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terça-feira, agosto 15, 2023

Por favor, não traga roupa

 

Passo a vida a falar de casas e a referir como, em minha opinião, o respectivo ambiente pode transmitir boa ou má disposição, ou como acho que pode inspirar ou atrofiar quem lá vive.

A casa de que aqui hoje falo é uma casa que acolheu gente das artes, das palavras, gente que amava as tertúlias e o amor livre.

Não é a uma casa qualquer. 

Há um artigo delicioso no Guardian sobre esta casa especial e sobre como o mundo da moda e do design se apaixonaram por esta casa.

Vou transpor parte do artigo, traduzido via translator.

Kate Moss fotografada em Charleston House para a Vogue britânica
 por: Mert Alas & Marcus Piggott  

‘A casa canta com cor e com vida’: como o mundo da moda se apaixonou por Charleston, a casa de campo do cenário de Bloomsbury

De Virginia Woolf e seu círculo às fotos da Vogue de Kate Moss, a casa de campo não convencional de Sussex conquistou a imaginação ao longo das décadas

A casa mais elegante da Inglaterra não fica numa rua elegante de Londres ou num vilarejo de Cotswolds com caixas de chocolate, mas no final de uma estrada rural longa, estreita e muitas vezes enlameada numa dobra de Sussex Downs. No interior, não há um único armário de cocktails de meados do século, chuveiro de efeito chuva ou sofá de design italiano. Em vez disso, Charleston é uma casa de fazenda de pedra robusta do século 17, misturada com rosas, janelas de águas-furtadas saindo de uma encosta de azulejos desgastados.

O layout é semelhante a uma 'coelheira' labiríntica em vez de um plano aberto, os pisos com tábuas desiguais. Como acontece com as casas de campo que foram construídas para proteger do frio, as janelas são pequenas, a luz um pouco sombria. Mas cada quarto é decorado à mão, com detalhes vertiginosos - diamantes pintados com esponja em painéis de madeira, uma natureza morta de malvas-rosa e papoilas numa porta de madeira, figuras nuas de cada lado de uma lareira incrustada de azulejos coloridos - para que a casa cante com cor e com vida.

O mundo da moda está tão apaixonado por Charleston agora quanto o cenário de Bloomsbury estava desde o momento em 1916, quando Virginia Woolf tropeçou na casa e escreveu à sua irmã, Vanessa Bell, que “tem um jardim encantador, com um lago e frutas árvores e vegetais, tudo agora bastante selvagem, mas tu podes torná-lo adorável”.

Bell, o pintor Duncan Grant e um emaranhado de família, amantes e amigos fizeram da casa o seu lar e estúdio por seis décadas; após a morte de Grant em 1978, ela foi aberta ao público em 1986. 

Em Paris, em junho passado, uma maquete da casa foi construída como cenário para um desfile de moda masculina da Dior, que incluía estampas tiradas de pinturas de Duncan Grant. 

Um ano antes, Kate Moss foi fotografada para a Vogue britânica num dos sofás desbotados da casa, usando apenas um par de botas de salto alto Fendi couture, toda bordada com pérolas e lantejoulas, e o próprio chapéu de palha de Bell. 

No próximo mês, o novo espaço da galeria de Charleston na vizinha Lewes apresentará Bring No Clothes: Bloomsbury and Fashion, com curadoria de Charlie Porter, a primeira grande exposição a explorar a influência de Bloomsbury no estilo.

O visual Charleston espalhou-se da passarela para as nossas casas. A vibração ingênua que é a característica mais distintiva dos interiores de Charleston está, agora, empilhada nas lojas de utensílios domésticos de rua. Pratos e tigelas pintados com cores vivas emprestam a alegre boemia da cerâmica de Duncan Grant. Tapetes têm bordas recortadas, copos de água são pintados com redemoinhos, candelabros feitos de torres de bobinas. Os aventais com padrão limão da La DoubleJ e as joaninhas em bandejas de folhas da Bordallo Pinheiro dão vida ao espírito informal e comunitário de uma casa onde a mesa de jantar, as cadeiras e as lareiras foram todas pintadas com carinho. Ella Joel, compradora de utensílios domésticos da Matches, está vendo clientes ligados à moda atraídos por jogos americanos de vime rústicos coloridos da Cabana, pratos com coração da Summerill & Bishop e pratos pintados da Ginori 1735.

