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quarta-feira, setembro 28, 2016

Oh Bordalo II...!
Que só mesmo a tua bicharada para me manter aqui a pé, rapaz...!





Fogo que isto não está fácil. Retomei a rotina diária há pouco mais de uma semana e, chegada aqui à noite, dou por mim perdida de sono, como se já estivesse a precisar de férias e, ao fim de pouco tempo de reclinanço neste sofá de perdição, estou a adormecer num sono descansado como se estivesse a sestar.

E assim foi que, tal como ontem -- mal escrevi o post anterior, o dos belos assentos, e, antes que me deitasse a circular pelos outros blogues, a saber o que há de novo ou a responder aos comentários -- já estava caída no poço da santa inconsciência.

Acordei agora e, ainda mal acordada, volto a optar pela facilidade.

No entanto, não me rendo às primeiras: escolho uma música alegre a ver se, contagiada pela energia sensual dos cubanos, consigo salsar e rumbar em vez de borregar.

Muito bem. Vamos lá. A ver se consigo que as minhas mãos consigam andar por si e se, sem a ajuda da cabeça, conseguem acordar as palavras.


Depois de semanas sem comprar livros e desmotivada até de fazê-lo tão militantemente ignara fui nas férias, eis que no fim de semana e esta terça-feira tive umas recaídas -- e logo daquelas que provam que curada nunca estive nem tão pouco tentada a está-lo.

No domingo, de fugida entre veraneios e turismos acidentais, com o tempo à rédea curta, dei um salto a Setúbal. A vontade de me despedir da Culsete era grande e a pena de não trazer uma das últimas provas da sua existência teve que ser apaziguada. Tenho aqui ao pé de mim o que lá comprei e tinha vontade de vos mostrar. Em especial dois dos livros são de me benzer e chorar por mais. Mas, para isso, deveria fotografá-los e, para tanto, não encontro energia.

E esta terça-feira, com o dia transbordante como é a marca de água destes dias de semana, dei por mim, à hora de almoço, a mandar às malvas toda a urgência e a adentrar-me por ente os arremedos de literatura da estantaria, procurando, como cão que fareja restos de vida por entre os destroços, livros que me saltassem para os braços. E houve três que o fizeram num súbido coup de foudre. Tenho-os também aqui e, há pouco (antes de escrever sobre os tais bancos que fazem a diferença), estive gulosamente a namorá-los, mãos ansiosas por desfolhá-los folha a folha. Também mereciam uma vinda ao palco. Fotografia, nome e autoria, uma qualquer pequena amostra dos interiores. Em vez de estar a escrever isto, devia estar a ir buscar a máquina, a escolher-lhes um décor, uma iluminação, e que fizessem um cheese para vos aparecerem bonitos. Mas não consigo. Pesa-me o sono. Três semanas de dolce fare niente dão nisto, parece que a boa vida, à noite, faz questão de me lembrar que a coisa, para ser bem feita, era eu vir almoçar a casa, dormir a sesta, e, então, voltar ao batente para, à noitinha, aqui estar, fresca e esperta como uma alface escrevinhadeira. 

Pode ser que amanhã consiga disciplinar-me e impedir-me de adormecer quando batem as onze badaladas. Agora passa da meia-noite e, seguisse eu a recomendação conjugal, seguiria daqui para o leito em vez de me pôr a escrever sobre o que devia fazer e não faço. Mas a indisciplina corre-me nas veias e, por isso, aqui estou.

É que parece que chego sempre fim do dia com cinquenta mil assuntos sobre os quais me apetecia trocar uma prosinha com vós-outros. Há também ali em baixo comentários que me estão a chamar (e o virginal, então, estava mesmo a pedir um riso a duo) mas, com mil perdões que vos peço, vou fazer-lhes orelhas moucas pois não quero fazer perigar a possibilidade de me manter acordada até vos dizer ao que venho: o nosso Arturinho está a bombar cada vez com maior pujança e graça e isso tem que ser dito e festejado.

Com o que encontra -- chaparia, tubos e tralha -- o nosso Artur inventa ternura e dá à luz uma bicharada que nos olha com olhos quase de gente. Não é a primeira vez que o fantástico Bordalo II vem de visita a Um Jeito Manso nem será a última. O seu talento vai em crescendo e eu, que sou fervorosa devota da arte de rua, orgulho-me que seja meu conterrâneo um menino com tanta arte dentro do corpo.



