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segunda-feira, maio 13, 2024

Cidades-esponja

 

As imagens que nos chegam do Brasil, Rio Grande do Sul, um mundo devorado pela água, são impressionantes demais. À data de hoje, mais de cem mortos, mais de cem desaparecidos, centenas de milhares desalojados. Casas destruídas, as águas a inundarem os primeiros andares das casas que resistem, as estradas desaparecidas. Um pouco por todo o lado (Afeganistão, Indonésia, China, etc) tempestades, inundações ou, no verão, o reverso, temperaturas insuportáveis, incêndios que não se conseguem apagar.

O cenário apocalítico que em tempos pensámos que seria algo a ameaçar apenas as gerações futuras já aí está, a bater-nos à porta.

O tema das cidades esponja, que não é remédio santo mas, ao que parece, uma boa ajuda, é algo de que provavelmente ouviremos falar com cada vez mais frequência. Pelo menos, assim o espero.

Retiro do DN, um artigo interessante de 2022:

Cidades-esponja. O que são e como podem ser resposta às cheias e secas em meio urbano

Mais do que resolver os desafios dos fenómenos extremos, peritos apontam soluções de adaptação que as zonas urbanas devem adotar para melhor gerir chuvas intensas e ondas de calor. Alterações climáticas intensificam os fenómenos, mas não devem servir como justificação para a falta de ordenamento.

"(...) o cenário de catástrofe provocado por fenómenos climáticos extremos vai repetir-se. E, apontam os especialistas, com uma intensidade e frequência cada vez maiores. Importa, por isso, alterar o comportamento reativo para uma atitude progressivamente mais preventiva. "  José Carlos Ferreira, doutorado em Ambiente e Sustentabilidade.

Ultrapassadas as dificuldades do momento, o professor da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa (FCT-Nova) afirma que facilmente "nos esquecemos que estes fenómenos existem e que se estão a intensificar".

(...) O coordenador do mestrado em Urbanismo Sustentável e Ordenamento do Território da FCT-Novaacredita que a resposta está na alteração do modelo de desenvolvimento das cidades e na concretização de soluções que "transformem o território, ocupando-o de forma ecológica". Este caminho passa, sobretudo, pela alteração dos planos diretores municipais (PDM), para que evitem a construção em zonas de perigo, como em leito de cheias, mas também que integrem estratégias relacionadas com o conceito de cidade-esponja.

O termo foi cunhado pelo arquiteto paisagista e urbanista chinês Kongjian Yu e refere-se, essencialmente, a cidades ambientalmente adaptáveis que apostam em planos de gestão integrada da água. As soluções adotadas variam consoante a realidade hidrográfica das zonas urbanas e a sua configuração, mas podem incluir pavimentos permeáveis, jardins biodiversos e edifícios com coberturas verdes. É uma forma de "incorporar, de forma plena e holística, o ciclo da água no ordenamento dos espaços urbanos", explica Rafael Marques Santos.

O professor e investigador da Faculdade de Arquitetura da Universidade de Lisboa detalha que o urbanismo sustentável permite "intervenções cirúrgicas" em áreas com "grandes erros estruturais", sempre com o objetivo de reduzir os impactos, por exemplo, em cheias. Umas são mais fáceis, outras mais complexas e dispendiosas, como demolições pontuais em zonas particularmente perigosas.

"Não vamos conseguir retirar toda a urbanização de Alcântara ou de Algés", aponta. Mas a criação de elementos de contenção é uma opção, desde logo com bacias de retenção nos pontos mais altos das cidades que "atrasem" a chegada da água, a grande velocidade, às partes baixas. O essencial, esclarece, é "olhar de forma muito atenta para a água numa perspetiva de todo o ciclo" e implementar medidas que cumpram dois objetivos de uma só vez - prevenir os riscos de momentos em que existe água em excesso, assim como atenuar situações de seca.

"Os edifícios podem ter espaços de cisterna para acumulação de água que podem ser úteis", afiança. Se em tempo de chuva intensa os edifícios conseguem guardar alguma dessa água e evitar que seja escoada para a rua, noutros momentos esse recurso pode ser usado para regas, lavagens e outros fins.

O mesmo poderá ser feito em estruturas municipais e há bons exemplos de como isso pode ser feito. Em Roterdão, nos Países Baixos, a Waterplein Benthemplein é uma praça de betão usada durante todo o ano para atividades de lazer dos habitantes, mas é pensada para que em época de chuva intensa possa inundar e evitar a sobrecarga dos sistemas de escoamento da cidade.

Outra ferramenta complementar é a criação de jardins alagáveis, biodiversos e compostos por plantas com capacidade de absorção da água. Estes locais podem inundar e continuar a servir como espaço de recreio, bem como ajudar a refrescar as cidades durante o verão - exemplo disso são cidades como Taizhou, na China, ou Nova Iorque, nos EUA.

Em Setúbal, refere João Carlos Ferreira, o Parque Urbano da Várzea foi "muito eficaz nestas cheias", apesar de aquela cidade piscatória ter tido 30% mais chuva do que Lisboa. "Foi todo redesenhado para ser uma grande bacia de retenção e não inundar a Baixa de Setúbal. Esteve no limite, mas está a funcionar e a cumprir o seu propósito", atesta.

Ambientalistas, arquitetos e urbanistas concordam ser preciso agir, revendo os planos de ordenamento, criando estruturas verdes e multiusos nas cidades, mas, acima de tudo, implementando estratégias de longo prazo diversas e adaptadas à realidade de cada local. "Estes momentos de crise também servem para as adaptações necessárias", remata Rafael Marques Santos.

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How China is designing flood-resistant cities

These "sponge city" designs resist floods and increase biodiversity to help us adapt to a changing climate.

