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sexta-feira, dezembro 30, 2016

Com uma maçã, ele surpreendeu Paris





Debaixo de anti-histamínicos e anti-piréticos mas, felizmente, sem dores de cabeça ou no corpo, apenas alguma tosse e dor de garganta, depois de um dia de trabalho e outras preocupações, aqui estou finalmente na minha sala. Envolvo-me em sono e calor, desligo do que me traz apreensiva e espreito as notícias. 

Não há uma única notícia que me motive. Ou melhor: haver até há. Não sei é escrever sobre ela. A ver se me informo melhor pois é tema que me acorda. Refiro-me a saber-se que há um rio de ferro que corre a uma velocidade crescente no interior do nosso planeta e que está a uma temperatura quase equivalente à do sol. Acho interessante e acho que é coisa não neutra. 

Mas não vou pôr-me, para aqui, a dissertar sobre assunto que requer conhecimento. Só se me pusesse a ficcionar mas, no estado em que estou, mal consigo reportar-me à realidade, quanto mais à ficção.

Em dias assim movo-me para outro comprimento de onda. Prefiro a companhia daqueles que são independentes do seu corpo, cujas ideias ou obras sobrevivem ao corpo. Por vezes, em vida, são pessoas atormentadas e custa-me pensar nisso ao apreciar o seu legado nem me ocorrendo o que pensava ou sentia o artista enquanto executava a obra.


É o caso de Cézanne. Gosto de Paul Cézanne. Já vi obras suas ao vivo e é sempre aquela emoção de a gente ver uma celebridade ao vivo.
(Estou a gozar.)
Mas há um pouco de verdade nisto. Já se conhece e reconhece e depois está-se ali e vê-se ao vivo. Há um certo sentimento de déjà-vu mas, ao mesmo tempo, a satisfação por ver a obra tal como o pintor a deixou.
Abro um parêntesis para dizer que, de vez em quando, a sensação é mil vezes mais do que isto. Por exemplo, quando vi Caravaggio ao vivo fiquei quase aterrada, quase não conseguia fitar tamanha energia, tamanho frenesim telúrico. Outras vezes também uma emoção grande. Rothko, nos antípodas, também me deixou quase sem palavras, como se tivesse vontade de ser sugada para dentro daquele vazio, um vazio que, no entando, estava tingido de cores vibrantes. Ou o pano de boca de cena de Chagall, uma imensidão onírica.
Mas volto a Cézanne.


Vi um escrito sobre ele e entretive-me a ler e a ver mais umas coisas.

Transcrevo um pouco:
Cézanne sempre trabalhou sozinho, sem alunos. A sua pintura era sua maneira de existir. Sua vida fora marcada e envolvida por sua melancolia e cólera que permeava a sua vida inócua, instável, indecisa. Pinta na tarde em que sua mãe morre. Não é admirado por parte da família. Ao envelhecer acreditava que a sua pintura era fruto apenas dos distúrbios visuais que perseguiam seu corpo. Duvidava do seu talento e da genialidade que o transbordava, pois as circunstâncias e as reviravoltas da vida, não permitiam o reconhecimento de suas produções. A fraqueza e a baritimia o perseguiram no percurso de sua vida. Quando se mudou para Paris, decidindo ser pintor, escreve “Não faço mais do que mudar de lugar e o tédio me persegue”. Não conversava, pois não sabia argumentar. Preferia a solidão. Encontrar os amigos em Paris, quando via casualmente algumas vezes, apenas os cumprimentavam à distância evitando conversas prolongadas. “A vida assusta”, dizia Cézanne. 
(...)

Um dia, apanhado por uma tempestade, continuou a pintar à chuva durante duas horas. Dias depois morreu com uma pneumonia. Em 1906. 

E, no entanto, ao vermos as suas pinturas, que diferença faz o ano em que morreu, ou se tinha sessenta e sete anos quando isso aconteceu ou setenta ou oitenta ou se já se foi há mais de cem anos ou apenas há dez ou se ainda está vivo?

Divago, talvez. Mas penso isto, mesmo. 
..........................





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"Avec une pomme, je veux étonner Paris!" 


Gustave Geffroy rapporte que Cézanne répétait souvent cette phrase. C'est dire la place qu'il attribuait à la pomme : à la fois insignifiante et essentielle.