Diz dele próprio o puto Bordalo (que já se internacionalizou pelo que se apresenta na língua de sua majestade de aquém e de além mares):
I was born in Lisbon, 1987. I belong to a generation that is extremely consumerist, materialist and greedy. With the production of things at its highest, the production of "waste" and unused objects is also at its highest. "Waste" is quoted because of its abstract definition: "one man's trash is another man's treasure". I create, recreate, assemble and develop ideas with end-of-life material and try to relate it to sustainability, ecological and social awareness.


O que mostro neste post é uma amostra da série Big trash animals. As palavras são ainda dele:


Trash Animals is a series of artworks that aims to draw attention to a current problem that is likely to be forgotten, become trivial or a necessary evil. The problem involves waste production, materials that are not reused, pollution and its effect on the planet. 
The idea is to depict nature itself, in this case animals, out of materials that are responsible for its destruction.
These works are built with end-of-life materials: the majority found in wastelands, abandoned factories or randomly and some are obtained from companies that are going through a recycling process. (...)


Grande Bordalo!

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E, agora, queiram descer até ao post seguinte para irem repousar a vossa beleza em bancos, cadeiras ou balouços onde o rejuvenescimento é garantido.

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sexta-feira, agosto 26, 2016

Paris, mon amour



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Digo que não gosto de Paris no verão mas estou aqui e só me dá para me lembrar dos seus lugares. Não dos lugares turísticos mas dos jardins, ruas e pracinhas, das esplanadas, das pessoas diferentes com que nos cruzamos, da vista da belíssima cidade a partir de alguns telhados, dos passeios pelos boulevards, das bancas de livros e estampas na beira do rio, das livrarias.

E agora estou a lembrar-me de uma coisa que não sei se já aqui contei. Éramos dois casais e andávamos quase sempre juntos mas um dia fomos cada casal para seu lado, acho que eles iam visitar algum amigo num arredor qualquer. Encontrámo-nos à noite e ele vinha com um blusão de pele novo, giríssimo. Nós admirados, não eram o género de pessoas que fossem às compras de roupa, muito menos ele. Mas estavam pouco convencidos. Então o que tinha sido? Não me lembro já bem de todos os pormenores, tenho ideia que, no comboio, tinha entrado um fulano com um malão. Então o fulano, que tenho ideia que era italiano, tinha dito que tinha estado a expor artigos de pele numa passagem de modelos ou exposição, não me lembro bem, e que tinham sobrado umas peças e que não lhe dava jeito ter que expedir aquilo por avião e que se conseguisse vender tudo, melhor. E que, então, tinha proposto vender um blusão por tuta e meia, não me lembro se uns 20 ou 25 euros. E que eles acharam aquilo muito suspeito e que o fulano ainda tinha feito um desconto. E, a modos que contrariados e desconfiados, ficaram com o blusão.

Ora o blusão era um espanto, bom mesmo, uma boa pele, um bom forro, um bom design. Chegaram ao hotel, reviraram o blusão, apalparam, sacudiram, pensando que tinha droga escondida, qualquer treta. Nada. Nem sabiam se o ele o havia de vestir, pois mais do que certo era material roubado e ainda eram apanhados

Mas então ele lá se afoitou e lá o vestiu. Um espectáculo de blusão. Ainda me zanguei por ele não ter trazido também para nós. Eu, que acho que desencanto pechinchas por onde passo, nunca consegui coisa assim.

Mas, pronto, isto foi uma derivação.

Estou aqui na sala, a escrever deitada no sofá, e a olhar para a estante baixa, funda e comprida, onde tenho livros e tralha e, por cima, a televisão e mil molduras.

