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terça-feira, julho 26, 2022

Obra de arte comestível, coisa para verdadeiro connaisseur

 



Gosto de cozinhar, já o disse. Mas não gosto de fazer doces. A questão é que sou indisciplinada para além da conta e, por isso, tenho dificuldade em seguir receitas e, na doçaria, ou já se é um doceiro experiente ou não dá para arriscar. O processo em si é daquelas coisas que ou se deesenrola como é suposto ou azarinho, não se consegue rectificar a meio. Ou sai bem ou sai mal. 

Dantes eu arriscava. Mas houve umas duas ou três vezes em que a coisa correu mal e desmotivei-me. Até hoje sou alvo de chacota. Coisa traumatizante demais.

Numa das vezes, não me lembro que doce era, quando se estava a servir, detectou-se que uma colherzinha usada no processo lá tinha ficado dentro. Ao servir e dar com a colher foi o fim da picada. Risota geral que perdurará até ao fim dos tempos.

Outra que não cai no esquecimento foi um arroz doce que, no fim, em vez de estar em estado quase sólido, empapadinho e gostoso, bom para ser delicadamente polvilhado com canela, se apresentou líquido, um ofensivo leite com grãos de arroz a boiar.  Um tacho com um caldo humilhante. Gargalhada geral. 

Mais tarde, uma amiga, engenheira química de formação e estudiosa da química aplicada à culinária, explicou-me: como sempre, não segui a receita, ou seja não juntei o açúcar na devida altura, juntei-o antes de tempo fazendo com que o arroz ganhasse uma crosta impermeável, impedindo a absorção do leite. Mas só soube isto anos depois pelo que, na altura, o fenómeno pareceu injustificável, aselhice de alto calibre. Foi tão traumatizante que não ousei reincidir. 

Outra vez fiz um doce que ainda hoje recordo com saudade. Estava mesmo bom. Fundi chocolate, juntei uma raspinha de casca de laranja e misturei com frutos secos (alperce, ameixa, passas, cajus) e cristalizados (cascas de laranja, ananás, pera). Não me lembro se levava mais alguma coisa. Coloquei num tabuleiro e levei ao frigorífico para solidificar. Depois cortei em cubos. Como gosto de chocolate com um saborzinho a laranja e de frutos secos e cristalizados, achei delicioso. Mas só eu achei. O meu marido, na altura, mal tocava em doces. Agora, com o passar dos anos, está a ficar guloso. Mas na altura não lhes tocava. Os meus filhos, por seu lado, odiavam frutos secos e cristalizados. Nem quiseram provar. Só de olhar, já sentiam repulsa. Acabei a comer sozinha um doce que era uma delícia. Mas delícia que não é partilhada não é alegria, é frustração.

Entretanto, ganhei aquela consciência de que é melhor cortar nos açúcares e, portanto, para me poupar a potenciais novos desaires e para não contribuir com açúcares escusados, no que se refere a fazer bolos ou outras sobremesas, estou fora. Aviso logo: ou compro bolos e/ou gelados ou façam o favor de trazer.

Mas, dito isto, reconhecendo as minhas lacunas técnicas e a minha dificuldade em ser seguidista em relação a receitas, se não pratico a verdade é que frequento vídeos com receitas simples, doces que se fazem na frigideira, no fogão, tal como me delicio a ver vídeos com doçaria artística. Vejo e fico com vontade de superar a inibição castradora. Mas sei que, mal me pusesse em acção, haveria de inverter a ordem dos factores ou arriscaria em ingredientes não previstos e, portanto, as probabilidades de, uma vez mais, me sujeitar à troça colectiva seriam mais que muitas.

Mas quem sabe um dia não me supero e não arrisco um doce com pouco açúcar e que seja uma coisa fantástica de bom sabor, uma mistura improvável, uma coisa arrojada, incapaz de a gente parar de comer. Ou de olhar. Bolo que parece peça de bordado, peça de olaria, obra de arte.

Os bolos que usei para ilustrar as palavras gulosas são da autoria de Leslie Vigil. Parecem bordados nossos, daqueles dos lencinhos de namorados (creio que de Ponte de Lima), coisa de uma perfeição e graça que dá gosto olhar. Pena deve ser cortar e comer.

E vejam, por favor, este vídeo: doces artísticos, lindos, uma loucura de criatividade. Vários doceiros, vários artistas. 

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Desejo-vos um bom dia

Saúde. Doçura. Paz.

sábado, outubro 31, 2020

Aceitam uma fatiazínha de cérebro...? Ou, antes, um dedinho...?

 

Parece que este sábado é Dia das Bruxas (aka Halloween) e, portanto, isso é bom porque a bruxaria é uma profissão da qual convém não nos esquecermos. Não sei bem quais as skills das Bruxas nos tempos que correm mas acredito que sejam mais polifacetadas do que dantes. Talvez roguem pragas on demand, talvez preguem partidas do destino a la façon. Não sei se prestam serviços de teletransporte nem sei se efectuam serviços por via remota, não sei se têm take away para patas de galinha ou olhos de morcego nem sei se trabalham com o Uber. Talvez, parece-me provável, faria sentido. 

Seja como for, é sempre bom a gente estar de bem com elas. Nunca se sabe quando vamos precisar dos seus serviços ou, pelo menos, se alguém requerer os seus serviços contra nós, talvez, estando nós de bem com elas, talvez elas nos poupem. Pelo menos um bocadinho.

Seja como for, para festejar o dia, fiz um bolinho à maneira. Caso queiram provar, sirvam-se de uma fatia. Nham nham, parece tão apetitoso...

