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quinta-feira, janeiro 07, 2021

O estranho ano de 2020

 

Quando, daqui por um ano, se fizer a resenha do mais relevante em 2021 haverá muito a dizer: a eficácia ou não da vacina, o sucesso ou não da operação logística relacionada com o seu fabrico, armazenagem e distribuição, a sustentabilidade ou não dos regimes democráticos face à inquietante evolução do populismo e do desvario popular, a absurda reacção de Trump face à sua derrota, a terrível mortandade entre os mais velhos, o declínio de vários sectores da economia, alguns deles de forma irreversível. Também haverá coisas boas a reportar, caminhos que começaram a desenhar-se. Mas, neste momento, qualquer futurologia parecerá deslocada. Acontecem agora coisas tão surreais que a normalidade começa a parecer uma ficção. A invasão do Capitólio por toda a espécie de grunhos que apoiam Trump vai para além de qualquer possível previsão. Os modelos matemáticos que se usam para fazer previsões assentam no estudo de padrões. Ora num mundo caótico em que os principais dirigentes são destituídos de princípios é impossível antever o que pode vir a acontecer. A aleatoriedade é total, fruto da medicação que tomam ou da ausência de medicação em situações em que ela era imprescindível.

E se, a nível pessoal, 2020 foi para mim um ano emocionalmente intenso, com sustos, medos, uma perda, mas também contacto profundo com a natureza, ainda maior estreitamento de relações com os mais próximos, a verdade é que foi também um ano de várias mudanças, todas profundas. Não sei o que o 2021 me reserva. Se consultar os astros vejo desafios, conquistas, poder. Coisas assim. A habitual falta de sossego. E tudo efémero.

Mas não interessa o que se pensa que pode ser, o que interessa é o que vamos fazer para que seja como gostaríamos que fosse. E o que passou já passou e nem vale a pena chorar sobre leite derramado, o que vale a pena é perceber que o que aconteceu aconteceu porque estávamos na rota para que tivesse acontecido e que, se não mudarmos de rota, os erros voltarão a acontecer.

Hoje não consigo dizer muito mais: continuo com dores, continuo com frio, continuo com sono. Continuo a trabalhar como se estivesse bem mas não me sinto bem. The show must go on. Não sou insubstituível mas as reuniões que tenho que ter neste arranque de ano estão no caminho crítico para que as coisas tenham maior probabilidade de correrem bem. 

Antes de ir descansar partilho dois vídeos com factos de que não iremos esquecer-nos. Para memória futura.



Dias felizes.

quinta-feira, dezembro 31, 2020

Na rua

 

Nada pode ser tomado como garantido. Nada, nada, nada.

Amores eternos soçobram ao fim de algum tempo. Paixões que se julga fortificadas por unirem almas que quase parecem gémeas esbatem-se e acabam reduzidas a nada. Empregos maravilhosos acabam sem que as pessoas tenham nisso qualquer responsabilidade. Pessoas saudáveis descobrem que afinal, sem o saberem, estão doentes. Gente que se acha o máximo, tratando os outros com mal disfarçada sobranceria, acaba, de um dia para o outro, por ser alvo de desprezo ou chacota. Qualquer de nós já testemunhou ou viveu situações destas. Por isso, quem se sinta titular perpétuo de privilégios, sejam de que natureza forem, está apenas a candidatar-se a um balde de água fria que o deixe desolado até à quinta casa. Mais vale a gente sentir-se agradecida pelo que tem e, a cada momento, estar mentalizado para a probabilidade de, um dia, ter que voltar à casa de partida e, passo a passo, voltar a conquistar tudo (a casa, o trabalho, o amor, a saúde, o respeito alheio, a dignidade)

Muitas quedas, doenças e desgostos podem quase anular uma pessoa e imagino o brutal esforço que é necessário para que se reergam, refaçam, reinventem. Imagino também que, se isso acontecer sem apoio ou companhia, seja muito mais difícil. Por isso, é importante que estejamos despertos para perceber quem, junto a nós, precisa de ajuda. Contudo sei também que muitas vezes quem o precisa não o pede: para não preocupar os outros, para não assumir a sua própria vulnerabilidade, com receio de inspirar pena ou repulsa. Reconhecer que se tem um problema e que se precisa de ajuda é fundamental e requer, muitas vezes, uma grande coragem.