Uma vez, o mais pequeno abriu a estante e começou de lá a tirar as figurinhas do presépio, os anjinhos, as caixinhas de porcelana, a caixinha com a bússula, a caixinha de música e outras coisas do género. E então, apressadamente, o mais crescido puxou-o por um braço e disse: 'Não mexas no museu da Tá!' e eu achei um piadão porque vi que eles olham essas minhas pequenas preciosidades como objectos de museu. Mas uma das peças trouxe-a eu de lá, há muitos anos, eram os meus filhos muito pequenos, ainda me lembro do meu marido andar com o meu filho às cavalitas: é um bule muito bonito, estou a olhar para ele, tem umas cores suavíssimas, e tem forma de elefante (se não estivesse cheia de preguiça, ia fotografá-lo para o mostrar). Nessa vez trouxe também uns copinhos pequeninos de vidro pintado à mão, com flores douradas e cor-de-rosa velho. Tinha muito medo que se partisse aquilo no avião, tive mil cuidados, e o meu marido sem querer saber, achava absurdo que eu trouxesse aquilo, se se partisse acho que ele até acharia que era bem feito para eu não ter ideias daquelas. Mas chegou tudo intacto. E não sei como, com mudança de casa pelo meio, com tanta miudagem sempre cá em casa, ainda resiste tudo. Nunca os usei, sempre os mantive a bom recato, porque são umas peças mesmo bonitas. Olho para elas e lembro-me de Paris.


E nessa vez, em Montmartre, os miúdos posaram para serem retratados a carvão. Mesmo bonitos. Quando lá voltámos, já mais crescidinhos, no mesmo sítio, posaram para uma caricatura. As mesmas feições, engraçados. Mas cansavam-se, muito museu, muita caminhada. No entanto, divertiam-se. 

Também acho que já contei. Uma vez fomos jantar para a zona Des Halles, íamos à procura de um certo restaurante. Mas os miúdos estavam estafados e o meu marido impaciente, quando chega a uma rua com restaurantes, por vontade dele entra no primeiro - e, então, vimos um com uma decoração muito bonita, em tons de violeta e preto, com uns castiçais entre o design e o romântico, com umas flores altas muito bonitas. Pronto, ficamos é já aqui.


Pedimos - sempre aquela festa, os miúdos a quererem experimentar tudo - e nem reparámos em nada. Até que, instalados, os amouse-bouche já a sossegar a impaciência, começámos a ver o que se passava à nossa volta. Só homens, alguns muito in love, de mão dada ou aos beijos na boca, outros a darem palmadas no rabo dos empregados, um a beijar na boca um empregado. Nós ali os quatro completamente deslocados. Os miúdos parvos com aquilo, nunca tinham visto por cá nada assim. Depois chegou um todo maquilhado, grandes pestanas, umas calças completamente justas e todo provocante e os outros todos a meterem-se com ele. Os miúdos faziam sinais um para o outro. O meu marido furioso connosco, a não querer que olhássemos ou ríssemos, a dizer que ainda arranjavamos chatice. 

Quando cheguei ao hotel, ao ver os folhetos turísticos, vi que aquele restaurante era um dos mais carismáticos do roteiro gay. Estava explicado.

E a bailarina enorme, completamente gorda, toda Toulouse-Lautrec? De tutu, tules cor de rosa, em pontas, a circular dançando nos Champs Elysées? Ainda hoje a minha filha fala nela.

E quando fomos os dois, romanticamente, em Wagon-Lit? Que viagem tão linda. Gostei tanto.

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E não vos maço mais com estas recordações, ainda por cima em modo repetex. Isto é falta de férias. Tenho é que lá ir um dia destes.

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E, para quem não conheça, um vídeo divulgado esta quinta-feira, muito bonito, com Paris num pas de deux com Victoria Dauberville, uma bailarina dos Dot Move.

Transcrevo parte da apresentação:

C’est l’histoire d’une danseuse seule face à son destin, en proie au doute mais déterminée à réaliser son rêve coûte que coûte : danser à l’Opéra de Paris. 

Pour illustrer ce conte moderne, DOT MOVE a relevé le pari de rendre Paris complètement désert pour en faire un terrain de jeu idéal d'une danseuse classique.

Le film est illustré par « Rêve d'Opéra », extrait du conte musical les « Souliers Rouges » écrit par Fabrice Aboulker et Marc Lavoine

RÊVE D'OPÉRA




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Lá em cima era Jacques Brel interpretando Les prénoms de Paris

As imagens mostram pinturas no museu de que mais gosto e que visito de cada vez que estou em Paris: o Musée d'Orsay.

Os autores são, respectivamente: Jean-Auguste Dominique Ingres, Paul Gauguin, Claude Monet, Auguste Renoir, Toulouse-Lautrec, Gustave Courbet e, finalmente, os jovens gregos são de Jean-Léon Gérôme, 
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quarta-feira, julho 06, 2016

Surpreende-me também



Tocam nas ruas, nos indiferentes corredores sem nome pelos quais passa gente apressada que não lhes presta atenção e que nem sequer os vê, como se o que se ouve fosse mera música de fundo que de alguma coluna de som se evolasse. Deve ser difícil sobreviver assim, anonimamente, entre gente desatenta que apenas de vez em quando se detém e, talvez por comiseração, deixa uma moeda no pequeno prato que, tantas vezes, pousam envergonhadamente à sua frente.

