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quinta-feira, fevereiro 23, 2023

Conversas e desconversas

 


Vou descobrindo todo um mundo do qual sempre passei ao lado.

Contudo sei bem que as descobertas a que me refiro não são apenas insignificantes, são também modestas. Parece que o mundo agora existe é no instagram ou no facebook e eu continuo a querer manter-me à margem. Portanto, a realidade de que vou tomando conhecimento é uma ínfima pontinha de um imenso iceberg que se desloca em volta dos seres vivos, mostrando-se apenas aos aderentes.

Também não frequento o TikTok ou o Twitter. Por muito aliciante que seja saber tudo a toda a hora, ver vídeos divertidos, coreografias hilariantes, tutoriais altamente instrutivos, fotografias e stories sobre toda a gente, prefiro estar fora. O tempo já não me chega para o que quero, faria se estivesse sempre a ver o que os algoritmos me quisessem dar a comer. Não, dessa papa não manjo eu.

Continuo a manter o hábito de apenas à noite me permitir o deslize de espreitar algumas das novidades do dia. 

[Sobre o bandido do Putin continuo a desejar que os próprios russos resolvam o problema. Terem um assassino, um psicopata, um mentiroso cruel à frente de um país é pesadelo e sofrimento que não se deseja a ninguém.

Louvo, mil, mil, mil vezes louvo, a bravura dos ucranianos que, com a vida, defendem a liberdade e o direito a serem um país independente. Com o seu sacrifício defendem toda a Europa e nunca lhes agradeceremos o suficiente. Lamento que não façam parte da Nato pois, se fizessem, o patife não teria ousado invadi-los.

E acho vergonhoso e miserável (e meço as palavras que uso) a reacção do PCP sobre a vontade de Marcelo agraciar Zelensky com a Ordem da Liberdade. 

Por muito que o PCP faça ou venha a fazer a bem dos portugueses (e cada vez os vejo a fazer menos, já não passam de uma franja muito marginal da sociedade), nada apagará a sua torpe posição sobre a invasão e sobre a guerra desencadeada por Putin. 

Não é razoável que continuem a desculpabilizar a Rússia nem é aceitável que, fingindo-se de pacifistas, defendam a rendição da Ucrânia. 

Sinto-me agoniada de cada vez que ouço o que o PCP diz sobre esta hedionda guerra e não consigo compreender a hipocrisia, a cegueira, a estupidez que revelam. Embora finjam criticar a Rússia, a verdade é que colam a sua posição e os seus argumentos aos do Putin, esse assassino para o qual não pode haver perdão.

Mas custa-me tanto o que está a acontecer e tudo o que o rodeia que não quero conversar sobre isso. Prefiro sugerir-vos que leiam, por exemplo, "a paZ! a paZ! a paZ!" segundo Der Terrorist]

Por isso, depois de tentar informar-me, desvio-me, vou distrair-me, vou ver coisas leves, levezinhas. Perdoem-me, pois, a desconversa que se segue]

Uma das coisas que gosto de ver é como algumas mulheres do mundo do cinema ou da moda cuidam da sua pele. E fico sempre espantada. Por exemplo, pensava eu que a Julianne Moore seria uma 'cara lavada'. 

Até há pouco tempo eu julgava que tinha cuidado com a minha pele. De manhã, lavo a cara e ponho um creme adequado à minha condição: agora aplico um creme que supostamente é para peles maduras. Não ponho esse à volta dos olhos. Nessa zona ponho um creme específico para a pele em volta dos olhos. Faço-o pois não me faz arder os olhos. E mais nada. Julgava eu que isso era cuidar da pele. Mais: se vou passear para a praia nestes dias de frio ou se vou caminhar à noite e está vento, ponho creme nívea (daquele creme branco que está na caixa azul). Sinto-me bem, sinto a pele fresca e hidratada.

Depois, ponho uma sombra suave nas pálpebras superiores e, agora que já não tenho que me disfarçar de executiva, apenas de vez em quando um tonzinho nos lábios. E, se achar que estou descolorida demais, passo o baton ao de leve nas maçãs do rosto e esbato com os dedos. E está a festa feita.

Mas, quando vejo o que a Julianne Moore põe, fico de boca aberta. E fico sem perceber como é que a pele absorve aquilo tudo. E como é que aquilo não reage tudo entre si, deixando-lhe a cara a arder. E como é que ela tem paciência para ali estar a pôr camada sobre camada sobre camada sobre camada. 

E fico a pensar: será que isso é o correcto? Deveria eu começar a ter mais cuidado com a minha pele? 

Li também que cada vez mais pessoas fazem tratamentos de rádio-frequência, que têm um fantástico efeito no combate às rugas. E fico a sentir-me uma estético-excluída. Não sei o que é, não sei se é coisa que se faça em casa ou se tem que se ir a uma clínica ou coisa do género. 

É todo um mundo que desconheço. E essa é que é essa.

Julianne Moore | Beauty Secrets | Vogue


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Desejo-vos um dia bom
Saúde. Bem estar. Paz.

segunda-feira, janeiro 31, 2022

PS e António Costa -- a emoção de uma grande vitória

[Legislativas 2022 - Post Nº 13]

 


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Como aqui o expressei, não acreditava que o PSD fosse ganhar. Não vou em cantigas. Guio-me pela minha intuição mas, também, pela razão. Não apenas não vi que a população estivesse, de forma geral, insatisfeita com a governação socialista como não acredito que se deixe completamente manipular pela chusma de comentadores, jornalistas-comentadores e convidados-avençados nem pelos argumentos hipócritas e imaturos do Bloco nem pelos argumentos antiquados e arrevesados do PCP nem pelas arruaças da direita.

Contudo, há uma franja da população que é naturalmente mal informada e relativamente à qual nunca se sabe bem a dimensão nem para que lado pende. As televisões dos cafés e dos espaços públicos (até numa clínica já eu vi) estão sintonizadas no Correio da Manhã que é o que se sabe A linha editorial da TVI e da nova CNN sintonizam-se no mesmo comprimento de onda: o medo, o drama, o 'está tudo mal', 'isto é tudo uma pouca vergonha', 'são todos uns gulosos' e etc... E isso é sabido e consabido que é o caldo em que germina a semente do populismo, do fascismo, do racismo.

