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quarta-feira, agosto 24, 2022

Dominas o Português ou também cais nestes erros comuns? Testa o que sabes

 



Hoje tivemos festa cá em casa. Não sei se foi o último leão da série se o primeiro virgem. Quiçá é um leão virgem, uma daquelas misturas explosivas. Uma turma chegou da praia e a outra  de fora, directinhos do aeroporto para cá. Tivemos cantoria e até em marroquino se cantaram os parabéns. O bolo, encomendado pela aniversariante e entregue cá em casa, era delicioso e lindo. Quando vejo estes bolos (e já o bolo dos outros leõzinhos tinha sido obra da mesma inspirada boleira), fico sempre tentada a vencer a minha inibição e fazer nova aproximação à arte doceira.

Claro que tivemos também música pimba, 'aperta, aperta com ela', jogo da cabra-cega e um jogo de mímica que nos pôs a todos a rir a bom rir. Bem queremos que também haja bailarico mas os rapazes estão em maioria e preferem maluqueiras de outras naturezas. 

Claro que foi aquela boa disposição de sempre, conversa, risota, chinfrim, o cão maluco ora de roda de um ora de outro, todos felizes da vida. Os anos vão passando e ainda bem que cá estamos a vê-los passar. Venham mais que chegamos bem para eles.

Depois de terem saído, já aqui me fartei de rir com as fotografias e com os vídeos. Grandes malucos. Momentos que ficam na nossa memória.

Agora abranda um pouco a nível de aniversários. Nesta família parece que ninguém se lembrou de procriar nos primeiros meses do ano. E ainda bem. A ver se finalmente consigo começar a fazer um pouco de dieta.

Entretanto, lembrei-me de falar no quiz de português aos que tinham estado fora. Também ficaram surpreendidos com algumas coisas. Também eu. Pensando que ia tirar de letra, zerinho erros, tive que enfiar a viola no saco. Em 14 falhei 2. Aliás, falhei 3 mas uma foi um horrível lapso. Era uma daquelas tão óbvia que eu pensei: 'credo, alguém falhará esta...?' e nisto, sem saber como, carreguei-lhe. Depois pensei que devia recomeçar mas como já tinha falhado uma e já sabia a resposta correcta, seria batota. 

Mas o divertido foi pôr os meninos a fazerem aquilo. Só interjeições de fúria. Falharam para aí metade. O mais velho dizia que ninguém diz aquilo, referindo-se à resposta correcta, que ele nunca ia cair naquela, que, se dissesse aquilo, os amigos iam gozar com ele.

Mas como ficaram picados, passado um bocado estavam com um quiz para mim, para se vingarem. Quando vi, declarei-me logo vencida. Bandeiras. Só sei uma, a de Portugal. Bem, se calhar mais uma meia dúzia mas acho que mesmo essa meia dúzia apenas sei reconhecer. Se, de cabeça, me puser a descrever, falham-me, de certeza, os pormenores. Até aquelas que, vendo-as, não me oferecem quaisquer dúvidas, ao descrevê-las, ai, ai, ai... Brasil, por exemplo. Uma vergonha. Disse: Verde. E tem um círculo branco coma risca azul. Depois vi que faltava o amarelo. Corrigi mas não acertei. Até que um dos meninos me falou no losango do qual nem me lembrava, estava naquela baralhação de onde encaixar o amarelo, o azul e o branco. Ridículo, não é? Mas é. Ou seja, o meu fraco poder de observação bem patente nisto. Por mais que quisesse fugir ao quiz, obrigaram-me a alinhar. Mas desisti ao fim de uma meia dúzia sem conseguir acertar uma. Só países esquisitos. Mas mesmo que fossem banais, não acertava. Ficaram delirantes. Anteviam que seria uma desgraça mas não imaginariam a dimensão da ignorância.

Mas, enfim, é o que é.

Seja como for, para quem não teve oportunidade de ver o Público naquele dia e testar os seus conhecimentos de língua portuguesa, aqui fica:

Dominas o Português ou também cais nestes erros comuns? Testa o que sabes

São erros comuns, daqueles que já foram reproduzidos tantas vezes que grande parte já acha que é mesmo assim que se diz (ou escreve). E tu, cais nessa armadilha ou tens o bom Português na ponta da língua?

Não digo quais as duas que errei (por sinal, as mesmas duas que a minha filha) para não vos influenciar. Espero que tenham melhor sorte que eu. 

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Desejo-vos uma boa quarta-feira

Saúde. Simpatia. Paz.

sábado, março 05, 2022

Putin é um inimigo da Humanidade -- quem o diz é Mikhail Khodorkovsky, ex oligarca russo

Путин — враг человечества — Михаил Ходорковский, бывший российский олигарх

 

Não quero saber de mails ou comentários (vários deles nem publico) a desvalorizar o que está a acontecer, invocando conflitos anteriores em que o mundo não se insurgiu assim.

Não quero saber porque respondo pelo que faço, não pelo que outros fizeram noutras circunstâncias. 

Nem tenho que me justificar por eu e o resto do mundo estarmos a condenar a incompreensível e violenta invasão russa e não termos sido tão veementes em anteriores circunstâncias.

Relativizar os bárbaros crimes que Putin está a levar a cabo não me parece razoável. Crimes sempre houve e podemos recuar ao condado portucalense ou a antes disso, muito antes, recuar até à malta das tribos, à malta das grutas, à malta que ainda mal andava em duas patas. Recuar até antes de haver gente. Sempre houve guerra. Faz parte dos genes, se calhar. Ou, segundo creio, é um efeito secundário da testosterona.

Mas crimes passados não podem justificar crimes futuros. Por muito que os passadistas, os fatalistas, os pessimistas, os derrotistas queiram, eu não o aceito.

Alguma vez temos que crescer, usar a cabeça.

Discordâncias resolvem-se a bem, por negociação. A paz, o direito à vida digna e livre tal como o direito à auto determinação são valores que estão de um dos lados de uma linha vermelha. Quem a pise, quem desencadeie a guerra, quem faça perigar os direitos das pessoas e dos países merece inequívoco repúdio.

Por isso, agora a guerra tem que parar, Putin tem que ser apeado e travado. 

Depois, em ambiente de paz, que se discutam áreas de influência, desnuclearização, equilíbrio entre polos contrários, (in)dependências da indústria de armamento, reconstrução de um país em ruínas e de famílias em chagas -- o que se queira. Mas primeiro a guerra tem que acabar, a invasão tem que acabar. 

Putin tem que ser neutralizado. Não sei como mas tem que haver maneira. Acredito que isso esteja a ser estudado a acredito que há quem saiba como fazê-lo.

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Entretanto, algumas vozes antes fiéis e próximas de Putin começam a falar, alto e bom som, contra Putin, o mitómano desvairado.

‘Enemy of humankind’: Ex-Russian oligarch, Mikhail Khodorkovsky, a former Russian oil tycoon, speaks out about Putin

CNN's Nina dos Santos speaks with Mikhail Khodorkovsky, a former Russian oil tycoon and Kremlin critic who says Russian President Vladimir Putin is "the enemy of humankind."


