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quarta-feira, 9 de setembro de 2020

O grande fogo na Serra de Sinta

Nunca vou esquecer o dia e a noite de pânico que vivemos na Vila, em Sintra, e lá em casa no dia 6 de setembro de 66. Fez há dias 54 anos  (os mesmos que fez no passado 6 de agosto que conheci o meu marido).

Tínhamos a festa de aniversário de uma amiga muito próxima – e que próximo de nós morava – e lá estávamos a ajudar e a divertir. Eis senão quando o chão da cozinha abate com grande estrondo e, em frações de segundos, tudo cai numa cave deserta: a mobília, a comida, a dona da casa e a minha mãe. Grande susto! Grande pânico! Acabou-se a festa, como se pode tiraram-se as senhoras lá de baixo amassadas e com grandes arranhadelas. A dona da casa em choque. Hospital. Havia Hospital na Vila.

Atribulado regresso (especialmente da minha mãe ferida e fortemente assustada) a nossa casa, ali no sopé da Serra. E, de repente, a sirene dos Bombeiros da Vila (atual Museu das Notícias e ex-Museu do Brinquedo), ali mesmo por baixo de nós, escancara a enorme bocarra em desespero a chamar todos os bombeiros. Grande fogo na Serra. Não dá para esquecer o sufoco do fumo – que se sentiu durante muitos dias a seguir – e a sirene, que toda a noite gritou desesperada. Três enormes apitadelas furiosas de cada vez, toda a noite ali mesmo por baixo de nós.

Nessa noite morreram, cercados e encurralados pelo fogo, 21 jovens soldados do Regimento de Artilharia de Queluz.

Durante mais alguns dias o fogo continuou a abocanhar a bela vegetação de mais de metade da serra. O fumo e o cheiro na Vila eram insuportáveis.

Nesse tempo não havia batalhões de bombeiros, mas apenas voluntários, não havia grandes carros cisterna e muito menos meios aéreos de combate...











Homenagem aos soldados mortos



Homenagem na Serra


        Antigo quartel dos Bombeiros Voluntários da Vila       


terça-feira, 25 de agosto de 2020

Uma data que nunca esqueço...

 25 de Agosto de 1988 - uma data que nunca esqueço. Do grande incêndio do Chiado, a zona de referência da minha infância, adolescência e juventude.

A minha zona das compras com a minha mãe; a Rua do Carmo, a Rua Garrett, as lojas onde nos conheciam: o Eduardo Martins, os Tecidos do Carmo, a Sapataria Hélio, o Ramiro Leão, o Último Figurino, o Aguiar, os Davids - a loja de fazendas escocês para fazermos os kilts, as Livrarias, a saudosa Sá da Costa, a velha Bertrand; as discotecas: a Melodia, a Sassetti, a Valentim de Carvalho.






Anos depois - poucos - as compras com a minha mãe, enquanto o marido ficava a ler o jornal e a entreter as filhas na rua.... 

Mais ou menos assim...



E,depois, num final de Agosto, de fim de férias em São Pedro de Moel, entra-me casa dentro uma outra amiga lisboeta de alma e coração a chorar porque soubera que o seu, o nosso Chiado estava em chamas...

Ligámos a televisão e todo o dia chorámos ela, eu e a minha mãe por aquele pedaço de Lisboa tão nosso, tão carismático, tão vivido.  E não deu mais para esquecer...





Não por isso (mas também) posso afirmar sem sombra de dúvida que esse ano de 1988 foi o pior ano da minha vida: passado pouco mais de um mês, morreu-me a minha (ainda jovem) mãe, meu amparo, minha força e, pouco antes vimos ruir a empresa de família por obstinado capricho de um gerente de banco (não só por isso, mas também...)

Não dá para esquecer...

(As imagens foram retiradas do google; algumas do excelente blog Restos de Colecção)

quarta-feira, 5 de agosto de 2020

Da felicidade

Por vezes penso que verdadeiramente a felicidade não existe. Mesmo quando todos aspiram ao estado de felicidade e quando tudo se escreve sobre os preceitos para o alcançar, a felicidade não existe. (Já a infelicidade - mesmo correndo o risco de que considerem um contrassenso – existe, perdura, derrama-se, pode levar-nos ao desespero.)