Mas, pronto, se os miolinhos ensanguentados vos parecerem um bocadinho nojentos, tenho aqui um outro acepipe mais apropriado a meninos sensíveis e a meninas apertadinhas, um inocente e little dedinho (por sinal, um dedinho a quem a vida correu um bocadinho mal). 


Mas, enfim, reconheço, é só um dedinho. Para os lambões que achem que um dedinho não é nada, que nem enche a cova de um dente, tenho aqui um pratinho deles. Ui, tão bom, tão bom... Temos é que nos abstrair de olhar para eles para não nos incomodarmos com as artroses nem percebermos que já foram usados para limpar o nariz, para retirar cera dos ouvidos e para fazer toques rectais a garganeiros.


Bom apetite.

Talvez possam banquetear-se enquanto vêem este amoroso vídeo.


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E, vá, para quem costume frequentar este boteco apenas para ouvir a bela música que habitualmente aqui é servida, para não desiludir, aqui vos deixo a banda sonora de um filme bem fofinho (e agora estou a falar mesmo a sério).


Primeiro bolinho do Halloween daqui, restantes daqui e não encontrei as receitas

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E um doce Dia das Bruxas.

sexta-feira, janeiro 10, 2020

O que diz a Li -- e o que eu acrescento





Não fazia ideia de quem era Lidewij Edelkoort, conhecida por Li Edelkoort, até ler o artigo What does fashion’s top trend-spotter think we’ll be wearing in the 2020s?

Gostei de ler e gostei de saber que há uma pessoa que é reconhecida por intuir tendências, pessoa essa a que, até agora, o tempo tem dado sempre razão.

E gostei de saber o que a intuição lhe diz sobre o que aí vem, no curto prazo. Agradam-me as suas previsões. 

Aliás, estou a começar o meu ano nesse comprimento de onda: deitei fora sacos de tralha, coloquei para doar sacos de roupa e estou a reciclar blusas que não vestia desde que as galinhas tinham dentes. 

Também já disse à minha filha que, quando pensar que precisa de alguma roupa, antes de ir a uma loja, venha cá escolher (separei roupa boa em que, não sei como, já coube e que agora, intuo, lhe ficará melhor ainda a ela que a mim, na altura). E vou dizer o mesmo à minha nora.

Sempre fui contra o desperdício. Nesta volta que dei aos roupeiros descobri vestidos que eram da minha cunhada e de que ela se desfez no tempo em que os peixes tinham penas. Agora dei-os mas dei-os apenas porque não me servem e porque não faz o género da minha filha. Mas, à última hora, repesquei um conjunto com um look étnico que representa um tempo que já era e que está de novo a ser e que, quem sabe, ela queira para usar no verão, nas férias, nos fins-de-semana desta vida.

As lojas rebentam de saldos e eu fecho os olhos, passo ao largo. Em contrapartida, agrada-me cada vez mais a ideia da vida simples, do convívio em família, dos passeios em contacto com a natureza, de, cada vez mais, conhecer de perto o meu lindo país.

E agrada-me, de forma cada vez mais deleitada, coisa quase a tender para o místico (salvo seja), a ideia de me deixar encantar com a luz, com o rendilhado de sombra nos muros, com o perfume das flores e das árvores, agrada-me o cheiro da maresia e olhar a força das ondas do mar.

No dia de Natal vesti-me de branco, calças brancas e túnica branca de flores. O meu marido perguntou se eu estava numa de Iemanjá. Não tinha pensado nisso mas agradou-me a ideia. No dia de Ano Novo vesti outra vez umas calças brancas e uma blusinha em azul muito, muito clarinho. E, tendo retomado o trabalho, tem-me custado voltar aos tons mais executivos, nomeadamente às calças pretas. Associado a isso está a franqueza mais absoluta. Falo e digo o que penso. Construtivamente mas sem filtros, directa, sem pactuar com o que acho que está mal. 
Passei ao largo dos comentários ao que o ministro Augusto Santos Silva disse sobre a falta de qualidade dos empresários porque me apanhou numa época em que tinha mais que fazer mas, caraças, não é mais do que óbvio que não são os trabalhadores que contribuem para a falta de produtividade da economia?
Bem. Livrarias, convívio, locais arrumados, roupas românticas e simples. E menos viagens de avião e passeios mais locais. E sempre a simplicidade. E boa onda. A boa onda é fundamental.

E comportamentos menos politicamente correctos. E inesperados desconcertos e gargalhadas e boa música e boa arte. E dança. E caminhadas à beira mar ou no meio das árvores. E ironia.
Gosto tanto de ironia. Tenho é que treinar pois, por escrito, é uma gaita. A gente a escrever e a rir por dentro e, aí desse lado, como só lêem e não adivinham os sorrisos interiores, não percebem e é natural que não percebam. E é uma chatice. Levam-me a sério e não há coisa mais chata do que uma pessoa ser levada a sério.
E misturar alhos com bugalhos desde que não reajam quimicamente entre si no sentido pestilento do termo, e provocações que fazem soltar pássaros e risos. E, sem querer (que é como quem diz), pisar os calos às virgens cagonas e, também sem querer, tirar o tapete aos pipi-cagões desta vida, convencidos que têm o rei na barriga.

E abrir os braços e rir e abrir os braços e respirar fundo. E rir. 

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As flores, tão lindas, tão lindas, por acaso não são flores: são bolos. E quem os faz, tão lindos, é Jane Taylor. Não sei se quem os come não fica a chorar, não por mais mas por arrependimento por ter destruído uma obra de arte. E vem tudo ao som de Haley Reinhart a interpretar Shook.
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E queiram conhecer os privilégios do putativo latifundiário Habitualmente que é um maluco daqueles que, cá para mim, não quer cá saber de coisas nem se assusta com comparações (até porque, diga-se em abono da verdade, ainda não é claro se o tamanho importa ou se não importa) e, inteligentemente, preocupa-se é por os mamilos da amada não se eriçarem.

