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sábado, março 28, 2026

Mulheres palestinianas e israelitas descalças, de mão dada, pedindo a paz -- para que os seus filhos não matem nem sejam mortos
E que este sábado, 28 de Março, as ruas americanas transbordem de millions and millions a protestar contra Trump

 

Todos os países que desencadeiam guerras são governados por homens. Não que todos os homens sejam belicistas, claro, claro que não. Muito menos se pode inferir que todos os homens têm tendências imperialistas, que são insensíveis ao sofrimento, que são assassinos. Nem pensar. Tenho a certeza que, felizmente, são uma minoria. Mas, nos que pertencem a essa minoria, há com certeza alguma correlação entre terem esses traços e a testosterona. Putin, Netanyahu, Trump -- são disso exemplo, e só para referir casos recentes, cujos actos bélicos estão a desestabilizar o mundo.

No meio deste ambiente frenético em que os mísseis e os drones cruzam os céus, com tanta gente a morrer e tantas cidades a serem destruídas, com a economia alterada e o futuro ameaçado, quase nos esquecemos que a maioria da população é feminina. 

E, enquanto ainda dura a chacina que se verifica em Gaza (e que não vai acabar enquanto Israel não dispuser do território limpo para poder começar a construir a Riviera idealizada por Trump, Jared Kushner e amigos, e, com tudo devidamente higienizado e produtivo, anexado a Israel), eis que mulheres da Palestina e de Israel se juntam em Roma e, descalças, marcham e cantam pela paz.


Seria bom que em todo o mundo -- em todo o mundo, repito -- houvesse manifestação de mulheres pela paz. As mulheres todas na rua, marchando pela paz. Milhões de mulheres. Para que os nossos filhos não matem nem sejam mortos. Sem bandeiras, sem símbolos territoriais ou religiosos. Apenas as mulheres, com vestes simples, com uma echarpe que simbolize a harmonia e a união entre os povos. 

Não sei quem pode convocar manifestações assim mas penso que seria importante que alguém conseguisse fazê-lo. Aqui fica o meu humilde apelo. Contra o belicismo de uns e a cobardia de outros, que as mulheres descessem à rua e fizessem ouvir a sua voz.

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Mães israelitas e palestinianas marcham descalças por Roma num apelo conjunto à paz

As mães israelitas e palestinianas caminharam lado a lado por Roma, na terça-feira, num poderoso apelo conjunto à paz, liderado pelas nomeadas para o Prémio Nobel da Paz, Yael Admi e Reem Al-Hajajreh. Centenas de pessoas juntaram-se à marcha descalça, atravessando o centro da cidade, desde o Ara Pacis até ao Terraço do Pincio.

A "Caminhada Descalça: Apelo das Mães pela Paz" contou com o apoio da administração da cidade de Roma, com uma apresentação coral realizada na Piazza del Popolo. Admi disse que as mães de Israel, Palestina, Líbano e Irão partilham uma exigência: que os seus filhos não morram nem matem.

As duas activistas deverão reunir-se com o Papa Leão XIII na quarta-feira, no âmbito da sua visita a Roma, acrescentando uma importante dimensão diplomática à sua missão de paz.


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Já agora:

Desejo também que, nos Estados Unidos, este sábado seja marcado por uma enchente nunca vista, muitos milhões de pessoas nas ruas de todas as cidades (mais que os 7 milhões da última manif), na manifestação NO KINGS


E cá está o Boss, Bruce Springsteen, a fazer o apelo. E com que intensidade o faz. Vejam até ao fim, ok? 


E vejam também o grande Robert de Niro, o respeitabilíssimo Robert de Niro, a fazer o mesmo apelo

Robert De Niro convoca o maior protesto da história americana para 28 de março: "NO KINGS"


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Um bom sábado

Saúde. Paz.

quarta-feira, outubro 22, 2025

Gaza, não tarda uma terra banhada a leite e mel

 

Não sei se a Palestina é uma abstração, um sonho, uma ilusão ou um eterno devir. Talvez uma ficção, talvez cenário de cruzadas, de quimeras. Talvez um local mítico, realmente nunca existente, provavelmente nunca materializado. 

A história da Palestina é tudo e nada, uma promessa, uma desilusão, um objectivo, um malogro, uma miragem - há uma língua, há uma história, há uma cultura. Mas não há moeda, não há economia auto-suficiente, não há controlo de fronteiras.

Se Gaza, que era governada pelo Hamas (antagónica em relação à Autoridade Palestina) é o que é e está como está, já a Cisjordânia também não passa de um acto falhado. Embora parcialmente administrada pela Autoridade Palestina, na prática é Israel que controla as fronteiras, o espaço aéreo e a maior parte do território, isto já para não falar das colónias israelitas que a polvilham.

Sempre me fez muita confusão que a dita Palestina vivesse de caridade, de ajuda humanitária. Ora não há país, organização ou grupo que subsista no tempo se não for minimamente autossuficiente. Ao pactuar com esta situação, todos (todos) os que ajudaram foram cúmplices de uma situação frágil, vulnerável, condenada ao insucesso.

Gaza, terra que tem sido de ninguém, é uma faixa de terra à beira-mar, apetecível para quem está nos negócios do real state, para quem gere fundos, para quem tem muito dinheiro para investir e para lavar. Não o têm escondido ou disfarçado: aquela terra tem muito potencial, dizem-no à boca cheia, à cara podre. Mas, para isso, primeiro tem que ser limpa. Não é com subtilezas que o anunciam, é abertamente. Quem gere fundos e se movimenta no mundo dos business plan e dos private equity não tem tempo a perder com meias palavras, quer é saber de coisas concretas: como, quando, com quem. Além disso, adequar projectos a infraestruturas existentes é uma maçada, uma perda de tempo, uma perda de dinheiro. O melhor mesmo é ser greenfield. Começar do zero. Portanto, limpeza geral. Prego a fundo nas demolições. O mais rápido é à bomba? Pois que o seja. 

Zero ideologia, excepto a ideologia do máximo proveito e o resto que se dane.

Isto em relação à nesga à beira-mar plantada, a Riviera há tanto adiada. Quanto à Cisjordânia, ali mais acima, vai continuar a ser um viveiro de revoltados, de humilhados. E viveiro também de mão de obra barata, quando fizer falta. E, enquanto o tempo passa, vai sendo progressivamente esvaziada. Tudo bem, para já está bem como está, dirão.

Talvez tudo isto pudesse ser de outra maneira. Talvez. Em abstracto. Primeiro haveria que pacificar toda aquela zona. Um plano para a paz na região passará forçosamente por esclarecer quem é dono do quê, quem manda em quem, quais as fronteiras e quem assegura a autonomia do território A e do território B. Ora ninguém está a tratar disto. Organizar a Palestina (leia-se: o território de Gaza mais o território da Cisjordânia) é caldinho para o qual ninguém parece estar preparado. Ou motivado. Não sei sequer se é possível. Diria que não. Os próprios não têm condições para isso -- pelo menos, do que se conhece, parece-me que não --, e os de fora não têm interesse nisso.

Portanto, dizer o quê...? Exigir o quê? A quem?

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Até há pouco tempo nada sabia de Candace Owens. Era Maga radical, influencer pro Trump, espaventosa, truculenta e provocadora. Mas, ultimamente, vem-se desviando. Tem-se demarcado do apoio dos Estados Unidos a Israel, tem criticado, e muito, o sinistro Bibi, tem levantado muitas dúvidas sobre o envolvimento de Israel em acontecimentos obscuros. E, por isso, agora tem estado sob fogo cerrado. E, no entanto, o grande arquitecto do plano para Gaza, o plano de reconstrução, o genro de Trump, Jared Kushner, nunca escondeu quais os seus propósitos.

É com espanto que leio agora que está a ser discutido o conflito de interesses em forma de gente que é Jared Kushner. Mas só agora o descobriram? Ele nunca escondeu o que pretende...

Este vídeo foca alguns destes aspectos. Permite a legendagem em língua portuguesa.

Candace Owens Gets It Right On Gaza AGAIN

Jared Kushner, Peter Thiel and Larry Ellison are linked to plans In Gaza that will certainly make them even richer. Cenk Uygur and Ana Kasparian discuss on The Young Turks. 

CHAPTERS:

0.00 Candace Owens Shreds Jared Kushner
1.00 TYT Explains The REAL Plan For Gaza
7.20 The Bad Guys Are In Charge
11.15 Why Israel's Press Is Better Than Ours
14.00 Bezalel Smotrich Says The Quiet Part Out Loud


Desejo-vos um dia feliz

quarta-feira, outubro 15, 2025

Sobre o acordo de Trump para Gaza, ie, sobre a 8ª guerra a que ele pôs fim

 

Aconteceu-me, quando trabalhava, fazer visitas a instalações que iriam ser inauguradas em breve com honras de visitas de ministros e até de presidente da república, a campanha de marketing e de comunicação toda gizada, ensaiada e pronta para ir para o ar, tudo em festa, tudo aos parabéns uns aos outros, e eu chegar lá, olhar para aquilo e dizer que nem daí por um ano, senão dois ou mais, ou se é que alguma vez, aquilo estaria pronto para funcionar como era suposto. Claro que era liminarmente aconselhada a calar-me pois era a única a suspeitar do sucesso que estava à vista. Anos decorridos, em minha defesa, posso dizer que estava certa.

