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quarta-feira, janeiro 29, 2025

É suposto termos medo?

 

Dá vontade de classificar como palhaçada, como se estivessem armados em bons. Ou melhor: em maus. Como se quisessem que a malta se acagace com eles. 

Ele é o que se sabe, tem a mania que é o maior, o melhor, o único. E ela, pelos vistos, não lhe quer ficar atrás. 

Parece que querem que a malta pense que, lá porque eles querem parecer sinistros, o melhor é fazer-se tudo o que querem sem que ninguém solte um pio.



Tenho lido ou ouvido que a Melania está elegante e que quer mostrar-se empoderada. Sobre a elegância não me pronuncio mas sobre o empoderamento o que tenho a dizer é que detesto a palavra, detesto quem a usa, detesto tudo o que a rodeia. E seja isto a propósito de mulheres ou de homens.

O que vejo nas fotografias é gente fechada sobre si própria, fechada aos outros. Melhor dizendo: cagando-se para os outros.

Mesmo que, na realidade, nem um nem outro façam pessoalmente mal a uma mosca -- por exemplo, não deem murros na cabeça de crianças, não estrangulem velhinhos, não torçam o pescoço a pássaros, não andem ao pontapé a cães velhos que já não consigam morder de volta -- a verdade é que fazem muito mal ao mundo. Poluem o mundo, poluem o planeta, agridem o género humano, atentam contra a dignidade e a inteligência do ser humano, desprezam os mais frágeis.

De gente assim, devemos guardar distância. 

Mas quando acontece o impensável e milhões de pessoas votam neles e que, quando o veem a dar ordens estúpidas ou maldosas, ainda os aplaudem, então fica a dúvida: o que podem os outros fazer? Os que não se reveem em nada disto, os que não gostam disto, os que acham que ter gente assim na Casa Branca é um assustador retrocesso civilizacional -- o que podem fazer?

Creio que uma única coisa: não ter medo, não vergar, não ceder. 

A história avança aos soluços, umas para cima, outras para baixo, um passo para a frente, dois para trás, um para o lado, outro para a frente. Analisando a coisa, vê-se que a longo, longo prazo, não se avança muito. Se calhar... até se recua. Mas como se vai para o lado, se calhar, sendo a rota outra, talvez não seja tão dramático assim. Não sei (ou melhor, esforço-me para não ser pessimista)

Sei é que se agora estamos num torvelinho, o mundo aos coices e às patadas, um dia destes a malta vai perceber a asneira que é votar nos porcos que, lá por andarem em duas patas e se vestirem de fato e gravata se acham tão bons ou melhores que os homens, é um barrete dos valentes.

Por isso, há que suster um bocado a respiração porque este mau bocado há-de passar.

terça-feira, agosto 27, 2024

Caro Leitor, não se assuste. Não fuja. Isto não tem que meter medo.
Vou falar, mas muito ao de leve, em Ser mortal

 

Sempre tive pavor da morte. Nunca consegui ver, ao vivo (passe o disparate da expressão neste contexto), nenhum morto.

Há pouco tempo uma amiga contava que, quando a mãe tinha morrido, tinha resolvido que ela iria (ora aqui está outro verbo desajustado neste contexto pois nenhum morto 'vai', quando muito 'levam-no') vestida com uma camisa de dormir branquinha com rendinhas. Depois resolveu mandar fazer uma bandelete com florzinhas para a mãe levar no cabelo. Diz que o pai, quando viu a mãe, disse que ela estava mesmo bonita assim. Perguntei se ela tinha conseguido ver a mãe, Disse que sim, claro. Corajosa.

Também nunca gostei de conversas sobre a morte. 'Ai que mórbido', sempre disse quando o tema deslizava para esse buraco (desculpem o mau gosto da expressão). Fugia a sete pés de conversas sobre doenças terminais, sofrimentos atrozes, estados de quase morte. Parece que tinha medo de ter medo, tinha medo de ficar a pensar no assunto e ficar aterrorizada.

