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sexta-feira, setembro 08, 2023

Serei um dia pescadora?
[E conversas com António Lobo Antunes e Arturo Pérez-Reverte]


À beira mar havia uma névoa leve, branca, quase transparente. Caminhávamos dentro de um tule húmido quase sem darmos por isso. 

Não estava frio nem havia vento. 

Muita gente a passear e muitas línguas diferentes, muita gente a fazer surf, muita gente a fazer skate, a correr, alguns de bicicleta. O mar muito bonito, quase tranquilo de lindo que estava. 

Há sempre homens à pesca. Duvido que consigam pescar alguma coisa mas eles não desistem.

Às vezes penso que um dia gostaria de voltar a pegar numa cana, de voltar a sentir o peixe a picar, de voltar a puxar a linha, de voltar a tirar o anzol da boca do peixe. Se eu soubesse que conseguia descobrir um sítio onde fosse certo que conseguiria ser bem sucedida, arriscaria. Pensando bem, deve ser bom estar à beira da água, quieta, ouvindo apenas as ondas, à espera que um peixe ceda à tentação. E depois amanhar esse peixe com as minhas mãos, e depois cozinhá-lo e comê-lo. Deve ser bom.

Mas depois há aquilo de a maior parte do tempo não vir peixe nenhum... e isso deve ser frustrante.

E já estou a fazer aquela ginástica aquática feita com os pés no ar, coisa que tem dado uma luta... O professor diz que é mesmo assim, às primeiras custa a manter o equilíbrio enquanto se está naquele folguedo de pernas para a frente, pernas para um lado, braços para o outro. Diz que trabalha os abdominais e tomara que sim. 

E tenho conversado muito com amigos improváveis. E a minha empreitada agora anda meio interrompida pois deitei mãos a outra coisa. Não muito convictamente, diga-se. Uma coisa é ficcionar à mão livre. Outra é escrever sobre o que está a passar-se sobretudo porque não sei qual o day after.

E depois há isto. Alguma marosca há pois abro o youtube e aparecem-me escritores falando do seu ofício. Adivinha-me os pensamentos. António Lobo Antunes a ser o António Lobo Antunes e Arturo Pérez-Reverte com uma outra atitude. São estilos, não interessa. Cada um é como cada qual. 

Entrevista exclusiva a António Lobo Antunes

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Entrevista a Arturo Pérez-Reverte

Arturo Pérez-Reverte considera-se um marinheiro-leitor que acidentalmente escreve romances. Até agora, foram 34. Traduzidos em cerca de 40 idiomas, chegaram a mais de 20 milhões de leitores em todo o mundo e vários deles foram adaptados ao cinema e à televisão. 
Pérez-Reverte possui um olhar de uma lucidez extraordinária sobre o ser humano, que deve aos 21 anos em que foi repórter de guerra – aí, nas trincheiras, todos são iguais e nem sempre é claro qual é o lado bom ou o lado mau. Escreveu Linha da Frente, o romance sobre a Guerra Civil Espanhola que acaba de lançar em Portugal, como consequência da situação política em Espanha, esperando contribuir para a reconciliação nacional. E está a consegui-lo.
Quando vem a Portugal, vem à sua pátria. Defende que uma Ibéria unida seria uma grande potência frente e esta Europa que olha para o sul com desprezo. Crítico da desvalorização da História, avisa que estão a criar-se gerações de órfãos de memória, facilmente manipuláveis, excedentes em sentimentos e carentes de razão. 
Está convicto de que, no dia em que deixar de escrever romances, será esquecido, e não vê mal nenhum nisso.  Sente-se realizado, porque é lido em vida, e grato aos seus leitores, porque lhes deve a sua liberdade.


Desejo-vos uma feliz sexta-feira
Saúde. Serenidade. Paz.

segunda-feira, maio 30, 2022

Apanhá-los quase à mão

 

O domingo foi de descanso. Dormi até vir a mulher da fava-rica. Depois foram as coisas das quais não reza a história: lavar e estender roupa, descobrir uma coisa aqui e outra ali (coisa que, qual pós vendaval, sempre acontece quando a malta miúda por aqui passa -- e, desta vez, até a televisão da sala de cima mudou de sítio), fazer uma caminhada, falar com a minha mãe, fotografar as flores do jardim, ver qual a melhor maneira de pôr as grinaldas solares. Coisas assim.

O almoço foi o resto da caldeirada, agora ainda mais saborosa e apurada que na véspera. Depois, viemos para a sala. Ele ligou a televisão e eu a Netflix para ver a nova temporada da Grace & Frankie. Mas, ao fim de algum tempo, comecei a baquear. Como tudo, quando há um interregno, o que vem a seguir sabe a déjà-vu com a agravante de aqui não se aplicar aquilo de estar melhor porque 'mais apurado'. Talvez por isso, a tarefa de me manter acordada revelou-se de difícil consecução. Tentei resistir mas não fui bem sucedida. Acordei com a fera felpuda que ladrava. Acordei eu e acordou o meu marido. Moles que só visto. Não faço ideia de quanto tempo durou a sesta mas a verdade é que acordámos meio zombies. Fomos fazer outras coisas mas o tempo cinzento e abafado não ajudou. Fomos lá para fora e sentámo-nos nos dois cadeirões de onde se vê todo o jardim e que ficam num recanto bem acolhedor. Mas continuávamos moles. Presumo que tenha dormido meia hora ou mais para estar assim.

Resolvemos, então, ir andar para a praia. Levei um corta-vento pois o tempo estava incerto. 

Antes de chegarmos, o urso peludo começa sempre a dar sinais de impaciência. Com a nossa boxer acontecia o mesmo. Pressentem que estamos a chegar a lugar de seu agrado e, tal como as crianças que perguntam de minuto a minuto se estamos quase a chegar, assim os canitos. Cheira-lhes a praia e não vêem a hora de chegar.

Gosto do mar em dias assim. Estupidamente esqueci-me da máquina fotográfica. Estas fotografias foram feitas com o telemóvel.

Gaivotas a refrescarem-se à beira de água. Fomos até mesmo ao pé delas. A fera impassível. Olha, certamente tentando perceber que animal é aquele que anda com as patas na água e que, de vez em quando, levanta voo. Olha mas nada do que vê o tira do sério. Quem o viu feito parvo com uma menina no nosso jardim e quem o vê agora indiferente a tudo, apenas entregue à curtição do momento... Nem parece o mesmo.