Mikhail Borisovich Khodorkovsky (Russian: Михаил Борисович Ходорковский, IPA: [mʲɪxɐˈiɫ xədɐrˈkofskʲɪj]; born 26 June 1963) is an exiled Russian businessman, philanthropist[6] and former oligarch,[7] now residing in London.[8] In 2003, Khodorkovsky was believed to be the wealthiest man in Russia, with a fortune estimated to be worth $15 billion, and was ranked 16th on Forbes list of billionaires.[9] He had worked his way up the Komsomol apparatus, during the Soviet years, and started several businesses during the period of glasnost and perestroika in the late 1980s. After the dissolution of the Soviet Union, in the mid-1990s, he accumulated considerable wealth by obtaining control of a number of Siberian oil fields unified under the name Yukos, one of the major companies to emerge from the privatization of state assets during the 1990s (a scheme known as "Loans for Shares").
(...)
In 2014, Khodorkovsky re-launched Open Russia to promote several reforms to Russian civil society, including free and fair elections, political education, protection of journalists and activists, endorsing the rule of law, and ensuring media independence.[22][23] He has been described by The Economist as "the Kremlin's leading critic-in-exile"
(...)

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 Mikhail Khodorkovsky calls on fellow Russians to oppose Vladimir Putin and his war in Ukraine.

Михаил Ходорковский призывает соотечественников выступить против Владимира Путина и его войны на Украине.


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Permitam-me, ainda, que vos recomende a leitura de As guerras perdem-se de Ana Cristina Leonardo

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Força, Russos, libertem-se e oponham-se a Putin, façam-no parar
Идите, русские, освободитесь и выступите против Путина, заставьте его остановиться

sábado, julho 18, 2020

Jorge Jesus, Cristina Ferreira, Ferreira Fernandes - começou a época das transferências e, ao mesmo tempo, a silly season





Jorge Jesus vai e vem, faz e desfaz, salta de clube em clube, é aplaudido e vaiado, sai em ombros ou ao estalo, passa de rival em rival, atravessando a segunda circular ou o atlântico, dancing for money e cagando para o resto. Pelo caminho vai abichando uns milhões. Não há cá amor à camisola, conversa mais fajuta, há é profissionalismo. E os $$$$$ a crescerem na conta bancária (nas muitas contas bancárias) e quem o achar traidor que pense duas vezes: quem trai traidor deve ser como o ladrão que rouba ao ladrão, mil anos de perdão. E nham-nham-nham, rebenta o balão. (O balão do pastilhão, bem entendido)


Cristina Ferreira, outra caga-milhões, salta da TVI para a SIC e na SIC é recebida em ombros, deitam-se no chão para ela saltar em cima, o pastor Rodrigo fecha o noticiário com 'o país, o mundo e o bolo da mãe da Cristina Ferreira' e as engraxadoras da Arrastadeira Vermelha lambem as botas e os próprios pés da Cristina, e a Cristina guincha e escaganifa-se com risinhos escaganifobéticos e toda a gente aplaude, e vai aos globos de ouro armada em nossa senhora de fátima e toda a gente ajoelha e agora, sem mais nem ontem, a dita Cristina, santinha no altar das vaidades, caga de alto para os devotos da SIC e baldeia-se outra vez para a TVI. Cristina e Jorge Jesus, grandes profissionais do espectáculo e da carteira recheada. Diz que vai agora para accionista. Quem a venerou, babando-se enquanto a venerava, que vai agora dizer? (Pergunta retórica esta minha). 

E, provando e reprovando que abriu a época das transferências, eis que me cai o queixo ao chão. Na mesma onda dos anteriores, dou com mais uma troca-sensação. Ferreira Fernandes, ex-Público bandeou-se para o Diário de Notícias onde chegou a Director. E se eu gosto de lê-lo, caraças. Pois bem, bandeou-se outra vez para o Público. Faz sentido? Eu diria que não. Mas a minha segunda consciência diz-me: 'Define sentido'. Não sei. Dou-me uma segunda oportunidade: 'Define faz sentido'. Mas também não sei definir pelo que, na volta, isso de 'fazer sentido' não existe. Portanto, trocas e baldrocas é o que está a dar e que se fornique essa coisa do sentido. E eu, que não gostaria nada de estar a servir o FF na mesma travessa em que apresento o JJ e a CF, face às insólitas circunstâncias, vejo-me forçada a fazê-lo. Ele há coisas.

Depois disto, só falta o Durão Barroso, esse perfeito-nulo, porteiro das Lajes, nos aparecer como grande educador da classe operária, liderando o MRPP,  ou o Ventura, esse pintarolas manhoso, aparecer no PSD de braço dado com o Passos Coelho, esse grande estadista que, apesar de só ter feito merda, agora por aí anda ao colo de tudo o que é burro neste país e, para cerejar o topo do bolo, nos aparecer o Carlos Costa, essa mítica figura que esteve cega, surda e muda enquanto o sistema financeiro ruía, como gestor de offshores. 

Não sei porquê mas parece que só me apetece exclamar: Eh Lecas.

Tirando isto... que mais?

Quarenta e tal graus por aqui, uma temperatura desumana. Deve ser isso. Estas temperaturas de assar pimentos ao sol estão a virar as casacas do avesso, estão a virar frangos às cegas, estão a fazer cambalhotear as mais gradas figuras desta grande nação.

Eu própria tenho que pensar bem. Qualquer dia destes, se a coisa é pegajosa como o corona, ainda pego a pandemia e ainda vos apareço a assinar posts aí num outro blog, num daqueles que vos deixaria de cara à banda: What?! Esta aqui?!?! Não... Não é possível...

 Ah pois não, violão.

E vai daqui um beijinho para vocêzes. Com máscara, claro, que eu, noblesse oblige, com isto do corona, não facilito.


Um bom sábado. 

(E bebei água com farturinha, está bem?)

segunda-feira, março 23, 2020

Parece que o COVID faz os broncos saírem à cena


A minha mãe, no último dia que saíu, creio que na sexta-feira da outra semana, numa altura em que eu já andava a implorar-lhe que não saísse mas em que ela achava que ali o bicho não chegava, pelo menos já foi de máscara. Foi ao lugarzinho do bairro comprar pão e mais não sei o quê e, segundo ela, era a única a proteger-se. E contou que uma 'gorda e bronca' que lá costuma encontrar estava a tentar dar um beijinho a um outro que a afastou e a quem ela não deu tréguas aproximando-se, rindo, requerendo o beijinho. A minha mãe alertou-a que, face à grave epidemia, os beijinhos e apertos de mão deveriam ser evitados, ao que ela, galhofeira, respondeu: 'Temos que brincar com estas coisas... Se a gente não leva isto para a brincadeira, então, como é...?'.

O que acabei de ver na televisão, algures a Norte -- mas em mais do que um lugar --, é do mesmo calibre. Ainda há gente que não percebeu o que está a passar-se. Gente aos magotes a passear e a curtir. Todos os broncos parecem que, nem suricatas, saem à cena nestas alturas. Trumps e Bolsonaros e gente que os apoia ou da mesma raça: gente estúpida, gente que não compreende nada mesmo quando as evidências lhes são escarrapachadas nas fuças, gente que acha que os outros são exagerados e que eles, os burros, é que são espertos.

