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segunda-feira, outubro 09, 2023

Viajar. Ler. Estar.

 


Tenho uma amiga a passear em Itália, outro anda pela Grécia, outra está na Turquia. Outras duas, separadamente, vieram há pouco dos Açores e uma pessoa da minha família próxima chegou hoje de uns dias de férias em Paris. Outro anda em Trás-os-Montes e outra, que vive fora e cá veio de férias, sei que anda por aí, por 'este nosso belo país', mas neste momento não sei por onde. 

E eu, que tanto gostava de passear e que tanto passeei, parece que me fui desabituando disso ao longo dos anos em que, por o meu pai estar mal e sempre naquele limbo em que qualquer coisa de pior poderia acontecer a cada momento, ganhei receio a afastar-me não fosse dar-se o caso de não estar por perto em caso de emergência.

Além disso, agora não há o permanente estado de quase alarme em que vivia na altura do progressivo declínio do meu pai, mas há a minha mãe que, com os seus noventa anos e a sua tendência para a ansiedade quando algum sintoma se anuncia (mesmo que ao de leve), faz com que também não me sinta confiante em afastar-me.

Como entretanto mudei de casa e adoro aqui estar, nesta minha tranquila casa que tem um jardim tão romântico e sereno, já para não falar naquele lugar tão especial a que aqui chamo heaven, e porque, por ter deixado de trabalhar, tenho agora tempo para os desfrutar, parece que deixei de sentir o apelo por me pôr a caminho.

Com tudo o que já visitei, com todas as viagens cá e lá fora que já fiz, com as fotografias que toda a gente envia de todo o lado, com os sites, com os documentários, os vídeos e tudo o mais que por aí há, parece que tenho a sensação de que já não me surpreenderei muito com o que tenho por ver, se lá estiver, ou seja, in loco

Sobretudo, sabe-me muito bem estar. Permanecer. Desfrutar. Não ter que fazer malas, estar a ir e vir. E o meu marido está na mesma. Adora o sossego. Adora poder ler ou ver televisão ou passear com o cão ou o que lhe apetecer, sem a preocupação de ter que se despachar para ir fazer outra coisa qualquer.

Talvez daqui por algum tempo, me dê uma daquelas travadinhas que me leva a querer mudar de vida e não descanse enquanto não me puser a caminho. Mas, por enquanto, sinto uma grande felicidade em estar sossegada, poder acordar tarde, caminhar por aqui perto ou ir até à praia, jardinar, regar, lavar, varrer, cozinhar, etc., ler, escrever até às tantas, ter a família reunida ao fim de semana (ou nos dias feriados), comunicar-me com amigos, por vezes estar com eles. 

Sobre livros, a minha filha queixa-se que parece que não encontra agora livros que a encantem. Frequentemente deixa-os a meio, sem paciência para esforços que sabe de antemão que não vão compensar. Eu, desde há algum tempo, também estou assim. Mesmo muitos daqueles livros altamente propagandeados ou ditos clássicos agora me parecem básicos, sem substância ou arte. Disse-me ela que, do que tinha lido ultimamente, só um lhe tinha parecido digno de realce, 'As primas' de Aurora Venturini. Por isso, comecei hoje a lê-lo. E é verdade, ela tem razão: só não foi de penalti porque se meteram outras coisas. Mas amanhã com certeza que vai. Depois digo porquê.

Ela estava a ler e acabou-o cá, hoje à tarde, 'O quarto do bebé'. Eu já o espreitei e também me pareceu demasiado plain mas ela diz que se lê bem, que não é nenhuma obra literária, que, por ser de quem é, também estava à espera de outra coisa, que é um diário e que se percebe que é autobiográfico e que, por isso, à parte os bocados em que Anabela Mota Ribeiro descreve sonhos e outras partes mais nhec-nhec, se deixa ler sem sacrifício.

Não sei se é como nas viagens. A gente já leu tanto de tudo que, às tantas, já tudo parece simplório ou dispensável.

Por acaso o meu filho no outro dia disse que estava a ler um livro e que era talvez dos melhores livros que já tinha lido. Sabendo-o também exigente, fiquei curiosa. Mas era um nome algo estranho, não fixei. Não posso esquecer-me de lhe perguntar. Só que receio que seja um daqueles livros gigantes que ele lê com facilidade mas que a mim já me custam. Parece que agora também já tendo a sentir um certo sentimento de rejeição em relação a livros muito grandes, com mais de trezentas ou quatrocentas páginas.

Enfim, cenas.

Tirando isso, é pena que o mundo não se amanse, que as pessoas não ganhem tino. O próprio planeta devia arranjar maneira de espalhar pelos ares uns pozinhos de perlimpimpim que deixassem as pessoas todas numa de peace and love.

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A fotografia é da autoria de Matt Coughlin e Eva Cassidy interpreta Autumn Leaves

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Desejo-vos uma boa semana a começar já nesta segunda-feira

Saúde. Amor. Paz.

sábado, março 18, 2023

Lucy

 

Tenho a informar que, certamente fruto da sessão de hidroginástica e da meia dúzia de braçadas de ontem, esta sexta-feira dormi até depois das onze da manhã. Nem mais. Acordei e vi as horas para avaliar se ainda era boa hora para dar meia volta e dormir mais uma ou duas horas. Onze e vinte. De penalti, desde que me deitei, às duas e pouco, até às onze e vinte. Se não tivesse visto as horas de certeza que o sono se prolongaria, o corpo pedia-me mais. Levantei-me com sono. 

De tarde, tanto era o sono, fui para o meu cadeirão reclinável, puxei uma mantinha, fechei os olhos e foi imediato, boa noite cinderela. 

Infelizmente o cadeirão está junto à janela de que o urso de guarda fez guarita. Assim, mal passa um carro ou uma pessoa ou mal o cão do lado se mexe, aí está a fera a ladrar como se não houvesse amanhã. Por isso, a sesta, se existiu, foi de minutos. 

E o dia foi completamente improdutivo. Uma ressaca a preceito como se um ontem tivesse sido um dia de excessos. Mal dá para acreditar.

Parece que continua um qualquer bicho dentro de mim a sugar-me a carga da bateria. Ando sem pilha. O olfacto e o sabor estão repostos, a tosse foi-se e só de vez em quando fico com algum pingo ou alguma sensação de estar como que a resfriar-me ou a começar a doer-me a garganta. Coisas breves, episódicas, mal vêm assim se vão. Agora esta falta de energia mantém-se. É uma estupidez sem explicação

Apesar disso, entre uma breve caminhada a meio do dia (na verdade, a seguir a ter tomado o pequeno almoço) e a do fim do dia, fiz mais de dez mil passos. Mas esta última, debaixo de vento e frio, foi feita a pensar no bem que ia saber-me a caminha daí por mais um bocado. E sinto as pálpebras pesadas como se estivesse com défice de sono. Dá para entender...? Não dá.

E o meu marido está na mesma. Continua a levantar-se cedo, mas, de dia, passa largos períodos deitado no sofá (hoje, por exemplo, a rever os penaltis do jogo de ontem e, provavelmente também a dormitar) e agora, depois de se ter deixado dormir há séculos, já foi para a cama.

