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segunda-feira, dezembro 12, 2022

Paula Rego recordada por Lila Nunes

 



Conheci a Paula Rego em 1985 – vim de Portugal como au pair para ajudar o marido dela [o artista Victor Willing] que tinha esclerose múltipla. Os seus filhos estavam crescidos pelo que eu não precisava de cuidar deles. Foi um ótimo tempo. Dei-me bem com a Paula desde o início. Vi-a pela primeira vez quando ela estava prestes a sair para o teatro - ela era muito glamorosa. Ela disse "Olá" brevemente e acrescentou que sentia muito por se ir embora e disse-me que me veria mais tarde naquela noite ou no dia seguinte. Saí e, quando voltei, a Paula estava a tomar uma taça de champanhe com uma de suas filhas, a Vicky, e convidaram-me para tomar uma – claro, tomei várias – e foi uma ótima noite.

A Paula tinha o dom de deixar as pessoas à vontade. Era uma boa ouvinte, interessada no que dizíamos, dedicava tempo às pessoas, não fazia julgamentos. Falávamos sempre em português. Não sei se ela sentia saudades de Portugal, mas conversávamos muito sobre isso: o comportamento dos portugueses, a política, a culpa e a vergonha associadas ao catolicismo, e falávamos sobre ser mulher.

As minhas funções eram ajudar o Vic com as suas pinturas e transferi-lo de sua cama para uma cadeira de rodas. Paula mostrou-me como esticar uma tela. Não falávamos sobre como esse momento era difícil para ela – ela seguia em frente. Ela preparava o café da manhã para o Vic, partia para o estúdio e, na maioria dos dias, voltava a tempo de preparar o jantar dele. Tenho a certeza que foi por eu fazer parte do cenário doméstico que Paula e eu nos aproximámos tanto. As nossas conversas eram principalmente sobre trabalho porque era através do trabalho dela que tudo acontecia. Quando o Vic era vivo, ela trazia trabalho para casa, pendurava-o na parede e ele comentava, dava conselhos. Depois de ele ter morrido, ela dizia sempre que sentia falta dele e que era muito difícil sem ele. Ela teve que fazer tudo sozinha e isso foi muito difícil.

Pensando bem, acredito que ela estava a lidar com uma depressão há muito tempo. Aprendeu que a maneira de lidar com isso era continuar a trabalhar. Num domingo, ela disse: “Posso fazer um desenho seu?” Eu nunca tinha servido de modelo antes. Não pensei nisso, só estava a tentar ajudar – simplesmente aconteceu. Lembro da Vicky a dizer: “Não podia acreditar, fui lá em casa e lá estava você, como a coisa mais natural, posando para a Paula...”

Paula e eu mantivemos contato e, em 1994, ela ligou para perguntar:
Poderia ir ao estúdio? Então, no meu dia de folga – eu trabalhava como enfermeira – eu vim e foi aí que [o quadro] Mulher Cão começou. Às vezes, Paula contava-me a história em que estava a pensar. Noutras ocasiões, ela tentava uma pose para mostrar o que estava a procurar. Assim que eu me posicionava, ela dizia: “Muda esse braço, muda o pescoço”. Outras vezes dizia: “Sim! É isso." Ela fazia muitos desenhos para encontrar o que procurava… Uma das poses mais difíceis foi em 1995 – a pintura de uma mulher onde não fica claro se ela está a puxar as cuecas para cima ou para baixo. Todo o meu corpo tinha que estar rígido. Foi muito difícil – os meus joelhos dobravam-se – tive que ficar parada por horas.

A Paula gostava de rotina. Trabalhávamos das 10h às 19h. A primeira coisa, tomávamos café e conversávamos, e isso podia durar 10 minutos ou duas horas, dependendo de como fosse a conversa. Eu dizia: “Escute, estamos a conversar, a conversar – temos que trabalhar”. E ela dizia: “Tudo isso faz parte do trabalho”. Desenvolvi um modo zen, distanciei-me da pose. Eu não iria olhar para o que ela estava a fazer. Ouvíamos ópera pela manhã – bem alto. A Paula tinha um sentido de humor maravilhoso. A estranheza de outras pessoas fazia-a rir, como as pessoas reagiam – a comédia da linguagem corporal. Costumávamos chamá-lo de “aquela coisa”.