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Tirando isso, uma happy friday para vós-outros, beijinhos e abraços e o que eu estimo é o que eu desejo.

quarta-feira, setembro 25, 2019

Paradoxos, contradições, cenas, coisas que não são o que parecem.
E, claro, bolos.





Nesta era de fake news, de bruah-ah-ahs virais, de inflamados estados de alma e de funfuns e gaitinhas para todos os gostos parece que já não se pode ser politicamente incorrecto e dizer, tout court, o que verdadeiramente se pensa.

E isso é que era bom. Era, era. Era o que faltava.

Por exemplo.

E é mesmo só exemplo. Porque quem diz isto que vou dizer podia dizer outra coisa qualquer.

Por exemplo, se acho que o Ronaldo é o melhor jogador do mundo vou votar no Zé da Gatinha porque já não posso com o rabo da Georgina sempre espetado para a fotografia? Ora abóbora.

Ou.

Se acho que a Ana Gomes é a melhor comediante da televisão portuguesa, vou votar no Batatinha para o Globo de Ouro? Porquê?

Ou se acho que o Louçã é que tinha mesmo pinta de Cardeal, ia votar no poeta Tolentino para fazer turma com o Manuel Clemente et al.? Eu não. Está bem que aí não risco. Mas isto é um exemplo, ok?

Ou, se acho que o cão é o melhor animal para guardar a casa, vou mas é arranjar um canário fofinho só para o cão não ficar a achar-se? Sou maluca ou quê? (Quero dizer, ser se calhar até sou mas não sou parva, olhem lá)

Ou, se sou encalorada, vou vestir um casacão com gola de pele só para os encalorados não ficarem em maioria? isso é que era bom.

Ou, se quero fazer uma casa à maneira, vou contratar não um arquitecto mas um alfaiate só porque acho que os arquitectos acham que sabem desenhar casas e já não tenho pachorra para isso?

Ou se o chá de lúcia-lima me sabe bem e me faz bem vou beber um panaché de coca-cola só porque não gosto de facilitar a vida ao chá de lúcia-lima? Vou, vou...

Ou, se gosto de me perfumar antes de sair de casa, vou mas é pulverizar-me de alto a baixo com detergente para a louça só porque gosto de dar tiros nos pés?

Ora.

E, em vez de dizer o que me vai na alma a propósito do que vejo à minha volta, vou antes falar de equinócios dourados, outonos românticos, céus brancos e névoas macias como tule só para ninguém se sentir maçado com as minhas opiniões?

Ora. Era o que me faltava. Era mesmo.

Ou.

Só por exemplo.

Por exemplo, se gosto de chocolate preto e, ao mesmo tempo, de meter na boca um ou dois cubos de gengibre cristalizado, quero lá saber de mais ninguém gostar disso e de ninguém perceber que raio de gosto é o meu. Eu gosto, digo que gosto. Que é que hei-de eu fazer se sou de gostos inconsensuais? Fazer de conta que não? Em vez de chocolate preto à mistura com gengibre vou comer caramelos de Badajoz? Vou, vou. Havia de ter graça.

E se faço um esforço do pior que há para não me desatar a rir que nem uma perdida quando tenho pela frente um ga-ga-go muito ga-ga-ga-go a disfarçar que é ga-ga-go muito ga-ga-go porque hei-de eu dizer que não, que não me dá nenhuma vontade de rir? 
[E isto apesar de ter um na família e de eu própria, em miúda, durante algum tempo, ter sido ga-ga-ga. Aliás, o meu familiar acha que ser ga-ga-go é muito sexy, diz que tem muita saída junto das mulheres à conta disso.]
E se já estou a rir só a antecipar o que vai ser amanhã a entrevista da Joacine Katar Moreira com o Ricardo Araújo Pereira vou dizer que não? Vou, vou, esperem por essa. 

E vem esta conversa toda a propósito de quê? -- perguntarão vocês.

   Ora, a propósito disto tudo -- confessarei eu sem perceber a vossa dúvida.

Mas o que é 'isto tudo'? -- perguntarão vocês, ligeiramente atónitos.

     Ora, 'isto tudo' é o infinito que nos cerca -- responder-vos-ei eu do alto da minha perplexidade.

E aí vocês olharão à volta e, em silêncio, espantar-se-ão: Oh pá, mas esta gaja pirou de vez ou quê?

      E aí, lamento, não poderei esclarecer-vos porque resolver paradoxos abertos é coisa que não é para mim. Eu é mais bolos.

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E estes bolos -- que parecem feitos de propósito para adoçarem a nossa mente durante este nosso simpático período eleitoral -- foram confeccionados pelo pasteleiro Luke Vincentini que, qual J. Pinto Fernandes, não tem nada a ver com esta história.

E agora, para terminar, se não se importam, vão buscar uma flute de champanhe e preparem-se para delicadamente depositar este moranguinho na minha boca, ok?


Nham-nham

sexta-feira, agosto 09, 2019

Bolos para meninas prendadas, senhoras bordadeiras ou jardineiras ou cavalheiros sensíveis à beleza



Podia dedicar este post à Gina, senhora de amplos dotes doceiros e inesgotáveis dons criativos ou poderia dedicá-lo à Joana Vasconcelos que usa todos os meios para dar palco às artes das rendas e dos bordados. 

Ou poderia dedicá-lo aos gulosos e gulosas que por aqui costumam passar ou, simplesmente a todos os Leitores, para que se lambam todos a ver os belos bolos que Leslie Vigil tão artisticamente decora. 