Por isso, morreram-me pai e mãe sem que nunca nenhum de nós tivesse falado em vontades relacionadas com o seu fim. Quer dizer, o meu pai pedia muitas vezes para o deixarmos morrer. Mas ficávamos chocadas, não queríamos que ele dissesse isso, parecia quase coisa de mau gosto (olha que coisa mais estúpida de eu agora dizer). Mas quando ele, coitado, infeliz até à última das suas células, queria que o deixássemos desistir, eu era parva até dizer chega, dizia para ele não dizer isso, dizia que ele estava confortável na sua cama, não tinha dores. Burra, mil vezes burra. Como se estar numa cama (embora sem dores) fosse motivo suficiente para se querer viver.

Mas eu não estava preparada nem fui formatada nem aconselhada nem nada para lidar com uma situação assim. Apegamo-nos à vida daqueles que amamos e não os queremos deixar desistir. Nem paramos para pensar que, com isso, estamos apenas a querer que sofram mais.

Nunca me passou pela cabeça ter uma conversa assim: 'A sua vida vai disto para pior. Por isso, vamos falar francamente. Como gostaria de viver daqui até morrer?'. Nunca. Nunca. Nem teria coragem. Parece que estaria a assumir que admitia que ele fosse morrer. E, assumindo, poderia parecer que estava a desistir. 

Fui muito cobarde. Fingi até ao fim que ele teria razões para estar bem, que não deveria querer desistir. Se calhar, por isso, por me saber frágil, nem ele, nos seus momentos mais lúcidos e deprimidos, foi capaz de me dizer para deixar de ser parva, para cair na real, para assumir de vez que ele era mortal e que merecia poder ter uma palavra sobre como queria viver os seus últimos tempos.

Sobre a minha mãe, ainda foi mais traumático. Estando obviamente moribunda, nunca consegui deixar transparecer que sabia que ela estava por dias, nunca fui capaz de ajudá-la a enfrentar a sua mortalidade. Ela não queria morrer. As enfermeiras diziam que ela chorava e pedia para não a deixarem morrer. Eu ficava transida de medo que ela me pedisse isso a mim pois não saberia o que dizer, seria um sofrimento insuportável para mim pois, deixando que ela percebesse o meu sofrimento, provavelmente fá-la-ia sofrer ainda mais.

Quando a psicóloga da ala dos Cuidados Paliativos me chamou para falarmos, nunca cheguei a perguntar como, perante uma pessoa moribunda, devemos comportar-nos. Eu gostava de ter tido coragem de dizer: 'Vai morrer em breve, mãe. Toda a gente morre. Não é uma fatalidade morrer. Estamos a fazer de tudo para que sofra o menos possível. Não tenha medo, mãe. Não vai custar. Pode ir em paz que eu cá me arranjarei, não se preocupe comigo.' Claro que não tive coragem. Nem de longe nem de perto. O meu comportamento foi o mais oposto disto. Dizia: 'Está com melhor aspecto hoje. Não chore. Já esteve pior, está a melhorar. Tenha esperança'. 

Saía de lá arrasada. Não apenas me era doloroso até ao limite por vê-la assim como vinha atordoada por intuir que a minha cobarde atitude não seria a mais indicada. Ficaria ela mais tranquila se soubesse que eu iria aceitar bem a sua morte? Não sei, não faço ideia.

Já lá vão sete meses que a minha mãe morreu e quatro anos o meu pai. E continuo a achar que a forma como lidei com a sua finitude e com os momentos que precederam a sua morte foi pouco racional, muito dolorosa e que, para eles, não sei se foi a mais adequada ou se queriam também ter agido de outra forma e não o fizeram para me poupar ou porque não venceram os seus próprios medos.

Penso hoje, e penso cada vez mais, que a forma como toda a vida fugi do tema da morte e como fui poupada a isso, não faz sentido. Eu deveria ter estado melhor preparada.