From rising sea levels in Mumbai to unbearable heat in Houston, cities around the world are feeling the effects of climate change. Unfortunately, they don’t always have the right infrastructure to handle its impacts — which is one reason why cities are beginning to reimagine urban design. One of these designs is a “sponge city.”

Although one city design certainly won’t save us from the effects of climate change, “sponge cities” can help with how we live with it. 


Votos de uma boa semana

terça-feira, abril 09, 2024

Basco à francesa

 

Maison Adam


Não fui visitar o Chillida Leku. Também não visitei nem conheço o Parque Garaio ao lado de Argomaniz.

O passeio obedeceu ao requisito de não transbordar das férias escolares e de conter motivos de interesse que fossem apelativos para os miúdos, na verdade já adolescentes ou a caminho disso. 

Por essa razão, por exemplo, incluiu uma visita guiada a um estádio de futebol... E fomos ao Parque de Atracciones Monte Igueldo... Até eu andei no barquinho que se desloca (... naturalmente sobre a água) numa espécie de ribeirinho que dá a volta, com uma vista extraordinária a toda a volta.

Mas, ao ir agora pesquisar para tentar perceber de que tipo de museu se trata e como é o parque, imediatamente fiquei com vontade de lá voltar para ver o que ainda não vi. 

Quanto a La Concha, estivemos na praia, sim, claro, e em fato de banho e a apanhar banhos de sol pois estava mesmo bastante calor. E molhei os pés, claro. E não passou dos pés pois a água estava fria.

E, tal como ontem referi, fomos também à parte francesa do País Basco. Saint Jean de Luz, Biarritz, Bayonne. Já conhecíamos e identicamente tínhamos ficado com vontade de voltar.

Saint-Jean-de-Luz é uma pequena vila, bonita e tranquila, mimosa, em que a qualidade de vida deve ser inquestionável.

Se Biarritz tem aquela patine que exala burguesia e uma beleza natural que apetece ver e fotografar, já Bayonne tem a vibração alegre de um povo que vive a rua, que se junta, que conversa alto e que canta nos cafés e nas ruas. Apetece estar.

Se fosse mais perto, para o mês que vem estava outra vez lá caída. 

Mostro algumas fotografias que não sei se fazem justiça à alegria destas terras. Tomara que sim.




















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Desejo-vos uma boa terça-feira

Saúde. Boa disposição. Paz.

terça-feira, março 05, 2024

Em dia de ida a dois médicos, algumas conclusões
(e, a despropósito, pessoas que não existem e outras cenas de AI que são de um outro mundo)

 


Devido àquela bizarra situação que fez com que activassem o protocolo dos enfartes, chamassem o INEM, me enfiassem numa ambulância que me levou para as Urgências, lá chegada me tivessem levado, de cadeira de rodas, para a Reanimação e me tivessem feito lá estar até ao princípio da tarde do dia seguinte, agora uma vez por ano tenho que ir ao Cardiologista.

Era para ser no fim do ano passado. No fim do verão liguei para marcar a consulta (num hospital privado). Como afinal a escassez de médicos parece ser geral e não apenas no SNS, só consegui consulta para hoje. 

Entretanto, estando reformados e querendo começar a ir ao médico de família, depois de uma primeira consulta creio que no fim do verão e tendo ele mandado fazer alguns exames, tentámos marcar consulta para o fim do ano. Debalde. Fomos tentando. Debalde. Até que, finalmente, lá nos ligaram a propr uma data. Ora bem. Qual data? Pois. Justamente, também hoje. Com duas horas de intervalo e vários quilómetros e muito trânsito de permeio. 

Ou seja, cheguei a uma das consultas à tangente. Aliás, um pouco atrasada.

Primeira conclusão

Na sala de espera do Centro de Saúde, no espaço da Saúde Infantil, todas as crianças que vi, todas, eram filhas de imigrantes. Várias. 

Uma alegria. Já que os portugueses de gema não se reproduzem, ainda bem que os imigrantes o fazem. Só desejo que sejam felizes por cá, que por cá fiquem, que por cá trabalhem, que por cá efectuem os seus descontos. 

Portugal só tem a ganhar com esta situação.

Segunda conclusão

O carro tinha ficado estacionado no parque de uma superfície comercial. Quando lá fomos buscá-lo assistimos a uma grande confusão, muitos gritos, muito barulho, grande correria. Um rapaz tinha sido agarrado pelos Seguranças, gritava como um capado, e, ao correr tinha derrubado várias pessoas e várias coisas. O rapaz era português. Ou seja, se houve aqui um episódio que deixa as pessoas inseguras, ele não causado por nenhum migrante.

Terceira conclusão

O trânsito das cidades continua intenso e para quem, como eu, vive geralmente afastada da confusão, isto já fere, e muito, a minha qualidade de vida. A sociedade, no seu conjunto, deveria zelar por retirar stress ao movimento nas cidades. Mais transportes públicos, muito mais teletrabalho, horários mais desencontrados, quiçá horários mais leves... Muito deve ser feito para retirar trânsito e confusão das ruas. Ainda por cima, apanhei um grande acidente, muitos carros completamente espatifados, polícias. E, noutro ponto, muito trânsito resultante de um outro acidente. É o resultado do stress, tantos acidentes. 

E não continuo com as conclusões porque ou paro já ou continuo até amanhã de manhã

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E, para além disso, continuo às voltas com os temas burocráticos em torno de cenas que deveriam ser simples mas que, para mim, são chinês em estado puro. Volta e meia concedo-me uma pausa nestas coisas pois parece que fico bloqueada. Mas vou ter que voltar a tratar disto. 

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E aqui chegada acho que devo partilhar um vídeo do Guardian que me põe doida, que me faz apetecer hibernar, que me dá volta ao miolo.

