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domingo, junho 01, 2025

Rui Rio foi à jugular do Marques Mendes (e à de Marcelo e, de certa forma, à do Montenegro).
Rui Rocha descurtiu e vai dar banho ao cão.
Eu, pela parte que me toca, prefiro defender as buganvílias e maravilhar-me com as efusivas rosinhas

 


Eu já tinha tapetes de Arraiolos antes de me dar a veneta de os fazer. Portanto, como desatei a produzi-los, fiquei com muitos. A minha mãe também os tinha com fartura. Ora, quando tive que tirar as coisas de casa dela, não era coisa de que me desfizesse. Trouxe-os. Portanto, agora até na cozinha tenho um tapete, ou melhor, uma carpete de Arraiolos pois cobre quase todo o chão. Por acaso até é confortável especialmente no inverno quando ando descalça e a pedra do chão está fria. 

Este sábado, dia de calor, foi dia dele ir à barrela. É uma coisa que gosto de fazer em dias em que secam bem: no terraço junto à cozinha, com agulheta no máximo, omo, vassoura forte, descalça, lavo-os e esfrego-os que é um mimo. 

No entanto, o tempo virou um bocado e não ajudou: pouco depois, o céu como que se encobriu e a temperatura baixou um pouco. Por isso, à noite ainda não estava bem seco. Espero que amanhã seque de vez pois tapetes de lã que não secam logo correm o risco de ficar a cheirar a mofo.

Também andei de mangueira a regar vasos de um lado e do outro da casa. Gosto de regar. Gosto de tudo o que mexa com águas.

Como sempre, pasmo com o que tudo cresce. 

As sardinheiras estão robustas, frondosas, cheias de flores. Umas suculentas crescem sem parar. A roseira que está junto a um dos portões tem crescido de uma forma inacreditável. Já vai no muro e já trepou para uma árvore que está perto. Agora já há rosinhas penduradas na cerejeira japonesa. E as buganvílias estão uma maravilha. O meu marido anda doido para avançar com o corta-sebes elétrico. Como não o deixo, faz chantagem, diz que o meu filho vai protestar, vai dizer que também tem que andar todo dobrado para não andar a levar com as flores na cabeça. Creio que é um falso problema, basta que se desviem. Uma delas, então, mais que todas, estão uma loucura, um cortinado de flores. 

O meu marido diz que qualquer dia não se consegue estar na mesa que lá está debaixo, que precisa mesmo de ser cortada. Explico que é um caramanchão, que é mesmo assim. Mas vejo, pela maneira como olha para ele, que qualquer não vai resistir. A única coisa que deve estar a travá-lo é que sabe que, se fizer isso, estará a pisar uma linha vermelha, linha essa fortemente minada.

Hoje, quando vínhamos da caminhada da tarde, reparámos que uma delas, do outro lado, já passou para o lado dos vizinhos e já está a enfeitar o telheiro deles. Também uma das glicínias, uma loucura de glicínia, uma avalanche de glicínia, já vai no muro que separa do vizinho e já enfeita o lado de lá. Claro que poderão cortá-la, se o quiserem, claro. Mas, pelos vistos, gostam.

Mas esta fartura de fertilidade tem um senão. Temos dois vasos, bem bonitos, que têm aloé veras. Mas os aloés estão estão grandes, reproduziram-se de tal maneira que as raízes já não cabem nos vasos, já estão a subir, e os aloés estão a querer definhar. Já falei com o meu marido que vamos ter que tomar uma resolução. Para tentar não destruir os vasos, não vejo outra maneira senão deitá-los de lado e puxar pelos aloés, tentando que se desprendam. E depois teremos que encontrar uns locais, fazer uns buracos grandes e plantar as plantas directamente na terra. O meu marido diz que não está a ver que seja tão simples assim e não lhe vejo qualquer vontade de se atirar à tarefa. Mas temos que tentar pois, se não fizermos nada, os aloés acabarão por ficar ressequidos. Neste momento são uma espécie de ilustração do Princípio de Peter. Cresceram, cresceram até atingirem o ponto em que se constata que, a partir daí, será para pior.

Com tanta flor e com as árvores também todas cobertas de folhagem, a passarada está sempre em festa, uma alegria de chilreios que é uma delícia. E há um perfume bom no ar. Estive lá fora a ler e a sentir-me feliz até já não haver luz. 

Entretanto, estou preocupada pois a rega não arrancou. Temos a rega programada para funcionar de noite e eu gosto de estar aqui a escrever e a ouvir os esguichos da água e a sentir o cheiro molhado da terra e das flores. E hoje não está a funcionar e não faço ideia porquê. Chatice. A minha vontade era ir lá fora ver o que se passa mas o meu marido já dorme e eu tenho um certo receio de andar lá fora sozinha a desoras. Além disso, o dog a esta hora dorme descansadamente e não quero sobressaltar toda a gente a abrir portas e a acender luzes.

Tirando isso, vi que houve mais um dano colateral do terramoto eleitoral: também o Rui Rocha saltou fora. Se vier a Mariana Leitão será bom pois há poucas mulheres na política. Claro que não deixará de ser curioso que, sendo tão poucas, logo sejam as duas Marianas. Mas acho que é mais genuína e mais atilada que a Mortágua. Pelo menos, parece-me. 