Claro que não fomos ao ginásio. Constatámos o óbvio: é melhor deixarmos passar mais uns dias.

Caraças para esta falta de energia. 

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E depois do boletim clínico (sorry por abusar da vossa santíssima paciência), vamos ao que interessa. 

Lucy. 13 anos. Um talento increditável.

O cérebro humano, esse vasto universo desconhecido, é extraordinário. Dá ideia que, nos casos em que os recursos não são distribuídos como usualmente, em vez de se perderem, não: são alocados a outras zonas. 

O caso de Lucy (tal como, por exemplo, o de Kodi Lee), é ilustrativo dessa hipótese. 

Lucy também é autista -- autismo severo --, e cega. Ainda quase bebé teve que ser operada a tumores malignos nos olhos. Tem também algum atraso no seu desenvolvimento. E, no entanto, apesar de parecer viver isolada do mundo, tem um dom extraordinário. Toca piano de uma forma absoluta. Todo o seu corpo vibra. Não se consegue dizer se é ela que procura a música para se entregar ou se é a música que a procura a ela para a envolver e conduzir.

O professor de piano, Daniel Bath, descreve o peculiar e difícil método de ensino. Diz também que nunca trabalhou com ninguém tão talentoso quanto ela. Ele toca, ela reproduz. Ela engana-se, ele põe as mãos dela sobre as suas. Ela escolhe o que tocar. Ou Bach ou Chopin. Ou Debussy. Outras vezes jazz. Intercala. E improvisa. 

Vê-se e ouve-se e não se acredita. Muito comovente. 

Mika e Lang Lang, que fazem parte do júri, também se mostram surpreendidos e emocionados.

Para assistir com o coração.

Lucy 
Ao vivo no Royal Festival Hall na  final de "The Piano"


E abaixo um vídeo em que se percebe melhor

The Amber Trust  -- A história de Lucy


Um bom sábado
Saúde. Amor. Paz.

terça-feira, junho 21, 2022

Avery Dixon, o irmão mais novo de Terry Crews

 

Por vezes nem nos ocorre pensar no que sofrem os que nasceram com alguma diferença. Pode ser porque se é alto e magro demais, porque se é mais gordo do que os outros, porque se tem um cabelo que não cresce para baixo mas, antes, em caracóis que ficam agarrados à cabeça, ou porque se é estrábico, ou porque se é gago, ou porque se coxeia, ou porque se tem uma voz que não desenvolve... ou por qualquer outra coisa. Quem não passou por isso nem se lembra do que eles sofrem na escola, ridicularizados pelos colegas, atormentados com a crueldade das outras crianças. 

Sabemos que essas crianças não querem ir para a escola, ficam doentes só por antecipar a vergonha por que vão passar. Sabemos que há jovens que querem desistir, que há os que tentam o suicídio. 

Sabemos como crescem atormentados os que passaram por essa angústia quotidiana.

Nunca se fará o suficiente para que todos, crianças e adultos, aceitem e convivam normalmente com a diferença. Não será necessário fazer de conta que não se vê. Pode até comentar-se, com naturalidade. Sem superioridade. Com respeito.

Nessa pedagogia, o programa Tabu do Bruno Nogueira foi extraordinário. Ele ria mas de forma a que os próprios se rissem também. Os que são diferentes não são piores nem melhores, são apenas diferentes. E toda a gente se pode rir de si próprio ou rir dos outros e com os outros: desde que não humilhemos os que vemos como diferentes, desde que não os façamos sentir inferiores, desde que não exerçamos sistemáticas acções de bullying.

Avery Dixom nasceu prematuro, com menos de 700 gr. Tem agora 21 anos, não é muito alto, de acordo com os padrões não será especialmente bonito, tem uma voz estranha. Tem sido gozado, humilhado, quis suicidar-se.

Quando lhe perguntam o que faria se ganhasse o AGT, diz que gostava de ter um espaço para ele, a mãe e o irmão viverem e onde pudesse ensaiar. Diz que agora, quando toca, os vizinhos chamam a polícia e mandam-no parar de tocar. 

E é este jovem que, apesar de tudo por que tem passado, tem um sorriso meigo e que, quando pega no saxofone, se transforma dando-nos a conhecer um fantástico músico. Nessa altura, a sua aparência e a sua voz deixam de ser relevantes. Ele e o saxofone fundem-se e ele vibra e faz vibrar quem o ouve.

Depois da exibição no America's Got Talent, depois de pôr a sala a dançar, depois de emocionar o gigante Terry Crews que ofereceu a sua protecção de irmão mais crescido e depois do Golden Buzzer, certamente ninguém mais ousará apoucar o simpático e talentoso Avery Dixon.

Golden Buzzer: Avery Dixon's Emotional Audition Moves Terry Crews to Tears | AGT 2022

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Um dia bom

Saúde. Generosidade. Tolerância. Paz.

domingo, junho 12, 2022

Um sábado com saborzinho a domingo


Dia bom, tranquilo. Tinha pedido para não me acordarem mas nasci para sofrer e esta de não me deixarem dormir é cruz que parece que nasceu pregada às minhas costas: às oito e picos já eu estava a ser incomodada com um barulho estranho aos pés da cama. Era o urso com um ténis do dono, balouçando-o pelos atacadores, fazendo um chinfrim. O meu marido tinha saído do quarto e deixado a porta aberta e, claro está, o abusador-mor não perde uma oportunidade para ver o que pode fazer  de interdito. Ainda tentei dormir mas já não deu.

Fomos às compras ao centro comercial. Não quis ir sozinha e, está bom de ver, tive que vencer uma grande resistência. Tudo lhe serviu de desculpa. A última agora é: 'Coitado do cão, tem que ficar sozinho'. Sim, sim. Mas lá veio. Centros comerciais para o meu marido é quase tortura e ir para um ao fim de semana para ele é sinónimo de bater no fundo. Mas com este calor, animou-o a perspectiva de toda a gente ter ido para a praia e aquilo estar deserto. Mal entrou no parque de estacionamento e o viu cheio, ficou logo com vontade de dar meia volta. Convenci-o a ir para um piso mais abaixo pois já sei do que a casa gasta: se tem que dar algumas voltas para descobrir um lugar, fica logo mal disposto e, a partir daí, a coisa tem tudo para correr mal ou seja, ainda não entrou e já está deserto para se vir embora..

Curiosamente, por sua alta recriação, lembrou-se de aproveitar a ocasião para comprar uns jeans. Aqueles com que mais anda estão velhos, largos, já sem ponta por onde se pegue. Por mais que eu lhe diga que vista outras calças, diz que se sente bem com eles. Lavam-se e vestem-se, lavam-se e vestem-se. Só ainda não se desfizeram porque a ganga deve ser de boa qualidade. Mas estão coçados que só visto. Não gosta de sentir a roupa justa pelo que não adere às modelos fit nem por mais uma. Na loja pegou numas, tradicionais na cor e no corte, foi ao provador e dali para a caixa. Não experimentou outros modelos nem outros tamanhos. Mas pronto, vá lá, aleluia, pelo menos comprou uns jeans.