How AI creators cement outdated beauty standards

Images created by AI are getting exponentially better, to the point where many people are unable to separate them from the real thing.

As this technology continues to develop, challenges to our perception of what is real are immense, and our trust in what we are seeing is eroded. These fake people are already changing industries such as modelling and marketing, but can they offer a more diverse reflection of humanity than has historically been available - or are they destined to reflect the narrow standards of beauty these industries have long been drawn to?


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Sobre a fotografia lá acima, em minha opinião, muitto linda, retirada do GuardianA photograph by Melbourne artist Atong Atem, ‘Adut and Bigoa, 2015’ which will show at the NGV as part of a local component of Africa Fashion, an exhibit travelling to Australia from London’s V&A. Photograph: Courtesy Mars Gallery, Melbourne

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Um dia feliz

Saúde. Leveza. Paz.

quinta-feira, junho 23, 2022

Transportes públicos tendencialmente gratuitos, parklets convidativos e inovadores nas ruas

 

Confirmar que as mulheres não gemem quando estão a ter um orgasmo tem piada. A pornografia e as fantasias pirosas põem as mulheres a gemer como umas infelizes quando a realidade dos factos é outra. Uma vez mais foi através do ecléctico PdC que fui confirmar que pode haver estremeções, gritos, pulsação acelerada, rubor, etc, mas, que se saiba, não há gemidos (The female orgasm: lots of throbbing and quivering – but no moaning)

Mas se achei graça à informação e se o tema tem mais do que se lhe diga, a verdade é que não é sobre o orgasmo feminino que hoje me apetece escrever. 

Hoje estou outra vez numa de planeta. Cresci em tempos que, no que se refere a recursos, pareciam ser de abundância e deslumbramento. A ninguém parecia ocorrer que um dia os combustíveis fósseis ou a água poderiam ser bens escassos. Por outro lado, havia o plástico para todos os fins: usar sacos, garrafas, pratos, toalhas, talheres e tudo o mais em plástico parecia ser um hábito inócuo e para todo o sempre.

E todas as famílias terem um carro, dois carros, um carro para cada membro da família também parecia uma coisa normal. Quem não tinha dinheiro para os comprar, recorria a empréstimo. O dinheiro parecia também infinito e os bancos emprestavam-no como se não houvesse amanhã ou não houvesse risco de não o reaverem.

Foram anos disto, de uma vida vivida despreocupadamente quanto à finitude dos recursos. 

Até que vieram crises de toda a espécie. É como se, de repente, estivesse patente aos olhos de todos o quanto tudo é efémero.

Já não há petróleo infinito, já não há dinheiro infinito, já não há água infinita, já não há ar respirável para todo o sempre. Nem o clima está mais o mesmo. Enquanto o fogo devora florestas nuns cantos do mundo, sem água, a terra seca e aflita, noutros as terras afogam-se numa água imensa, levando tudo à sua passagem. E, noutros cantos, rebenta a terra em convulsões e noutros alguns homens viram diabos sem freio e matam e destroem como se quisessem precipitar o fim dos tempos.

Sabemos, pois, que temos que mudar. Assim não haverá sobrevivência possível. 

Contudo,  como dizia o outro lá para os lados do gattopardo, ainda estamos naquela de mudarmos muita coisa para que tudo continue na mesma. 

Mudar a sério, mesmo a sério, mudarmos de hábitos, pensarmos no dever de mantermos o planeta vivo e de assegurarmos a continuidade da nossa espécie, isso requer uma consciencialização bem mais profunda e políticas públicas vigorosas. Nada de perder tempo com a espuma das coisas. A urgência deve impelir-nos para a substância.

Nada pode ser visto isoladamente. Não basta plantar árvores e pouco mais. Nem basta baixar os impostos nos carros eléctricos. Nem basta encarecer os sacos de plástico. Tem que haver muitas medidas, bem articuladas, bem comunicadas e bem assimiladas, tem que se perceber que mudar os paradigmas dura anos.

Por exemplo, é essencial que, em geral, as pessoas, na sua vivência diária não tenham que fazer quilómetros para cá e para lá. Concentrar tudo o que é trabalho nas grandes cidades em locais em que não há residências ou são muito caras, obrigando as pessoas a viver longe, deve ser mitigado quer por políticas de teletrabalho ou descentralizando serviços sempre que possível. Ter creches públicas gratuitas ou muito em conta perto dos núcleos residenciais parece-me também da máxima importância. Ter transportes públicos tendencialmente gratuitos ou, pelo menos, gratuitos nos locais onde vivem populações desfavorecidas bem como nos principais eixos de viação, parece-me importante. Ter passes válidos por um mês ou bilhetes de utilização alargada a preços simbólicos durante alguns meses do ano, permitindo a quem o queira conhecer o país ou, pelo menos, as terras mais próximas, parece-me também importante.



Qualquer destas medidas irá permitir reduzir os gastos mensais permanentes, reduzir a utilização de carros particulares e/ou de utilização individual, reduzir a poluição, desenvolver a pequena economia local, melhorar a qualidade de vida em geral.

O caso de Boston merece ser conhecido, estudado, replicado. 'Free public transport works': a Q&A with Boston mayor Michelle Wu'.

Michelle Wu prometeu:


E está a cumprir:

E depois há aqueles salutares hábitos de conviver, de conhecer vizinhos, de curtir a vida ao ar livre.

A ideia dos parklets é daquelas que me cativa e que gostaria de ver amplamente espalhada por cá.  

Reduzindo o número de carros nas ruas (tendo mais transportes públicos, mais garagens e parques públicos) poder-se-á reduzir os lugares de estacionamento. E, onde estavam carros, podem passar a estar pequenos espaços de convívio, de descanso, de desfrute. São espaços públicos, não comerciais. 