No mês em que a minha esteve internada, às portas da morte, eu vi dezenas de vídeos em que médicos, enfermeiros ou doentes falavam da pré-morte. A minha família achava que eu, ao querer saber mais e mais e mais, estava a auto deprimir-me, corria o risco de ficar passada. Mas não. Estava apenas a querer adquirir algum conhecimento sobre algo para mim totalmente desconhecido. Mas não me serviu de nada. Continuei assustada, sem saber se devia assumir perante a minha mãe que sabia o que se passava ou se devia manter aquela atitude palerma de parecer optimista.

Uma outra coisa em que tenho pensado muito é na fobia e na aversão que a minha mãe tinha a medicamentos. Temia os efeitos secundários, achava que lhe faziam pior do que a doença em si. Por não tomá-los esteve duas vezes internada, o que, curiosamente, ela aceitava bem. Era como se ganhasse uma vida adicional. Pelo contrário ficava deprimida, assustada, aterrada, infeliz quando era convencida a tomar os medicamentos (e não sei se os tomava pois arranjava maneira de nunca ninguém ver). Mas não deveria eu ter respeitado a sua vontade e aceitado pacificamente que a minha mãe não queria tomar medicamentos? Só fico na dúvida pois ela não queria tomá-los porque preferisse morrer. Não. Ela queria viver. Queria era viver sem tomar medicamentos. E isso, em meu entender (e dos médicos), não era possível. Só que nunca houve a coragem de ter uma conversa franca em que num dos pratos da balança estivesse uma decisão consciente de encurtar a vida, embora vivendo a seu gosto, sem medicamentos, e no outro prato a decisão de tomar medicamentos e viver aterrada com os efeitos secundários.

São questões complexas. Ter conversas deste tipo exige preparação, coragem.

De uma maneira ou de outra todos teremos um dia que passar por situações assim ou com pessoas que nos são queridas ou mesmo connosco. Um dia, esperemos que longínquo, seremos nós a estar nas últimas. E, pelo menos pela parte que me toca, gostaria de ter a coragem de falar abertamente nisso com os meus, gostava de poder ajudá-los a enfrentar a situação da melhor forma melhor possível. 

Por exemplo, custa-me pensar que um dia, estando eu ainda lúcida e com vontade de viver, alguém possa decidir por mim que já não posso viver em minha casa, que tenho que ir para um depósito em que os velhos e os incapacitados passam os dias em cadeiras de rodas, a dormir de boca aberta, sem um único propósito de vida. Ou que, perante um cenário complicado, alguém me force a estar acamada, de fraldas, entubada, sem voz activa para coisa alguma.

Ou seja, é um tema que é bom que seja falado, discutido, que deixemos cair os tabus, que sejamos capazes de enfrentar os nossos medos, que conversemos, que troquemos experiências e opiniões.

Finalmente acabei o 'Ser Mortal' de Atul Gawande, médico. É um livro que gostei muito de ler. Fala da sua experiência pessoal e do que tem pensado e estudado sobre o assunto. O livro tem uns anos e os vídeos que aqui partilho também. Contudo parece-me que a realidade é ainda a mesma do que tudo ali se diz.

Dr. Atul Gawande on what we should .be asking in end-of-life care

Dr. Atul Gawande helped transform the conversation about aging and death in his book, "Being Mortal: Medicine and What Matters in the End." The book spent 85 weeks on the New York Times Best Sellers list and is now available in paperback. Dr. Gawande, a surgeon at Brigham and Women's Hospital in Boston, joins "CBS This Morning" to discuss the importance of focusing on how someone wants to live at the end of their life -- not just how to keep them alive.


When Should Dying Patients Stop Treatment? | Being Mortal |

Why is it so hard for doctors to speak openly with their terminally ill patients about death as the end nears? Dr. Atul Gawande, Boston surgeon and author of the best selling book "Being Mortal" had a remarkably candid and intimate conversation with the widower of a deceased patient and apologizes for offering false hope in the end. 