O vídeo que abaixo partilho mostra-nos Paul, um jornalista desempregado, sem casa. A sua bonomia e a esperança que o anima são comoventes. 

Paul is a journalist.  Since losing his job, he has hitchhiked over 36 000km in 15 months across South Africa, looking for work. In a country described as one of the most dangerous in peacetime and with unemployment of well over 30%, his efforts have been in vain. But his journey has taught him many lessons about the kindness of ordinary people.

"We all have problems, we all have challenges.  But we all have the ability to do some good." - Paul 

Talvez o título 'On the road' devesse ser traduzido não por 'Na rua' mas, talvez, simplesmente, por 'Na estrada' ou 'A caminho', em especial pelo seu incansável caminhar, não menos do que uma média de cerca de oitenta quilómetros por dia ao longo de quinze meses. Comecei por intitular o post por 'sem nada' mas também não é verdade que Paul não tenha nada. Tem. Tem um sorriso cativante, tem força anímica para continuar a tentar ter uma vida mais segura, tem ainda o gosto pela leitura e pelos outros, tem esperança. Por isso, talvez tenha o que é necessário para continuar a procurar uma vida melhor. Fica, pois, simplesmente, 'na rua' 


E entrei naquela fase de despedidas do ano que me leva a expressar desejos para o ano que vem.

Por exemplo, gostava de dizer que penso que deveremos sentir compaixão pelos que, sem que alguma vez lhes tenhamos feito algum mal, nos insultam, nos tratam desrespeitosamente. Mas só até ao ponto em que o que nos fazem de mal não nos afecte. A partir daí, há que ter a coragem de lhes dar um claro 'chega para lá', em especial quando o mal já roça a violência, mesmo que apenas psicológica. Em contrapartida, é bom que demonstremos a nossa estima pelos que nos querem bem. O afecto é um dos motores da estabilidade emocional e a sua demonstração, mesmo que não efusiva, é a base na qual assenta a harmonia entre as pessoas. Claro que há muitas pessoas que vivem sozinhas, sem contacto com família ou com amigos, e estão bem assim. Talvez alguns deles tenham amigos virtuais e, de vez em quando, descarreguem as suas frustrações insultando 'conhecidos' por quem alimentam ódios de estimação. Para esses também deveremos, creio eu, reservar alguma compreensão. A vida é curta. Saborearemos melhor o privilégio que nos é dado por vivermos se o fizermos em paz, connosco e com os outros.


As fotografias são da autoria de Steve McCurry
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Que de 2020, ainda assim, vos fiquem bons momentos.
Que o 2021 venha por bem.

sexta-feira, janeiro 03, 2020

Relato dos meus dois primeiros dias do já glorioso 2020
com reportagem fotográfica do 1º dia, cá em casa







Hoje, ao regressar ao trabalho, depois de longos dois dias de férias, toda a gente me perguntou se tinha passado bem o ano. Como desde há muito aprendi que não vale a pena a gente agarrar-se a insignificâncias, guardei para mim o que, a todos, me apetecia perguntar: 'Refere-se a se passei bem o ano 2019? Ou seja, se o ano passado foi bom? Ou quer simplesmente saber se a passagem de ano, o exacto momento em que saímos de 2019 e entrámos em 2020, foi bom?'. Portanto, não verbalizei a dúvida e limitei-me a dizer que foi bom, foi sim senhor. O último, mal eu disse que sim, passou para si próprio e disse-me: 'Eu também. E também fui para a terra, juntei lá a malta toda.'. E eu voltei a guardar para mim a dúvida: 'Também foi para a terra? Também porquê?' É que não fui para terra nenhuma, fiquei em casa. Mas, pronto, não estou para incomodar as pessoas. Se eu fosse por aí passava a vida a desmontar vícios de raciocínio. A vontade que às vezes tenho de dar uma aula prática sobre silogismos... Mas, na volta, eu é que ainda passava por maluca por isso está quieto ó preto.
Ai, credo, que expressão mais estúpida de que me fui lembrar. Soa a racista. Que coisa. Acho que já nem se diz. Deve ter caído, e justamente, no desuso onde se juntam as bocas politicamente incorrectas. Nem sei porque é que agora me lembrei de escrever uma coisa destas. Devia era apagar. Mas não me ocorre uma expressão equivalente. Está bem abelha não tem o mesmo significado. Bem. Se me ocorrer, subsitituo; e apago esta conversa toda.