Ora, em vez de apostarem na desmontagem deste perigoso argumentário, formando uma barreira contra o Chega, o Bloco e o PCP apostaram antes em dizer mal do PS. Por outro lado, o PSD e o CDS pensaram que o bom seria mimetizarem o Chega, apostando num bota abaixo ao Costa.

Mas uma coisa é certa: se há muita gente mal informada, na sua maioria os portugueses não são parvos. O governo do PS tem sabido gerir bem este período da pandemia não apenas numa perspectiva de saúde pública mas também de atenção social e humana aos mais atingidos pela crise, tem sabido relançar a economia, tem sabido controlar o défice, tem sabido desagravar a dívida pública apesar das mil dificuldades, tem sabido controlar, e bem, o desemprego, tem sabido manter o país informado e coeso. Portanto, pela cabeça de quem passaria acreditar que os portugueses queriam acabar com esta governação? 

Acabar com o governo de António Costa para lá meter quem? O Chicão... porque dizia que ia acabar com o Acordo Ortográfico...? O Jerónimo porque tem melhor dicção que o Costa...? O Rui Tavares porque a Justiça em Portugal funciona como se sabe e há que penalizar o PS...?

Talvez algumas pessoas pensem assim e, obviamente, estão no seu direito. Mas são casos isolados. A maioria das pessoas acautela a boa governação e quer ter gente de confiança à frente dos destinos do País. 

Por isso, sempre acreditei na vitória do PS e, por isso, desejei que o resultado eleitoral garantisse alguma estabilidade.

António Costa diz, e é o que penso, que maioria absoluta não é sinónimo de poder absoluto. E temos um Presidente da República que garantirá o normal e saudável funcionamento das instituições. Portanto, a quem assusta a maioria absoluta? O que assusta é a instabilidade, o que assusta é que o Chega se unisse ao PSD, o que assusta é que o País voltasse a andar para trás.

Dito isto, penso que, agora que o Partido Socialista obteve a maioria absoluta, é tempo para se abrir ao futuro, começando a trabalhar mais energicamente numa transformação em direcção à modernidade. É preciso fazer mais, melhor, mais agilmente... e diferente.

Temos ainda uma classe dirigente a nível da gestão bastante iletrada e, logo, ineficiente e improdutiva. Temos ainda uma mentalidade muito quadrada, muito presa a ortodoxias, pouco aberta à cultura e à diversidade. É preciso criar momentos de reflexão e ter a coragem de ousar. Façam-se pilotos, testem-se modelos, inove-se. Não coisa de boca, para o papel, para inglês ver. Não: inove-se na maneira de trabalhar, na maneira de estar e, em alguns pontos, na maneira de ser.

Certamente António Costa quererá receber contributos de todos os que estão no Parlamento, ouvir ideias, receber sugestões. Por exemplo, do PAN, do Livre e, até, da IL. É gente com boa cabeça, boa vontade, boa atitude.

Em especial a nível urbano, em especial nas camadas mais jovens, a IL é ouvida com atenção. Isso não deve ser levado a brincar. Há na Iniciativa Liberal algumas ideias que merecem ser ouvidas. Mesmo que não sejam para ser lidas integralmente à letra, deve ter-se em atenção que contêm a vontade da mudança. O PS deve estar aberto a esta vontade. E não são apenas as ideias: é também a atitude. A atitude da IL é uma atitude cordata, cosmopolita, desempoeirada -- e isso é louvável.

O PS tem entre os seus militantes e simpatizantes gente muito boa e deve saber valer-se disso. Mas, ao mesmo tempo, deve fugir do aparelhismo, das soluções autocentradas e burocráticas, do facilitismo. Deve ouvir e receber com agrado sugestões que visem aproximar o País de outros países mais desenvolvidos mesmo que isso configure algumas disrupções.

Mas deve ouvir também, com atenção, as sugestões válidas que provenham do PSD, do PCP e do Bloco. Acredito que estes três partidos, com o banho que levaram nestas eleições, provavelmente com novas lideranças, venham a ter uma atitude de humildade e de lealdade perante os portugueses.

E deve ouvir também os artistas, os agentes culturais. Um país move-se tanto melhor quanto for movido a cultura. A cultura não move apenas montanhas: move oceanos, move continentes. Move e aproxima. 

Deverá haver uma atenção genuína e pragmática em relação ao conhecimento e às artes. 

Uma vez, num fórum de inovação promovido pelo Grupo a que estava ligada, sugeri que convidassem um filósofo como orador. Não quiseram. Mas acho essencial que se tragam os agentes da cultura, do saber, da investigação para o debate público nem que seja apenas para nos fazer pensar de outra maneira, para enriquecer a nossa visão com outras perspectivas.

E que se percebam os problemas de base da sociedade para que se invista onde as necessidades são mais básicas e prementes: nas creches públicas, no ensino e na saúde tendencialmente gratuitos, na formação de adultos, em residências seniores assistidas também tendencialmente gratuitas ou em redes de assistência domiciliária a idosos, no acolhimento inclusivo e de qualidade aos imigrantes, em habitação de baixo custo para os mais desfavorecidos e/ou para jovens. Etc. A baixa natalidade é uma ameaça à coesão nacional e à confiança no futuro. Por isso, tem que se investir em tudo o que comprovadamente inverta essa tendência. E o envelhecimento não tem que ser um sufoco ou um fardo para os próprios e para as famílias. O envelhecimento tem que ser digno e feliz.

Mas há muito mais: há que repensar profundamente o modo de vida a que nos habituámos. 

Por exemplo: deve incentivar-se o teletrabalho sempre e onde seja possível (de forma controlada, obviamente) e a semana com menos horas de trabalho, deve promover-se a existência de mais espaços verdes e de hábitos de vida mais saudável, deve assegurar-se o absoluto respeito pela natureza, a adopção de práticas mais sustentáveis em todos os momentos da nossa vida. Etc.

Estou certa que, com as mãos mais livres, o PS irá saber interpretar o querer e o sentir dos cidadãos, irá trazer ideias novas para melhorar a qualidade de vida de todos e não irá desbaratar o capital de confiança que recebeu dos eleitores. 