Aconteceu-me também, naquelas manobras de gestão de portfolio, os accionistas decidirem comprar empresas, fundir empresas, arrancar com empresas adquiridas, cá ou no exterior, e ser-me comunicado que tudo teria que estar operacional num par de meses, e eu, olhando para o que estava em cima da mesa, dizer que não havia condições mínimas para funcionar num curto prazo pois estavam omissas todas as bases e pressupostos sobre os quais as empresas funcionam. As minhas observações eram recebidas com incómodo: então tinham tratado de tudo tão bem tratadinho, notícias e entrevistas na comunicação social e agora eu vinha dizer que no way, que era preciso equacionar mil coisas antes de se poder fazer qualquer plano?

Um colega que me compreendia e que muitas vezes alinhou comigo dizia que nós dois éramos a turma do baldinho, ou seja, quando tudo estava ao rubro de alegria, aparecíamos nós a despejar água fria na cabeça dos outros.

Agora estou mais aquietada, já admito que as coisas não têm que correr bem, já aceito que se a malta gosta de se iludir e festejar grandes vitórias pois que o faça. A memória é curta e quando correr mal ninguém se vai lembrar que pouco tempo antes ninguém reparou nas imperfeições ou omissões.

Vem isto a propósito do acordo do Trump para o cessar fogo, para a troca de reféns e prisioneiros e para o recomeço da ajuda humanitária. Tudo coisas boas, meritórias, inquestionavelmente de louvar. Vários chefes de Estado a dar o seu ámen, aplauso geral. No entanto, quando dizem a Trump que há, entre os presentes, quem não concorde com os dois Estados, Trump diz que o acordo não tem nada a ver com isso, que isso nem foi tema, que o acordo é sobre a reconstrução de Gaza.

E, de facto, o acordo foi gizado por investidores, por malta das cripto, por gente do imobiliário, por gente do petróleo, por gente que nada em dinheiro. E todo o processo vai ser gerido como uma empresa, Trump, o grande rei do real state, como chairman.

Claro que Gaza tem que ser reconstruída. É um terreno e pêras, à beira de água. E, depois, parte do trabalho de demolição já foi efectuado. Falta o resto antes de começarem a nascer a Gaza Trump Tower, os Casinos, os resorts de 6 e 7 estrelas, os campos de golf. Claro que com tanta frente de obra há que ter muita mão de obra, é bom que não haja cá a baderna do costume, o cessar fogo tem que estar garantido. E é preciso que estejam alimentados. Não conseguirão trabalhar a bom ritmo se continuarem a ser uns mortos de fome.

Mas, pergunto eu: todas essas construções ocorrem em solo de que nacionalidade? Quem aprova os projectos, quem define as prioridades e as condicionantes, quem negoceia com quem, por exemplo a nível das infraestruturas necessárias? É cada investidor por si, à tripa forra, sem baias de qualquer espécie? Os contratos ou questões que surjam dirimem-se segundo que lei? A que tribunais se reportam? E as escolas que porventura lá se construam seguem que programa, reportam a que 'ministério'? Havendo problemas, que agentes de segurança estão no terreno e perante quem respondem? Ou vão contratar os mesmos do Hamas que lá andam agora (agora, depois do grande e dourado trump-acordo) para assegurarem a segurança das obras, com ordem para darem um tiro na cabeça de qualquer operário palestino que levante cabelo?

Tudo isto faz-me muita confusão. Tenho para mim que as coisas não existem de forma estável sobre terra de ninguém. 

Ou estarão a pensar que é sustentável uma solução em que prevalecerá a lei do farwest, a lei da bala, em que os conflitos serão resolvidos a tiro? Ou ninguém quer saber disso pois o que importa é que, para já, se criem condições para transformar Gaza na Riviera trumpista -- e essa cena desagradável dos dois Estados e etc. que se lixe?

Gostava de não ser tão céptica pois desejo muito sinceramente não vir a ter razão. Desejo muito sinceramente que a paz e a concórdia se instalem naquele território e que o lei e o mel se derramem sobre o solo de Gaza, que jamais se misturem com sangue.

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Apenas um pequeno excerto do nível

Trump on Jared & Ivanka: “She Converted for Israel, It’s Incredible” | Abraham Accords Insight | APT

In a candid moment during his speech, US President Donald Trump reveals that his daughter Ivanka converted, sharing a personal insight while discussing the Abraham Accords and his efforts in fostering peace in the Middle East. Trump praises Ivanka and Jared Kushner’s contributions, highlighting the unique family connection to the historic peace process.


Inenarrável

terça-feira, setembro 23, 2025

Mariana Mortágua, ou a irresponsabilidade de acelerar o suicídio do Bloco de Esquerda

 

De cada vez que ouço falar na expedição em que a Mariana Mortágua se meteu, la flotilla, largando o partido do qual é a responsável e a única deputada, mostro-me estupefacta.

Um conjunto de 'maduros' capitaneados por Greta Thunberg meteu-se em barcos a caminho de Gaza para levar mantimentos. Não percebo sequer a lógica desta brincadeira. Certamente gente bem intencionada mas sem noção da realidade. O que levam na flotilla não deve chegar para matar a fome a uma dúzia de pessoas durante uma meia dúzia de meses. No meio da desgraça de toda a ordem e das incomensuráveis carências de que padece a população naquele lugar tão duramente chacinado, que diferença faz o que aquela malta ali leva? 

Dizem-me que nem é pelas latas de feijão que levam, que é mais para chamarem a atenção. Estupidez. Atenção?! Mas Gaza precisa de mais atenção? Não se fala noutra coisa em todo o mundo. O que faz falta é forçar Israel a parar com aquele genocídio. Tudo o resto é conversa. O efeito prático daquela expedição hippie é zero. Bola.

Que a Greta Thunberg ali vá não me admira. Que a Sofia Aparício ali vá também não me espanta. Que Miguel Duarte também lá vá parece-me normal, do que se lhe conhece tem como actividade o ser activista, passe o pleonasmo. Agora Mariana Mortágua....? Líder de um partido político? A única deputada desse partido...? Larga o partido, larga os problemas nacionais, larga os temas da actualidade portuguesa e aí vai ela, activista, kufiya ao pescoço, no veleiro a caminho de Gaza... Há não sei quanto tempo que para ali anda (e ainda não chegaram), numa expedição inútil, lírica, mais coisa de teenagers que não pensam do que de políticos responsáveis.

Supostamente, depois há de ser outro tanto tempo para regressarem. Lá para o Natal talvez esteja de volta. Todos zangados uns com os outros, malta que tem um egozinho grande e pontiagudo. A Greta já se zangou com os do barco português, na volta ensarilhou-se com a Mortágua: fez birra, marimbou-se para a coordenação da flotilla e mudou de barco, já não atinava com a malta do barco português. Qualquer dia é a Aparício que dá de frosques, também de candeias às avessas com os outros. Lindo. Coisa de teenagers, como digo. 

Li que, finalmente, a menina Mortágua decidiu ser substituída na Assembleia da República. Já não era sem tempo. Era um absurdo que, num partido com um único deputado, nem esse deputado lá pusesse os pés.

Só por curiosidade fui ver quem é. 

Andreia Galvão.

Uma jovem licenciada em Ciências da Comunicação, com especialização em Cinema e Televisão, atualmente mestranda em Teatro. Faço ideia a experiência política, a experiência de vida e o conhecimento que tem da sociedade e da economia portuguesa e europeia... 

Se Mariana Mortágua, desde que é líder do BE, tem provocado uma erosão que já levou o partido até à insignificância de um único deputado, com toda esta mais recente estupidez galopante, vai, com certeza, acabar com ele de vez.

Assim vai a esquerda à esquerda do PS. Uma verdadeira desgraça.

sábado, agosto 02, 2025

Gaza
-- O meu filho toma a palavra num texto poderoso (... e, para mim, desafiante...) --

 

Escrevo este texto a pedido da minha mãe, na sequência do meu desafio (e crítica) sobre a ausência de um texto que esperaria profundamente comovente e mobilizador sobre a situação de Gaza no seu blog.

Encontrei dois textos no blog: a transcrição de um comentário de um leitor, J., em 2015 e, já sobre os acontecimentos atuais, um texto sobre a Dra. Alaa, mãe de nove filhos assassinados por bombas. Esse texto expõe a tragédia humana, mas não comenta o contexto. Faz falta um ensaio mais vasto, que não conseguirei escrever, mas que importa provocar — não só pela urgência da mobilização da opinião pública, mas também porque me interessa explorar as eventuais contradições que originam este ensurdecedor silêncio. Perdoa-me, mãe, mas não resisto.