Acontecem(-me), por vezes e sem que se esperem, momentos breves de felicidade quando o nosso espírito quase flutua para fora do invólucro que somos nós deixando-nos de tudo esquecidos e entregues apenas à sensação que provocou o momento, a sós com a nossa imanência (se fosse crente diria a sós com Deus).

Como quando nadamos para longe e nos deixamos boiar livremente sobre a água verde, transparente e plana e deixamos que o sol nos envolve numa carícia. Nada de pensamentos – apenas a sensação.

O mesmo perante o inesperado aparecimento do arco-íris ou da compassiva revelação de um simples botão de rosa.

São os verdadeiros momentos de espanto (de que nos fala Raul Brandão) que nos fazem sentir que vale a pena viver.




domingo, 14 de junho de 2020

Há gente que consegue ser muito desagradável!

Das piores coisas que nos podem acontecer – pelo menos a mim! – é, por algum motivo estar a queixar-me de qualquer coisa ouvida ou sentida e haver logo quem venha triunfalmente dizer «Ah, comigo não!!!»

Tem presente quem é professor e por aqui passar aquelas reuniões de conselho de turma em que se está a analisar o comportamento e o aproveitamento dos alunos e alguém, com a maior sinceridade, se queixa do aluno tal que se comporta mal nas suas aulas, ou que não tem interesse pelas matérias ou por qualquer outra razão e vem outro professor, todo prazenteiro, armado em bom, elogiar o mesmo aluno que até se porta muito bem nas suas aulas e que até é muito interessado e muito querido... Até pode ser verdade, mas constatá-lo de imediato e em determinado tom é muito desagradável para quem apresenta o problema.

Na vida do dia-a-dia frequentemente acontece o mesmo. Por vezes, até em tom de desabafo, uma pessoa tem a fraqueza de se lamentar seja lá pelo que for e logo o interlocutor se gaba exatamente do contrário ou – o que também sucede muito – arranca com uma lição moralizante para cima de quem já está em baixo. Muito mau! Para se ouvir uma reprimenda ou arrostar com a grande felicidade do outro, quando se vai à espera de algum consolo, mais vale ficar calado e sofrer sozinho.

Há gente que consegue ser muito desagradável!

Razão tinha o nosso Fernando Pessoa quando dizia: «Fazer o menor número de confidências possível. É melhor não fazeres nenhuma, mas se fizeres algumas, fá-las falsas ou imprecisas.»





sexta-feira, 15 de maio de 2020

Sabemos nós lá para o que estamos guardados!

A cena é antiga: quando tenho (ou tínhamos, que agora já não dá para usar o plural...) de ir fazer análises, vou sempre ao mesmo laboratório que fica aqui a cerca de um quilómetro de casa e, logo de seguida, porque detesto estar em jejum, já que a primeira coisa que faço todas as manhãs é ir tomar o pequeno almoço, vou beber o meu cafèzinho com leite e o meu pãozinho com manteiga, bem refastelada ali na pastelaria próxima, onde me divirto a observar os engraçados comportamentos dos miúdos e das miúdas da escola secundária ali vizinha.

Ora hoje lá tive de ir fazer análises. Em jejum, e de máscara, claro!, espera o autocarro, apanha o autocarro, sai do autocarro, põe-te na bicha, bem distanciada, para seres atendida sem contágios e pronto. Até nem demorou muito!

E depois? Cheia de fome, acho que até me tremiam as pernas... Toca de ir comer ali à pastelaria! Só que...nem miúdos da escola secundária para espiar, nem cadeiras e mesas onde me refastelar - apenas uma bicha - outra, depois da do laboratório de análises - bem distanciada de pessoas para irem comprar pão e beber café.

Pensamento que, de momento, me assaltou: será que só servem café?! Ainda desmaio para aqui com fraqueza (cena que acontecia amiúde nos meus tampos de adolescente) ...

Ponho-me na bicha e vou pesando: o que é que eu peço? Bebo um café e pronto?...

Next! - Não, a senhora disse: «pode entrar outro!» E eu entrei e, a medo, perguntei se também faziam meias-de-leite (que são deliciosas! Quentinhas e fortes, como eu gosto!) Para meu consolo, a senhora, com grande espanto, disse que sim!

