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quinta-feira, julho 17, 2025

As cores e o calor a sul

 

Dias de calor, de veraneio, de muito azul e de muita luz. Dias de muita risota. 

E, como não há  bela sem senão, dias de petiscos e lautos repastos. Tanto cuidado que andei a ter com hidratos e com açúcares para agora andar a deitar tudo a perder... 

Como sempre, trouxe livros e, como sempre, ainda não peguei em nenhum.

E, como sempre, já apanhei conchinhas que me parecem lindas e imprescindíveis. Mas a idade já me ensinou a não ter muitas ilusões. No outro dia, quando estava a preparar o saco de palhinha, encontrei, no fundo, umas que o ano passado também já me tinham parecido delicadas, pequenas obras de arte.

Dantes trazia as minhas câmaras fotográficas. Da última vez que trouxe uma, encheu-se de areia, ficou estragada. Desisti. Agora só uso o telemóvel. no entanto, para mim isso é muito limitativo, perco a vontade de me me focar nos detalhes, sinto que me vulgarizei. Mas é o que é, acompanho os tempos.




terça-feira, julho 15, 2025

Há bandidos em todo o lado - essa é que é essa.
Mas, sejamos justos, a verdade é que há bandidos mais bandidos que outros e este de que aqui falo, o pika, até é um fofo

 

Depois de ter tido que acordar mais cedo e, portanto, depois de ter dormido, de novo, muito menos horas que as devidas, ainda por cima sendo dia de viagem -- e isto depois de termos deixado o nosso cãobeludo bem contrariado e triste num lugar em que não queria ficar, o que, naturalmente, nos entristece também --, para mais com muito calor, felizmente com praia e muita risota, chego aqui, tarde e más horas, ao computador, e mal consigo manter-me acordada.

Depois de lauto jantar na esplanada ainda fomos passear e, claro, não sendo esquisitas, por onde passamos encontramos coisas úteis ou, simplesmente, giras. Portanto, o resultado é o expectável: cheguei aqui já capaz de me atirar para a cama.

Portanto, pedindo desculpa se o título vos induziu e erro e vieram aqui espreitar a pensar que ia falar do Putin, do Trump, do Ventura ou desses que por aí andam -- um já de rabo esfolado e patas ensanguentadas, outro fazendo macaquices ao espelho e achando-se o maior, nobilizavelmente o maior, e um outro, um cromo sempre aos saltinhos a ver se fica ao nível da pulhice dos outros --, mas não. Não consigo, estou perdida, perdida de sono. Por isso, desloco-me para as montanhas e convido-vos a vir comigo. O tema, podendo no limite até ser de vida ou de morte, até é inocente.

Pika: The Tiny Mountain Bandit | BBC Earth

Life in the mountains isn't easy. With just 10 snow-free weeks a year, the pika must work nonstop to stockpile food for the long, frozen months ahead. But not every pika plays fair…


Desejo-vos um dia feliz

sábado, julho 13, 2024

Post incumprido

 

Como deve ter dado para perceber, tenho estado fora. 

Dormi outra vez mal pois o pé desinfectou e desinflamou, está agora com uma mancha escura e algumas crostas e pele a cair, sobretudo no sítio em que estavam as bolhas, mas agora dói-me; mas é uma dor de tipo inflamação da articulação. Está um bocado rígido e doloroso. A médica tinha dito que tinha que se atacar logo 'até porque está mesmo em cima da articulação...'. Como andava com o pé um bocado de lado, pois custava-me assentá-lo, devo agora estar a pagar as favas da questão posicional. Nada de mais mas o suficiente para me dificultar o sono. Ora eu passo mal com défice de sono.

De qualquer forma, depois de uns belos dias de praia (a ver se um dia destes conto qual a praia e a terra que, se calhar, se posiciona no pódio das praias algarvias, na volta até no 1º lugar. Não conto hoje pois estou perdidésima de sono), foi dia de regresso.

Voltámos hoje à tarde e fomos directamente buscar a fera ao hotel em que tinha ficado. Portou-se mal e, tal o estado de ansiedade em que ficou, até parecia desfigurado, parecia que tinha os olhos projectados para fora, esbugalhados, e as orelhas, pelo contrário, encostadas para trás, até parecia que as não tinha. Estranho, transfigurado, hiper reactivo. E está com uma alergia na barriga que a senhora nos disse que poderia ser da relva ou do stress.

Ficou feliz, exuberantemente feliz da vida, da vida quando nos viu, parecia que estava a ser resgatado do inferno. E, no entanto, aquele 'hotel' em que estava é um luxo. Mas afastar-se de nós é para ele um pesadelo dos piores.

A seguir fomos dar uma voltinha com ele e, claro, tal como nas vezes anteriores, fez não sei quantas vezes cocó. Tal como os meus netos que vêm da escola sempre aflitos pois não gostam de fazer cocó na escola, assim esta nossa pequena fera. Vem de lá e mal se apanha no campo é fazer cocó umas vezes a seguir a outras.

Depois fomos ao supermercado pois vamos ter casa cheia e tínhamos o frigorífico com pouca coisa. A seguir fomos à farmácia comprar produtos para o tratar.

E ainda fomos fazer uma pequena caminhada junto à praia e buscar sushi para o jantar.

Depois, em casa, foi desarrumar as malas (devo confessar que vieram bem mais carregadas do que foram pois embora eu tenha começado por dizer que não queria nada mais, não precisava de nada mais, que nada de nada, acabei por trazer mais um fato de banho, mais um chapéu, mais dois vestidos, mais uns brincos e uns anéis e etc), arrumar os sacos do supermercado, tomar banho, etc. E isto já tarde, tarde.

Conclusão: mal pousei aqui no meu querido sofá, apaguei. Acordei estremunhada, a sentir que deveria era arrastar-me para a cama. Mas como tenho esta necessidade de não acabar o dia sem vir aqui dar um arzinho da minha graça, aqui estou.

Tenho coisas para contar, coisas bonitas para mostrar ,mas tem que ser quando estiver acordada... Por isso, sorry mas este é mesmo um post que não é post...

quinta-feira, outubro 05, 2023

Os jovens desactivistas que andam a atrapalhar a vida a quem trabalha e a serem levados ao colo pelos desjornalistas.
[Isto em mais um belo dia de férias]

 


Mais um belo dia de férias. Praia. Tempo bom. Uma luz branca, levemente enevoada, muito levemente, quase um tule.

Fazemos umas boas caminhadas. Parte do caminho faço-o dentro de água mas apenas os pés. Tão agradável. A água está em boa temperatura.

As pitangueiras estão plantadas. São uma pontinha, apenas, uma ervinha. Espero que vinguem e que se cubram de pontinhos amarelos e encarnados. 

Tratei do que tinha a tratar e tive tempo para escrever. 

Escrevo, escrevo, escrevo. Não sei de onde saem tantas palavras.

Aconselham-me a que escreva menos, que pondere mais. Mas isso é o mesmo que me dizerem que pense menos ou que respire menos. Não sei pensar antes de escrever. Quanto muito, penso depois de escrever.

Aliás, hoje estava a caminho do fim de uma história e, sabendo já como ia acabar, a minha cabeça começou a deslizar para uma próxima. É muito estranho, bem sei.

Tirando isso, vi, num relance, meia dúzia de jovens com aspecto vagamente alternativo que por aí andam a fazer parvoíces, cortando o trânsito, atrapalhando a vida a quem anda a trabalhar. Quando entrevistados, os jovens só dizem palermices, vacuidades. Estão desfasados da realidade, são incultos, mal informados. São um vulgar subproduto das redes sociais. Contudo a televisão ouve-os, dá-lhes palco. Uma gentinha desqualificada, tanto eles como quem lhes dá palco.