A Paula uma vez disse sobre mim: “Ela é realmente eu mesma”, e o que ela quis dizer, eu acho, é que ela podia ver através de mim e revelar o que quer que estivesse na sua mente. Não é a mim que me vejo nas pinturas, é principalmente a ela – à sua vida interior – e às vezes não é nenhuma de nós. Nunca penso: aquela ali sou eu. Penso: lembro-me daquela pose, como era difícil.

A saúde da Paula começou a piorar por volta de 2009 e ela disse: por que não passa a trabalha para mim a tempo inteiro? E assim fiz. Ela continuou a trabalhar todos os dias até quase ao fim. E quando ela estava muito doente para ir ao atelier, ia eu a casa dela e passávamos o dia a desenhar com pastéis. Ela continuou, não desistiu.

Mesmo agora depois da sua morte – pensarei sempre nela e verei coisas que seriam boas para o seu estúdio. Eu costumava comprar os adereços. Sempre que eu saía para fora, voltava com coisas: bonecas brasileiras, roupas de criança, um sombrero de Monterey. Certa vez, a Paula pediu-me para encontrar um papagaio de cerâmica numa viagem a Brighton. “Precisamos de um papagaio”, disse ela. Não consegui ver muitos papagaios em Brighton, mas encontrei um.

A sua morte deixou uma lacuna na minha vida. Agora encontro-me num limbo. Sem saber o que fazer. Sinto muita falta dela. Ela era muito generosa, mas a sua confiança em si mesma era facilmente derrubada: uma crítica negativa poderia fazer isso. Ela trabalhava e trabalhava, mas precisava de alguém que lhe dissesse que o trabalho era bom. Quando começámos aqui, quase ninguém vinha ver o trabalho até que estivesse pronto. Ela não atendia o telefone, as pessoas deixavam mensagens. Talvez a dúvida fosse necessária para o trabalho. Lembro-me dela a dizer: “Não, não, não…” antes de fazer uma qualquer mudança numa pintura. Eu pensava: “Ai meu Deus... mas estava tão bom...” Só depois de  ela fazer a alteração é que eu percebia.

Não sei se, mesmo no final da vida, ela sabia o quanto era amada e respeitada como artista. “Lila, imagine, a Tate vai fazer uma retrospectiva”, disse-me. E eu disse: “Pelo amor de Deus, já deveria ter sido feita há muito tempo.” A visibilidade do ano passado deu-lhe um impulso maravilhoso – ela foi à abertura e foi fantástico. Quando fui, senti... vi o fim.

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Cometi a ousadia de aqui ter o artigo na íntegra uma vez que o jornal é de leitura aberta (embora apele à generosidade dos Leitores). A tradução foi feita a meias entre mim e o tradutor da Google a partir do artigo Paula Rego remembered by Lila Nunes no The Guardian integrado na série The Observer's obituaries of 2022

A fotografia lá em cima mostra Paula Rego no seu estúdio em 2018 e é da autoria de Phil Fisk/The Observer. A segunda, propriedade de Lila Nunes, mostra-a com Paula Rego em 2018.

A pintura é Dog Woman, 1994, de Paula Rego (com Lila Nunes como modelo). Fotografia: Copyright Paula Rego, Cortesia Marlborough Fine Art’

A música, "Un bel dì vedremo (Madama Butterfly)" de Puccini por Renata Tebaldi, é uma escolha minha

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Paula Rego viveu entre 26 de janeiro de 1935 e 8 de junho de 2022

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Desejo-vos uma boa semana a começar já por esta segunda-feira

Saúde. Compreensão. Paz.

quinta-feira, fevereiro 02, 2017

Não quero saber o que pensam ou deixam de pensar sobre a eutanásia





Cá em casa, agora já estão todos a dormir. Os meninos deitaram-se mais tarde. Folguedo pegado. A mãe ainda veio um bocado aqui para a sala mas adormeceu pouco depois e acabou por ir logo deitar-se.