E, sem que nada o fizesse esperar, o Rui Rio foi à jugular do Marques Mendes, o que não deixa de ter piada. Imagino o Marcelo, o Marques Mendes e o Montenegro todos de cabeça à roda. Quanto ao inSeguro e ao desVitorino o melhor que têm a fazer é manterem-se na toca. Entretanto, fiquei a saber que um conhecido nosso está a pensar candidatar-se, parece que já anda a recolher assinaturas. Só visto.

E, pronto, é isto. Vou descansar que já vão sendo horas.

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As imagens foram feitas com recurso à minha inteligência natural

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Desejo-vos um belo dia de domingo

segunda-feira, julho 19, 2021

Doces dias as time goes by

 



Ontem não contei mas o dia teve os seus quês. Para começar, eu estava esperançosa de pôr o sono em dia. Estávamos à espera de umas pessoas às oito da manhã para fazer uns arranjos no jardim. O meu marido madrugou para cumprir o seu desporto matinal e estar de volta antes disso. Quando sai deixa o alarme parcialmente ligado. Ao regressar, esqueceu-se e o alarme disparou. Acordei sobressaltada. Quando estava a ver se voltava a adormecer, tocou-me o telemóvel. Levantei-me para ver quem era, tão cedo. Era ele. Estava com o telemóvel no bolso e o telemóvel, com vontade própria, ligou-me. Portanto, desisti de tentar dormir mais. Os homens chegaram muito mais tarde. Depois não tinham as ferramentas necessárias. O meu marido disse-me que, sem aquilo ou eles se iam embora ou iam às compras e nunca mais apareciam. Fomos nós. Depois saíram para almoço antes do meio dia e pouco tinham feito. Regressaram quase às duas. Às três e tal foram-se embora, deixando metade por fazer e tudo desarrumado. Eu furiosa. Ele a dizer que ou nos sujeitamos a estes artistas ou desistimos dos arranjos pois melhor que isto já vimos que não arranjamos.

Ele apanhou algumas coisas mais pesadas para o jardim ficar transitável para os miúdos.

Por volta das cinco, estava chateado e farto e disse: vamos para a praia. Eu ainda disse: não haverá ainda muita gente? Na minha, apenas deveríamos ir lá para as seis. Mas ele estava cansado e com calor e disse que não, que era boa hora, que estava no ir. 

Quando chegámos perto, deveríamos ter tido o discernimento de perceber que havia carros a mais e já confusão para sair. Mas, distraída como sou e ele deserto que estava de estar na praia, não valorizámos a questão. Tenho ideia de ter pensado que com a confusão que já estava a sair, a praia capaz de já não estar tão cheia.

Estava boa e como a maré não estava muito cheia, o maralhal não estava muito concentrado.

Contudo, ao caminharmos, de longe via-se uma compacta mole humana. Como no outro dia, reparámos nos grupos multi-agregado, na falta de cuidado. Mas tínhamos levado a toalha larga e pude deitar-me, estar tranquilamente a sentir o sol e a ouvir o mar -- e não pensar na covid.

Por volta das seis e meia pensámos que íamos andando. Metemo-nos no carro às vinte para as sete.

Pois bem: chegámos a casa mais de três horas depois. Um caos. Um mar de carros. 

Em casa tinha estado a beber um chá frio. Por volta das oito e tal comecei a pensar que já fazia chichi. Tentei dormir para não pensar no assunto. Às nove já estava que não podia. O meu marido dizia: sai e faz. Claro que não era possível. Ainda era dia, carros por todo o lado, impossível.


Às nove e tal já tinha arrepios, uma dor na bexiga que mal aguentava. O meu marido dizia: mas a quem é que lembra antes de vir para a praia pôr-se a beber chá? Só que, quando me pus a beber chá, umas duas canecas das grandes, não estava a pensar que iria para a praia.

Quando o meu filho ligou, eu já mal conseguia falar. O meu filho dizia: sai e faz. E eu expliquei que não havia onde, que eram só carros. O meu filho disse: ou isso ou arranjares uma infecção urinária. Mas eu já mal o ouvia, estava verdadeiramente transtornada, aflita até ao quinto dos infernos.

Quando, finalmente, aquilo começou a andar eu já não tinha posição, a bexiga quase a rebentar. Pedi que mal saíssemos dali e encontrasse um lugar decente, parasse. Assim fez: talvez às nove e meia, já tinha anoitecido, encostou o carro na berma numa zona de árvores e, logo ali, diluviei. Foi um alívio e um bem estar imediato. Caraças. 

Já em casa. entre tomarmos banho, preparamos as coisas e sei lá mais o quê, jantámos perto das onze da noite. Por isso, ontem estava aqui a escrever e quase a dormir.

Este domingo, mal me levantei, fui para a cozinha e fiz sopa de tomate e corvina. Já expliquei como faço, não expliquei?

Enquanto aquilo se cozinhava, tomei banho, tomei o pequeno almoço, depois concluí-a. A seguir fomos fazer a nossa caminhada e depois fomos buscar a minha mãe.

Almoçámos lá fora. Estamos os três vacinados mas já se sabe que as vacinas não previnem o contágio, previnem apenas a gravidade (o que é o mais importante). Por isso, como temos que tirar as máscaras para manducar, manducamos ao ar livre.

Depois estivemos à sombra, a conversar. Eu perdida de sono. Depois ela aborreceu-se de estar sem fazer nada e foi varrer as folhas do terraço.

Depois chegou a trupe do meu filho. O mais novo foi buscar uma vassoura, pediu para eu ir buscar uma pá para mim e varria e eu apanhava.