Em parte este meu desafio é carregado de intenção, não o nego. Depois do 7 de outubro e dos primeiros ataques indiscriminados a Gaza por parte do Bibi de Israel, eu disse emotivamente que esta era mais uma situação a criticar e condenar, tal como o ataque da Rússia à Ucrânia. Como tantas outra vezes, discutimos e não convergimos, e daí resultou uma tensão entre nós. Argumentava a minha mãe, nesses primeiros dias, que Israel tinha a legitimidade que a Rússia não tinha, e como tal, por mais que custasse observar as vítimas civis agora da Palestina haveria uma espécie de racional estratégico-militar que o justificaria, 1 vida humana de Israel poderia ser vingada com muitas mais palestinas, se com isso se eliminasse o perigo, redirecionando as culpas para o Hamas que cobardemente se esconde entre os civis. Não concordei, e argumentei nessa altura da mesma forma que argumento agora, mas com o benefício de ter os factos do meu lado. 

E quem lê este texto, evite, por favor, cair na tentação fácil de me atribuir um rótulo e assumir que estou, implicitamente, a legitimar a ação do Hamas — espero o benefício da dúvida. Retomamos este ponto no final do texto, juntamente com as contradições a que me refiro no primeiro parágrafo.

Sobre o contexto que espero ver mais bem explorado no blog, quero basear-me num brilhante episódio do podcast do New York Times, “The Opinions”, intitulado “I’m a Genocide Scholar. I Know it When I See It”, uma entrevista com Omer Bartov — historiador especialista no Holocausto, judeu israelita a viver nos EUA, que serviu como militar no IDF, posicionado em Gaza. Insuspeito q.b. Diz Omer, de forma simples, ao New York Times: o que se passa em Gaza é um genocídio — há uma tentativa sistemática de eliminar um povo ou de tornar as suas condições de vida impossíveis.

Diz ainda, de forma clara e compreensível, que os judeus israelitas têm um trauma coletivo compreensível — o da ameaça à sua existência — e acreditam que tudo se justifica para o evitar. Incluindo o que se passa agora em Gaza. Tudo é legítimo para a preservação de um povo outrora eliminado de forma sistemática. 

Para ele, é claro que, para Netanyahu, só há uma solução para a “questão de Gaza” e para a ameaça que representa enquanto incubadora de revoltados, fanáticos, militantes, mártires…: acabar com Gaza, com os seus habitantes, e redefinir as fronteiras de Israel para limites mais seguros e previsíveis. No futuro, ver-se-á o que acontecerá com a Cisjordânia.

As imagens na televisão não deixam margem para dúvidas, há factos que ninguém de bom senso e bem informado pode negar:

Israel alcançou com sucesso - e ainda mantém - um programa de destruição total das infraestruturas e de todo o edificado de Gaza. Sobram pouco mais do que ruínas - é agora inabitável.

Os palestinos que sobrevivem em Gaza estão a ser vítimas de Fome de forma deliberada e sistemática pelo estado de Israel, a Fome como arma de guerra – é a morte que daqui resulta.

São muitas dezenas de milhares as mortes civis, por certo muitos deles inocentes – não é só o Hamas o alvo das bombas assassinas.

o Percam um segundo, pensem numa criança que vêm a morrer na televisão como vossa. Não é demagogia nem psicologia barata. É um mundo de guerra que poderia ser nosso, como aquela criança.

Se comentamos a situação internacional e condenamos os crimes que observamos, como nos podemos calar nesta situação? É porque Israel faz parte do mundo ocidental e o seu povo se assemelha a nós e é mais fácil vê-los como vítimas do que como agressores? Porque ao longo destes anos de “terror muçulmano”, desumanizámos os árabes e aceitamos melhor a sua tragédia? Porque estamos demasiado habituados a um mundo unicamente dividido em dois, e Israel faz parte dos “bons” e a Palestina, em tempos apoiada pela União Soviética e agora pelo Irão, dos “maus”?

Agora ouvimos, na minha opinião tarde demais, os estados ocidentais a condenar a Fome em Gaza, a colocar pressão no Estado de Israel, a reconhecer o Estado da Palestina. São as ações corretas, mas superficiais, simbólicas. Se à Rússia se aplicaram sanções, porque é que a Israel se dá bombas? Pode a geopolítica valer mais do que os mais básicos Valores? Se for esse o caso, pensemos então nos Valores que partilhamos enquanto sociedade.

Em algum momento temos de re-definir esses Valores, os sinais são claros mas não inéditos. Mais desigualdade, mais guerra, mais extremismo, menos empatia, menos consenso, menos cooperação. Perdemo-nos em discussões polarizadas porque nos vemos rigidamente presos em quadrantes políticos que nos obrigam a assumir certas posições e argumentos e, depois, discussões que deveriam ser unânimes geram discussão. Esta é uma delas, assume-se que alguém da esquerda mais extrema legitimará a Rússia e condenará Israel. Por outro lado, alguém mais à direita irá condenar a Rússia e aceitará a atuação de Israel como um mal menor. 

Errado, a sociedade deverá reger-se por princípios Humanistas e em questões de razão fundamental sobre a vida humana não hesitará em condenar quem de forma deliberada e sem a mais elevada justificação decide de forma programática retirá-la. E francamente, criticará ainda de forma mais assertiva, quem como Israel, em pleno século XXI promove um Genocídio.

Por fim, como nota de rodapé, dois temas referidos no inicio do texto 

É evidente que critico profundamente o Hamas e as suas ações e reconheço como legítimas as ações militares de Israel em consequência do 7 de outubro. 

É também para mim claro, mas muito mais complexo e difícil de justificar, que um Estado como a Palestina que está ocupado e onde o seu povo vive de forma segregada há anos, sem liberdade e diariamente humilhado, vai originar fanáticos, pessoas sem nada a perder, que alimentam as fileiras de organizações como o Hamas que serve outros interesses. Há muito tempo que a ONU defende uma solução pacifica de dois Estados, de coexistência. A alternativa é a guerra. Não podemos atribuir todas as culpa a Israel, mas não podemos aceitar o que se tem passado nos últimos anos em Gaza e temos de condenar de forma muito veemente os acontecimentos dos últimos 2 anos. 

Segundo tema. Nas posições mais moderadas e de sistema, sobrevive uma contradição fundamental. Essa contradição é, simplesmente, a existência de algumas poucas verdades absolutas que se sobrepõem à razão na análise. Um exemplo: a América é a nossa referência de liberdade e democracia — devemos seguir a sua liderança. Assim fomos para a segunda guerra do Iraque sem nunca pôr em causa a sua legitimidade. E, se alguém o fizesse à data, seria visto como um extremista de pensamento. Agora, com Trump, já é legítima a crítica aberta à América. Pois a mim pouco me interessam os rótulos, e vejo enorme virtude em pessoas como a minha mãe, que pensam e dão a sua opinião sem receio.

Será que, na questão de Gaza, caiu na armadilha do pensamento corrente?

Uma vida é uma vida. E nisto, sei que a minha mãe concorda comigo. Quem não consegue pôr esta verdade universal acima de tudo o resto ou é mal-intencionado ou está perdido na polarização extremada que nos tolda o discernimento. 

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Nota de minha lavra sobre o texto acima, escrito pelo meu filho

No outro dia, quando o meu filho me enviou o link para o podcast sugerindo-me que me pronunciasse, pedi-lhe que escrevesse ele um texto. Tem-me censurado, e não poucas vezes, por eu não falar com a frequência e veemência que esperaria da minha parte sobre o que se passa em Gaza. E, porque gosto de o ouvir e porque tem opiniões sempre bem fundamentadas, achei que ninguém melhor que ele para dizer o que acha que deve ser dito.

E o texto cá está.

Mas devo corrigi-lo: não falei no assunto apenas duas vezes. Falei mais: não muitas vezes, é certo, mas, ainda assim, encontrei os posts cujos links deixo abaixo, entre os quais os dois que ele refere.

E não falei mais vezes pois é um tema sobre o qual a minha opinião não é clara. Quando estou perante um problema, por natureza tendo a pensar na possível solução. No caso em questão, identifico o problema mas não estou certa sobre qual a (boa) solução. 
  • Por um lado não tenho dúvida em condenar, inequívoca e fortemente, a chacina que Israel está a levar a cabo em Gaza. Netanyahu e os que o rodeiam causam-me horror sob qualquer ponto de vista -- e isso é claro, claríssimo. Não tenho palavras para descrever o que sinto ao ver aquela chacina, aquela tragédia, aquele horror. A guerra é sempre cruel. É difícil encontrar uma gradação de aceitável ou 'legal' para a guerra mas, quando se destrói a eito, se aniquila e se mata pela fome. Condeno-o com todas as letras e sinto uma imensa repulsa. Ver crianças com fome, ver as mães a não conseguirem acudir ao sofrimento dos filhos moribundos, ver pessoas a correr e a serem mortas quando procuram alimentos, ver tudo destruído e as pessoas a sobreviver como animais acossados parte-me o coração e não posso encontrar desculpa para quem pratica tão desumanos e bárbaros crimes.
E dito isto, está dito. Sem margem para dúvidas.
  • Mas, por outro, depois há o capítulo seguinte da história, o day after: o dia a seguir ao fim do massacre que Israel está a levar a cabo sobre a população em Gaza. Esse dia há-de chegar.
E é aqui que tenho muitas dúvidas. Não sei qual a solução pacífica. E tenho dúvidas porque questiono a viabilidade e sustentabilidade de países que assentam os seus fundamentos em matrizes religiosas. 