É tão raro ir agora ao shopping que tenho sempre vontade de dar um giro a ver em que param as modas. Mas o meu marido é a antítese do consumidor ideal. O nosso propósito era um e não admite um milímetro de desvio. Claro que eu poderia ter ido à revelia mas como continuo em processo de rehab, também não insisto. Continuo a achar que não tenho falta de nada. 
[Contudo, no outro dia, por acaso cedi à tentação. Num dos dias em que fomos para o campo depois do trabalho, fomos buscar o jantar a um restaurante e, entre o escolhermos e o irmos buscar, demos uma volta por ali. E, então, vi uma loja de roupas gigante. Uma loja chinesa, como é bom de ver. Já passava das oito e eles abertos. Claro que o meu marido se passa 'Dizes que não tens falta de nada mas nem a um chinês resistes.' Não quis saber, fui dar uma circulada. E vi umas blusinhas bonitas e uns calções brancos a bom preço (uso imenso calções brancos e estou sempre a precisar, pois quero ter no campo e aqui em casa, e já se sabe que coisas brancas se sujam bastante; ou melhor, mal se sujam, nota-se logo). Uma das blusinhas, em florzinhas azuis, muito fresca e bonita, tinha umas cavas largas demais. Trouxe na mesma e pedi à minha mãe para ver se podia ajustar debaixo dos braços. Fartou-se de protestar. 'Mau corte, fazem tudo mal feito, descose-se para arranjar e depois é uma chatice porque as costuras e os pespontos parece que são feitos de outra maneira, é difícil bater certo'. Pedi que não complicasse, que cortasse e refizesse a costura. Diz que ela é que sabe, que não gosta de fazer 'albardices' e, que, se lhe peço para arranjar, é para ficar bem arranjado. Pronto, ok.]

Mas, tirando isso, é abstinência. Não preciso mesmo de mais nada. 

Mas a tentação ainda chama por mim. Por exemplo, a perfumaria. Olhei e vi um cartaz com promoções. A vontade de lá entrar e estar a experimentar perfumes só eu sei. Por acaso, numa das lojas, ao pagarmos, tinham testers de perfumes da marca da casa junto à caixa. Pulverizei um braço e um bocado do vestido apesar de ser perfume de homem. Foi mais forte que eu. Quando entrámos no carro, o meu marido admirou-se: 'A que é que cheira? Não me digas que puseste perfume?'. Pois foi. 

A seguir ao almoço, reclinei-me no sofá e pus-me a ver uma série na Netflix. Gosto de séries e filmes escandinavos. Chateia-me é ter que estar a ler as legendas porque não pesco uma palavra. Mas, enfim, é o que é. A verdade é que gosto bastante. Aqui não há muito tempo, num fim de semana, vi o Toscana. Agora estou a ver Dois Verões. Não há cenas às escuras em que a gente não vê metade, não há tiros nem perseguições, não há macacadas parvas. Há luz, boas interpretações, histórias simples mas bem urdidas. É do que ando precisada. Não me apetece puxar pela cabeça nem pela visão.

De tarde, tivemos cá meia trupe, como sempre bem dispostos e ruidosos. A outra metade andava pelos santos, a petiscar e a flanar. Íamos recebendo fotografias deles, verdadeiros turistas, ora de trotineta ora nos comes. Lisboa sempre bela e animada, acolhedora para quem a quiser viver.

Às tantas, por cá, eu estava a fazer uma coisa que o meu dog guard deve ter interpretado como se eu me estivesse a colocar em risco. Então, tentou impedir-me. Tentou agarrar-me, encavalitou-se em mim a bater castanholas com os dentes, coisa que eu acho que ele usa como manobra intimidatória. Eu dizia-lhe: 'Que estupidez é essa? Aiii!!!! Quieto!!!!' coisa que agora já costuma resultar mas que, no caso, não surtiu efeito. Então, nesta manobra, cheguei-me para trás sem ver que um dos meninos estava atrás de mim. Ou seja, caí por cima dele. Levantámo-nos todos a rir com o moche que a avozinha fez ao netinho. Claro que, com todos estes reboliços, a pequena fera fica meio desatinada. 

Nestas alturas, o meu marido retira-se. Creio que vem deitar-se no sofá da sala, não sei se a ver futebol se a dormitar. Hoje, o mais velho, quando se estava a despedir, disse que o avô tem cenário ou que tem estilo, qualquer coisa do género. Ficou admirado. O mais novo confirmou, pelos vistos também acha. Sendo de poucas palavras e zero gestos de carinho, a verdade é que os netos gostam mesmo dele. Achei graça. 

Jantámos na rua. Não tive que fazer nada, apenas compor uma salada. Foram os restos da churrascada da véspera. O terraço com o jasmim e as buganvílias em flor, a noite quente de um dia grande, o lusco-fusco já com as luzinhas solares, fica um cantinho acolhedor. Gosto de luzinhas, grinaldas com luzinhas. Arranjei umas bolas brancas muito simples. Fica bonito. 

E, pronto, nada mais a reportar. Não vi televisão, não sei de notícias, não li, não fotografei, não cozinhei. Por isso, hoje não passa disto, cenas desta minha simples vidinha.


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Numa tentativa de vos oferecer qualquer coisa para que a passagem por aqui não seja completamente dada por perdida, eis um vídeo em que um assistente de bordo ilustra as instruções de segurança a bordo de forma assaz criativa e bem disposta. 


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Pinturas de Alma Thomas ao som de Água de Beber, de António Carlos Jobim, pelo Stringspace

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Desejo-vos um bom dia de domingo
Saúde. Ânimo. Paz

sexta-feira, maio 27, 2022

Uma casa no campo, uma casa na cidade

 



Se seguirmos um blog com regularidade, acabaremos por reconhecer um padrão. Há quem fale com arrogância moral, colocando-se num plano de superioridade a partir do qual tudo o que alcançam são seres menores a cometerem actos vulgares, mesquinhos. Há quem use palavras raras para contar histórias de mulheres carentes ou ardentes que acabam por ceder aos desejos caprichosos do autor. Há quem se martirize com os próprios defeitos queixando-se das suas tendências auto-destrutivas. Há quem romantize a vida, os sonhos, a luz, e, em palavras ou em riscos, consiga traduzir sentimentos com uma precisão e contenção ímpares. 

Não sei como me vê quem por aqui me acompanha mas sei que há um padrão: o sono, a escrita sob o efeito do sono. 

Um dia vou aprender a escrever durante o dia, quando estou bem acordada. Agora não consigo pois só tenho tempo à noite. Mas, mesmo quando tenho tempo durante o dia, parece que todas as outras tarefas são prioritárias em relação a esta. Sinto que tenho que varrer, fazer o almoço, arrumar papéis, fazer pagamentos, ir às compras. E, mesmo nesses dias, só à noite, quando nada mais há para fazer e quando estou demasiado cansada para fazer qualquer outra coisa, é que me ponho aqui a escrever. E, no entanto, mesmo quando me custa manter os olhos acordados e pouco ou nada tenho para dizer, aqui estou.

Os dias têm andado madrugadores. Parece que os astros se andam a desalinhar pois para juntar o punhado de gente que deve tratar de alguns assuntos parece que as únicas horas possíveis são à hora em que as galinhas abrem os olhos. O défice de sono vai-se acumulando e eu anseio por pôr o descanso em dia. 

