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terça-feira, maio 08, 2018

Fernanda Câncio e a tragédia de Sócrates:
ou quando uma mulher usa a sua condição de jornalista para ajustar contas com o ex-namorado


Faz dois anos escrevi aqui sobre os escritos de Fernanda Câncio sobre Sócrates. Dizia, então, que sentia alguma (genuína) pena dela e aconselhava-a a seguir em frente, não ficando enredada nas memórias e nas justificações face ao que sabia ou deixava de saber sobre o ex-namorado.

É certo que Sócrates congrega ódios e paixões pelo que não me custa a imaginar que uma mulher como Fernanda Câncio, toda ela igualmente temperamental, depois da rotura amorosa, possa ter passado da paixão ao ódio. Mas, lembrava-a eu, nessa altura, há sempre mais vida para além da morte de um relacionamento e que o melhor é seguir com a bola para a frente. Ressentimentos e desejos de vingança nunca foram bons conselheiros.

Ainda há dias voltei a ouvir a divulgação pública de telefonemas seus para Sócrates e imagino como se sente ridícula e arrependida daquelas conversas. Todas as brincadeiras, meiguices ou malandrices são permitidas na intimidade de uma conversa a dois mas, quando expostas fora de contexto, facilmente podem ser apenas patéticas. Eu sentir-me-ia humilhada se fossem minhas aquelas palavras.

Mais: tendo namorado com aquele homem poderoso, carismático e de raciocínio ágil, imagino como se sentiu ela ao descobrir que, afinal, pouco sabia daquele homem. Mais ainda: como mulher, imagine-se a perplexidade ao saber como Sócrates não apenas já estava de namorada nova como também ajudava financeiramente outras mulheres. Facilmente uma mulher que se sente enganada se sente furiosa e com vontade de se vingar. Imagine-se, então, uma mulher como Fernanda -- do que lhe tenho visto, facilmente se transformará numa irascível gata em telhado de zinco quente  pelo que dela tudo se poderá esperar.

Imagino-me, eu, no seu lugar. Imagine-se se, ao ligar a televisão, ouvia a minha voz dengosa falando com ele, querendo convencê-lo a comprar uma casa caríssima, ou ouvia alguém a relembrar as minhas férias com ele, referindo que frequentávamos belíssimos restaurantes, e eu, tonta ingénua, na altura, convencida de que ele nadava em dinheiro. Imagino quão ridícula e parva me sentiria agora, ouvindo isso. Eu a querer uma casa cara e ele a chamar-me à razão, eu, ivozinha infantilóide, a dizer 'buraco és tu...'. Ah, quanta raiva. Como teria podido ser tão burra, tão inconsciente a ponto de não ter percebido nada....? Como? E a ouvir a cumplicidade dele para com a mãe dos filhos.... Ah, quantos ciúmes.

Imagino a mágoa, a incredulidade, a vontade de lhe atirar à cara mil impropérios. 
Então, afinal, não eras rico? Então vivias às custas de um amigo...? Mas onde, à superfície da terra, alguém nos dias de hoje vive às costas de alguém...? Filho da mãe que não confiaste em mim, que não me contaste nada! Um pelintra sem ter onde cair morto e, veja-se bem, armado em bom,  a dispensar pagamentos, como se tudo aquilo fosse dinheiro da mãe ou de empréstimos. Falso, falso! E, se foste falso a esse ponto, quem garante que não foste corrupto e que tudo em ti não é um logro? Alguma vez me amaste? Alguma vez me falaste verdade? Como foste capaz? Como deixaste que eu me expusesse, defendendo-te, quando não passas de um vulgar mentiroso? Odeio-te, odeio-te, odeio-te agora e na hora da tua morte. Safado, sacana, filho da mãe! E eu que gostei tanto de ti... Como pudeste fazer-me isto, Zé...?
E Fernanda, sentindo pena de si própria, as lágrimas escorrendo-lhe no rosto, sentindo a raiva a crescer-lhe dos dentes, varada de ódio e ciúme, não podendo deitar as unhas de fora e arranhá-lo de alto a baixo, atira-se ao computador e, com a força das suas palavras, mentalmente chamando-lhe bandido, aldrabão, sacana da pior espécie, e jurando a pés juntos que nunca mais na vida lhe dirige a palavra e que, se se cruzar com ele, virará a cara e fingirá que não o conhece, vai escrevendo:
(...) Urdiu uma teia de enganos. Mentiu, mentiu e tornou a mentir.
Mentiu ao país, ao seu partido, aos correligionários, aos camaradas, aos amigos. E mentiu tanto e tão bem que conseguiu que muita gente séria não só acreditasse nele como o defendesse, em privado e em público, como alguém que consideravam perseguido e alvo de campanhas de notícias falsas, boatos e assassinato de caráter (que, de resto, para ajudar a mentira a ser segura e atingir profundidade, existiram mesmo). (...)
Chocante, porém não surpreendente. De alguém com uma tal ausência de noção do bem e do mal, que instrumentalizou os melhores sentimentos dos seus próximos e dos seus camaradas e fez da mentira forma de vida não se pode esperar vergonha. Novidade e surpresa seria pedir desculpa; reconhecer o mal que fez. Mas a tragédia dele, que fez nossa, é que é de todo incapaz de se ver.
Fernanda é, ao escrever estas palavras, não uma isenta jornalista, mas uma mulher ferida. Uma mulher que usa o púlpito do Diário de Notícias para ferir José Sócrates tanto quanto ele a feriu a ela. 

E eu, no fundo, tenho pena dela e dele. Estão unidos pela mesma tragédia.


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Cecilia Bartoli interpreta "Sposa son disprezzata" de Vivaldi
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terça-feira, fevereiro 06, 2018

Homens, temos que falar - disse a Fernanda Câncio.
E o José Cid falou: diz que foi assediado por um fadista.
E o Bruno Maçães também: confessou que uma professora de mitologia e agente de moda talvez lhe tenha dado as melhores explicações sobre as diferenças entre a Europa e a Ásia.
(Sim, sim, ó Bruno, já ouvi chamar muitas coisas a explicações dessas... agora Eurásia... Só contaram pr'a você, ó Brunocas)
E um cavalheiro anónimo do PS já veio pedir desculpa por, a propósito de Bruno de Carvalho, ter feito a revelação de um segredo envolvendo os seus "três olhos".
A torrente apenas ainda vai no início.
Esperam-se novas sensacionais revelações.
Homens, cheguem-se à frente. Contem-nos tudo.
Não vos condenaremos. Acreditem. Quanto muito, rimo-nos (mas só à socapa).
Vá, #YouToo.