Países conflituantes, com abordagens conflituantes a nível religioso e que disputam os mesmos territórios e com um historial de barbaridades mútuas que jamais será esquecido por ambas as partes -- parece-me garantia de que jamais haverá paz em tais territórios. 

Ou seja, tenho dúvidas no racional que conduziu à formação de um país 'judeu' no meio de territórios de matriz muçulmana. E imagino que o facto de a Palestina ser um estado reconhecido, paredes meias com Israel, não vai ser garantia de que a panela de pressão não estará sempre prestes a rebentar.

Haver dois estados parece ser a 'boa' solução, a que, no reino das boas intenções, fará com que tudo corra bem. Abstractamente, parece o ideal. Mas entre o 'ideal' e o 'real' vai um grande passo. Ou seja, parece-me que a história desmente a probabilidade de que corra bem. 

Se, de facto, Israel e a Palestina quisessem viver em paz, parece-me que teriam que admitir, assimilar, interiorizar e aculturar-se de forma a que cada um dos países fosse aberto a qualquer religião, um estado ecuménico. Sem isso, será uma never ending história de crime, ódio, vingança.

E há um outro aspecto que quero referir: não confundo um país com o regime que o governa ou desgoverna. Israel, apesar de todas as patifarias, infâmias e crimes de guerra que, em determinados períodos da sua história, tem praticado, fora desses períodos tem sido um país notável. A todos os níveis, nomeadamente científico, Israel é um país desenvolvidíssimo. E isso não deve ser esquecido ou desprezado. O combate não deve ser contra Israel mas contra o regime assassino do corrupto Netanyahu. 

Sobre a Palestina terei que reconhecer que tem sido massacrada e humilhada ao longo dos tempos e, talvez por isso, parece ter-se rendido a ser palco e berço e viveiro de extremismos e de regimes que jamais poderemos aceitar como aceitáveis, que cultivam o terror, que desprezam as mulheres, que privilegiam o mais tacanho obscurantismo. A defesa da Palestina não pode ser a defesa de regimes que nada têm a ver com o respeito dos direitos mais elementares. 

Quanto ao resto, toda a geopolítica daquela região é complexa demais para que eu consiga alvitrar soluções ou formular raciocínios. Diria que só grandes estadistas, políticos sérios, cultos e estrategas, poderiam sentar-se à mesma mesa e encontrar soluções. Não é tema para leigos, para curiosos.

E estes são textos, aqui do blog, que encontrei falando no assunto. 




De qualquer forma, filho, muito obrigada pelo teu texto. Como escrevi no título, é poderoso. 

[E, como vês, publiquei-o na íntegra, não houve lápis azul... 😜]

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Desejo-vos um sábado feliz

terça-feira, maio 27, 2025

Uma dor humanamente insuportável

 

Não sei nem quero saber nem sei se alguém sabe: a dor de perder um filho é igual à dor de perder nove filhos? Se calhar, a dor de perder um filho é tão ilimitada que não se distingue da dor de perder nove filhos. Se calhar há sempre um desespero, uma aflição, uma sensação de impotência, de injustiça, uma dor que esmaga e que é tudo tão infinito que não faz diferença ser um ou serem todos ou quase todos. Não sei. Não quero saber.

Não sei o que sente a Dr Alaa al-Najjar que diariamente saía de casa para ir cuidar de crianças e que, na sexta-feira, na sequência de mais um bombardeamento israelita, perdeu nove dos dez filhos, sendo os corpos ou o que sobrou de sete deles que chegaram ao hospital. Dois corpinhos ainda estão sob os escombros e o menino que se salvou e o marido estão mal, hospitalizados. 

Não sei como se sobrevive a uma perda destas. Não sei. Não sei como é que uma mãe a quem acontece uma desgraça destas consegue sobreviver.

E não sei como consegue Netanyahu dormir depois disto. Disto e de tudo o resto que tem feito. Não sei como tem ânimo para viver o homem responsável por tanta destruição, tanto sofrimento, tanta morte, tanta maldade.

Nem consigo dizer mais nada.


In one of the most heart wrenching moments since the start of the genocidal war on Gaza, Palestinian paediatrician Dr Alaa al Najjar received the bodies of her nine children at the hospital where she works. An Israeli occupation air strike hit her family home in the Qizan al Najjar area of Khan Younis while she was on duty at Nasser Medical Complex.

The children arrived at the hospital burned and in pieces. Her husband, Dr Hamdi al Najjar, and one of their children survived the initial blast but are in critical condition. Colleagues described how Dr al Najjar collapsed in agony as she realised the victims were her own children.

(...)

em: Palestinian doctor receives bodies of her nine children after Israeli occupation strike on Khan Younis home


domingo, junho 02, 2024

Tempo de dúvidas, de perplexidades, de receios - apesar de também ser tempo de arraiais...

 

As aulas, não sei como, estão prestes a acabar. Parece que esta semana já vai ser a última semana de aulas. Não sei como é possível cumprir os programas com tão pouco tempo de aulas. Parece que é porque vão começar os exames. Mas uma coisa impede a outra? Ou não seria suposto que os exames fossem mais tarde para haver mais tempo para dar aulas sem ser a mata cavalos ou deixar parte do programa por dar?

Não percebo nada disto.

Independentemente disso, constato que já há arraiais e festejos típicos dos santos populares por todo o lado. Isto sendo que o primeiro santo, que eu saiba, só dará as caras no dia treze de Junho. 

Que não se veja crítica nisto. Sou totalmente a favor de convívios, festas populares, malta na rua a conviver e a festejar. Se há coisa que abre a mente e o coração às pessoas é o ambiente leve, alegre, de convivência e festejo. Música, canto, dança, petiscos, conversa, cor, luz. Tudo isto é meio caminho para que a felicidade entre na vida das pessoas.

Contudo, ao mesmo tempo, numa realidade paralela, chegam notícias que não são boas. Bem tento pensar que é coisa longínqua, coisa que não belisca a nossa liberdade, o nosso direito e a real possibilidade de fazermos o que nos apetece, mas, num canto de mim, temo que de escalada em escalada, um dia destes acordemos com uma notícia que nos deixe gelados de medo.

Ao contrário do que eu, antes de 2022, pensava, Putin continua a bombardear, a destruir e a matar, e ninguém consegue detê-lo. Se deixarmos cair a Ucrânia, estaremos a pactuar com o delírio imperialista de um psicopata (um não, vários) que resolveu reescrever a história, redefinir fronteiras, anular o direito à autodeterminação de um país. 

Contudo, à medida que o tempo passa sem que ninguém o consiga travar, ouvem-se as vozes dos que, tentando fazer-lhe frente, dão passos que podem servir ao ditador louco para dar ele um passo ainda mais tresloucado. E um dia podemos estar todos ensarilhados, num sarilho que não desejamos. Espanta-me que não haja quem consiga ter um ascendente sobre os malucos para chamá-los à razão, aconselhando-os a parar. Não há um líder que se erga e consiga apelar à razão os malucos que parecem tê-la perdido (neste caso, Putin e comparsas). Em Israel tenho esperança que Netanyahu vá de asa e que, a curto ou médio prazo, as coisas se componham. Entre a população na rua e um empurrãozinho da opinião mundial e dos States, acredito que o patife não se aguente muito mais tempo. Mas na Rússia parece que não se vê jeitos disso. Por isso, tenho receio que Yuval Noah Harari tenha razão ao temer que já estejamos a meio da 3ª Guerra Mundial. 

De facto, a estupidez humana é uma desgraça.

Stupidity: A powerful force in human history

Are we in the midst of World War III? What's the role of fiction in human evolution? Why do we tend to overconsume food?

Big or small, every detail in our behavior can be explained by looking at the past, from dietary choices to how we've used stories to advance. But if progress is narrative-driven, what comes next? 

In Yuval's extended Brief But Spectacular take (@YuvalNoahHarari) he speaks on humanity's superpower, the paradox of wisdom and the relationship between government and war. 


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De qualquer forma, tenho esperança que algum milagre aconteça e que voltemos a sentir que vivemos num lugar seguro, um lugar onde podemos ser felizes em liberdade

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Um feliz dia de domingo

terça-feira, maio 28, 2024

Sem palavras
Ao cuidado do João Oliveira e de todos quantos, como ele, ainda não perceberem quem é que está a fazer a guerra

 

10-year-old boy describes missile attack that killed his parents


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Sim, eu sei, Israel está a portar-se também de forma criminosa, e escrevo criminosa com todas as letras, sim, eu sei, o que Israel está a fazer não se faz. 

Mas uma coisa não desculpa outra. A Rússia, apenas pela psicopatia de um imperialista narcisista, invadiu a Ucrânia para a anexar com a ideia megalómana de reconstituir, aos poucos, a antiga URSS ou, pelo menos, as partes que dela lhe interessam.