Hoje a meio do dia, lavei umas almofadas e coloquei os 'recheios' dentro da forra de outras que tinha lavado. Também reguei uns vasos. E lavei à mão uma blusinha sensível que não quero lavar na máquina. Com o sol e calor que estava secou num instante.

Ao fim da tarde, quase a noitar, antes de fecharmos as janelas, fui apanhar nêsperas com o pau que tem um gancho na ponta. Comi algumas ao jantar. Boas.

Com esse gancho a ver se esta sexta-feira arranjo tempo para puxar umas guias de glicínia que estão a invadir o quintal da vizinha. 

Sinto muita vontade de ter tempo para fazer coisas assim sem ser a correr.

Também tenho vontade de ir comprar uma grinalda de luzinhas solares para colocar aqui no jardim, no pátio onde costumamos juntar-nos. Mas gostava de ir com tempo para poder ver o que há e escolher com calma. E também gostava de ter tempo para poder dar bondex no banco de madeira que pusemos no jardim, à frente. 

Mas, em vez disso, uso o meu tempo a ver ebitdas, a pedir explicações sobre margens e afins. E o pior é quando aqueles a quem peço explicações, em vez de irem direito ao assunto e despacharem a resposta em três tempos, resolvem justificar tudo muito justificado, uma minúcia que quase me faz ficar com falta de ar, uma argumentação que quase me dá vontade de inventar uma desculpa e pirar-me a sete pés.

Enfim. Cada um é para o que nasce e, para além disso, todos temos uma cruz para carregar.

Portanto, com tudo isto, quando aqui me vejo, quero saber se alguém já internou o Putin (tenho ouvido dizer por aí que é assim que o seu destino se vai cumprir) ou se já acabou o julgamento que opõe Johnny Depp à Amber Heard (coisa com mais destaque do que pandemia, guerra ou degelo) ou, ainda, para ver em que param as modas, nomeadamente o que andam a vestir as socialites que embelezaram a passadeira vermelha de Cannes. Neste particular vi que o que está a dar é a transparência, tudo a ver-se por debaixo. Só ainda não percebi se se aplica a toda a gente, de qualquer idade e qualquer elegância, ou se apenas se aplica a jovens esculturais. Mas essa dúvida fica em stand by. Não estou com cabeça para temas metafísicos.

Vou escolher algumas das fotografias que fiz no outro dia in heaven para polvilhar este texto. Faz de conta que estou a polvilhar o meu kefir matinal com canela. 

Reparem nestes little figuinhos. Agora estão assim, inocentes, infantes. Não tarda estarão tentadores, doces, carnudos. E sobre estes milagres é que os intelectuais deveriam escrever  tratados. Transcendência maior não pode haver. Digo eu.

Bem. Hoje não dá para mais que isto. Só se for decorações. Gosto muito de ver casas. Partilho convosco o vídeo com a simpática Alexandra Tolstoy (de quem já aqui falei, ex de um oligarca próximo de Putin) na sua casa de campo que é toda muito cottage, muito british mas que depois tem um recanto muito seu, muito russo.

Love your home x Alexandra Tolstoy

E agora em Chelsea, uma casinha à maneira. Muito agradável.

The Home of Alexandra Tolstoy Created With Colefax & Fowler Design Firm | Christie's

‘This house is a family home,’ says Alexandra Tolstoy of the beautiful six-bedroom Chelsea residence she converted from two adjacent artists’ studios. ‘I wanted it to be really comfortable — not to be stilted and too formal.
‘Everything we’ve got I feel is in its own right very unusual and special.’

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E tenham um dia bom

quinta-feira, março 31, 2022

Flores num local de paz em tempo de guerra.
E viver na selva e fingir que se vive numa boa casa

 


Hoje não consegui caminhar ao fim da tarde. Cheguei a casa quase de noite. Quando estacionei, vi o meu marido a vir com a feríssima pela trela. Quando se aproximaram e ele percebeu que era eu que estava a sair do carro, ficou fora de si, tal a alegria (quando digo 'ele', refiro-me à feríssima). Fez peões no ar, saltos quase com flic flac à rectaguarda, uma alegria borbulhante. O meu marido, incapaz de competir, apressou-nos: 'Vá, já chega". Depois, já no jardim, por uns instantes sentou-se a olhar para mim e via-se que sorria, os dentões todos à vista mas com o semblante aberto e feliz (continuo a referir-me à feríssima). Mas foi mesmo apenas uns segundos pois, de imediato, se pôs ao alto para que eu o abraçasse. Abracei-o, fiz-lhe festinhas, disse-lhe palavrinhas fofas. Um amigo exuberante.

Eu vinha com a cabeça feita em água e vou precisar de dormir e do dia de amanhã para ver se me ocorre como processar tudo o que vi e ouvi. 

Na parte da manhã tinha tido reuniões e, ainda por cima, estava cheia de sono. De manhã, ou melhor, praticamente de madrugada, estava ainda a dormir, senti-o a tapar-me melhor (e agora, sim, estou a falar do meu marido). Eu, de noite, abro o vidro pois gosto de sentir o frio nocturno e ele, quando se levanta e me vê meio destapada, acha sempre que estou com frio. Ou melhor, dá essa desculpa. Só que, ao tapar-me e ajeitar a roupa, acorda-me. Já lhe disse mil vezes que, se faz aquilo para ter a certeza que estou viva, não faça. Se estiver morta, mais hora menos hora, não faz diferença. Por isso, deixe-me dormir. Ri-se e diz para eu me deixar de disparates. Desde que me aconteceu aquilo do coração, acho que gosta de se certificar de que estou viva. O pior é que acordei quase duas horas antes da hora. E se há coisa que me deixa em défice durante todo o dia é privarem-me das minhas preciosas horas de sono. Ele desculpa-se: tapo-te quase todos os dias e uns dias acordas e outros não. Como se a culpa ainda fosse minha. Zango-me. Não me mexas, deixa-me dormir destapada ou como me apetecer. Mas tenho a sensação que continuará a fazer o mesmo. 

Portanto, o dia começou assim e a coisa foi em crescendo. Mas valeu que, para jantar, só tive que me sentar pois, desde a confecção ao serviço, tudo correu por conta dele (e, claro, não me refiro à feríssima).

Quanto ao que aconteceu no mundo durante o dia, não consegui aprofundar. Passei por alto pelas notícias e fiquei sem certezas. Começa a ser claro que o grande czar tem patas de barro e orelhas de burro. Mas, psicopata como é, até se estatelar no chão, vai continuar a mentir, a agredir, a matar, a destruir.

Como sempre, depois das notícias escritas, sigo para o Youtube. Abaixo já partilhei a rábula do Hitler que mete o neo-Hitler à mistura e agora, num outro comprimento de onda, partilho dois vídeos muito tocantes embora em sentidos opostos.

No primeiro, Iryna, que fugiu da Ucrânia com a família, está abrigada num mosteiro. Vive em paz, sorri. Apesar dos horrores de que fugiu e das saudades e preocupações pelos que lá ficaram, agora sente-se tranquila. Vê as flores que despontam nos campos. Sente-se acolhida e protegida. Para trás deixou tudo, mas aqui está confortável, segura. 