O título da crónica chama pela gente. Nem sempre leio o que a Fernanda Câncio escreve mas desta vez li.

O tema não é linear. Já algumas vezes falei sobre ele mas isso não significa que tenha ideias feitas sobre o assunto ou que consiga reduzir a meia dúzia de mandamentos o que há a saber sobre o tema. Longe disso. Há as subtilezas de que Fernanda fala, as do desejo e da sedução, os pudores que nascem das incertezas, do respeito ou do receio, os interditos, os mistérios, o que não se diz mas que se deixa perceber. Felizes são os que sabem descodificar os intangíveis sinais.

Não falo de violações, não falo de sexo forçado, não falo de sexo como abuso de poder. Isso é inequívoco, crime sob qualquer perspectiva. Falo de outra coisa. Falo do que é mesmo assim, avanços, recuos, vontades confessadas ou inconfessáveis, terreno que se pisa sem guião, desacertos, passos em falso, riscos que se correm.
[Ou não. Vidas que nunca chegam a convergir porque alguém não ousou no momento certo.]
Mas passo ao texto de Fernanda Câncio, transcrevendo alguns excertos (a imagem é escolha minha, não dela):
(...) Homens despedidos de séries, ostracizados no métier, retirados de listas de candidatos a prémios. Vou dizer uma coisa que já disse várias vezes sobre isto mas que já fui várias vezes acusada de nunca ter dito (sucede-me muito, e o contrário também): não suporto linchamentos. De nenhum tipo. Não gosto daquilo a que os anglófonos chamam "saltar para as conclusões". Não gosto de ir nas correntes. (...)
Mas há também, claro, casos como o de Aziz Ansari, acusado por uma mulher que mantém o anonimato de ter insistido em ter sexo com ela durante um encontro, apesar de ela lhe ter dado a entender que (já) não estava nessa. Apontado como exemplo da histeria acusatória do #metoo e denunciado como contraproducente numa série de artigos irritados de mulheres feministas que certificam que nada do descrito pela narradora constitui assédio, obrigou-me a pensar.(...)
Ora é precisamente porque nas relações íntimas as coisas se passam com subtileza, sem papéis assinados nem certidões, porque o desejo é algo de fluído, misterioso e inconstante e o que queremos ou julgamos querer num momento pode mudar no seguinte, e também porque vivemos num quadro cultural de ascendente dos homens sobre as mulheres do qual faz parte - não dá para negar isso, certo? -- a ameaça da violência masculina, que o caso Ansari, ao invés de ser uma prova da alegada histeria do #metoo, é um tão excelente ponto de partida para a nossa conversa. Vamos falar, meus senhores?
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Sobre o tema lembro-me muitas vezes de um dos filmes que me marcou. A condenação de Marco Bellocchio. La Condanna. The conviction. Filme inteligente. Filme que sabe como lidar com as subtilezas. Mereceria um debate.
Qual a fronteira? Qual a inequívoca linha? 



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Enquanto o debate não é feito -- o debate sério, verdadeiro, olhos nos olhos, um debate que reproduza a verdade escondida, as mentiras expostas, os subentendidos, o não que quer dizer sim, o sim que quer dizer talvez, o talvez que quer dizer que alguém vai ter que descobrir -- 
e se calhar esse debate não é feito porque, simplesmente, não pode ser feito pois talvez os segredos da alma ou os avanços titubeantes ou falsamente seguros não possam ser expostos à crua luz da realidade e da intriga 
deixem que vá parodiando o exagero e a acefalia que, aqui e ali, me parece ir tomando conta da conversa. 

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É que, parece que respondendo ao apelo da Fernanda Câncio, já fomos surpreendidos com os testemunhos de dois briosos e viris cavalheiros
Houve um [homem que me assediou], mas eu não posso dizer, já faleceu. Assediou-me uma vez. Eu estava no meu quarto, tínhamos ido a Inglaterra, num grupo de cantores, fazer uma digressão para a emigração. De repente, há um colega que me bate à porta e eu estava a fazer a barba em tronco nu. Eu era muito atlético e ele diz-me assim: 'Sabes, é de homens como tu, muito musculados e com pelo, que eu gosto! 'E eu disse-lhe: 'Pois, olha, esquece e deixa-me fazer a barba em paz'", conta. "Só posso dizer que era um fadista"

E Bruno Maçães, outro garboso machão, publicou um livro depois de ter andado durante seis meses na passeata. Quando lhe perguntam se conheceu gente importante, respondeu com aquela sua famosa ingenuidade (que alguns mal-intencionados confundem com burrice):
Há um arqueólogo russo que, sem ser um Indiana Jones, tem um certo elemento de mistério e de aventura; há um agente secreto russo, com quem passei um dia inteiro a ser entrevistado. Foi possível aprender mais sobre a Rússia do que a ler 20 livros. Há uma professora de mitologia e agente de moda que talvez me tenha dado as melhores explicações sobre as diferenças entre a Europa e a Ásia, e estão citadas no livro.

E outra. Este anónimo, creio eu. Um adepto do PS, parece que tem pensamentos estranhos depois de ver um outro elemento do meio artístico nacional, o pimbérrimo Bruno de Carvalho que, diga-se em abono da verdade, tira qualquer um/a do sério:
Por breves momentos, e ainda quando decorria o discurso do máximo dirigente leonino, surgiu a seguinte frase no Twitter do PS: "Assustador: Eu não sou daqueles que dorme com um olho aberto. Eu quando durmo tenho os três olhos fechados", lia-se.
O tweet foi de pronto apagado e levou mesmo a um pedido de desculpas por parte do Partido Socialista: "Por lapso, foi publicado nesta conta um twett que se pretendia publicar numa conta pessoal. O PS pede desculpas ao Sporting Clube de Portugal, aos seus adeptos e ao seu presidente", revelaram