Selon Meyer Schapiro (Style, artiste et société p 224, Ed Gallimard), ce calembour réunit toute sa carrière, depuis Paris-Pâris jusqu'au motif exemplaire qui fait de la pomme un équivalent de la figure humaine et de ses passions. Effrayé par les modèles féminins, il préférait ces objets détachés de leur fonction sociale, sur lesquels il pouvait projeter ses désirs. (...)

(Cézanne, Pommes sur une table, 1900)

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quinta-feira, setembro 29, 2016

Flores, apenas


Bouquet à Manet
(Manet gostava muito da sensualidade das grandes peónias)

Jarra com peónias, Manet

Tenho coisas. 

Uma é que nunca fui de ir a floristas comprar flores para jarras. Acho mal empregado arranjar flores frescas para depois as deitar fora. Mesmo receber flores frescas de presente não é coisa de que goste muito. Olho o ramo tão bonito e, cá para, mim penso: 'mal empregadas, tão bonitas, e qualquer dia vão para o lixo, é dinheiro deitado ao lixo'. Claro que escondo que penso isto. Tento então preservá-las. Depois, quando estão secas, continuo a achá-las bonitas e custa-me deitá-las fora. Só recentemente deitei fora um ramo lindíssimo que uma das minhas primas me deu há que tempos. 

Bouquet à maneira de Cézanne
(para não correr o risco de morrerem,
Cézanne fazia flores de papel que pintava.
No entanto, acabavam por ir perdendo a cor)

Duas jarras de flores, Cézanne

Mas gosto de apanhar algumas no campo e deixá-las ir secando. Alfazema, por exemplo, gosto de apanhar e também gosto de lhes juntar folhas ou flores do campo. Mas, no campo, o que não falta são flores -- pelo que, se secarem, voltam à terra, não chegam a perder-se. Mas nem no campo gosto muito de as apanhar. Acho-as mais bonitas vivas. Cortá-las só para um deleite pessoal um bocado fútil parece-me uma violência desnecessária. 

Escrevo isto e penso que, quem ler, deve achar que cá está mais uma maluquice, e da grossa. E deve ser pois gosto de ver belos arranjos florais quer ao vivo quer em fotografia. Mas, embora saiba que muita gente deve achar uma heresia, gosto ainda mais de arranjos de flores a fingir.

Bouquet à Renoir
(do género dos arranjos que Madame Renoir gostava de fazer
e que geralmente continham flores brancas)

Grande jarra de flores, Renoir

E assim é que, para colmatar esta minha pancada, nesta sala tenho ali num canto uma jarra de vidro com umas flores de pano, umas flores cor de marfim, grandes, abstractas. Numa outra, uma jarra de vidro azul, uma jarrinha pequena com um feitio incomum, tenho umas flores que são apenas umas hastes muito finas com as pontas azuis. Fica bonito, acho elegante. 

E não tem que se assistir ao seu declínio pois não são flores, são representações de flores. 

Ora bem. Estive a ver os belos arranjos outonais que aqui vos mostro e achei-os mesmo bonitos. Lá no campo, quando apanho flores, também as ponho em bules. Gosto especialmente de um bule muito antigo, de esmalte em tom lilás com o desenho de amores perfeitos lilases. Gosto de lá ter hastes de alfazema. A cor condiz, acho bonito. Estas estão em cafeteiras e as flores que compõem os arranjos podem ser vistas abaixo.

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Andar no campo, ver as cores puras das flores, sentir o seu perfume, ver as abelhas que as procuram para delas sorverem o açúcar, o mel, a secreta doçura, ouvir os pássaros atraídos pelo deleite dos tons que vibram à luz do sol, olhar a corola e os delicados órgãos que sob ela se ocultam -- esse é, para mim, o verdadeiro prazer que a companhia das flores me proporciona.
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E a propósito disto das flores, com vossa licença:


When Like the Sun de A.D. Hope, lido por Tom O'Bedlam

No vídeo, as flores são quase todas de Georgia O'Keeffe e a mulher nua reclinada é de Lev Tchistovsky

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sexta-feira, março 25, 2016

Leda
- e, com vossa licença, à laia de ovinhos da Páscoa, um link para a verdadeira história da Leda e do cisne e outro para uma derivação



Podem não acreditar mas cheguei a casa, depois de um dia tramado e, em especial, depois de uma tarde do mais arreliador que há, com aquela sensação que volta e meia tenho às sextas-feiras à noite, de só me apetecer desopilar. Terão percebido isso pelos posts que se seguem. 