It's the story of Sara Monopoli who was diagnosed with Stage 4 lung cancer during the 9th month of her pregnancy at the age of 34.

Desejo-vos um dia bom
uma vida longa e feliz

quarta-feira, fevereiro 21, 2024

Coragem
- Dasha Navalnaya, a filha de seu pai, olha de frente os assassinos e os cobardes que, disfarçados de pombinhas da paz e enchendo a boca de adversativas, os desculpam

 

O vídeo que aqui partilho tem quatro meses mas mantém-se tristemente actual. Sem meias palavras, com a coragem intelectual física que o pai demonstrou até ao fim, a mesma que a mãe tem também demonstrado, a jovem Dasha, bela como os progenitores, é bem a menina de seus pais. O seu pai foi assassinado, depois de perseguido, envenenado, torturado, privado da liberdade. Mas Dasha não se calará.



Uma família corajosa, aqui em dias felizes

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Podem ser activadas as legendas em português

Lessons from My Father, Alexey Navalny | Dasha Navalnaya | TED

Dasha Navalnaya is the daughter of Alexey Navalny, the politician and leader of the Russian opposition to Vladimir Putin. Sharing the story of her father's poisoning, persecution and current imprisonment, she details what it was like growing up under the watchful eye of government surveillance as her father led a decade-long investigation into the corruption of Putin's regime — and shows why paying attention to what happens in Russia matters to everyone, everywhere.


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Um dia feliz

Saúde. Coragem. Paz.

terça-feira, fevereiro 20, 2024

Coragem

 

É preciso coragem para ser capaz de continuar a dar o peito às balas mesmo depois do seu amado ter sido assassinado. É preciso muito amor a um país para continuar a enfrentar os seus algozes.

Yulia Navalnaya: 'I will continue the work of Alexei Navalny'

Yulia Navalnaya has said in a video address that she will continue her husband's fight for a free Russia, and called on supporters to stand with her against Vladimir Putin. 

In the video posted on Navalny's YouTube channel, she said: 'We know exactly why Putin killed Alexei three days ago. We will tell you about it soon. We will definitely find out who exactly carried out this crime. We will name the names and show the faces.' 

sábado, fevereiro 25, 2023

Amizades improváveis
A tocante coragem e determinação dos ucranianos

 

Um dia viviam bem nas suas casas, tinham família e vizinhos. E no dia seguinte não tinham nada ou quase nada. E, no entanto, continuam a acreditar que novos tempos virão, que conseguirão reconstruir-se, reerguer-se. Habituaram-se a viver com quase nada e, por muito estranho que nos possa parecer, continuam a sorrir.

Se necessário for dão a vida pela liberdade, pelo amor que têm ao seu país. Se de vez em quando pensam na casa e na vida que tinham não conseguem evitar as lágrimas. Mas é nostalgia, não é desânimo. Têm uma incomensurável força dentro de si. 

Nunca os louvaremos o suficiente.

Que haja cobardes e hipócritas que nem com as vítimas da guerra se consigam solidarizar é coisa que me incomoda demais. Que haja gente rancorosa que, em vez de condenar o invasor e exigir que os que estão a soldo do assassino se retirem de vez do território massacrado, antes papagueiam os argumentos do bandido, acusando os que querem ajudar os invadidos é coisa que me deixa mais do que incomodada.

Mas dos vassalos dos invasores e dos assassinos não rezará a história. Melhor: serão arrastados para a sargeta da história.

Em honra dos bravos ucranianos que, com a sua vida, com a sua coragem e amor ao seu país, haverão de conseguir travar a sanha imperialista e assassina de Putin se erguerão mil memoriais, se construirão mil poemas, se inventarão mil pinturas, mil filmes, mil bailados, muitos mil agradecimentos sob muitas formas.