Enfim.

Enquanto estou a escrever, estou a ver uma entrevista com o Woody Allen. Diz que o trabalho é fundamental mas que a sorte é muito importante, que se pode trabalhar bem toda a vida e nunca ter sorte. Um médico que conheço diz o mesmo:  a gente tratar-se ou monitorizar-se é importante mas mais importante é ter sorte.

E é mesmo. Por isso gosto tanto de desejar boa sorte. A mim própria me desejo boa sorte.

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A fotografia foi feita há dois dias. 

As Boygenius interpretam Cool About It

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Um bom dia feriado

Saúde. Boa sorte. Paz.

sábado, setembro 09, 2023

Born in the wild.
Selvagem

 

Há um perfume de homem que sempre me levará nas asas da memória até um longínquo verão em Angola. 

À medida que o tempo mais passa mais eu vou percebendo como foi de charneira na minha vida a minha viagem a Angola, um mês de total liberdade, quase vinte e quatro horas por dia junto de jovens da minha idade, grande parte deles até então meus desconhecidos.

Não havia telemóveis e, porque andávamos de um lado para outro, praticamente nem telefones dos outros. Não Tínhamos, portante, que telefonar nem esperar por telefonemas. Andávamos à solta, num outro continente. Portanto, foi quase como se tivéssemos cortado o cordão umbilical à família, ao mundo onde antes vivíamos.

A magnífica largueza de horizontes daquelas paisagens, o clima que convidava ao quase desnudamento, os dias longos, quentes, os maravilhosos pores de sol, aquelas praias em que apetecia estar até ser bem tarde, a descontração de toda a gente, a boa comida, a boa companhia, tudo, tudo eram mil maravilhas que eu avistava e desfrutava através daquela porta aberta que eu podia transpor sem ter que pedir autorização, sem ter que me justificar.

As amizades que nasceram, o afecto que se ia fortalecendo dia após dia, a alegria que uma certa pessoa que aparecia de manhã, cabelos molhados, sorridente, brincalhão, desafiador, e perfumado com Eau Sauvage, me trazia (e, creio, trazia a todos) não se esquecem. 

O tempo passa, passa muito rapidamente, mas há coisas que a erosão não leva.

A Dior escolheu, e bem, Johnny Depp para dar corpo ao espírito da Eau Sauvage. Leio que:

Sauvage Eau de Parfum smells citrusy, musky, and spicy giving the wearer a feeling of being fresh after the shower. The main notes are ambroxan, bergamot, and Sichuan Pepper with a lasting power of 8 – 10 hours with a very good projection.

Johnny Depp for Dior sauvage 2023



quinta-feira, agosto 17, 2023

Tranquila e silenciosa contemplação

 

Dias de férias. Não tem havido horários, rotinas ou compromissos. 

Tenho tratado de algumas coisas, tenho organizado outras (porque isto com o computador nas mãos consegue tratar-se de muita coisa), mas, de modo geral, durmo até à hora em que acordo espontaneamente, almoço às horas que calha, faço o que me dá na realíssima gana. Chego a não saber qual o dia do mês ou da semana em que estou e, geralmente, também não sei que horas são.

O cão também anda à vontade, não há horas para passeios. Sai e entra quando quer.

Não vejo um noticiário de seguida há vários dias (melhor: há várias semanas). Se espreito as notícias, nada desperta a minha atenção. Passo de raspão, desinteressadamente. 

[Ou melhor, dito de outra maneira, mais verdadeira: as que despertam a minha atenção têm a ver com desgraças de dimensão quase apocalíptica, muito para além do que a minha limitada dimensão humana consegue abarcar]. 

Tenho lido, ouvido música, visto vídeos. Isto para além de caminhar em silêncio ou fazer uma coisa que descobri e que tenho achado o máximo: deito-me à superfície da água, braços e pernas abertas e deixo-me estar a flutuar, a olhar o céu, sem pensar em nada. Quando interrompo, tenho que me deixar estar um bocado, devagar, para que os fluidos voltem a circular dentro de mim pois parece que toda eu fico em stand by enquanto estou naquilo. Pressuponho que seja a isso que se chame meditar.

O meu marido perguntou-me porque é que também não faço férias no blog. Não soube responder. Parece que, em boa verdade, ainda estou a aprender a ter férias-férias, parece que ainda não consigo, bem, desligar-me completamente de tudo. Claro que desligar-me mesmo é uma forma de dizer pois continuo a falar duas vezes por dia com a minha mãe e uma vez com cada filho. Mas isso não conta. Há cordões umbilicais que pulsam em qualquer circunstância.

Mas, no que se refere ao blog, de facto, este mês o número de visualizações tem sido consideravelmente reduzido face ao que costuma ser nos outros meses, tem dias que nem chega bem às mil e quinhentas visualizações. Mas, ainda assim, são quase mil e quinhentas as vezes que aqui vêm Leitores ver o que escrevi. Várias pessoas me escrevem a dizer que, mesmo que nem sempre concordando comigo, têm em mim uma companhia e que não passam sem vir ler o que escrevi. Embora não saiba dizer com rigor as razões que me impedem de aqui fazer férias, creio que a principal tem a ver com o respeito -- e estima -- por quem está aí, desse lado, a acompanhar-me.

Mas, claro, estando nesta onda zen, desligada do mundo, não tenho nada de especial para dizer... 

A ver se amanhã consigo que o meu marido me sugira alguma coisa ou se, durante o dia, penso nalguma coisa que possa ter alguma ponta por onde se lhe pegue.

Sorry.

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A fotografia da autoria de Julian Elliott e que fui buscar ao Guardian, chama-se "Quiet Contemplation" e mostra: A Vietnamese woman sits in the front room of her house looking towards the window light, quietly contemplating her afternoon.

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Desejo-vos um bom dia

Saúde. Dias descansados e felizes. Paz.

sexta-feira, julho 21, 2023

Uma questão de equilíbrio

 

Dia preenchido e bom mas com uma componente triste. 

Deste vez resolvemos encontrar uma solução para não estarmos dependentes dele e ele de nós. A experiência é de curta duração. Pesquisámos, fomos ver, e, para dizer a verdade, a única solução que nos agradou minimamente estava esgotadíssima. Esta foi a segunda escolha. Grande parte das outras vive, quase de certeza, no mais puro amadorismo (e, antecipo, no gostoso mundo paralelo em que não há facturas, não há ivas, não há irs, nadinha, ou seja, o glorioso muito da economia paralela). Alguém que tem um bocado de terreno, arranja umas coisas, alguém que tome conta e está feito, um hotel para cães.

Até fomos dar com uma espécie de Zoo privado, uma coisa que me pareceu inimaginável, desolada, para não dizer sinistra, com camelos, lamas, póneis, cabras, gansos e tudo o que se possa imaginar. E, num bocado, umas quantas jaulas que funcionam como 'hotel para pets'.

Outro, com umas instalações fantásticas, quase parecia uma aeronave asséptica e, na zona de 'hotel', umas jaulas, sobrepostas, ínfimas. Tudo limpo, imaculado. E os animais ali enjaulados.

Este, que escolhemos, está associado a uma clínica veterinária e, do mal o menos, pareceu-nos razoável.