Depois interrompi e preparei-me para começar um livro. O primeiro capítulo, 'A origem da obra de arte', começa assim:
'Origem' significa aqui aquilo a partir do qual e pelo qual algo é aquilo que é e como é. Àquilo que algo é, [sendo] como é, chamamos a sua essência. A origem de algo é a proveniência da sua essência.
Pensei: 'Mau'. De facto, para o meu gosto, a coisa não está a começar bem.


E lembrei-me de um colega que tive que punha toda a gente doida. Se uma pessoa simplesmente lhe pedia para mudar a posição da cadeira, era capaz de começar por nos pedir que definíssemos cadeira, depois que lhe explicássemos o objectivo da coisa e, a seguir, que lhe definíssemos prioridades. Preferíamos, claro, fazer nós a ter que o aturar com tanto preciosismo. Uma vez, estando o presidente da empresa a pedir-lhe que fizesse uma coisa qualquer, simples, o fulano virou-se para ele e disse que o pedido estava mal formulado e que o mal de tudo era não haver procedimentos actualizados e mais não sei o quê, deixando o presidente à beira de um ataque de nervos. Confessou-me ele, depois, que ficava nervoso de cada vez que falava com o tal pica-miolos, achava que o fulano era maluco e não estava certo de que não fosse dos perigosos. 

Adiante.

O facto é que, estando eu nestes pensamentos e a ganhar balanço para ultrapassar a minha resistência àquele tipo de proseado, tentando convencer-me de que, se conseguir superar a prova e ler ao menos o primeiro capítulo, me tornarei uma pessoa intelectualmente mais apta a enfrentar os desafios da vida, não é que me lembrei que, afinal, não apenas não era sexta-feira como, ainda por cima estamos em período pascal, período dado ao recolhimento e não à desbunda...?


À hora a que lerem isto já será efectivamente sexta-feira mas não é uma sexta-feira qualquer, é sexta-feira santa -- e, portanto, tenho que me esforçar por ter aqui alguma coisa mais apropriada.

Já pensei pôr aquele coro de que tanto gosto, dos crucificados dos Monty Phyton a cantarem o The Bright Side of Life, mas é muito déjà vu. Depois hesitei a propósito de um outro deles, uma caçada ao coelho, que isto da Páscoa puxa ao coelho. Mas, bolas, era um coelho maligno, assustador e, para isso, já temos a avantesma do post mais abaixo. Ocorreu-me, então, um número de burlesco a propósito de coelhinhos da páscoa. Mas, valham-me todas as santinhas, o que me apareceu foi de tal forma de bradar aos céus que, de imediato, bani a ideia.

Colocar imagens de Cristos mal encarados ou pensamentos profundos seria mais condicente com o momento mas, a sério, é coisa de que hoje não sou capaz. Já penei demais durante o dia para ter apetite para mais uma dose de sofrimento.


Por isso, fiquei aqui a patinar. E o que me ocorreu talvez o Freud ou alguma dessa rapaziada dada às correlações possa explicar. Eu não consigo. Presumo que, na realidade, não tenha mesmo nada a ver com nada. Lembrei-me, simplesmente, de um bailado em que Leda se soergue como se ressuscitasse, ou ela ou o cisne, tinha ideia de ter visto e ter achado que parecia que alguém se levantava da pedra, revivendo. Uma coisa nessa base. E encontrei o que procurava.

Numa coreografia de Kim Brandstrup, dançado por Zenaida Yanowsky e Tommy Franzen sobre o poema de Yeats lido por Fiona Shaw: Leda e o Cisne.

Só depois fui buscar imagens para 'enfeitar' o texto e que me perdoem os puristas pelas minhas heresias que eu própria reconheço que tempero fraca comida com raros condimentos. Mas se me apetece e não tenho aqui ninguém para mo proibir, porque não haveria de fazê-lo? 
Perdoem-me, pois, os que acham que intercalar pinturas destas com um texto tão desasado é de loucos. Receptiva à vossa sensibilidade, prometo voltar a fazê-lo.
Portanto, resumindo e concluindo, o bailado que aqui vos trago é muito bonito e gostava mesmo que vissem.