Passado um bocado chegou a trupe da minha filha. As crianças vestiram os fatos de banho e puseram o escorrega de água na descida do relvado e foi aquela brincadeira de dar gosto. Fiz vídeos e fotografei-os.

Depois o meu filho com o apoio do sobrinho mais novo e sob acompanhamento do filho mais pequeno, grelhou salsichas. Entretanto, a minha nora preparava o pão bao no forno, cozinhando-o em vapor.

Tivemos, então, a primeira leva de lanche com cachorros em pão bao, com molhos a gosto.

Creio que foi, a seguir, que a tia maquilhou e penteou a sobrinha, a sobrinha pintou as unhas a tia, acho que a minha filha pintou as unhas à avó.

Os rapazes estiveram a ver vídeos de futebol ou a jogar futebol, nem sei.

Os hambúrgueres eram para ficar para depois mas como as brasas estavam jeitosas, o meu filho achou que mais valia fazer já.

Entretanto, lá dentro, em frigideira, tinha caramelizado cebola e bacon.

Ele grelhou os hambúrgueres de vaca enquanto se aquecia o pão de batata doce. Depois da carne grelhada, fizemos os hambúrgueres com o bacon, a cebola e uma fatia de queijo cheddar. Deliciosos.

O meu filho grelhou ainda asas de frango mas o pessoal já estava tão cheio que sobraram muitas asinhas.

Depois nova interrupção. Momento de rugby e de vólei.

Já muito ao fim da tarde, com o bolo de cenoura e chocolate que a minha trouxe, cantámos os parabéns a você e comemos o clafoutis de maçã e os crepes com doce de ovos e chocolate que a minha mãe também trouxe.

Isto ao som de música. E ainda dancei com o meu namorado que até me pareceu que dança melhor do que quando era mais novo. Tenho que tirar isso a limpo.

Daqui por poucos dias teremos a terceira festa de anos desta leva e já disse que vai incluir bailarico.

À saída um dos meninos quis escolher a música, boa, de autor que eu desconhecia. Veio perguntar-me se eu tinha gostado. Gostei pois.

No outro dia, a minha filha e os seus filhos ofereceram-me um vídeo que me deixou emocionada. O mais velho ao ver-me emocionada, virou-se para a mãe: missão cumprida, pusemos a Tá a chorar. 

A minha filha mandou o vídeo também à minha mãe que, quando o viu, se fartou de chorar. Disse que não esperava ver ali fotografias do meu pai. Eu também não e gostei de vê-lo ali. Há uma continuidade em tudo isto.

Por volta das nove e tal fomos levar a minha mãe a casa. Provavelmente vai ser como nos outros dias: vai daqui com uma pancada de sono, que cai a dormir que nem uma pedra. Também eu.

E não, não estou de férias. Ainda me falta um bom bocado. Disse que me sinto de férias pois o bom tempo, os dias grandes e uma certa vontade de arranjar tempo para espairecer fazem-me quase sentir que estou numa de férias. Mas, hélas, esta segunda-feira o dever voltará a chamar por mim. Mas vou tentar não acabar depois das seis para ainda aproveitar aquele bocadinho até à hora de jantar. Não sei se nos apetecerá arriscar a praia depois da tortura do outro dia mas, mesmo que seja apenas para ficarmos em casa sem fazer nada, já será bom. Pequenos momentos de férias. Mesmo que sejam momentos de uma ou duas horas.

E é isto. Mais um dia feliz, entre os que me são tão queridos. O tempo vai passando, as crianças crescendo, as estações do ano indo e vindo, as flores nascendo, as folhas caindo, as árvores crescendo, os pássaros felizes da vida, cantando. É assim mesmo, um devir cujo sentido talvez não seja muito óbvio. Mas a vida é mesmo assim, feita de mistérios e coisas mal explicadas. E mais vale a gente rir do que chorar (a menos que seja chorar a rir).

E eu, com vossa licença, vou ver se vou para o meu quarto pois isto, dormir sentada e a escrever, não é lá muito confortável. Estou completamente knocked out. Portanto, je m'en vais.

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Pinturas de Fernando Botero ao som de What a wonderful world por Louis Armstrong

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Desejo-vos uma boa semana a começar já por esta segunda-feira

sexta-feira, abril 02, 2021

As desconfinadas flores de Abril

 


Sinto-me como se estivesse a entrar em férias. Mas, ao contrário do que acontecia antes em que estava sempre no ir, agora as férias são no ficar. E vamo-nos habituando a isso. Se pensamos em afastar-nos nem que seja um quase nada logo nos dissuadimos: ficamos por aqui, está bem assim.

Não são férias, é apenas um dia feriado a que se segue o fim de semana mas, da forma como têm corrido estes meus dias, um dia a mais de descanso vai saber-me que nem ginjas. Já aqui tenho para ler um relatório gigante mas, se bem me conheço, contrariada como me vou sentir por queimar umas horas do meu descanso, hei-de deixar para as últimas. E, até lá, hei-de andar a pensar que tenho aquilo para ler, anotar. 

Tenho ali uma taça de barro à espera de umas suculentas. A ver se nos predispomos a ir comprá-las. Agora, para tudo, temos que vencer uma grande resistência.