E sabemos que temos que fazer este teste pois não podemos fazer com o ano passado em que o trouxemos para o Algarve e que foi cansativo e stressante para ele e para nós. Mas dói-me a alma deixá-lo, sendo ele tão apegado a nós e nós a ele. Aliás, quando estávamos em casa a preparar as coisas (levámos a cama dele, onde ele já não dorme há um ano pois anda pela casa e escolhe onde quer dormir, ultimamente junto a um cortinado e a uma janela no andar de cima, e levámos os dois brinquedos preferidos dele) já ele devia estar a desconfiar que não vinha dali boa coisa. Deitou-se no corredor, de barriga para baixo, o queixo encostado ao chão, ar infeliz, impotente.

Quando o deixámos lá, tive vontade de me abraçar a ele, arrependida da maldade. Mas disfarcei, disse-lhe só: 'Os donos já vêm, está bem?'. Mas só me apetecia arrepiar caminho. E chorar. Custa-me imenso fazer mal a um ser indefeso. A única coisa que me faz aceitar melhor é que penso que, às tantas, aceita bem, habitua-se, e, de resto, é coisa ultra breve. E, se correr bem, habituar-nos-emos a isso e poderemos ter mais liberdade.

É tudo uma questão de encontrarmos o ponto de equilíbrio.

Tirando isso, está tudo bem.

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Uma terra pode ser visitada com foco nas suas belezas naturais. Ou na arte sacra. Ou na gastronomia. Ou na arquitectura. Ou no comércio. Ou... Ou na arte de rua, nomeadamente nos graffitis. A fotografia lá de cima mostra uma porta pintada, numa rua, numa cidade. Acho-a uma beleza.

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E, porque de um correcto balanceamento e de tentar encontrar o ponto de equilíbrio, aqui partilho um vídeo Chanel

The J12 Series. Chapter 2: A Balancing Act – CHANEL Watches



quinta-feira, agosto 11, 2022

Ser pago para não fazer nada
.

 


Claro que preferia estar de férias. Claro que tenho saudades dos abençoados tempos em que havia férias grandes que davam para tudo. De manhã ia à praia com os amigos, de tarde ia passear com eles pela baixa, pela beira-mar. Outras vezes ia passar o dia com os eles para a casa que uns tinham no campo. Na altura era campo mas, de carro, devia ser a cinco ou dez minutos da casa deles na cidade. Hoje é uma zona de moradias da cidade. Depois, quando o meu pai estava de férias, fazia férias com ele e com a minha mãe: íamos para Porto Covo ou para a Curia. Vários amigos meus faziam o Luso mas os meus pais preferiam a Curia. Isso causava-me algum enervamento pois o meu namorado da altura estava no Luso e eu na Curia e, ainda por cima, sempre desfasados. Mas também passava num instante. Estava lá e só pensava que não via a hora de voltar vê-lo. Havia também alguns dias de pura indolência. Lia muito. O tempo esticava de uma forma mágica. 

Com o outro namorado era diferente. Passávamos a maior parte do tempo juntos. Mas não era particularmente estimulante pois ele gostava muito mais de mim do que eu dele e, por isso, desse tempo o que recordo é a minha vontade de fazer coisas diferentes das que fazia. 

Com o terceiro, aí a música passou a ser outra: estávamos juntos de manhã à noite. No único verão em que namorámos, ele instalou-se numa pousada de juventude perto de mim e, portanto, era praticamente non stop. E era uma coisa equilibrada: estávamos os dois loucos um pelo outro, uma chama que ardia bem à vista de toda a gente.

Quando comecei a dar aulas acabou-se a bela vida. Estudava e dava aulas com horário completo. Tinha reuniões de avaliações, exames a vigiar, provas a corrigir, e isto em paralelo com trabalhos e exames meu na faculdade. E estava casada. Portanto, a coisa começou a apertar. Pior ainda quando fui trabalhar em empresas. Aí o tempo de descanso encurtou-se dramaticamente. Poucos dias e aí já com crianças pequenas. Não eram bem férias, era mais uma interrupção na rotina. 

Agora, que tenho tão poucos dias, gostaria de poder ter uma semana sem nada que fazer, nada de nada, não ter compromissos, não ter que ir a lado nenhum nem nada. O meu marido está como eu: diz que gostava de poder ficar deitado no sofá a descansar, diz que gostaria de poder dormir até mais tarde. Claro que estou em crer que, ao fim de uma semana sem fazer nada, já não me aguentaria, já estaria doida para sair, para fazer qualquer coisa. 

Quando no verão ficamos no campo, se estamos os dois sozinhos, no primeiro dia arrasto-me. Durmo, estou numa indolência que me deixa inerte. Ao segundo já ando de vassoura na mão, de balde e esfregona de um lado para o outro, limpezas a preceito. Depois já é podão e serrote e já ando de roda das árvores. E a partir daí já estamos os dois desertos para ir até à cidade mais próxima e tudo serve de desculpa: ou ir ao supermercado ou ir ver de alguma ferramenta. Qualquer coisa para nos sentirmos mais perto do mundo.

Enfim. 

Ontem, se estão recordados, contei que, ao fim do dia, quando aqui chego ao sofá, percorro as notícias e os sites que costumo frequentar para ver se descubro coisas nunca vistas, inesperadas, melhor ainda se transportarem qualquer coisa de inusitado, de meio amalucado.

Ora, como é sabido, o algoritmo do Youtube lê-me os pensamentos, pressente o meu estado de espírito, faz de tudo para me agradar e surpreender. Não tive até hoje ser vivo que assim me interpretasse e assim desse a volta ao mundo para descobrir o que me agradar. Isto da inteligência artificial tem que se lhe diga (e não digam que não avisei -- e, podem crer, sei um pouco do que falo)

Pois hoje o meu bff tinha para me mostrar uma situação extraordinária: um homem que vende o seu tempo para não fazer nada, apenas estar. No vídeo ele explica: resolveu ocupar o seu tempo, um tempo em que nada faz, de forma produtiva. Parece um paradoxo mas não é. Ou, se calhar, é. Tanto faz. 

E, curiosamente, está a ter saída. Pessoas que não querem almoçar sozinhas, pessoas que não querem ir a um sítio sozinhas, alguém que quer ter a experiência de um efusivo cumprimento numa estação de comboios, alguém que quer conversar sobre um tema sensível e não quer perturbar a família e amigos. De facto, um mar de possibilidades.

Diz ele que antes julgava que as pessoas muito ocupadas eram todas bem sucedidas e felizes. Constatou, entretanto, que não é bem assim. Diz que há muita solidão. 

Impressionou-me este vídeo. Há qualquer coisa de feridas expostas nisto. Mas, se calhar, estou a dramatizar. Se calhar é apenas uma forma prática de ultrapassar situações que, para algumas pessoas, são constrangedoras. Se calhar não tem nada de mais. 

Não sei. Às tantas não sei mesmo é mais nada.

É certo que isto se passa no Japão e no Japão passam-se muitas coisas estranhas. Contudo, creio que, neste caso, poderia acontecer aqui ou em qualquer outra cidade.


O japonês que é pago para não fazer nada

Shoji Morimoto provides a very unusual rental service to his clients in Tokyo, hiring himself out in order to, quite literally, do nothing.

He has fashioned a career out of renting himself out to clients who simply don't want to be alone. Shoji doesn't engage in conversation or do anything other than just be there at whatever event or activity he has been hired to attend, and yet he is in high demand, scheduling one to three sessions a day. 

PS: Ou seja, se alguém veio ao engano, a esta altura já deu para perceber: ao falar em 'ser pago para não fazer nada, obviamente não estava a referir-me ao Sérgio Figueiredo.