Adiante. 

Passei o dia de Ano Novo cá em casa. Temos isto: abrir o ano todos juntos cá em casa. Gosto mesmo. Cozinhar para a malta toda, andar em stress a ver as horas a passar, eles todos quase a chegarem e eu ainda com tanto que fazer, o meu marido furioso por eu me pôr sempre a fazer tanta coisa, que só complico em vez de facilitar, eu a querer que ele vá preparando as tapas ou coisas assim em vez de estar a chatear e ele, porque teme o caos no meio do qual me movimento bem, a querer lavar a louça que vou sujando a grande velocidade. E eu, à última hora, sem saber se as coisas vão ficar boas porque, como sempre, invento as receitas. E a ver o tempo a passar e ainda a querer ir tomar banho, vestir-me, pôr um discreto smoky look nas pálpebras superiores, dar um jeito no cabelo, quiçá dar-lhe com o secador para não abrir a porta com o cabelo a escorrer. E a olhar para o relógio e a achar que já não vai dar.


Mas a pica dá-me para acelerar e, quando chegam, estou sempre pronta e a comida (quase) toda pronta. Desta vez houve este irritante quase. Tinha decidido fazer uma espécie de pão de alho. Mas com o forno cheio desde manhã com salmão sobre cama de lascas de pêra, com arroz de carnes e com bola folhada de paté home made (noutro dia logo digo como fiz), só consegui lugar para o dito pão já eles estavam mesmo quase a chegar. É que, ademais, só teria graça se estivesse quentinho. Mas a gaita é que não consigo fazer as coisas de forma normal. Lembrei-me de comprar duas bases de pizza. Só que aquilo é fininho, fininho, um rolinho de massa que não é fácil de desdobrar. O rolinho vem estendido, enrolado sobre uma folha de papel vegetal. Só que para pôr na grelha do forno sobre o dito papel vegetal, deve pôr-se azeite entre o papel e a massa. Ora, ao despegar a massa para pôr o azeite in between, abriam-se buracos no raio da massa. Uns nervos, eu cheia de pressa e aquilo a abrir-se e a perder o jeito de círculo. Enfim, só visto. E, então, numa, por cima, pus azeite, alho picado (não muito), orégãos em folhinha seca e uns filamentos de alecrim. E noutra pus mozzarella e alecrim. Só que, de tão esticado aquilo ficou, uma ocupou toda a grelha do forno e a outra teve que ficar sobre um tabuleiro. E pôr aquilo no forno para não se desmanchar de vez...? Não dá para acreditar na ginástica. Percebi porque é que usam aquelas grandes espátulas, com cabo grande para pôr as pizzas no forno. Mas, pronto, a verdade é que ficaram boas. Cortou-se cada uma aos quadradinhos e, em menos de um foguete, já não havia quase nada. Mas só as tirei do forno já estava a maltinha toda em volta da mesa e eu gosto de, com eles amesendados, já estar tudo despachado e, desta vez, ainda não estavam estes finalmentes. 


Não sei se já contei que tivemos que comprar uma mesa adicional. Foi o mais parecido que encontramos com a outra mesa, a grande. Só que é ligeiramente mais baixa. Encosta-se à outra e fica um desnível. Mas não faz mal. Fica para os mais pequenos.