Pois bem. Há quem tenha ideias que enternecem de tão generosas e suspreendentes que são. É o caso desta de que aqui hoje dou conta.

Os bailarinos Dot Move lembraram-se de surpreender os tocadores de música do metro de Paris (e se são intermináveis os tentaculares corredores de Paris), começando a dançar de improviso à sua frente e surpreendendo também as apressadas pessoas que por lá passavam. O resultado é comovente.


 
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Foram também bailarinos Dot Move que, em pleno inverno parisiense, homenagearam a cidade do amor, dançando de lábios colados, e, nalguns casos, com que empatia e química entre eles. Pretendiam, desta forma, homenagear a liberdade e o afecto numa cidade que, pouco tempo antes, tinha sido sangrentamente manchada pelo medo.

Paris is kissing




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No vídeo da dança junto aos músicos do metro de Paris, os bailarinos são: Victoria Dauberville, Alexandre Fournier e Melle Lee Za. E os músicos são: Oley Yugan, La’hcene e Vanupié 

No vídeo da dança dos beijos, Tiwayo interpreta « Dans Tes Yeux » que originalmente era de Anis. Os pares de bailarinos são:

Manon Dubourdeaux – Jesse Lyon
Cécile Magdeleine – Roman Bonaton
Anna Guillermin – Souren Nazarian
Melle Lee Za – Alexandre Fournier
Clio Arvaniti – Regi Hybride
Justine Christin – Knuckles
Alex - Dédé

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A ver se amanhã arranjo estômago para falar da chungaria que grassa na Comissão Europeia e nas filiais instaladas por todo o lado, nomeadamente no PSD do intelectualmente indigente Láparo e da descarada Pinókia


A ver se consigo, também, falar dos ratos ingleses, esses pequenos patifes, biltres copofónicos, que conduziram o Reino Unido para a situação de vexame em que agora se encontra tendo, acto contínuo, abandonado o navio. Agora, sem ninguém ao comando e sem saberem o que querem fazer, para aí andam sujeitos à chacota geral. 

E é com governantes desta linhagem que a Europa vai andando.

Mas não é hoje, que hoje não me apetece maçar-me.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela quarta-feira. 

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sexta-feira, fevereiro 26, 2016

N' O Instante antes do beijo diz o meu nome





Não quero o primeiro beijo:

basta-me 
O instante antes do beijo.

Quero-me 
corpo ante o abismo, 
terra no rasgão do sismo. 

O lábio ardendo
entre tremor e temor, 
o escurecer da luz 
no desaguar dos corpos: 
o amor 
não tem depois. 

Quero o vulcão
que na terra não toca: 
o beijo antes de ser boca. 


[O Instante Antes do Beijo de Mia Couto, in 'Tradutor de Chuvas']


Diz o meu nome 
pronuncia-o 
como se as sílabas te queimassem 
                                  [os lábios 
sopra-o com a suavidade 
de uma confidência 
para que o escuro apeteça 
para que se desatem os teus cabelos 
para que aconteça 

Porque eu cresço para ti 
sou eu dentro de ti 
que bebe a última gota 
e te conduzo a um lugar 
sem tempo nem contorno 
(...)


(...)
No húmido centro da noite 
diz o meu nome 
como se eu te fosse estranho 
como se fosse intruso 
para que eu mesmo me desconheça 
e me sobressalte 
quando suavemente 
pronunciares o meu nome 


[Excerto de Diz o meu nome de Mia Couto, in 'Raiz de Orvalho']

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A escultura lá em cima é Psyché ranimée par le baiser de l’Amour de Antonio Canova (1757 - 1822)

A primeira fotografia é de Doisneau: Le baiser de l’Hôtel de Ville, 1950

A terceira mostra Alain Delon e Romy Schneider durante a rodagem do filme 'A Piscina', 1968

A dança é Paris Is Kissing pelos bailarinos do Dot Move sobre «Dans Tes Yeux» originalmente interpretada por Anis, cantada por Tiwayo.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela sexta-feira

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