Ou poderia dedicar a todas e todos as pessoas de bom coração e boa boca. 


Mas não quero ser elitista. Por isso, dedico estes belos bolinhos simplesmente a todos -- bons ou maus, artistas, burgessos, sensíveis, calhaus, gulosos ou enfastiados, lambões ou biqueiros, delicados ou casca-grossas.

E isto também para que saibam que eu aqui não me ocupo apenas de baixa política, mau sindicalismo, doutores-pardais ou demais passarada de arribação: não, eu aqui, na realidade, sou mais bolos.


E, para rematar, que entre a malta do Postmodern Jukebox que isto aqui é All about that bass. Bora cantar e dançar, malta.


E até já, ok?

[Mas primeiro tenho que ir ver um programa que me anda a encher as medidas, o Alone. A ver se depois me chega a vontade de voltar a escrever, ok?]

sábado, junho 15, 2019

Com a Callas à mesa


Há aniversários todo o ano mas, quando começa a chegar o verão, eles começam a apertar. Hoje foi um.

No fim do dia de trabalho, que hoje aconteceu um pouco mais cedo, fui buscar um pequeno bando ao pé do rio. Viémos cá para casa e os meninos, depois de lancharem, estiveram a jogar à bola com a big bola azul. Eu a dizer que bola pelo ar não, pontapés com força não, na direcção de portas de vidro não e, mal as costas viradas, já uma barulheira de futebol a sério. Não vale a pena querer que se portem bem. A avozinha consegue isso que lá em casa dela ninguém salta ou corre ou joga à bola. Nem sequer falam alto. Há pessoas que impõem respeito. Eu não.

Depois fomos para casa da aniversariante.

Estiveram todos a jogar à bola no relvado, grandes disparos de bola com o bebé a passar por entre eles e eu a temer que uma bolada o deitasse ao chão. Até a menina, à falta de outras meninas, jogou à bola.

Depois foram chegando mais pessoas, incluindo mais primos e incluindo um primo para a futebolada e uma prima bebé que não quis misturas, preferindo sentar-se ao piano e cantar com microfone, o que, mais tarde, viria a dar confusão pois o primo bebé fez de tudo para tirar-lhe o microfone. Isto no intervalo de comer folhado de salsicha, massa com carne, tigelas de arroz doce e carradas de melancia e, no fim, bolo de anos -- um bebé devorador, com boa boca.

E quando a mesa grande toda aberta se revelou insuficiente para os grandes -- porque os sete pequenos estavam numa mesa redonda à parte (a bebé menina ficou ao colo da mãe, senão seriam oito) -- teve que ser aberta uma outra mesa para juntar à grande.

E toda a gente conversou em várias conversas cruzadas, eu com a minha parceira do lado, o meu parceiro do lado conversando com o vizinho da frente, os do fundo conversando uns com os outros, outra brincando com um e outro e etc e tal e as crianças chilreando e rindo -- porque toda a gente tem coisas para dizer e piadas para contar e o meu filho esteve a contar coisas de mim, uma coisa muito recente, e pôs toda a gente a gozar e a rir. E depois o bebé quis sair da cadeirinha e os outros meninos também se levantaram e foram cirandar para a outra sala e eis senão quando uma música imprevista ecoa pela casa.

Ficámos todos parados, em silêncio, a olharmos uns para os outros. Perplexos.

E, então, o bebé  apareceu à porta da sala de jantar como se a ver se aprovávamos a escolha. Perguntámos se tinha sido ele. Disse que sim. E tinha mesmo sido. O pai, que estava sentado na direcção da coluna, disse: 'Tirou o CD que lá estava e pôs este'. 

E a música que se ouviu foi esta:


Perguntei-lhe: Gostas desta música? E ele, com ar de quem responde a uma pergunta parva, diz: 'Sim...!' e o tom foi o mesmo que se dissesse  'óbvio...!' ou 'dahhh...'.

E até ao final do jantar estivemos a ouvir a Callas, alto e bom som. E os outros meninos, ao contrário do que se poderia esperar, também não protestaram. E todos, espantados, ficámos de gosto na conversa, a Callas ali connosco à mesa.

Tão bom. Tão inesperado e tão bom.



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O primeiro bolo é de Elena Gnut e o segundo de Ksenia Penkina

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Um belo fim de semana a todos

quinta-feira, março 14, 2019

Shen Yun





Já o disse muitas vezes
mas andar a escrever coisas há alguns anos tem que dar nisso: uma pessoa, mesmo sem querer, torna-se repetitiva: 
fui boa aluna mas não boa estudante. Nunca fiz uma directa, nunca estudei muito, nunca fui muito de apontamentos, de fazer cábulas, de me empenhar para garantir que obtinha o máximo. Nunca. Estudava apenas o qb e, se era boa aluna, era apenas porque tinha facilidade, não porque me esforçasse. Por isso, nunca queria receber elogios ou parabéns, achava que se tinha boas notas era mero acidente, não propriamente mérito resultante de hard work.

Ainda hoje sou assim: vou para as reunião sem cadernos, notas, tablets. Só quanto vejo toda a gente aparelhada é que me ocorre que estou de mãos a abanar e que tomara que não me veja numa situação em que precise de algum suporte. Felizmente nunca preciso mas, uma vez mais, não me parece que seja mérito, parece-me que é mais por levar as coisas na levezinha. 


E não estou a dizer isto para me gabar. Digo-o apenas porque reconheço em mim um grande gosto por conhecer muita coisa e isso resulta numa incapacidade em dedicar-me esforçadamente a alguma coisa em especial. 