Portanto, parece que começamos a assistir ao coming out dos homens. Que venha ele. Contem-nos tudo.
Quem vos assediou? Fadistas? Forcados? A artista Vasconcelos? A Santa Mana? 
Quem vos apetece assediar? A falsa taróloga Teodora Cardoso? A sensível Teresa Guilherme? O  valentão Super Judge Alex? Os pavilhões auditivos do escritor José Rodrigues dos Santos? O  reservado Desembargador Dâmaso
Contem-nos. Contem tudo. Cá estaremos para vos ouvir. Nada de titubeações. Vá. Sem medo. São capazes. #YouToo

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terça-feira, setembro 19, 2017

Casais improváveis
[Com um número extra em pós post: o casal maravilha cuja missão seria, nada mais, nada menos, que a procriação]


(diz-se ter fixação em ou fixação com? -- volta e meia tenho destas ocorrências, fico sem saber; e é que a gente a falar é mais ou menos na base do 'olha, já foi' e bola para a frente, a asneira fica para trás. Aqui não, aqui, se a gente diz um disparate, fica escrito saecula saeculorum, uma responsabilidade), 
lembrei-me, dizia eu, que, se tivesse um meio televisivo à minha disposição, inventava um programa daqueles em que se colocam pessoas em situações que induzem o romance. Podia ser daqueles em que fazem perguntinhas pessoais, e eles tête a tête, e às tantas a coisa já começa a ficar morninha, depois quentinha, e a gente a ver que a intimidade já se abeira e que, a bem dizer, já estão capazes de sair dali e ir fazer um cafuné um no outro, beijinho aqui, beijinho acolá e, pumba, truca-truca, coisinha mai boa.


E até aí tudo bem. Déjà-vu. A net cheia disso. O picante da coisa estaria nos parzinhos que eu ia arranjar. 

E é aí que entra a conversa do Valupi. 

Dois que eu poria numa de a ver se rola seriam o Sócrates e a Helena Matos. Haveriam de começar numa de arrogância para aqui, arrogância para acolá, chispas a tordo e a direito, desprezo, cada um mil vezes superior ao outro, cada um a cuspir para o chão, ódio e mais ódio. Mas depois, não sei cá porquê, a ver se não saíam de lá os dois com sorrisinhos cúmplices, tímidos e malandros e a gente a ver onde é que aquilo ia dar. Até um livro a meias haveriam de publicar. E a ver se ele não fazia um restyling naquele ar pingão dela. Haveria de ficar uma giraça, toda bué produzida, toda ela chameguinhos bons no Zé.



Outro casalinho: o Láparo e a Catarina Martins. Ele armado em superior, sensaborão, boca retorcida, a fazer perguntas parvas. Ela, ao princípio, sem ter jeito, furiosa, incapaz de se articular com aquele coiso. Depois, lembrando-se do objectivo do programa, artista, olhinho sorridente, boquinha marota, a dar-lhe a volta. Daqueles apanha-os ela à mão. No fim, quando ele estivesse a piar fininho e a vir , de facto, já comer-lhe à mão, aposto que ela desatava a rir pela ratoeira que lhe tinha armado. Querias, não querias, ó láparo...? Pois é, querias... Mas não vais ter. E a ver se desta não vais, no futuro, aparecer a gabares-te de que, se quisesses, tinhas feito e acontecido... Tinhas uma ova, ó láparo. Como diz a Constança Cunha e Sá, 'se cá nevasse, fazia-se cá ski'. Ahahahaha. Ganda asinino, este láparo. Haveria até de chamar as manas Mortágua para, as três, rebolarem a rir da partida que ela tinha pregado ao láparo.

Mais um: o Centeno e a Pinóquia Albuquerka. 

Ela a começar feita cagona e ele todo pacholas, com uma paciência danada, ela toda peixeira e ele professor, ela a dizer cavaladas e ele, didáctico, a explicar-lhe que não, nada disso, ora pense lá melhor. E, no fim, ela já toda derretida, já até esquecida do sarrafeiro que lá tem em casa. E o Centeno, apesar de tímido e com aquela carinha de anjolas, a lembrar-se da macaca que é ela -- e a mandá-la bugiar. Olhe, Drª, porque não vai antes dar banho ao cão do Schäuble?


Mais um casaleco: João Miguel Tavares e Fernanda Câncio. Bem. O que haveria de ser. Faíscas, raios e coriscos. Cá para mim, aqui não havia química possível, a coisa haveria de acabar ao estalo. Ela nele, claro. E ele, feito parvo, a tentar fazer trocadilhos. Trocadilhos pirosos, de mau gosto, a ver se se fazia engraçado. E ela, furibunda, a começar por lhe atirar água a cara para acabar a tentar agredi-lo, a produção do programa a agarrá-la, a chamá-la à razão. E o outro, todo totó, cheio de medo, a inventar desculpas, todo tantã, o tatibitate do costume.


E ainda mais um: o Mexia, Pedro Mexia, com a Cristina Ferreira. Ela a querer pô-lo a dançar, ele a querer falar de literatura, ela a rir escaganifada e ele, atrapalhado, sem saber se rir, se chorar, ela a fazer-lhe perguntas inconvenientes e ele sem saber como limpar tal nódoa do seu exemplar cv sem ser rude, e ela a piscar-lhe o olho, depois a descalçar-se e a enviar o pé pela perna das calças e ele, a fazer de conta que não estava a dar por nada, e a perguntar-lhe qual o autor preferido. No fim...? Pois, neste caso, não arrisco palpites.


E, para terminar, o casal que se impõe: Valter Hugo Mãe e Cátia Palhinha. Sabido é que o Valtinho tem um problema: não consegue ter um filho. Presumo que tenha tentado. Contudo, como penso que o seu clube de fãs seja constituído maioritariamente por senhoras menopáusicas, a coisa não lhe tem corrido de feição. Vai daí, mandaria vir uma fogosa mulher, e até a poria vestida de agente da Cruz Vermelha que o tema é de cariz quase social tantos os lancinantes apelos que o nosso bardo tem lançado. Diria mesmo que aconselharia a que a célebre Palhinha fizesse uso do seu golpe de magia que, como se sabe, se traduz em, do nada, mostrar uma passarinha. Penso também que é o tipo de mulher que deixaria o Valtinho inspirado em todos os sentidos, incluindo no bíblico. Cá para mim nem seriam precisas as trinta e tal perguntinhas da praxe nem os olhos nos olhos do costume. Capaz até da coisa pintar e rolar logo ali. Um pico de audiências nesse dia.