Ou seja, o primeiro dia do ano foi muito feliz, foi como gosto dos dias felizes, um dia alegre, cheio de bons auspícios (seja lá o que isso quiser dizer).

À tarde, enquanto brincavam, conversavam, jogavam bingo, faziam puzzles, andavam às lutas, confraternizavam, riam e etc. eu andava a fotografá-los. Já não ligam, não sentem que eu os estorve. E eu vou registando estes momentos bons. 


Quando, já noite, se retiraram, nós ficámos a repôr o décor e, nessa faxina, como sempre, fui descobrindo despojos que me fazem rir, coisas que guardo com carinho.

Já de tarde tinha fotografado a loja que a menina mais linda montou, escrevendo que vendia molduras, acessórios e origramis e que só aceitava dinheiro de papel! mas, no fim, ainda achei um manifesto que foi colado num vidro onde um dos meninos protestava por não ter podido usar mais tempo a PS4 ou um cartaz feito numa folha a dizer: Ca lá boca, cantas mal!



Mas isto foi no dia 1, o dia inaugural.

No dia 2, dia de regresso ao trabalho, fomos almoçar a um centro comercial porque a camisa para o fim de semana que era, porque era, M, afinal não era o M coisa nenhuma mas, obviamente, um L. Depois fomos almoçar e, mal ele se raspou, queixando-se que já estava atrasado, eu olhei para o relógio e achei que o ano tinha que começar com todos os condimentos.

Então, jurando que ia numa platónica, só olhar, entrei na livraria. Mas, está bem abelha (aqui é que se aplica esta da abelha), platonismo não é coisa para mim. Nasci para pecar. Comecei por catrapiscar. Ia pensando: catrapiscar não tem problema, ainda cai na categoria do platonismo. Por fim, já andava a passar-lhes a mão pelo pêlo, depois a olhar com tentação, por fim já a espreitar-lhes as entranhas. E, finalmente, já a o acto estava a caminho de se consumar, já a chamar um figo a um, vi um outro que, provavelmente, por estar com um certo sentimento de culpa, me fez pensar que, para atenuar o pecado, devia arranjar também um para o meu marido. Refiro-me a um livro, bem entendido. E assim foi que, ao segundo dia do célebre 2020, saí da livraria com dois books na mão: um supostamente para mim, com o sugestivo nome de Um cavalo entra num bar, romance de David Grossmann, e outro, o tal quiçá para o meu marido, Mafia Life de Federico Varese. Quando lhe disse que tinha trazido o livro para ele, ficou muito admirado: 'Porquê?!'. Compreendo o pasmo: ainda não sabe que vai gostar.


Quanto ao resto, passei ao largo. Saldos all over, gente ajoujada com sacos e mais sacos, e, nas montras, soldes, rebajas, descontos, baixas percentagens, tudo com descontos de arrasar. E eu, queixo erguido, superior a essas tentações vãs e mesquinhas. Roupa barata? Quero lá eu saber. Como um mantra, ia, em pensamento, repetindo: Não preciso, não preciso, não preciso. Com as arrumações que fiz nos últimos dias do ano velho, ganhei várias peças de roupa que andavam esquecidas e que, sem enchumaços e lavadinhas, estão como novas.

Só que, já a caminho da escada rolante, deu-me o cheiro. Pensei logo: caneco, lá vou ter que pecar outra vez. Uma perfumaria. Olhei: descontos até 60%. Avancei que nem raposa a galinha. Sondei, farejei, rondei. Só que o mantra não me largava: não preciso, não preciso. E consegui: saí sem nenhum perfume. Vitoriosa, campeã do anti-consumismo. Mas, à saída, um da Gucci de que ainda não tinha ouvido falar: Bloom Ambrosia Di Fiori. Não sou apenas sensíveis a belos olhares, a sorrisos maliciosos ou a bons perfumes: sou também sensível a bons nomes. Levantei a tampa do tester. Cheirei. Pareceu-me bem. Pulverizei um pulso. Cheirei. Depois o outro. Cheirei. Depois, na despedida, uma generosa pulverização na echarpe azul com flores rosa e brancas em volta do pescoço. E assim me retirei: sem consumar o pecado mas com o cheiro dele em mim.