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As fotografias mostram um graffiti especial, em forma de renda. A rimeira foi feita em Póvoa de Atalaia, a segunda em Vila do Conde e a terceira no Bombarral. A autora é NeS NeSpoon

Yiruma interpreta Maybe

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Desejo-vos um dia bom

Saúde. Bom descanso. Paz

sexta-feira, julho 22, 2022

Em férias, pouco tenho a dizer.
Por isso, com vossa licença, a palavra aos chefes dos espiões

 

Estou num daqueles dias. Adormeço por dá cá aquela palha. Os dias a sul têm estado quentes, difíceis de estar ao sol. Não têm sido férias iguais a outras. Desde que os meus filhos eram adolescentes que não saíamos para férias em família. Além disso, mesmo nós dois, há dois anos, com a pandemia, que não saíamos. Agora parece que os tempos da sarna acabaram. Ninguém usa máscara, há gente por todo o lado, parece que nada aconteceu pelo meio. O meu marido ainda anda com o frasquinho de álcool gel mas eu, salvo situações mesmo merecedoras, já me deixei disso.

De tarde, fui saber se ainda havia hora de massagem para hoje. A menina devia ter tido uma desistência e disse, toda animada, que só se fosse naquele preciso momento. Respondi que por mim poderia ser mas que não tinha trazido nenhuma máscara. Uma salinha fechada e ela em cima de mim pareceu-me proximidade e risco a mais. Diz ela, continuando animada: 'Ah, não faz mal... não é preciso...!'. Temendo desiludi-la, arrisquei: 'Mas é por mim... eu é que prefiro. Será que me arranja uma?'. E ela arranjou-me e eu pus-me nas mãos dela. Difícil foi escolher o tipo. Todas com nomes artilhados, cada um sugerindo milagres. Optei pela mais simples. Uma hora para me rebalancear, seja lá o que isso for. No fim estava tranquila, zen, tão balanceada como antes. 

De manhã, fomos passear pelo centro da cidade não só porque estava com saudades como a minha mãe estava com uma certa carência de andar a ver montras. Com o sol que estava, um chapéu novo veio-lhe mesmo a calhar. E eu, que juro a pés juntos que não preciso de roupa até aos últimos dias da minha vida (mesmo que dure até aos 200) cedi à tentação de um vestido verde escuro com umas flores azuis. A vendedora era muda mas entendemo-nos gestualmente. Uma simpatia. Quinze euros. Vesti-o por cima do macaco que trazia vestido e ela segurou um espelho grande. Depois, semicerrando os olhos, fechou os dedos da mão direita, levou-os aos lábios como se soltasse um beijo de apreço. Também gostei. Enquanto isso, o meu marido fazia tempo passeando o cão. Quando cheguei ao carro, disse com aquele seu ar jocoso: 'Vieste de Lisboa de propósito para comprar um vestido nas barracas de Lagos'. Não são barracas, são umas tendinhas em que os vendedores são uns ciganos e ciganas que são uma simpatia. E têm vestidos giríssimos e muito em conta. 

E, portanto, com estes calores, tem sido uma semana à maneira. Trouxe um livro mas não me sobra tempo. Termos trazido o nosso urso cabeludo tem sido uma experiência e tanto. O balanço, ao fim de uma semana, é que penso que não é lá grande ideia nem para ele nem para a família. O hotel é dog friendly (e o dog paga diária), temos ido a restaurantes dog friendly, a praias dog friendly. Mas o animal não descansa, quando alguém se aproxima fica num stress e nós também estamos condicionados. Acho que, para a próxima, vamos apostar no hotel para cães

Quase não tenho feito fotografias. Há sempre tanta coisa que nem me dá tempo. 

Claro que não sei de notícias ou fofocas. Estou completamente out. Não sei de nadica de nada. Antes de abrir o blog espreitei o Guardian e vi alguns vídeos. Não sei se é bom, se é mau andar alienada mas é assim que me sinto, fora deste nosso mundinho. Preocupada com ele mas a gostar de estar fora.

Por isso, não estranhem se, na ausência de conversa própria, me dedique a partilhar este vídeo que versa aquele tema que me tem consumido. Quero perceber, ver sob diferentes ângulos.

Former spy bosses discuss Ukraine and Putin's invasion - BBC Newsnight

The former heads of MI6 and the CIA gathered at Bletchley Park for a book launch and wanted to talk Ukraine and Russia.  


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As pinturas de Yue Minjun estão aqui apenas para não me esquecer que em qualquer circunstância é bom arranjar um espaço para a gente se rir

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Desejo-vos uma feliz sexta-feira
Boa sorte. Boa onda. Saúde. Paz.

sexta-feira, setembro 07, 2018

Tempo de verão já com um certo toque de outono.
Retrato de outro dia de férias, hoje com um drama inside




Dormem agora os cinco na casa do lado a que, pomposamente, gosto de chamar estúdio. A alvorada será cedo. Adormecem cedo, acordam cedo. Adormeceram aqui e mais tarde foram, meio a dormir, para a outra casa.

O meu marido acha que estava um mocho na figueira que está ao pé da cozinha. Foi lá fora e ouviu um piar que antes nunca tinha ouvido. Bateu no tronco ou não sei quê, não percebi bem, e depois ouviu um bater de asas sem conseguir levantar voo. Acho que não devia tê-lo feito. Para que foi ele assutar o pássaro? Ele diz que queria saber que piar era aquele. Gosto da ideia de ter um mocho ou uma coruja aqui à porta de casa.

Hoje aconteceu uma coisa. Quando me levantei, fui comer figos à figueira grande que há lá em baixo e que, de tão grande, chega cá acima (esta ao pé da cozinha é brava). Quando estava a lamber-me com eles, uns dourados e outros rubros, ouvi o meu marido lá em baixo: 'Anda cá ver o que aconteceu à figueira'. Quis que me dissesse o que era mas não, quis que eu fosse ver. Fui. Nem percebi bem. Ela é enorme, está carregada de figos maduros, as pernadas tombam pelo chão. De longe não percebi nada de anormal. Disse para eu me aproximar. Um horror. Tal o peso que o tronco se rachou ao meio, na vertical, e metade da árvore estava vergada até ao chão. Fiquei cheia de pena como se fosse um animal de muita estimação. Não sei se a metade de pé sobreviverá só com meio tronco e com aquela superfície aberta, exposta ao ar. Tomara que sim. E ele, coitado, andou o dia quase todo a serrar os ramos da metade tombada da árvore para os poder transportar. Apanhou um grande alguidar de figos e a maior parte ficou lá caída. Aliás caíam com o tronco a ser serrado, ou rebentavam-se com os impulsos. Uma pena. O meu marido disse que, se calhar, não deveríamos deixar que tivessem tantos troncos ou troncos daquela envergadura, deveríamos desbastar as figueiras. Mas dá pena. É que rapidamente passam de árvores nuas e tristes a árvores pujantes e prenhas e, logo de seguida, a carregadas de filhos. Em que momento se deveriam cortar? Quando estão nuas, tristes e inofensivas? Quando começam a renascer? Quando os filhos lhes despontam? Não sei. Em qualquer altura parece crueldade.