A ver se podemos circular para irmos uns dias para o campo: temos que limpar o tojo e as silvas mas a roçadeira está avariada. Pelo menos, assim consta. Temos que pô-la a arranjar. Não podemos contratar ninguém para cortar nada. Não confio em ninguém para o fazer. Não quero que me destruam os orégãos que haverão de estar a nascer, o rosmaninho, o alecrim, a sálvia. Além disso, sabendo como sou, ninguém se arriscaria a ir para lá sabendo que certamente iria cortar alguma coisa indevida. É que isso, para mim, é crime imperdoável.

O meu marido não está muito para aí virado: todas as semanas marca presença no trabalho, não gosta de estar mais do que isso fora da vista da sua equipa. Por isso, não está virado para teletrabalhar a partir do campo. Eu não sou tanto assim, o contacto remoto já me parece normal. Mas de vez em quando também me dá vontade de estar com gente em carne e osso. É uma improdutividade dos diabos, transporte, conversa, conversa, conversa. E isto já para não falar no risco. Mas, enfim, estar em casa a trabalhar em contínuo, sem um tempo de conversa da treta, também não é saudável.

Portanto, a ver o que resolvemos.

E estou nisto como se não estivéssemos a entrar na Páscoa. Mas nunca consegui ligar à Páscoa. Sei que, para os católicos de gema, a Páscoa é um dos momentos mais importantes do ano, o momento em que celebram a esperança e o ressurgimento. Para mim não é assim. Para mim todos os dias são de esperança e renascimento. E nunca consegui perceber bem a lógica da ressurreição de Cristo, acho uma história marada. Não era importante inventar uma cena tão macabra para dizer que devemos acreditar que o bem e quem o faz vive no meio de nós. Acredito que o bem e quem o pratica vive no meio de nós. Como o mal e quem o faz. O mundo é um local perigoso com espaços e instantes de tranquilidade e paz. Não quero arranjar metáforas estranhas para o dizer.

Hoje senti a alegria dos dias estarem maiores. Depois da última reunião fui para o jardim. Sim, já há glicínias. São lindas, lindas. Sim. Uma maravilha. A cor suave, o perfume, o zumbido. Não as fotografei mas está prometido: vou fotografá-las para ver se a sua beleza chega até vós, em especial até si, Amofinado.

E há rosas. Mudam de cor, são umas rosas mutantes. Perfumadas de dar gosto. As que estão em volta da árvore grande são cor-de-rosa e outras, do mesmo pé, brancas. 

No arco, tanto nascem amarelas como cor-de-rosa ou brancas. Também do mesmo pé. Incompreensivelmente nascem de cores diferentes e, não contentes com isso, mudam de um dia para outro. Uma realidade alternativa e fascinante. Fotografo-as, intrigada e encantada. Não encontro explicação. Depois penso nos meus filhos, tão diferentes um do outro. Se calhar com as rosas acontece o mesmo.

E, no canteiro, em frente da cozinha, há uma rosa caprichosa, carmim, sumptuosa. Tem um perfume requintado. Gostava de a apanhar para a cheirar mais vezes. No entanto, acho que devo respeitá-la e deixá-la estar assim, no jardim, perfeita e bela demais.

Sinto-me feliz ao andar a ver as flores. E há muitos passarinhos, muitos. Cantam, cantam. Encosto-me ao muro e fico a olhá-los, a ouvi-los.

Gostava de ter uma estufa com vasinhos. Gostava de ir lá para dentro, regá-los, arrancar as ervinhas. Aliás, enquanto ando cá fora, ando sempre a baixar-me para apanhar ervas daninhas. Só não apanho urtigas, essas bichas maldosas.

Hoje apanhei frésias. São lindas, perfumadas, delicadas. O bouquet de casamento da minha filha era de frésias. Apanhei uns pés e coloquei numa jarrinha pequenina que coloquei num parapeito. A ver se não me esqueço de fotografar. São de uma singeleza e harmonia que me fazem sentir agradecida por assistir a tamanha perfeição.

As árvores de fruta na horta estão floridas mas não consigo identificá-las. As nêsperas estão a ganhar corpo. Já não há laranjas. Há ainda umas quantas tangerinas mas estão tão altas que não temos conseguido apanhá-las. A ver se com um escadote se consegue. Já estão um bocado secas mas não me importo. 


E é isto. Abril entre flores.

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Um dos jardins que estive para aqui a ver
(gosto de ver jardins)


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Desejo-vos um sábado luminoso

sábado, julho 08, 2017

Caminhos e destinos em vol d'oiseau




Tenho aqui ao meu lado três livros. Volta e meia abro um deles ao acaso, leio. Não é meada de que tenha que guardar a ponta do fio. Onde eu abra, está bom de ler.

Com jornais, não é bem isso mas quase. Em papel, desabituei-me de os ler. Mesmo na empresa, em que se assinavam uns poucos, acho que desistiram. Eu, pelo menos, deixei de os ver por lá. Na net, abro, espreito, sigo para outro. Mas, quando os lia em papel, lia do fim para o princípio. Em revistas, a mesma coisa. Não sei dizer porquê mas é assim. No outro dia, estava a ver a minha menininha linda a fazer exercícios num livro que lhe dei e que era qualquer coisa como 'desenvolve o teu QI'. É que ela adora fazer estas coisas, descobrir a sequência, a lógica, a peça que falta, a que está deslocada no contexto, coisas assim. O curioso é que, em cada página, fazia os exercícios de baixo para cima. 
Quando eu, mal fiz dezassete anos, fui viver longe dos meus pais, almoçava e jantava onde calhava, em especial nas cantinas universitárias. Sou de boa boca e onde os outros protestavam veementemente, comia eu de gosto tudo o que vinha parar ao prato. Contudo, durante todo esse tempo eu estava desejando chegar a casa para comer o meu petisco de eleição: pescadinha fresca, daquelas de anzol, marmota (acho eu que lhe chamam), com batatas cozidas, brócolos ou feijão verde e ovo cozido. Pois bem, se perguntarmos à minha lovely menininha qual a sua comida preferida dirá sem pestanejar: 'peixe cozido com batatas, brócolos e ovo cozido'. Nas coisas mais incríveis, mostra bem que herdou alguns dos meus peculiares genes.
Bem. Seguindo.