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Quem queira ler a verdadeira história da Leda e do seu cisne de estimação, queira, por favor, clicar aqui.

Quem queira ver umas derivações da dita que, inclusivamente, metem galinhas chocas, cliquem, então, por favor, aqui.

E volto a penitenciar-me: os puristas que, por favor, não me fustiguem. E não é por nada, é só porque não vale a pena. Reincido sempre.
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E relembro: os posts que se seguem não têm nada a ver com o espírito da época. São até muito inapropriados. Por isso, alertados que estão, não venham depois queixar-se de que foram ao engano.


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segunda-feira, outubro 26, 2015

They fuck you up, your mum and dad. They may not mean to, but they do. They fill you with the faults they had and add some extra, just for you.
- palavras de Philip Larkin.
Ou 'Os bons artistas copiam, os grandes artistas roubam'
- palavras de Picasso


Afinal na outra noite pouco deu para ler o Butcher's Crossing. Este fim de semana peguei nele e peguei também num outro, pensando ir petiscando deste segundo e, como pièce de résistance, ir degustando o primeiro. Mas as coisas (não profissionais), comigo, não costumam ser bem como as penso - quando me deito a ler, ou adormeço ou nem lá chego, metem-se outros programas. Também, verdade seja dita, não me forço a coisa nenhuma (a nível não profissional, uma vez mais). E, portanto, acabei por me ficar, e fiquei de gosto, pelos petiscos.

O livro a que me refiro é Think Like an Artist (... and lead a more creative, productive life) de Will Gompertz.

Gostando eu de ler livros sobre arte, estava curiosa sobre este; e, de facto, foi uma agradável surpresa.

Para que se tenha uma ideia sobre o que versa, traduzo o título dos seus capítulos:


A flagelação de Cristo de Piero della Francesca, 1458-60

1. Os artistas são empreendedores [com referências a Andy Warhol, Vincent van Gogh, Theaster Gates]

2. Os artistas não falham [com referências a Bridget Riley, Roy Lichtenstein, David Ogilvy]

3. Os artistas são verdadeiramente curiosos [com referências a Marina Abramovic, Gilbert & Gilbert, Caravaggio]

4. Os artistas roubam [com referências a Picasso]

5. Os artistas são cépticos [com referências a J.J. Abrams, Piero della Francesca]

Ski Jacket, Peter Doig, 1994
6. Os artistas pensam no todo e no detalhe [com referências a Luc Tuymans, Johannes Vermeer]

7. Os artistas têm um ponto de vista [com referências a Peter Doig, Rembrandt, Kerry James Marshall]

8. Os artistas são corajosos [com referências a Michelangelo, Ai Weiwei]

9. Os artistas param para pensar [com referências a David Hockney, Marcel Duchamp]

10. Todas as escolas deveriam ser escolas de arte [com referências a Bob and Robert Smith]

11. Pensamento final

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Tão interessantes são os diversos temas abordados que, a cada capítulo, me deu vontade de aqui falar sobre ele. Contudo, não dá, tenho que escolher um. E escolho o capítulo que refere que os artistas, por norma, não criam a partir do nada e aproveitam, de alguma forma, as experiências e as conquistas dos que os precederam. 

Não vou ser exaustiva pois este não é um espaço que se compadeça com tratados. Vou antes transcrever algumas citações ou mostrar alguns dos pontos sobre os quais se fala nesse capítulo 4 já que é um tema que me interessa bastante. 
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"Não há nada de novo debaixo do sol" - Eclesiastes 1:9


"Os bons artistas copiam, os grandes artistas roubam" - Picasso. 


A frase de Picasso foi roubada a Voltaire que, dois séculos antes, disse: "A originalidade não é senão uma judiciosa imitação"


"Se eu vi mais longe foi porque me ergui sobre os ombros de gigantes" - Isaac Newton


"Criatividade é saber como esconder as suas fontes" - Albert Einstein


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Como exemplo de obras inspiradas por outras, limito-me a dois ou três dos exemplos referidos no livro, justamente relativos ao Picasso dos primeiros tempos e que fizeram parte de uma exposição que deve ter sido espantosa: Becoming Picasso, e sobre a qual mostro abaixo um vídeo:

Pablo Picasso, Bailarina anã (1901)

que terá sido inspirada pela seguinte escultura de Degas (à qual Picasso deu um certo toque de flamengo):