Perto da hora do almoço fomos a uma pequena -- nem sei bem como lhe chamar, talvez empresa -- empresa de tratamento de pedras. Quando choveu muito, alguma telha deve ter ficado desencontrada e deixou acumular água. Então repassou água do telado e caíu aqui em cima do móvel onte está a televisão. 
É um móvel antiquíssimo, nem sei bem como designá-lo, talvez louceiro. Era de uma tia do meu marido ou da avó, nem ele sabe quem é que levou o móvel lá para casa. Sei que, quando morreu a tia que era solteira e morava na casa dos pais, avós do meu marido, este foi um dos móveis com que ficámos. 
E a água danificou um pouco a madeira do tampo. Então, lembrei-me de lhe pôr, em cima, uma pedra mármore. Aqui, nas redondezas encontra-se tudo. Perdida no meio da serra que se avista daqui, lá estava aquela pequena oficina. Uma patroa, um empregado, pedras na rua, um barracão onde o empregado corte e faz o polimento. Escolhi a pedra, dei as medidas, decidi o acabamento. Hoje, ainda estávamos só nós, fomos lá buscá-la. Trinta euros. O móvel fica ainda mais bonito.

O bebé é que ainda não descobriu os tesouros que lá se escondem. Louças antigas que vieram de lá, revistas, sei lá que mais.


Tão pequenino, o bebé e já aprendeu a adorar estar cá. Anda à aventura, a descobrir cada pormenor. O tempo todo está a dizer 'A póta' e a querer ir lá para fora. Agora de noite, eu dizia-lhe: 'Agora não, agora não se pode, está de noite' e ele encolhia os ombros, punha a cabecinha de lado, conformado. Mas, passado um minuto, fazia nova tentativa. De vez para vez que cá está, são notórios os progressos. Da sala de jantar para a sala da televisão há uns degraus. Já os desce na maior. Senta-se e aí vem ele. A subir é nas calmas, é mesmo a pé. E só queria que o vissem a fazer moche ao irmão. O pai diz~lhe: 'Faz moche ao mano!'. O mano deita-se no chão e ele atira-se, todo maluco, ar de folião, para cima do mano. E fartam-se de rir os dois. Aliás, rimo-nos todos.

Ah, e no meio da ida ao supermercado e à pedra e das limpezas (hoje foi dia de vidros e do forno e do micro-ondas e de varrer lá fora), antes deles chegarem, ainda consegui ler um pouco dos Diários. Estou mesmo a vê-la a levar tareia dos leitores menos dados à ironia e à maldadezinha se aquilo fosse escrito num blog. Eu vou lendo e, de cada vez que leio alguma coisa a que um dia queira voltar ou transcrever aqui, vou fazendo uma dobrinha no canto da folha. O drama é que quase não há folha sem dobrinha.

E agora, se me permitem vou dar o expediente por encerrado e retirar-me para os meus aposentos onde o meu compagnon de route já deve ir no quinto sono.


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As fotografias são de Russell James e estão aqui porque calhou ver fotografias dele e pensei que não era tarde nem era cedo. À falta de melhor, ficavam já aqui -- e se alguém for tão insensível a ponto de  achar que não têm nada a ver e que mais valia que aqui não estivessem pois, olhem, uma vez mais paciência,  nada a fazer. É fecharem os olhos e fazerem o favor de imaginar outras mais adequadas: passarinhos, florzinhas. Eu podia ir procurar das minhas mas, a sério, já não consigo. Sorry.

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Ah, é verdade. Não percam o vídeo do post que se segue que mostra um acontecimento surpreendente e que, se vira moda, só pode trazer-nos melhor qualidade de vida. Vejam mesmo, está bem?

domingo, agosto 26, 2018

A sul





Acordei e, mal abri os olhos, saltei da cama e fui ter com o meu marido que já tinha feito a sua caminhada matinal, já tinha feito certamente muito mais coisas e estava a instalar-se na sala.


Na véspera tinha estado de roda de mim: Quando é que te apetece falar do que vamos fazer nas férias? E eu: Qual a pressa? E ele: A pressa é que estamos a entrar nas férias e ainda não se conseguiu perceber o que queres fazer. E eu: Faço o que tu quiseres. Decide tu. E ele: Havia de ser bonito. Tudo o que eu escolhesse tu não haverias de querer. E eu: Tenta. E ele: O que eu gostava era que tu quisesses falar sobre o assunto. E eu: Pois. Mas não é agora.

Mas este sábado, levantei-me, liguei o computador e perguntei-lhe: Mas então queres já ir hoje? E ele: Eu, por mim... E eu: Vou ver o que há.

Pareceu-me que havia em qualquer dos dois para onde costumamos ir. Perguntei-lhe qual preferia. Preferia o mesmo que eu senão lá teria que tentar demovê-lo. Assim não deu luta. Perguntei: Hoje? E ele: Acho que sim.


E assim foi. Em menos de nada fizemos a mala. Mas primeiro ainda quis que lhe cortasse o cabelo. Usa-o praticamente rapado e é assim que gosto de vê-lo.

Parámos, a caminho, para comer uns petiscos de asian street food e depois foi de seguidinha. Eu a ler e ele de chauffeur que é assim que eu gosto. Se há homem a bordo não hei-de ser eu a conduzir. Sou feminista a sério, que é lá isso.


E, portanto, acabei o Fabián e o Caos do Pedo Juan Gutiérrez e o que tenho a dizer é que é um grande livro. Já aqui o disse que, ao princípio, fiquei a olhá-lo de lado. Aquela forma de sincopar a escrita não estava a cair-me no goto. Frase curta demais. Parecia futilidade. Mas ultrapassei o engulho e a verdade é que, mais à frente, a coisa entrou nos eixos, começou a fluir com aquela espessura visceral que lhe é tão característica.

E, mais para o fim, a coisa adensa-se, tudo é muito intenso, aliás, sempre tudo é muito intenso, e tudo é muito verdadeiro, muito emotivo, muito cru.  Livro muito bom. Quando acabei tive pena que tivesse acabado. Não acabou entre risos. Acabou como era quase inevitável. Fabián, da maneira que era, não tinha lugar na sociedade cubana. 


Fiquei com pena que tivesse acabado porque já sei que vou ter que esperar uns anos para que apareça um outro. E não há muitos escritores que eu acorra logo a comprar mal sai livro novo. Assim de repente há dois: o Pedro Juan Gutiérrez e o Paolo Cognetii. Ambos têm blogs e ambos estão aqui na minha galeria lateral. Pode ser que aconteça isso com mais algum mas não estou a lembrar-me.

E, então, chegámos e, passado pouco tempo, já estávamos na praia. Sempre aquela luz clara, aquela amplitude de horizontes, as palavras de Sophia vagueando sobre as águas, percorrendo os caminhos de areia.

É bom respirar o ar e contemplar o mar a sul.


Mas a água fria, fria. A minha filha tinha dito que estava de dar gosto, boa, boa. Mas que nada. Já deve ter soprado algum anticlicone vindo do atlântico, afastando as correntes mediterrânicas. Mas que sei eu disso. Estava fria e pronto. Tentei. O meu marido aventurou-se, mergulhou. Mas eu não. Não deu. Fui andando, água adentro, fui andando devagar. Mas, quando estava quase a ganhar coragem, o frio atou-me as pernas e arrepiei caminho.

Mas ficámos por lá até já bem tarde, o sol muito brando, muito dourado, a temperatura macia, as gaivotas descendo sobre o areal.

Fotografei muito, a luz estava bonita e eu estava tão tranquila. Tão bom.


À noite, depois de jantar, andámos a passear e já vi um chapéu muito lindo, com uns bordadinhos, umas florzinhas. Chamou logo por mim, tentador. Noutra encarnação eu fui uma mulher muito sedutora que usava os chapéus como arma de sedução. Ou isso ou outra coisa qualquer; mas lá que o chapéu é lindo, lá isso é. Não comprei porque achei caro. Pode ser que nas barraquinhas encontre algum do género e mais em conta. Sapatos e chapéus. Perco-me. E soutiens. Tenho-os de todas as cores. Mas não tenho azul claro e, como me visto muito nesse tom, tenho que usar soutien branco. Já fui espreitar ali à loja de lingerie e vi um bonito todo em renda. Mas a renda é ingrata quando o tecido da blusa é muito fininho, fica a perceber-se como que uma rugosidade por baixo. Prefiro em liso na zona mais proeminente e renda nas zonas mais oblíquas. Mas, enfim, não vim de férias para andar às compras. Vim para desligar de tudo o que é hábito da cidade.