Por isso, mais do que tempos de compromisso, espero que sejam tempos de boa mudança os que aí vêm.

Portanto, boa sorte a António Costa. E, desejando muito boa sorte a António Costa, estou ao mesmo tempo a desejar muito boa sorte a todos nós.


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Hoje não são apenas rosas: 
são flores de diferentes espécies, reais ou flores abstractas, projectos em construção, ortodoxias em desconstrução. 
Há lugar para todas e para todos os que venham por bem.
São, uma vez mais, fotografias de Nick Knight
E vêm na companhia de Daniel Barenboim, Staatskapelle Berlin – Beethoven: Piano Concerto No. 5, III. Rondo. Allegro

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E queiram continuar a descer caso queiram ler o que fui escrevendo ao longo da noite eleitoral destas Legislativas 2022

sábado, janeiro 02, 2021

Palavras escritas de noite

 




Começo a escrever quando o dia um já virou a página. Dormi mal até que me levantei para ir tomar um comprimido. De manhã a dor nas costas já não estava só nas costas mas também na nuca. Incapaz de mexer a cabeça. Resolvi ir de imediato para a banheira para dar com água quente na nuca durante algum tempo. Reconheci que, apesar disso, estava melhor. Senti que já não estava febril e isso, em mim, faz a diferença. Pouco dormi até ir tomar o comprimido mas, depois, dormi que me fartei. O meu corpo parece que está a querer dizer-me alguma coisa. 

A minha temperatura não está nos costumeiros 36 ou abaixo mas nos 36,3º, um pouco mais do que o normal, mas nada a assinalar. Tenho é umas olheiras como nunca. Quando as vi até me assustei, pensei que tinha tido algum derrame. Depois percebi que não, que era dos dois lados, meras olheiras. Olho-me ao espelho e pareço-me uma dama do século passado, descorada, olheiras fundas, como quando se morria de amor com doenças indefinidas.

Praticamente não comi o dia todo. Estou sem fome. Ainda assim, a meio do dia fui fazer uma pequena caminhada, devagar, e não me custou tanto como ontem. Fui super agasalhada e com uma echarpe muito quente em volta do pescoço. 

A minha mãe esteve a ler os seus livros e concluiu que foi um misto de três coisas: dias de muito stress, dias de muito frio e 'as porcarias que comes'. Espantada, pergunto-lhe a que porcarias se refere se tenho uma alimentação tão saudável. 'Queijos', são péssimos, favorecem estados inflamatórios, esclarece-me. Depois fala-me do cortisol que o stress provoca e que, segundo ela, é um veneno, que deveria ter uma vida mais tranquila, que, se fosse ela, ficava numa aflição com as situações em que me meto, não conseguiria ter a vida que tenho. Digo-lhe, 'pois, mas é a vida que tenho' e, quanto ao queijo, digo-lhe que cada vez gosto mais, há queijos fantásticos. Ela diz-me que deveria cortar nos queijos, ter uma vida mais calma, agasalhar-me mais, diz que não percebe como ando sempre tão à fresca. No entanto, sabendo-me sem febre e tendo encontrado explicação para este meu estado, descansa e já acredita que não é covid.

Passei parte da tarde no sofá, entre almofadas, nada à fresca. Pelo contrário, estou bem agasalhada. Há bocado fui pôr os pés em água quente, estavam outra vez gelados. Eu toda a boa temperatura, quente, e os pés gelados. Não sei porquê. No telefonema, ao falar nisto, a minha mãe disse que deveria fazer-me umas meias de lã, bem quentes. Disse-lhe que não, que geralmente nem suporto sentir calor nos pés, que esta novidade dos pés gelados deve ter a ver com estar adoentada.

De certa forma, ainda bem que isto me aconteceu nestes dias em que, por via do recolher obrigatório às 13 e da proibição de sair do concelho, também não poderia fazer grande coisa. O pior é que não faço pouco: não faço literalmente nada. O meu filho, depois de também me fazer as perguntas sacramentais, se tenho olfacto, se tenho paladar, se não tenho tosse, ainda assim aconselha que tire as dúvidas e faça um teste e, mal acabei o telefonema, já ele me tinha enviado o link para eu saber como fazer. Mas penso que isto deve ter mais a ver com o que a minha mãe diz do que com covid. E com um quarto factor, aquilo de que falei ontem: na outra semana andei a carregar baldes de terra, bem pesados; depois, no natal, transportei sacos bem pesados de laranjas e tangerinas, e o meu corpo que não é de camponesa como por vezes gosto de me iludir mas, sim, de princesa, ou seja, de burguesa lisboeta e elitista, desde há algum tempo não se dá bem com pesos. E também não se dá bem com dias inteiros sentada, de manhã à noite, sem tempo para desentorpecer as pernas ou o espírito, que foi o que me aconteceu a seguir ao natal e aos dias a seguir ao natal.

Portanto, o meu primeiro dia do ano foi assim, verdadeiramente atípico. Mas, afinal, tinha uma peça de roupa nova para estrear. Uma blusa confortável, homewear, que a minha filha encomendou para a minha mãe me oferecer. Verde. Se sou incandescente quanto às minhas paixões, sou verde quando me visto. Creio que já o contei. Quando para aí há um ano e picos tirei para fora toda a roupa dos roupeiros e as voltei a arrumar por cores, fiquei espantada com a larga, larga, maioria de diferentes tons de verde. E acontece-me frequentemente que, quando tenho alguma reunião verdadeiramente decisiva e quero vestir-me em consonância, quase invariavelmente a escolha recai nos verdes.

De tarde e à noite, estivemos a ver filmes na televisão. O meu marido disse: 'nem sabíamos que dava para ver filmes na televisão'. Ironizava, claro. Mas nunca os víamos. Não tínhamos tempo, não tínhamos paciência, tínhamos sempre qualquer outra coisa melhor para fazer. Pois hoje, comigo neste estado, rendemo-nos à televisão. Contudo, adormeci. Depois de ter dormido tanto, pela manhã adentro, voltei a adormecer à tarde. Quando estou assim, o meu corpo vinga-se, põe-se a dormir. 

