografias, passeata à beira rio, visitas à família, incluindo ao hospital -- onde participei numa aula a que jamais tinha pensado assistir e depois ouvi a médica a recomendar à mulher do Sr. Luís que o leve a passear, o ponha a fazer jogos e mais não sei o quê e, para meu espanto, a mulher do Sr. Luís não disse à médica que ela devia estar a delirar -- depois fui a um Centro de Saúde colher informações com a minha mãe, depois fui levá-la a casa, depois fui ter com o meu consorte e fomos tentar comer qualquer coisa substancial já que o almoço tinha sido curto e apressado mas não fomos especialmente bem sucedidos, a seguir viemos até ao campo, tendo eu adormecido na recta final do percurso, depois fui varrer do lado das azinheiras que aquilo é folhinha e restos de bolotas que não acaba, depois até dei um grito quando, sentindo-me observada, dei com um par de belos olhos claros num corpinho branco e felpudo, escondido debaixo de um banco, a seguir descobri um ninho caído no chão, depois fiz o jantar e enquanto ele se fazia, vim fazer aprovações, ver apresentações e mandar mails, e depois jantei e a seguir tentei perceber das novidades do dia mas nada que se aproveite, apenas as notícias de que, em epígrafe, dou conta.


E, sobre a problemática, fiquei a pensar: eu podia dizer umas quantas coisas concretas. Mas depois pensei que era melhor não. Só generalidades.

A saber.

Os meninos e as meninas da NOS a esta hora devem andar atarantados, a ouvir os juristas que os apoiam e mais os da comunicação, a ver como vão fazer a contenção dos danos de imagem porque o que não era até aqui senão uma prática banalizada a que qualquer cliente ou potencial cliente pimpão não dizia que não -- que isto meio mundo conhece o mundo inteiro sem pagar um tusto, andando à pala de fornecedores generosos -- agora, de repente, parece que virou crime e toda agente desatou numa caça às bruxas a ver quem é que viajou e onde e quando e por conta de quem.


E eu que nunca viajei à conta de nenhum fornecedor ou potencial fornecedor -- sendo vista como uma ave rara, bicho do mato ou tão honesta que até chateia -- daqui deste púlpito vos posso dizer: levar clientes a passear à borla é prática corrente. Pagar deslocações e estadias a clientes é do mais banal que há à superfície da terra. Ofertas a clientes, despesas de marketing, gastos com comunicação -- tudo legal. Não há grande empresa que não proporcione uns dias à maneira aos clientes. Em especial aos principais clientes. Melhor: aos decisores nas empresas grandes clientes. Read my lips: não há grande empresa que o não faça.


Se todos os clientes que são convidados aceitam é outra coisa. Ou as empresas e as organizações têm códigos de ética que proibem que os seus colaboradores se desloquem a expensas de fornecedores ou, então, para os que gostam do bem bom a custo zero, quem é que vai achar mal que eles vão conhecer tecnologias, feiras, fábricas, etc, sem terem que gastar dinheiro à empresa para a qual trabalham?

Volto a dizer: eu nunca fui. Mas sou uma excepção. Se isto não fosse o blog decente que é, agora mesmo vos diria dezenas de nomes que, de fonte segura, já foram aqui, ali e acolá -- e diria nomes de cidades visitadas, nomes de empresas convidantes e convidadas, até nomes de funcionários dessas empresas. Mas isto é um blog decente e não uma boca no trombone. De resto, nada disto é crime. Quem foi, não foi às escondidas. Foram todos às claras e ficaram até bem vistos porque irem aqui, ali e acolá a convite de outras empresas é como se isso fosse uma medalha atestando a sua importância.

Julgam os meus Caros que as verbas com Marketing ou Imagem ou Comunicação que as empresas têm nas suas contas se referem a quê? Apenas a anúncios, newsletters, etc? Não senhor. Referem-se a brindes (conceito lato onde se pode até incluir material de som de qualidade, relógios de alto gabarito, vinhos que ficam muito bem em qualquer garrafeira de que os donos se podem orgulhar, etc, etc), a eventos (incluindo convites para), patrocínios de eventos artísticos ou desportivos (incluindo convites para), feiras cá e, especialmente, lá fora (incluindo convites para) e incluindo, naturalmente, o pagamento das respectivas deslocações e alojamentos (se for caso disso).



E isto já para não falar em gestos (como, por exemplo, presentes de casamento para quem os recebe ou para os filhos de quem os recebe, etc, etc.) e demais bagatelas.

Fazem agora os jornalistas grandes escandaleiras, denunciando A, B e C...? E não se vêem ao espelho...? Ou é vingança por não terem ido ou recebido quando todos os outros colegas foram ou receberam? 

Pergunto: No que acima referi, quantos dos convites são para jornalistas...? 
Respondo: Muuuuuiitooooos....

Ainda há dias, alguém me dizia que iam convidar uns jornalistas para poderem fazer uma reportagem (útil para a empresa) e que o presidente iria almoçar com eles, pois 'eles' apreciam sempre esses gestos. E estava a falar-se de jornalistas a irem a outro país com tudo pago. Claro. (E os jornais agradecem. Têm lá verba para suportar isto?)

Se todos os funcionários de empresas, organismos ou meios de comunicação social que foram aqui e ali ou receberam isto ou aquilo se demitirem, vai ser bonito. Seria uma razia sem precedentes...

Embora em verdade vos diga: do que conheço (e, caraças, se conheço) grande parte dessa gente que gosta de passear, ver espectáculos ou papar à borla bem podia mesmo levar um valente chega para lá, que geralmente agem muito mais em função de quem mais os apaparica do que do que é melhor para quem lhes paga o ordenado... Mas isto já uma opinião subjectiva.


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As fotografias foram feitas esta segunda-feira.

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E caso vos apeteça uma coisa completamente diferente, queiram descer ao encontro da Gabrielle.

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