Israel não se tem portado bem, é certo, aliás, nada, nada bem, ninguém o contesta pois crimes de guerra são crimes de guerra e a dimensão do que está em curso ainda mais o empola, mas, não o esqueçamos, neste caso está a reagir a um bárbaro atentado levado a cabo por terroristas fanáticos que ainda mantêm um conjunto de reféns civis, inocentes. A reacção é bárbara, desproporcionada, indesculpável -- é um facto. 

Mas ao passo que a Ucrânia é um Estado de direito e a Rússia não teve qualquer pretexto para fazer o que continua a fazer, no caso da Palestina e de Israel não apenas o Hamas deu a Israel um pretexto como há uma situação histórica, religiosa, civilizacional que está longe de estar assimilada. Basear a constituição de países, de Estados de direito, em religiões não sei se será uma solução inteligente. Pelo menos, até ver, ainda não se conseguiu que resultasse. 

Claro que poderá sempre invocar-se que, por detrás do que se vê, há sempre equilíbrios geo-estratégicos, desequilíbrios e tentativas de reequilíbrios políticos, tudo isso. Mas só facínoras obtusos podem levar adiante crimes hediondos em que se violam leis internacionais e se mata indiscriminadamente em nome de estratégias fantasmagóricas. 

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segunda-feira, novembro 06, 2023

Marcelo, numa de selfies, no meio de manifestantes que pediam o fim de Israel e mostravam Biden com as mãos sujas de sangue --
porquê?!

 

Confesso que tenho alguma dificuldade em seguir, com assiduidade, as notícias. Vou espreitando o Guardian, as gordas do DN, Expresso e Público e, de raspão, à hora de jantar, o zapping que o meu marido faz pelas notícias.

E foi agora que, para meu espanto, vi Marcelo -- não nos esqueçamos: Marcelo, o Presidente da República de Portugal -- no meio de manifestantes perto de Belém. Uns exibiam cartazes a pedir o fim de Israel, outros mostravam Biden com as mãos manchadas de sangue, e, claro, a favor da Palestina. Ora, neste contexto, não sei o que é ser a favor da Palestina. Alguém é contra a Palestina? Contra o Hamas é uma coisa, agora contra a Palestina é outra e, aí, não vejo que alguém que tenha dois dedos de testa, seja contra a Palestina. 

Ora, aquela manifestação, em que não se vê condenarem o Hamas e se pede o fim de Israel, é uma coisa complicada.

Como aqui exprimi, tenho dúvidas que haver um país, como Israel, um país baseado numa religião, implantado no meio de uma zona cuja religião é outra (e é fundamentalisticamente  outra) possa ser uma solução de paz duradoura. Mas isso são outros quinhentos e a resolução para isto requer muita cabeça, muito humanismo, muita visão, muita compreensão, muita diplomacia, muito entendimento supranacional. Nada que se compare ou enquadre ou sequer tenha pontos em comum com a posição extremista, terrorista, radical, perigosa, do Hamas ou de quem o apoia ou justifica.

E, no meio de uma manifestação como esta, em Belém, aparece Marcelo Rebelo de Sousa, em fotografias, no seu habitual número de selfies, a prestar-se a aparecer em fotografias com cartazes contrários à política externa de Portugal, a dar troco a quem o confronta, tudo num despropósito que julguei inimaginável.

Alguém, por favor, o ajude a exercer as suas funções de forma digna, no respeito pelo cargo que ocupa. 

sábado, novembro 04, 2023

Israel

 

Vou dizer. 

No outro dia já aqui tinha aludido e, foi já depois de o ter feito, ao pôr a box a andar para trás, para espreitar o Eixo do Mal, que vi que no fim aparecia Christopher Hitchens a dizer basicamente o mesmo que eu andava a ver como abordar sem que me caísse a casa em cima.

E vinha andando a dizer ao meu marido. Ele diz que não vê que tenha solução. Eu também não. 

Mas quando a coisa está mal feita, mesmo que a gente não veja solução, há uma premissa que tem que se ter em mente: se assim não está bem, e não está bem de raiz, alguma outra solução há-de haver. Mal como está é que não pode ficar.

E uma coisa é agora estar mal, conjunturalmente mal. Outra é estar mal desde sempre, estruturalmente mal.

E há uma observação que deve ser feita. E é a seguinte: os israelitas têm tanto direito a habitar território palestiniano como os palestinianos. Isto porque há registo deles por lá andarem desde o início, tal como todos os outros.

A questão não é essa, A questão é que fundar um país com base numa religião é um disparate. Não pode dar certo. Um país é um lugar que não pode ser traçado a régua e esquadro no meio de uma outra terra e dizer que aquele polígono inventado e desenhado é um país novo, um país para judeus. 

Não faz sentido. Não poderia nunca correr bem.

Os judeus, os católicos, os muçulmanos, os budistas, os agnósticos e os ateus devem poder viver onde quiserem. Religião não pode ser sinónimo ou base de uma nação desenhada de propósito. 

De propósito fazem-se, e se calhar mal, os canis para meter os cães. Ou os currais para meter o gado. 

Não se faz um país para meter os católicos. Outro para os ateus.

Vamos imaginar que havia uma perseguição insana aos agnósticos, que tinham que fugir, e alguém se lembrava de desenhar um país no meio de Portugal e dizer: aqui agora é um país novo, para os agnósticos.

Não faria sentido, não ia correr bem.

Os judeus poderiam viver e ser acolhidos em qualquer país, tal como já o fazem. Há judeus por todo o lado, e bem, e não apenas em Israel. 

Não me faz sentido um país, Israel, ali enxertado no meio de um espaço todo ele habitado por gente dada a radicalismos, gente que não pode com judeus. É que não foi ceder um terreno para uma limitada comunidade (de agricultores, a viver em comunidade) se instalar... Foi criar um país com leis próprias, forças armadas próprias, etc. 

Foi uma solução abstrusa, não sei se utópica se quê, uma solução artificial, fadada ao insucesso.

Só que aconteceu.

Israel é hoje um país próspero, desenvolvido, científica e tecnologicamente avançado. Não é coisa que com a 'ligeireza' com que foi concebida, agora se possa apagar. 

Mas da mesma forma que acho um disparate o conceito de Israel ser um país baseado numa religião,  acharei o mesmo de qualquer outro que também o seja. Dá forçosamente radicalismo, fanatismo, ditadura, desgraça. Por isso, por aquelas bandas, conceitos como liberdade, democracia, multirreligiosidade, inclusão, humanismo, etc, são quase miragens. Portanto, em cima de tudo, haver ali um país que tenta ser isso tudo só pode correr mal.

Claro que Israel, país habitado por gente acossada desde sempre, em especial durante o nazismo, tornou-se hiper-reactivo, hiper-defensivo. E, já se sabe, a melhor defesa é o ataque. E, portanto, tem sido a felga que se sabe.

Agora como pode ser resolvido isto?

Não faço ideia.

Para ser de novo traçado a régua e esquadro só mesmo numa região desabitada, terra de ninguém, coisa que não ferisse susceptibilidade alguma.

O lógico é que se dissesse: não há cá mais países que têm como matriz existencial uma religião. Portanto, acabou-se. E, pessoas como quaisquer outras, poderiam instalar-se em qualquer país, encontrando-se formas de os acolher. 

Só que é possível desmembrar um país? Presumo que não. E, se fosse possível, não seria cruel fazê-lo? Presumo que sim.

Se a Palestina fosse um espaço multicultural, multi-religião, democrático, humanista, poder-se-ia dizer encontrar uma solução inteligente, racional. Mas, tantas as feridas, tantos os massacrantes antecedentes, não creio que seja possível.

Mas alguma solução há-de existir. Algum futuro em paz, naquela zona, há-de ser possível. 

Mas eu não sei nada de política externa, não sei de geografia política, não sei nada de diplomacia, não sei de nada disto. Mas há quem saiba. 

Penso, pois, que é chegado o tempo dos líderes, dos políticos, da gente humanista e com visão. 

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De notar que não estou a desculpar a barbárie do Hamas nem nada que se pareça, nada, nada, nada.

E também penso que Israel se encontra numa situação dificílima, estão cercados, existencialmente ameaçados, com um inimigo que se acobarda, escondendo-se atrás ou sob civis inocentes. E que só isso pode justificar a violência e a brutalidade do que está a acontecer.

E, por tudo isto, ainda mais me convenço de que a solução para esta tragédia, para ser real e sustentável,  tem que ser tão radical quanto foi, há décadas, a da criação de um novo país.

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Um bom sábado

Saúde. Coragem. Paz.

quarta-feira, outubro 25, 2023

Mosab Hassan Yousef, filho do fundador do Hamas, depois um dos principais agentes secretos ao serviço de Israel, diz o que pensa (e sabe) sobre o que está a passar-se
[E Yuval Noah Harari reflecte sobre a situação]

--- E a palavra ao grande Eugénio Lisboa ---

 

Nestas guerras sangrentas, somos todos vítimas. 

Mas as vítimas não são todas iguais.

Umas morrem, outras são violadas, estropiadas, roubadas, agredidas, humilhadas, ameaçadas, forçadas a ver o horror.

E depois há as que estão a ver de longe -- nós.  