Eu a ler cada vez mais sou assim como vos conto. Páginas soltas, salteadas. Os livros que aqui tenho agora são Caminhos e Destinos, a memória de outros II, de Marcello Duarte Mathias; O homem fatal de Nelson Rodrigues e, ainda, a Poesis da Maria Teresa Horta. Memórias, apontamentos, crónicas soltas, poesia. 

Cada vez me sinto mais afastada da leitura aturada. Nunca na vida poderei discutir uma obra com quem quer que seja pois nunca na vida seria capaz de me pôr a ler, página por página, fazendo investigação séria para estudar influências ou apurar referências implícitas, criando anotações, ou, se caso disso, procurando o texto na língua original. Perceber a geneologia, a genética da escrita ou a gramática, o corte e costura havidos antes do autor ali chegar são matérias que não me interessam. 

Talvez eu tenha sido pássaro quando alguns dos meus actuais átomos por aí andavam, antes de se terem juntado e formado esta que aqui vos escreve. É que o que me cai bem é o vol d'oiseau, o saltitar de ramo em ramo, página aqui, página ali, o descer à terra para picar isto ou aquilo ou olhar ao longe e logo voltar a voar, outro livro, outros horizontes.


Admiro aqueles que se entregam a um livro como se estivessem numa missão de vida, meses a fio, horas e horas, mergulhados num poema, num texto -- abdicando de viver. Só por existirem missionários assim é que, depois, posso pegar em parte dos livros que leio. Contudo, prefiro os livros que apresentam trabalho limpo. Não gosto de ler textos sarapintados com números de chamada, com textozinhos pequenos a comentar isto ou aquilo. Não gosto. Sei que é material de estudo mas, para mim, é gossip, é fofoca literária, é ruído, é poluição. Se gosto de ler um texto, quero tê-lo imaculado, do produtor ao consumidor, nada de falatório miúdo na esquina da página. Quero lê-lo como se fosse a primeira leitora. A única, até. 

E, cada vez mais, gosto mesmo é de ler texto escrito ao correr da pena, escrita despojada, lembrança, pensamento, carta, quase como se fosse coisa de nada. Mas coisa escorreita, elegante, com riqueza de substrato, gramaticalmente a corresponder à melodia das palavras. E tem que vir com sangue na guelra. E qualquer coisa ali tem que surpreender: ou a beleza da sequência ou o inusitado da ideia.


E depois a poesia. O sopro, a carícia, o lamento, o rasgão, o murmúrio  o desejo. Leio poemas em blogs, leio nas páginas que abro ao acaso. A forma mais genuína e pura de dizer.

Ah, a beleza
da entrega aturdida
que em mim se comprazia

-- Vem minha reinventada!
Digo eu à poesia

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[Poema de Maria Teresa Horta, fotografias de Guy Bourdin e, de novo, Louis Armstrong em A kiss to build a dream on ]
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E, permitindo-me recomendar que desçam até à graça de uns certos bancos públicos, desejo-vos um belo sábado.

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quarta-feira, agosto 24, 2016

Crónica de um dia a precisar de férias
[E, para não dizerem que vêm aqui para nada, deixo-vos o caminho para um teste-revelação:
Responda a 21 perguntas e descubra se é brilhante, mediano ou tótó de todo]




Chego de novo ao computador por volta da meia noite. Mais uma festa de aniversário. Se não estou em erro, entramos agora numa época de pousio. Claro que comi uma fatia de bolo de anos. Mais umas calorias mas, enfim, foi de gosto, não podia deixar de ser. 

Mas chego a esta altura do ano e parece que a partir de certa hora já preciso de descanso. Os miúdos quando se juntam são uma inesgotável fonte de energia ruidosa. E estavam outros. E um quase a nascer dentro de uma barriga enorme. As meninas brincam sossegadinhas mas os rapazes... minha mãezinha... Jogam à bola no hall, zangam-se, fazem barulho. Depois, junta-se-lhes o tio e a coisa ainda se complica mais. Claro que a bola é mole mas o ambiente é o de um estádio de futsal. Despique, faltas e por pouco não há também agressões. 

Quando chego a casa, venho ansiosa por tirar os saltos altos, o colar, os brincos, por escovar e apanhar o cabelo, por me refrescar, e, claro, por me estender no sofá de frente para a aragem que sopra do aparelho mágico ali de cima. Durante mil anos lutei, não queria cá camafeus na parede, não queria ares condicionados dentro de casa. Até que me rendi e, para supremo gáudio do meu marido, já não passo sem ele (neste caso, a ele, ar condicionado).