A ironia de Charleston estar na moda é que a família Bloomsbury – que “vivia em quadrados, pintava em círculos e amava em triângulos”, como disse Dorothy Parker – tinha pouco tempo para a moda. Bring No Clothes, o título da próxima exposição e o livro de Porter que a acompanha, leva o nome de uma instrução que Virginia Woolf deu aos hóspedes da casa. (“Por favor, não traga roupas: vivemos em um estado de extrema simplicidade”, ela escreveu a TS Eliot, convidando-o a ficar em 1920.) 

The Bloomsbury group’s Frances Partridge, Quentin and Julian Bell, Duncan Grant, Clive Bell, Beatrice Mayor, Roger Fry and Raymond Mortimer in the garden. Photograph: /The Charleston Trust

Mas a instrução nada mais é do que uma declaração de moda. O desdém pelos códigos de dress code, a auto-expressão irreverente de pintar diretamente em lareiras e batentes de portas e o famoso berço de gato não convencional de relacionamentos entre Vanessa Bell, Duncan Grant e o amante de Grant, David Garnett, tudo floresce da mesma raiz de pensamento livre. Estar num dos quartos exuberantemente pintados de Charleston é sentir o quanto os habitantes amavam e celebravam o mundo das ideias; para ser revigorado por sua robusta interrogação da tradição. E há algo de muito moderno na maneira como os Charlestonians refizeram sua casa à sua própria imagem, pintando diretamente em guarda-roupas e cabeceiras sem limites entre arte e vida. A casa é, de certa forma, uma gigante – e gloriosamente não filtrada – selfie do grupo Bloomsbury.

.... (artigo completo aqui

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Muito interessante o vídeo abaixo

(Tem legendagem em português)

Exploring Charleston House: An Expression of Early 20th-Century Art 

| Houses with History

House & Garden presents Houses with History from Charleston House. Join Lucy Hammond Giles, Associate Director at Sibyl Colefax & John Fowler, as we tour Charleston House, once home to artists Vanessa Bell and Duncan Grant.

Vanessa and Duncan saw no particular distinction between art and interior design, and  treated the house as a canvas, painting practically every wall and piece of furniture in their own distinctive styles. As a result, the house is not only a significant piece of art history, but a landmark in the history of interior decoration. Watch the full video, as Lucy provides her unique perspective as a decorator whilst we explore this historic house.


Desejo-vos um dia feliz

Saúde. Ideias desempoeiradas. Paz.

segunda-feira, outubro 14, 2019

Duncan, o grande amor da vida de Keynes e de Nessa Bell



Por vezes tenho pena de não ter pena para aprofundar os assuntos que me interessam. Guardo para o blog apenas o fim dos dias, quando a minha vida externa me liberta. E, quando chego ao fim dos dias, já tenho o fim da noite à vista e, geralmente, já estou cansada, incapaz de estudos e profundidades. Acresce a estas limitações o paradoxo de me deixar interessar por inúmeros assuntos e de, quando o interesse aparece, ter uma grande curiosidade em desvendá-lo. E, então, é como com os livros: vou juntando coisas para fazer, para estudar, para descobrir.

Talvez um dia. Talvez a maior parte nunca.

Isto para dizer que há um grupo de pessoas, uma época e um modo de vida que sempre despertaram a minha atenção. Ao revisitar imagens desse tempo e desse modo de vida no filme Vita & Virginia voltei a sentir vontade de ir conhecer um pouco melhor alguns dos personagens menos mediáticos (se é que assim me posso pronunciar).

Vanessa Bell, a irmã de Virginia, a Nessa, tão amiga, tão próxima, foi pintora e casada com Clive Bell. Clive Bell era um dos membros do grupo de amigos que gostavam de literatura, de pintura, de arte em geral, de conversar, de polemizar. 

Contudo, no filme, quem se vê em cumplicidade, a partilhar o estúdio, como se fosse o companheiro de Nessa é Duncan. Ora Duncan é homossexual. Fui confirmar. De facto, Vanessa, casada com Clive, tinha um amor profundo com Duncan Grant, homossexual assumido. Conseguiu, contudo, seduzi-lo a ponto de terem uma filha. Duncan tinha também um afecto profundo por ela.