E mal vi as notícias, pouco depois de acordar, constatei que tinha morrido o Carlos do Carmo. Tem sido uma ceifa inclemente. Dá medo. A ver se o 2021 não vai pelo mesmo caminho que o malvado 2020. Tem sido uma razia. Mas, se tenho pena pelo Carlos do Carmo, e claro que tenho e não é pequena, não menorizo o sofrimento dos indefesos que estão a morrer nos lares. Esta situação leva-nos também a conhecer a quantidade imensa de lares ilegais. E, no entanto, quem ali está, está porque não tem onde mais estar, talvez porque as famílias não podem tê-los noutro lugar. Os filhos a trabalharem, com casas pequenas, sem poderem assegurar os cuidados necessários, alguma solução têm que arranjar. E os lares legais são escassos e caros face às necessidades. Deveria ser uma área de forte investimento público. O orçamento e os fundos da segurança social não dão para tudo mas terá que se arranjar uma fonte de financiamento para resolver este drama. Não podemos ter milhares de portugueses à mercê do que quer que seja -- maus tratos, cuidados deficientes --, uma triste antecâmara da morte.

Mas não é só nos lares clandestinos que as pessoas morrem às mãos cheias, é em todos os lares. E tem a ver, sobretudo, com o ar que respiram. Não podem estar de janela aberta senão ainda apanham alguma pneumonia, e, portanto, provavelmente com ares condicionados que recirculam o ar em vez de extrairem o ar viciado e injectarem ar novo, são vítimas adiadas, é só até aparecer o primeiro caso. Imagino o medo das pessoas que lá vivem, receando pela sua própria vida, esperando, solitários, que o tempo passe e não os leve. Espero bem que haja um qualquer fundo para ajudar a financiar, junto de quem não tem verbas para isso, a remodelação dos sistemas de ar condicionado dos lares. Não é justo nem digno que se faça de conta que é uma fatalidade que os nossos mais velhos, enclausurados em lares, estejam a morrer desta forma (e falo de Portugal mas, do que as notícias nos dão conta, o mal é geral).

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Quando ia começar este post, a minha ideia era falar do planeta, da maravilhosa perfeição que o habita, do respeito que nos deveria merecer, guiando todos os nossos actos. 

Facilmente poderia dizer que o amor e o respeito pela natureza são os valores primordiais da minha religião. Mas não sinto necessidade de caracterizar a minha espiritualidade pois certamente deixaria de fora aspectos também essenciais.

Contudo, as dores que sinto e o meu mal-estar tomaram conta do texto e, sem me dar conta disso, fui desfiando maleitas, coisa que, ao vivo, nunca faço. Acho uma maçada estar a ocupar tempo das outras pessoas com males que são só meus. Mas isso é ao vivo, espaço onde tenho algum controlo sobre os meus actos. Aqui são as minhas mãos que me conduzem. 

Deixo-vos, contudo, com um vídeo com a chancela BBC e a marca de Sir David Attenborough que, ao fim de tantos anos, continua a deslumbrar-se (e a deslumbrar-nos) com a espantosa beleza da natureza. Penso que no dia em que todos nós interiorizarmos que deveremos respeitar o planeta e ter como nossa missão na terra a de deixarmos um planeta melhor para os nossos descendentes, grande parte dos estúpidos problemas dos humanos desaparecerão.

David Attenborough's Jaw dropping 

A Perfect Planet 🌍


Em mais uma manifestação do perigo da Inteligência Artificial, neste caso um perigo ainda apenas antevisto e, neste caso, não concreto (pelo menos, para já), o Google Arts & Culture  tinha para me recomendar o vídeo abaixo que, de facto, não poderia agradar-me mais. Partilho-o também convosco.

Celebrating Art and Nature with Beethoven's Pastoral Symphony - First Part

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As pinturas são de Shakir Hassan Al Said

Escolhi, como música, lá em cima, Words | Gregory Alan Isakov e espero que as recebam, pelo menos alguns de vós, como uma espécie de explicação para eu deixar aqui, noite após noite, a minha pele, os meus ossos. 

Words mean more at night
Like a song
And did you ever notice
The way light means more than it did all day long?

And I'll send you my words
From the corners of my room
And though I write them by the light of day
Please read them by the light of the moon

E etc.

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Desejo-vos um bom dia -- e nem vale a pena dizer muito mais para não começarmos o ano a acumular decepções

segunda-feira, setembro 21, 2020

Uma mulher poderosa encanta-me no dobrar de mais um dia em que tentei (mas não consegui) esfolar um rabo que está pendente e que não se compadece com as minhas beautiful flowers

 




Tenho cada vez mais para mim que se todos nós, colectivamente, fizermos um esforço para não perdermos tempo com tretas como as lágrimas do populista-achegado ou com outros pseudo-eventos ou com outras pseudo-pessoas-importantes mais depressa essa gentinha perderia protagonismo e melhor saúde mental todos teríamos. 

Cheguei aqui, agora, e todas as notícias internas me parecem treta. Pura treta. Não estou nem aí.

Mas, reconheço, também pode ser porque dias como o de hoje me deixam a deitar por fora.


Apesar de não ser nada de novo ou interessante, conto porque é que o meu dia me foi tão sobrecarregado: as idas à outra casa (eu para separar roupas para dar, outras para o lixo, outras para trazer, o meu marido com selecção de papeladas, projectos de arquitectura transactos, dossiers e dossiers de trabalhos em versões anteriores à definitiva, coisas assim) esgotam-me. Horas. Sacos e sacos e sacos. O meu marido também exausto. Tudo o que é trabalho pesado sobra para ele: carrega com sacalhões pesadíssimos, uns para os contentores da rua, outros para o carro. 

Mas, enfim, pelo menos já trouxe os meus casacos de malha, os meus blasers, as minhas calças. É que a prioridade tinham sido louças, coisas de cozinha, livros, bibelots, candeeiros, móveis essenciais. De roupa tinha trazido sobretudo a de verão, que era o que fazia falta. Mas o outono já aí está e eu já andava sem saber bem o que vestir. Mesmo aqui em casa, quando anoitece e esfria, eu olhava para o guarda-roupa sem saber bem a que deitar mão. E esta semana tenho compromissos presenciais que me exigem que as minhas toilettes anteriores saiam à cena. 