Estamos no bem bom das nossas casas, perto dos nossos, livres de perigo. Somos vítimas mas vítimas numa escala que, de forma alguma, se pode comparar com as que sofrem com o corpo e com a alma a dor e o medo das guerras sangrentas. Somos, isso sim, vítimas da verdade, vítimas de manipulação a que diariamente estamos sujeitos. 

Perde-se a perspectiva histórica, opina-se sem se conhecer a total verdade dos factos, fala-se do que não se sabe. O pó que nos entra em casa através das televisões não cobre apenas os corpos ensanguentados: cobre também a verdade que nunca conseguimos, realmente, ver.

Como sou ignorante, tenho dificuldade em dissertar sobre tema tão complexo. Mas tento adquirir informação para conseguir navegar neste mar encapelado e com tão fraca visibilidade.

Nos dois vídeos abaixo, pode pôr-se legendagem automática para português (mas, se o fizerem, não se espantem com gralhas que são de gargalhada...).

Hamas leader's son who became a spy explains what Hamas really wants

Mosab Hassan Yousef, the son of Hamas' founder who later became one of Israel's top informants, speaks with CNN's Jake Tapper about Israel's war on the terror group and the situation in Gaza


Yuval Noah Harari & Rosemary Barton - Israel's war with Hamas


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Recomendo a visita e a leitura de um texto do Grande Eugénio Lisboa no qual me revejo em absoluto: 

Começo, para não haver dúvidas sobre aquilo a que venho, por dizer que condeno com a maior veemência, o comportamento arrogante, brutal e invasivo que Israel tem demonstrado, ao longo dos anos, para com os palestinianos da faixa de Gaza. Mesmo tendo em conta que Israel passou por períodos altamente perigosos, no começo da sua formação, quando foi atacado por todos ou quase todos os Estados árabes da redondeza, o que lhe terá criado um complexo de “excesso de resposta”, este excesso tem ultrapassado todas as linhas vermelhas de uma desejada proporcionalidade. 
(...)
O fanatismo só pode levar à destruição e faz pena ver uma certa esquerda a pôr-se embevecidamente ao lado de fanáticos religiosos, que os devorarão, assim que tiverem oportunidade. Por detrás destes está um país infernal, tirânico, retrógrado e misógino, que a esquerda – uma certa – não gosta de atacar, porque financia os delírios revolucionários de grupelhos mais ou menos genocidas. Dizia o grande Umberto Eco que “as pessoas nunca são tão completamente e entusiasticamente más, como quando agem em nome das suas convicções religiosas.” Ficam aqui estes avisos destinados àqueles que se referem sempre à triste tragédia do povo palestiniano, esquecendo-se de mencionar o HAMAS, como um dos encenadores dessa tragédia. Com Israel, sim. Juntos.

Peço que o visitem e leiam o texto na íntegra

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Desejo-vos uma boa quarta-feira

Saúde. Boa sorte. Paz.

sábado, outubro 21, 2023

O horror de se ver crianças estropiadas e assassinadas como conteúdo privilegiado nas fake news

 

Informação e contra-informação, notícias verdadeiras e fake news, empolamento de número de mortes, obscenas encenações, manipulações de emoções, terrorismo de toda a espécie e feitio, vontade de vingança, loucura, radicalização. E tantas vezes com base em mentiras.

No meio disto, uma coisa me faz confusão (e me causa profunda repulsa): a posição do PCP, sempre colado a todos os criminosos, terroristas, ditadores, psicopatas, matem eles quem matarem, torturem, destruam, chacinem, violem, mintam, espezinhem... desde que sejam contra os Estados Unidos e o Ocidente em geral. Os Estados Unidos e o Ocidente em geral, apesar de falhas ou erros, estão do lado da democracia, da liberdade, do humanismo -- valores que não têm preço. Como se pode estar contra isso e a favor dos que se opõem a estes valores e se comportam como imperialistas tirânicos, como terroristas, como psicopatas tarados?

[Com isto não quero dizer que considere que a postura de Israel em relação à Palestina, em especial nos últimos anos, seja exemplar. Não considero. Pelo contrário. Nem gosto de saber que há sede de vingança (de ambos os lados). Ou que se sacrifica população inocente, seja de que nacionalidade ou religião for. Não.  Nunca. Mas isso não me cega, não me leva a pôr do lado dos acima referidos]. 

Sugiro que vejam a intervenção de Rodrigo Moita de Deus, na RTP3, no programa 'O último apaga a luz', em que ele desmonta a evolução da notícia sobre a farsa do falso ataque de Israel ao hospital que afinal não foi de Israel mas, muito provavelmente, um rocket falhado da Jihad Islâmica, que afinal também não caiu no hospital mas no parque de estacionamento ao lado, em que afinal não morreram 500 pessoas mas se calhar menos do que 100. 

Seja como for, coitados dos que morreram. Mas a verdade é que meio mundo se atiçou contra Israel quando Israel não teve, muito provavelmente, nada a ver com o assunto. E que vergonha, que vergonha obscena, os que jogam com as emoções das pessoas para propagarem mentiras e apelarem ao ódio.

No meio disto quero crer que ainda se pode confiar na BBC.

Two American hostages freed by Hamas - BBC News

Hamas has released two US hostages who were abducted during the Palestinian group's deadly raid on Israel.

Israel confirmed that mother and daughter Judith and Natalie Raanan had been handed over to them from Hamas at the Gaza border.

It follows a visit to Israel by the US President Joe Biden.

Hamas said the pair were freed for "humanitarian reasons".

They were the first captives released since the gunmen raided Israel on 7 October, killing 1,400 people and taking around 200 hostages.

More than 4,000 people have since been killed in Israeli air and artillery strikes in Gaza, according to Palestinian officials.

Clive Myrie presents BBC News at Ten reporting by Jeremy Bowen in Jerusalem and Sarah Smith in Washington.


quinta-feira, outubro 19, 2023

Amigos contra as tempestades

 

Por aqui ainda não dou pela Aline. Mas parece que vem mesmo. A ver se não faz estragos, pelo menos, estragos de maior. 

Passa da meia-noite e meia e agora é que estou a pegar nisto. Não sei como me arranjo mas parece que, sejam quais forem as minhas circunstâncias, arranjo sempre maneira de andar sempre ocupada. 

Hoje foi na conversa com uma amiga de longa data. Impressiona-me muito como algumas amizades resistem ao tempo. É como se fossemos sempre as mesmas pessoas. A nossa história vai mudando, já vivemos muitas vidas, temos mais experiência, mas nós, nós mesmas, estamos aqui, capazes de falar horas a fio, compreendendo-nos, com vontade de conversar, de saber mais, de mostrar as nossas coisas.

Há algum tempo, quando estava na fase de me desligar do meu trabalho, eu a querer sair e a quererem que eu ficasse mais e mais, e eu, sobretudo por solidariedade e estima para com um colega que não estava bem de saúde, ia ficando e ficando, mas cheia, cheia, cheiinha de vontade de me pôr ao fresco, eu desejava dar uma volta completa na minha vida. 

E isso está a acontecer. Tenho a gestão do meu tempo, tenho a minha vida, posso estar na minha casa, que era uma coisa que eu desejava tanto, posso ler e escrever. Tenho escrito muito. Sei que tenho que passar por algumas provações até chegar onde quero. Mas passarei. Sou resistente. E resistente. E confiante. 

E o reencontro e reaproximação de amigos de quem a vida me tinha distanciado está a ser uma surpresa e uma alegria muito grandes.

...

Hoje pouca televisão vi. Entre uma e outra coisa, não me sobrou tempo. Está agora a televisão ligada mas estou a escrever ao mesmo tempo pelo que a atenção está um pouco desligada.

Sei que o mundo está muito perigoso, que o malvado e hipócrita Putin deve estar feliz por toda a atenção e esforços estarem concentrados na crise Israel/Hamas, sei que as ameaças terroristas saltaram de imediato para a Europa. E isso custa-me imenso. Uma vez, estávamos para ir a Paris mas havia atentados e ameaças de atentados e tivemos que adiar. Até há pouco tempo isso parecia-me longínquo. Paris sempre foi dada a greves a sério (uma vez fomos de comboio pois os aeroportos estavam em greve e o meu marido tinha reuniões de trabalho e eu tinha metido férias para aproveitar para ir laurear), dada a manifestações atribuladas. Mas os atentados ou as ameaças terroristas pareciam ter dado algumas tréguas. Agora, voltaram. E isso é um terror. A imprevisibilidade do local e da hora do ataque e a barbaridade que assumem é de estragar a tranquilidade a qualquer um. Dir-me-ão que é isso que sofrem os desgraçados da Palestina, de Israel, da Ucrânia e de todos os países assolados pela guerra, sempre na contingência de ser atacados, de perder a vida, de perder a casa e a família. É certo. Mas eu falo da minha realidade, a de viver numa realidade pacífica e temer, por mim e pelos meus, que aconteça alguma coisa que me parece impensável nos dias de hoje.

Enfim.

Não vos maço mais. Não vale a pena estar para aqui com ladainhas. 