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Podia continuar. Bloggers. Também arranjava uns casalinhos improváveis. Estou aqui danadinha para lançar uns quantos à liça. Mas pronto, fico-me por aqui. Um dia que me reforme e que crie um canal de youtube logo ponho as minhas ideias em prática.


A imagem de abertura do programa -- que se chamaria Love is the air -- poderia ser, por exemplo, qualquer coisa romântica deste género:


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quarta-feira, agosto 23, 2017

A Secretária de Estado Graça Fonseca, em entrevista a Fernanda Câncio no DN, assume a sua homossexualidade.
E eu, no Um Jeito Manso, assumo a minha heterossexualidade.
E a minha miopia e calçar o 37 (e, no caso dos sapatos de modelo apertado, o 38) e o gostar de iscas e de gostar de escrever e ser dextra e mais umas quantas coisas.
So what...?





Logo no Duas ou Três Coisas eu percebi que devia haver coisa. Dignidade e a fotografia da Secretária de Estado Graça Fonseca e mais nada. Já tinha visto a entrevista no DN mas muito por alto. Fui ver com mais atenção. Então era aquilo? Tinha-se assumido publicamente como homossexual e isso era visto como um acto de coragem ou de dignidade. Depois foi o Eduardo Pitta no Da Literatura, escrevendo Honra a Graça Fonseca.  Diz sentir orgulho e agradece-lhe.


E eu fico até um bocado incomodada porque na primeira vez que vejo uma entrevista a esta senhora que exerce funções governativas, e a entrevista até é interessante e ela até parece ser uma mulher consistente nas suas ideias e atitudes, tudo o que ela diz parece ser canibalizado por um facto que é da sua vida pessoal, coisa com que ninguém tem nada a ver e que, de repente, parece a coisa mais importante de tudo.


É como se eu, que escrevo aqui que me desunho, que aqui falo do que gosto e do que não gosto, que ficciono, que mostro fotografias minhas ou alheias, partilho músicas e o escambau, de repente fosse falada apenas porque calhou revelar que calço o 37. Caraças. O que é que o tamanho dos meus pés teria a ver com o que é feito aqui no blog? O blog pode ter piada ou ser uma estucha mas é pelo que é e não pelo facto de eu calçar o 37. O meu pé é o que é, fazer o quê?

Claro que não posso fazer-me de extra-terrestre pois sei que, para muita gente, uma pessoa ser homossexual ainda é um aleijão para o qual se olha de lado. Mais: sei que algumas pessoas que, pela sua natureza, o são não o assumem por receio do estigma social. Mais: sei que essas pessoas, para disfarçarem, são das que mais gozam e mais anedotas contam sobre gays. Mais: sei como se pode passar uma vida inteira a fazer-se de conta que se é hetero, casando, tendo filhos, forjando uma inclinação que notoriamente não é a sua. Sei. Sei e lamento.
É que, caraças, se a pessoa não é capaz de agir de acordo com a sua natureza e estraga toda a sua vida apenas com receio da opinião alheia, que podemos sentir por ela senão pena...?
Claro que ser homossexual é estar em minoria. Mas estar em minoria não significa ser marginal, pôr-se a jeito para ser escorraçado ou gozado, ou ser desprezível. Significa apenas isso mesmo: a maioria das pessoas tem preferência pelo sexo oposto e eles, os homossexuais, uma minoria, preferem parceiros do mesmo sexo. Nada de mais nem de menos. Nada de mal nem de bem. É o que é. 

Sou como sou e não preciso de coragem para me assumir assim mesmo. E isto deveria ser o normal para toda a gente. Gordos, magros, feios, bonitos, cabeludos, carecas, canhotos ou dextros, narigudos ou narizinhos, comilões ou fuinhas, habilidosos de mãos ou uns pés, sorridentes ou carrancudos, brancos ou pretos, homo ou hetero, sensíveis ou calhaus, inteligentes ou broncos -- todos são seres de direitos iguais e todos têm direito a fazer parte, por igual, deste habitat que é o nosso.

Graça Fonseca é homossexual e a verdade é esta: estou-me nas tintas para isso. Que seja competente na sua função é o que me interessa. Quanto ao resto, é lá com ela e que seja feliz. Se a revelação pública da sua orientação sexual for um incentivo para quem viva vidas de mentira, pois tanto melhor. Mas, ora bolas, não nos foquemos na sexualidade das pessoas como se isso fosse o factor principal da sua identidade nem negligenciemos as qualidades que têm, em especial quando exercem funções públicas.


Entretanto, vejo que o assunto saltou para outros jornais e que as redes socias, especialmente as ligadas às comunidades LGBT, estão ao rubro, como quando um elemento de uma agremiação ganha uma medalha e há festa rija. Não sei, não. Olho para estas reacções com algum desconforto. Muitas vezes parece-me que são estas associações que cultivam o gheto ao auto-tratarem-se como pessoas diferentes, com direito a atenção especial. Tal como eu não tenho orgulho em ser hetero, por que raio de carga de água é que um homossexual há-de sentir orgulho em sê-lo? Esforçou-se por isso? É mérito seu? Ou é porque é e porque não pode senão ser -- e ponto final...? 

Tenho uma colega que é lésbica e que, na sua vida pessoal, vive como tal. Profissionalmente nunca o revelou e eu serei das poucas, senão a única, a sabê-lo. É uma excelente profissional e em momento algum me passa pela cabeça que seja relevante ela assumir-se como tal perante os colegas, tal como em momento algum me passa pela cabeça ajuizar o seu desempenho profissional em função da sua orientação sexual. Não faço ideia o que pensará ela deste fuzuê em torno da entrevista da Graça Fonseca. Provavelmente pensa o mesmo que eu, que a Secretária de Estado foi revelar uma coisa sobre a qual ninguém tem nada a ver. Mas imagine-se que lhe dava uma travadinha e, inspirada pela dita Graça Fonseca, aparecia no trabalho a dizer: 'Oi, meus amigos, querem saber a melhor...? Sou lésbica.' Disparate. O que é que a malta lhe haveria de dizer: 'Ah, sim..? Pois, que lhe faça bom proveito'. 


E é isto. Nada mais tenho a dizer. Só que espero que apreciem algumas evidências artísticas de que a homossexualidade existe desde sempre (desde Michelangelo a Courbet, passando por muitos outros, suas as obras estão aí para o testemunhar -- e isto para não descer às profundezas da Grécia Antiga, de Roma e de tutti quanti)

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Olha... desci.
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Sobre os cavalos azuis que passam aqui in heaven falo no post que se segue.