No segundo vídeo, uma outra realidade, uma já bem conhecida. A cor da pele é outra mas não estou certa de que isso seja determinante. Talvez a questão da baixa escolaridade que mais pese. Mas não sei. Neste caso, ao contrário do primeiro, a maioria dos que deixaram tudo para trás é masculina. Aqui onde estão e no lugar para onde querem ir não são bem acolhidos. Trazem sonhos de uma vida melhor e, ao contrário do que acontece com os ucranianos que pensam vir por pouco tempo para voltarem logo que regresse a paz, neste caso penso que quererão fazer vida por cá. Sabem que de onde vêem não terão muitas oportunidades para concretizarem os seus sonhos. Estão em França a tentar chegar ao Reino Unido. As condições em que vivem são mais do que precárias. Tudo muito triste -- e ainda mais quando o jovem conta as dificuldades em tentar iludir a mãe para que ela não perceba as condições em que vive. Clandestinos, indesejados, perseguidos e maltratados.

São duas faces de uma realidade que é dura para quem tem a pouca sorte de se ver no lado traiçoeiro da vida.

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Ukrainian refugees shelter with monks in Romanian monastery - BBC News

Ukrainian refugees have found shelter living amongst monks at a Romanian monastery, until one day they can return home to their country.

Iryna and her family, who are staying the Carpathian monastery in north-east Romania after fleeing from Kharkiv, said they have settled into life there.

“Only here, at the monastery, I stopped hating. Last Sunday, I even prayed for Putin,” said Iryna.

Almost four million refugees have fled Ukraine so far following Russia’s invasion of the country.

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Life as a refugee in Calais: 'the Ukraine war is a wake-up call'

After the Ukraine invasion, hundreds of people found themselves stranded in Calais as they tried to navigate the UK visa process.

It put a spotlight on the city where many young refugees have been living outside all winter in harsh conditions, while NGOs struggled to provide the most basic services. The UK has given millions of pounds to France to try to prevent border crossings but people continue to attempt to get to Britain.  Meanwhile, the residents of Calais complain of an increasingly militarised city. 
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Pinturas de Igor Nekraha na companhia de Ganna Gryniva - Ukrainian Ethnic Jazz Ensemble

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E tenham um dia tão bom quanto possível
Saúde. Afecto. Boa sorte. Paz.

segunda-feira, janeiro 18, 2021

Um pouco menos de dinheiro na família e tê-los-iam internado a todos

 



Devo dizer que as notícias da pandemia são péssimas mas não me deixam admirada. Quando a curva avança empinada -- leia-se: aos pinotes -- há que ter-lhe respeito. Facilmente a gaja fica desencabrestada, difícil de a pôr com dono. Isto é matemática mas a matemática é temperada pelas circunstâncias. Quando as circunstâncias fazem de mortas, uma pandemia é matemática pura e aí, santa paciência, qualquer previsão só traz más notícias. 

Ora falou-se na 1ª onda, na 2ª e agora na 3ª como se o vírus tivesse comportamentos diferentes. Não. A menos que deixe de ser um vírus para passar a ser um vírus mais uns quantos clones não exactamente iguais, e aí a coisa piora, o pensar-se que há ondas só revela o mau entendimento que as pessoas têm disto. De cada vez que há maior exposição ao contágio, a curva sobe. Se se refrear, ela desce. Ou seja, o que muda é o comportamento das pessoas. Mas não se pode esperar grande coisa do comportamento das pessoas quando sabemos que parte da população não sabe informar-se, bebe das redes sociais e de uns e outros, e outra parte raciocina com as patas. Portanto, quem tem que conduzir o rebanho em que parte são asnos, parte são carneiros, parte são galinhas, parte são onças e apenas uma minoria é gente que sabe ler e escrever, é o governo. E, sendo o caso um caso grave, há que dirigir o rebanho com mão pesada. 

Em Março e Abril conteve-se a coisa pois estava com valores baixos e pôs-se maioritariamente a malta em casa. Na prática, o Governo quebrou as cadeias de transmissão. Depois veio o pré-verão e o verão. Quando o tempo está bom, a malta junta-se mais ao ar livre, nas praias, em picnics, em caminhadas, em esplanadas, em espaços fechados as janelas estão abertas -- e aí o corona está diluído no infinito e, portanto, as probabilidades de contágios são diminutas. A partir do momento em que se manda regressar a malta às lojas e escritórios, às escolas, e à medida que se fecham as janelas porque está frio e chuva, branco é, galinha o pôs: a curva volta a subir. E à medida que escasseiam as campanhas de sensibilização, a malta convence-se que o bicho neles não pega, que só as meninas é que têm medo, que homem que é macho não quer cá saber da máscara para nada, ou malta que é amiga confia uma na outra, não quer cá a desconfiança das máscaras... e depois a malta farta-se da monotonia de sempre covid, covid, covid, e quer é voltar a curtir, e bora mas é beber um cafézinho ou um copo, e bora mas é beber uma meia de leite quentinha e pôr a conversa em dia, e bora lá almoçar uns com os outros... e, quando se dá por ela estamos como estamos: não há camas nos hospitais, não há ambulâncias, não há médicos nem enfermeiros... e doentes com mais de oitenta pois, coitados, azarinho... E os doentes não-covid que aguentem mais um bocadinho que agora a gente não tem tempo para frescuras mesmo que as frescuras sejam coisas bem graves.

Por isso, a coisa basicamente entregue à consciência e ao entendimento de cada um dá nisto. Ou seja, o aumento que se desenhou em Setembro e a ligeireza com que se encarou a coisa, só podia dar nisto. Lembro-me que, por esses dias, recebi um mail de um Leitor a dizer-me para não me preocupar tanto. Pois, pois.

Além disso, há isto de parecer não querer ver o óbvio: espaços fechados, sem ventilação regular e sem um caudal adequado de ar fresco, é uma ratoeira, é só até aparecer alguém infectado. Quem respirar esse ar, fica infectado (a menos que seja daqueles sortudos em quem a bala faz ricochete). Não haverá lar de idosos, escritório, sala de fábrica, clínica, loja sem porta aberta para a rua ou o que seja que não tenha as janelas sempre abertas ou um ar condicionado que retire ar respirado e injecte ar novo que, mais cedo ou mais tarde, não atire com a malta toda para casa (ou para o hospital; isto, claro, quando não para o lado de lá, o lado do já foste).

Solução? Travão às quatro rodas à força toda. Partir as pernas às cadeias de transmissão que estão por todo o lado, descontroladas. Fiscalização à séria. E comunicação com fartura. Formação, explicação, ilustração.