Entretanto, vi uns pescadores num pontão e, ao fotografá-los, reparei num rapaz alto que, com a cana da pesca na mão, entrava na água. Calçado e tudo. Ficou com a água pela cintura.

Ao andarmos no areal vimos uns quantos robalos aos saltos. O meu marido disse: 'se calhar são peixes que aquele ali apanhou'. Pensei que seria pouco provável pois tinha-o visto entrar e sair da água mas há pouco tempo, enquanto fotografava.

No entanto, ao estarmos intrigados com aquilo, vimos que o rapaz estava, uma vez mais, a sair da água. E reparei que vinha mais um peixe a saltar na ponta da corda.

De facto, dirigiu-se ao lugar onde os outros robalos saltavam e deixou ficar mais um. 

E voltou a entrar na água. E nós continuámos. Mas intrigados com aquilo. Até sugeri que o meu marido passasse a dedicar-se à pesca. Ia um bocadinho até à praia e regressava carregado de robalos. O meu marido disse: 'Há anos que andas a querer isso.' Protestei. Não me lembro de alguma vez ter sugerido isso. Ele diz que sim. Depois condescendeu: 'Talvez nos últimos anos não tenhas dito. Mas já disseste.'. Nestas situações, não vale a pena a gente fazer braço de ferro. Observei apenas: 'Não sei. Mas tenho quase a  certeza que nos últimos cem anos não disse'. E ele também já não disse nada.

Mas eu estava deveras intrigada pois não vi o rapaz a pôr isco no anzol. Aliás, nem devia ir a pensar apanhar aquilo tudo pois, pelos vistos, nem tinha onde pôr o peixe.

Continuámos o nosso passeio. Na volta, voltámos a vê-lo. Vinha a sair da praia. Vinha uma rapariga com ele, com um saco de plástico na mão. Talvez levasse lá os peixes. O rapaz trazia um robalo grande na mão, bicho para uns dois ou três quilos. Parecia um daqueles caçadores que andam com os coelhos ou os patos à ilharga. Um casal que ia a passar abeirou-se e pareceu-me que logo ali estavam a mercadejar. 

Pensámos que também poderíamos ir transaccionar um daqueles peixes para levar para a janta. Mais fresco não poderia haver. Eu disse, quase me lambendo por antecipação: 'Grelhadinho...' Mas o meu marido disse: 'Sim, deveria ser bom. O problema é o trabalho que ia dar'. Concordei: 'Ia, não ia...?'. E seguimos viagem. A brisa fresca do mar tinha-nos feito bem, estávamos mais frescos mas não a ponto de nos irmos pôr a atear fogareiros.

E foi isto. Um dia tranquilo, portanto.

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E, façam-me o favor, queiram descer até ao post abaixo. 

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Desejo-vos uma boa semana, a começar já nesta segunda-feira

Saúde. Confiança. Força. Melhores dias. Paz.

segunda-feira, março 05, 2018

Chamo-lhe Deus porque ele é o tudo e é o nada
eternidade que não dura sequer o eu dizê-la
ei-lo na espuma na lua no reflexo
de repente um esticão a cana curva-se
é talvez um robalo de seis quilos
isto é a pesca
o meu falar com Deus ou com ninguém
sozinho frente ao mar.


Um único pescador. O Tejo todo* para um único pescador. Não admira. Frio, vento, chuva. As fotografias não o mostram. Protegi a máquina, dei luz, tentei que ficassem nítidas. Mas estava mau.

Frente ao rio, resistente à ventania e à violenta chuvada, o pescador ergue-se contra os elementos da natureza. Espera o momento.

E, então, o pescador sentiu picar. Sobressaltou-se: vinha peixe. Arqueou a cana, puxou a linha, chegou-se atrás para dar folga. Puxou, enrolou a linha. Até que a coisa saíu da água. Um bicho do além. Um alien. O pescador chamou os amigos que se acolhiam no armazém e ali preparavam o petisco do almoço. Olhem! E avançou na direcção deles. Dois homens acorreram à entrada para espreitar a pescaria.

Riram, brincaram com o frustrado pescador. Ele assumiu. Mas que era grande, que só visto.

(...)
Por isso quando vou à pesca eu não vou só à pesca
procuro o peixe e o sentido ou talvez a ausência dele
toda a minha atenção se fixa e se concentra
há um robalo que não há e que só eu pressinto
não é ciência nem técnica é algo mais
de pé no meio do canal
lançando e recolhendo a linha
como quem escreve sobre as águas
a mesma pergunta interminavelmente
enquanto caem estrelas e as palavras
como elas fulguram em seu arder.


Um pouco mais à frente, outro habitante da beira do rio preparava também o almoço. 

Media o pitéu, equacionava a melhor forma de lhe ferrar o bico. Semi-cerrava os olhos antecipando o prazer. Peixinho fresco, coisa boa. 


Eu não sei se os teus olhos se gaivotas 
mas era o mar e a Índia já perdida 
as ilhas e o azul o longe e as rotas 
minha vida em pedaços repartida. 

Eu não sei se o teu rosto se um navio 
mas era o Tejo a mágoa a brisa o cais 
meu amor a partir-se à beira-rio 
em uma nau chamada nunca mais. 
(...)

Cá para mim, a ponderada gaivota estava a ajuizar se havia de ir ali à frente buscar umas cenouras, um nabo, uma batatinha, umas espigas de trigo e fazer uma bela caldeirada. Parecendo que não ali há de tudo.


Ou talvez não. Pensando bem, não me parece que a gaivota tivesse pinta de lunática a ponto de se deixar iludir dessa maneira. Provavelmente, quando olha aquela pintura, pensa com as suas penas: 'Ceci n'est pas une carotte'.

Ná. Cá para mim ela estava era a pensar se o peixinho haveria de marchar assim, au naturel, ou se haveria de ir ali adiante buscar uma hortaliça genuína para dar gosto a uma boa marinada.


Fosse o que fosse, a gaivota ali ficou, olhando de volta, bicando ao de leve, observando a iguaria. Depois levantava a cabeça, olhava em volta.

Se calhar estava a digerir o que tinha lido na parede do outro lado. Na volta, não era uma gaivota pragmática mas uma gaivota filósofa. Ou uma gaivota blogger, que vai quase dar ao mesmo já que a quase todos os bloggers, pelo menos de vez em quando, dá-lhes para botar prosa, elencar argumentos, dissertar sobre profundos pensamentos, fazer-se de filósofo.