Resultado: toda a tarde andei com mixed feelings sobre o dito. Quando cheguei ao pé do meu marido, mostrou-se intrigado e, direi mesmo, muito pouco entusiasmado: 'Mas que raio de perfume é esse?'. Expliquei-lhe que me tinha perfumado à hora de almoço, com um perfume de teste. Abanou a cabeça, desconsolado. Não lhe parece bem que a mulher faça coisas destas. Mas obviamente não quero saber desses seus estados de alma. Agora uma coisa é certa: aquela ambrósia não me convenceu. Já do cavalo que entra no bar acho que vou gostar.


Posso ainda acrescentar que, enquanto ia na escada rolante, espreitei o blog e dei com o comentário de uma pessoa -- de quem não digo o nome para ele não voltar a sentir pudor -- a dizer que estava para disparar um link do post até ler a último parágrafo. Assim de repente, fiquei a pensar: ó caraças, devo ter escrito porcaria da grossa. O que terá sido? Ideia parva? Erro ortográfico cabeludo? Pontapé gramatical de dar dó? Pensei: caraças, tenho que tirar já isso a limpo. Para além da carteira ao ombro, tinha o bilhete e dinheiro para pagar o parque numa mão e estava com os dois livros no braço e o telemóvel na outra mão pelo que tive que parar não fosse haver desastre e ir tudo parar o chão, nomeadamente o telemóvel pela centésima vez.

Consultei o post e... oh la la: era simplesmente uma graça, uma modéstia envolta em sorrisos. Sorri também. Tive vontade de escrever logo ali que se deixasse disso mas depois receei que pensasse que estava a fazer-me ao link. Ou, pior, que com a falta de mãos com que estava, a resposta me saísse mal costurada e, portanto, fiquei quieta e segui para o parque. E a verdade é que ainda não sei o que responda.


A chatice, no meio disto tudo, é que hoje tinha uma coisa para dizer sobre os riscos do mundo e, para me levarem mais a sério, até ia invocar o que malta de Davos dixit. E agora é tão tarde que já nem sei o que faça, mais que certo terá que ficar para a amanhã ou para outro dia, um dia que não me ponha para aqui na palheta convosco sem dar pelo tempo a passar.

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E um belo terceiro dia do fantástico ano da graça de 2020

quinta-feira, janeiro 02, 2020

Reparar o planeta. Tentar reencontrar a perfeição.
-- A propósito do Earthshot prize --


by Csaba Daróczi


Convoquemo-nos a todos para a reparação do planeta, a bela casa em que nos foi dada a sorte de nascermos. 

Na aleatória e improvável sucessão de acasos que nos trouxe até aqui, tudo o que deveríamos fazer era dar graças pela concretização do milagre que foi o nosso nascimento e a nossa sobrevivência: deveríamos respeitar as improbabilidades, deveríamos abençoar o habitat que tornou tal possível, deveríamos preservá-lo para que os milagres possam continuar a acontecer.

Sabemos, contudo, que não tem sido que tem acontecido. 

by Justin Hofman

Temos feito tudo ao contrário: temos estragado o planeta, temos desrespeitado todas as formas de vida, incluindo a vida humana, temos olhado para a ponta do dedo em vez de olharmos as estrelas para as quais o dedo aponta. Entretemo-nos com minudências, buscamos defeitos em quem tenta entregar alguma mensagem que difira das banalidades às quais nos habituámos, preferimos ir no diz-que-diz-que e na maledicência ou preferimos virar as costas a causas que nos parecem longínquas.  Diremos: de que serve fazermos alguma coisa, se o mundo está nas mãos de gente ignorante, inconsciente, narcisista, se se sucedem os exemplos de estupidez, de um impensável cretinismo? 

by Tim Rooke

E então, encontrando um alibi para nos despreocuparmos e deixarmos as lutas para outros, lavamos as mãos do que possa vir a acontecer. Acima de tudo o nosso conforto ou a contemplação do nosso umbigo. 

by Noel Guevara

E, no entanto, alguma coisa no nosso comportamento tem que mudar. Do planeta fizemos um mundo e, desde que o fizemos, não temos feito outra coisa que não estragá-lo. 

by Nirmal Purja

Se não invertermos essa destrutiva atitude, a coisa não acabará bem. E será uma pena. 