De modo que, eu vi-me de máscara, carteira ao ombro, depois de pagar e de desinfetar as mãos por causa do dinheiro.... (credo! que nojo!) - vi-me sair da pastelaria, com um copo grande de papel a ferver com a meia-de-leite lá dentro e um pão-de-deus enfiado num cartucho e  vi-me (oh, meu Deus!) acercar-me de uma caixa metálica daquelas de eletricidade ou sei lá de quê, que me serviu de apoio, a tomar o belo do meu pequeno almoço...

Sabemos nós lá para o que estamos guardados!!





terça-feira, 14 de abril de 2020

Página do Diário de uma Quarentena


O despertador toca como que por hábito porque agora não preciso de me despachar para nada. Mas eu deixo-me ficar - «o que é que vou fazer hoje?» penso ainda pouco desperta. E depois levanto-me quando as minhas gatas começam a saltar para cima da cama e para cima de mim. Uma delas senta-se confortavelmente sobre as minhas costas ou sobre a minha barriga e faz uns miadinhos fofos até me pôr da cama para fora.

Depois a rotina: casa de banho, ir para baixo, desligar o alarme, subir as persianas, abrir a porta do quintal para as gatas saírem – e entrar o amarelo, o comensal – tratar do pequeno almoço ouvindo as notícias «sempre a mesma coisa, que raiva!» Das duas, uma: ou barafusto com a televisão, ou converso com as gatas sobre o que gostam ou não gostam de comer.

Banho e tal… Escolher a roupa porque, tal como quando ia para a escola ou para a Associação Sénior, visto diariamente roupa diferente e «ton sur ton» para me sentir bem.

As manhãs são sombrias porque, se sair, é apenas até ali à pastelaria buscar pão e não é sempre. (Afugento, como posso, as lembranças de há um ano para trás de quando saíamos os dois no carro para irmos ao café e comprar o jornal e dar uma volta – agora não há mesmo volta a dar…)

Há a internet … ver as piadas da Cristina e do Luís Lobo e fazer as minhas próprias para animar as minhas facefriends…

«Ena pá!!! Já é uma hora! O que que vou almoçar?» Se houver alguma coisa feita, (umas vezes por outras, dá-me para fazer um guisado ou um assado e sobre sempre para o dia seguinte, o que é muito bom!) é só aquecer; mas se não há nada feito, grelha-se um bife ou uma costeleta e serve-se com uma laranja às rodelas e uma verdura cozida, ou assim…

E depois, vem a tarde! Longa, silenciosa, displicente… Uma voltinha pelo quintal, se não chove, uns telefonemas de circunstância e de cortesia … E agora? «Vou ler ou vou trabalhar para o computador – tenho tantas coisas para escrever!!!» O pior é que, se me ponho a ler, dá-me o sono e fico com dor de cabeça… Então talvez ir para o computador. Mas antes de me pôr a escrever – que implica consultas e leituras – vou (re)ver o que se passa no facebook… (Admirável e abençoado mundo novo!!!) Entretenho-me, demoro-me e, entretanto, há que ir lanchar (Comer é quase um vício… Hummmm, mas sabe bem… Mas depois do lanche e até à noite ainda tenho muito tempo para trabalhar!)

Se escrevo meia página ou se termino uma tarefa das que fazem parte da lista de coisas para fazer, fico contente comigo própria. Mas também são muitas as vezes que, aí pelas cinco da tarde, já me apetecia acabar o dia e oralizo, por vezes, vocifero: «Que dia tão grande!...»

O jantar é frugal e rápido, mas ainda dá para responder (quase sempre torto…) aos «noticiadeiros» que, com mais ou menos entoação, com mais ou menos piscar de olho e posição corporal de ataque, repetem as entrevistas canhestras e cinzentas feitas pelos estagiários e tecem comentários quase sempre de demérito ao que os governantes têm feito ou dito.

Por fim, vem a parte menos angustiante do dia: o momento de sentar frente à televisão, com a mantinha elétrica sobre as pernas e as gatas enroscadas, uma de cada lado, e partir para as séries da 2 ou da netflix… (Admirável mundo novo!)