Todas as pessoas que parece que ainda não perceberam que é preciso 'achatar a curva' -- reduzindo o contágio, mantendo-se em isolamento social, ter estritos hábitos de higiene e respeitando na íntegra o protocolo respiratório (não estando a menos de cerca de dois metros dos outros, não tossindo ou espirrando para o ar ou para a mão ou, de para um lenço, deitando-o logo para o lixo) -- têm que ser firmemente chamados à razão. 

Não há que ter delicadeza para quem não respeita a vida dos outros. Se os estúpidos não percebem a bem terão que ser obrigados, nem que seja à bruta, a a cumprir todas as recomendações da DGS e do governo.

Leitor, a quem muito agradeço, enviou-me um vídeo muito divertido e acho que claro. Seria bom que, por cá, se fizessem vídeos equivalentes. Daqui lanço um apelo para que os criativos ou os entendidos nestas coisas, lancem campanhas fortes para convencer todos, os novos e os velhos, os civilizados e os broncos, os inteligentes e os burros encartados.




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Entretanto, aos inteligentes, recomendo a leitura, no Público, de:

O novo coronavírus: factos, respostas e previsões II,

Análise de Manuel Carmo Gomes, professor de Epidemiologia da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa

[Não recomendo aos burros porque esses, está mais do que provado, só percebem as coisas de outra maneira]

sábado, julho 02, 2016

António Guerreiro e os jornalistas




A verdade é que deixei de comprar jornais. Onde trabalho há jornais em papel que também não leio. Jornais, agora, só online e, ainda assim, são percorridos em diagonal, apenas para perceber a quantas ando. Mas logo constato que, se não os lesse, não perdia muito pois, a julgar pelo que leio, não saímos do mesmo sítio. E, também, quem escreve fá-lo, em geral, sem alma ou arte.

Penso que não é nostalgia o que sinto quando me lembro da era antes da internet, quando esperava com gostosa expectativa os jornais em papel, quando os folheava procurando as crónicas de determinado jornalista, as entrevistas, as reportagens, as opiniões. Se calhar sou já vcc (= velha como o caraças) mas eu procurava, por entre as páginas dos jornais, os jornalistas.


Agora não. Os jornalistas foram saindo dos jornais. Tirando o Fernando Alves, senhor tão inteiro que mais parece uma abstração, tirando um bravo e quixotesco António Guerreiro e mais uns quantos outros, talvez aqueles a quem a reforma já dá o conforto necessário à liberdade de escrita, aquilo a que se assiste é ao produto da actividade de entretenimento ou a outra coisa qualquer, que jornalismo não é. A questão é que as redações devem estar rarefeitas com a saída de tantos jornalistas de verdade. Foram ficando os outros. Parece haver agora, sobretudo, agendas escondidas (ou, mesmo, mal escondidas), fretes, repetições frouxas do que os spin doctors debitam para as redacções. E depois textos banais, fraquinhos, cópias quase integrais de notícias de um para outro jornal online.

Talvez seja a juventude dos jornalistas, e quase só ficam os jovens porque baratos (que os mais velhos, os mais caros, esses já foram encostados às boxes), talvez seja o medo que a precariedade traz e que condiciona a criatividade e a liberdade. Não sei. Mas é pena. O jornalismo perdeu o seu lado nobre, vertical, romântico, aventureiro. Parece já quase não haver lugar aos textos burilados, feitos com dedicação e paixão que se encontravam no bom jornalismo.

Estou a ser injusta para os que ainda resistem, eu sei. Mas a questão é que uma pessoa toma a decisão de abandonar um jornal porque a linha geral desilude e, portanto, acabam por ser injustamente castigados os que ainda conseguem manter a integridade.


Vem isto a propósito de mais um honesto texto de António Guerreiro no Público. Transcrevo apenas uns excertos mas aconselho que sigam o link para poderem ler o texto na íntegra.

 A jornalização em curso (2ª parte)


Em 1853, o escritor alemão Gustav Freytag, que nunca ocupou nenhum lugar de destaque na história literária, publicou uma comédia chamada Os Jornalistas que tem uma personagem exemplar, pela qual a peça continua a ser citada. Chama-se Schmock, essa personagem, e a sua réplica mais famosa, a que melhor serve para a caracterizar como um jornalista que se molda a todo os ambientes porque não se sente condicionado por convicções nem princípios, é aquela em que proclama: “Aprendi [...] a escrever para todas as tendências. Escrevi à esquerda e depois à direita. Sei escrever de acordo com qualquer tendência”. A actualidade de Schmock está bem visível na dança frenética de directores, sub-directores, editores, colunistas e outros membros da oligarquia que domina hoje os órgãos de comunicação social: de jornal para jornal, da televisão para o jornal, do jornal para a rádio e vice-versa e em todos as direcções. (...) 
Eles só existem e prosperam no seio de uma cultura decorativa, onde se pode escrever ou programar à esquerda ou à direita, de acordo com a tendência de ocasião. E todo o seu trabalho é dirigido a uma massa informe, em que também os leitores e os espectadores são vistos como receptores acríticos. Eles cumprem uma função que só se pode desenvolver sobre as cinzas do jornalismo e de todo o projecto cultural. Como Lacan dizia do amor, também eles poderiam dizer dos jornais, rádios e canais de televisão que dirigem, por turnos: a nossa missão consiste em dar o que não temos a alguém que não o quer. Sem projecto, sem tendência que não seja a dos ventos da estação, os media ficam ao serviço desta sociedade implosivo-mafiosa: este é o panorama com que estamos confrontados.

(...) Mas os Schmock do nosso tempo – e são muitos – dão a ver também outra coisa: que os órgãos de comunicação social não estão nas mãos dos jornalistas e de quem neles escreve ou produz “conteúdos” (como se diz hoje), mas nas mãos de decisores gestionários. Abaixo desta estrutura gestionária está a massa dos jornalistas proletarizados, sem qualquer autonomia, mesmo que continuem a assinar com o nome próprio: o jornalismo deixou de se conformar às exigências do trabalho intelectual. Foi esta verificação que dois jornalistas franceses fizeram há poucos anos, num livro que tinha um título deprimente:
Notre métier a mal tourné. Isto é: a nossa profissão correu mal. 

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As fotografias que usei são da autoria de Oliver Curtis. Condolence é interpretada por Benjamin Clementine.

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E agora, caso estejam para aí virados, queiram descer e aceitar o conselho sobre alguns dos Livros para morrer antes de ler.
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terça-feira, maio 31, 2016

António Araújo e José Rodrigues dos Santos
- fascismo, marxismo, O Pavilhão Púrpura, pancada na cabeça e faz de conta que é literatura


Ao dar uma circulada pelos blogs, passei pelo Malomil. Aí, José Rodrigues dos Santos, com o seu cérebro de plástico na mão, parece perplexo talvez porque António Araújo, autor do dito blog, escreve sobre a sua mais recente obrícula no Público. António Araújo deu ao artigo o título Fascismo é quando um homem quiser.