Na televisão, enquanto escrevo, um filme francês na 2. Não estou a prestar atenção mas gosto de ouvir. Gosto muito de ouvir e de falar francês. De resto, gosto muito de França. A Paris já fui no verão. Qu me lembre já fui duas vezes em pleno verão. Não gostei, nem parecia Paris. Gosto em qualquer estação menos no verão. O passeio que mais gostei de fazer em França foi à Normandia, às praias do desembarque. Foi no ano em que a minha filha se casou. Por isso, ela não foi.
Nesse ano também houve muitos incêndios em Portugal. Na televisão, lá, víamos o nosso país em chamas. Uma coisa dolorosa. 
O meu filho e o meu marido sabiam tudo sobre todos os locais que visitávamos e, nas praias, sabiam onde havia bunkers mesmo que nem se vissem. E depois descobriamo-los, estavam mesmo onde eles diziam. E comemos ostras, frescas, sobre gelo, uma tentação, e bebíamos cidra. O Pipoco, ao que parece, agora anda por lá. Quando por lá andámos, pelas praias, pelas vilas, por aqueles lugares tão bonitos, pensei que gostava de lá voltar. Gostava de passar uns dias em Saint-Malo pois só lá ficámos dois dias, mas gostava de lá estar em dias de invernia, com o mar estiver revolto. E eu à janela do quarto do hotel a ver a força das ondas.

E gostava de voltar a jantar tripas à moda de Caen numa esplanada ao pé de uma igreja de madeira, em Honfleur, entre canteiros de flores.

... e é isto.

Já viram uma conversa destas a esta hora...?


O que se passa, como está à vista, é que estou a precisar de férias. Já meio mundo regressou de férias, tudo no bronze, e eu branquinha de neige, já sem paciência para nada. E toda a gente fresca, tudo a vir falar comigo, conversas longas, coisas de trabalho mas intermináveis, e sai um, entra outro, e eu a ver o tempo a passar e a ter contratos para ver para serem enviados, autorizações para dar para que trabalhos prossigam ou pagamentos sejam feitos, documentos para ler antes de reuniões para as quais não posso ir em branco. E eu a ver o relógio a avançar. E, então, penso que devia colocar uma coisa de senhas à porta do gabinete e um cronómetro. Mas não. Porta aberta, sempre. Até hoje nunca ninguém deixou de entrar nem nunca deixou de dizer o que quis. Mas o tempo que isto me consome, senhores... E eu a precisar tanto de férias.


Todos os dias eu e o meu marido falamos que temos que resolver o que vamos fazer nas férias mas o tempo passa e ainda não sabemos. De manhã, quando vou a caminho, penso que, se tivesse uns minutos de sossego, tentaria pensar no assunto. Claro que agora, em vez de estar aqui, poderia estar a fazer algumas pesquisas mas também não me apetece.

Na verdade, apetece-me estar no campo, a varrer as folhas secas e a ler livros à sombra da figueira, ou a ir a praias com pouca gente ou a dar passeios por onde calhar.

Há lugares onde me apeteceria ir mas que requerem planeamento. Ontem, uma simpática contou-me de um cruzeiro maravilhoso que fez e eu, ouvindo-a, pareceu-me bem. Mas parece que os barcos partem de Barcelona e não acredito que seja chegar ao cais, entrar e lá dentro pagar um bilhete. 

Ou seja, vou mas é jogar no euromilhões a ver se me sai para eu contratar um assistente para me tratar desses aspectos administrativos e logísticos, para fazer prospecções e etc.

Resumindo: uma vez mais estou para aqui a escrever sem dizer nada.

O meu marido, mais esperto que eu, já dorme a sono solto. Mas também levanta-se com as galinhas enquanto eu me levanto a horas normais. É a diferença entre um diurno e um noctívago.

Bem.

Para não me virem ainda pedir de volta o dinheiro do bilhete já que voltou a não haver motivo de interesse por estas bandas, deixo-vos o link para um teste engraçado. Cliquem aqui abaixo e, depois de lá estarem, no Let's Play.



E fiquem Vossas Senhorias a saber que ou o teste é marado ou quem por aí ache que eu não tenho os cinco alqueires bem medidos está muito enganado. Pois acreditem ou não, o que a mim me deu foi:
Based on your answers, we found that you're absolutely BRILLIANT! (...) You're good at working with numbers and are adept at putting your skills to use while solving problems in all sorts of real world situations. You don’t waste a lot of emotional energy fretting about the future. Instead, you focus on getting the most out of life right now. 
Portanto, não sei, se calhar isto dá sempre a mesma resposta e qualquer maluco que dê para aqui umas respostas ao calhas recebe sempre a resposta de que é brilhante.

Mas tentem a ver o que vos dá a vocês. Se calhar é tudo de genial para cima. E é verdade. De uma maneira ou de outra, somos todos brilhantes e geniais. Malucos são os outros.


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É muito mau; devia aqui pôr o nome dos autores das esculturas que são das mais espantosas do mundo; mas é tardíssimo, já não vai dar. Se tiver tempo, amanhã logo ponho. Ou então, podem vê-las no Bored Panda.

Para me acompanhar enquanto escrevia, escolhi a Ella Fitzgerald & Louis Armstrong e, para aqui partilhar convosco, Dream A Little Dream Of Me.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma boa quarta-feira.

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quarta-feira, agosto 17, 2016

Posso pedir-te, oh meu animal, que me dês um beijo....?
Um. Um só.
Para que eu construa um sonho a partir dele.
Dá-me um beijo. Vá lá.