A Ucrânia há-de ser reconstruída e a paz habitará as casas, as ruas e os campos e a alegria dos ucranianos poderá exprimir-se em total confiança e tranquilidade na sua terra.

The Ukrainian comedian who rebuilt a stranger's house: The year that never ended

The Ukrainian comedian Vasyl Baidak sparks an unlikely and enduring friendship with retiree Iryna Terekhova when he joins a group of young people from Kyiv to rebuild her home. 
A devout Orthodox Christian, Terekhova lives in a farming village in the Chernihiv region, where her house was destroyed during the Russian occupation of March 2022. She reflects on a traumatic time when she was forced to share her cellar with Russian soldiers who said they had come to liberate her, but who devastated her village. 
Refusing to leave the area where she has lived most of her life, Terekhova is galvanised by the entrepreneurial spirit of the young Kyiv builders, while Baidak proves that humour is the vital ingredient to bolster their collective spirit.
'I wait for the war to end, that's when our new year will begin. For now, 2022 still continues,' concludes Iryna

domingo, junho 05, 2022

Fadiga...?

 



Ouço falar em fadiga, fadiga da guerra. Fala-se menos porque estamos cansados de ouvir falar da guerra -- é o que ouço. Não é o meu caso. Não falo porque não sei o que dizer de diferente em relação ao que digo desde o primeiro dia. Não posso fazer um post igual todos os dias e, por isso, vou falando de outras coisas. Mas a barbárie a que se assiste está no meu pensamento em permanência.

Tudo o que se passa, dia após dia, reforça o que penso: não há atenuantes para justificar os crimes de Putin, tal como não pode haver perdão e tal como nada do que se passa pode ser esquecido. 

Os crimes filmados, testemunhados, comprovados e vividos em directo por correspondentes de canais de televisão de todo o mundo não podem ser negados, desculpados ou aceites. São crimes brutais, absurdos, injustificados.

A guerra avassaladora exclusivamente causada pela Rússia em território alheio não é apenas um inacreditável atentado ao direito internacional: é ainda a causa e o acelerador de uma crise económica mundial de que ainda não percebemos bem as consequências. O mundo inteiro vai ser vítima do desvario imperialista de Putin e dos seus seguidores.

E não vale a pena algumas pessoas virem dar a entender que tão responsável por esta guerra é a Rússia como a Ucrânia ou quem tem tentado ajudar a Ucrânia. Não vale a pena pois isso é comprovadamente falso. Falso e vil. A Ucrânia é vítima, a Ucrânia é um país que foi invadido e que está a ser destruído pela Rússia. Não há perdão possível para isso. E ainda bem que há estados soberanos que estão a ajudar um país que está ser invadido e destruído. Ainda bem. 

Por facilidade, vou usar, uma vez mais, uma analogia que já aqui usei. Pode ser básica mas penso que é uma ilustração minimamente credível do que se passa no cenário de guerra,

Se o meu vizinho, mais rico e poderoso que eu, resolver que a minha casa há-de ser dele, e se eu, legitimamente, não for na conversa, há alguém de bom senso que ache normal que ele resolva arrombar as portas e entre pela casa adentro, de pistola em riste, montado numa máquina que arrasa tudo à sua passagem?

E eu -- escondida, temendo ser assassinada, vendo-o a destruir tudo, paredes, mobílias, a matar familiares meus -- deverei ceder? Deverei aceitar que ele ocupe a minha casa e me escorrace dela ou me obrigue a trabalhar como sua criada?

Ou, pelo contrário, é legítimo que me defenda?

E não é normal que os meus vizinhos -- conhecendo a sanha assassina do meu vizinho e sabendo que a seguir à minha casa, há-de querer anexar as casas deles -- me ajudem, me deixem pedras e outras munições para eu me defender? 

Pode haver quem diga que, perante a ambição desmedida e a fúria do meu vizinho, a culpada das agressões sou eu que não me deitei no chão aceitando pacificamente que ele passe por cima, para ser roubada, violada, assassinada. Pode haver quem me acuse por me defender ou acuse os meus vizinhos por me ajudarem a defender-me. 