Vou dar um exemplo. A minha mãe preparava-se para ir hoje fazer dois exames de rotina. Não há qualquer suspeita de nada, é mera rotina. Quando lhe disse que me parecia opção arriscada, ficou toda incomodada. Iria e viria de táxi, estaria de máscara, disse-me ela. Respondi-lhe: uma clínica fechada com ar condicionado que sabe-se lá como funciona. Um táxi em que sabe-se lá quem lá andou antes. Disse-lhe que a opção teria que ser dela, conhecendo os riscos de cada situação mas que os dados de como isto é são públicos. Suspirou, aborrecida. Apetece-lhe cirandar, está farta de estar fechada em casa, sem programas. Ia à clínica, aproveitava para ir aqui e ali. Perguntei-lhe se não tem visto os noticiários. Ontem à noite lá me disse que ia desmarcar. Que, se calhar, ia marcar lá para o início de fevereiro. Disse-lhe que não está a ver bem. Até ao fim de janeiro vai ser uma desgraça pegada. Fevereiro é para ver se se achata a bandida da curva. Quanto muito, talvez lá para Março e é se tudo correr bem e se o tempo ajudar. Suspirou. Percebo-a. Fala-me de uma amiga que vai todos os dias passear à Baixa, buscar o almoço a um restaurante, diz que ela vai e vem de autocarro e que nada lhe acontece. Pois, não sei. Talvez seja daquelas pessoas que é geneticamente imune. Ou tem tido sorte e um dia destes terá uma má surpresa. Mas é isto. A minha mãe já quase nos noventa, a amiga com noventa e tais. A minha mãe tem medo, critica os abusos, mas depois, quando é para ela, acha que passará sempre ao lado do perigo. E acredito que o que se passa com ela e com a amiga passa-se com muito mais gente. Um misto de saturação, de vontade de aproveitar melhor o tempo, uma esperança de que com elas não aconteça nada, uma coisa já na base do 'que se lixe'.

Enfim. 

Quanto ao meu dia, normal. Nada de culinárias a reportar, foi o básico: bacalhau com todos -- batata normal, batata doce, cenoura, cebola, feijão verde, ovo e grão. 

Ao jantar, comi iogurte, laranja em calda, dióspiro, queijo. Uma espécie de dieta.

E durante a tarde estive um pouco ao sol. E a ler os poemas da Hélia Correia, do livro Acidentes. Alguns agradam-me bastante.

Por exemplo este excerto de Poiêtikê dedicado a Maria de Sousa e a Anabela:

E ela quer saber exactamente onde está o poema,
quer tocar
no nervo do poema, sem que exista 
frieza ou impiedade,
sem que exista
golpe de bisturi.
Porque é um toque de delicadeza,
a materna leveza que há nos dedos
de quem levanta uma raiz, tremendo
com tudo o que há ali de irreparável,
de precioso, de finito, como o verso,
com tudo o que ali há de 
desumano,
enquanto algo de fino,
de espantoso na sua vibração,
atinge o peito
e deixa as criaturas que nós somos
sob o encantamento do que ignoram

Está a começar mais uma semana. Passam uma a seguir à outra, sem história. É isto. Parece que vivo num compasso de espera. Tem que ser mas é uma mudança tão grande na minha vida. Nem sei se voltarei a ser capaz de viver como vivia antes. 

Aliás é das grandes curiosidades: como vai ser a nossa vida quando esta treta estiver controlada? 

E como vão suportar a angústia as pessoas que estão sem trabalho, sem rendimentos, sem perspectivas? 

E cá estou eu, uma vez mais, em volta disto, nesta conversa chata, meio desalentada... Bem posso enfeitar o texto com flores dentro de bolas de vidro que, nem assim, a conversa vai soar animada. Ai...

O que me vale é que abro o youtube e o meu amigo algoritmo sabe o que há-de fazer para me animar. Só pode ser bicha. Já contei que alguns dos meus amigos mais dilectos são bichas ou abichanados...? São empáticos, simpáticos, cuidadosos, atentos, conversadores. Uns queridos. 

Desta vez, um pequeno vídeo delicioso do Chaplin. Vejo-o e esqueço-me de agruras, sorrio.

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O título deste post não terá muito a ver com o conteúdo (mas porque haveria de ter...?): é a parte final do poema Otherwise que Hélia Correia dedica a Lucinda Canelas.

O poema termina assim:

(...)
Eva, Penélope,
mulheres com um tal excesso de beleza
que isso as tornava intransigentes e as punha
a salvo de ternuras comezinhas,
atacando o trabalho de tear
não por fidelidade, como a outra,
mas numa guerra à Belle Époque e ao século
que estava a começar.
Um pouco menos de dinheiro na família
e tê-los-iam internado a todos

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Uma boa semana, a começar já por esta segunda-feira
Saúde.

sexta-feira, setembro 11, 2020

¿Quién los ve andar por la ciudad si todos están ciegos ?





Passei quase todo o dia na rua, debaixo do alpendre. Vesti uma blusinha de alças, desencantei uns calções curtinhos e, descalça, estive a trabalhar. Quando tive reuniões, vesti uma blusa de manga curta por cima do top. Pus uns brincos, passei um gloss nos lábios. Da cintura para cima fiquei decente, com sorte até executiva. No resto, fiquei como estava (ie, como sou). 


Ao fim do dia, reguei. Descalça, os pés sentindo a relva morna, macia, molhada. Depois, reclinei-me na espreguiçadeira. Descobri um recanto na relva, perto do alpendre, em que a privacidade é total. Isso agradou-me muito. Estive a apanhar o restinho de sol e a ler. Quando o sol se pôs, ficou frio de repente. Vim para casa a pensar que teria que vestir outra coisa. Depois de andar há que tempos vestida à fresca parece que já nem sei bem o que hei-de vestir por casa. Felizmente, a casa é bem isolada, não estava fria. E ainda estou vestida como estava.

Durante o dia passaram-se várias coisas mas digno de destaque, que me lembre, nada. Só as guerras do costume. Mas alguma coisa em mim parece ter-se distanciado de tudo o que me parece disparatado ou inútil. 


Durante uma das reuniões, estava a ver que um se mostrava desligado, desinteressado. Tem outras ideias, outras ambições. Quando me pareceu oportuno, dirigi-me a ele, pedi que expressasse objectivamente qual a sua ideia. Entrou em contradições, não disse coisa com coisa. Há pessoas que simplesmente são do contra, mesmo que não tenham melhor alternativa. Ou que, alimentando sonhos de ávida ambição, não conseguem esconder a frustração se alguém lhes cerceia o caminho. Sinto alguma impaciência para lidar com pessoas assim mas, ao mesmo tempo, alguma pena. São pessoas que tendem a entusiasmar-se muito com as expectativas que criam para, pouco depois, caírem no maior desalento. São pessoas emocionalmente instáveis que, geralmente, contribuem para aumentar os problemas, não para resolvê-los. Mas não o percebem pelo que, em cima de tudo, se sentem injustiçados, acham sempre que, se fossem eles, fariam tudo bem e que, inexplicavelmente, os outros não entregam o destino das coisas nas suas mãos. Não há pachorra. Mas, fazer o quê?, tenho que desencantá-la. O que me vale é que, mal acaba a reunião, me desligo.

Como tinha dito, voltei ao Narciso e Goldmund. Reclinada ao sol, foi com prazer que estive a ler a bela escrita de Hermann Hesse. Até dobrei a ponta de uma folha para hoje aqui a transcrever. Mas ao fim do dia, o meu marido, ao chegar a casa, resolveu convencer-me a ir ao supermercado, que seria a melhor hora, o supermercado vazio, etc. Não fazia parte dos meus planos mas lá fui. Claro que, com este enxerto, o meu programa de festas acabou por dar para tarde. Não conhecia ainda bem aquele supermercado. Hoje consegui vê-lo com mais calma. Gostei. Tem bons pães e isso para mim é um factor de diferenciação. E tem boa fruta.