Escolhi, para ilustrar, alguns exemplos com que polvilhei o texto. Seria interessante que as autarquias, talvez com a sponsorização de empresas ou de mecenas em geral, lançassem concursos de ideias criativas, esteticamente interessantes, funcionalmente apelativas para parklets um pouco por todo o lado. Ou que as escolas pudessem contribuir com projectos irreverentes. Ou que as comunidades se organizassem para os fazer de forma colectiva.

[Isso e hortas ou jardins comunitários, pequenas bibliotecas públicas geridas em regime de voluntariado, etc -- tudo o que sirva para restituir aos locais o hábito da vizinhança, do convívio, do contacto com a natureza ou com a cultura, do respeito pelos outros e pelos locais públicos.].

Um exemplo:

Denver Parklet Design Competition


Desejo-vos um dia bom
Saúde. Harmonia. Paz.

sábado, janeiro 29, 2022

E se repensássemos algumas coisas...?
As ruas, as cidades, a agricultura, a energia... (por exemplo)

 


O dia foi mais um daqueles em que tento manter a agenda relativamente aberta mas em que, sei lá como, ela se vai fechando por si. É uma reunião que se prolonga para além do expectável, é outra que é solicitada à última hora, são os telefonemas, são os documentos que não podem deixar de ser lidos e comentados. E, quando dou por ela, já é tarde e o dia passou. 

À hora de almoço tinha dito que, depois de almoço, iria aprender a trabalhar com a roçadora própria para aparar a relva junto aos muros e aos caminhos. À noite o meu marido provocou: 'Não era hoje que ias dedicar-te ao jardim?'. Também tínhamos combinado que faríamos uma caminhada antes de anoitecer. De facto, quando saímos ainda não era completamente noite mas, quando regressámos já era. E os dias estão maiores que é um gosto.

Agora, enquanto aqui estava, ocorreu-me que houve uma altura em que no meu gabinete se juntava uma turma animada que discutia política com um entusiasmo que, à distância, quase me enternece. Predominantemente éramos socialistas mas havia uns que não se acusavam mas que eram conservadores embora muito críticos do PSD e descrentes do CDS, dois que votavam declaradamente no CDS, um por convicção e outro porque se dizia anarquista de direita e achava que o partido mais inconsequente era o CDS. Havia um outro que também não se acusava mas que se dizia ser 'informador' dos sindicatos e muito próximo do PCP. 

Ainda me lembro de uma altura em que, por mudanças a nível dos accionistas, passei um mau bocado. Na altura recebi um telefonema de alguém que eu não conhecia mas que queria dizer-me que eu tinha a confiança da comissão de trabalhadores e que estavam ali para o que fosse preciso. Pouco depois, quiseram propor-me uma reunião. Com a intermediação desse colega, organizaram um almoço. Era um restaurante típico, acolhedor, ali para a Mouraria. Para além desse meu colega estavam uns que eu não conhecia. Vim a saber que um deles pertencia ao comité central do PCP. As coisas em que eu já me vi metida não dão para explicar.

Mas, dizia eu, eram alturas em que eu discutia política a sério, cada um esgrimindo os seus argumentos com uma vivacidade que nos vinha das entranhas. Eram tempos também em que nos juntávamos a jantar em casa uns dos outros, primos, cunhados, a miudagem toda. Em volta da mesa esperávamos as sondagens, sofríamos a ver a evolução dos resultados, era uma emoção, tantas vezes uma alegria. Lembro-me até que, uma vez, uma, que era (e é) artista, até fez um bolo com uma decoração de uma rosa. 

Enfim, outros tempos. Os miúdos cresceram, formaram família, a família desenvolveu-se, esses primos separaram-se. Desabituámo-nos disso. 

Mas, embora de forma mais restrita, iremos na mesma esperar as sondagens, a contagem dos resultados, o desfecho.

Agora o que eu acho é que não apenas estas eleições são um absurdo pois não havia razão para se ter interrompido a legislatura como a própria campanha, em vez de ser usada para se discutirem assuntos de facto relevantes, foi usada para servir de pasto à comunicação social. De tal forma as televisões com os seus infinitos comentadores têm um efeito triturador como toda a comunicação social procura a celeuma, as frases que dão títulos chamativos, o episódio caricatural. Qualquer tema mais sério ou estrutural parece descabido no meio da espuma com que a comunicação social envolve os candidatos.

E depois os próprios candidatos, salvo duas ou três honrosas excepções, são criaturas medíocres. Ventura, Chicão, Catarina, Rio, e toda essa gente que por aí andou a dizer graçolas ou a lançar dichotes não têm estatura de figuras de Estado.

E, no entanto, há tanta coisa a repensar... A sociedade que queremos deixar aos nossos descendentes é esta em que vivemos? A caminho do descalabro climático? Com pandemias recorrentes? Com desregulações onde elas são mais necessárias? Com a democracia correndo sérios riscos de vir a ser asfixiada sob o peso descontrolado das plataformas digitais onde tudo é possível? Com a tecnologia cada vez mais ubíqua e omnipotente, omnipresente e omnisciente... e totalmente à solta e à mercê de quem a quiser usar...?

Por isso, hoje também não vi televisão. Não vi O Expresso da Meia-Noite nem qualquer dos programas que hão-de ter dado em que jornalistas-entertainers e comentadores-avençados hão-de ter esgrimido fracos (e fake) argumentos sobre irrelevantes temas. 

Entretive-me, antes, a ver vídeos em que se lançam ideias, se divulgam projectos ou se repensa o futuro. Pode ser utópico, inviável -- ou o contrário. Mas interessa pensar, equacionar. De entre cem ideias lançadas, duas ou três poderão ser fantásticas. Há que abrir espaço para novas formas de pensar e de viver. Colocar as hipóteses em perspectiva, ter a mente aberta: Será que ...? Porque não...?