Hoje estou para o romance. Carinhos, cafunés, beijinhos, abracinhos, chameguinhos bons. 

Bichano, bichaninho. 

Chega-te aqui amorzinho, fofinho meu. Não fujas, não te desvies. 

Um. Um beijinho. Só um. 

Vá. Eu depois alimento, com a minha imaginação, um romance para o resto da vida.

Vá, dá-me um beijo. Um. Um beijinho. 

Fecha os olhinhos. Não faças nada. Vais ver como gostas.












And when I'm alone with my fancies, I'll be with you
Weaving romances, making believe they're true

Oh, give me your lips for just a moment
And my imagination will make that moment live
Give me what you alone can give
A kiss to build a dream on
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Todas as fotografias, excepto a última, foram feitas por um macedónio, Goran Anastasovski, que se deixou cativar pelo amor no reino animal, tendo passado dez anos a fotografá-lo.

A última fotografia mostra Kahn e Sheila, um casal apaixonado. Sheila estava muito doente, moribunda, e Kahn estava deprimido, a morrer de tédio. Quando se viram, apaixonaram-se e o seu amor curou-os. A ternurenta (e inspiradora...) história pode ser vista no Bored Panda.

A kiss to build a dream on -  que já por várias vezes por aqui andou - é, desta vez, interpretada por Louis Armstrong.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma quarta-feira muito feliz.

(E com beijinhos, se puderem)


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domingo, fevereiro 28, 2016

Arte no museu
[Post 1 de 3]


Visita às exposições do Centro de Ate Moderna da Gulbenkian, lugar a que sempre volto. O tempo passa mas passa em mim, não neste lugar de intemporalidade. É um espaço de luz e cor, de descoberta, por vezes de subversão, por vezes de ternura, onde apetece estar sempre. As crianças adoram os filmes incompreensíveis, gostam de ficar a ouvir o que não percebem. Sentam-se e ficam de gosto. Por mais estranho que seja o que vêem, não estranham. Assim vão aprendendo a habituar-se à diversidade do mundo. Se chove lá fora, cá dentro o espaço fica ainda mais bonito. Os verdes que entram pela janela trazem luz e vontade de ficar a olhar as figuras, os desenhos, as cores. E de voltar. Sempre.
















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quarta-feira, novembro 11, 2015

Chegou o tempo da esquerda, um tempo de desafios, riscos e esperança. Aos que agora finalmente se uniram e, num passo inédito, se chegaram à frente e disseram 'Presente!', agradeço que tenham posto fim ao desgoverno PSD e CDS, manifesto o meu apoio no duro caminho que têm pela frente e a minha admiração pela coragem que estão a demonstrar porque os outros vão à sombra dos abrigos e tu vais de mãos dadas com os perigos.



Porque os outros se mascaram mas tu não 
Porque os outros usam a virtude 
Para comprar o que não tem perdão 
Porque os outros têm medo mas tu não

Porque os outros são os túmulos caiados 
Onde germina calada a podridão. 
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem 
E os seus gestos dão sempre dividendo. 
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos 
E tu vais de mãos dadas com os perigos. 
Porque os outros calculam mas tu não.



Esta é a madrugada que eu esperava 
O dia inicial inteiro e limpo 
Onde emergimos da noite e do silêncio 
E livres habitamos a substância do tempo 


(...)
Portugal,
volta ao mar, a teus navios
Portugal volta ao homem, ao marinheiro,
volve à terra tua, à tua fragrância,
à tua razão livre no vento,
de novo
à luz matutina
do cravo e da espuma.
Mostra-nos teu tesouro,
teus homens, tuas mulheres,
(...)





E se já mostrei rosas juntas com os cravos e uma rosa feliz e multicor, junto também aqui papoilas porque este é um tempo de inclusão em que todos quantos são livres e lutam por um Portugal desenvolvido devem ser chamados a intervir pois todos somos poucos para o tentar recuperar da pobreza e das injustiças sociais para que foi empurrado nos últimos quatro anos.


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Os poemas são de Sophia de Mello Breyner Andresen e, num dia como o de hoje, apetece-me ter aqui Maria Barroso. A gravação não é fantástica mas acho que concordarão comigo que isso é pormenor.

O poema La Lámpara Marina de Pablo Neruda, lido por Tavares Marques, foi dedicado a Álvaro Cunhal (que, justamente, nasceu a 10 de Novembro) e apetece-me tê-lo também aqui.

No penúltimo vídeo, António Costa agradece o papel precursor de Mário Soares - e hoje faço questão de que Mário Soares se junte à festa. E através do link junto também Pacheco Pereira, outra voz que, ao longo dos últimos quatro anos, não se cansou de lutar pela verdade, pela democracia e pela liberdade.
Gostava de ter encontrado algum vídeo com Miguel Portas ou João Semedo ou Francisco Louçã ou Daniel Oliveira ou Catarina Martins em que o registo fosse do género dos que que aqui coloquei mas não encontrei, apenas os vi em intervenções políticas puras e duras. Por isso, fica aqui apenas o registo dessa minha vontade.
Finalmente, Louis Armstrong interpreta La vie en rose -- e é assim que eu hoje quero ver a vida.

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Nota: Esta terça-feira quase não consegui ver televisão mas quero dizer que, do pouco que vi, fragmentos apenas, gostei muito do que ouvi dos discursos de António Costa, Jerónimo de Sousa e Catarina Martins. Uma lição de democracia.