Agora tenho aqui ao meu lado para ler o Palomar de Italo Calvino, os Contos de Petersburgo de Nikolai Gogol, o Embalando a minha biblioteca de Alberto Manguel e o 3º volume de Entrevistas da Paris Review porque, à última hora, quando estava a escolher os que queria trazer, lembrei-me que me parece que ainda me faltam alguns dos escritores deste livro.

Tirando isso, espero que esteja tudo bem convosco. Vou dando notícias e espero que elas vos encontrem de boa saúde e com boa disposição. Agora fico-me por aqui. Vou adormecer enquanto, lá fora, as gaivotas dançam e cantam. Bem as ouço, felizes da vida, livres, livres.


Enjoy

sexta-feira, agosto 26, 2016

O Prof. Marcelo já se pronunciou sobre aquilo do burkíni? Alguém sabe?
É importante sabê-lo.
Não vá o Costa querer emparelhar-se com o Hollande, era bom sabermos antes o que acha o nosso omnipresente, omnisciente e omnipotente Marcelo sobre tão relevante assunto.


Pronto. Não falo mais de cenas que mostrem que estou deserta para ir e férias. Falo só de uma questão que tem a ver com aquilo de que agora se fala muito: o burquíni.




Confesso que me distraí. Devia ter começado a minha dieta há mais tempo. Assim, como foi só há dias e já houve uma festa de anos pelo meio, tenho cá para mim que a coisa ainda não surtiu grande efeito. Claro que podia pesar-me. Mas poupo-me a desgostos.

Almas caridosas instalaram-me no telemóvel uma app para registar as calorias do que como e uma comparação face ao que devia para atingir um determinado objectivo. Nunca me lembro de registar. Não sou uma boa pupila para o que quer que seja.

Mas, calma aí, ando com cuidado e acho que estou a conseguir reduzir as calorias que ingiro. Contudo, sou honesta: sei que o resultado não é nada de espectacular. Se perguntar ao meu marido se já estou escultural tenho a certeza que ele vai desatar a rir-se. Por isso, também não pergunto.

Uma coisa é certa: os tais 3 ou 4 quilos, tenho a certeza que ainda não perdi. As calças já as sinto mais folgadas mas, se me vejo ao espelho, ainda me acho a atirar para aquelas lá do Rubens.


Bem, também não. Fui confirmar e também não tanto. Naquela altura é que gordura era mesmo formosura.

Mas também hoje a Marilyn pareceria anafadinha e, na altura, ninguém olharia depreciativamente para as suas formas generosas.


Não interessa. É comigo mesma que me comparo. E não vou conseguir pôr-me como eu queria antes de ir de férias. E essa é que é essa e o resto é conversa.


Por isso, pensei que, para a praia, uma solução para ocultar a minha carnadura seria o burkíni. Eu, que sou do mais encalorado que há e que só me sinto bem à fresca, até estava numa de me sacrificar e apertar-me dentro de um modelito preto porque com um modelito preto eu nunca me comprometo.


Mas, depois de ouvir o Valls e o totó do Hollande e de ver polícias pela praia à cata de mulheres que não estejam descascadas, já vacilo. É certo que cá ainda não há cá disso, cá é mais à cata de facturas de bolas de berlim que eles andam. Mas sei lá.


Em França obrigam-nas mesmo a descascar-se, deixando à mostra pneus e papos - uma indecência...!

De qualquer maneira, era importante que a TVI se pusesse em campo e soubesse o que tem o nosso afectuoso presidente-comentador a dizer sobre o assunto. Ele que a toda a hora nos aparece casa adentro a falar de tudo, a opinar, a comentar, a abraçar-se e a beijar novas e velhas, casadas, solteiras, divorciadas e viúvas, enquanto manda recados, ralhetes, elogios e incentivos -- já deve ter trocado uns leros sobre o assunto com a sua Rita-Casa-não-Casa e eu cá, para me afoitar a ir de burkíni para a praia, sentir-me-ia mais confortável se soubesse que o nosso fresco e fofo Marcelo não é contra.


marcelo casa ou não casa com a namorada rita?
O nosso presidente e a sua eterna namorada, ambos em fato de banho numa praia portuguesa
(casalinho a quem os tablóides e revistas do coração não conseguem empurrar para o casório)
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E pronto. Não deixei transparecer que não penso noutra coisa senão em férias, pois não?

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E queiram, então, aller en promenade avec moi até Paris. 


terça-feira, setembro 01, 2015

O mar e as memórias, a sul






Por uns dias, rumámos a sul. No meio de consultas médicas, afazeres e algumas canseiras, o apelo do sul é forte. Cá estamos. Aqui voltamos sempre. O mar a sul nestes dias dourados tem um azul intenso, absolutamente atraente. A aragem amena tem o tempo todo em suspenso, as gaivotas esperam o cair do sol para iniciar os seus largos voos e eu, na varanda, olhos cheios de mar, espero que elas cheguem, cruzando o espaço luminoso, afável. Leio um livro mas, de facto, não leio, apenas quero que um livro me acompanhe pois parece que me sinto mais eu, assim, sentindo o vagar com um livro nas mãos. O livro é 'O mar' de John Banville mas ainda mal passei das primeiras páginas.

Há turistas a rodos, gente e mais gente, o comércio local agradece e a economia, certamente, leva um pequeno pontapé para cima -- mas para quem, como eu, prefere, nestas situações, o sossego e o silêncio, é gente a mais. Mas queiramos nós afastar-nos um pouco ou escolher as horas de maior acalmia, e conseguimos ter o prazer sereno do amor a sul só para nós.




Desde pequena que venho para o Algarve, pelo menos no verão.

Íamos para Faro, e visitávamos as primas de Faro, primas do lado da minha mãe, e lembro-me de umas casas grandes numa rua central, lembro as casas como iguais, com um grande corredor a meio e janelas altas, com portadas de madeira, que davam para a rua principal e os tectos eram altos, trabalhados. E deviam ter as portadas quase fechadas ou os cortinados corridos porque me lembro da penumbra que sempre havia. E eu chegava e aquilo era cerimonioso (a minha mãe dizia que as primas eram umas vaidosas; aliás tenho ideia que ela e os meus tios diziam isso dos algarvios, em geral) mas, logo, passado um pouco -- especialmente quando ia também o meu tio, irmão da minha mãe, que era muito alto, muito alegre, tinha um vozeirão bem disposto, e a mulher dele, a minha tia querida que era uma divertida, amiga da farra -- o ambiente animava-se e, por fim, já era uma alegria. E, na despedida, elas combinavam retribuir a visita mas tenho ideia que nunca saíam dali, não me lembro de que alguma vez tenham ido visitar-nos.

E havia família dos lados de Monchique, também dos lados da minha avó materna, e de Alte, do lado do meu avô materno que tinha morrido tinha eu uns dois ou três anos. Mas acho que já não devia morar lá família porque só lá íamos passear, ver a casa, a rua, onde antes moravam.

Tinha havido em Portimão a família do primo presidente mas, se ainda por lá havia parentes, já não seriam chegados, não me lembro de fazermos visitas por essas bandas.