Dito assim pode parecer que estou a fazer género até porque, quem venha a minha casa e veja várias carpetes de arraiolos ou quem conheça este blog e verifique que já publiquei mais de cinco mil posts, pode pensar que não é bem assim. Mas é. O que faço, faço por prazer, sem me esforçar. Tudo o que me violente ou obrigue a sacrifícios é banido. 

E, no entanto, como admiro as pessoas que se aplicam para se superarem... Por vezes cruzo-me com pessoas que, equipadas a preceito, fazem corridas e percebe-se que já fizeram quilómetros. Enquanto eu caminho, na boa, sem medir passos, tempos ou pulsações, incapaz de me traçar objectivos exigentes, é com admiração que vejo como há pessoas que, ali vão, monitorizadas, passada larga, velocidade considerável, transpiração.


Ou esses ou os que, quando fazem anos, fazem bolos elaboradíssimos para levar para o lanche dos colegas. Admiro mesmo essas pessoas. Acontece-me não conseguir conter-me e, para além de elogiar por estar tão saboroso, dizer: 'Deve ter dado um trabalhão, não...?' e a aniversariante, toda contente, desatar a contar-me, com pormenor, a receita. E conta como pôs de molho as amêndoas, como lhes tirou a pele, como torrou, como as picou, como fez bolo e o cortou às fatias, e fez um creme e uma calda e mais não sei o quê. E eu ouço, espantada, por ver a generosidade da pessoa que deu horas da sua vida para fazer um bolo com que os colegas galifões vão acabar em três tempos. Eu, para começar, nem me ocorre levar bolos quando faço anos. De preferência, nesse dia, ponho-me a milhas. E, para os que vêm cá a casa festejar, o bolo é de compra. Fazer a comida propriamente dita faço porque gosto de fazer. Bolos, que têm que ser by the book e dão muito trabalho, está bem, está.


Ou os pianistas. Horas e horas de trabalho. Acho extraordinária a dedicação, o gosto pela perfeição. Inúmeras vezes a tentarem que o acorde saia perfeito, a tentar que a música flua como se um rio navegando. Os dedos já autónomos a voarem sobre o teclado. Horas de prática diária.
E, escrevendo à medida que as ideias me chegam aos dedos, estou a misturar alhos com bugalhos -- arte e trabalho, esforço com cortesia -- mas não faz mal. Não pretendo que a taxonomia se aplique aqui que nem luva. Prefiro não distinguir géneros. Esforço é esforço, abnegação é abnegação. E ainda bem que, em todas as áreas, há gente trabalhadora, esforçada, gente que persegue a perfeição. Se ontem falei dos caçadores de mel, hoje poderia estar aqui a falar dos caçadores da perfeição. Não especialmente de bolos artísticos, não dos corredores de maratona. Nem de borboletas, muito menos de lolitas: apenas da perfeição. 

E isto para dizer que olho os fantásticos bailarinos de Shen Yun e fico espantada. Quantas horas de treinos,  quantas horas longe dos amigos, quantas quedas, quantas dores?
A mind of steel, a body that’s pushed to its limits, a heart of humility, and much more. Learn about the rigorous physical, mental, and spiritual requirements for studying at the highest levels of classical Chinese dance and being a Shen Yun dancer. This video is written and narrated by Shen Yun performers and illustrated through real practice footage.

What Does It Take To Be a Shen Yun Dancer?




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Bolas. Se soubessem o que me aconteceu... Credo. Bolas.

Conto-vos. Isto começou por me dizer que estava com falta de espaço em disco. Depois propôs-me apagar alguns ficheiros. Respondi que sim e ele começou a arrumar-me a casa e a perguntar se podia apagar isto ou aquilo. Desinteressadamente fui dizendo que sim. Depois apareceu a dizer que tinha actualizações. Agendei para uma hora depois. E pus-me a escrever. Quando estava mesmo a acabar e já não me lembrava de tal coisa, desligou-se-me isto e desatou a instalar cenas. Só que a demorar, a demorar, dizendo-me que não desligasse. Adormeci. Quando acordei, estava isto ainda a configurar. Pensei: isto está empancado, é para esquecer, na volta deixei que apagasse alguma coisa vital e agora não sai daqui. E pensei: o fim de semana todo sem poder fazer nada no blog. Ou seja, acordei de tal forma aluada que pensei que fosse sábado. Olhei para a televisão, sem perceber bem. Só depois percebi que qual sábado... era bom, era. Tentei desligar o computador à força. Quando veio a ele, continuava na mesma. Desisti. Pensei: vou dormir. E nisto, quando estava a prepara-me para me levantar, milagrosamente restabeleceu-se e, aos poucos, começou a aparecer no ponto em que estava antes desta faena. E agora, aqui estou, a acabar o post. Tinha estes bailarinos fantásticos para vos mostrar mas, a seguir, tinha outra coisa. Só que depois disto é para esquecer. As máquinas têm vontade própria e isso, volta e meia, é uma maçada. Podia até, agora, depois disto, pôr-me a dissertar sobre machine learning ou artificial intelligence mas isso era se fosse a outras horas. Ou se este blog não fosse coisa de quem é mais bolos.


Os bolos são de Elena Gnut e deve ser uma pena comê-los. Por isso, sugiro que os olhemos apenas. E podemos acompanhar com L'incoronazione di Poppea "Pur ti miro, Pur ti godo" de Monteverdi com Jaroussky e Danielle De Niese

domingo, outubro 07, 2018

Flores, cristais e obras de arte que dá pena comer





Há uns meses fui a uma nutricionista. Fez-me um interrogatório que me obrigou a fazer uma regressão, não até eu ser outra, numa outra encarnação, mas até à saúde de pais e avós ou até a problemas de saúde de que já não tinha registo na memória activa. Viu-me as orelhas, a língua, os olhos, as unhas. Pesou-me, mediu-me. Depois mostrou-me esquemas científicos para me explicar algumas conclusões e, no fim, prescreveu o regime. Aconselhou-me que caminhasse mais, que dormisse mais, que abolisse açúcares e grande parte dos hidratos de carbono, produtos lácteos, pão de trigo, vinho, e que, por outro lado, introduzisse ou reforçasse um conjunto de alimentos tais como beterraba, alface e rúcula. E, é verdade!, para meu desgosto, que não comesse tanta fruta. E etc.