Sobre uma bola de pedra tatuada, falo ainda mais abaixo.

Em ambos os casos falo, de novo, do meu dia como camponesa-lenhadora -- e não só.

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domingo, maio 15, 2016

Fernanda Câncio, Sócrates, o Caso Marquês, a Visão, o Correio da Manhã
- ou o longo lamento de uma mulher fatigada




Ando num tal estado que parece que nada do que interessa à comunicação social me interessa a mim. Não pego num jornal em papel há que tempos. Passo uma vista de olhos pelos jornais online para ver o que está a acontecer à superfície da terra mas sinto-me frequentemente descoroçoada com o relevo que os jornais portugueses dão a vacuidades.

Por isso, a notícia publicitada pela Visão sobre o artigo de Fernanda Câncio a propósito do pretendido envolvimento no Caso Marquês não fez tocar, em mim, nenhuma campainha. Depois, os destaques e o que li na blogosfera também não, continuei indiferente. 


Contudo, mão amiga -- a quem agradeço -- fez-me chegar ontem o dito artigo. Li-o há pouco. E li com algum desconforto e, sobretudo, pena. Agora li o que Fernanda Câncio, a propósito, escreveu no Jugular -- o processo marquês e eu (e a visão) -- e o que sinto é a mesma coisa. Sobretudo pena.


Há neste caso qualquer coisa de trágico. 

Fernanda Câncio namorou José Sócrates. Tê-lo-á amado. Como qualquer namorada, ter-se-á sentido apaixonada por ele, ter-se-á sentido bem nos seus braços.

Depois afastaram-se. Acontece.

O que seria normal seria que, tendo-se afastado, cada um fosse à sua vida. No entanto, ao que se vê, Fernanda Câncio continua a viver com a sombra de Sócrates enleada em si.

Sócrates é um homem inteligente, carismático, voluntarioso e que sempre despertou ódios e paixões. Depois de, no seu primeiro mandato, ter sido um primeiro-ministro bem sucedido e, depois de, na sequência da crise financeira internacional, ter suado as estopinhas e lutado como um leão, por vezes como um leão acossado, e de ter caído às mãos de uma espúria aliança esquerda/direita, poderia ter finalmente atingido o momento da sua vida em que poderia descansar (até se abalançar a novos voos).

Contudo, qualquer coisa nele sempre parece atrair a blasfémia, a injúria, a tempestade.

Poderia isso ter terminado ao ir para Paris. Mas não. Os jornais perseguiram-no, as investigações também.

Não sou de ir em conversas. Penso por mim. Julgo o que tenho a julgar. Sócrates para mim foi e é um político e é como político que o avalio. E avaliá-lo politicamente é, sobretudo, votar ou não votar nele e, no intervalo, avaliar a justeza das medidas que defendia ou implementava. Votei nele das duas vezes e continuo a achar que, de cada vez que foi a votos, era a melhor alternativa. 
Não sou de me abster nem de me distrair com utopias. 
Se nas eleições vão a votos A e B, é entre A e B que escolho. 
Se não estou muito satisfeita com A mas sei que, se o apear, virá B que é pior, pois que, até haver melhor opção, fique A.

Depois, indícios que podem levantar suspeições relativas a ilícitos são para ser avaliados judicialmente. Não politicamente, muito menos na praça pública.

Não faço juízos de valor nem condenações morais a partir do que o Correio da Manhã ou o Jornal i lançam para a opinião pública. 

Custa-me que uma pessoa, ao ser detida, tenha a televisão a filmá-la, custa-me que a pessoa seja difamada e acusada na praça pública e que, ao fim de ano e meio, ainda não esteja acusada de nada.

Ninguém deveria estar sujeito a tal insanidade.

Madoff foi indiciado, julgado e condenado em quanto tempo? Se não estou em erro, em três meses.

Sócrates já esteve preso como se fosse um bandido e agora, apesar de em liberdade, continua com a vida em suspenso. Sem poder trabalhar, vive a aguardar que um omnisciente e omnipresente Juíz Alexandre (sobre quem caem todos os casos de peso neste país) se decida a não sei o quê e que um falhado Rosário Teixeira continue a investigar o rabo da pescada que a amiga de Sócrates deixou no prato depois de almoçar num restaurante que, vendo bem as coisas, pertence a um sujeito que já foi sócio de um outro que veio das Beiras e que deve ter conhecido o primo do amigo do tio de Carlos Santos Silva. Um filme que, se não fosse dramático para quem o vive por dentro, seria uma comédia.

E, em volta de Sócrates, vão caindo como arguidos ou potenciais arguidos todos os que mais próximos estiveram dele: a ex-mulher, a ex-namorada e mais uma mão cheia de pessoas.

Fernanda Câncio, depois de, ao longo de penosos meses, se ter visto envolvida em insinuações e acusações por parte das bocas infectas do Correio da Manhã, tremeu nos alicerces e sentiu que devia explicar-se.

No longo texto que escreveu, transcreve as acusações, desmonta-as, nega-as. Lendo-a, fica à vista a sabujice mental e a paranóia torcionária do jornalismo que se pratica no Correio da Manhã.

No entanto, não sei se Fernanda Câncio fez bem em fazê-lo. Eu, penso eu, não o teria feito -- pelo menos daquela maneira. No entanto, sei lá eu como é viver uma situação destas.

A questão, em meu entender, é que agora vê-se a ela própria na capa de uma revista, vê-se a ela própria envolvida numa coisa com que nada tem a ver.

Penso também que escusava de ser tão extensa na explanação das suas razões e, sobretudo, escusava de ter deixado subjacente um juízo moral sobre a utilização de dinheiro emprestado por parte de Sócrates. Ao fazê-lo, propaga, junto da opinião pública, o seu juízo moral a propósito de um homem que, em tempos, amou. Ora, para além do mais, o seu juízo moral sobre o homem que namorou não é tema público nem acrescenta nada ao que está em causa.

Se Sócrates cometeu actos ilícitos pois que o acusem e que vá a julgamento. E que, se for julgado culpado, que pague. 