Petite danseuse de quatorze ans; escultura de Degas, 1881
ou,

O quarto azul, Picasso, 1901

que terá sido inspirado nas Banhistas de Cézanne:


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Refere-se ainda que Steve Jobs, o co-fundador da Apple, citava Picasso naquilo de 'os bons artistas copiam, os grandes artistas roubam' antes de dizer que "Nós (na Apple) nunca tivemos qualquer vergonha em roubar grandes ideias". O New York Times refere que a Apple estimula os seus designers a depurarem as linhas e as formas, mostrando-lhes a série de 11 litografias de Picasso (1945) na qual ele parte de uma representação naturalista de um touro, evoluindo até uma representação quase abstracta.

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No domínio da literatura, fala-se na disrupção social que começa frequentemente por ser interdita para, mais tarde, se tornar admissível. O exemplo referido é o romance de D. H. Lawrence, O amante de Lady Chatterley, cuja versão integral se manteve banida no Reino Unido até 1960 devido à linguagem explícita na descrição de cenas sexuais.

Para ilustrar, em vez da transcrição de um trecho do livro, opto pela adaptação para cinema e, embora goste imenso da versão francesa, de Pascale Ferran, mostro o vídeo de anúncio da nova versão da BBC.

Lady Chatterley's Lover: Trailer


Will Gompertz diz que, aproveitando a onda de permissividade que, entretanto se formou após a autorização da versão completa de Lady Chatterley's Lover, a Philip Larkin  já lhe foi possível usar linguagem sexualmente explícita, como é o caso do seguinte poema de 1971 (cujo título, de resto, foi extraído do poema Requiem de Robert Louis Stevenson)

This Be the Verse de Philip Larkin (lido pelo próprio)
- poema do qual extraí o actualíssimo título deste post

 
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O tema é aliciante mas forço-me a atalhar porque o post já vai extenso, muito para além da conta. Contudo, como acima referi, deixo-vos ainda com um pequeno vídeo da exposição que decorreu em 2013 na The Courtauld Gallery



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Já agora, à laia de apresentação de Will Gompertz, mostro também um vídeo feito a propósito do lançamento do seu livro anterior:

What are you looking at?


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Maravilhoso o mundo da arte.
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O essencial é ser comovido, amar, ter esperança, estremecer, viver - disse Auguste Rodin (e talvez tenha razão)
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Muito gostaria ainda de receber a vossa visita no meu outro blogue, o Ginjal e Lisboa, onde hoje vou pela mão de Gastão Cruz ao som de sinos que cruzam esta noite de chuva intensa.
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Desejo-vos, meus Caros leitores, uma boa semana a começar já por esta segunda-feira.
A todos desejo sorte, saúde, amor e dinheiro para os gastos.

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quinta-feira, julho 16, 2015

A incandescência de tudo na sombra do mar


É que a pintura tem em si uma força inteiramente divina que não somente, como se diz da amizade, lhe permite tornar presentes os ausentes, mas ainda faz surgir após muitos séculos os mortos aos olhos dos vivos, de tal modo que são reconhecidos para grande prazer daqueles que olham com a maior admiração pelo artista.

Leon Battista Alberti, De pictura, II







A montanha Sainte-Victoire é o emblema da destituição do objecto. Eis um maciço que oferece, simultaneamente, a solidez de um corpo (que se mantém uno) e a realidade do tempo (que fluidifica tudo). Sainte-Victoire desaparece como objecto para reaparecer como corpo irradiante. A montanha pintada presentifica o tempo, a passagem que não se fixa a nenhuma posição, e a tela é o lugar da trepidação interna a cada forma (e a cada instante).

A tela abre -- dilata e planifica -- o instante pictural. Ela é a pele dos corpos ressurrectos, o exacto reverso de La peau de chagrin (esse outro extraordinário livro do Balzac sobre o desejo -- e que Cézanne tanto admirava). Ali, na vida, a pele não cessa de minguar na proporção inversa dos desejos realizados; aqui, na tela, a pele dos corpos excresce -- e a vida -- a vida desejante -- vai sempre além de si mesma. Na tela, uma outra vida eclode do corpo mortal.




Os devaneios da pintura,
os anelados cabelos do poema, o jorrar da música,
e também o respirar negríssimo
do medo e do desejo.