O outro ramo dos pimentinhas também cá esteve. Queridos, queridos, uns abracinhos mais bons, demorados, um consolinho mesmo bom. 

Felizmente hoje ligeiramente mais calmos do que no fim de semana. Como sempre, é a alegria potenciada. E, como sempre, houve cantoria. O mais pequeno é um verdadeiro artista. Não dá para acreditar.

Dia de festa a meio da semana. Nem todos na família são caranguejos. Também os há aquários.

Saí do trabalho um pouco antes das seis para poder ir ao supermercado e vir fazer o jantar a tempo. Um trânsito dos diabos mas deu. Tirei fotografias. Nunca fico nas fotografias e só me lembro disso quando as vejo.

Depois foi arrumar tudo. E preparar a roupa de amanhã. Quando aqui me pousei começou a dar-me o sono. Depois do post abaixo comecei a querer adormecer. Acho que adormeci mesmo.


Quando consegui espertar, a conversa da eutanásia na televisão. Sei que se anda a falar disso mas é tema que não me interessa. Não é tema para dele se falar como quem comenta casos da arbitragem.

Tenho lidado de perto com situações complicadas. Não vi vontade de morrer em quem muito sofria. Vi, sim, vontade de acreditar que as coisas pudessem melhorar.

Penso muito na minha tia. Era uma alegre jovem casadoira quando eu nasci. Desde pequena, gostei dela. Namorava um qualquer e eu achava graça ao casalinho. Divertida, brincalhona. Eu adorava-a. Depois começou a namorar um dos meus tios solteiros. Quando se casaram fui a menina das alianças. Quando a minha prima nasceu, era eu uma miúda, quis ser a madrinha e a minha tia achou muito bem. Quando me casei foi a ela e ao meu tio que escolhi para padrinhos. Toda a minha vida senti um afecto imaculado por ela e ela por mim. Quando lhe foi diagnisticado um cancro, tive um desgosto enorme pois, ao contrário do que, poucos anos depois, teve a minha mãe, o dela era grande e já estava relativamente espalhado. Depois de operada pensou que estava melhor, andava toda bem disposta. Depois voltou a ser operada. Piorou. Entretanto, o meu tio morreu, também um cancro. Um desgosto imenso o dela. Fraca, doente. Por fim com dores, cansada, sem forças. Mas sempre na esperança de melhorar, de que algum medicamento ou tratamento a pusesse melhor. Nunca a ouvi dizer: quero morrer. Nunca.

Quando foi o meu tio, no pulmão, eu andava a ver se conseguia que ele fosse a Cuba, havia lá um tratamento promissor, achava que se devia tentar tudo por tudo. Falei para a Embaixada, informei-me, falaram com o médico assistente. Eu a querer, a querer. A minha tia contava-me: O teu tio diz que tu estás a acreditar mas ele não, não quer, a viagem muito longa. O meu tio dizia que não queria ir e deixar a minha tia, também doente. Eu dizia: Mas vão os dois. Ele não queria, que não valia a pena. A minha tia dizia que achava que o cancro já lhe estava na cabeça, que ele tinha esquecimentos e ausências que não pareciam dele. E ela dizia-me: Sabes? Se calhar já não vale a pena. Mas eu insistia: Ó tia, vale, vale, vamos tentar. Morreu, à entrada do hospital, no dia em que o meu primo ia, com ele, falar com o médico sobre se ainda se ia a tempo. Mas foi isto assim. Não foi querer abreviar a morte.


Ao meu pai sim. Pergunto-lhe: então, pai, como vai isso? Responde: mal, muito mal, quero morrer. Digo: Outra vez essa conversa, pai. Está bom, não tem nenhuma doença, que conversa é essa...? Diz-me: Ó pá, estou farto disto. Mudo de conversa. Agora, no fim do ano, teve uma gripe complicada e depois uma hemorragia gástrica e teve que ir ao hospital para fazer exames. Lá, na maca, eu perguntava-lhe: Então, pai, como se sente? Respondia: Ó pá, mal, mas mal por me terem trazido para o hospital, não quero, não vale a pena tratarem-me, se fosse a mãe que é nova...agora eu...? ó pá, quero é que me deixem ficar em casa, deixem-me morrer, pá...