Mas que se despachem com o processo dito Marquês. É inadmissível o tempo da justiça em Portugal. E não é só com Sócrates, é com tudo. Uma vergonha.

E que, se nada houver contra Sócrates (como tantas vezes acontece com estas longas investigações em que desgraçam a vida das pessoas a troco de coisa nenhuma), pois que nunca mais exerçam justiça neste País porque serão comprovadamente incompetentes, insensíveis e desumanos.

Quanto a Fernanda Câncio, compreendo que, sendo jornalista, não consiga alhear-se do mau jornalismo que se pratica em Portugal. E, até por isso, é trágico o que lhe está a acontecer. Agora queixa-se do sensacionalismo de que foi vítima por parte da Visão que, no fundo, se vem somar ao sensacionalismo do Correio da Manhã. No entanto, ao querer defender-se, veio, afinal, ajudar a alimentar o dito sensacionalismo.



O que eu lhe aconselharia -- até porque simpatizo com a sua maneira de ser frontal e a sua escrita talhada a direito (embora, por vezes, em minha opinião, não colocando em perspectiva a importância de algumas causas) -- seria que, se conseguisse, se lembrasse sobretudo de viver a sua própria vida, pôr tudo isto para trás das costas, retomar uma vida normal, recuperar a alegria, esquecer esta teia putrefacta em que se tem visto envolvida. O mundo existe para além do que os jornais como o Correio da Manhã e sucedâneos relatam e, até, para além de José Sócrates.

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Lá em cima Renée Fleming interpreta a terceira das 'Vier letzte lieder' de Richard Strauss sob condução de Claudio Abbado.

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Já dei seguimento à minha história mas não está fácil arranjar fotografias para a ilustrar, e agora tenho que parar com isto e ir para outra. Mas daqui a nada, já a publico.

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Contudo, entretanto, desejo-vos já, Caros Leitores, um belo dia de domingo.


sexta-feira, abril 17, 2015

Esta violência que nos devora






Os dias andam incertos. Uns dias quentes de sol, e logo outros cinzentos, frios. Parece que isto deixa uma camada de desalento sobre as coisas, uma neurastenia que parece coalhar-se sobre tudo. 

Lê-se os jornais e poucas notícias boas se encontram. Ainda lá aparece uma ou outra paródia mas coisa pouca que até parece deslocada. 

As notícias falam de mulheres mortas por qualquer motivo. Não se percebe como é que toda a gente tem uma arma. E como é que tanta gente tem tanta violência dentro de si. Pode uma pessoa amar outra e, porque se sente contrariada, esquecer esse amor e deixar que o que antes era um bom sentimento se transforme em raiva, violência, desatino? A mim custa-me perceber isso, acho que temos que nos agarrar ao que temos de bom e não deixar que o que de pior aparece se sobreponha a tudo – mas a verdade é que a natureza humana tem buracos negros e, sem explicação, deles saem demónios acossados que, sem controlo, destroem tudo à sua passagem.

Marta Nogueira, 21 anos, Joana Nogueira, 23. Primas. Anteontem de manhã, na pastelaria onde trabalhavam, no Pinhão, Trás--os-Montes, um homem entrou e apontou a arma para matar, para apagar, para desfigurar: cara, pescoço, cabeça. Joana morreu, Marta está em coma. Os jornais - este jornal - titulam: "Ciúme levou Manuel a disparar." Manuel, parece, tivera namoro com Marta. O crime passa logo, então, à categoria "passional". Como quem diz de amor, de sentimento, "que levam a". 

É sempre assim: homem mata mulher? Coitado, gostava demasiado dela, e ela ou o "deixou", ou ele tinha medo que ela o "deixasse", ou ela "portava-se mal", ou ele tinha medo que ela se "portasse mal". Mesmo, note-se, quando uma das mortas é prima do alegado objeto de amor; estamos perante o crime passional por afinidade. Porque será, então, que o homicídio do bebé de 5 meses que o pai esfaqueou há uma semana depois, diz-se, de ligar à mãe da criança a ameaçá-la, não é "de paixão"? Será porque a desculpabilização implícita, a "naturalização" e "contextualização" que induz, não é aceitável na morte de crianças? Porque nada pode justificar que se mate uma criança enquanto uma mulher, tantas mulheres, é outra coisa? (...) 
A desculpabilização "passional" substituiu a da "honra"; subsiste a ideia de que "elas dão motivos" - como diziam os que à porta do tribunal aplaudiam Palito, o homem que há exatamente um ano, a 17 de abril de 2014, matou a ex-sogra e a irmã desta e feriu a ex-mulher e a própria filha: "Lá teve as suas razões." A própria justiça o admite, em acórdãos vergonhosos nos quais nunca se invoca isso que o Brasil no mês passado tipificou no Código Penal como feminicídio - o ódio às mulheres que mata. Cá não, é por amor. Em 15 semanas de 2015, já foram, de tão amadas, mortas onze. Somos assim românticos.

Este ano já vai em 11 mulheres. E crianças. Até contra crianças esta onda de violência se está a abater. E vizinhos que matam os que antes eram amigos. Ou mortes por engano. Não sei se as televisões e jornais deveriam divulgar isto. Esta violência quase parece uma praga que está a espalhar-se sobre as pessoas. Talvez se fosse ocultada fosse mais fácil contê-la.

E mesmo quando não há esta violência física levada ao extremo há violência verbal, escrita. E está por todo o lado, onde menos se espera.

Manuel Maria Carrilho nem sei a que propósito saíu do buraco em que, com as suas atitutes, se tinha enfiado para propor que o PS, o seu partido, expulse Sócrates, um seu correlegionário. 


Fazendo-o, menoriza-se ainda mais perante a opinião pública, aparecendo a pretender exercer um ajuste de contas contra uma pessoa por quem sempre mostrou não ter apreço e que, estando presa, está numa posição de fragilidade.

Mas menorizam-se também as outras pessoas do partido - como, por exemplo, a deputada Isabel Moreira - que aparecem para o atacar a ele, como se também não fossem seus correlegionários, usando expressões relacionadas com o triste caso de violência doméstica em que ele está envolvido e usando outras expressões desagradáveis, deselegantes, com uma desconfortável carga de agressividade. E o que fica é o sarro da maldade humana que, a toda a hora, parece pronta a saltar cá para fora.


E é só disto. Em vão percorro os jornais tentando descobrir notícias boas. Mas só vejo coisas estranhas.