Mas eu, se as circunstâncias fossem essas, enquanto me restasse um pingo de sangue, faria o que achasse correcto: defender-me a mim, à minha família, à minha casa, à minha liberdade, aos meus direitos.

E porque é assim que penso, percebo os ucranianos e desejo que se aguentem, que consigam resistir, que encontrem a coragem e a força necessárias, desejo que consigamos ajudá-los a manterem-se livres, que consigamos ajudá-los a escorraçar as tropas putinistas da Ucrânia. Desejo que todos, todos os que amamos a democracia e a liberdade, lutemos até ao limite das nossas forças para defendermos o que achamos correcto. 

Lamento, choro as mortes, a destruição, o sofrimento ucraniano. Desejo fortemente que a Rússia saia do país que invadiu e que a paz regresse a solo ucraniano. Sou inabalavelmente a favor da paz pelo que desejo fortemente que a Rússia pare a agressão e a destruição que está a levar a cabo na Ucrânia.

E, ao mesmo tempo, desejo que a Rússia consiga resolver o problema interno que tem em mãos e consiga ver-se livre do regime putinista, um regime ditatorial, um regime corrupto, oligarca, déspota, brutal, infernal. 

Como se tem visto, o mundo não será um lugar seguro enquanto um país tão imenso, com o maior número de ogivas nucleares, estiver nas mãos de um psicopata assassino.

Há riscos de que a guerra que Putin semeou na Ucrânia se espalhe e que os riscos escalem e fiquem descontrolados. É certo. Mas se o culpado é um único, o regime putinista, é este culpado que tem que ser travado. E julgado e condenado. E expulso de todos os lugares de onde possa desencadear mais agressão, mais destruição, mais morte.

Só poderá haver paz, uma paz verdadeira e digna, se a Rússia tirar as patas de cima do país que invadiu e permitir que os ucranianos voltem a viver uma vida normal, livres, independentes, alegres e confiantes no futuro.

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As fotografias são da Reuters
A canção é Ой у лузі червона калина (Oh, o viburno vermelho no prado)

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Desejo-vos um bom domingo
Saúde. Afecto. Boa sorte. Paz.

quarta-feira, maio 18, 2022

A força das mulheres

 


Virá o dia, talvez não muito longínquo, em que os russos, em geral, vão revoltar-se contra o que está a acontecer na Ucrânia. Quando as avós, as mães, as mulheres, as namoradas e as irmãs começarem a perceber que os seus bem amados jovens que foram para uma "operação especial" na fronteira e de quem nada sabem afinal não vão voltar, nem vivos e, se calhar, nem mortos, quando souberem que há dezenas de milhares de rapazes russos mortos nas morgues da Ucrânia que a Rússia não reclama, quando for público que, quando tinham tempo, oz próprioz colegaz de armaz queimavam os que tinham morrido ou os escondiam em valas comuns, a revolta vai ser incontrolável. In-con-tro-lá-vel. 

Que ninguém subestime a ansiedade de uma mãe que não sabe do seu filho e a sua raiva quando suspeita que alguém o tratou mal. Todas as mães viram lobas, todas as mães lutam seja contra quem for pelos seus filhos. No receio e na raiva de que a vida dos seus filhos tenha sido ceifada, qualquer mãe arrisca tudo -- porque nada mais tem a perder.

Se agora os que se manifestam são presos -- e desde a invasão mais de 15.000 russos já foram presos --, depois será impossível reprimir a revolta popular e prender todos quantos se insurjam. As ruas encher-se-ão de gente que chorará, gritará, exigirá a verdade -- e os corpos dos seus filhos. As mulheres russas não perdoarão o que Putin fez aos seus meninos. Mesmo os meninos que sobrevivem, virão transformados, loucos de arrependimento pelos roubos, pelas violações, pelas torturas, pelas mortes que cometeram. Virão loucos de raiva pelo que foram obrigados a fazer. E as suas mães, as suas mulheres, não encontrarão desculpa para o que Putin obrigou os seus meninos a fazer.