Isto a gaivota.

Um pouco mais à frente, um menino azul pensava na sua vida. Também desconfiado. Na volta não percebia a hesitação da gaivota. Se calhar estava expectante: 'Come? Não come? Daqui a nada vem um gato e acaba-lhe com a hesitação...'. Ou pensaria: 'Se a gaivota fosse simpática, ia pendurar o peixe no anzol do pescador... Assim os amigos já não gozavam com ele...'. Os meninos da beira do rio costumam ser assim: dados a sabedorias e a afectos sem igual.


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O título do post é um excerto do Quarto Poema do Pescador e, a seguir à primeira fotografia, está um excerto do Segundo Poema do Pescador. Em letra mais pequena, a seguir à fotografia da gaivota, está um excerto do poema As Sete Penas do Amor Errante. Todos de Manuel Alegre.

Maria Bethania interpreta Pescaria

Fiz as fotografias debaixo de chuva, de manhã, no Ginjal


(* O Tejo todo é como quem diz. Melhor fora se dissesse: O Tejo daqui até onde se avista).

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[E agora, Caros Leitores, queiram aceitar o meu convite e desçam ao longo do rio, rente às decadentes e belas paredes do Ginjal, lugar de onde se tem a melhor vista de Lisboa]

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sexta-feira, fevereiro 16, 2018

Gentes do mar das Caxinas
[Ainda em Vila do Conde. 6º de sete posts sobre esta cida maravilhosa]


Caminhada à beira mar. Hoje não chove. Cheira muito a maresia. O mar está forte, bate com força nas rochas e as Casas dos Pescadores estão cheias de homens. 

Há gente a correr ou a fazer caminhadas no generoso passeio que corre ao longo das praias. Vejo casas muito bonitas, com uma esplêndida vista sobre o mar. 

Gostava de poder ficar cá mais tempo.












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Queiram descer que abaixo há mais cinco posts sobre Vila do Conde.

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domingo, setembro 24, 2017

Contrastes para todos os gostos


Manhã boa junto ao rio, a maresia intensa, o ar fresco, a paisagem limpa. E a disposição boa, boa. Pelo menos a minha. Não tanto a do meu compagnon de route que se queixa de não conseguir dois passos de seguida. Nada a fazer. Face à maravilha que, por todo o lado, espreita, não tenho como deixar passar e manter a passada. Claro que tenho que parar e fixar o momento.

Aqui abaixo, a passagem de mais um cruzeiro. Tantos. Tantos que cruzam o Tejo. 
O turismo a bombar. O PIB a aumentar. E o láparo, endemoninhado, a desfeitear (agora, o pobre, completamente doente, num estado de negação fatal, diz que está tranquilo, que quem tem razão para estar aflito é o António Costa; passou-se de vez, este láparo passado da cabeça). 
Este que aqui passava é um big, big, big. Por contraste, os veleirinhos. Por contraste com quem lá vai dentro, os pescadores do cais do Ginjal. 


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E um belo dia de domingo a todos quantos por aqui me acompanham.

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terça-feira, setembro 13, 2016

Então, mas ó UJM, isso por aí é só boa vida... ou há quem trabalhe?
[ de uma série de 11 posts com títulos parvos]


Pronto, agora que já sabem que, a bem dizer, praticamente não leio uma página que seja de um livro há mais de um dia, vou começar a mostrar porquê.

O porto de pesca é, diria eu, de alto risco. Entre rochedos de arestas bem afiadas e com um mar bem batido, os barquinhos que, vistos cá de cima, parecem frágeis, entram na zona que dá acesso à rampa. Aí, com ajuda de camaradas de arte, são içados pela rampa acima.




Fotografias feitas em momentos diferentes, numa manhã que acabou envolta em névoa.

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Muito se arriscam os pescadores e muito esforço físico é despendido para que o peixe chegue fresco, a saber a mar, à mesa de quem, como eu, se limita a admirá-los de longe.

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Desculpa lá, ó UJM, mas praia sem pescadores à linha e sem surfistas não é praia...
Não me digas que nem um? Ou fugiram com medo do mar...?
[ 7º de uma série de 11 posts com títulos parvos]


Claro que havia, ora essa. Praia que é praia acolhe todos, especialmente os que não passam sem o mar.

As fotografias podem trazer a névoa e a maresia colada a elas mas aqui fica a prova provada que faça chuva ou faça sol, esteja o mar grande ou o mar pequeno, cá estão eles, os amantes do mar.




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E não desesperem, meus Caros Leitores, com a quantidade anormal de posts com títulos parvos, que o melhor está para vir. Já vos conto por onde é que tenho andado.

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terça-feira, setembro 06, 2016

A arte xávega na Caparica - uma maravilha
[5º de 5 posts]


Quase todos os anos volto a este tema. Repito-me. Mas o meu encantamento é tal que não me parece bem guardá-lo só para mim. Hoje, então, foi magnífico. Um dia de calor... Só se estava bem à beira ou dentro de água e foi lá que estive até ao tombar do dia.

Gosto de assistir de perto à prática da xávega. Dizem-na uma arte e eu concordo. 

A água do mar boa, nada fria, e linda, linda. E eu, que tenho este fascínio pelo voo das gaivotas, pude saciar-me, andar dentro de água, junto delas. Nem sei como mas consegui manter a máquina fotográfica a são e salvo, por vezes quase me senti o Camões a salvar o seu manuscrito.

Espero que gostem de ver e, em especial a quem vive longe do mar, que vos chegue a sensação de frescura e maresia tão boas -- e uma noção, mesmo que ínfima, da beleza imensa que é isto.

Os tractores começam a puxar as cordas que trarão a rede para terra


Bem depois, as mulheres começam a vestir calças impermeáveis e a calçar luvas enquanto os tabuleiros de plástico começam a ser retirados do atrelado


A rede está a chegar e os homens entram na água para a puxar

A rede já quase fora de água e as pessoas chegam-se à sua beira para verem o peixe a saltar 


O peixe é empurrado para o oleado que, previamente, foi estendido na areia


Começa o processo de separação por caixotes que, à medida que são cheios, são retirados para a areia

Uma tentação, peixe assim ainda tão fresco


E rede recolhida e tudo em ordem, o barco faz-se de novo à água, puxado pelos tractores e posteriormente ajudado pelos homens que ficam em terra


E eu pergunto-me até quando permanecerá esta arte maravilhosa desconhecida de grande parte dos portugueses?