Levei à risca durante um ou dois meses. Perdi seis quilos e reduzi, creio eu, uns dez centímetros no perímetro abdominal. Fiquei toda feliz. Blusas e calças justinhas de volta, toda eu me senti recompensada.

Mas, hélas, não nasci para ser obediente, bem comportada, sofredora. Não gosto de resistir às tentações. Portanto, aos poucos, fui voltando a um ou outro bocadinho de pão (descobri o de espelta e matcha que é uma delícia), ao queijo (e cada vez gosto mais de queijo), ao vinho (ainda hoje, um Burmester branco geladinho a acompanhar a caldeirada), risotto, pizza, fruta em larga escala, etc, etc... e, também, uma ou outra sobremesa.

Mas não abuso. Não sou do estilo de 'enfardar'. Mas petisco. Só que petisco aqui, petisco ali... e os quilos já devem estar todos de volta e os centímetros idem. Não me tenho pesado para não ficar frustrada. Todos os dias penso que, no dia em que me encher de motivação, ponho de novo o travão às quatro rodas e volto à figurinha mais a preceito. Mas esse dia ainda não chegou. Talvez quando os figos se acabarem.

A verdade é que também não sou do género de, ao pequeno almoço comer croissant a transbordar de gordura,  a meio da manhã um paltel de nata e a meio da tarde uma bola de berlim.  Doces só à sobremesa e, mesmo assim, não gosto de doces muito açucarados, nem gosto de muito de cremes gordos e doces como o chantilly ou o creme pasteleiro. Gosto de laranja com casca caramelizada por cima, gosto de gelatina com frutas por dentro, gosto de tarte de limão merengada, gosto de clafoutis de maçã, gosto de ananás caramelizado com raspinhas de lima, gosto de pão de ló de Alfazeirão, gosto de sopa fria de papaia. Coisas assim. 

E também me deixo impressionar pela arte ao serviço da doçaria. Já aqui o referi: até não há muito, não se viam em Portugal bolos 'artísticos'. Quando noutros países, eu ficava encantada a ver as montras de algumas pastelarias. Obras de arte.

Agora por cá já começa a ver-se e, sobretudo, começaram a aparecer pessoas que os fazem em casa vendendo a amigos e conhecidos. Do que percebo, o facebook é o grande veículo para este tipo de actividade.

Contudo, não tenho conhecimento de que tenhamos por cá artistas como os que aqui, no blog, já tenho referido. E hoje refiro outra pasteleira cuja arte na confecção de bolos é extraordinária. Leslie Vigil inspira-se, sobretudo, em flores. E o resultado é fantástico. Claro que dará pena comer aquelas flores tão bonitas e, lá está, nem sei se não serão de massapão muito doce ou de creme de manteiga, coisa de fazer engordar uma tonelada, mas, enfim, só de ver já a gente fica feliz. E ser feliz é coisa apetitosa. 

Bon appétit.


Este até parece um bouquet de noiva.

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E, justamente, porque estou numa de 'eu é mais bolos', permitam que vos convide a espreitar os fantásticos outfits que a FLOTUS usou na visita a solo onde deixou todos de cara à banda.

terça-feira, setembro 04, 2018

Dá uma trinquinha..!
- Não dou...
Dá lá...
- Não dou...

[E, no meio desta doce temática, perceberão que o Rui Rio, o Fernando Negrão e o Flopes das Caves Aliança não passem de um insignificante Post Scriptum]





Não é que não goste de docinhos. 
Eu gosto. 
  Não é que me furte a uma trinquinha. 
  Eu não furto. 
   Não é que não curta coisa bonita. 
    Eu curto. 
     Não é que eu não seja de dar uma mordidinha em coisa bonita. 
      Eu sou. Juro que sou.
Mas é que é tão lindo, tão lindo... Coisa assim nem parece feita para ser mordiscada.

            Nem mesmo para saborear devagar.

                 Coisa de tanta beleza parece feita só para ser olhada.

                          Nem para mexer. Só olhar. Olhar. Quanto muito, vá lá, comer com os olhos.

E, depois, então, talvez... talvez... uma trinquinha.
                                                                                Uma little, little, little trinquinha. 
Com sentimento de culpa.
                                          Mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa.
Mil perdões por pecar, mil perdões. Não devia, sei que não devia, mil perdões. Mas teve que ser. Sou uma pecadora. Mil perdões. E prometo voltar a pecar, prometo. A sério. Prometo. Pecar uma e outra e outra vez. Pecar cada vez mais, pecar cada vez melhor. Pecar agora e na hora da minha morte. Ámen.
















Comer um Mondrian, um Delacroix, um Van Gogh, um Bosch (?), um Hokusai, um Magritte, uma Frida Kahlo, um Kandinksy não sei se é um pecado, se é uma bênção. Sei, sim, que são obras de arte. Comestíveis. Tortik Annushka, Moscovo -- e é tudo para comer e, ao que dizem, delicioso.

Nem todos os bolos se referem a pinturas: há bolos de toda a espécie e feitio, desde os mimosos até aos abstractos, todos simplesmente maravilhosos.



E aqui fica a dica aos Leitores e Leitoras mais prendados e/ou ousados: tentem.