Além disso, a contestação pública começa a ganhar novos contornos: na televisão estatal um comentador militar já teve coragem para assinalar o fracasso da dita "operação" bem como a rejeição mundial generalizada. 

Os russos vão acordar. Vão perceber que afinal andaram a ser manipulados, enganados, vão perceber que estão mais pobres, mais isolados e que os seus familiares, involuntariamente, causaram crimes imperdoáveis contra um país que não tinha feito mal a ninguém.

Não vão perdoar.

Cercado, humilhado, derrotado em toda a linha, não haverá, então, quem defenda Putin. 

Apenas aqui, na ponta da Europa, encostados ao Atlântico, uns quantos sobreviventes do comunismo lusitano continuarão a defendê-lo. Talvez não mais que uma dezena. Talvez ainda mais uns quantos, que se contarão pelos dedos da mão, de pessoas baralhadas, daquelas que, desnorteadas por teorias da conspiração e filosofias descontextualizadas, nunca sabem bem como interpretar o que se passa à sua volta.

Não sei como vai acabar Putin mas a sua história não terá um final feliz. 

Entretanto, mais de oito milhões de pessoas foram desalojadas, muitas das quais fugindo do país, muitas das quais perderam empregos, casas, familiares. Pessoas mortas não têm ainda um número. Vão-se descobrindo. Gente que ficará traumatizada para o resto da vida é algo que talvez nunca se consiga contabilizar.

Gente que viu morrer outros, alguns viram morrer os pais, os filhos, as mães, os irmãos. E gente que viveu com familiares mortos ao seu lado. Dores que não se esquecem nem se perdoam.

E agora mais uma história: um de três irmãos sobreviveu depois de ter sido enterrado vivo. Os irmãos não sobreviveram.

E isto porquê? Porque Putin e a seita que o acoberta têm como ambição reconquistar os países que antes pertenceram à União Soviética, porque Putin e os seus só conhecem a força bruta, porque Putin e os seus ignoram a sua condição humana e a condição humana daqueles a quem destroem. 

Entretanto, um dia ainda viremos a saber o que vai acontecer aos militares que saíram de Mariupol depois de heroicamente terem tentado defender a cidade das mãos dos russos.

Há quem pense que deveríamos todos ter achado muito bem que os russos os tivessem tentado matar à fome e à sede, destruindo, en passant, completamente um dos grandes complexos siderúrgicos da Ucrânia. Eu não penso. Há quem pense que são, todos eles, nazis.  Eu não penso. 

E acho que, independentemente de tudo, são heróis e comovo-me quando penso no que sofreram, tanto, tanto, e na sua inacreditável coragem.

É hoje claro e documentado que se alguns dos militares de Azov são da extrema direita há muitos que são apenas tropa de elite, militares de eleição, certamente muitos daqueles que gostam de lutar até ao fim, gente com alma de comando ou fuzileiro (conheço alguns, daqueles que falam com saudade de quando andavam a rastejar na lama, às escuras, daqueles que passavam fome e sede e não se queixavam, daqueles que achavam, e acham, que se a missão era defender um pedaço de terra ou levar até porto seguro os 'seus homens', era isso que fariam até ao último pingo de sangue).

Estes, nos subterrâneos da fábrica, defenderam os milhares de civis que lá se abrigaram, defenderam os camaradas que caíram feridos, defenderam aquele pedaço de terra, defenderam os corpos dos que morreram e lá ficaram. Defenderam o que puderam até que, humanamente, não conseguiram mais.