Alguns exemplos:

We’re using our streets all wrong | Hard Reset by Freethink

The rise of the private automobile in American life and culture has dramatically changed how cities were designed, John Frazer, a mobility futurist, wrote for Forbes. 

Emerging from World War II, automakers became economic powerhouses, employing workers who suddenly could afford their own cars — rumbling manifestations of the freedom of the American Dream.

Cities were designed around that dream. Frazer quotes University of Houston historian Martin Melosi, who said that roughly half of the space in American cities has been given over to roads, parking lots, parking spots, gas stations, traffic signals, and other things pertaining to cars. And at the same time, space for other forms of transportation — like sidewalks — were squeezed out.Even the sidewalks themselves are designed to resist change; large concrete slabs, they don’t lend themselves to being changed around. Making an infrastructure change can cost millions, a price many cities won’t or can’t pay. 

But maybe we can take those spaces back; they are public spaces, after all. We could hard reset, and make streets a place for user-generated urbanism. 

 

The Futuristic Farms That Will Feed the World 

| Freethink | Future of Food

Amidst climate change, a growing population, and people consuming more of less sustainable food, how will we feed our future world? The answer may not be increasing resources--land, water, and employees--but rather improving production efficiency to create more sustainable farming of crops. The key question: How do we increase the amount of food we produce while using the same or fewer resources? 

When it comes to scaling agricultural production sustainably, one small country has a very large impact. Bolstered by a national commitment to produce twice the amount of food with half the resources, the Netherlands has become the world’s #2 produce exporter. The close collaboration between the government, science organizations and the food industry have driven impressive innovation and an efficiency that’s unmatched anywhere else in the world. 

On a normal open-field tomato farm, one could expect 4 kilograms of yield per square meter. In a high-tech greenhouse in the Netherlands, that number shoots up to 80 kilograms of yield per square meter, with 4X less water. That’s a 20X improvement on output! And it’s not just tomatoes--the Dutch are #1 in the world on producing chilis, green peppers, and cucumbers (measured by yield per square mile). With conservation and sustainable food as two of the most important global issues, could other countries copy their approach to help save the earth?


How mirrors could power the planet... and prevent wars 

| Hard Reset by Freethink

Concentrated solar power is produced using a large amount of mirrors which are angled to reflect the sunlight onto a large solar receiver. Aside from being clean energy, one of the most promising advantages of CSP is that it can generate transportable energy for use far beyond where it was harvested. 

The idea of concentrated solar power isn’t new — the first commercial plant was developed in the 1960s. But a company called Heliogen has found a way to make the process of reflecting and storing sunlight much more accurate and efficient. And soon, it might be more cost-effective than fossil fuels.

If adopted globally, this could lead to a hard reset in the manufacturing industry, not to mention prevent wars over oil and mitigate climate change.


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Fotografias feitas in heaven e que aqui se fazem acompanhar por David Gilmour que interpreta Where We Start

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Desejo-vos um belo sábado
Tudo de bom para si que está aí desse lado.

quinta-feira, janeiro 13, 2022

As preferências da UJM
(Enfim, algumas)

 

Livro: Stoner e mais uma porção deles

Programa de televisão: Master Chef Australia

Música: já disse vezes de mais, não me apetece repetir

Uma cantora e uma canção entre tantas: Melody Gardot a interpretar La vie en rose

Flor: todas

Político de todos os tempos: sei lá

Político com o penteado mais original: Boris Johnson

Pior político português vivo: por ordem decrescente de relevância - Cavaco, Passos Coelho, Relvas

Prato: pescada de anzol cozida, com batatas, feijão verde, cenoura, ovo, tudo temperado com azeite e sumo de limão

Sopa: de tomate

Bolo: torta de Azeitão; doces de ovos de Aveiro; fofos de Belas; pão-de-ló de Alfazeirão; dom rodrigo de Lagos; paistéis de Belém; etc

Pessoa que aparece na televisão portuguesa com uma carinha mais laroca: Miguel Monjardino, aka, Mr. Big Eyes

Melhor imitação: Herman José a imitar o Nuno Azinheira na Passadeira (aka Arrastadeira) Vermelha

Azeiteiro/a mais azeiteiro/a: Cristina Ferreira

Entrevistadora com a maneira mais enervante de fazer perguntas: Fátima Campos Ferreira

Pessoa mais bizarra a apresentar um programa de televisão: José Navarro de Andrade

Supermercado preferido: Lidl

Ténis preferidos: Skechers

Blogger mais absolutamente critativo/a: Gina Geia

Blogger com quem quase sempre concordo e que escreve como eu gostava de escrever: Valupi

Blogger mais encantadoramente romântico: Xilre

Blogger mais esdrúxulo, bissexto e desconcertante: O anão gigante

Blogger mais inclemente, mais castigador: Plúvio

Cidade mais linda do mundo: Lisboa

Lugar de onde se tem a melhor vista de Lisboa: Ginjal

Lugar do mundo onde a vida é mais pura e onde eu sou mais eu: heaven

Amiguinho mais recente e mais fofo: o ursinho felpudo, aka a big fera

Cidade não portuguesa onde deve ser bom viver: San Sebastien, aka Donostia

Livraria bem organizada, elegante e boa pinta, bem situada, com bons livros: Livraria da Travessa

Livraria mais livraria, mais boa onda, mais acolhedora, mais arca dos mil tesouros: Livraria Escriba

Jornal que mais vale a pena: The Guardian

Pintor genial: vários mas, para aqui colocar uma pintura que considero que fica a matar nesta minha casa, Picasso

Cómico não português: Mel Brooks, por exemplo

Quem melhor descreveu como se assobia: Lauren Bacall

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Desejo-vos um belo dia
😎
E toca a ir passear, apanhar ar, apanhar sol.
Saúde e alegria

domingo, novembro 14, 2021

No futuro viveremos em cidades flutuantes? Como arrefeceremos as casas sem aquecermos ainda mais o planeta? Como vivermos em ambientes sustentáveis? Como nunca nos esquecermos do que é uma vida feliz?