E havia também, para os lados de Loulé, em vários lugares por ali, primas e tias aos montes, estes do lado do meu pai. Famílias grandes, muita gente dispersa que se juntava no verão, e as terras lembro-as secas, e figueiras, alfarrobeiras, amendoeiras a perder de vista. As casas tinham em cima um terraço onde secavam as amêndoas e as alfarrobas. E lembro-me de um compartimento interior, fresco, não sei se era perto da cozinha, onde secavam os figos. E havia as mulas para transportar os carregos e havia um ribeiro lá em baixo, no meio de árvores e terra fértil. Muitas vezes as férias eram passadas nestas casas grandes, brancas, caiadas.




Como o meu pai e o irmão, no verão, usavam o tempo para irem à praia ou visitar a família e estar com primos que vinham de França e do Canadá, a minha avó, mãe deles, assertiva e independente (mandona, diziam eles), concluíu que eles não ligavam patavina às terras, não queriam saber do azeite, de negociar as alfarrobas e as amêndoas, nem de nada dessas coisas e, então, sem passar cavaco a ninguém -- provavelmente nem ao marido, meu avô (que pouco voto tinha na matéria, face ao voluntarismo da mulher) -- vendeu as propriedades todas a uma sobrinha. Os filhos, quando souberam, ficaram para morrer, furiosos com a mãe, diziam que a prima era uma espertalhona, que tinha feito um excelente negócio, aproveitando-se da parvoíce da minha avó mas ela não quis saber, achou que tinha feito o acertado; e, de resto, já não havia nada a fazer. 

Do lado do pai do meu pai, o meu bisavô, senhor morgado, dono de muitas casas, de muitas terras e animais perdeu tudo com mulheres e com o jogo. Quando deram por ele, tinha fugido para a Venezuela ou para a Argentina, nem sei. Sobrou a casa onde morava a mulher com os filhos pequenos e uns quantos terrenos, um dos quais um que agora ninguém da família está para se dar ao trabalho de registar em seu nome. Era ali para os lados de Vale do Lobo, acho eu. Primeiro era preciso esperar que o meu bisavô tivesse nascido há mais de não sei quantos anos, para não haver dúvidas quanto ao óbito, depois era preciso fazer habilitação de herdeiros e mais não sei o quê. Ninguém fez nada, nem o meu avô, nem o meu pai nem o meu tio e, agora, nem eu nem a minha prima. De vez em quando ela diz-me, olha lá, o terreno lá do Algarve, e bom que ele é, devíamos fazer alguma coisa. E eu respondo, pois é, qualquer dia já nem sabemos onde aquilo é. E ficamos assim, Nenhuma de nós mexe uma palha, acho que nem sabemos o que fazer ou, então, é porque não temos vida para nos metermos em mais trabalhos. Mas, de facto, o que acho é que somos todos é gente desinteressada. Cá para mim já lá alguém fez uma casa e já perdemos direito àquilo. Não faço ideia - e só me estou a lembrar disto porque estou a escrever isto. Amanhã já nem me lembro outra vez de tal coisa.

Agora já não visito família nenhuma aqui no Algarve, perdi o rasto a essa gente toda. Os meus pais e tios é que davam conta de todos esses laços mas essas primas e primos e tias e tios que visitávamos já devem ter morrido e os filhos deles nem faço ideia quem sejam.

Uma vez, há unas anos, apareceu-nos uma francesa parisiense de gema, linda, elegante, talvez se chamasse Nicole, já nem me lembro bem. Sei que era mais nova que eu. Era filha de um primo do meu pai que, tendo enviuvado em novo, foi para Paris e lá casou com uma francesa e teve filhos. Essa minha prima em segundo grau disse que tinha uma irmã mais nova e mostrou-nos fotografias e era ainda mais bonita que ela. Mas, para mim, era uma estranha, simpática, mas estranha. Dantes, o meu pai dizia que eu, quando fosse a Paris, deveria ir visitar o primo João, que tenho ideia que era director numa grande empresa (a minha avó falava desse seu sobrinho com orgulho), que ele gostaria muito que conhecêssemos a sua família. Mas nunca me lembrei de tal coisa.

Para mim agora o Algarve já não é a terra dos meus avós que, novos, daqui saíram, deixando a família para trás, muito menos de primas ou tias. Para mim, e desde há muitos anos o Algarve é Lagos, Sagres, o mar azul, o calor branco, o ar limpo, o tempo vagaroso, o horizonte à vista -- uma terra pelo qual sinto um afecto especial, como se as minhas raízes se tivessem diluído neste mar.



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Convido-vos, ainda, a seguirem de viagem até ao meu Ginjal onde hoje descanso enlevada pelas palavras de Florbela Espanca ao som de Pedro Abrunhosa.
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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela terça-feira.

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quinta-feira, outubro 09, 2014

O tempo é o novo dinheiro: férias ilimitadas. Voto na ideia. Mas custa-me um pouco falar nisto enquanto assisto quase petrificada ao que está a acontecer na PT. Uma desgraça e uma vergonha.


No post abaixo já lamentei a decisão do DN ao prescindir da colaboração do grande jornalista que é Baptista Bastos. Fez mal o DN, por todos os motivos e mais um: é que Baptista Bastos trazia público ao DN. Só espero que rapidamente algum outro jornal o contrate. Eu e todos os milhares de leitores que não perdiam as suas crónicas, segui-lo-emos para onde ele for.

Mas sobre este assunto falo no post a seguir. Aqui, agora, falo de um outro coisa.



Noches Noches La Luz - Aurora



Avishai Cohen



No outro dia a minha filha enviou-me um mail com um link


Richard Branson Is Right: Time Is the New Money. 


O tema é interessanteIn the participation age, a new form of payment is emerging: time.


Férias ilimitadas, regime de trabalho livre.

Há locais em que isto se pratica, empresas de prestígio - mas em Portugal não conheço. 

No Grupo em que trabalho não é assim, os dias de férias são os de lei. Mas, na medida do que é possível gerir de forma directa, facilito ao máximo a vida das pessoas que trabalham comigo. Têm menino com festinha na escola, pois que vão, estejam com os filhos e, nessa tarde, nem precisam de vir, trabalhem a partir de casa, como queiram. Têm assuntos para tratar e vão levar parte da manhã pois que tratem e podem vir apenas de tarde, estão com dor de cabeça e querem ir logo para casa, pois claro, que vão. E sou incapaz de fazer as pessoas estarem numa reunião, se souber que têm que ir buscar os filhos à escola ou se tiverem qualquer outro compromisso. Não concebo outra forma de gerir pessoas. O trabalho não deve ser apenas uma obrigação, muito menos deve ser um castigo. As pessoas trabalham melhor se estiverem tranquilas e felizes, se se sentirem respeitadas e estimadas. 

Aliás, tento não ocupar ninguém depois das seis. Se ficam é porque acham que precisam. Não controlo o tempo que estão no local de trabalho mas sim o que fazem. Da mesma forma, é raro o dia em que não estou um bocado à conversa com quem me procura ou com quem encontro, mesmo que na copa. Conversamos sobre tudo e estimulo que se interessem e valorizem uma vida equilibrada, com tempos livres, com tempo para o prazer.

Contudo, há muita gente noutras áreas da empresa que é ou se faz passar por workaholic. Trabalham até às quinhentas, trabalham à hora de almoço, enviam mails à noite, ao fim de semana. Na minha área desincentivo isso em absoluto.