E quero aqui dizer uma coisa. Se o meu país estivesse a ser atacado, destruído, se a população do meu país estivesse a ser dizimada, se os russos atirassem mísseis e uma verdadeira chuva de munições sobre o meu país, se os russos quisessem anexar o meu país, se eu fosse corajosa como gostaria de ser eu aceitaria ajuda de quem nos quisesse ajudar a defender a nossa independência e a nossa liberdade, mesmo que fossem de extrema direita. Depois de expulso o agressor, eu e os de extrema direita ou de extrema esquerda ou quem quer que tivesse sobrevivido logo nos entenderíamos. 

Contudo, há que ter em atenção que nas últimas eleições na Ucrânia, a extrema-direita ficou-se pelos 2% (quanto teve o Chega...? Tomáramos nós que tivesse tido apenas 2%).

Portugal -> Chega 7,15%

Transcrevo do Guardian:

Vladimir Putin is himself a fascist autocrat, one who imprisons democratic opposition leaders and critics. He is the acknowledged leader of the global far right, which looks increasingly like a global fascist movement.

Ukraine does have a far-right movement, and its armed defenders include the Azov battalion, a far-right nationalist militia group. But no democratic country is free of far-right nationalist groups, including the United States. In the 2019 election, the Ukrainian far right was humiliated, receiving only 2% of the vote. This is far less support than far-right parties receive across western Europe, including inarguably democratic countries such as France and Germany.

Ukraine is a democratic country, whose popular president was elected, in a free and fair election, with over 70% of the vote. That president, Volodymyr Zelenskiy, is Jewish, and comes from a family partially wiped out in the Nazi Holocaust.


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'I had to live to tell this story': Ukrainian survives being buried alive by Russians


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Ao som de um basso profondo da Rússia, todas as fotografias pertencem ao Guardian (daqui e daqui) com excepção para a segunda que pertence a um vídeo dilacerante, daqui

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Um bom dia
Coragem. Paz.

sábado, março 12, 2022

Ucrânia, terra de gente extraordinária.
Zelenskyy, um inesperado líder europeu, e Vitali Klitschko, um corajoso lutador -- por exemplo

Украина, земля необыкновенных людей.
Зеленский, неожиданный европейский лидер, и Виталий Кличко, мужественный боец ​​-- например

 

No meio desta guerra feroz, inclemente, de uma violência absurda, no meio das chacinas infligidas pelos russos ao povo de cidades ucranianas sitiadas, da tortura da fome e da sede a que Putin está a submeter milhares e milhares de pessoas, apesar das tentativas de homicídio a que os líderes ucranianos têm estado sujeitos, apesar do medo -- medo por eles próprios, pelas famílias e, sobretudo, pelo povo em geral e pelos mais indefesos, em particular --, apesar das dificuldades e dos problemas quotidianos cuja dimensão nem conseguimos imaginar, Zelenskyy, Presidente da Ucrânia e Vitali Klitschko, Presidente da Câmara de Kiev, arranjam maneira de, quase todos os dias, falar aos ucranianos, aos europeus, ao mundo... e aos russos. 

A coragem deste povo é qualquer coisa de extraordinário e de muito comovente. E os seus líderes não apenas honram a valentia dos ucranianos como são um exemplo, um imprevisto e tocante exemplo. 

Ukraine War: 'This is the war, this is the fight' says President Zelenskyy

The Ukrainian President said he understood why the people of Ukraine might be feeling weary - but he tried to galvanise them, saying it was a 'patriotic war'. 

And Volodymyr Zelenskyy appealed to the European Union to do more to help them - calling for more sanctions against Russia, "who must pay every day". 


Mayor of Kyiv Klitschko gives emotive message to Russia and tells Putin 'you will pay'

MAYOR of Kyiv Vitali Klitschko gives an emotive and powerful message to the Russian military and its leader Vladimir Putin. 

The former heavyweight boxer, told Russia's President 'you will pay' for the lives lost of woman and children in attacks on his Ukraine homeland.

Russian forces have been accused of bombing a care home for disabled people in the latest horrific attack on civilians by Vladimir Putin.