E depois há alguns fatos completos de que, embora já me estejam à justa, não quero desistir assim tão facilmente. Aquele elegantésimo e superlativo fato Armani que foi presente do meu marido, que conseguiu acertar com o meu tamanho e que, ousando à grande, sem que eu tivesse minimamente suspeitado de tal ousadia, conseguiu que me assentasse como uma luva -- esse tive que trazer, claro. Ou aqueloutro que comprei em Madrid depois de ter percorrido os costureiros da Serrano e de me ter posto nas mãos de uma bicha fantastique que adivinhava todos os meus gostos -- que conjunto mais lindo, aquele - quando fui a um casamento de sonho em Seteais, esse também teve que vir. Peças assim, intemporais. Não gosto de coisas tchanan...!, gaiteiras, espaventosas, datadas. Prefiro peças que não passam de moda. Ou seja, dessas, apesar de já me caberem à justa, não ia desfazer-me. E quem sabe, um dia destes, alguma das meninas da família não precisa de alguma destas fatiotas para uma ocasião especial?

No fim, quando já não aguentávamos mais -- cansados, desidratados, saturados -- e enquanto o meu marido andava abaixo e acima, ainda varri, passei com a esfregona, garanti que as casas de banho estavam impecáveis, que as luzes estavam apagadas. Fechei a porta e vim. Aquela casa, que era a minha casa de sonho até há pouco tempo, agora já pouco me diz. Quando viro as costas e fecho a porta, o que fica para trás é passado. Apesar de gostar de visitar as minhas memórias, a verdade é que parece que sou toda feita de futuro.

Como já era tarde, encomendámos uma pizza e, a caminho da casa nova, fomos buscá-la, a pizzaria já a fechar. 

Depois foi aquela frustração: o hall e o corredor da casa nova uma vez mais atafulhados de sacos, mais coisas para arrumar, eu já sem saber como distribuir as coisas. Na cozinha, algumas peças sem caberem onde faria mais sentido e, claro, a impaciência a ir ganhando terreno. Cansaço e fome à mistura é do pior que há.

Enquanto a pizza foi apanhar um aperto no forno, nós fomos tomar banho. E, com isto tudo, acabámos a almoçar às cinco da tarde. 

Não vejo a hora de esvaziar os armários todos, de trazer tudo e deixar a outra casa finalmente vazia para poder usufruir de tempos livres sem ter a necessidade de os anular, sempre a tratar de tudo o que há sempre para tratar. Até porque, quando for vendida, não pode lá ficar nada. O meu filho que, quando saíu de casa, não tece paciência para levar nada nem escolher o que era de guardar ou deitar fora, continua sem paciência para se atirar a isso. Dossiers da faculdade, livros, coisas de computador, sei lá o que para lá ainda há. Hoje, ao abrir gavetas do quarto da minha filha, dei com roupa interior dela. Não a deitou fora e eu não gosto de deitar fora coisas que não são minhas. Hoje aproveitei algumas peças. O resto, que estava ainda em bom estado, pus num saco também para dar. 

Na verdade a casa parece quase vazia mas, na verdade também, ainda com coisas que não acabam.

Bem.

Ah, e fiz o jantar em dose XL para dar para o almoço também de amanhã. 

E, finalmente, quando o sol estava de fugida, ainda fui para a espreguiçadeira ler mais um pouco. Uma bênção. Uma meia hora de descanso e bem-aventurança. 

Depois fiz telefonemas enquanto passeava para trás e para a frente no jardim, fotografando as flores que me trazem apaixonada. Tão lindas, tão perfeitas. Divindades silenciosas.

Mas tudo o que é bom não pode ser em grandes doses pelo que, de seguida, tive que entrar em casa para passar a ferro e sei lá mais o quê.

Portanto, como é óbvio, com este programa de festas, não quero cá saber de minudências e banalidades. E, assim sendo, para aqui tenho estado a ouvir música. Música poderosa, intérpretes poderosos. Em especial uma mulher poderosa. Poderosa em todos os sentidos. A destemida Yuja Wang mostra como se atira a tudo com uma energia que contagia. Mulheres poderosas e, ainda por elegantes e femininas, são uma graça. E um perigo.


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E nada mais a declarar. 

Quando voltei ao jardim já a noite vinha descendo. Lá em cima, entre o piar discreto das aves nocturnas, uma nesga de lua. Fotografei-a. Ainda não tinha reparado na lua desde que aqui vivo. Gostei. É uma boa companhia, boa como todas as companhias que são cheias de subtilezas.


Desejo-vos uma boa semana, com muitos momentos bons, com boas notícias. 
E que a saúde e a boa sorte vos acompanhem.

sábado, novembro 03, 2018

Às vezes uma pequena e simples ideia basta para se fazer a diferença


Eu é que tenho razões para estar cansada e o computador é que não mexe. Cheguei a casa relativamente cedo (yes! hoje havia pouco trânsito!) e atirei-me logo à empreitada. Chegou o meu marido e fez o mesmo. Só jantámos já tarde mas esta sala está que não se reconhece. Parece maior, desafogada. Ainda tenho umas coisitas para arrumar mas, yes!, tudo já entrou nos eixos. Tenho ainda aqui ao meu lado uma dúzia deles mas é porque são tão inclassificáveis que tenho a certeza que, no momento em que os encafue num qualquer lugar, logo lhes perderei o rasto -- e, portanto, estou a retardar a separação.

Mas isto para dizer que estamos os dois um bocado estafados mas, aqui que me vêem, estou de cara alegre, pronta para dar ao dedo e que, em contrapartida, o computador, que não mexeu uma palha, é que, vá lá saber-se porquê, não ata nem desata. Estive bem uma meia-hora com isto a empancar a cada passo que dava. Só a pensar, a enevoar-se, a patinar. Já estava a pensar que ia mas era desistir. Poderia tentar despistar o que se passa mas, francamente, a esta hora tenho lá pachorra para inspeccionar computadores...?, caneco, quero é que o computador se dane. Fogo. É que não colabora nem um bocadinho. Não consigo abrir um único site pois, mal lhe clico, o ecrã põe-se-me branco, pasmado, creio que nem a pensar, apenas embasbacado, sem tugir nem mugir. Não me obedece, não reage. Um desatino. Não sei de notícias, não sei se coisa alguma, não consigo informar-me. 