Sobre Vanessa Bell, transcrevo da wikipedia:
(...) Após as mortes da sua mãe em, 1895, e do seu pai, em 1904, Vanessa vendeu o 22 Hyde Park Gate e se mudou para Bloomsbury com Virginia e os seus irmãos Thoby (1880-1906) e Adrian (1883-1948), onde eles conheceram e começaram a se socializar com artistas, escritores e intelectuais que viriam a formar o Grupo de Bloomsbury.
Casou-se com Clive Bell em 1907 e tiveram dois filhos, Julian (que morreu em 1937 durante a Guerra Civil Espanhola aos 29 anos) e Quentin. O casal tinha um casamento aberto, ambos tendo diversos amantes durante a vida. Vanessa Bell manteve relações extraconjugais com o crítico de arte Roger Fry e com o pintor Duncan Grant, com quem teve uma filha, Angelica, em 1918, que Clive Bell criou como sua filha.
Vanessa, Clive, Duncan Grant e o amante de Duncan, David Garnett, mudaram-se para o campo de Sussex antes do estopim da Primeira Guerra Mundial, e estabeleceram-se na Charleston Farmhouse, perto de Firle, East Sussex, onde ela e Grant pintaram e trabalharam em encomendas para o Omega Workshops, atelier fundado por Roger Fry. A sua primeira exposição ocorreu no Omega Workshops em 1916. (...)
Sobre Duncan Grant, transcrevo:
(...) Vanessa queria muito ter um filho de Duncan e ficou grávida na primavera de 1918. Embora se suponha que as relações sexuais de Duncan com Vanessa terminaram meses antes de Angelica nascer (Natal, 1918), os dois continuaram a viver juntos por mais 40 anos.
Viver com Vanessa não era impedimento para as relações de Duncan com outros homens, antes ou depois de Angelica nascer. 

His lovers included his cousin, the writer Lytton Strachey, the future politician Arthur Hobhouse and the economist John Maynard Keynes, who at one time considered Grant the love of his life because of his good looks and the originality of his mind.
Angélica cresceu acreditando que Clive Bell era o seu pai, até porque tinha o seu apelido e o comportamento dele nunca lhe deu nenhuma indicação em contrário.  
Duncan e Vanessa tinham um relacionamento aberto, embora ela aparentemente, nunca tenha tido outras relações depois de passar a morar com ele e de ter o seu filho. Duncan, pelo contrário, teve diversas relações sexuais esporádicas e vários relacionamentos sérios com outros homens, sobretudo com David Garnett. No entanto, o seu amor e respeito por Vanessa manteve-se até à morte dela, em 1961. (...)
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Uma fonte inesgotável de motivos de interesse.
Agora já fui atrás do Keynes mas isso já não cabe aqui e, de resto, daria pano para muitas mangas.

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Já agora, Angelica Garnett, a filha de Vanessa e de Duncan


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Vanessa Bell foi, nas pinturas acima, pintada por Duncan Grant. Mais abaixo pode ver-se Duncan com Keynes e, na última, com Ness. Lá em cima Hélène Grimaud toca Bach

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domingo, outubro 13, 2019

Vita & Virginia



Fui ver o filme. Está agora restrito a uma sessão por dia, a uma hora que não estorva o afluxo a filmes mais mediáticos. A sala quase vazia. Não se ouviu um ruído nem cheirava a pipocas. Os muito poucos que ali estavam, estavam apenas para verem e ouvirem o filme. No escuro do cinema, a beleza das palavras e a serenidade das imagens bastava. 

Quando saímos, uma enchente ruidosa nos corredores, no átrio, nos acessos. Não sei o que está a atrair tamanha multidão. Talvez o Rambo, talvez o Joker, talvez, até, a Judy. Provavelmente nenhum dos que estavam para os outros filmes sabia que o filme se refere à paixão entre Vita e Virginia que são, respectivamente, Victoria Mary Sackville-West, Lady Nicolson, conhecida como Vita Sackville-West (1892 – 1962) e Adeline Virginia Woolf (1882 – 1941). E, se calhar, mesmo que o soubessem, ficariam na mesma.