Mesmo no fim de tudo, cama ! E ler, ler, ler até que o livro me caia em cima da cara…




quinta-feira, 9 de abril de 2020

Carta de Shaan Sahota

Faz já quatro semanas que não saio de casa senão para ir, muito espaçadamente, comprar pão e fazer algumas compras necessárias. 

Não me lembro de alguma vez ter estado tanto tempo fechada em casa e sem ocupação obrigatória.

Nos primeiros dias de solitário confinamento, pensei que não ia aguentar, que iria voltar a ter ataques de pânico e sei lá o que mais… Só que, face a tantos milhares de pessoas que estão a sofrer em termos de saúde, de falta de dinheiro e de aceitáveis condições de vida, não tenho, não temos de que nos queixar e que fazê-lo é mesmo uma arrogância enorme e uma enorme falta de compaixão por quem sofre.

A propósito, passo a transcrever a carta de Shaan Sahota, médico interno a trabalhar em Londres, publicada hoje no jornal The Guardian, (trad. Ana Brett) testemunho em 1ª pessoa do horror que muitos estão a passar que possa servir-nos de exemplo, de consolo pela vida que, apesar de tudo, conseguimos manter.

Que importa estarmos sozinhos e confinados? Que importa não nos juntarmos na Páscoa? Que importa não irmos de férias? Que importa se os miúdos não têm mais aulas ou se lhes dão passagem administrativa?  Estamos de saúde e, de certa forma, sossegados nas nossas vidas...

(Apesar de ser longa, vale a pena lerem!)

«Como médico de cuidados intensivos, consigo ver a crise a desenrolar-se, mas apenas uma pessoa de cada vez. Aqui segue o que vejo. 


A “zona Covid” improvisada do meu hospital é um mundo irreal onde os doentes estão deitados em silêncio e a equipa subdimensionada completa tarefas hercúleas.

Durante o último mês, a primeira onda de admissões relacionadas com a Covid-19 chegou a Londres e ao hospital onde trabalho como médico interno. Há vinte e um dias fui transferido da Cirurgia para os Cuidados Intensivos e treinado para tratar os doentes na nossa Unidade de Cuidados Intensivos em expansão.

Falamos a toda a hora acerca do coronavírus, mas é habitualmente em termos da sua imagem global. Tenho dificuldade em compreender essa imagem a partir da linha da frente. Numa crise desta escala, quero contar-vos a história que tenho visto - a história de uma pandemia que se desenrola uma pessoa de cada vez.

A Unidade de Cuidados Intensivos expandida é um mundo surreal. Coloco camadas de EPI sufocantes para entrar nas “zonas Covid” - tendas de plástico com entradas de fecho-éclair dentro das áreas hospitalares convertidas. Entro numa enfermaria cheia de doentes inconscientes. Não há conversas, apenas monitores a apitar sob o assobio rítmico do ar pressurizado. Passo cada turno de 12 horas a cuidar de dois ou três doentes. É um trabalho humilde, muitas vezes manual. Ajusto os seus agentes anestésicos e verifico o seu débito urinário a cada hora para equilibrar os seus fluídos. Coloco almofadas por baixo de pontos de pressão para que não sofram danos duradouros durante a sua paralisia. Aspiro secreções das suas vias aéreas.

Estou a trabalhar o máximo que consigo, adiando as pausas para casa-de-banho, por um doente que nunca vi abrir os olhos, muito menos respirar por si próprio. É um ambiente difícil para trabalhar.
Vasculho os diários médicos para encontrar os meus doentes antes de terem ficado paralisados, sedados e colocados num ventilador, para vislumbrar um pouco da pessoa que são. Tento conhecê-los através das jóias que costumavam usar, agora guardadas numa bandeja ao seu lado. Idealizo-os a partir dos detalhes dos seus diários clínicos passados.

História social: vive com a esposa e três crianças. Caminhadas regulares, gosta de correr. Nunca fumou.

Observações: frequência respiratória 42 – 48 – 55 – 61 – 61 …

Estes números crescentes, escritos num gráfico do diário clínico, significam que o doente estava com dificuldade em respirar. É uma história que termina com eles inconscientes e paralisados, com máquinas a substituir os seus órgãos em falência, sob os meus cuidados.