Agora, com muito esforço, abriu-se esta página onde posso escrever e, como se vê -- não vá a brancura invadir o espaço e devorar toda a escrita e, no final, o resultado ser a mesma página em branca com que comecei -- desatei a escrever. Mas agora mesmo, que nem de propósito, de repente, ficou tudo branco. Portanto, não sei se é o computador que está passado, se é a net que desatou a andar a pedal, se é outra coisa qualquer, uma qualquer travadinha de causas nunca vistas,.

Só sei que, no intervalo deste castigo, consegui espreitar os mails e vi um enviado pelo P., a quem muito agradeço a generosidade e simpatia. E, do pouco que consegui ver -- no intervalo de paragens, de silêncios e de intenso nevoeiro --  pareceu bem engraçado.

Pensei: Uma boa ideia não tem que ser rebuscada, artilhada, não necessita forçosamente de grandes meios, não tem que ser aparatosa. Tem apenas que ter aquela pequena coisa que faz a diferença: chamem-lhe graça, chamem-lhe inteligência, chamem-lhe simplicidade.

Esta animação que acompanha a 5ª de Beethoven é uma graça, dá gosto ver. Ou seja, assim ainda dá mais gosto ver a música.


Até já.


sexta-feira, janeiro 05, 2018

O debate entre Santana Lopes e Rui Rio e a cara de Vítor Gonçalves depois de ter entrevistado a Carla Bruni.

[E os dilemas intransponíveis que se levantam quando penso em tornar-me escritora]

-- E William Burroughs, John Irving, George Steiner e António Lobo Antunes --





Nem sabia que havia o debate. Quando percebi que estava a haver, o meu marido não quis ver. 'Era o que faltava.'. Insisti. Apetecia-me ver se, olhando para aqueles dois marretas durante uns instantes, conseguia perceber qual deles será eleito. O meu marido aborreceu-se: 'Tencionas votar neles?'. Percebi que não valia a pena explicar que se tratava apenas de uma questão conceptual. Disse apenas: 'Põe na 1 e cala-te'. Ripostou arreliado: 'És parva' e, para me ser simpático, lá mudou mas, lamentavelmente, o debate estava a acabar. Apenas vi o Rio a enterrar o Santana Lopes com base na vez em que Santana se enterrou a ele mesmo. Logo de seguida, o Vítor Gonçalves acabou o debate com um sorriso preso ao rosto. O meu marido disse: 'Aquele gajo, desde que entevistou a Bruni, ficou assim'. Olhei e achei que ele tinha razão. Quando vimos a dita entrevista, fartámo-nos os dois de rir com o baile que ela deu ao pobre coitado.

Pronto. A seguir ao debate, vieram os comentários mas, como é bom de ver, fugimos deles. Se eu fosse sipatizante do PSD andaria à nora: entre a fome a vontade de comer, escolher o quê? Velhos e relhos -- e nem tem a ver com a idade biológica dos dois. Comida da véspera. Roupa velha. Já os conhecemos, já os papámos noutras eras. Outra vez não. Não é possível que as hostes laranjas nestes anos todos não tenham parido ninguém que se afirme e que tenha sangue novo. Nada... nada...?

Felizmente não tenho nada a ver com aquela tristeza. Quem fez a cama que se deite nela.


Com isto e andando sem motivação para falar de nulidades, pus-me, como sempre, a cirandar pela net. Como já o contei, parece que apenas me sinto atraída por coisas bizarras. Volta e meia vejo links para outros blogues nos blogues que acompanho. Fico espantadíssima porque eu nunca descubro nada do que as outras pessoas descobrem. Em contrapartida, entretenho-me com coisas inenarráveis. É como quando os meus colegas ou amigos falam dos livros que andam a ler e todos os conhecem menos eu. Em contrapartida, se quiser limpar a face e não passar por completa iletrada, não apenas geralmente não me lembro do que ando a ler como, caso me lembre, ninguém nunca ouviu falar nos escritores que refiro.

Enfim.

Por exemplo, estive aqui a ver um vídeo que mostra a casa de William Burroughs e mais não sei o quê.

E estava a ver o vídeo e a pensar no que, na véspera, me tinha ocupado a mente na viagem à noite para casa depois de ter feito os meus telefonemas do costume. Conto. Vim a pensar que, um dia que tenha tempo, gostava mesmo de escrever. E, como sempre acontece, de imediato a minha mente mostrou como é fútil. Em vez de pensar no género que iria abraçar, nos temas que me cativariam, na disciplina que teria que ter, etc, não senhores: pus-me a pensar onde é que me iria instalar. E, como sempre, vou elencando possibilidades: na secretária do escritório? Não. Teria que limpar a secretária que está cheia de tralha (até um monitor dos antigos ainda lá jaz), teria que arranjar outra cadeira (a cadeira que lá está é muito clássica, de pele, pouco ergonómica), teria que arranjar um melhor candeeiro (o que lá está é lindo demais, tem um abat-jour em tecido plissado e um elegante pé de vidro mas é desapropriado para iluminar uma escritora). Depois pensei que me sentiria ali sozinha. Não gosto de me sentir sozinha. Talvez preferisse trabalhar na mesa redonda que está junto à janela aqui nesta sala mas, lá está, teria também que arranjar outra cadeira já que as cadeiras desta mesa são cadeiras seculares, que já vieram de casa dos meus avós. Mas não sei se aqui nesta sala teria concentração. Para já também que teria que tirar de cima da mesa todos os livros que ali se foram alojar. Aliás, estou a precisar de uma estante adicional. Mas não sei onde metê-la. Pensei então que o melhor mesmo seria se conseguíssemos comprar o andar ao lado do nosso, depois abrir passagem de uma casa para a outra e usar a outra como local de trabalho. Nessa altura, já estava a pensar onde haveria de abrir essa passagem e nenhum ponto me parecia adequado. 