É que é uma coisa de tal beleza... Quem puder não deixe de um dia vir ver.

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Económica e, ao que se diz, infalível.
Desçam, por favor.


quinta-feira, abril 24, 2014

É hoje, é hoje! Arte xávega e, a acompanhar, música da boa que recebi num ovo da Páscoa. Ulf Wakenius & Vincent Peirani & Lars Danielsson na Costa da Caparica. Ó vizinha, há peixe fresco da Costa! Peixe fresquinho do mar!


No post abaixo falei da mulher mais bela do mundo em 2014. Uma escolha atípica, surpreendente mas, ó céus, que justa. E não é apenas bela, é talentosa, orgulhosa, luminosa. No final deste, não deixem, pois, de descer até ao post seguinte para a verem fotografada e em acção.

Mas aqui, agora, vou cumprir uma pendência.


Encore




Já há dias que andava aqui a dizer que tinha tirado umas fotografias à recolha das redes e da pescaria na arte xávega e queria mostrar-vos algumas; mas foi-se metendo isto e aquilo e a coisa foi ficando para trás. 

Mas é hoje. 
Já estive aqui a ver se virava o Um Jeito Manso de pernas para o ar, queria pô-lo cheio de cravos mas não encontro nem fundos nem fotografias que se conjuguem. Resultado: perdi um tempão e não fiz nada.
Por isso, vamos lá, então, à arte xávega. 

Já em tempos aqui falei nela e mostrei fotografias (os meus pimentinhas eram, então, tão pequeninos... e ainda nem havia o bebé... Jesus, que o tempo passa de uma maneira...). 
Nessa altura, teria umas duzentas ou trezentas visitas por dia aqui no UJM e agora, geralmente, passam as mil pelo que deve haver Leitores que não saibam do que estou a falar e, por isso, permito-me repetir o tema.


Em terra, o barco saído da água, com a ajuda de um tractor, vai recolhendo as redes. Na água, os pescadores, de forma coordenada, vão puxando e ajeitando as redes para as unir em cima, retendo assim, no fundo, o produto da pesca.








Gritam uns com os outros, dão vozes, para agirem à uma.

Se repararem na fotografia da direita, no fundo da rede, aqui já a sair da água, poderão ver alguns peixes.

Depois, os pescadores naqueles seus fatos coloridos, estendem oleados e, em cima, as redes e logo, tudo a grande velocidade, começam a enfileirar alguidares. Uns têm água do mar, outros nada.

Se repararem na fotografia aqui à direita, ao fundo poderão ver a parte de cima do tractor que ajuda nesta lida.

Todo o ambiente é ruidoso, palavrão que até ferve, olh'ó peixe!, agarra lá este, ó cab..., não 'tás a ouvir? F... eu aqui de braço esticado com o peixe na mão, ó pá!

As pessoas que por ali estão, começam a rodear os caixotes e a perguntar o nome dos peixes e a conversar entre si e, portanto, no meio de toda aquela algazarra, já mal se ouve o que um e outro diz.

Rapidamente entram as mulheres em acção, começando a separar os peixes que os pescadores vão retirando das redes e lhes vão entregando.

Quando olhámos para a pescaria na rede, nem parecia muito mas aquilo parecia o milagre da multiplicação dos peixes. Eram chocos, lulas, robalos, sargos, massacotes, sardinhas grandes e gordas. Num instante os caixotes iam ficando cheios.

Claro que, pelo meio, há as perguntas do pimentinha mais crescido: porque é que aquele ali está só aos saltos...? Vai morrer? E depois como é que sabemos que já está morto?, perguntas às quais tentamos dar respostas não muito deprimentes. 

A minha filha tenta a abordagem menos cruel: sabes? estes são peixes que existem mesmo só para a gente os comer... - a ver se a coisa não parece pouco amiga da natureza, talvez. Ou então está a acautelar pensamentos perigosos em relação aos peixinhos do aquário Vasco da Gama ou ao Oceanário. Não sei.

Os outros mais pequenos acham tudo normal, olham com muita atenção, seguem aquela movimentação efervescente. Depois dá-se aquele episódio do esguicho de tinta que deixa toda a gente salpicada de preto (falei nisso na sexta feira passada ou no sábado).

Entretanto, desencadeia-se um acelerado mercado. Quanto custa? Quanto é o caixote de sardinha? A quanto vende cada robalo?

E as mulheres que, nitidamente, ali são as comerciantes começam a fazer os preços e a despachar mercadoria.

O meu filho começa a querer trazer peixe, fresco, fresco, e as sardinhas, que boas assadas, gordas, e uns daqueles robalos. 

Mas não vou na conversa. 

O tempo está quente, ainda acabámos de chegar à praia, quando dali saíssemos já o peixe estaria cozido. 

Mas toda a gente fica com pena, eu também.

O meu marido sugere que vamos ao restaurante da praia pedir para o guardarem no frigorífico enquanto estivermos na praia.

Não quero. Se alguma vez as pessoas teriam o frigorífico vazio à nossa espera... E iam lá ficar com o frigorífico a cheirar a peixe, que ideia.

Mas os outros veraneantes não têm desses pruridos, o peixe, os chocos e as lulas desandam num ápice. 
A ver se lá vamos um dia de propósito para isso, levamos sacos, uma geleira com termo-acumuladores e voltamos para casa, não ficamos ali na praia.
Mal despacham a pescaria, os pescadores enrolam a rede que ainda está por terra, o tractor leva de novo o barco para a água, os pescadores saltam lá para dentro e, num abrir e fechar de olhos, aí estão eles, de novo, a fazerem-se ao mar.

Enquanto os miúdos brincam à beira de água ou enquanto os homens da família jogam à bola e as mulheres conversam ou a princesinha brinca às cabeleireiras com a tia, o barco vai-se afastando. Quando o olhamos já lá ele vai ao longe, num mar salpicado de luz. Pequeno e frágil, o barquito. Por isso é que, nos dias de mar grande, tantas vezes a desgraça acontece.




Desta vez não apareceram as gaivotas. No verão, elas esvoaçam por cima dos pescadores e, mal as redes são levantadas deixando restos de peixe ou moluscos na areia, elas pousam e vêm banquetear-se, indiferentes às pessoas que por ali andam.