Deliberadamente não falo dos esgares e do mau perder de Passos Coelho, das ameaças infantis e anti-democráticas (e anti-patrióticas) de Paulo Portas, das expressões desagradáveis de Montenegro e de todos quantos mostraram que continuam sem perceber nada do que lhes acontece. Agora, por exemplo, mostram que não percebem como funciona a democracia. É pena. Mas porque o tempo deles acabou (tal como está prestes a acabar o tempo de Cavaco), não os quero ter aqui a contaminar esta minha página que quero que seja uma página em que se festeja o dia em que a direita retrógrada, incompetente e desumana foi derrubada.

Quero aqui hoje festejar a esperança, a expectativa de que se reinicie um caminho de construção, de respeito pelos outros. Quero acreditar que Portugal está de novo a caminhar na direcção do futuro.

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Desejo agora que a inteligência e a maturidade que o PS, o PCP, o PEV e o BE demonstraram até chegarem a estes acordos se mantenham ao longo dos próximos 4 anos - que nunca se esqueçam de que o que os une tem que ser sempre mais importante do que aquilo que os separa.

Dia 10 de Novembro de 2015 foi um dia novo. 

Abriu-se uma porta importantíssima. Abriu-se uma porta e não apenas em Portugal: também na Europa. Estou em crer que também na Europa se começarão a sentir os felizes tempos de mudança. 

Há alternativa.
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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma quarta-feira muito feliz.

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quinta-feira, setembro 24, 2015

Nesta imperfeita madrugada em que as línguas dos homens e dos anjos se confundem


Desenho no ar uma história. De aproximações e recuos se faz uma vida, de danças e contradanças, de medos e coragens. Desenho com palavras, com sonhos. 





Um homem atravessa os campos, os ventos, as neblinas, os tempos, e na sua cabeça traz poemas e nas mãos quase nada. Mas caminha apressadamente, como se conhecesse o seu destino.
Uma mulher vem pelos campos floridos, atravessa as ervas que ondulam ao vento, bebe água de um regato, senta-se com vagar a sentir os cheiros. Não traz nada nos bolsos nem nas mãos mas o coração vem cheio de afectos. 
O homem pouco fala, ouve, e diz poemas como se falasse. Ninguém o ouve, di-los para si próprio. Ou talvez tenha dito a outras mulheres, noutras vidas. 
A mulher não o conhece. A mulher não espera nada, passeia pela vida com a leveza das mulheres muito amadas.



Os tempos escurecem, chove. O tempo passa. O homem não conhece a mulher, não conhece muito de amores vividos ao ar livre, sob a copa das árvores, não conhece a pele nua das mulheres dormindo ao sol. Mas conhece tantos livros, tantos poemas, tantas músicas. 
A mulher abre livros sem tino, lê poemas como se apanhasse folhas douradas no chão, ao acaso, não sabe um poema de cor, não reconhece as músicas que ouve. Flutua na vida, atrás de si não ficam sombras, não transporta memórias.
O homem vem de outros tempos, por vezes os olhos carregados de sombras, por vezes em silêncio. Outras vezes, abrem-se à luz, esperam uma palavra.
A mulher ouve os pássaros que a chamam, sente o perfume das flores, e arrisca. Atreve-se ao caminho, cruza o portão, entra no labirinto.
O homem teme, não conhece da vida as asas, das mulheres os risos francos. Mas arrisca. Abre a porta. Espera no labirinto.




Alguém diz, então:
como dizer aos meus olhos que se afastem
do incêndio que lavra a oriente do teu sangue
rasgando a minha fome

e me protejam nesta imperfeita madrugada
em que as línguas dos homens e dos anjos
se confundem

Desconhecidos, em frente um do outro, olham-se com estranheza: quem disse estas palavras? 

A mulher respondeu: eu ouvi as palavras. Foste tu que as disseste.

E o homem: eu também ouvi. Foste tu.

Mas não acreditaram. Aproximaram-se, ele transportando os seus poemas infinitos, ela transportando o seu coração cheio de afectos. Não se conheciam mas era como se soubessem que jamais se poderiam separar. Abraçaram-se como se toda a vida tivessem caminhado na direcção um do outro.

ou seja:
o primeiro homem olhando a primeira mulher




Depois a mulher perguntou: quem deu o primeiro passo?
O homem disse: fui eu.
A mulher disse: eu achava que tinha sido eu.

Sorriram. Abraçaram-se de novo. Pensaram que nunca mais se poderiam separar. Depois beijaram-se. A seguir, de mãos dadas, seguiram pela estrada, contando coisas um ao outro.

subitamente as palavras romperam de nós
com uma fúria que não lhes conhecíamos

contou mais tarde a mulher. 

e a verdade é que nunca terei outra história
para além da que nos aconteceu
e que ficamos à espera de um dia perceber melhor
porque nunca ninguém se prepara convenientemente
para a chegada do amor.

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E aqui acaba o sonho construído em cima de um beijo inventado.

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As fotografias são de Takashi Yasui

Louis Armstrong interpreta "A Kiss to Build a Dream On"

Os excertos de poemas são de Alice Vieira in "Dois corpos tombando na água"

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E, antes de me despedir, convido-vos a descerem até ao post seguinte onde explico que é devido a uma bexiga sempre a deitar por fora que Passos Coelho e Paulo Portas mentem a toda a hora. Um artigo científico suporta esta afirmação.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma quinta-feira muito feliz. 

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