Chegámos tarde a casa. Como comprámos muita coisa, a seguir foi aquele protocolo de lavar tudo, de deitar embalagens fora, de pôr coisas em quarentena, uma coisa que cansa e maça e desgasta. Como vamos aguentar isto por mais uns meses? Raios partam o merdinhas do corona. Para esse é que já não há mesmo pachorra nenhuma.

Resultado: agora não dou com o livro e já é tarde para, a esta linda hora, ainda ir desencadear uma caça ao tesouro. Na volta, ainda ficou lá fora. Gostava de aqui ter, para partilhar convosco, algumas das belas palavras que, ao fim do dia, dentro de mim, fizeram companhia ao canto dos pássaros. Parece que as coisas só são verdadeiramente boas quando as partilhamos, não é? Eu, pelo menos, quando gosto de alguma coisa, gosto que outros possam degustar aquilo que me parece pitéu bom demais para uma única boca.

Como não tenho, vou em busca de palavras ditas que me soem bem. Podem aqui parecer deslocadas mas será mera aparência. É que podia não ter escrito nada -- porque nada de relevante disse -- e ter apenas partilhado o Los amantes de Cortázar por ele mesmo (poema de que extraí o título deste post) ou as curiosas fotografias de Boris Mikhailov ou a Melody Gardot a interpretar o Love me like a river does. E teria sido suficiente. Tudo sem muito a ver umas coisas com as outras tirando o facto de eu gostar de qualquer delas.

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Desejo-vos um dia feliz.

quinta-feira, setembro 10, 2020

Traz-me a verde eternidade, não prodígios




Como estou em silêncio sob o alpendre, trabalhando sozinha e rodeada de buganvílias em flor, não incomodo os pássaros. Andam por ali em total liberdade. De vez em quando ouço barulhos quase estranhos que me levam a levantar-me, em silêncio, e ir tentar descobrir. Vem das árvores. Numa das vezes, um pássaro levantou-se, precipitadamente. Parecia que ouvia bater, uma pancada seca e repetida no chão e, afinal, era um pássaro. Se calhar terei que arranjar uns binóculos para tentar aprender a sua actividade.

Fui até lá ao fundo. As bananas estavam maduras. São muito estranhas, nunca vi bananas assim. O meu marido dizia que deviam ser bananas-pão, que não se comiam cruas. Apalpei-as, vi que estavam amolecidas. Como estava sem ter quem me refreasse, arrisquei. Doce, doce, doce. Um pudim macio. Apanhei as outras três. Já comi outra. O meu marido, desconfiado, não quis. Não sabe o que perde.

Coloquei num vaso o caroço de uma pêra-abacate que a minha mãe me deu. A ver se desponta. Se rebentar, transplanto-o e coloco na terra. A minha mãe diz que a vizinha tem uma no quintal e que cresce muito e dá abacates que é um gosto. Gosto de abacate macia misturada com kefir, canela, cajus, arandos, um fio de mel. No outro dia, a minha filha trouxe-me um boião com pólen de abelhas, em grão. Agora misturo-o no kefir da manhã e aquele crocante dá uma graça suplementar à papinha fresca e gostosa com que começo o dia.

Ao fim da tarde, voltámos a ir fazer uma caminhada na praia. O mar estava tranquilíssimo. A brisa mais do que fresca estava perfumada, uma maresia doce, dourada, serena. Andavam pequenos gaivotinhos a brincar na rebentação tranquila da água. Tinha levado a máquina mas sem cartão, não consegui registar o momento. A ver se amanhã conseguimos lá voltar.

De regresso, vim regar a zona da relva a que os jactos da rega automática não chegam. Tem que se arranjar aqueles aspersores. Mas gosto de regar. Reguei também os vasos. O meu marido foi regar a horta. 

Para o jantar fiz lombos de salmão, que é coisa rápida e fácil de fazer.

Fiz assim: fui apanhar duas grandes goiabas.
(A anterior proprietária disse que eram goiabas. Continuo a achar que são marmelos. Grandes, mal cabem numa mão)
Num tabuleiro coloquei azeite, uma cebola às rodelas, os marmelos às fatias, dois tomates em metades e, por cima, os lombos de salmão. Temperei com sal. Reguei com azeite. Antes tinha aquecido o forno. Quanto o tabuleiro entrou, baixei para os 180º. Ao mesmo tempo pus no fogão, a cozer, feijão verde, batata normal e batata doce cor-de-laranja. Quando estavam cozidos, deixei ficar o feijão verde para o comermos assim mas juntei as batatas ao tabuleiro, temperei tudo com um pouco de orégãos e reguei com outro fio de azeite.

Quando tudo estava dourado e um cheirinho saboroso tinha invadido a cozinha, o processo culinário foi dado por concluído e passou-se à fase da manducação.

Mais tarde, voltei onde sempre volto: ao meu ninho. Entre almofadas macias, descanso o corpo. Ouço música. Descanso a cabeça.

Não contei ainda que, à hora de almoço e ao fim da tarde, regressei ao livro. Acabei-o, claro. Não consegui estendê-lo por mais tempo.
Dizia que o escritor não devia ter a indelicadeza de surpreender o leitor. Procurava na literatura conclusões que fossem ao mesmo tempo surpreendentes e óbvias. Lembrando que Ulisses, cansado de prodígios, chorou de amor ao ver a sua verde Ítaca, concluía: "A arte deve ser como Ítaca: de verde eternidade, não de prodígios".
(...) 
Gostava de metáforas antigas -- o tempo como um rio, a vida como uma viagem e um combate --, e esse combate e essa viagem terminaram para ele, e o rio arrastou consigo todas as coisas daqueles serões, excepto a literatura, que (teria dito Borges, citando Verlaine) é o que fica depois de o essencial, sempre inacessível às palavras, se pronunciar.
Amanhã retomarei o Narciso e Goldmund. Imersa em verde, no meio de flores e do canto dos pássaros, depois de reuniões e outros compromissos, entrarei num outro mundo.

Tempos de paz, tempos de felicidade. Tantos passos a gente vai dando e, de repente, parece que todos os passos existiram para aqui chegar. Claro que há ainda algumas pontas soltas, algumas partes por desbravar, caminhos dúbios, labirintos, poemas para ouvir, páginas por ler. Mal fora se assim não fosse, significaria que tinha chegado ao fim da minha viagem. Ora não, espero ter ainda muitas dúvidas para esclarecer, muitos conhecimentos para adquirir, muitas lutas por travar. Mas a todos os esconderijos e caminhos ínvios a luz há-de chegar e muito haverá ainda por festejar.