Comecei a ler, mas o texto era dose: tinha amuse bouche, entrada, sopa, prato de peixe, prato de carne, doce, fruta, café e digestivo e, portanto, estando eu a ver se faço dieta, dei uma atravessada um tudo nada rápida pelo texto, gabando a paciência de António Araújo.

É certo que António Araújo, ex-assessor cultural do ex-Cavaco, só pode mesmo ter uma resiliência notável. Senão como perceber que tenha aguentado tantos anos em vão a tentar enfiar alguma cultura na empedernida cabeça do seu ex-presidente?


Para além disso e para além de ser Jurista e Historiador (conforme comprovo no Público), é pessoa de uma prolixidade ímpar. Tenho-o também por pessoa com algum pendor obsessivo pois, volta e meia, se lhe dá para embicar com alguma pobre alma, desencanta dúzias e dúzias de fotografias para ver se avacalha a imagem do coitado (como recentemente fez com Boaventura de Sousa Santos lá no Malomil).
Não gosto do verbo avacalhar mas estou com falta de imaginação. Também me lembrei de ajavardar mas não me parece melhor. Abardinar não sei se existe. Enlamear parece-me excessivo. Bem, se me ocorrer melhor já cá volto para edulcorar a coisa. Para já, fica assim.
Outra vez, lá no seu Malomil, num assomo de completa maluqueira, escreveu um tratado a propósito da capa da revista do Expresso na qual se via Fernando Medina com um smartphone. Não consegui ler tudo, achei que aquilo, mesmo para alguém com uma grande pancada na cabeça, já era delírio a mais e, portanto, preferi não testemunhar tal exercício de tresleitura a propósito de uma simples fotografia.

Bom, mas dizia eu que o bom do António Araújo lhe deu desta vez para gastar o seu provecto latim com um assunto que, em meu entender e às cegas, não mereceria sequer um parágrafo. Deu-lhe, imagine-se, para desmontar as balelas do José Rodrigues dos Santos no seu O Pavilhão Púrpura:
O texto de José Rodrigues dos Santos representa um lamentável exemplo de como uma amálgama confusa de referências e factos históricos pode conduzir a conclusões erradas (...)
Já o contei aqui uma vez. A única coisa que comprei do dito histriónico apresentador de programas alarachados de televisão foi um livro de entrevistas que o dito fez a escritores. Ingenuamente pensei que não tinha muito que enganar. Mas oh oh, se tinha. Eu deveria era ter ido devolver o livro: que coisa mal escrita, mal pontuada... Intragável.

Portanto, que o prosápias dos santos, a quem nitidamente falta metade da cabeça (capaz de ser, justamente, porque acha que o cérebro é para usar na palma da mão), lhe dê para encher páginas e páginas de tretas é lá com ele e com as mariazinhas que gostam do género. Agora que um senhor doutor jurista e historiador se ponha ao mesmo nível e se ponha a rebater as balhelhices do outro é que me parece incompreensível.

Alguém, em seu pleno juízo, liga alguma importância às rocambolescas deduções que uma criatura quem nem um gráfico sabe ler e que nem uma entrevista sabe fazer? José Rodrigues dos Santos sabe alguma coisa de marxismo, fascismo, codex, sexo de Cristo ou como dar banho ao cão para que alguém se ponha a ler o que ele diz e depois a rebatê-lo...?


E, portanto, com vossa licença, deixem que confesse: depois de ler o texto de António Araújo sobre as teorias de cão de caça do José Rodrigues dos Santos só me ocorre dizer que tão maluco deve ser um como o outro.

E, no fim de tudo, só retiro mesmo, mesmo, uma conclusão: que o António Araújo está melhor agora do que quando andava a ver se conseguia fazer alguma coisa do Cavaco. Via-o nas fotografias muito penteadinho, muito enjoadinho, muito cinzentinho, Aliás, nem sei se não estou a fazer confusão. Olho para o antes e para o depois e não me parece o mesmo. Este agora, colorido, bronzeado, mais despenteado, com ar mais desempoeirado, parece-me outro.

Seja como for, o António Araújo que vejo agora com ar malandreco na fotografia do Público mostra que está a caminho da regeneração. Só falta fazer uma cura qualquer para ver se deixa de andar a perder tempo com nulidades.

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O oposto: um exemplo de contenção e pontaria, reduzindo tudo ao título do post, é este delicioso post do Valupi no Aspirina B:


Sócrates, não mates o procurador, pá


Delicioso.

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E já cá volto para mostrar graffitis, casais e outras coisas. Até já.
Isto se conseguir que o computador desenvolva, o que, digo já, me está a parecer muito difícil. Esta coisa de eu não querer perder tempo a limpar o disco está a tornar-me a vida complicada...

...

sexta-feira, abril 08, 2016

João Soares e as prometidas salutares bofetadas nos dois senhores do Público,
os castiços Augusto M. Seabra e Vasco Pulido Valente
- para mim isso vale tanto como se lhes tivesse prometido umas saudáveis beijocas.
Que Bruno Nogueira nos traga, pois, o Sr. Henrique porque estamos a precisar de uma diversão à séria.


Se os últimos tempos não me têm sido fáceis, este dia, hoje, foi uma coisa do além. E se isto não fosse um diário público, era certo e sabido que me poria para aqui, em privado, a carpir sobre o meu ombro. Como, por pouca sorte, isto dos blogues é uma coisa qualquer que de privado não tem nada, nada mais me resta que não engolir os queixumes e tentar distrair-me com o que gira por aí, pelos ares. 

João Soares - a temível fera que ameaça tratar da saúde
de dois monumentos do Público 
E, por onde ando, de facto qual girândola, o que vejo são bofetadas. Bofetadas para aqui, bofetadas para acolá, e obviamente demita-se, e é o próximo a sair ou não é caso para isso, ou é caso mas não é por isso, e os vapores etílicos -- e, de certeza, as redes sociais a bombar.

À falta de cãozinho abandonado ou de mochilas simbólicas ou de alguém por quem R.I.P. em barda, as bofetadas com certeza que servem muito bem.
Ora não, a malta precisa é de adrenalina para bombar na maior animação.
Augusto M. Seabra, a verrinosa figura que,
na maior das facilidades,
consegue tirar do sério John Macho Só Ares
Fui, pois, tentar perceber o que se passava -- e o que vejo é daquelas polémicas à antiga, um provoca, o outro reage, teimas e zangas antigas, quiçá do tempo dos duelos ou de amigos bem bebidos que se desafiam para uma cena de pancada à porta da taberna, contendedores que se desafiam com adjectivos, impropérios, interjeições e muito riso à mistura, sopapo e canelada, cartas ao director e direito de resposta, os amigos a tomarem partido, as mãos a salivarem para a próxima disputa, a caneta já a pingar de inspirada inquietação enquanto o dono se baba, venham eles, venham eles, quantos são, quantos são?

Vasco Pulido Valente, o tal meliante
que anda
há séculos a pedi-las
(so, John Só Ares say)
E, enquanto isso, nos passeios, as vizinhas, as comadres, as beatas a correrem, na maior afobação, a chamar o polícia e o vigário. Ai que horror, até palavrão já rola na calçada, benza-se prima, benza-se.