Tudo

baixo e liso como a terra e o verme,
a moleza da carne,
as ramagens que se esvaem na transparência dos rios.

Tudo

o que nos dá a ver este evangelho vivo
que reduz o homem à sua segunda natureza,
cega, insultuosa,
feita humilhação, pavor sem nome.



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As pinturas de Cézanne representam a montanha Sainte-Victoire

Os textos (em prosa) são excertos de Incandescência [Cézanne e a pintura] de Tomás Maia

O poema é Tudo de Armando Silva Carvalho in 'A sombra do mar'

Lá em cima, Angela Gheorghiu interpreta a ária "Vissi d'arte" na ópera de Puccini 'Tosca'

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No post abaixo poderão ver uma anedota sobre um alentejano.

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quinta-feira, junho 14, 2012

Eu e as galinhas chocas. Os meninos que não nascem de ovos. E, a propósito, Leda e o Cisne revisitada.


Música, por favor

Stasa Mirkovic Grujic interpreta Clair de Lune de Claude Debussy



Quando eu era pequena, com três anos talvez, morava quase ao lado da minha casa um amigo com quem eu brincava assiduamente. Por essa altura, a mãe dele estava grávida. Eu via-lhe a barriga grande e a minha mãe tinha-me explicado que era um bebé que ia nascer, coisa que achei natural.

Por essa altura, uma minha avó tinha patos que andavam à solta no campo. Uma das brincadeiras era descobrir onde tinham as patas deixados os ovos. Era uma verdadeira caça ao tesouro. Geralmente havia sempre um ovo debaixo de uma sebe que havia junto à entrada do quintal. Mas descobrir os outros era uma aventura. Não me lembro de ver nenhuma pata a chocar os ovos mas isso acontecia certamente pois, de vez em quando, havia patinhos bebés.

A minha outra avó tinha uma capoeira e todos os dias a meio da manhã eu estava autorizada a ir buscar os ovos a um pequeno compartimento pequeno e escuro, onde os adultos tinham que se baixar para entrar, compartimento esse que tinha ligação, através de uma pequena abertura em arco ao nível do chão, com o recinto vedado onde elas estavam de dia. Ia com uma cesta de verga, com muito cuidado não fosse lá estar alguma galinha a pôr um ovo nesse instante, e frequentemente tirava os ovos ainda quentes. Muitas vezes a minha avó fazia depois uma gemada, ovo batido com açúcar, uma coisa óptima que hoje recordo como se fossem ovos moles, especialmente quando ela usava apenas a gema.

Por vezes uma galinha ficava choca. Aqui tudo era visível, não era como com as patas que andavam à solta. A galinha choca não saía de cima dos ovos. Havia um outro compartimento, num outro local, junto à ‘casinha’ onde o meu avô arrumava as ferramentas e onde pendurava as résteas de cebolas ou de tomates em cacho. Nessas alturas, era para aí que a galinha que estava nesse estado interessante era levada. Havia um caixote creio que com palha, como se fosse uma cama, onde estavam os ovos e, em cima deles, ciosa e grave, estava a futura mamã. A minha avó tratava-a com muito cuidado e eu não podia fazer barulho quando lá ia. A partir de certa altura, a minha avó começava a vigiar os ovos.

Até que um dia eles começavam a aparecer partidos. A casca de fora partia-se mas tenho ideia que, por vezes a minha avó tinha que ajudar a romper a película de dentro. Depois começava a ver-se o bico do pintainho e a minha avó sempre vigiando, cuidadosa, parteira atenta. Ao fim de algum tempo já os pintainhos estavam cá fora, molhados, trémulos, e a minha avó sempre a recomendar-me que não fizesse barulho para não os assustar, levantando as cascas partidas, os vestígios do parto. Pouco tempo depois já a penugem estava seca e macia e já eles andavam debicando à volta da mãe galinha.

No dia em que nasceu a irmãzinha daquele tal meu amigo, lembro-me que ele foi deixado à guarda da minha mãe pois na casa dele ia grande azáfama. O parto deu-se em casa. Lembro-me perfeitamente de nós dois termos perguntado vezes sem conta à minha mãe se já tinha nascido e da minha mãe dizer que, quando isso acontecesse, nos vinham avisar e que, então,  logo lá iríamos ver.