O nosso país tem tantas coisas tão bonitas. E é tão bom estar junto à natureza, ver estas actividades tradicionais, conviver ao ar livre, partilhar afectos e desfrutar a beleza dos lugares e das pessoas. Eu, pelo menos, não me canso disto. 

*

A música lá em cima, linda, foi-me enviada pela Páscoa pela Leitora GG a quem muito agradeço. 
  • É Encore numa interpretação de Ulf Wakenius & Vincent Peirani & Lars Danielsson. 
  • As fotografias do vídeo são de António Leão. 

O texto que acompanha o vídeo tem a explicação desta arte:

A xávega é uma arte de pesca por cerco, na qual uma extremidade da rede fica em terra, enquanto o resto da rede é colocada a bordo de uma embarcação que sai para o mar, libertando a rede. Terminada a largada, a outra extremidade é levada para terra, e puxada; antigamente com a ajuda de juntas de bois e força braçal, e actualmente recorrendo a meios mecânicos.

A palavra xávega provém do étimo árabe "xabaca", que significa rede. A denominação "xávega" era usada pelos pescadores do sul de Portugal.

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Relembro: caso queiram ver uma mulher muito bela, muito jovem mas muito bela, a mais bela em 2014 segundo a Revista People, desçam, por favor, até ao post seguinte.

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(...)

Tinha começado um outro post sobre o Dia do Livro e sobre um em particular, o Dom Quixote, mas agora já estou com tanto sono que já não consigo acabá-lo. Por isso, voltei aqui para me despedir.

Não sei se amanhã consigo fazer alguma coisa. Quero festejar. Pode ser que um bocado depois da meia noite volte até porque no 25 quero também ir para a rua, em princípio para o sítio onde o 25 de Abril tem um significado especial e, por isso, não posso deitar-me muito tarde. A ver vamos.

Entretanto, desejo-vos, meus Caros Leitores, um bom 24.
Que seja bom porque (para os que não carregam tristezas grandes demais e que, portanto, não têm ânimo para festas) é dia de sacudir más recordações e maus momentos e de nos prepararmos para uma vida nova.

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quarta-feira, outubro 02, 2013

PSD: no Conselho Nacional os Ribaus Esteves, os Marco Antónios, e até os Aguiar Brancos e outros que tais vão correr com o António Capucho, com o Paulo Rangel, com o Rui Rio e com outros? É chegado o tempo dos cães com pulgas expulsarem os barões? (sem ofensa para os verdadeiros cães com pulgas, claro). 'Todos os animais são iguais - mas alguns são mais iguais que outros'? É esta a versão Passos Coelho da noite das facas longas? Não sei. Só pergunto que eu desta matéria não sei de nada. Eu cá sou mais coisinhas simples. Andar à noite nos cais, por exemplo.


E sobre o assunto em epígrafe pouco mais tenho a dizer. É tema que não me assiste. Confesso que gostava que se pegassem todos uns com os outros, que o Capucho, o Rui Rio, o Paulo Rangel e outros militantes decentes se deslocassem para a galeria enquanto a poeira não assenta e deixassem a maltosa (os acima citados mais o Seara, mais o Pedro Pinto, mais o Menezes, mais o Abreu Amorim e mais toda essa gente fina que por lá pulula) engalfinhar-se toda, uns nos outros.

O José Luís Arnaut já veio apontar o dedo ao Passos Coelho e avisar que se querem partir para a caça às bruxas devem pensar bem antes pois a culpa toda da hecatombe a que se assiste no PSD se deve à sua liderança e não a A, a B ou a C.. 

O PSD é uma boa amostra do que é o País: gente capaz e gente incapaz, videirinhos e gente decente.

O drama é que ultimamente o piorio alapou-se e a gente capaz quase tem que andar escondida.

Mas é coisa lá deles, não tenho nada a ver com isso.

No entanto, a bem do País, era bom que houvesse um golpe (palaciano ou de faca e alguidar, tanto se me dá) que afastasse o rebotalho e deixasse que a gente de bem voltasse a ter lugar nos órgãos dirigentes do partido.

Mas adiante que tenho mais que fazer que gastar prosa com o PSD.

*

Há pouco (ver post abaixo) contei-vos o castigo que foi vir a conduzir durante séculos, no pára-arranca, com uns sapatos novos, altíssimos, depois de um dia inteiro montada neles.

Pois bem. Mal cheguei a casa tive um prazer dos danados, quase uma coisa como aquela que a Adília Lopes, Irmã Barata, Irmã Batata, nunca experimentou: descalcei-os, mexi os dedinhos dos pés, tão bom, que alívio... Depois mudei de roupa, calcinha desportiva, pólo, impermeável fino, e, maravilha das maravilhas, uns ténis confortáveis, pés à larga, adequados à caminhada. 


E, agora, música, por favor




Noite cerrada, chuvinha miúda, e lá vai ela, direitinha à beira do rio.

Não uso sombrinha (excepto se chover a rodos), a franja retém a maior. Gosto de sentir a chuva na pele, sabe-me bem, lava-me a alma, refresca-me o espírito.

Àquela hora nem vivalma no cais. Apenas as cordas dos barcos rangem, lamentos profundos, quase um choro. O rio está negro, a cidade quase parece não existir, a neblina e a noite envolvem-na.

Um pouco mais à frente um vulto mesmo sobre as águas. Talvez pesque ou talvez apenas sinta o cheiro intenso que vem das águas. A água bate com força nas colunas do cais, cheira a mexilhões, a limos, a algas frescas, a maresia intensa, tão bom, tão bom.

Lembro-me de, quando era pequena, querer sempre que o meu pai me levasse com ele quando ia à pesca à noite. Ele não queria, era uma guerra, que não havia por lá nenhuma menina, que aquilo eram só homens, que não, que não. Por fim, vá, anda lá, mas é a última vez, não tem jeito nenhum.

Já crescidinha e ainda queria ir. Talvez até aos treze, catorze anos. Uma tentação. Depois o meu pai deixou de se interessar pela pesca, a minha mãe ficava um bocado aborrecida quando ele chegava com um balde cheio de robalos, horas e horas a amanhar peixe, tanto peixe; e agora vamos andar só a comer robalos?

Mas, enquanto ele foi, era à noite que eu mais gostava de o acompanhar. 