Por isso, iniciativas como a que o vídeo abaixo se refere são bem vindas. Poderá ser pouco, poderá ser uma gota num vasto oceano, poderá tudo. Mas é uma iniciativa positiva. E muitas mais serão necessárias. Colocar a ciência, a tecnologia, a criatividade, a boa vontade, e o mais que seja a favor da reparação do planeta é louvável.

by David Lloyd
Transcrevo:
Prince William has announced what was described as “the most prestigious environment prize in history” to encourage new solutions to tackling the climate crisis.
The “Earthshot prize” will be awarded to five people every year over the next decade, the Prince said on Tuesday, and aims to provide at least 50 answers to some of the greatest problems facing the planet by 2030.
They include promoting new ways of addressing issues such as energy, nature and biodiversity, the oceans, air pollution and fresh water.
The prize, inspired by US president John F Kennedy’s ambitious “Moonshot” lunar programme and backed by Sir David Attenborough, promises “a significant financial award”, a statement said. (...)


Do conserto do que está estragado façamos um exercício de superação, encontremos novas formas de beleza, reinventemos o conceito de perfeição. Com o devido crédito ao João Lisboa que iniciou o ano com um post que me encantou, um vídeo que, em meu entender, diz muito do que temos que fazer para consertar o planeta (e as nossas vidas, talvez também). 


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Obtive as fotografias no The Guardian, quer na compilação das fotografias mais relevantes de 2019 (a 3ª, a 4ª e a 5ª) quer na das melhores da natureza selvagem (a 1ª, a 2ª e a última). O local e o significado ou a história subjacente poderão ser consultados nos artigos que muito vivamente recomendo.

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Que 2020 seja um ano bom

quarta-feira, janeiro 01, 2020

2020
Um ano que tem tudo para vir a ser um ano extraordinário




Este ano tem boa pinta, é estiloso. Vinte-vinte. Soa bem. Vinte vinte. Não é para qualquer um.

E nós já cá cá temos um pé. Ou melhor, os dois. Temos sorte.

Acho-o ainda mais cabalístico do que o 2000. Quando foi o 2000, achei que cá em casa é que era, e que havia de ser de arromba. Reuni cá em casa tanta gente que nem sei como é que cá couberam todos. No meio da festança, toca-me o telemóvel e aparece-me um colega a perguntar-me se estava tudo bem. Como havia música, risos, conversas e muita confusão, pensei que tinha percebido mal. Mas não, queria mesmo saber se estava tudo bem. Tive que lhe pedir que especificasse a razão da sua preocupação. Falou-me então do so called bug do ano 2000. Percebi então. Era o coordenador do grupo de acompanhamento que tinha sido criado para garantir que todas as empresas continuavam a funcionar. Juro: nem de tal me tinha lembrado, convencida que estava que bug do 2000 uma ova, tudo treta. Penso que não houve um único problema em todo o mundo. Disse-lhe que não fazia ideia, que estava em casa a festejá-lo e que no dia seguinte logo se veria se estava tudo bem. Lembro-me de ter achado que ele tinha ficado desconcertado com a minha resposta. Muito negócio com muitos zeros se fez à conta dos zeros do 2000.


Mas, dizia eu, nem o 2000 me pareceu tão cabalístico. Aqueles zeros todos tornavam-no demasiado gaiteiro. Mas este 2020 é outra coisa: tem balanço, tem charme, tem swing

Temos, pois, a obrigação de fazer jus à boa pinta que o invólucro apresenta. 2020 deve ser um ano especial. E escrevo 'deve' no sentido de 'ter o dever'. É bom que apareçam grandes avanços científicos, que nos surpreendamos com grandes e muito relevantes saltos tecnológicos, é bom que se conquistem importantes acordos no sentido do desenvolvimento humano e da defesa do planeta. É bom que, nos próximos anos, mesmo que longínquos, se fale de 2020 como o glorioso 2020, o fantástico ano 2020. 