E bom apetite.
[Sem sentimentos de culpa, claro.]

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E queiram fazer o favor de descer até ao post seguinte onde se ensina a cura (caseira) para dez maleitas

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PS

E não estranhem as temáticas: vale tudo para não ter que falar do Rui Rio e do Fernando Negrão. É que eu é mais bolos. E, demais, sou caridosa. Fazer o quê? Tenho um coração cheio de doçura. Deixá-los lá, coitados, naquelas macacadas deles. Não vão a lado nenhum. Para quê perder o tempo com aquelas indigências, coisa tão patética que até enternece...? Para dar cabo deles já chega o Marques Mendes e os outros laranjas que já andam pelos cabelos com aquela dupla mais cómica que o Sr. Feliz e Sr. Contente.

Ah, é verdade, recebi agora um mail de académico na área da Big Data a avisar para andarmos de olho no Menino-Guerreiro das Caves Aliança -- o tal que, em seu devido tempo não se ensaiou nada para lançar campanhas difamatórias contra Sócrates -- por ser de temer que, para se projectar junto da opinião pública e manipular vontades para as próximas eleições, resolva preparar uma à moda do Trump-Bannon. Aqui fica o aviso.

segunda-feira, junho 25, 2018

Enquanto não acaba o Portugal Irão, já comia qualquer destas coisinhas



Toda lampeira, saí às seis e tal e, antecipadamente feliz, gabei-me junto da minha filha, ao telefone, que o trânsito nõ estava por aí além. E parecia que sim.

Afinal passei por onde havia big ajuntamento de adeptos, tudo de lenço encarnado e verde na cabeça,  bandeiras da selecção, apitos, uma multidão de gente a festejar e, claro está, nas redondezas o trânsito todo encalacrado. Resolvi estacionar por perto para ir a pé. Está quieto. Lugar para estacionar zero. Voltas e voltas e voltas e voltas e zero. Quando cheguei a casa, o meu marido meio enervado (provavelmente porque passou pelo mesmo para chegar a casa), tenho ideia que estava no intervalo ou quase, nem sei. Ando com uns sapatos lindos demais, elegantes que só eles. O pior é que me apertam os pés. Durante o dia a coisa suporta-se. Agora estar fechada no carro, em pára-arranca durante hora e meia e depois fazer, pela calçada acima, um esticão do caneco, é que passa da conta. Chiam-me os dedos. E, por isso, quando cheguei a casa vinha transtornada pela demora, pelo trânsito, pela falta de lugares e pela chiadeira dos pés. Nem prestei atenção a nada, toda eu motivada apenas para atirar os sapatos pelos ares e mergulhar os pés em água fria.

Bem. Adiante. Já estou descalça -- já chega de podologia.


Depois de me despir, de me desmaquilhar, de me lavar, de arrumar a roupa para amanhã e de mais isto, aquilo e o outro -- e depois, ainda, de mais uma mão cheia de tretas -- lá consegui chegar aqui ao meu sofá de estimação.

Resumindo: vi o Cristiano Ronaldo falhar um penálti e agora pôr-se a jeito para levar um vermelho directo.

E agora, caneco, vai ser penálti a favor do Irão. Não se aguenta. Caneco. Se isto se admite. 


E estou cheia de fome. O almoço foi engolido tão à pressa que foi como se não tivesse comido nada. Quando estava agora de regresso, no carro, comi uns miolinhos de amêndoa que tinha na carteira. Mas nada que amainasse este apetite agudo. Estou mesmo varada de fome. E tenho que esperar pelo fim do jogo.

Mas tão, tão cheia de fome que devorava qualquer uma das coisas que aqui vos mostro. Tudo. Tudinho. 

Impossível. Golo do Irão. Como é que isto pode estar a acontecer? Que coisa mais parva. Parece que desatinam, caraças. Mas, enfim, deixo os comentários para o nosso Presidente Marcelo que, neste momento, já aqui está a comentar o jogo. Ganda Marcelo. Ainda sob o efeito dos imodiums, já aqui me está a descrever as jogadas e o que fizeram bem e mal. Ganda, ganda Marcelo. Mais versátil e ubíquo que este não voltamos a arranjar outro.
A sério: um cinzeiro cheio de beatas, uma laranja podre, umas torradas queimadas com um ovo despropositadamente estrelado e uma esponja da louça carregadinha de detergente. Qualquer coisa destas marchava. Quando uma pessoa tem fome, tudo lhe sabe a petisco. Nem que seja, apenas, uma beata como amuse-bouche.

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Coitadinhos dos iranianos. Choram tanto. Tão lindos. Quando penso em homens bonitos, penso em homens assim como eles, pele tisnada, feições elegantes, corpos bem modelados. Que decepcionados estão. São dignos na forma como curtem o desgosto. Uns cavalheiros. Umas estampas.

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Pronto, eu explico. Não que pense que os meus Leitores me têem em grande conta mas, bolas, tão maluca assim também não quero que me achem.

São bolos. Dizem que bué de bons. Tudo neles é comestível, até o que parecem ser recipientes. Trata-se de obras comestíveis da autoria do Chef Ben Churchill, também conhecido por The food illusionist.


Até o vasinho eu comia.
Até a terra...
(E não se lembrou ele de pôr ali uma minhoca gelatinosa).

terça-feira, maio 29, 2018

Não me comas... pleeaaaaseeee...


Só para dizer. Não sou puto fã de festas temáticas, festas surpresas ou cenas afins. Quando faço anos, estar com a família mais próxima é do que gosto, e mais do que isso já me fatiga. E é em casa, comidinha feita por mim, nada de barafundas de restaurantes. Quando faço anos de casada, ir numa de escapadinha -- nem que seja ao virar da esquina -- já está bem para mim. Naquelas coisas que alguns casais fazem, de renovar votos com copo-de-água e tudo a preceito, nem que me pagassem. Nem pintada. Nem com a promessa de vida eterna. Uma seca dessas não a suportaria nem á lei da bala.