No cais havia uns buracos redondos no chão. Os pescadores apontavam uma luz para a água e enfiavam, por esses buracos, um artefacto com uns ganchos para apanhar lulas. Elas eram atraídas pela luz e ficavam presas. Era só puxar a corda e tirá-las para o balde.

Eu gostava de andar a cirandar pelo cais, escuro, apenas aqui e ali uma vaga luz amarela. Sombras muito longas, silêncio e o marulhar das ondas, e gostava de ir ver o que os outros pescadores apanhavam. O meu pai ficava furioso comigo, não me queria por ali no meio dos pescadores, sabe-se lá quem são, sabe-se lá o que pensam, não te quero por aí.

Mas, então, conseguia lá eu estar quieta...?

Ainda se eu fosse maria-rapaz. Mas não era. Sempre fui muito feminina. Cabelos compridos, soltos, ou, quando era mais miúda, em tranças para ser mais fácil manter-me com ar penteado. Roupas femininas. Modos femininos. Mas sempre a preferir os ambientes frequentados pelo sexo masculino. Mas não era por isso, é porque os homens, quando juntos, são mais pacíficos, as mulheres são mais quezilentas, gostam da intriga e eu não. Mas, então, o ambiente de cais à noite é mesmo à minha medida. Os pescadores são gente calada, pensativa. Gostam de olhar o mar, ou ficam sossegados a olhar a ponta da cana, a ver se 'pica'. 

E eu, quando era pequena, andava por ali a vê-os, a ver os peixes que já tinham apanhado e depois ia contar ao meu pai, aquele ali tem estado a pescar maçacotes, o outro lá à ponta apanhou uma sargueta das grandes. Depois o meu pai olhava o relógio, já é tarde, se eu tivesse vindo sozinho podia ficar... mas contigo... e logo agora que está a dar é que tenho que me ir embora. E eu dizia que não tinha sono, para ficarmos mais um bocado, para apanharmos mais uns quantos. Falava no plural, eu, era como se fosse trabalho de equipa, eu ia tirando o isco, ia à caixinha escolher outra chumbada porque uma tinha ficado presa no fundo, coisas assim.

E depois, quando chegávamos a casa, já a minha mãe estava a dormir e o meu pai ia com sentimento de culpa por ter condescendido a levar-me, não são horas para uma menina andar a pé, a chegar da pesca a uma hora destas, vês lá mais alguma? Mas o que eu gostava daquilo.

Agora, quando ando por aqui à noite, a cheirar-me a mar escuro carregado de peixes, lembro-me dessas outras noites. Parece que foi há tão pouco tempo. O meu pai muito jovem, cabelo liso, preto, com o vento a dar-lhe na franja muito lisa, todo ele com porte desportivo. Ainda tem o cabelo assim, liso, mas agora é um bocado grisalho. Só que já não pode ir para a beira do cais, mal consegue andar. Não lhe falo nisto porque receio que se sinta ainda mais triste.

*

Nem sei porque agora me deu para esta conversa tão pouco animada, deve ser ainda influência das dores nos pés. A música, que é linda, flauta feita com as mãos interpretada por Mitsuhiro Mori, foi-me enviada por um Leitor a quem muito agradeço. Gostei, sim senhor, acertou. Muito obrigada.

*

  • A imagem do Cacos Coelho provém do blogue We Have Kaos in the Garden.
  • Para perceberem a 'cena' das dores nos pés é descerem, por favor, até ao post a seguir a este.
  • Para o caso de quererem ver e ouvir mais um maravilhoso vídeo do Cine Povero, desta vez com o Mário Viegas a dizer Ruy Belo, convido-vos a virem até ao meu Ginjal e Lisboa, a love affair.

*

Resta-me desejar-vos, meus Caros leitores, uma bela quarta feira. Saúde e alegria. E sorte, que dá sempre jeito.

quinta-feira, agosto 30, 2012

Os meus meninos foram ver a arte xávega na Costa da Caparica... mas a coisa não correu como previsto. Não fez mal: a brincadeira foi uma maravilha e nem acharam que a água estivesse gelada


Uma gaivota nas mãos das crianças



Coro Infantil de Carcavelos - Gaivota


*

Hoje apenas consegui começar a olhar para o blogue depois de ter deitado e contado uma história ao meu menino mais crescido. 

Contei-lhe uma história de um menino que quis conhecer um barco por dentro e que, então, foi percorrendo corredores, descendo escadas, até que chegou a casas dentro do barco que eram quase como fábricas, com as máquinas que fazem andar o barco, e grandes cozinhas e grandes despensas porque quando o navio anda no mar é preciso fazer comida para as pessoas que estão a bordo. E fui contando.

Depois quis mais uma história e eu contei-lhe a história de uma gaivota que era amiga de um pescador e que, quando ele ia para o mar, ela ia no barco com ele, voando à volta, e ele escolhia sempre peixinhos pequeninos como ela gostava para lhe oferecer ('pequeninos porque ela não tem dentes, não é...?') e, quando ele voltava para casa, ela ficava no muro à espera dele, toda a noite ali à espera, até que ele voltasse ao mar. 

Quando me levantei, ele perguntou 'Mas a história é só assim?' e eu disse que não mas que agora ele é que ia ficar a pensar em como poderia ser o resto da história. E saí do quarto.

Passado uns minutinhos fui lá espreitar e já dormia o sono dos justos.

Antes tínhamos estado na praia, ao fim do dia. Eu tinha querido mostrar-lhes os tractores na água, os peixes.

Mas claro que estas coisas nunca saem como a gente as prevê. O mar estava agitado, grandes ondas, vento. E, talvez por isso, os tractores estavam à beira de água mas não puxavam as redes.

O tempo a esfriar e nada. E manter sossegados três pestinhas à beira de água é obra...

Chegaram vestidos, agasalhados.




Mas a tentação da água e da brincadeira era muita. E cada um a correr para o seu lado. Era eu, a minha filha e o meu filho, três adultos, portanto, e as três crianças.  E eu pensava, mas oh senhores, será  que três adultos não dão conta de três crianças...? Claro que damos mas eu ainda não estou muito veloz e isso, naquelas circunstâncias, é uma séria limitação. Claro que aproveito as minhas limitações para tirar fotografias. 




E fazia um vento frio... e nada de peixe, nada de pescarias, nada de gaivotas a quererem comer o peixe porque o peixe continuava na água. Oh senhores, mas se todos os dias tenho visto os pescadores a tirarem as redes porque é que logo hoje, nada...?