Apesar de tudo o que se avizinha e que forçosamente não é bom (o desastre do brexit e os riscos de ainda maiores desagregações, tudo o que se relaciona com o Trump, os populismos que alastram, os desastres climáticos à vista com as consequências que já se constatam, por exemplo na Austrália, etc, etc), espero que os povos saibam encontrar boas soluções, é bom que saibam levantar-se, unir-se e fazer inflectir o descaminho que as coisas levam. Que coisas extraordinárias aconteçam.

É bom também que 2020 nos traga, em especial a nós que só agora começamos a descobrir o prazer do ar livre e do contacto com a natureza, cada vez mais oportunidade para convivermos, para festejarmos e para desfrutarmos o prazer de existir, de estar bem, de estar com quem gostamos.

Não será apenas por formularmos votos que o destino se encarreirará nesse sentido. Mas, se os votos não forem conversa fiada, lacinhos em efémeros embrulhos, mas sim firmes determinações, talvez as coisas corram como as desejamos. Não somos donos e senhores do nosso destino mas a forma como nos aguentamos e como persistimos contra ventos e marés ajuda muito a conseguimos chegar perto dos nossos sonhos.

E mais: 2020 tem todos os contornos dos verdadeiros elegantes. Que seja, pois, o terreno fértil para todas as boas criatividades. Que floresça a literatura, a arte, que os artistas sintam que ao longo do ano corre a seiva que alimenta e desperta os espíritos. Que seja um ano fértil para a música, para a pintura, para as letras, para a arquitectura, cinema, teatro. Dança. Para que o povo venha para a rua celebrar a arte.

Tirando isso, 2020 tem tudo para lhe piscarmos o olho. Aliás, o safado do 2020 nasceu a piscar-me o olho. Saibamos, pois, não decepcionar. Sedução, malícia, graça, humor. Tudo em boa dose. A vida sabe melhor se vier com o devido tempero. Pela parte que me toca, não viro a cara a nada disso e só espero ter quem me acompanhe. A cor é fundamental e não há melhor cor do que o rubor que acompanha os momentos importantes da vida ou não há luz que se perca quando a cor está disponível para a receber. Tempero colorido, especiarias secretas, bailados descarados mesmo que apenas imaginados: que 2020 venha com tudo e nós cá para lhe darmos o devido troco. 

Não preciso falar da saúde. O ano só será bom se vier com saúde. Mas tenhamos força para vergar o que de menos bom apareça de modo a robustecer o nosso corpo, valorizêmo-lo, forneçamos-lhe a comida certa, façamos o exercício adequado, olhemos por ele.

E sejamos bons, generosos, amigos. É bem verdade: o amor é a resposta. É a resposta mas é também a pergunta. E é o enigma. E é o mistério. E é a insolúvel equação, a eterna dúvida, o sobressaltado motor, o sereno amparo, o secreto refúgio, o insondável esconderijo, o indizível atraente abismo, a semente de tudo.


Que o 2020 seja um ano bom demais para se acreditar.

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E, se me permitem, comecemos bem.

Não sei quem ela é, não percebo o que diz. Mas soa-me bem e isso, para já, parece-me um bom começo de conversa.



A querida Luísa, sabendo-me fascinada pela dança, enviou-me um vídeo com Joel Kioko. Não conhecia. Que belo presente foi conhecer este jovem. Não consigo partilhar o vídeo que recebi mas partilho este aqui abaixo:
Joel Kioko grew up in a poor area of Kenya’s capital, Nairobi, and is now seen as the country’s most promising ballet dancer. He has been training in the US but wants to teach young Kenyans about the beauty of ballet.


Voemos também.

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Felicidades.