 

Cop26. Não se pode esperar muito de cimeiras assim. Estão lá representados países que estão em patamares de desenvolvimento muito díspares. O mundo não anda apenas a uma velocidade: anda a muitas. Não é possível esperar que a consciência ambiental esteja sempre presente quando há que satisfazer necessidades básicas e indispensáveis à sobrevivência das populações. Nem é possível agir de consciência limpa quando, nos bastidores, se movimentam as poderosas forças ligadas ao petróleo ou às armas. No grande tabuleiro em que se joga a sobrevivência da espécie humana agitam-se, subterraneamente, mil forças contraditórias que tolhem os movimentos de quem quer ver ao longe.

Enquanto a população, na sua grande maioria, não estiver completamente consciente dos riscos de sobrevivência para a vida como a conhecemos e enquanto não estiver ciente de que há uma relação directa entre os que escolhe para nos governar e os destinos da humanidade, muito pouco se conseguirá.

Temos que perceber que não somos apenas nós mas os que nos seguirão e os se seguirão a esses. 

Quando ouço previsões de como será o mundo em 2100 faço contas de cabeça: quem, da minha família, cá estará? E logo uma angústia me aperta o peito. Talvez os meus filhos, velhinhos, também os meus queridos pimentinhas, os seus filhos, os filhos dos seus filhos. Um aperto no peito. Não quero que sofram horrores. Quero que vivam melhor que eu, quero que sejam mais felizes que eu.

Lembro-me. Eu era pequenina. O meu pai ia para o trabalho de bicicleta. A minha mãe ia a pé para a escola e, antes de ir, deixava-me em casa da minha avó. Íamos a pé, não era muito longe. Lembro-me de um regato. Baixava-me, apanhava água na concha das minhas mãos. Era fresca. Sentia-me feliz. Ao fim da tarde, a minha mãe ia-me buscar e esperávamos pelo meu pai num sítio da estrada. Por vezes, ele estava à nossa espera e íamos a pé, ele com a bicicleta ao seu lado. Outras vezes demorava e a minha mãe desenhava uma cruz na areia do chão para que o meu pai soubesse que tínhamos ido andando para casa. 

Depois, construíram uma moradia longe do trabalho de ambos. Passámos a andar de autocarro e eu passei a ficar, durante a semana, em casa dos meus avós. O carro era para o fim de semana ou férias ou para uso pessoal. 

Mais tarde, compraram um segundo carro, um para o trabalho, outro para a família, e já só se andava de carro.

Comigo foi a mesma coisa: sempre a trabalhar longe do trabalho. Ao princípio usava autocarro. Depois deixou de fazer sentido ou, mesmo, de ser possível. Longe. Passei a deslocar-me apenas de carro. Cada um seu carro. Numa altura, eram quatro carros. 

Numa altura, quando ia ao norte a trabalho, ia de comboio. Preferia. Depois passou a ser o avião ou, se éramos mais que um e conseguíamos ir juntos, íamos de carro, na conversa. 

A vida foi-se tornando cada vez mais complexa. Cada vez mais poluição.

E antes havia alfaiates e costureiras e faziam-se camisolas de malha em casa. Depois veio o pronto-a-vestir. Muitos modelos, preços muito acessíveis. Roupa feita no México, na China, no cu de judas. Grandes cargueiros a poluir os oceanos, voos e mais voos a poluir o ar.

Havia hortas e mercados locais. Depois vieram os supermercados e os legumes vindos do outro lado do mundo e a comida embalada vindo do outro lado. E, como sempre, grandes cargueiros a poluir os oceanos, voos e mais voos a poluir o ar.

Desaprendemos a vida simples. Estragámos o planeta. E agora, por muito aparato que possa envolver estas cimeiras, no fundo, no fundo, é como a Greta diz: bla-bla-bla.

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  • Em todo o mundo toda a sociedade (t-o-d-a) deveria ser convocada para a emergência climática.
  • Em todo o mundo as populações não deveriam admitir que políticos de meia tigela continuassem a poluir as consciências com populismos ou imaturos jogos de retórica.
  • Em todo o mundo as populações deveriam organizar-se para reflectirem em conjunto e construir soluções.
  • Em todo o mundo as populações apenas deveriam eleger políticos que tivessem a emergência climática e a sustentabilidade do planeta como primeira prioridade.
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Pela parte que me toca, aqui deixo uns vídeos que dão que pensar, que inspiram.
Arquitectura, urbanismo sustentáveis. 
Alternativas ao modo de vida. 
Pensando o futuro nas zonas alagadas. 
Reaprendendo a felicidade.








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Desejo-vos um belo dia de domingo

sábado, julho 03, 2021

Cidades que estão a salvar o Planeta

 

Durante anos alimentei a ideia de que trabalharia em ambiente empresarial durante metade ou um pouco mais da minha vida activa profissional, altura em que me dedicaria a uma actividade autárquica sendo que, aqui, não fazia por menos: queria ser presidente de uma grande câmara.

Acho que já contei: um dia o meu marido, que apoiava esta ideia, comentou isto com um amigo que, por acaso, na altura, era presidente de um partido que tinha, na altura, relevante peso autárquico. E ele disse-lhe: 'Ela que fale comigo'.

E eu, ao ouvir isto, captei a essência do que, até então, queria escamotear: para se abrir caminho na via sacra autárquica teria que ter o respaldo de um partido. Ora isso era e é coisa que me longínqua. O mundo partidário é uma realidade que não me assiste.