Como se os dilemas não fossem poucos, dei comigo a pensar numa outra questão: se ficar em casa a escrever, será que depois tenho motivação para me levantar, escolher toilette, arranjar-me? Ou ficava com roupa caseira, confortável, cabelo apanhado, sem uma sombrazinha nos olhos? Esta hipótese, que me parece a mais provável, incomodou-me. Então toda a minha roupinha ficará, forever, inútil, arrumada no roupeiro e sem qualquer préstimo? Nem uns brinquinhos, nem uma pulseirinha a fazer pendant? E eu toda mal amanhada, fechada em casa, apenas transitando do quarto para a sala, da sala para a cozinha? Não...

E, conduzida por estes racicínios, pareceu-me que escrever, afinal, seria uma actividade desinteressante para mim.

E, ao chegar a esta conclusão, desiludi-me comigo. Mulherzinha fútil e burra. Então é com estas pepineiras que uma candidata a escritora se preocupa...?

Então, para tentar arranjar uma tábua de salvação, derivei. Devia era viver numa casa maravilhosa, no campo, onde tivesse uma espécie de um estúdio para onde pudesse ir como se fosse para o trabalho e onde pudesse abrir a janela e ouvir os pásaros. Mas, aí, pensei: mas, espera lá, já tenho uma casa no campo e até lá há um estúdio assim. Mas ia para um estúdio onde ficasse sozinha? Nem pensar. Mais: aposto que, em vez de ir escrever, ia mas era varrer, limpar as teias de aranha, dar cera de abelha nos móveis, lavar e estender roupa. Ou, então, tinha que ir inspeccionar o que o meu marido andaria a fazer. Às tantas andava de roçadora a cortar mato, levando alfazema, alecrim e orégãos tudo à frente. Nem pensar em ficar fechada num estúdio com ele à solta, a fazer estragos por todo o lado!


Portanto, já à chegada ao meu destino sem ter conseguido chegar a uma conclusão construtiva, vinha incomodada. Querem lá ver que não conseguirei ser escritora só porque não consigo escolher o lugar onde escrever...? E concluí: 'Não me parece normal. Coisa mais patética'.

E juro que isto se passou assim, tal e qual. Parece-vos normal? Acham que com esta cabecinha oca alguma vez daqui pode vir a sair escrita que se veja...? A mim não.


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John Giorno mostra o bunker de William Burroughs
[Step inside ‘The Bunker’ in New York, the windowless former apartment of the legendary writer William S. Burroughs, and let yourself be guided around – from Burroughs’ typewriter to his shooting target – by its current resident, the iconic poet John Giorno. (...)]


E John Irving em casa


E acabei por ir dar a Steiner. E se gosto de ler o que ele escreve, não é menos bom ver os seus olhos cintilantes e o seu rosto com um sorriso gaiato e ouvir as suas palavras sempre certeiras. O vídeo está legendado.

Aqui Steiner conversa com António Lobo Antunes


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As fotografias,  tão lindas que quase parecem abstractas, são da autoria do fotógrafo e arquitecto Tugo Cheng e mostram um método tradiconal de pesca no sudeste da China.

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segunda-feira, dezembro 11, 2017

Como uma estrela explodindo, eterna e sem duração






Eu era fã dos Livros do Brasil. Aquela editora era um guião cultural para mim. Uns livros puxavam outros. Uns autores abriam-me a porta a outros. Quando ia à Feira do Livro era lá que a colheita era mais segura. 

Steinbeck veio, certamente, assim. E o que eu gostava daquela prosa crua. Livro após livro. Não sei se hoje, relendo, acharia o mesmo. Mas é o que guardo: uma escrita viril, palavras que me traziam a dureza, os sentimentos crus, uma rectidão que eu aprendia a respeitar, uma secura de prosa que continha a vida inteira lá dentro. 

Procuro na Paris Review. Não chegou a dar a entrevista que tinha em mente. Adiou, adiou até que se esgotou o tempo. O que leio são extractos, apontamentos, cartas.

Da introdução a essa resenha feita por Nathaniel Benchley em 1969, retiro isto: 

Há muito tempo, atribuiram-lhe uma citação segundo a qual o génio seria um rapazinho a perseguir uma borboleta por uma montanha acima. Mais tarde afirmou que o que dissera relmente fora que o génio é uma borboleta a perseguir um rapazinho montanha acima (ou uma montanha perseguindo uma borboleta por um rapazinho acima, não me lembro bem) e acho que, de muitos modos, se sentia incomodado por ter apanhado a sua borboleta tão cedo.
Acho extraordinárias estas definições e variações em torno do intangível conceito de 'génio'.

E agora a palavra a John Steinbeck:
O dever do escritor é elevar, ampliar, encorajar. Se a palavra escrita contribui alguma coisa para o desenvolvimento da nossa espécie e da nossa cultura em expansão, foi isto: a grande literatura foi um apoio a que recorrer, uma mãe a consultar, uma pedra de toque para identificar os tropeções da insensatez, uma força na fraqueza e uma injecção de coragem para a cobardia doentia.
(...)

Quando escrevo, às vezes sinto que estou muito próximo de uma espécie de inconsciência. Nessa altura, o tempo altera-se e os minutos desvanecem-se numa nuvem de tempo que é uma só, tem apenas uma duração. Já pensei que se fosse possível desligar a nossa preocupação com a duração, o tempo poderia não a ter. Nesse caso, toda a história e pré-história poderiam efectivamente ser um clarão sem duração, como uma estrela explodindo, eterna e sem duração.


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O discurso de Steinbeck ao ser agraciado com o Nobel em 1962



John Steinbeck, biografia de um escritor americano



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E, por falar em genialidade, lá em cima, numa gravação de 1932, Schnabel interpreta Beethoven Sonata 30 E Major 1st Mov Op 109 

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E caso não se importem de continuar no mesmo comprimento de onda, queiram, por favor, descer ao encontro do monge budista que engoliu um canário: Henry Miller.

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segunda-feira, fevereiro 06, 2017

Ode à alegria



Já conto. 