Aqui chegada, acrescento: se me perguntarem se João Soares é, para mim, um modelo de virtudes e se dele mandaria erigir uma estátua apolínea para deificar a cultura do meu país, pois vos diria que talvez não.

Mas se me perguntarem se exijo dos ministros que se portem como uma menina acabada de ser ungida pelos sagrados óleos da castidade dir-vos-ei também que não. 

Posto isto, espero que, na Cultura, João Soares cumpra o que é esperado, que dignifique a actuação do governo nos domínios culturais e que o faça com competência e denodo. Tirando isso, se pisca o olho a alguém quando escreve no facebook, se envia beijinhos e abraços a alguns, beijocas fofas às admiradoras ou bofetadas virtuais ao Augusto M. Seabra ou ao Vasco Pulido Valente é coisa para cujo lado melhor durmo.


Só tenho uma sugestão a dar ao nosso ministro: que, quando voltar a desafiar os seus adversários na polémica, faça uso do seu estilo erótico (onde francamente tem mais graça). Insinue práticas dangereuses, proponha desaforos, junte personagens perigosas, e uma ou outra faca na liga -- apimente a prosa, vá. Mostre que é homem (de letras).

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E, entretanto, acabo de ter uma má notícia. É que acabo de ver António Costa a pedir desculpas aos dois ofendidos e informando a comunidade que já recomendou aos ministros que nem no facebook nem à mesa do café deverão soltar a franga ou a fera que têm dentro deles. 


Podemos, pois, descansar. Já não teremos bengaladas, bofetadas, traulitadas, besteiradas. Afinal vivemos na era dos smiles e dos gatinhos fofos. As tiradas queiroseanas já não moram aqui.

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E, assim sendo, nada mais tendo eu a declarar e pouco mais havendo a dizer sobre tão exígua farrinha, coisa de funfuns, gaitinhas e nada mais, chamo o Bruno Nogueira e peço que traga o Sr. Henrique. Esses, sim, são uns verdadeiros pândegos.

Arraial Gay Pride


Lado B
...

Já agora, ponhamos os olhos na idades dos cultos senhores que tão saudável beligerância mostram:

João Soares - 66 anos
Vasco Pulido Valente - 74 anos
Augusto M. Seabra - 60 ou 61 anos bem aviados
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sábado, agosto 29, 2015

De que fogem estas hordas de imigrantes, de refugiados, de invasores esfaimados e aflitos que um dia poderemos ter à nossa porta?


Há dias em que tenho uma em mente mas que me custa tanto que faço de tudo para a evitar. Sei que não conseguirei o tom adequado, sei que posso parecer fútil, leviana, sei que há coisas para as quais não há palavras. Por isso, este é o quarto post de hoje e já andei pelo sex-appeal, pelo humor, pela poesia, pelo amor - tudo para resolver se fujo ao assunto ou se tento abordá-lo. E aqui estou a hesitar. Não sei como mostrar o que penso sem correr o risco de, emocionada que estou, me mostrar lamechas; também não quero parecer panfletária. Ou vulgar.

E, no entanto, já falei algumas vezes disto. Vou falando. Mas acho que me fico sempre pela rama.

Centenas de milhares de pessoas de todas as idades, condições sociais e raças e de ambos os sexos têm vindo a deixar as suas casas e, correndo todos os riscos e sofrendo todos os horrores possíveis e imaginários, põem-se a caminho, morrendo, deixando familiares mortos para trás, em busca de um mundo em que possam viver com dignidade e esperança. Para isso, entregando todas as suas economias e pertences, colocam-se nas mãos de contrabandistas e bandidos e, procurando a Europa - que julgam ser um bom destino - metem-se dentro de barcos ou camiões onde muitos nem respirar podem, ou põem-se a caminho, crianças e velhos ao colo. Imagens que não parecem deste mundo chegam-nos a casa dia após dia, uma sucessão infindável de horrores. O sofrimento daquela gente parece não ter fim. Todos os dias mais dezenas ou centenas de mortos. Afogados, asfixiados. E as estradas cheias, cheias de gente. E comboios pejados de gente assustada, suja, exausta. E acampamentos a deitar por fora. E muros que se erguem. E arame farpado que dilacera os corpos e as almas. 

Andou a civilização a fazer-se, o mundo a desenvolver-se, a ciência e a tecnologia a superarem-se para que tantas centenas de milhares de pessoas passem por isto, como animais fugindo do fogo, como cães esfomeados percorrendo as ruas.

A cambada que ajudou a desestabilizar os países de onde esta gente foge não é agora capaz de ir para lá garantir um mínimo de ordem de modo a que as pessoas não tenham que fugir espavoridas, deixando as raízes para trás, correndo riscos de vida, pondo a vida dos filhos em risco. Ficam-se pelas palavras balofas e de circunstância. Quando foi para decidir ou apoiar as guerras ou os movimentos que provocaram isto, souberam tomar decisões. Agora que o inferno está lá instalado, lavam as mãos e entretêm o mundo com pífias considerações. Um asco de gente.

Não é com conversa que alguma coisa se fará: é indo para lá. Já lá deveriam estar tropas, Capacetes Azuis, não sei - gente que ajude a pôr cobro ao desatino e à crueldade sem rei nem roque que por lá impera.

Não sou capaz de dizer mais que isto porque me faltam as palavras e porque o peito se me enche de angústia. Vou, pois, ficar-me apenas pelas imagens.


De que foge esta gente?



Un drama con rostro

En la imagen, una mujer mira cómo la policía bloquea a un grupo de refugiados que hacen la ruta Macedonia-Grecia. El primero de estos países declaró el Estado de Emergencia el 20 de agosto, abrumado por el número de inmigrantes que llegaban a su país, y movilizó a su Ejército para que vigilara la frontera.


(ROBERT ATANASOVSKI (AFP))


Jugarse la vida

En la imagen, un inmigrante escondido debajo de un tren intenta colarse en él para dirigirse a Serbia, en la estación de Gevgelija (Macedonia). En los últimos días, más de 120 cadáveres de inmigrantes han sido descubiertos en vehículos que se dirigían a Europa y en los que los refugiados viajaban escondidos.


(BORIS GRDANOSKI (AP))


Miles de niños entre los refugiados

Inmigrantes sirios duermen en un parque de Belgrado, Serbia. Son más de 10.000 los refugiados que han cruzado con sus bebés y niños pequeños la frontera de Serbia en los últimos días.


(MARKO DROBNJAKOVIC (AP))

Estado de emergencia

La policía macedonia trata de bloquear a los inmigrantes que intentan entrar en su país. Alrededor de 39.000 personas, la mayoría de origen sirio, han sido registradas a su paso por Macedonia en el último mes. La cantidad abrumó al Gobierno macedonio, que declaró el Estado de emergencia.


(VLATKO PERKOVSKI (AP))


El miedo como compañero de viaje

Reacción de un inmigrante que sostiene a un niño mientras es detenido por las autoridades de Macedonia. Alemania espera este año la llegada de 800.000 refugiados a Europa, “el mayor reto al que se enfrenta nuestro país desde la unificación”, advirtió Sigmar Gabriel, líder socialdemócrata, partido en coalición con los conservadores de Ángela Merkel.