Na minha cabeça, ou melhor, na minha santa ingenuidade, uma ingenuidade completamente alienada, eu apresentava-me a votos apenas com as minhas ideias e os autarcas dar-me-iam o seu voto de confiança.

Quando desisti da ideia, porque o meu objectivo não era outro senão ajudar a dar forma a uma cidade saudável, inclusiva e feliz, resolvi contribuir com ideias junto de quem presidia à minha autarquia. Escrevi, dei numerosas ideias. Eu via a cidade a tornar-se uma cidade das artes e da natureza, com esculturas e demais arte pública, residências de artistas, galerias e zonas de convívio, parques, jardins, lagos, hortas colectivas, bosques, zonas pedonais, ciclovias. E escolas abertas, para qualquer idade: escolas de artes, de danças, de literatura, de história, de política e cidadania, de saúde, de agronomia e jardinagem, coisas assim. Escolas para qualquer idade. E residências e escolas para imigrantes. E mais. E colocava-se à disposição para ajudar da forma que melhor entendessem.

Nunca tive qualquer resposta nem nunca vi qualquer das minhas sugestões passada à prática.

É uma pena que me fica, a de não poder contribuir para mudar substancialmente uma pequena parcela do meu país.

Há tanto para fazer...

Agora, ao abrir o Youtube, tinha a sugestão de um vídeo da BBC Earth com locução de David Attenborough e, claro, tive que ir ver e, claro, gostei muito. Partilho-o convosco.

Cities That Are Saving The Planet

It is all too easy for us to lose our connection with the natural world, but some cities are beginning to shape themselves around it. 


E, já agora, não uma cidade mas um país. É certo que é país pequeno, com umas características muito próprias. Mas tenhamos a abertura de espírito para o vermos como um exemplo e não como uma distante excepção.


This country isn't just carbon neutral — it's carbon negative


Deep in the Himalayas, on the border between China and India, lies the Kingdom of Bhutan, which has pledged to remain carbon neutral for all time. In this illuminating talk, Bhutan's Prime Minister Tshering Tobgay shares his country's mission to put happiness before economic growth and set a world standard for environmental preservation.

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Até já!

domingo, dezembro 02, 2018

É de uma coisa assim que Lisboa e arredores estão mesmo a precisar


Quem viva e/ou trabalhe em Lisboa sabe bem o inferno que é entrar e sair da cidade, entrar e sair dos parques empresariais, atravessar avenidas e ruas especialmente em horas de ponta. Horas de vida perdidas no trânsito. Basta que haja acidente na Segunda Circular, na A5, numa das Pontes, na Cril ou nessas vias que tendem a estar congestionadas -- mesmo sem transtornos -- para que toda a cidade sofra as consequências.

Claro que uma das soluções para isto passa por ter transportes públicos de qualidade, com a frequência devida e a preços acessíveis. A recente e excelente medida do Governo de baixar os passes sociais é bem capaz de vir a dar bons frutos. Mas outras soluções, mais dispendiosas e disruptivas, poderiam ser lançadas numa lógica de médio e longo prazo -- por exemplo, longos viadutos, estradas aéreas, túneis, vias subterrâneas por forma a tirar o trânsito do meio da cidade.

O P., a quem muito agradeço, enviou-me um vídeo espectacular. Vejam pois não apenas há paisagens de sonho como o projecto é extraordinário. Inspirador. Pode ser que algum dos meus Leitores seja arquitecto, urbanista, visionário, amante de cidades, político a sério e, vendo o que aqui se mostra, tenha uma ideia para tornar Lisboa uma cidade transitável, com bué de qualidade de vida.

segunda-feira, maio 14, 2018

Reportagem de um passeio turístico pela Baixa de Lisboa





Escrevo porque sim. Não é para mais tarde recordar já que nunca releio coisas que tenha escrito. Nem é para que os outros saibam da minha vida ou o que penso -- nem quem me lê me conhece, nem eu conheço quem me lê, pelo que isso também não é razão. Acho que escrevo porque sempre gostei de escrever e porque tudo me serve de pretexto para escrever. Não sei de outra razão.


Um amigo meu, quando a mãe, nonagenária, morreu, teve que arrumar, distribuir ou desfazer-se dos seus pertences. O pai tinha morrido anos antes. A senhora, pessoa culta, a viver numa bela moradia na Linha, esteve uma vida inteira a carrear objectos especiais para dentro de casa -- e o meu amigo, quando se viu com um casarão daqueles a deitar por fora, várias divisões cheias de pertences e memórias, teve que digerir um petisco que não se deseja a ninguém. Acresce que quer a mãe quer o pai eram pessoas ligadas à cultura e à vida pública do País pelo que, mesmo que ao meu amigo e à mulher desse uma veneta e mandassem os membros daquelas associações de reabilitação irem lá buscar tudo o que quisessem (como a minha cunhada costuma fazer), por consciência cívica, não o fizeram. Viram cada caderno, cada livro, cada documento pois, em muitos casos, eram documentos com interesse histórico que, consoante a natureza, doaram para aqui ou para ali. Só que, no meio daquilo, encontraram inúmeros cadernos iguais, numerados, todos escritos pela mãe. Era um imenso diário.


Conheci a senhora. Talvez porque, de facto, viveu em França e conviveram muito com gente exilada em França, a senhora fazia lembrar uma francesa. Para começar, usava daqueles cabelos muito curtos, à rapazinho. E toda ela tinha um ar desempoeirado, moderno. E era senhora de fina ironia como só as pessoas inteligentes sabem ser.