Estou a considerar como um desafio lidar com doentes que estão tão mal, porque gostaria que isto não lhes tivesse acontecido. Quando se está a prestar cuidados individuais, é difícil pensar que existem centenas de pessoas nesta mesma posição. Falamos de curvas e picos, mas nada tem a ver com a experiência vivida. Políticos e jornalistas falam agora com a perspectiva dos deuses. Têm uma visão geral da situação que eu simplesmente não consigo ter. Como médico, sinto-me como uma formiga ao lado de um elefante: mal consigo entender o que vejo e é difícil atirar o meu pequeno peso contra ele.

E onde estou, o recurso mais limitado não são os ventiladores, é a força de trabalho básica. Até 50% da nossa equipa habitual não está a trabalhar por doença, auto-isolamento ou medo. Olho em volta e vejo os esforços hercúleos dos meus colegas e isso comove-me.

É como se alguém tivesse dado criptonite aos meus super-heróis, mas eles ainda estão a tentar levantar o carro, porque o que mais podem fazer? Vejo o especialista em doenças infevciosas que lidera a nossa equipa, que silenciosamente retirou o seu turbante e, pela primeira vez na sua vida, cortou a sua barba que mantinha pela sua fé, removidos em nome do controlo de infecção. A sua estatura pode ser inferior, mas não está de forma alguma diminuído. Vejo uma médica interna encharcada em urina laranja brilhante pela rifampicina. Tinha tentado trocar pela primeira vez um cateter urinário, porque não havia mais ninguém para o fazer. Oito anos de educação não a tinham ensinado que é fácil abrir a bolsa, mas muito mais difícil fechá-la. Todos no hospital estão a fazer todo o possível para melhorar estes doentes. Vejo cirurgiões a trabalhar como internos nos Cuidados Intensivos, enquanto dentistas e fisioterapeutas ajudam a rolar os doentes, mudando-os de posição para não sofrerem lesões por pressão. Os meus doentes desconhecem tudo o que estamos a fazer por eles, e as suas famílias não os podem visitar – logo ninguém o vê, mas não estamos a refrear nada.

O nosso tratamento de resgate para os doentes criticamente mais graves é a pronação: colocar um doente entubado de barriga para baixo. Aumentar os cuidados nos casos mais graves é um acto tão humilde e poderoso quanto o simplesmente colocá-los de barriga para baixo.

Cuidar de um doente Covid+ gravemente doente não é o que se pode pensar. Estou tão próximo deles – a colocar colírio nas pálpebras à noite, porque seus olhos que não piscam não sequem. Talvez nunca os vá conhecer, mas vigio os traços de sua respiração à procura de sinais de que precisam da minha ajuda. Troco os lençóis por baixo deles.

Todos nós estamos longe das nossas casas. Somos tão poucos e a tentar tanto e sempre aqui. O meu país passou da fase em que aguardava pela imunidade de grupo - e aceitar a mortalidade que isso poderia causar - a aplicar tudo o que pode para minimizar a perda de vida, incluindo-me a mim. E é esse um pouco do sentido que posso extrair desta situação. Não cheguei a conhecer os meus doentes, mas o que lhes quero dizer, com toda a força dos meus cuidados, é: isto é tudo para vocês, tudo o que temos. A vossa vida importa.»




 Fiquem bem Fiquem em casa!

quinta-feira, 19 de março de 2020

Retorno


Abri este blog no dia 2 de abril de 2010, exatamente dois dias depois de receber a confirmação da minha entrada na reforma. Habituada a uma atividade intensa, mal me via em casa dias e dias sem ocupação.

Vai fazer dez anos. E seria muito injusto da minha parte que não viesse aqui celebrar esses dez anos de publicações quase diárias.

Digo-vos que foi uma experiência maravilhosa: um encantador grupo de amigos bloggers, encontros memoráveis com esses amigos em várias partes do país, a aprendizagem da fotografia, os passeios variados por esse país fora à procura de especificidades e características de locais, de recantos, de paisagem.

Muitas coisas aconteceram nestes dez anos, boas e más, coisas da vida que os meus amigos foram perscrutando nas entrelinhas dos textos que por aqui fui deixando.