Espanta-me sempre quando as pessoas se empolgam e afadigam durante semanas a preparar ao pormenor cada coisa de um festejo quando depois o momento se esgota num ápice e pouco fica da trabalheira de quem andou naquela labuta.

A minha filha é assim: gosta de organizar cenas. Se há algum happening, aí está ela a engendrar o como, onde, quem, a imaginar o décor, as toilettes, os presentes, os comes, os bebes, os isto, aquilo e o outro.

Quando era pequena, o que ela vibrava, em antecedência, com o dia da festa de anos. Eu tentava moderar-lhe as expectativas e ia pensando em sucedâneos (caso fossem necessáros) já que, fazendo anos em pleno período de férias, dos vinte amigos que convidava, se aparecesse uma meia dúzia já era uma sorte. Felizmente, com o irmão, os primos e os miúdos do prédio a coisa compunha-se. Mas, depois, das mil brincadeiras que imaginava e preparava com um entusiasmo que me enternecia, poucas conseguia fazer e, por volta das nove ou dez da noite, já os amigos se iam embora e já ela ficava desolada por ter acabado tão depressa.

Não sou disso.

Mas que não se pense que me acho melhor do que alguém que seja festeiro. Não. Cada um é como é -- e aprecio a veia festejadora de quem a tem.

Eu, mesmo nas datas mais simbólicas, não me dá para festivais. Quando fiz um aniversário bem redondo, tinha pensado vivê-lo em Florença. Mas uma pessoa da família estava gravemente doente e irmos para fora parecia arriscado. Fomos, então, dar um passeio no país, regressando a tempo de jantar com a descendência que, na altura, ainda não contemplava netos. Ainda me lembro da minha filha se queixar que o bolo poderia ter sido mais artilhado. Devo ter ido comprar na primeira pastelaria que, àquela hora, estivesse aberta*.

A verdade é que embirro com bolos de aniversário que têm muita cor, muito acúcar e pouca arte. Parecem-me uma piroseira. Quanto mais simples, melhor. O ano passado comprei a tarte de framboesas da Padaria Portuguesa e adoraram. É pequenina, só dá mesmo para provar. Tem que se trazer outros bolos.

E digo 'trazer' porque os vou sempre 'buscar' à loja. Fazer bolos não faço. Não dão para improvisar. Se me ponho a juntar beterraba para ficarem encarnadinhos, sei lá se ponho na dose certa e, às tantas, não fica o bolo todo mal saboroso. Ou se invento de misturar sumo e casca de laranja, amêndoas e cenoura ralada sei lá as doses para ficar na textura certa. Uma vez fiz um doce que consistia em chocolate derretido a envolver frutos secos, passas, fruta cristalizada. Ia ao frigorífico a solidificar. Quando secava ficava como que um chocolate sólido, com alto recheio. Adorei. Os miúdos detestaram. Os mais crescidos acharam que estava calórico demais. Foi a gota de água. Resolvi que não estaria mais para me aventurar a dar o meu melhor e ainda por cima ser criticada ou gozada. Foi o ponto final.

Comida de tacho ou forno, não: dá para rectificar, acrescentar, disfarçar. Gosto. É a minha praia. Nos bolos tem que se ensaiar, ver se fica a contento, e, se for aprovado, repetir. Ora repetir é coisa que não me assiste. Ou seja, para uma inventora anárquica como eu, mais vale assumir que doçaria é terreno interdito.

Mas tenho pena.

Gostava de ter mão para doces, de inventar e ter a intuição para antever o resultado final.

Uma cunhada do meu filho é uma artista. É capaz de passar horas a esculpir figurinhas que saem bem, são divertidas e saborosas.

Aliás, há gente que faz bolos mesmo artísticos.

Mas, não desfazendo, nada como Elena Gnut, a pasteleira russa de 31 anos que faz bolos que devem causar desgosto a quem tem que os comer. Eu, pelo menos, se fosse um bolo destes imploraria para não me comerem.

(Adiante, que o que eu disse daria pano para mangas...)

A sério: um bolo assim eu gostava de ter numa festa minha. Sobretudo, gostava de ser capaz de fazer fazê-lo e depois partilhar o prazer de ter família e amigos à minha volta, a cantar, a contemplar tamanha obra de arte e, finalmente, a comê-lo, chorando por mais.

Um igual a este, por exemplo, seria, soit-disant, a minha cara. Uma comoção. Nem sei se deixaria alguém dar-lhe uma trinca.


E sai uma musiquinha para ajudar à festa


E mais um bolinho, coisa simples.


Bon apétit

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Um dúvida metódica: 
Será que um bolo assim pensa: 
Não me comas 
ou, pelo contrário, 
Não te acanhes... come-me... vá lá...
?
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* Recebi uma sms da minha filha que passo a transcrever: 
Já li. Era e sou assim mesmo. Mas, para variar, não te lembras nada de pormenores. Quando fizeste anos, foste passear e nós, à noite, aparecemos aí em casa e, como não tinhas bolo de anos porque não era para haver nada, eu comprei um salame mas, como estava tanto calor e eu tinha ido jantar fora com o X. porque fazíamos dois anos de casados, ficou todo mole e meio derretido mas ainda deu para cantar os parabéns.
(NB: Agora que o diz, lembrei-me. Bem me lembrava que a cena do bolo tinha dado que falar. E, já agora: quando ela diz que ficou todo mole e meio derretido refere-se ao salame, não ao X.)