Pois bem. O filho e a nora descobriram, depois da sua morte, que ao longo de todos os dias da sua vida (pelo menos da sua vida adulta), ela registava o que fazia, o que pensava, o que lhe apetecia, incluindo as zangas com o filho e com a nora. Ou pensamentos mais íntimos, sentimentos, sonhos, saudades. Muito desconcertante para o meu amigo e para a mulher. Não foram capazes de ler muito. Parecia-lhes um acto de devassa, tomar conhecimento da intimidade da senhora. 'Não quero conhecer esse lado da minha mãe', disse ele. A mulher disse: 'E escrevia bem, a minha sogra'.

Comigo não há cadernos secretos. Está aqui tudo, a céu aberto, para quem quiser ler.


E isto porque, aqui chegada depois de mais um dia repleto e igualmente bom -- cheio de beijinhos, beijinhos aos meus amores -- e depois de passar as fotografias do passeio para o computador, dei por mim preparada para aqui mostrar algumas delas. Depois pensei: mas estou a mostrar isto a quem?

Por vezes recebo mails em que me agradecem que eu mostre os sítios por onde ando já que nem todas as pessoas podem passear e conhecer estes lugares e, assim, vendo as imagens que aqui partilho, é como se fossem também de viagem. E eu fico contente. 


Eu gosto mesmo muito de passear. Não sou de ficar fechada em casa sem nada que fazer. Hoje eu dizia isto para me justificar e o meu marido passou-se: 'Mas estás a dizer isso a quem? Mas alguma vez tu ficas em casa sem nada que fazer? Era bom, era. Mas nunca acontece. Se não tens nada que fazer, inventas, e um gajo nunca consegue descansar.'. Ia responder mas faltaram-me argumentos. De facto, de manhã já tínhamos ido ao supermercado, depois fomos arrumar as coisas em casa, naquele momento estávamos a passear na Baixa e, depois de almoço, íamos a casa dos meus pais, depois íamos passar por casa do meu filho, depois ia fazer o jantar para estar tudo pronto quando a minha filha lá chegasse. E, portanto, era, de facto, previsível que não conseguíssemos estar descansados senão depois das dez da noite.


Hoje o passeio foi pela Avenida Liberdade, Restauradores, Rossio, Rua do Carmo, Escadinhas do Duque. Por aí. 

Quando passeio, sou sempre marinheira de primeira viagem: olho cada coisa como se fosse a primeira vez, descubro motivos de interesse a cada passo (e o meu marido: 'Assim não dá. Não consigo andar assim, sempre a parar' e eu: 'Estás com pressa para alguma coisa? Porque é que não prestas atenção às coisas?' e ele, maçadíssimo: 'Para prestar atenção não preciso de parar'). 


E gosto de ver quem passa, os trajes, as falas, as línguas. Uma babel. Muitos alemães. Muitos asiáticos. Muito franceses. Um grupo de raparigas que presumo estivessem a fazer a despedida de solteira de uma delas, já que uma ia de véu de noiva.


E tantos homossexuais. Tantos, tantos. Comentei isso ao jantar. A minha filha disse: 'Pois é. Deve ser por causa da Eurovisão. As bichas adoram a Eurovisão'. Pois não sabia mas, às tantas, tem a ver com isso pois, se bem que haja sempre muitos casais gays, hoje achei que Lisboa deveria estar muito bem conceituada no roteiro gay para se verem tantos e todos tão in love e tão animados.


E porque tínhamos feito a reserva de almoço apenas para as 14:30, até deu tempo para estarmos sentados num banco de jardim, ao sol, a ver quem passava, descansados. Gostei mesmo. No entanto, claro que eu, às tantas, já estava farta de estar descansada mas o meu marido fez-me esperar sentada.

Fui fotografando, pois claro. E tenho aqui uma bela galeria de passeantes, incluindo alguns casalinhos gays, alguns bem elegantes e fashion. E negras elegantemente coloridas, com turbantes de sega garrida, e muitos jovens puxando malas com rodinhas e outros com mochilas ao peito e às costas e muitos casais de idade, um bem, bem velhinho, a senhora de andarilho e o marido devagarinho ao seu lado. Qual sartorialista, bem poderia aqui mostrar como se encontra tanta heterogeneidade e joie de vivre em Lisboa. Mas não vou fazê-lo. Mostro apenas a cidade, esta bela cidade de Lisboa.


Bem. Esperei sentada. E não dei o tempo de espera por mal entregue já que o brunch foi supimpa. Pitéus bons, sushi, quiches, saladas, quentes e frios, e queijos, presunto, salmão, e boa fruta e bons sumos e bons doces. Eu é que não estou habituada a comer muito e, portanto, fico cheia quando ainda nem provei mais de metade dos acepipes que lá estão a chamar a minha atenção. E tem uma bela decoração e um ambiente descontraído como convém a um restaurante onde a gente vá num domingo ensolarado e frescote de Maio em Lisboa.


Lisboa está, de facto, uma cidade cada vez mais bonita e mais acolhedora e com uma oferta, a todos os níveis, completamente diversificada e com boa qualidade.

E, pronto, não vos maço mais com fotografias e apontamentos deste género. Só apenas mais uma coisinha. Como boa turista, trouxe um recuerdo: uma bonequinha linda e mimosíssima que encontrei numa loja encantora, toda flores, velas de cheiro, cores harmoniosas.


Não sei se é razoável ou se há alguma explicação para isto mas a verdade é que, apesar de ter andado em avenidas e ruas que conheço desde sempre, que já pisei mil, mil vezes, que já não deveriam ter qualquer segredo para mim, me senti, como sempre me sinto: uma turista em férias.

E agora aqui estou, descansada, tranquila e feliz, como se tivesse estado a passar férias numa terra encantadora e desconhecida.

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Não vi o vídeo todo mas, do que vi, parece-me que transmite uma boa imagem de Lisboa


BBC Documentary Lisbon, Portugal 2018


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