Tenho de novo cá os meninos que por cá pernoitaram nas últimas três semanas mas, agora, a mãe não está. Fui buscá-los a casa da avó materna, depois fomos a casa deles buscar as mochilas e as roupas, depois, já cá em casa, tomaram banho, jantaram, lavaram os dentes, ela escreveu (com alguma ajuda) uma mensagem aos pais a dizer que tinha muitas saudades. Depois ficou, com algumas lágrimas nos olhos, que tentou disfarçar, à espera da resposta. O pai respondeu que amanhã vem cá tomar o pequeno almoço com eles e que à hora de almoço vai buscá-los à escola. Ficou toda contente. Ele, o puto reguila, não estava neste chamego, andava a rebolar-se em cima da minha big bolona, apesar de lhe dizermos que estivesse sossegado, não fosse magoar-se. A seguir, hora de cama. Ele ainda foi buscar a guitarra e estava a preparar-se para uma rockalhada. Disse-lhe que não era hora disso, era hora de cantigas de embalar. Começou, então, por si, a cantar aquela do José Afonso 'o meu menino é d' oiro, de oiro fino, não façam caso que é pequenino', enquanto dedilhava. 

Lá os consegui deitar, beijinhos, beijinhos, soninho descansado. Mas, dada a excitação, não é certo que daqui a nada não me chamem. Por isso, já cá volto. Agora apenas a Ode à Alegria.



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A todos vós, meus Caros Leitores, desejo uma semana muito boa. a começar já por esta segunda-feira.


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domingo, janeiro 08, 2017

Mário Soares:
o velho leão adormeceu mas a estrela que o habitou continua a brilhar


Aqui há dias li, já nem sei onde, uma coisa que me pareceu bem: que as pessoas são espíritos que transitoriamente se alojam em corpos que esses, sim, são passageiros. Ou seja, entram num corpo, ficam nele até esse corpo sucumbir, ficando, então, livres para se alojarem num qualquer outro.

Sou por natureza, formação e profissão completamente racional.

Contudo, há em mim um espaço disponível para acolher ideias que não entendo ou não tenho como explicar. Admito que possa acontecer que, um qualquer dia, a ciência venha a explicá-las. Assim é com isto da vida, da morte, do sentido do ser. Nada sei sobre o assunto. No entanto, admito como prováveis algumas hipóteses muito pouco evidentes à luz do que hoje sabemos.

Mário Soares. 

Não me parece que o velho combatente tenha morrido. 

Vou tentar falar no passado apenas para que o texto soe coerente face às notícias que dão conta da sua morte. O corpo estava cansado, a mente, que tão vibrante foi durante anos, estava como que saturada. Mas, para todos que o conhecemos, ainda que de longe, está vivo.


Vejo-o na televisão enquanto escrevo. Uma bela entrevista, na RTP 1, conduzida por Fátima Campos Ferreira. E a vida dele transborda, a sua imensa vitalidade, a sua jovialidade, irreverência, a sua tolerância, carisma, inteligência, a sua coragem, a sua capacidade de intuir o que ainda mal tinha começado a desenhar-se no horizonte. 


Há uma intemporalidade na sua capacidade de lutar pela democracia e pela liberdade. Sempre vi Mário Soares na linha da frente -- desde o 25 de Abril (e é sabido que antes disso) até aos últimos dias da sua vida lúcida.
E há o que sempre muito me agradou: uma altivez que o colocava num patamar superior ao das fracas figuras da baixa política.

Ao longo dos muitos anos em que se manteve na ribalta, nunca me senti envergonhada ao vê-lo em acção. 

Nunca o vi rebaixar-se, nunca se colocou numa posição subalterna fosse perante quem fosse. A sua atitute confiante e desprendida, a sua capacidade de lutar como um leão, o seu charme, a sua bonomia e a sua determinação tornaram-no, desde sempre e em qualquer circunstância, uma figura política maior.

Desde o nome, cheio de vogais abertas, até à sua figura física, todo ele era uma figura solar. O seu riso, o seu amplo gesticular, a sua assinatura franca, tudo nele é solar, luminoso, iluminador.

O seu exemplo, as suas imagens, as suas palavras serão sempre recordadas e estou certa que o povo saberá sempre honrar a sua memória, mantendo-a viva, vigilante. Sempre que algum espírito medíocre pretenda atentar contra a liberdade ou a democracia, espero que nos lembremos sempre de Mário Soares e de como, em idênticas circunstâncias, se levantaria para enfrentar os riscos, dando o peito às balas, erguendo a voz, o punho.

Como apontamento pessoal que, para o caso é absolutamente insignificante, recordo o seguinte: embora identificando-me politicamente com as suas causas, dado que não sou militante ou activista política nunca estive em comícios ou manifestações ou o que quer que seja onde ele estivesse presente. Mas lembro-me de, um dia, estar a passar à frente da Biblioteca Nacional e me cruzar com ele, vindo ele da sua casa ali ao pé. Uns passos à frente, voltei-me para trás, para o ver. Estava ele também virado para trás para me olhar. Segui em frente e pensei que era, então, verdade que ele, não obstante ser marido amantíssimo da sua querida mulher, Maria Barroso, companheira incondicional de toda a vida, era um apreciador de mulheres. Quando me lembro dele, essa sua imagem vem-me à ideia. 

Sou amiga de uma pessoa que lhe foi próxima e que sempre me falava dele, contando episódios pessoais que revelavam o seu lado de bon vivant, de bom conversador, o seu mau génio, o seu bom génio, a sua graça, a sua amizade.


E essa imagem de ser humano cordial, polémico, mesmo truculento, divertido, junta-se à de político livre, democrata, corajoso. Soares é fixe sempre foi uma sua imagem de marca. O Bochechas, outra. E qualquer delas mostra o afecto que os portugueses sempre sentiram por ele. E sempre sentirão.






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Como todos os grandes navegadores, Mário Soares não esperou pelo vento de feição e bolinou para encontrar o vento necessário para seguir o seu rumo, sem nunca errar quanto aos pontos cardeais nem tergiversar quanto ao porto de destino.


Quem o diz é António Costa num tocante artigo no DN que termina assim:

Não há ninguém insubstituível? Sei que ninguém substitui Mário Soares no lugar que é seu na história do Portugal democrático.
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Permito-me ainda recomendar a leitura do artigo de António Valdemar no Expresso: Soares, tal e qual. O episódio que envolve Natália Correia é suculento. Mas todo o artigo, de tão pessoal, nos aproxima mais do homem Mário Soares. 



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