Vou mudar. Não vem a propósito, pelo contrário, mas, nestas situações, apetece-me sempre, distrair a cabeça. Por isso, com vossa licença, que entre quem possa fazer-nos sorrir.

Chaplin and Keaton Violin and Piano Duet 


Desejo-vos um dia feliz, tranquilo

Saúde. Afecto. Paz.

quarta-feira, outubro 18, 2023

O que diz Fareed
(Vídeo publicado antes do sangrento ataque desta terça-feira mas, nem por isso, menos actual)

 

Gosto sempre de ouvir as opiniões, fundamentadas, bem informadas e sensatas de Fareed Zakaria. Há sempre um enquadramento e uma visão que situa os acontecimentos nas perspectivas histórias, geográficas e político-económicas.

Neste vídeo (legendado), divulgado antes do que aconteceu (e cuja autoria está a ser discutida), Fareed fala de Israel, da Autoridade Palestiniana, do Hamas, da Arábia Saudita e dos Estados Unidos e dos players que intervêm nesta triste e insana situação.

É um vídeo de curta duração e merece atenção.

Fareed shares what the 'severest setback' would be for Hamas now

CNN's Fareed Zakaria explains why he believes the Hamas attack on Israel was predictable and argues what the goal of the country should be now

segunda-feira, outubro 16, 2023

O que éramos, o que somos. Os que deixaram de ser.
E o mundo que não compreendo.

 


A minha mãe encontrou uma carteirinha de fotografias pequenas daquelas a que, há milénios, se chamava 'tipo passe' com algumas fotografias de colegas de liceu. Nem todas têm o nome atrás. Naquela altura devíamos pensar que não fazia falta escrevê-lo. Agora olho para algumas dessas, lembro-me das pessoas que elas representam mas não tenho ideia do nome.

Partilhei com outros colegas dessa altura. Duas dessas foram identificadas. Outras não. Desapareceram nos meandros da memória de toda a gente.

De uma disseram que não está bem da cabeça, ausente, desinteressada do mundo. Fez-me muita impressão, isso.

Claro que, de tudo, o que me faz impressão são os vários que já morreram. Parece-me uma coisa muito contra natura. Já falei disso e estou a repetir-me. Mas a sério que isso me incomoda muito.

Não sei se também falei no seguinte: dou por mim a olhar para as fotografias em que estão os que já morreram. Tento perceber se, neles, naquela altura, já alguma coisa poderia fazer prenunciar o que iria acontecer. De uma delas já não me recordava. Ao ver as fotografias, reparo que estava sempre um pouco isolada, parecia um pouco distante. Ou triste. Um outro era muito divertido, gordinho, muito simpático. Vejo-o nas fotografias. Qualquer coisa nele me parece agora assimétrico. Uma outra era muito carismática quer na maneira de ser quer na maneira de se vestir. Vejo-o nas fotografias. Parecia quase nossa mãe, muito mais desenvolvida, rosto já um bocado marcado. Uma outra, médica, disse-me agora que foi terrível, que era a médica dela. Como me viu muito perturbada, disse-me que naquela família todos têm morrido de cancro. Ela disse-me isso como para me dizer que eu não estivesse impressionada pois ela já estaria 'fadada' à morte por aquela doença. Mas eu fiquei a pensar que os filhos e netos dessa que morreu devem estar bem apreensivos com essa triste sina.

De uma outra de quem fui muito próxima e a quem depois perdi completamente o rasto, disse-me a minha mãe que, tendo ela engravidado ainda miúda, foi afastada, levada para uma quinta que tinham no campo.

Mas agora soube que está bem, que se reformou agora, que também tem uma mão cheia de netos. Vejo a fotografia dela. Tão bonita e alegre que era. Já aqui falei delas algumas vezes. Gostava de voltar a vê-la. 

Uma coisa que, olhando para aquelas fotografias, também reparo é que antes, alguns de nós, quando éramos pequenos parecíamos mais velhos. Por exemplo, uma que, deveria ter uns catorze ou quinze anos, já parecia ter uns vinte e tal ou trinta. Não dá para perceber. Mas mesmo as que tinham ar de miúdas, frequentemente se mostravam circunspectas. 

Poder-se-ia pensar que o mundo hoje é mais leve para as crianças.

E, contudo, sabemos como isso pode não ser verdade em algumas partes do mundo. A televisão mostra crianças a sofrerem horrores pelos quais nem os adultos deveriam passar. Vejo-as a falarem, cheias de medo, a chorarem e o meu coração quase me dói. Não falo por falar, não é uma metáfora. É mesmo dor. E é sobretudo uma grande incompreensão.

Por vezes penso que se um dia um grande meteorito ou uma qualquer outra coisa chocar com a Terra e der cabo de grande parte dela, se calhar até fará algum sentido já que parece que grande parte dos humanos têm uma pulsão brutal pela autodestruição, não só de si próprios e dos outros, como do seu habitat. 

Tirando isso, vou falar de quê?

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Só se, por exemplo, partilhar um vídeo. Um qualquer. Talvez este aqui abaixo.

President Joe Biden: The 2023 60 Minutes Interview

President Biden answers questions on Israel, efforts to locate American hostages in Gaza, the state of the war in Ukraine and more during a wide-ranging conversation with Scott Pelley.

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Lá em cima, Jakub Józef Orliński interpreta "Amarilli, mia bella" (Giulio Caccini)

A fotografia lá em cima é da autoria de Ali Jadallah/Anadolu Agency/Getty Images e outras poderão ser vistas no Guardian

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Desejo, a todos, uma boa semana a começar já nesta segunda-feira

Saúde. Força. Paz.

Paz. Paz. Paz. Paz. Paz. Paz. Paz. Paz. Paz. Paz. Paz. Paz. 

domingo, outubro 15, 2023

O horror antes e depois do horror

 

Sábado tranquilo. Até me pareceu mentira não ter aparecido nenhuma crise. Por isso, aproveitámos a calma e o sol para lavar e estender roupa, caminhar, descansar. 

Escrevi. Li. Dormitei. Escovámos o cãobeludo e cortámos-lhe alguns nós.

Tenho quatro novos vasos de flores. Recebi de presente. No prazo de dois meses já recebi, de três pessoas diferentes, várias plantas. Estas que recebi agora, segundo me disse quem mas ofereceu, são plantas que trazem alegria e boa energia. Parece que cada uma tem sua função mas agora não me lembro. Mas sei que é tudo na base das coisas boas para a casa e para quem aqui vive. Sobretudo, sinto-me agradecida por haver quem goste de me oferecer plantas. 

Parece que este domingo vai chover e é bom que chova. Complica-nos um pouco as caminhadas e o dog chega encharcado que nem um pinto e, para o limpar, é uma tourada, corre, rebola-se, sacode-se, anda aos saltos à nossa volta. Por fim, estamos nós cansados e ele ainda molhado e todo contente. Mas faz tanta falta, é tão bom que ela venha.

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E depois há o que as notícias nos trazem. A agonia. A dor. A destruição. A perda. Podem os mais cépticos, os que já viram de tudo, os que já assistiram à morte, ao silvar das balas, ao estrondo das bombas, ao esgarçar dos corpos, à desistência, olhar para tudo isto com indiferença. Mas eu, que vivo no conforto abrigado da minha casa, que tenho a alegria consolada da proximidade dos meus, olho para todo isto com uma grande aflição. Não consigo conceber como se pode fazer mal a alguém. Não consigo compreender como se pode pensar que a destruição de pessoas e bens pode servir para alguma coisa.

A nossa vida já é, em si, tão difícil de justificar que, se a usamos para destruir outras pessoas, tornamo-la, então, inútil, desprezível.

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Partilho um vídeo que talvez nos ajude a pensar. Talvez. Nisto uso talvez, talvez, talvez. Não sei nada. 

Yuval Noah Harari on CNN Amanpour - Hamas' aim was 'to assassinate any chance for peace'

Watch Christiane Amanpour's interview with Yuval Noah Harari, exploring the long-term implications of Hamas' attack on Israel and the subsequent retaliation in Gaza.


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Desejo-vos um belo dia de domingo

Saúde. Esperança. Paz.

Paz. Paz. Paz. Paz. Paz. Paz. Paz. Paz. Paz. Paz. Paz. Paz.

sexta-feira, outubro 13, 2023

Quando um pai, em lágrimas, diz que sorriu e gritou: 'Boa!' ao saber que a filha de 8 anos tinha sido assassinada e não raptada, violada, agredida, deixada morrer à sede e à fome

 

Tudo é horroroso demais. O horror escancarado, cheio de pó e de sangue, em que os gritos e as lágrimas quase são de somenos, as pessoas transformadas em corpos, os corpos na rua, no chão, enrolados em plásticos ou panos, no meio do pó, dos escombros, do sangue. Ao pé crianças chorando, os rostos também cobertos de pó ou de sangue. Outras rindo e brincando, inocentes, convivendo com o horror.

As cidades destruídas e sem um raio de sol ou de esperança. 

A agonia. A aflição. O medo. 

A raiva. A sede de vingança.

Um ciclo infernal de destruição.

O fundo de um poço tenebroso, onde há almas afogadas, corpos em decomposição, sonhos destruídos, vísceras. E sangue e pó.