(DARKO VOJINOVIC (AP))


Un hogar en cualquier lugar

Rashina viene de Kobani, Siria. Tiene cuatro años y ha bajado por medio mundo para llegar hasta Europa. En la imagen, descansa en una cama improvisada mientras espera un tren en la frontera macedonia que les lleve a otros puntos de Europa en busca de un lugar donde establecerse.


(OGNEN TEOFILOVSKI (REUTERS))



Fogem de situações como estas, na Síria 




Uma criança síria (Hudea, 4 anos) teria levantado as mãos ao confundir uma câmara fotográfica com uma arma.

(Foto: Osman Sargili)


Homem sírio chora enquanto segura o corpo de seu filho perto de Dar El Shifa hospital em Aleppo , Síria. O menino foi morto pelo exército sírio.

(Foto: Manu Brabo)


Uma mulher ferida, ainda em choque, deixa o hospital Dar El Shifa em Aleppo, Síria em 20 de setembro de 2012, após um bombardeio da artilharia das forças do governo sírio na cidade, no norte da Síria.

(Foto: Manu Brabo)


Uma mulher chamada Aida chora enquanto se recupera de ferimentos graves após o exército sírio bombardear sua casa em Idlib, norte da Síria em 10 de março de 2012. O marido de Aida e seus dois filhos foram mortos no ataque.

(Foto: Rodrigo Abd)


Um menino chamado Ahmed lamenta a morte do pai (Abdulaziz Abu Ahmed Khrer, que foi morto por um atirador de elite do exército sírio) durante seu funeral em Ibid, norte da Síria.

(Foto: Rodrigo Abd)
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A favor da Síria, pela mão atenta e amorosa de Banksy


[Graffiti artist Banksy has reworked his Young Girl piece for the With Syria campaign, to mark three years since the crisis began. The campaign is a coalition of 115 humanitarian and human rights groups from 24 countries, including Save the Children, Oxfam and Amnesty International. According to the coalition their aim is to ensure this is the last anniversary of the Syrian crisis. At the Zaatari camp in Jordan 100 young refugees lit candle and released red balloons, inspired by Banksy to carry messages of hope to Syrians. Report by Genelle Aldred.]

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Obtive as primeiras fotografias, as que têm legenda em espanhol, no El País.
Obtive as últimas fotografias, da Síria, na Obvious

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Por indicação do Leitor ECD em comentário aqui abaixo fui ler e, de tal forma, me revejo no que ali está escrito que me permito transcrever o artigo quase na íntegra.

Os campos, novamente


ANTÓNIO GUERREIRO in Público


Os campos, sob a forma de centros e lugares de retenção, voltaram à Europa e disseminaram-se por toda a fronteira do Sul da União Europeia. São espaços geridos pela polícia, subtraídos à ordem jurídica normal, que funcionam como diques para reter o enorme caudal dos “fluxos migratórios”. A situação está fora de controlo e assemelha-se àquela “explosão” que se deu no coração do continente europeu entre as duas guerras mundiais, assim descrita por Hannah Arendt em O Imperialismo, num capítulo em que a filósofa analisa o declínio do Estado-nação e o fim dos direitos do homem: “[As guerras civis] desencadearam a emigração de grupos que, menos felizes do que os seus predecessores das guerras de religião, não foram acolhidos em nenhum sítio. Tendo fugido da sua pátria, viram-se sem pátria; tendo abandonado o seu Estado, tornaram-se apátridas; tendo sido privados dos direitos que a sua humanidade lhes conferia, ficaram desprovidos de direitos”. E num artigo de 1943, We Refugees, escrito para um jornal judeu de língua inglesa, Arendt terminava em tom de exaltação, como se tivesse acabado de identificar um novo sujeito da história: “Os refugiados representam a vanguarda dos seus povos”. Mas o refugiado que Arendt definiu a partir do modelo do apátrida — produto de uma dissociação entre as fronteiras administrativas do Estado e a realidade política dos homens — implicava, como o nome indica, a ideia de refúgio, tanto geográfico como jurídico: os refugiados judeus que, no início da Segunda Guerra Mundial, conseguiram embarcar para a América tinham um destino que os orientava à partida e contavam com a vontade política de uma protecção. Os actuais “migrantes” que se lançam ao mar para alcançarem o território europeu são, pura e simplesmente, “deslocados”, fogem da guerra e da miséria, na esperança de conseguirem encontrar um lugar, uma direcção, um sentido. Verdadeiros refugiados na Europa, no sentido jurídico da Convenção de Genebra de 1951, são uma ínfima parte deste fluxo de forçados migrantes que, mal entram em território europeu, são ainda menos do que párias: são uma massa incontrolada de indesejáveis estrangeiros, assaltantes contra os quais a fortaleza europeia não consegue erguer muros eficazes nem fazer valer as suas armas de dissuasão. À nossa frente, está a passar-se algo que não queremos olhar: o regresso a formas de brutalização e barbárie, a instauração de espaços anómicos onde, novamente, “tudo é possível”. Sem conseguirmos vislumbrar soluções para o problema, desistimos também de uma vigilância capaz de nos lançar este alerta: os campos que regressaram à Europa, em grande número e por todo o lado, muito embora não sejam regidos pelo regime de excepção que presidiu à tanatopolítica — à política da morte — dos regimes totalitários, não nos dão garantias de que nenhum descarrilamento terá lugar e nenhuma inclinação criminosa latente poderá seguir o seu curso. Não podemos hoje ignorar que há uma lógica terrível imanente ao campo como figura: ele acaba por desenvolver uma zona cinzenta onde todas as situações-limite, à margem de todos os direitos, se tornam possíveis.  (...)

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Permitam que vos informe que a seguir há mais três posts, leves, levezinhos
(uma tentativa de aliviar a consciência)

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, um bom sábado.

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quarta-feira, junho 24, 2015

O Pacheco Pereira e os demasiado lampeiros para serem sérios, o PS de António Costa, as sondagens, o Syriza, a UE, o euro, esta prisão absurda gerida por burocratas imbecis e desalmados --- e todo este mundo de incertezas e absurdos.


Meus Caros, no post abaixo falei das lágrimas que me cobriram os olhos perante o magnífico Pano de Cena pintado por Chagall para a Flauta Mágica e que está no CCB. No post a seguir falei da surpresa que tive ao ler um comentário que alguém muito especial para mim deixou no post sobre o Valverde Hotel de Lisboa.


Mas, agora, que entrem as valquírias!







É que, estando eu nesta boa onda, compreenderão que pouca vontade tenha para sujar os dedos com palavras sobre a forma cobarde e estúpida como os burocratas imbecis que governam a Europa estão a tratar a Grécia. Cobardes, estúpidos, desrespeitadores, acéfalos, broncos. E ainda gozam a pensar que ganham alguma coisa vergando um povo, um país. Gente parva, perigosa.