Gosto de ter a trabalhar comigo pessoas que me falam dos livros que lêem, dos filmes que vêem, de passeios que dão, de programas que vêem na televisão. E rimos, e há alguns que são muito engraçados, e há diferentes pontos de vista, e forma-se um sentimento de equipa, de pertença a um grupo de pessoas que puxa para o mesmo lado. Não sou assim por razões interesseiras, para que a produtividade seja melhor, faço-o porque era assim que eu gostava de trabalhar quando era chefiada por pessoas que me respeitavam como pessoa, e faço-o porque esta é a minha maneira de ser. Mas, claro, sei por experiência própria que nada mata mais a produtividade e o gosto por trabalhar do que a falta de reconhecimento.

Além do mais, não é por uma pessoa estar obedientemente presente no local de trabalho oito horas ou mais por dia, que o resultado do seu trabalho é melhor. Tenho colegas que são certinhos, certinhos, certinhos e que, no entanto, para tomar uma decisão ou para produzir uma opinião levam uma eternidade.

Nem todas as empresas terão músculo ou condições para aguentar um regime mais livre mas, sempre que o possam, estou em crer que este modo de estar a nível profissional irá fazer o seu caminho. Quem trabalha por turnos, quem tem que estar atrás de um balcão ou a servir a um restaurante não poderá dar-se a estas liberdades mas, quem possa, acho que deverá fazê-lo.

A principal barreira será a mesquinhez das mentes mais apertadas. Os menos dotados são sempre os mais castradores. Sempre vi os mais fracos, os que têm mentalidade de vizinhas, fazerem da censura o seu modo de vida. Mas cabe às lideranças fortes ultrapassar preconceitos e ideias do passado e fazer valer uma nova maneira de estar.

O trabalho não deve ser tudo na vida, não deve ser uma obsessão. Pelo contrário, deve ser uma componente da vida, uma componente que traz dignidade, autonomia e sentido de realização à vida das pessoas. 

Richard Branson também acha isto e eu estou curiosa por saber como vai ele pôr em prática a ideia. E vou tentar perceber melhor o conceito.

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Falo de bem estar no local de trabalho, falo de motivação e, enquanto isto, penso no que está a acontecer na PT. É um drama difícil de descrever.


Conheço algumas das boas instalações da PT. Participei em encontros promovidos ou patrocinados pela PT, participei em visitas guiadas às suas instalações. Ouvi várias vezes falar pessoas da PT sobre os seus modelos de governance ou sobre a aplicação de novas metodologias de gestão. Não há em Portugal grande ou pequena empresa de serviços, nomeadamente consultoria das mais variadas espécies, que não tenha a PT entre os seus clientes de referência.

A PT era uma das grandes empresas portuguesas. Grande em volume de negócios, grande em números de colaboradores, grande em número de fornecedores, grande em número de clientes, grande em quase todos os indicadores.

Contudo, devo confessar - e quem lida comigo sabe bem disso - que sempre me pareceu que havia ali algum deslumbramento, muito dinheiro fácil, muita apetência por modas. Ou seja, uma gestão algo fútil.


Tenho também a ideia de que gestores florescentes, espampanantes, que primam pelo seu poder de show off, que apadrinham toda a espécie de modas, não dão sólidas garantias aos accionistas e stakeholders.

O tempo rende mais para uns do que para outros, é certo, mas a sua relatividade não é infinita. Uma pessoa que está hoje aqui, amanhã ali, depois a dar entrevistas, depois a fazer palestras, depois a almoçar com jornalistas, depois a dar uma aula, depois a fazer um road show, depois a ter uma reunião para ver apresentações e assim sucessivamente, forçosamente alguma coisa deixa para trás. E, geralmente, o que fica para trás é o cuidado na análise, é a proximidade ao negócio, é o ouvir os colaboradores, é, na verdade, a gestão.

Gestores mediáticos assim ou gestores que adquirem o vício de se sobreocupar com eventos que dão visibilidade, são gestores que, regra geral, delegam demais. E aqueles em quem eles delegam, não se sentindo muito apertados, delegam nos de baixo, e os de baixo sentindo-se importantes, delegam nos de baixo, e aos de baixo já lhes falta a competência e, então, inventam uma desculpa qualquer e contratam consultores e as empresas de consultoria para serem competitivas e terem boas margens, contratam miudagem que vai trabalhar por tuta e meia. E, assim, acabam estas grandes e aparatosas empresas por ter as decisões de gestão a cargo de miudagem das empresas de consultoria ou a cargo de estruturas deslumbradas mas pouco responsáveis. Não é sempre assim - mas é muitas vezes assim.

A gente da PT vivia entre o mediatismo da vida glamourosa do alto empresariado e os macios corredores do dinheiro e do poder.

Até um dia.

Sem que ninguém tivesse exactamente percebido como, de um dia para o outro, a equipa dos gestores excelentíssimos rebentou com um património estimável, com a reputação dos gestores portugueses, e com uma empresa enorme e desejável. 

Eu disse de um dia para o outro mas disse mal. Foi um pouco todos os dias - até que uma gota fez transbordar ao copo. Os 900 milhões aplicados não se sabe como na Rioforte foram apenas a gota de água.

Agora são cerca de 15.000 trabalhadores em pânico, são infraestruturas valiosas, é um património incrível que está à venda na rua - e uns quantos (de outros países, claro) a verem por quanto podem ficar com um saldo destes. Quem comprar vai fechar instalações, despedir pessoas. Era uma empresa sólida, rentável e valiosa, com planos de expansão. Agora, para quem quer comprar barato, é um bagaço, um fruto seco, um saco de ar.




Henrique Granadeiro saíu. Zeinal Bava foi corrido. Os brasileiros não brincam em serviço. Voz de mel mas mãos de ferro. Aos olhos do Brasil, a PT e os grandes gestores portugueses devem ser apenas os restos de uma monarquia tonta com deslocadas manias da grandeza, gente falida, uns pobres amadores.


No Grupo PT a instabilidade impera, a incerteza corrói - e não é para menos.

Perante isto, perante a ruína de tantos que nada fizeram para que uma vergonha e desgraça destas lhes caísse em cima, perante a depreciação de uma empresa tão valiosa, perante o empobrecimento que isto acarreta (porque a PT dava modo de vida aos seus trabalhadores mas também aos seus imensos fornecedores), só espero que se apurem responsabilidades. Mas a sério. Só espero que não ponham nenhuma Mónica Ferro ou outra andorinha assim a apurar responsabilidades nem no Parlamento nem na Justiça; ponham gente séria e com cabeça. E façam justiça. 

Mas, calma aí, os maiores responsáveis para além de Granadeiro, Bava e outros da PT, são os senhores do Governo que assistem a tudo imperturbáveis. Deixaram ir a golden share sem cuidarem de quaisquer cuidados, e agora deixam que tudo aconteça sem que mexam uma palha para salvar nem que sejam apenas os salvados.

Tudo isto tem que ser julgado. Há casos em que a irresponsabilidade e a incúria devem mesmo ser objecto de séria condenação - e este é seguramente um deles.


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Tinha ainda uma coisa giríssima, desta feita enviada pelo meu filho. Mas já não tenho tempo, estou só a bocejar (e temo que vocês também pois só agora reparo no lençol que já para aqui vai). Amanhã.

E há ainda a questão dos livros sobre os quais ando para falar. A ver se amanhã, também.




A ver se faço ideia de quem é o autor que vai ganhar o Nobel. Sinto-me sempre a maior das ursas quando sai a alguém de que nunca tinha ouvido falar antes.

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Relembro: sobre o afastamento de Baptista Bastos do Diário de Notícias, falo já aqui a seguir.


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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela quinta-feira!


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