Agora é o Governo a fazer de conta que está a começar um mandato e a aparecer com medidas para os próximos quatro anos. Que nos próximos quatro anos repõe ordenados, que acaba com a taxa extraordinária, sei lá. Uma anormalidade. Uma demagogia completamente obnóxia que corrói a dignidade de quem assiste a isto. Como se não estivessem para ocorrer eleições dentro de meses. Mas depois quem é que eu vejo a denunciar a má fé desta gente? O PS...? Não, qual quê. O PS deixou de existir, só aparecem para dar pretextos de achincalhamento à coligação e aos comentadores. Quem eu vejo a fazer oposição a sério e este governo indigente é Manuela Ferreira Leite e Pacheco Pereira. 



Volto a percorrer os jornais. Hei-de encontrar uma notícia boa. Mas não. Só coisas tristes que me deixam ainda mais triste.

Um barco vindo da Líbia com cerca de 100 emigrantes clandestinos chegou à Sicília. De África, para a Europa. Na viagem, de muito os desesperados não sabiam: se chegavam, e, se chegados, seriam recebidos, e, se recebidos, quanto tempo passariam num campo de trânsito, e, se um dia entrassem mesmo na Europa, encontrariam trabalho, direitos e vida normal que justificassem o risco... Mas sabiam que a viagem era de África para a Europa. Por favor, deixem-me ficar com esse dado simples, porque não tenho soluções para o grande drama que é a fuga de desesperados de África e para o problema que é chegada à Europa de imigrantes clandestinos. Sei o que é compaixão, mas não tenho soluções para os desesperados africanos, sei o que é bom senso, mas não tenho respostas para os assustados europeus - resumindo, para o grande problema não valho nada. Por isso não o trago para aqui. O que trago é aquele barco de 100 passageiros clandestinos entre a Líbia e a Sicília e um pormenor terrível que lhe aconteceu. Diziam os jornais italianos, ontem, que 15 passageiros foram presos por terem deitado ao mar 12 passageiros. E que quem matou era muçulmano e quem morreu era cristão. E que, segundo vários testemunhos, foram motivos religiosos que levaram aos assassínios. Volto ao pequeno saber por todos conhecido, incluindo os 15 alegados assassinos: o destino da viagem, a terra de acolho, era a Europa. Além das mortes, há nisto qualquer coisa extraordinária.


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Não encontrei boas notícias. Pode ser que esta sexta-feira alguma coisa boa surja. Milagres. Boas notícias. Tomara.

Até descobri que no outro dia foi o Dia do Beijo e nem dei por isso. Não ligo a isso de Dias de mas o Dia do Beijo talvez merecesse aqui uma celebraçãozita. Para tentar compensar, adocei este texto com uma canção que fala de um beijo. Não é a versão de Armstrong mas de Al Somma - A Kiss to build a dream on.

Também para não sobrecarregar ainda mais o texto, resolvi não usar imagens alusivas ao que lá se diz mas, sim, imagens sem nada a ver. Escolhi fotografias tiradas por Tim Walker para a Vogue. A vida já está suficientemente cinzenta para que tenhamos que contribuir ainda mais para isso. Um pouco de rêverie para introduzir aqui algum oxigénio, foi o que resolvi.

O primeiro texto em itálico é parte da crónica de Fernanda Câncio para o DN, Ódio de Estimação.


O segundo é a crónica de Ferreira Fernandes para o mesmo DN, intitulada Há nisto qualquer coisa extraordinária.


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Permitam que vos diga que, no post abaixo, há um poema dito pela voz que melhor os diz: "A Psalm of Life" de Henry Wadsworth Longfellow (lido por Tom O'Bedlam)

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma boa sexta-feira. 
Vivida em paz e harmonia. 

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sábado, novembro 29, 2014

Ferreira Fernandes e João Miguel Tavares ou o 'pedaço de asno' que 'acha que engravida uma mulher só de olhar muito para ela'. Fernanda Câncio e Felícia Cabrita ou uma coisa em forma de Aproximadamente. O investigador e o suspeito segundo a Porta dos Fundos. A grávida religiosa. O político literato. O grande final de Paquita. [E se isto não é a Black Friday in UM JEITO MANSO então não sei o que é a black friday.]


No post abaixo já mostrei o Super-Juiz-Alex no Terço da Farinheira. Vale a pena ver para se perceber como ele é. Só gostava é de ver a letra do supersónico catador de milhões de provas (conforme li num jornal: no decorrer das buscas foram recolhidas milhões de provas. Gostava é de saber como é que se dá a volta, em tempo útil a milhões de provas mas, enfim, isso também não interessa para nada). Não sei se há documentos na net que tenham a sua letra manuscrita. Gostava de exercitar os meus dotes de grafóloga e, de caminho, tirar-lhe a pinta. 

Mas, enfim, o Super-Alex não é agora para aqui chamado, é só no post a seguir.

Aqui a conversa é outra. Noite de sexta-feira é noite de descompressão. Faz hoje uma semana que, quase acabada de chegar, pronta para uma noite descansada in heaven, recebi um sms da minha filha: 'Já sabes que o Sócrates foi preso?!'.  Então, estupefacta, quase à medida que ia sabendo do que se passava, fui escrevendo. Foi uma noite de sexta-feira atípica essa de há uma semana.

Uma semana depois, acabo de saber que Sócrates telefonou para o Expresso e disse que se sente mais livre do que nunca


Ri ao saber disto. É dele. E acredito que seja verdade, que se sinta livre. Se ele se sabe inocente, se tem grandes reservas de dignidade - e acredito que as tenha -, deve sentir que, quando tudo se tiver provado, voltará de novo a andar em liberdade, forte e lutador. Ou seja, se sabe que está inocente, José Sócrates sabe que sairá a ganhar desta guerra tão violenta.


E, portanto, a vida continua e uma sexta-feira continua ser uma sexta-feira. E esta sexta feira é a badaladésima black friday e o Um Jeito Manso, que gosta de se armar em fashion, alinha.