Agora que as nossas vidas – as de todos os portugueses e europeus e outros – mudaram radicalmente perante a ameaça de um inimigo invisível que nem se sabe por onde pode atacar, volto a sentir-me como há dez anos: fechada em casa, sem poder exercer as muitas atividades em que me fui envolvendo, sem ocupação. Só que agora mais só.

E, tal filho pródigo que, cabisbaixo, retorna a casa do pai que abandonou, aqui estou eu de novo, se calhar de forma egoísta, à procura de companhia e de atividade. Agora, porém, sem textos intimistas – porque esses correm ainda o risco de serem tristes e dolorosos – sem reportagens de passeios por aí porque esses, infelizmente,  terminaram há muito.

Há muita literatura e muita crítica literária para (re)visitar e, naturalmente, brincadeiras e anedotas – porque rir é preciso e eu não imagino, nem nunca imaginei, a vida sem sorrisos e gargalhadas…

Bem hajam, se me estiverem a ler.

....

Entretanto, aqui fica um poema de força do homem, do poeta de força que foi Miguel Torga, que me parece muito adequado ao momento que estamos a viver.





quinta-feira, 8 de agosto de 2019

Põe-te em guarda

Em alguns momentos de melancolia e solidão - que me assolam tantas vezes ao dia - há , muitas vezes, um qualquer mecanismo cá dentro que dispara e me segura pelas pontas.

Hoje foi um "Põe-te em guarda!" que me agarrou de supetão. 

Lembram-se da Balada da Rita (da autoria de Sérgio Godinho) do espantoso filme Kilas, o mau da fita (1985)? 





sexta-feira, 12 de julho de 2019

Ai as casas!


Fez por estes dias quarenta e um anos que mudámos para esta casa. Por essa altura já me tinha resignado a ficar cá por Leiria para a vida e viemos para uma casa nossa. Nós dois, a filha mais velha – com três aninhos – e a minha avó espanhola, que me criou e que comigo viveu até ao fim da sua vida.

No ano seguinte, em Abril, chegou a filha mais nova. Depois veio a minha mãe e partiu a minha avó.

De tudo se passou nesta casa: alegrias – muitas; tristezas – algumas (e essas cavam sempre mais fundo); perdas – mais que suficientes… Grandes mudanças na vida – mas a casa sempre tudo amparou.

A minha mãe também partiu cedo, poucos anos depois da minha avó.

Mais tarde, as filhas trouxeram namorados – que rejuvenescimento!! Grandes festas de primos e de amigos, bons Natais de família em casa, férias juntos – inesquecíveis!

Depois, as filhas saíram para estudar e depois disso para trabalhar – nunca mais voltaram a viver na casa. Foram viver as suas vidas nas suas casas. Nós dois sozinhos. Na casa.

E, aos poucos, foram aparecendo os netos que, pontualmente e sempre que preciso, animaram a vida e a casa.

Agora sobro eu. E sobra casa.





Dá-me para recordar aquele lindo poema de Ruy Belo que diz assim:

Oh as casas as casas as casas

«as casas nascem vivem e morrem
Enquanto vivas distinguem-se umas das outras
distinguem-se designadamente pelo cheiro
variam até de sala pra sala
As casas que eu fazia em pequeno
onde estarei eu hoje em pequeno?
Onde estarei aliás eu dos versos daqui a pouco?
Terei eu casa onde reter tudo isto
ou serei sempre somente esta instabilidade?
As casas essas parecem estáveis
mas são tão frágeis as pobres casas
Oh as casas as casas as casas
mudas testemunhas da vida
elas morrem não só ao ser demolidas
Elas morrem com a morte das pessoas
As casas de fora olham-nos pelas janelas
Não sabem nada de casas os construtores
os senhorios os procuradores.(…)»


sexta-feira, 15 de março de 2019

Volta Freud...


É assim desde as minhas mais recônditas memórias: este constante medo de que me ralhem…

Poderia Freud explicar isto? Ou Jung, ou Lacan ou sei lá quem...

Raios partam a mente humana!





sábado, 2 de março de 2019

Deprime-me o Carnaval


Deprime-me a época do Carnaval. E não é por não gostar desta quadra como afirma grande parte das pessoas minhas conhecidas. Eu sempre me considerei uma pessoa divertida e que gosta de se divertir, por isso gosto, ou melhor, gostava de brincar ao Carnaval.