Compreenderão também que não tenha vontade nenhuma de falar deste PS tomado por maria-amélias que medem cada palavra com medo de que os tomem por perigosos radicais, gente acobardada que parece que só lhes falta andar de fralda, que não são capazes de dizer alto e bom som que governar não é desprezar o povo, não é impedir o desenvolvimento económico, não é amarrar gerações a uma dívida que parece um monstro de mil goelas. Compreenderão que já nem posso ver o António Costa incapaz de formar uma equipa credível, de gente desempoeirada, virada para o futuro, em vez de andar rodeado apenas por meia dúzia de gatos pingados a arrastar os pés como zombies.

Compreenderão que me custa à brava ver que tem que ser gente como o Pacheco Pereira a escrever coisas como Demasiado lampeiros para serem sérios 

(e uma vez mais agradeço ao Leitor que me enviou o artigo que eu, de outra forma, não teria lido que nem tempo tenho para passar os olhos, mesmo que apenas de relance, pelos jornais). Transcrevo a parte do texto que esse Leitor me enviou:

O PS ainda não percebeu em que filme é que está metido. Continuem com falinhas mansas, a fazer vénias para a Europa ver, a chamar “tontos” ao Syriza, a pedir quase por favor um atestado de respeitabilidade aos amigos do Governo, a andar a ver fábricas “inovadoras”, feiras de ovelhas e de fumeiro, a pedir certificados de bom comportamento a Marcelo e Marques Mendes, a fazer cartazes sem conteúdo — não têm melhor em que gastar dinheiro? — e vão longe.


Será que não percebem o que se está a passar? Enquanto ninguém disser na cara do senhor primeiro-ministro ou do homem “irrevogável” dos sete chapéus, ou das outras personagens menores, esta tão simples coisa: “O senhor está a mentir”, e aguentar-se à bronca, a oposição não vai a lado nenhum. Por uma razão muito simples: é que ele está mesmo a mentir e quem não se sente não é filho de boa gente. Mas para isso é preciso mandar pela borda fora os consultores de imagem e de marketing, os assessores, os conselheiros, a corte pomposa dos fiéis e deixar entrar uma lufada de ar fresco de indignação.


Compreenderão meus Caros como fico arreliada, e arreliada é apenas um suave eufemismo, por ter que ser uma pessoa do PSD a dar este abre-olhos ao António Costa.

É tarde e espera-me outro dia dos valentes pelo que tenho que estancar a minha indignação perante tudo isto. Mas a verdade é que fico passada com tudo isto, fico mesmo.



A União Europeia fede entregue a gente que toma decisões para ter votos nas eleições do seu país ao mesmo tempo que amarra os países menos desenvolvidos e mais vulneráveis a pactos incumpríveis e os impede de crescer ou de ter esperança numa vida melhor.

Portugal está entregue a uns Pafs ignorantes, manipuladores, gente incapaz que tem vendido o País ao desbarato, gente que já nem deveria poder sair à rua sem apanhar com grandoladas, gargalhadas, sapatos, tartes e sei lá que mais em cima -- e que, afinal, por aí andam lampeiros, a defecar de alto (pardon my french).

O PS, que tinha tudo para fazer uma oposição de pé em riste, anda armada em sei lá o quê, umas mariazinhas que parece que saíram da sacristia. Nem sei o que pense disto tudo. Ou o PS acorda para a vida e percebe que, se toda a gente acha que o Passos Coelho e o Portas não prestam, mas que, ainda assim, consideram votar neles, é porque não se revêem na forma como o PS está a actuar -- ou vamos ter o caldo entornado nas próximas eleições, ai vamos, vamos.

E enquanto a UE não começar a ter Chefes de Estado capazes, gente com visão, vamos continuar a ter cimeiras que só servem para enterrar cada vez mais o ideal europeu. O cherne foi-se embora mas o aquário ficou cheio de peixe podre. Caraças.

Vou pregar para outra freguesia que já estou farta desta cambada toda. Bolas para isto.




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As imagens mostram a Golden Valkyrie de Joana Vasconcelos. A música é (e desculpem por nem traduzir mas já mal consigo manter-me acordada): The Ride of the Valkyries from Wagner's Ring Cycle at the Met.

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Sem rever nada de nada e a escrever quase de olhos fechados e, portanto, antevendo que haja para aqui mais de mil gralhas, apresento desde já as minhas desculpas.

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E, se me permitem o conselho, desçam até aos dois post seguintes que contêm temas mais agradáveis.

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Desejo-vos, meus Caros leitores, uma bela quarta-feira.

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terça-feira, junho 16, 2015

Sérgio Figueiredo sobre José Sócrates na prisão -- um texto que é um murro no estômago [E ainda Francisco Louçã que, sobre este mesmo assunto, diz que 'esta justiça mete medo'; e, para aquele que um dia disse ser um animal feroz, Faces of the Wild e Va, pensiero].


Va, pensiero, sull'ali dorate;
va, ti posa sui clivi, sui colli,
ove olezzano tepide e molli
l'aure dolci del suolo natal!





Quando José Sócrates recusou usar pulseira electrónica, logo um conjunto de apreciadores de animais rastejantes ou invertebrados veio dizer que o que ali se via era vitimização. Pessoas há que, talvez desabituadas de assistir a actos de coragem ou de simples dignidade, tentam encontrar uma vantagem mercantil no que é, tão só, uma manifestação de carácter.

Várias vozes insuspeitas se têm levantado contra a prepotência que leva a que, sem culpa formada e supostamente para investigar, numa deriva que parece delirante, se mantenha um homem encarcerado como se de um perigoso condenado se tratasse.

Muitas vezes aqui o tenho dito: não sei se Sócrates é culpado de alguma coisa punível por lei. Torço para que não seja. Se for, ficarei furiosa com ele -- e comigo, por ter acreditado nele. Mas -- e sei que estou a repetir-me -- até que a Justiça se exerça, ele, tal como eu ou você, Caro Leitor, somos, à face da lei, inocentes. Portanto, independentemente de se vir a apurar a sua culpabilidade ou a sua inocência, o que agora me assusta é a forma despótica como ele tem sido tratado.

E, quando falo nele, falo por ser o preso preventivo que conheço dadas as funções que ocupou. Provavelmente esta mesma prepotência é exercida contra muito mais pessoas, muitas da quais, se calhar, depois, não são condenados nem sequer acusadas. E, portanto, insurjo-me por ele, porque o conheço, mas insurjo-me igualmente por todos os que se encontram ou encontraram na mesma situação.

Imagino-me, a mim, numa situação destas e fico apavorada: poderia acontecer que um qualquer inspector suspeitasse de mim, me pusesse sob escuta, ouvisse todas as minhas conversas, tudo, as minhas conversas mais pessoais, as minhas conversas de trabalho, tudo, tudo, e depois resolvesse que, para poder espiolhar ainda melhor a minha vida, me deveria prender? Poderia acontecer que eu me visse desprovida de tudo, da companhia dos meus, dos meus mais básicos pertences? Poderia isso acontecer-me? 

Sendo eu uma vulgar cidadã, teria uma vantagem sobre Sócrates: quando me deslocasse não teria as televisões a seguir-me e os meus amigos e familiares não seriam inquiridos à porta da prisão. (Quanta devassa a que estas pessoas têm estado a ser sujeitas...)