E, no entanto, que vidas extraordinárias as delas e das respectivas famílias e do grupo em que se integravam.

Não frequento já as estrelas e as bolas com que os críticos de cinema pontuam os filmes mas tenho curiosidade: como terão classificado este filme? 



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Já agora, para os que não sabem, a obra Orlando de Virginia Woolf foi inspirada em Vita Sackville-West e dela se fez o filme cujo trailer abaixo partilho e que tem a participação de Tilda Swinton na figura misteriosa e andrógina de Orlando.



segunda-feira, setembro 03, 2018

Ottoline




Quarta-feira, 17 de Outubro [de 1917]

Fui a Londres esta tarde ver a exposição de quadros no Heal's. A Ottoline* não estava à vontade; rigorosamente abotoada até acima em veludo azul, chapéu como um guarda-sol, gola de cetim, perolada, pálpebras pintadas e cabelo vermelho-dourado. Escusado será dizer que não vi nada dos quadros. Estava presente o Aldous Huxley -- infinitamente comprido e magro, com um olho branco opaco. Uma bela juventude. Tomámos chá com o Roger. Eu estava bastante consciente da tensão. 

A Ott. lânguida, refugiando-se nos seus grandes ares de senhora, o que é sempre deprimente. Ambos pareciam ter a sua discussão bastante presente. Fui a pé com ela debaixo de chuva até Oxford Street, comprou-me cravos vermelhos, sem cordialidade.


Segunda-feira, 19 de Novembro

(...) É difícil dar a impressão do conjunto, salvo que não foi muito diferente do que imaginara. Gente espalhada numa sala cor de lacre: o Aldous Huxley a brincar com grandes discos redondos de marfim e mármore-verde -- o jogo de damas de Garsington; a Brett de calças; o Philip tremendamente envolto no melhor couro; a Ottoline, como sempre, veludo e pérolas; dois dogues. 

O Lytton semi-reclinado numa vasta cadeira. Bugigangas a mais para uma verdadeira beleza, demasiados perfumes e sedas, e um ar quente que era um bocado pesado. Bandos de pessoas deslocavam-se de sala para sala -- o domingo inteiro. Por momentos, o sentido daquilo parecia esmorecer; e, desta forma, o dia foi evidentemente muito comprido. 

Depois do chá, estive talvez durante uma hora à lareira de lenha com a Ottoline. No conjunto, gostei mais dela do que os seus amigos me tinham preparado para gostar. A vitalidade pareceu-me um crédito a seu favor, e na conversa privada os seus eflúvios dão lugar a algumas irrupções bastante evidentes de perspicácia. (...)


Quinta-feira, 22 de Novembro

Vangloriei-me tanto em Garsington sobre este caderno e o encanto de o encher a partir de uma fonte inesgotável, que tenho vergonha de falhar dias; e, no entanto, como assinalei, a única hipótese que ele tem é aguardar a minha disposição. Por falar nisso, a Ottoline tem um, embora devotado à sua "vida interior", o que me faz reflectir que não tenho uma vida interior. 

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Nota

* Lady Ottoline Morrell (1873 - 1938), casada com Philip Morrell, aristocrata, protectora das artes, anfitriã de artistas e intelectuais na sua casa de Londres e na mansão rural de Garsington. Inspirou personagens de romances, nomeadamente a D. H. Lawrence e Aldous Huxley. Dos vários casos extraconjugais, o mais célebre foi talvez com Bertrand Russel.


[Dorothy Brett, Lytton Strachey, Ottoline Morrell e Bertrand Russell]
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A célebre cena dos figos no filme do livro homónimo Women in Love na qual Eleanor Bron interpreta Hermione Roddice, personagem inspirada por Ottoline.