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Debica indícios cronista, debica, e bolça certezas
[diz Ferreira Fernandes a propósito de João Miguel Tavares, essa criatura que é uma de muitas que infestam os meios de comunicação social e que, sem rigor e ao sabor das suas inimizades pessoais, se arrogam o direito de insinuar acusações sobre quem querem - no DN ]



João Miguel Tavares que,
segundo Ferreira Fernandes,
é um pedaço de asno
(e eu é rara a vez que o leia ou ouça
que não pense a mesma coisa)

João Miguel Tavares julga que por olhar muitas vezes para uma mulher a consegue engravidar. Ora, o indício de um interesse não garante a prova do teste positivo. Ontem, defendeu, no Público, que os "fazedores de opinião", a expressão é dele, deviam culpar Sócrates porque "ali entre 2007 e 2011, (...) se não havia provas, havia infindáveis indícios". A tese é velha, muitos dizem-na assim: "Não há fumo sem fogo...", "Eu cá não sei, mas dele já ouvi do piorio..." Geralmente ouço o mesmo sentado no banco de trás, enquanto o taxímetro avança 

(Texto completo aqui, via o Chove)




NB: Este assunto tem uma sequela. João Miguel Tavares replicou e escreveu 'As 50 sombras de Fernandes' dando assim a resposta a Ferreira Fernandes. Sobre isto, falo aqui.

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Aproximadamente
[diz Fernanda Câncio no DN, respingando algumas das muitas contradições de Felícia Cabrita, revelando como, com o mesmo tom de suspeição, esta diz uma coisa e o contrário: ora são luvas, ora é herança, ora a casa é dele, ora é de outra pessoa, mas, seja como for, de tudo e do contrário Sócrates é culpado ]



Laura Passos Coelho com Felícia Cabrita,
a bógrafa do marido
Felícia Cabrita, 22 de novembro de 2014, TVI: "Estamos a falar de corrupção, toda a gente percebe. Este dinheiro tem a ver apenas com este período em que José Sócrates [JS] esteve à frente do país, de 2005 a 2011. (...) Terá recebido luvas no montante de 20 milhões de euros aproximadamente."

Felícia Cabrita, 22 de novembro de 2014, TVI: "Assim [com o esquema que imputa a JS, em que os alegados 20 milhões estariam em nome de um amigo mas seriam de JS, usando o amigo o dinheiro para comprar casas à mãe, que por sua vez o entregaria ao filho] JS pode justificar publicamente a vida que tem e a casa que tem Paris é paga com a herança que recebeu da mãe."


(Texto completo aqui no mesmo sítio)

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O SUSPEITO
(Porta dos Fundos)



Desculpem que transcreva o texto que acompanha o vídeo. Como sempre acontece, o texto não tem nada a ver com o vídeo mas, enfim, abre o apetite. O palavreado não é de salão mas a história não mete salão: mete sala de averiguações, mete um investigador a não conseguir dar conta do suspeito. Pode parecer que estou a escrever a propósito do Rosarinho ou do Super-Alex mas não, juro que é mesmo matéria da Porta dos Fundos. A ver é se nunca aparece um destes ao Super-Alex senão nem sei que medida de coação lhe iria ele aplicar. Credo, nem imagino. Se calhar frigideira - nem que tivesse que mandar construir uma lá no pátio da prisão de Évora.

Suspeito basicamente é o cara com cara de suspeito que se desconfia que tenha feito alguma merda. Quando não se tem um suspeito, enfia-se a porrada em algum cara suspeito pra que ele confesse ser suspeito mesmo não sendo suspeito de merda nenhuma. Quando se tem um suspeito, enfia-se a porrada do mesmo jeito pra ele deixar de ser otário e aprender que não devia ter cara de suspeito. Em outras palavras, ser suspeito não depende de você. A não ser que ser suspeito seja alguma tara erótica e te dê tesão. Mas aí eu sou suspeito pra falar. 




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A melhor short story




Um jornal dava um prémio a quem fizesse a melhor short story que envolvesse sexo, religião e mistério.

Depois de apurada selecção, o prémio foi para a seguinte:


"Oh meu Deus... estou grávida... Quem terá sido...?"




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A ESTRANHA BELEZA DA LÍNGUA PORTUGUESA




Um político que estava em plena campanha chegou a uma pequena cidade, subiu para o palanque e começou o discurso: 

“Compatriotas”, “companheiros”, “amigos”! 

Encontramo-nos aqui, “convocados ”, “reunidos” ou “juntos” para “debater”, “tratar” ou “discutir” um “tópico”, “tema” ou “assunto”, o qual me parece “transcendente”, “importante” ou de “vida ou morte”. O “tópico”, “tema” ou “assunto” que hoje nos “convoca”, “reúne” ou “junta” é a minha “postulação”, “aspiração” ou “candidatura” a Presidente da Câmara deste Município.

De repente, uma pessoa do público pergunta:

 - Ouça lá, porque é que o senhor utiliza sempre três palavras, para dizer a mesma coisa? 

O candidato respondeu:

- Pois veja, caro senhor: a primeira palavra é para pessoas com nível cultural muito alto, como intelectuais em geral; a segunda é para pessoas com um nível cultural médio, como o senhor e a maioria dos que  estão aqui; a terceira palavra é para pessoas que têm um nível cultural muito baixo, pelo chão, digamos, como aquele alcoólico, ali deitado na esquina.

De imediato, o alcoólico levanta-se a cambalear e 'atira':

- Senhor “postulante”, “aspirante” ou “candidato”, (hic) o “fato”, “circunstância” ou “razão” pela qual me encontro num estado “etílico”, “alcoolizado” ou “mamado” (hic), não “implica”, ”significa”, ou “quer dizer” que o meu nível (hic) cultural seja ”ínfimo”, “baixo” ou mesmo “rasca” (hic). E com todo a “reverência”, “estima” ou “respeito” que o senhor me merece (hic) pode ir “agrupando”, “reunindo” ou “juntando” (hic) os seus “haveres”, “coisas” ou “bagulhos” (hic) e “encaminhar-se”, “dirigir-se” ou “ir direitinho” (hic) à “leviana da sua progenitora”, à “mundana da sua mãe biológica” ou à “puta que o pariu”!

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Paquita Grand Finale
[Os Trocks em grande estilo]


 Les Ballets Trockadero de Monte Carlo, 
Música de Ludwig Minkus, Coreografia de Marius Petipa


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The end - até porque, à hora a que aqui estou a chegar no texto, já é sábado

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Relembro: para procissões cantadas nas quais desfila o Super-Judge Alex desçam, por favor, até ao post que se segue.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, um bom fim de semana. 

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