E as crianças desassossegadas, a correrem, à solta, felizes.




Até que, claro, o previsível aconteceu. O mais crescido meteu-se na água... e os outros, gatinhos copiões, na maior risota, quiseram logo fazer o mesmo. Por fim, já estavam todos molhados para desespero da mãe dos dois rapazes que tem medo que se se constipem, que andaram com tosse e que com este frio... Mas como? Querem lá eles saber de cuidados? Querem é brincar.

A solução, claro, foi despi-los para ver se não andavam com as calças e os casacos ensopados. Mas tirá-los da água...? Impossível, só à força, só levá-los em pranto. Não era caso para isso. E a brincadeira estava tão boa... Corriam atrás uns dos outros, caíam, riam, brincavam.




A maré estava vazia e tinha deixado piscinas, rios, e remoinhos, não é?, perguntava o mais crescido, contente por saber palavras difíceis.




E até apareceu no saco da mãe, que é um autêntico bazar chinês, um tractor para pôr na água, já que os de verdade estavam parados.

E vendo as fotografias até parece que estava uma quente tarde de verão mas a verdade é que era quase oito da tarde e estava um vento frio que vocês não imaginam.

Por fim, já era tarde demais, era preciso ir para casa, tomar banho, jantar.

E quando estávamos nas manobras de retirada eis que, então, reparamos que os pescadores começam a retirar as redes do mar. Parecia de propósito... só para chatear. Mas vimos de longe, paciência. Outro dia logo fazemos outra tentativa para ver lá mesmo ao lado.




Puxadas a braços, as redes começam, então, a aparecer.




Já estávamos a sair da praia, as fotografias foram feitas de longe. Vejo agora que vêm pesadas as redes, carregadas de peixe.

Cá fora vimos as redes estendidas para que os pescadores as remendem, e as bóias. Estive, então, a explicar para que serve a rede e como, assim, se apanha o peixe que, depois, se vende e se come.

E então reparei que, ao longo de toda a praia, em cada um dos altíssimos candeeiros (penso que sejam candeeiros) estava uma gaivota, como se estivessem a guardar o mar. Ou talvez cada uma tivesse um pescador por amigo e estivesse à espera que ele saísse do mar para o acompanhar até a casa, para ficar à sua espera em cima do muro da sua casa, toda a noite, toda a noite à espera..




**

E é isto, meus Caros Leitores. Tenham uma boa quinta feira. Acho que a temperatura vai subir. Por isso, se puderem, procurem também a beira do mar ou de um rio ou de um lago (ou de uma piscina ou..., enfim, de um repuxo, o que puder ser)

domingo, agosto 26, 2012

A Arte Xávega e os seus corajosos artesãos. E, em dia de caravelas portuguesas, o Rei dos Mares, a Rainha dos Mares, a Menina do Mar, os meninos da beira-mar e os solitários que precisam do mar. E o grande cargueiro que veio até à minha janela. (Post revisto e acrescentado: 'Retorno para o segredo do mar e flutuo')


Sereias, sirènes - no mar de Debussy



Ouvi depois à noite, na televisão, que algumas daquelas praias tinham sido visitadas por caravelas portuguesas e que, por isso, estiveram interditas a pessoas.

Não são embarcações, estas caravelas portuguesas, mas sim seres muito belos, de uma beleza imaterial, irreal, seres feitos de véus transparentes, feitos de quase nada, apenas quase só luz, quase só irresistível veneno.



Physalia physalis



Retiro da wikipedia que as caravelas portuguesas têm uma cor azulada e não têm movimento próprio - flutuam à superfície das águas, empurradas pelo vento, com os seus tentáculos por baixo, sempre prontos a envolver um peixe para a sua alimentação. Os seus tentáculos (que são urticantes) podem chegar a alguns metros mas ela mesma mede em media 30 cm.

A caravela portuguesa é normalmente identificada como uma medusa, mas na verdade é uma colónia de quatro tipos de pólipos. São eles:
  • Um pneumatóforo transformado numa vesícula cheia de ar;
  • Os dactilozoóides que formam os tentáculos;
  • Os gastrozoóides que formam os "estômagos" da colónia; e
  • Os gonozoóides que produzem os gâmetas para a reprodução.

Mas a Praia dos Pescadores não foi visitada por estes belos seres perigosos (como são geralmente perigosos os seres excessivamente belos). E, mesmo das outras praias, ouvi que as caravelas já seguiram para outros mares, certamente levadas pela aragem para mares mais a sul onde as águas são mais quentes.


Hoje o meu filho, referindo-se ao meu post anterior, disse-me que foi pena eu não ter falado na arte xávega, o nome deste tipo de pesca, e que é uma arte que corre risco de extinção. Referiu-me também que era pena que eu não tivesse fotografias de pescadores mais velhos.

Aqui estou hoje, portanto, para tentar reparar as duas omissões de ontem.



Preparando o barco, o Rei dos Mares,  com as cordas, antes de se fazer ao mar


Encontro na internet a seguinte definição: 

A arte Xávega é uma pesca de arrasto em que o barco sai de terra, deixando já uma corda que lhe está sempre ligada, dando a volta a alguma distância da praia deixando a rede que cerca o peixe. 

A rede puxada por pessoas, auxiliadas por tractores, é arrastada até à praia trazendo o peixe que pelo caminho encontra.



O Rei dos Mares, seguramente capaz de enfrentar caravelas portuguesas, cavalos marinhos, lobos do mar, adamastores, gigantes sem nome


E se ontem vos mostrei o jovem pescador, o 'menino do mar' (seguindo a sugestão deixada num comentário), hoje o que vos trago são aqueles que o mar marcou, aqueles que conhecem a voz das ondas, que adivinham as intenções da noite pela cor das águas. 

Mais do que a beleza escultórica dos corpos jovens, impressionam-me as marcas do tempo nos corpos fortes, corajosos, de quem já viveu muitas noites de susto, de quem já se embraveceu contra os gigantes que pela calada da noite se levantam para assombrar os homens perdidos no meio do mar, de quem já se orgulhou com as cargas de peixe trazidas do ventre das águas longínquas.



.                                                                                                                                                                                                                   .


Estive a olhá-los, estes homens que têm força, coragem e os olhos cheios de mar, os que ficam a vigiar os barcos que se afastam da costa, entrando na lonjura onde é quase noite. Ou os que caminham curvados, tanta força os corpos já fizeram, tantas cordas puxaram, tantas redes enredadas, tantas redes grávidas de tantas vidas, homens que caminham dentro de água como se caminhassem num campo florido.