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O texto e a nota sobre Ottoline são excertos de Os Diários de Virginia Woolf

O excerto do octeto de Schubert está aqui por ser uma das referências de Virginia Woolf ("Cheguei ao Acolian Hall, paguei o meu xelim e ouvi um octeto de Schubert muito longo e muito belo". Nas notas pode ler-se que se trata do que aqui partilho]

Os figos com o seu pingo de mel viviam aqui, in heaven, antes de eu os comer. Sem cerimónias.

sábado, setembro 01, 2018

A cova do desespero, juro, não me há-de tragar
-- Escreveu Virginia num longínquo 21 de Janeiro --





Claro que, estando nós a ler na nossa língua e não na versão original, não sabemos se o que lemos é mérito apenas do escritor ou se o tradutor o enriqueceu (ou empobreceu) com o seu próprio estilo. Já me aconteceu ler textos que atravessam os tempos e são tidos por obras extraordinárias e eu os achar tocados por uma desconcertante pobreza estilística. Por exemplo, tenho dúvidas sobre o mérito como tradutor de Frederico Lourenço. Traduzir obras vastas e complexas não é coisa à altura de qualquer um pelo que persistência e determinação não se lhe podem negar -- mas já arte e intuição, sabendo interpretar a vontade do autor, disso tenho dúvidas.

Diz Jorge Vaz de Carvalho -- que também se tem abalançado à tradução de obras de envergadura -- que o seu critério geral é deixar transparecer o original, como se se limitasse a copiar respeitosamente o que a autora escreveria se usasse a língua portuguesa, procurando aquilo a que ele já chamou 'a especificidade identitária do texto'.
Não deve ser fácil pegar num texto, especialmente quando se tem pela frente a tradução de seiscentas e tal páginas escritas com fluência, por vezes num registo de coloquialidade, por vezes com uma sinceridade desarmante, e conseguir não desmerecer o original. Traduzir anos de vida para outra língua não desvirtuando o bater de coração do autor enquanto escrevia não é coisa que qualquer um consiga, pelo que, ao lermos um livro traduzido, não devemos deixar de valorizar o mérito do tradutor. Digo eu.
De facto, um diário é um texto escrito despreocupadamente, geralmente sem edição, um 'escrevinhar não premeditado', sem a censura interna que impõe o politicamente correcto e, talvez por isso, as palavras fluam de forma mais espontânea, mais próximas da intimidade de quem as escreve.

Escrever um blog pode ser a mesma coisa que escrever um diário. Escrever sem agenda, sem propósito, escrever pelo simples escrever de escrever. Regista-se o que se fez, o que se pensou, o que sentiu, o que se quer, o que se recorda, aquilo de que se gosta, ou barafusta-se com aquilo de que se não gosta. A mão como um prolongamento, em linha directa, da mente, do coração, da pele.

Os Diários de Virginia são assim: ao longo de anos, dia após dia -- e até poucos dias antes de ter desistido de viver, tragada pela escura cova do desespero --, Virginia vai registando o decorrer dos seus dias: os seus passeios, nomeadamente as caminhadas que dá com o marido e com o cão, os livros que lê, as visitas que faz e que recebe, os amigos, os familiares, os concertos a que vai, as conversas que tem, os acidentes domésticos, a procura de casa, os insignificantes desentendimentos, o tempo, as maleitas, o que está a escrever, o que o marido está a escrever, as idas à biblioteca e as opiniões sobre as pessoas com quem se cruza, as compras que faz. Sobre tudo Virginia foi escrevendo.

Uma vida, por mais profícua que seja, quando dividida em dias, e os dias em momentos, é uma realidade fractal na qual as suas partículas elementares são pequenos nadas, quase iguais aos pequenos nadas de toda a gente. 

Talvez que a diferença esteja na forma como se vivem os nadas e como deles se consegue fazer o sumo que a maioria negligencia e, tanto mais, quanto o sumo é saboroso, único, requintado, quase viciante.

Estou a referir-me, claro, aos Diários de Virginia Woof, traduzidos por Jorge Vaz de Carvalho que também prefacia o livro e nos ajuda na compreensão das referências através de exaustivas notas. Virginia Woolf escreveu os seus diários em papel. Se fosse hoje, teria certamente um blog e eu seria, sem dúvida, uma sua devota seguidora.


E é a leitura deste livro, um blog em papel, que eu vivamente recomendo. 


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Já agora:

A Vida de Virginia Woolf
[legendado em português]


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Lá em cima é Jelly d'Arányi interpretando Mozart Serenade in D K.250 'Haffner' - (ii) Menuetto; Trio, numa gravação de 1925.

Lembrei-me de a ter aqui porque, nos seus Diários,Virginia refere que ia ouvi-la tocar, a ela e às irmãs.