Mas depois, a caminho de casa, na ambulância, eu lá dentro com ele: Olha lá, então deixas o carro no hospital? Depois como é que vens cá buscá-lo? Expliquei que o meu marido estava comigo, que ia ele no carro. Ficou contente: Ah sim? Ah ele tem estado contigo? Ainda bem. Depois: Olha lá, já é tarde, não vale a pena ires à farmácia, amanhã de manhã logo se trata disso. Ou seja, já outra vez ao comando.

Verdadeira força da natureza, poucos dias depois, estava de novo bem e a rabujar e a dar ordens a torto e a direito, esquecido da vontade de morrer. 

Enérgico, independente e orgulhoso, é para ele, quando está completamente lúcido, um infinito desgosto ver-se dependente e incapaz de gerir a sua própria vida. Nessas alturas, acredito que lhe passe, genuinamente, pela cabeça que, cansado desta situação, preferia morrer. Mas logo muda de ideia e pede leite e bolo porque está é com fome.


Verdadeira prisioneira está a minha mãe. Incapaz de se separar dele, deixou de frequentar o seu círculo de amigas, ex-professsoras, que saíam, iam lanchar juntas, conversar e rir, deixou de ir ao cinema ou de ir fazer férias como antes fazia, quando o meu pai estava bem. Nos dias em que o meu pai, por dormir de dia, não a deixa dormir de noite, está ela desgastada, saturada, exausta. Diz-me então que não sabe se aguenta muito mais tempo isto, que ainda morre antes do meu pai. Digo-lhe que tire um mês de férias, que vão os dois para uma residência assistida, ou que deixe o meu pai em casa que a senhora que trata da higiene dele fica a tomar conta e que eu dou toda a assistência. Põe dificuldades. Não quer. Parece, nessas alturas, envolta numa fatalidade a que não consegue fugir. Acredito que, nesses dias de exaustão, pense que ficaria melhor se o meu pai morresse. Mas, no dia seguinte, o meu pai dorme bem, não a chama de minuto a minuto, ela dorme bem, acorda fresca e nem se lembra de queixumes ou desalentos. Conta-me coisas, ri. Hoje, quando liguei de tarde, vinha eu no carro a caminho de casa, estava o meu pai no cadeirão ortopédico (para onde vai na cadeira de rodas, uma ginástica tramada para o içar da cadeira de rodas e passar para o cadeirão e vice-versa) e ela no sofá ao lado a fazer tricot para os bisnetos. Perguntei se estava tudo bem, tranquilo. Disse que sim: Na boa, tranquilos. Perguntei se o meu pai estava bem já que odeia estar ali, quer é estar na cama, arma fitas, diz que o querem matar. Disse que sim, tranquilo, a conversar. Ou seja, completamente distantes de conversas mórbidas.

Portanto, em que momento é que se sabe, de certeza absoluta que a vontade de morrer é a sério, definitiva, irreversível?

Eu não sei. Mais: não sei se, em relação a mim ou a um dos meus mais próximos, teria eu coragem de dizer que sim, que se avançasse para esse momento sem retorno. Não sei mesmo.

Agora uma coisa eu sei: incomoda-me ver falar disto com se fosse bandeira partidária ou tema mediático.

E só espero que nunca isto seja referendado. O tema é sério e íntimo demais para ser menorizado em debates pouco elevados em que quem não tem saber ou vida se arvora a veleidade de ter certezas absolutas ou o mau gosto de fazer cartazes para enfeitar as estradas.


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Renata Tebaldi interpreta a Casta Diva

As fotografias provêm da National Geographic

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A quem possa interessar: no post abaixo há um homem com uma super-longa gravata e um animal morto na cabeça.


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