.                                                                                                                                                                                                                   .


Olho com ternura estes homens valentes, sem frio, sem calor, todos e só bravura e fraternidade porque nesta lida têm que ser todos por um e um por todos que os riscos são muitos e os proveitos demasiado pequenos.

Quando compro peixe prefiro os peixes de mar, os que trazem ainda nas guelras um pouco do esforço dos homens que os pescaram, aqueles que correm riscos e cortam as mãos e vergam o corpo e rasgam os músculos, e que trazem os olhos cheios de mar e as rugas cheias de sal e a pele brilhante de escamas.

Depois, enquanto andava à beira da praia, fui reparando nas poucas pessoas que resistiam ao frescor da noite que ia caindo. São os solitários, os poetas, os que precisam do som das ondas enfrentando o silêncio do fim do dia, os que precisam de asas junto de si para que os seus pensamentos vão com elas, na liberdade dos grandes espaços.


O mar, o homem, o cão, as gaivotas e, lá bem ao fundo, o grande cargueiro que se prepara para atravessar o pôr do sol a caminho do Tejo


Pudesse eu também ficar por ali, correr à beira da água, misturar-me nos braços das caravelas portuguesas, ir para bem longe, talvez para a linha de horizonte, talvez voar com as gaivotas para respirar o ar ainda mais frio, ainda mais puro, ainda mais azul.

Mas eis que o silêncio do marulhar é interrompido por vozes juvenis que cantam e umas palmas batucadas marcam o ritmo. Vou andando. E vejo, então, uma roda de meninos e meninas. Cantam, dançam e no centro da roda dois meninos fazem capoeira, revolteiam, fazem acrobacias, o cabelo comprido de um quase parecendo tentáculos negros de uma medusa, esvoaçando ao som da música. Esvoaçam, pois, os meninos que cantam e dançam na beira da praia. 

Fotografo-os uma e outra vez. Mas já há pouca luz e eles não param, a vida dança dentro deles. Poucas fotografias ficam nítidas e, sobretudo, são só imagem, não têm o som e a alegria deste fim de tarde cantado junto às ondas.



Capoeira: a alegria exuberante dos corpos dos meninos da beira mar


Caminho. Mais à frente, sentada sozinha nas rochas, de frente para a imensidão do oceano, uma jovem olha. 

Quando chego já lá está, vou até ao fundo da praia e, quando regresso, ela ainda ali está. Talvez espere alguém que se atrasou, talvez espere alguém que não virá, talvez esteja apenas a perceber o sentido da vida, talvez apenas a descansar, talvez apenas a respirar o silêncio. Talvez apenas a purificar-se antes de um encontro especial, quando a noite apagar as luzes dos olhares alheios. Ou talvez apenas a sonhar poesias feitas de mar.



A mulher, o mar e a vida pela frente. Mais adiante um pescador e a sua bicicleta. Ao fundo, quase invisível, avança o grande cargueiro


No ponto onde o silêncio e a solidão
se cruzam com a noite e com o frio,
esperei como quem espera em vão,
tão nítido e preciso era o vazio.


Quando finalmente sou encontrada e levada de volta a casa, olho para cima. No parque de estacionamento, sobre um grande candeeiro, uma gaivota domina o espaço com o seu porte altivo e olhar vigilante. É quase noite, forço os limites da abertura da máquina para conseguir apanhá-la assim, orgulhosa, cabeça erguida. É a Rainha dos Mares.



Gaivota como eu


Hoje de manhã, logo que acordei, abri a janela da sala como faço todos os dias. Vejo o Tejo, vejo a Lisboa ribeirinha que se eleva do Terreiro de Paço até ao Castelo de S. Jorge, a Lisboa de cores suaves que se estende até aos cais de Santa Apolónia. Mas hoje tinha uma curiosidade suplementar.

E eis que, ali mesmo, à minha frente, enorme, esguio, pousado no Tejo, lá estava ele, o grande cargueiro.  

Estava seguramente à espera de maré para acostar, que o Tejo tem baixios que só os pilotos experientes conhecem. 


Grande cargueiro recém chegado à minha janela - e repare-se em como, perto dele, parece pequeno o outro navio mais à frente.
Ao fundo a bela cercadura da Ponte Vasco da Gama


E assim, depois de o azul do Tejo me entrar na sala, depois dos navios me entrarem pela janela, a casa arejada, o olhar varrido de névoas, pude, então, começar o meu dia.

Deixai-me limpo
o ar dos quartos
e liso
o branco das paredes

Deixai-me com as coisas
fundadas no silêncio



Voando no espaço imenso e intemporal onde eu e vocês nos encontramos


E agora, que escrevo, livre e limpa, penso nos que me estão a ler, nos que tantas vezes me acompanham aí desse lado, dos que sabem que os poemas que leio e as palavras que digo são as asas de que preciso para voar e que a noite é a pele de que me visto para mergulhar no fundo do mar. E penso que não estou sozinha, que vos tenho aqui comigo, que juntos estamos a deslizar no tempo, construindo uma memória cheia de enigmas e sonhos pintados de luz. E,

Retorno para o segredo do mar e flutuo
nas águas frias do oceano.
Sou peixe a dançar na melodia das águas
e suspiro pela música das ondas
ao bater na rocha íngreme da pele.

Ao longe, deslizam veleiros, brancas muralhas
contra a altivez anil do céu.
Mais perto, barcos vindos da pesca
e alcateias de gaivotas, suspensas dos ares,
aguardam tardias o banquete.

Perdido na selva azul, avisto o sol,
uma promessa silenciosa desenhada
nas encostas verdes da praia.
As águas vão e vêm
ao ritmo breve da respiração.

Se a tarde se inclina e escorrega para o mar
o sol entrega-se à solidão do poente
e os dias de infância caem sobre mim,
cheios de barcos e castelos de areia,
orquestra flamejante no concerto da memória.


*

Os dois primeiros poemas são de Sophia, a eterna Menina do Mar, e o último, belíssimo, belíssimo, chama-se Retorno para o segredo do mar e flutuo e é o 338º Poema do Viandante do Homo Viator, um blogue onde nascem poemas muito raros.

*

E, por hoje, nada mais, apenas desejar-vos um domingo muito feliz.