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Fotografias de Tina Modotti com acompanhamento de Melody Gardot em So we meet again
De novo, excertos de Com Borges de Alberto Manguel
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Saúde, boa sorte, boa disposição.
Be happy.

quarta-feira, julho 01, 2020

Para agradecer a Marta Temido e a Graça Freitas.
Para dizer ao Medina que vá mas é dar banho ao cão.
Para me fazer eco das palavras de Sofia Loureiro dos Santos.
Para ver e ouvir as mãos de Carla Bley.
[E para falar da minha estranheza face ao estranho mundo que por aí vai]


A newborn baby at Praram 9 hospital in Bangkok, Thailand
Photograph: Lillian Suwanrumpha/AFP/Getty



Já aqui falei muitas vezes: parece que uma disrupção qualquer se deu em mim. Fracturei. Este confinamento, o teletrabalho, o ter vindo viver para o campo, esta deslocação no espaço e parece que também no tempo, tudo isto operou em mim um efeito que nem eu entendo. Não consigo imaginar-me a voltar a trabalhar como trabalhava antes, enfiada no carro, enfiada numa fila de trânsito, enfiada horas a fio numa torre hermética. Contudo, pode acontecer que tenha que me readaptar. Não sei porquê mas há pessoas que não percebem que há coisas que é melhor não contrariar. Se for forçada a violentar a minha vontade, talvez ceda. Mas tão contrariada que melhor fora se não.

Mas tudo é bizarro no que vejo acontecer-me. Do vendaval que as minhas células experimentam e que me levam a querer experimentar toda a espécie de mudanças já aqui falei sobejas vezes. Mas hoje quero falar de um outro efeito que tudo isto está a produzir em mim. É que parece que tudo o que vejo à minha volta, nesse tal mundo exterior, é disparatado, improvável, estúpido, dispensável. Parece que não tenho nada a ver com isso, como se eu vivesse aqui, em paz, e, lá fora, num mundo estrangeiro, só acontecessem macacadas, cenas maradas, coisas que teriam sido impensáveis há pouco tempo.

A woman shopping in Granada. Spain
Photograph: Jorge Guerrero/AFP/Getty
Por exemplo, quase ao acaso, de entre notícias do dia:

Enquanto uns já se preocupam com a segunda vaga, como a China e a Europa Ocidental, outros tentam regressar à normalidade num cenário de incerteza, como Espanha e Portugal, que deram um passo atrás em algumas regiões. Cidade inglesa de Leicester voltou a fechar após novo surto

A administração de Donald Trump adquiriu mais de 500 mil doses do medicamento contra a covid-19, o que significa toda a produção mundial de julho e quase a totalidade referente a agosto e setembro.

Nova variação do vírus da gripe com potencial para se tornar uma pandemia foi identificado na China por cientistas. É transportada por porcos, mas pode infetar seres humanos.

O bastonário da Ordem dos Médicos afirmou hoje que o hospital Amadora-Sintra "já ultrapassou o limite da sua capacidade" e que teve de transferir 50 doentes com a covid-19 para outras unidades de saúde.
A band do their sound check before live streaming a concert in Washington, US
Photograph: Eva Hambach/AFP/Getty

E li também sobre a atitude de Fernando Medina. Não gostei. Tinha-o em melhor conta. Com esta sua oportunista e desleal atitude recuo e tiro-lhe o tapete. Bem sei que ele passa bem sem o meu tapete sob os seus pés. Mas o pior é quando um e outro e outro e outro fazem o mesmo. Pode acontecer que, quando der por ela, esteja de gatas, apeado. Roma não paga a traidores. E eu nem a traidores nem a populistas.

Marta Temido ou Graça Freitas podem, uma ou outra vez, não ter sabido exactamente como agir. Mas penso que só gente burra ou estúpida acredita que poderiam ter feito melhor. Só se fossem bruxas e adivinhassem o que a comunidade científica de todo o mundo ainda não descobriu. O que tenho visto nelas é ponderação, bom senso, sangue frio, dedicação, inteligência, força anímica, resiliência, amor ao país. Deveríamos agradecer-lhes por tudo o que têm feito num contexto desconhecido, incerto, traiçoeiro. De cada vez que vejo alguém, na bancada, a dizer uma coisa ou o seu contrário, conforme sopra o vento e acusando estas duas bravas mulheres de não terem feito ou acontecido só penso que é uma pena que seja dado palco a gente burra e oportunista. Penso que António Costa, Marta Temido e Graça de Freitas têm estado bem a gerir todo este processo e espero é que muitas vozes se levantem para lhes agradecer.

A couple have lunch at a restaurant in Paris, France
Photograph: Alain Jocard/AFP/Getty

Li um post de Sofia Loureiro dos Santos que acho que deve merecer destaque. É a voz de uma médica e é a voz de uma pessoa lúcida e, do que lhe tenho lido, intelectualmente honesta.

Transcrevo na íntegra e aconselho a que o partilhem (e, se puderem, o esfreguem na cara do Medina!):


Há coisas que, por muito que racionalmente saiba que são assim, sempre me surpreendem.

Fernando Medina, após as notícias de que António Costa se teria irritado com os técnicos e com a ministra da Saúde, não sei se por iniciativa própria ou se por estratégia concertada, resolveu abrir fogo.

Instalada a ideia de que a pandemia está a correr mal em Lisboa, é preciso arranjar responsáveis por este facto (alternativo). Já ninguém se lembra, e também não interessa a ninguém lembrar, que há escassas semanas as mesmas autoridades, as mesmas chefias e os mesmos exércitos eram os melhores do mundo.

Em primeiro lugar, após a decisão de reduzir as medidas de confinamento e há já várias semanas, temos uma evolução de novos casos à volta de 1% , uma letalidade a reduzir-se paulatinamente (à volta de 4%), o número de internamentos e de camas de UCI ocupadas também controladas. Até hoje, e felizmente, temos conseguido controlar a pandemia apesar da pobreza, das desigualdades gritantes, nomeadamente na região da Grande Lisboa, da imensidade de imigrantes em situações precárias, dos bairros sociais, dos lares clandestinos, dos transportes apinhados, do escasso número e do envelhecimento dos profissionais de saúde, da obsolescência dos sistemas informáticos, da inadequação dos equipamentos, do cansaço, da necessidade de retomar a economia e a sanidade mental.

Estes problemas já existiam antes da pandemia e não desapareceram nestes últimos meses, altura em que éramos o exemplo mundial no combate à COVID-19. Por isso as palavras de Fernando Medina são ainda mais obscenas. Já agora, o que fez ele, como responsável autárquico, para tentar resolver o problema do distanciamento físico nos transportes públicos? Será que não podia, por exemplo, implementar o desfasamento de horários para mitigar as horas de ponta? Aumentar o número de autocarros alternativos? Ou mesmo usar uma varinha mágica e acabar em 2 meses o que não conseguiu em 5 anos?

É uma pena que o SARS-Cov-2 não se comporte como António Costa gostaria. Nós todos preferiríamos que ele tivesse desaparecido, que o conhecimento sobre máscaras, desinfecções, confinamentos e desconfinamentos, terapêuticas, etc, fosse maior e mais certo.

A evidência científica perde terreno nestes tempos de chumbo. Não é só Trump nem Bolsonaro. O pensamento mágico substitui a racionalidade. E a forma como os responsáveis políticos manipulam os factos e a opinião pública para os seus proveitos é tão asquerosa quanto velha.

A man cycling in Wuhan, China
Photograph: Héctor Retamal/AFP/Getty
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Rüdiger Krause, Carla Bley e Steve Swallow interpretam Lawns

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Boa sorte, alegria e saúde a todos quantos  por aqui me acompanham