Até que, finalmente, lá fomos. A minha mãe tinha-nos avisado para não fazermos barulho e eu ia com o mesmo cuidado reverente de quando ia ver a galinha choca ou os pintos recém-nascidos.

Quando lá cheguei, vi a mãe dele no quarto, na cama, e estava com um ar um pouco descomposto, a esta distância não sei bem descrever, achei qualquer coisa de diferente nela. Estava com a bebé ao lado, coisa que achei natural. Mas o que me deixou curiosa foi ver a menina já vestida e de não ver cascas de ovo nem vestígios de tal em lado nenhum. Disfarçadamente ia olhando à volta, depois, como quem não quer a coisa, debaixo da cama. Nada, nenhumas cascas. Não resisti, puxei a minha mãe de lado e quase em segredo, perguntei-lhe onde estavam. Tenho ideia que me disse que já deviam ter deitado fora. Mas qualquer coisa na expressão dela me fez perceber que não devia ser bem assim, que ali havia equívoco.

*

Até hoje, que eu saiba, apenas Polux e Helena e Castor e Climnestra nasceram de ovos mas isso foi porque Leda era danada para a brincadeira e, no mesmo dia, engravidou de um homem, o marido, e de um deus que, não contente com a excentricidade de ser um deus, ainda se disfarçou de cisne.



Leda e o Cisne (... e reparem nos meninos a sairem dos ovos) - Leonardo da Vinci

*

[Claro que a história de Leda tem muito que se lhe diga, ora se não tem, e tem variações, derivações e interpretações para todos os gostos.



Leda e o Cisne (a dúvida sobre quem seduz quem, uma dúvida envolta em azul) - Paul Cézanne


Paixões, seduções, tentações, violações, traições, ilusões, irritações, confusões, punições, aflições, e até, imagine-se, constelações – há de tudo (e, já agora: nem sempre as respectivas descrições acabam em ões, eu agora é que me está a dar para isto, sei lá por que razões ou motivações).



Leda e o Cisne (a abstracção, a euforia da cor, a luz sobre a mulher, o cisne que desce do azul para inquietar a mulher) - Henri Matisse


Mas a mim, geralmente, dá-me para as ligeirezas já que, com toda a humildade reconheço que a coisa a sério está sobretudo ao alcance dos verdadeiramente entendidos e não de mim, moça simples, do campo, que, como é sabido, sou mais dada a folgações do que a erudições.



Leda e o Cisne (a inquietação a negro, um dedo oportuno, a nudez desafiante, sem pudor) - Nikias Skapinakis


De qualquer modo, falando eu assim, que não se pense que sou contra as erudições, qual quê, nada disso, sou a favor, completamente a favor - se bem que nisto de erudições convém distinguir entre os eruditos a sério, que são uns bacanos porreirões, e os pseudo-eruditos, uns maçadores que geralmente são uns... (como estou numa de usar palavras acabadas em ões já me ia saindo que são uns... uns... - mas não desço daí abaixo, não senhor)... são uns pândegos. Pelo menos a mim divertem-me imenso - o que não admira, que eu, simples como sou, dá-me para rir, e graçolas pseudo-eruditas, então, até me levam às lágrimas...! E haja paz no universo.]



Leda e o Cisne - fotografia de Helmut Newton ( Nadja Auermann na célebre fotografia da US Vogue de Anna Wintour)


E adiante que o tempo ruge, como dizia o outro.

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Para enfeitar o texto – porque, como é sabido, também sou dada à bonecada - ousei utilizar algumas menos convencionais visões (e eu a dar com as palavras acabadas em ões…) sobre a extraordinaire história de Leda e o Cisne. Mas, ao tentar localizar estas que já conhecia, deparei com muitas mais, e algumas bem engraçadas, pelo que não estou certa de que não volte a fazer uma visitinha à Menina Ledinha.

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E, por hoje, é isto.

Gostaria ainda de vos convidar a fazer uma visita ao meu Ginjal e Lisboa.
Hoje as minhas palavras olham as águas em volta de um poema lindo, mas lindo mesmo, de Eugénio de Andrade.
A música escolhida refere-se a uma cena de casamento e, claro, ainda estamos com Wagner.

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Sinceramente vos desejo, a todos, meus Caros Leitores, uma boa sexta feira.

Be happy! Enjoy!