Não sei o que sobra.

quinta-feira, outubro 12, 2023

Noites em que se desce ao fim da noite


O que está a acontecer em Gaza e em Israel deixa-me sem palavras. Parece que, por vezes, em algumas partes do mundo, alguma pessoas parecem querer fazer-nos convencer que o mundo é de loucos. 

Há gente que consome a própria vida e a dos outros a congeminar no mal, há gente inclemente, há gente que parece desabitada, gente sem amor à vida ou aos outros.

De quantas mortes precisam pessoas assim até conseguirem perceber a finitude e a irracionalidade de tudo? De quantas mortes precisam pessoas assim até perceberem que a loucura que as habita é absurda, sem propósito?

Numa situação dramática como a que se vive neste momento, não vou desfiar argumentos ou fazer contabilidades. Tudo isso é contraproducente. Numa situação destas, uma pessoa só pode querer que acabe depressa e que se enterrem todos os rancores. Qualquer ajustamento de contas que se faça só levará a mais mortes. Há ciclos ruinosos, letais. A única coisa a fazer é enterrá-los. Começar de novo. 

A solução tem que ser política, generosa. 

Mas temo que muito sangue ainda vá correr e que muita dor, muito sofrimento, muita desumanidade venham ainda a ver a luz do dia.

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Palestinian Poet Describes Life in Gaza Amid Israel’s Retaliatory Attacks 

| Amanpour and Company

With Gaza’s main electrical plant shut down, the Ministry of Health is saying hospitals on generators will run out of fuel by Thursday. These facilities are already overwhelmed, as Israel continues to hammer Gaza with retaliatory airstrikes. More than 1,100 have been killed, according to the latest statement from the Palestinian Ministry of Health. The number includes four paramedics whose ambulance was reportedly bombed. Christiane speaks with a resident of Gaza about what is happening on the ground.

Originally aired on October 11, 2023


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Mas, se os humanos, alguns humanos, são desprovidos de humanidade, há animais que a têm e muita. Veja-se os burros.

Orphaned Donkey Can’t Stop Hugging Her Rescuer

The beautiful and emotional journey of an orphaned donkey getting adopted by a pack of dogs will surely make your day.

Kadife’s mother was abandoned on the streets while she was heavily pregnant. The mother died giving birth to Kadife and the little donkey was confused and stayed beside his dead mother until she was found by the right people who changed her life. 



Desejo-vos um dia tão bom quanto possível. 
Saúde.
Paz. Paz. Paz. Paz. Paz. Paz. Paz. Paz. Paz. Paz. Paz. Paz.

segunda-feira, julho 21, 2014

"Sobre uma carta de Rosa Luxemburgo", uma crónica escrita nessa 'coisa que são as nuvens' por José Tolentino Mendonça no Expresso - ou, neste mundo que não parece nada maravilhoso, que coisa é afinal a felicidade? e o que são os outros em nós?




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Não são de agora os conflitos territoriais que têm por base por base - ou pretexto - questões religiosas. 

Um dos conflitos recorrentes refere-se a um dos mais activos focos de beligerância da actualidade.

Israel, Gaza, mísseis, acordos, cessar-fogos, quebra de acordos, mortos, vinganças, massacres - tudo isso faz parte do nosso quotidiano, pelo menos do quotidiano que apreendemos através da comunicação social.


De vez em quando há uma acalmia mas, vem sempre a provar-se - uma e outra e outra vez - não há um chão de paz que permita que aquela gente se respeite, respeite a vida, preze o futuro.


A violência vai então numa escalada, a sofisticação militar de Israel é gélida e eficaz, a revolta palestiniana cresce com as crianças, a humilhação e a derrota clamam por mais sangue.


O que se tem vindo a passar agora é terrível. Muitos mortos, uma verdadeira carnificina, gente em fuga coberta de sangue, crianças sacrificadas. Quando isto vai neste crescendo, a perplexidade invade-me e interrogo-me, sempre, uma e outra e outra vez, sobre o sentido de tudo isto. Quando a vida perde o valor, luta-se por quê?

Mas não é só ali.

Na Síria o drama continua. Na Ucrânia é o que é, foi agora o que foi e vamos ver no que vai dar

E não falo do Iraque ou de todos os outros países em que a população vive o sobressalto da guerra, da tremenda insegurança, das dificuldades que não se julgariam possíveis em pleno século XXI. Todos os dias, uma e outra e outra vez.

E a fome, as torturas, os saques, as ditaduras. Ou as cheias, a terra a desaparecer sob as águas, e epidemias, e fome. Pudéssemos nós fugir deste mundo que parece que ensandeceu.

E às grandes tragédias somam-se os dramas pessoais, as doenças que colocam o final da vida bem à vista, a dor individual, as irrecuperáveis perdas. Quem atravessa o sofrimento físico, ou assiste à decrepitude do seu corpo ou do corpo de alguém que ama, ou quem perdeu um filho e luta por encontrar um sentido para essa amputação ou para encontrar forças para continuar de pé, centra em si todas as dores do mundo - e todos os outros deverão compreendê-lo e dar-lhe a mão, ajudar no seu amparo. Que ninguém ouse pensar que quem sofre é egoísta por ignorar a guerra, a fome ou a dor alheia. São planos diferentes e todos devem ser respeitados e tidos em atenção.

Face ao que enunciei, é difícil afirmar que este é um mundo maravilhoso.

Mas é.

O Padre Tolentino Mendonça, na sua crónica semanal no Expresso, enquadrada na sua rubrica 'que coisa são as nuvens' oferece aos seus leitores um texto luminoso. Chama-lhe: Sobre uma carta de Rosa Luxemburgo.


Transcrevo uma parte.


Um dos textos mais comovedores que conheço é uma carta de Rosa Luxemburgo escrita pelo Natal a uma amiga, a partir da prisão feminina de Breslavia, poucos meses antes da sua execução. Chegava ao fim esse paradoxal ano de 1917, e poucos arriscavam dizer com segurança para onde era arrastado o mundo de então.

Na verdade, o que faz da sua carta, para citar as palavras de Karl Kraus um 'documento de humanidade e poesia' que deveria ser ensinado às' gerações futuras', são as duas partes seguintes.

Tratava-se do terceiro Natal que a filósofa e sindicalista passava na prisão. Ela procura para si uma árvore de Natal, mas tudo o que que encontra é um arbusto mísero e despojado, que ainda assim transportou para a cela. E isso fê-la interrogar também a 'ébria alegria' que mantinha no meio daquele inferno, essa espécie irredutível de confiança que nela persistia apesar do desconforto e da desolação. E escreve nessa noite:

"Estou aqui estendida, sozinha e em silêncio, enrolada no múltiplo e negro lençol de obscuridade desta prisão em pleno inverno, e contudo o meu coração pulsa de uma alegria interior desconhecida e incompreensível, como se caminhasse sob um sol radioso num prado em flor...'. 


Em momentos assim penso em vós e em quanto me agradaria transmitir-vos a chave deste encantamento, para poderdes ver sempre, e em todas as situações, aquilo que na vida é belo e alegre'.


E quando mais profundamente se pergunta porquê, declara isto: 'Não tenho razão para esta injustificável alegria, nem sei de outro segredo senão a própria vida'.



Mas José Tolentino Mendonça continua ainda:

A última parte da carta não é menos inesquecível. Rosa Luxemburgo assiste à chegada de carroças de mantimentos arrastadas por búfalos capturados na Roménia como um troféu. E, pela primeira vez, repara na dor indizível dos animais. É um choque e uma revelação. Quando se atrave a pedir 'um pouco de compaixão' para as criaturas extenuadas, o cocheiro responde-lhe com violência: 'Nem para os homens há compaixão'. E, à frente dela, castiga mais duramente os búfalos.

O olhar de Rosa Luxemburgo fixa-se, então, no de um deles. O animal sangrava, mas permanecia imóvel, com os olhos mais mansos que ela alguma vez conhecera.

E nesses olhos ela identificou um desamparo semelhante ao de uma criança que tivesse chorado sem que fosse ouvida por longo tempo.

'Era de facto a expressão de uma criança punida duramente sem perceber nada do que lhe está a acontecer, e sem conseguir subtrair-se ao tormento de uma violência brutal. Eu estava diante dele e o animal olhava-me. Soltaram-se em mim lágrimas que eram, afinal, as suas. Pelo irmão mais amado não teria chorado mais dolorosamente do que ali chorei, combalida, sem conseguir afastar-me daquele sofrimento indizível'.

Na empatia que ligava agora aquela mulher a um anónimo animal ferido nascia uma nova forma de resistência à brutalidade e à barbárie. Naquela 'grandiosa guerra que tinha diante dos seus olhos', Rosa Luxemburgo compreendia que uma comunhão entre os seres humanos e as outras criaturas é não apenas possível, mas urgente e necessária.




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A música é What a wonderful World interpretada pelo African Children's Chorus - Playing for Change.

As imagens do cenário de guerra referem-se aos conflitos mais recentes em que tantos inocentes estão a cair sob o fogo inclemente de Israel.



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