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quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

"Indignação não chega para responder à crise"


PassosCoelho diz que "indignação" não chega para responder à crise.

O primeiro-ministro defendeu, esta quarta-feira, no Pátio da Galé, que "a indignação por si só não é suficiente" para "uma política de resposta à crise" e afirmou que perder de vista a "serenidade", "objetividade a "civilidade" causa "danos" à democracia.

Por isso, meus amigos, convido-vos a ouvir, sem perdermos de "vista  a serenidade,  a objetividade e a civilidade" este pequeno pequeno poema tão bem dito pelo nosso saudoso Mário Viegas.





quarta-feira, 14 de março de 2012

«O Prefácio»


Não resisti - desculpem-me! - mas a crónica de Baptista-Bastos de hoje no DN está tão, mas tão espantosamente profunda e completa  que não consigo deixar de a transcrever para aqui. (Com a vaga de "censura" que se tem feito sentir por aí - desde a mudança de direção do jornal i até à demissão "forçada" do secretário de estado da Energia - e da forma amplamente crítica com que o BB escreve, até receio que venha a ser inibido de escrever estas crónicas às 4ªs feiras.) Mas vamos aproveitar enquanto há!

O Prefácio

 «Anda por aí um desassossego de frases agrestes que envolvem um autor e o prefácio a um livro de discursos. O autor é o inexcedível dr. Cavaco. O prefácio é um texto levemente tonto e claramente escrito com a fatal tendência para a quezília e o conflito gramatical. Nada de importante. Impelido pela minha malvada curiosidade, decidi-me a ler o texto, sabendo, de antemão, que tamanho exercício mental ser-me-ia extremamente fatigante. 

Espanto dos espantos!, ao contrário do que se diz, o teor não passa de modesta redacção, das que as professoras primárias nos exigiam na antiga terceira classe. Não se vislumbra nenhum ajuste de contas, apenas a expressão mal cerzida da birra de um homem amuado porque um outro o desprezou quando o não devia desprezar. A tal "deslealdade institucional" pode ser criticável, com base numa certa alínea da Constituição, a que o autor se apoia, mas é caso de pouca monta, tendo em aviso o que ele faz a outros, com displicente sobranceria. E as coisas não foram bem assim, a crer nas contraversões seguintes.

Sócrates, que tem sido o bombo da festa, com pancadaria de criar bicho nos lombos e na alma, serve de pretexto, neste parolar copiosamente vesgo, para o autor nos fornecer o estofo do homem e o estilo do estadista. Atordoado com a quantidade e o teor das críticas que recebeu, decidiu remeter os inadvertidos para o "sítio" que alimenta na rede. Disse, grave e soturno: ali está o que, na verdade, escrevi. E alertou para eventuais manipulações de conteúdo, praticadas, como doloso objectivo, pela imprensa.

Precipitei-me, arquejante, para o "sítio", na ânsia de descortinar o que os jornais haviam omitido. Nada de novo, nem de diferente. A mesma peripécia atabalhoada: umas tacadas num homem tombado e cheio de nódoas negras. O pouco edificante relambório não possui uma ideia, não defende uma tese, não pleiteia uma doutrina - e, pior do que tudo, não convence ninguém. 

O autor pretendeu, talvez, fazer história e atirar para o limbo um opositor que o ofendera gravemente, além, com perdão da palavra, de amolgar, dolorosamente, um artigo da Constituição. Não é preciso ser muito rigoroso para se verificar o que o prefácio intenta. Mas o autor é tão desajeitado, na forma como no recheio, que o tiro sai pela culatra. Antagonistas e apoiantes, encavacados pelo facto de o prefaciador negligenciar as funções a que devia dar lustre, não param de o desacreditar. O mais tenaz dos críticos, será, acaso, o Marcelo Rebelo de Sousa, que desfez a sustentação institucional feita, em apressada defesa própria, pelo autor. 

Este segundo mandato repete, agravando-os, os dislates do primeiro. E alguém, dos círculos íntimos do senhor, devia ajudá-lo a rematar, com dignidade e piedosa lástima, o tempo que lhe resta para sair de Belém.»

Ah! E a propósito, deixo aqui o vídeo do Manifesto Anti-Cavaco magistralmente dito pelo extraordinário e saudoso diseur Mário Viegas.



terça-feira, 15 de junho de 2010

Faz 40 anos que morreu Almada Negreiros


Ouvi na rádio logo de manhã: faz hoje, dia 15 de Junho, 40 anos que morreu Almada Negreiros, pintor, poeta, escritor, ensaísta, dramaturgo, “poeta d’Orpheu, futurista e tudo!” Pertenceu ao grupo modernista constituído por Amadeu de Sousa Cardoso, Santa Rita Pintor e Fernando Pessoa.

Não vou esquecer nunca a entrevista que lhe fizeram no programa de boa memória Zip-Zip nos finais dos anos 60 na televisão. Aqueles olhos enormes, ainda cheios de vivacidade, sempre prontos a satirizar e a chocar não obstante estar a viver-se no tempo da censura a sério.

O primeiro texto que li deste poeta “futurista e tudo” foi-me dado para traduzir para inglês como exercício preparatório para os exames de aptidão à Faculdade. Difícil de traduzir por se tratar de prosa poética mas de uma beleza tal e de uma sensibilidade que me tocou para sempre. Agora é um texto bastante conhecido, mas aí por 65/66 nem por isso. É este:

"Pede-se a uma criança: Desenha uma flor! Dá-se-lhe papel e lápis. A criança vai sentar-se no outro canto da sala onde não há mais ninguém. Passado algum tempo o papel está cheio de linhas. Umas numa direcção, outras noutras; umas mais carregadas, outras mais leves; umas mais fáceis, outras mais custosas. A criança quis tanta força em certas linhas que o papel quase não resistiu. Outras eram tão delicadas que apenas o peso do lápis já era demais. Depois a criança vem mostrar essas linhas às pessoas: Uma flor! As pessoas não acham parecidas estas linhas com as de uma flor! Contudo a palavra flor andou por dentro da criança, da cabeça para o coração e do coração para a cabeça, à procura das linhas com que se faz uma flor, e a criança pôs no papel algumas dessas linhas, ou todas. Talvez as tivesse posto fora dos seus lugares, mas, são aquelas as linhas com que Deus faz uma flor!"

Depois conheci outros e outros textos e poemas de Almada, mas outro pico de admiração foi quando li “O Manifesto Anti-Dantas”. Um espanto! Se eu soubesse, gostaria de escrever assim, com esta força, com esta agudeza, com este poder satírico! E então dito pelo meu querido e único diseur Mário Viegas.... Bom!

Morra o Dantas! Morra! Pim!