Como se sobrevive a uma desgraça destas? Quem não tenha posses, sem trabalho, a ter que pagar a advogados, como sobrevive? E como se sobrevive à humilhação de se saber injuriado nos jornais e não se poder defender? Como se sobrevive, sabendo o sofrimento da família, dos pais, dos filhos? 

Não sei.

Se a lei permite isto, então a lei tem que ser mudada. Os cidadãos não podem estar desprotegidos a este ponto. Não me interessa quem foi o ministro ou o governo que aprovou a lei em vigor. Tudo se corrige, em especial as burrices.

Nem me interessa que distorçam o que digo -- nomeadamente que venham dizer que o estou a defender ou que quero tratamento privilegiado -- não me interessa mesmo nada. Leiam bem, leiam com atenção. Eu digo o que acho que devo dizer. Sou a favor da justiça, da liberdade, da democracia. Não consigo ficar calada quando assisto a violações de qualquer destes pilares de um mundo decente.

Como é que não há muitas mil vozes que se levantem para clamar por isto? E que cobardia é esta que parece ter tomado conta dos socialistas que, assistindo a uma coisa destas, se deixam ficar calados? Acharão que ganham mais votos se calarem a voz sobre a vergonha que se está a passar neste nosso desgraçado País?
Coitados. Não sabem que a Pátria não paga a traidores? Nunca pagou. Nunca pagará.

O que sei é que as vozes que mais alto se têm levantado provêm de outros quadrantes políticos.

Por exemplo, disse no outro dia Francisco Louçã no Público num artigo a que deu o título Há alguém por aí para enfrentar a triste degradação da justiça? e que Eduardo Pitta resumiu no seu blog Da Literatura.


«[...] Sugiro ao leitor que se mova então pela única certeza que podemos ter: este processo está a ser conduzido sem respeito pela justiça ou até pela decência. Não há acusação e passaram meses, não há acesso da defesa aos documentos e provas e isto ainda se pode prolongar mais uma eternidade [...] o caso Sócrates importa menos do que esta regra geral: esta justiça mete medo. [...] E isso já é com os candidatos – os das legislativas e sobretudo os das presidenciais. Digam-nos o que querem fazer ou fiquem de lado, porque se estão calados então não têm solução para os problemas de Portugal. É uma questão de regime, é mesmo convosco, senhores candidatos e senhoras candidatas.»

O, mia patria, sì bella e perduta!
O, membranza, sì cara e fatal!



Mas de tudo o que tenho lido, o que talvez me tenha impressionado mais foi o artigo de Sérgio Figueiredo desta segunda-feira. Diz que, depois de ter falado com Sócrates, saíu da cadeia em silêncio, e acredito. Há momentos em que não há palavras. E esse seu silêncio pesado transparece nas suas palavras. Transcrevo parte do seu texto.

(...)

2. Não devo nada a ninguém. Muito menos a Sócrates. Ao contrário de outros, outrora amigos, eternos da onça, que se escondem entre as frases ocas que proferem e as visitas que não lhe fazem. Partido cobarde, partido escondido, partido assustado. Nem é sequer o partido relativo, dirigentes de O"Neill, engravatados todo o ano, que se assoam à gravata por engano.

Não há engano entre os socráticos, apenas cálculo mental. Contas sem valores. Quantos mais votos contam, quanto mais puxam pela cabeça, mais o rabo se lhes descobre. Mais impressionante que a coragem de Sócrates em permanecer dentro de uma cela, entre delinquentes, é a falta dela em António Costa e na maioria dos dirigentes socialistas, que deliberadamente confundem justiça com amizade. Esperava mais, porque já lhe vi mais.

Salvo raríssimas exceções, mostram a sua raça num silêncio ensurdecedor que envergonha mesmo aqueles que detestam Sócrates. Miguel Sousa Tavares, Pedro Marques Lopes e até o "comuna" Pedro Tadeu, como se autodefine, insuspeitos colunistas, que não pertencem à família, nem de perto nem de longe, escreveram nesta semana a indignação da forma que nunca se ouviu em qualquer camarada do Rato. Um barco cheio deles, com um comandante à deriva - ou preso, porque o último líder do PS está no Alentejo e, espera-se!, a aguardar pelo dia em que responderá por corrupção e outros crimes graves.



3. No fim de contas, a entrevista não aconteceu. Às 22 perguntas que a TVI tinha para fazer José Sócrates não quis responder. Não tinha tratado pessoalmente do assunto, mas acabei por ser eu a confrontá-lo com elas. Entrar numa prisão não é uma experiência agradável. Visitar um ex-primeiro-ministro preso é um momento único, difícil de esquecer. Ou simplesmente difícil. Estivemos, eu e o meu camarada de redação António Prata, uma hora lá dentro. Conversa dura, ouvindo o que não queríamos, dizendo o que não podia ficar por dizer.

Conversa feroz, animal enjaulado. Ninguém ousa sentir o que um prisioneiro sente. Sei o que senti e imagino o que António Prata viveu. Saímos de lá em silêncio - a única palavra que repetia para si próprio, mas em voz alta, é aqui irreproduzível. Saímos mais pesados, sem entrevista, mas saímos. Uma hora depois. Não seis meses.

Sócrates pode ser mentiroso, pode ser odiado, pode ser odioso, pode ser intratável, pode ser malvado, pode ser acusado, julgado e condenado, pode ser corrupto - pode ser tudo o que magistrados têm o dever de provar e um juiz de julgar, seja o que for. Não é, porém, de nada disto que se trata quando um homem, naquelas condições, se recusa ir para o conforto da casa e a companhia dos filhos. É coerência, se estiver inocente. É coragem, em qualquer dos casos. Aquilo que fugazmente vi não paga arrogância ou o preço da vitimização.

Não temos pena. Apenas pânico - se a investigação judicial falhar e a acusação não produzir provas consistentes. E pejo - pelo nojo dos políticos surdos-mudos em que em breve vamos ter de votar.




Va, pensiero, sull'ali dorate
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O texto completo da autoria de Sérgio Figueiredo, intitulado A entrevista que não aconteceu, foi publicado no DN.


A música mostra Luciano Pavarotti & Cambodian and Tibetan Children's Choir interpretando Va, Pensiero de Verdi.

E, pensando naquele a quem, apesar de estar encarcerado, ainda chamam animal feroz, escolhi para ilustrar este post fotografias da autoria de Devin Mitchelle e que pertencem à série Faces of the Wild e que descobri no Bored Panda.
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Permitam que vos convide a descer até ao post seguinte onde poderão ver meio mundo de cabelos em pé com o que se vai sabendo do 'negócio' da privatização da TAP e, mais abaixo, um vídeo impressionante com Berlim em Julho de 1945 (para que o que aconteceu nunca seja esquecido).

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma boa terça-feira. 
Da minha parte espero manter-me sempre como nas palavras de Sophia: 
face erguida, vontade transparente, inteira onde os outros se dividem. 
Desejo que vocês, meus Caros Leitores, também.

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