Lembro-me, ainda em Algés, que a minha avó me levava de elétrico ao cinema do Restelo em Belém, às matinées para crianças onde muitas delas estavam mascaradas e onde se atiravam serpentinas e papelinhos de cores bem vivas e os já muito esquecidos saquinhos de serradura que tanto faziam doer em quem eles acertavam… E, claro, as irritantes bisnagas de água com nos molhavam a cara e os cabelos. E eu, que era uma menina educada sozinha com os meus avós, sossegada e tímida, achava tudo aquilo tão divertido, tão fora do meu mundo cinzento…

Depois, Sintra, já na adolescência, no tempo do colégio felizmente misto, vieram as festas em casa desta e daquela, os primeiros bailes dos meus Diamantes, o primeiro baile na garagem não sei de quem lá para baixo para a Rua da Pendoa ou para a Rua da Biquinha, os bailes da SUS, aquela loucura anos 60 – se bem que uma loucura algo permitida, algo dominada – as festas em nossa casa, as mascaradas trapalhonas, os primeiros beijos…. Viviam-se as semanas a estudar muito para restar todo o tempo livre para as festas nos fins de semana.

A Faculdade trouxe outra etapa, outros amigos, outro namorado. Adeus Diamantes! As festas de receção aos caloiros no Espelho de Água, os bailes de carnaval nas Belas-Artes, a louca música dos carnavais brasileiros e os próprios dos jovens brasileiros que por cá andavam e estudavam. Tanto divertimento! Tanta emoção!

E já adultos e casados, ainda houve festas de Carnaval e de Passagem de Ano, com muita música e muita dança e muito divertimento. Mas nunca nada de desfiles ou de corsos com aqueles deprimentes carros alegóricos cheios de meninas em bikini a fingir que sambam, mas a tiritar com frio. Esse nunca foi o meu Carnaval.

Porém a vida, na sua inexorável trajetória, começou a descrever o arco de volta inteira (ou de volta abatida, sei lá!) e as festas e as folias deixaram de surgir e de fazer sentido. Ficou a memória e uma certa nostalgia, pois que mais poderia restar.

E são essa memória e essa nostalgia – junto com os primeiros estremeções que a primavera nesta altura do ano dá no ar e este novelo labirinticamente emaranhado em se me move a mente – que me deprimem.

Hélas! 



domingo, 24 de fevereiro de 2019

Do anedotário pessoal...


O facto é que, como estou já na dita idade do condor: com dor aqui, com dor ali, com dor acolá, dei comigo a dizer que estou um emplastro exatamente porque não me mexo

E lembrei-me …

A minha avó – anos 50 – usava muito os emplastros para as dores nas costas. E eu que vivi com ela até aos meus dez anos, acompanhava-a para todo o lado e também à farmácia Nifo, lá em Algés, onde ela pedia «um emplastro poroso». Como era espanhola, pronunciava muito mal o português pelo que, para mim, durante alguns tempos, pensei que os ditos calmantes das dores se chamavam emplastro por osso – expressão que não me fazia sentido nenhum…

Melhor ainda, foi aqui a menina já no seu 2º ou 3º ano do liceu, quando se jogava muito o jogo das palavras (uma tabela de temas que tínhamos de preencher com palavras começadas por várias letras do alfabeto) andou no dicionário à procura de como se escrevia a palavra «autoclismo». Pois procurei no O (de otoclismo ou de outoclismo) no H (de hotoclismo) e só no fim de muita “investigação” é que descobri a ortografia certa… Mas espantem-se mais! Neste busca, estava acompanhada por uma amiga que já frequentava o 7º ano do liceu (atual 11º)…

E já agora, outra das minhas bacoradas de adolssssente inconssssiente: no meu 3º ano do liceu (atual 7º) a professora de Português perguntou-me que nome se dava (e dá) a uma estrofe com dois versos. E eu, que à época andava mais interessada na bela música emergente dos inícios de 60 do que no número de versos das estrofes, respondi ato contínuo: - Duo ou dueto! Nem queiram saber o que ela se fartou de ralhar!!!





segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

A Primeira Lua de Inverno





I
Repousa em redor a pequena vila.
Às luzes que cruzam a rua
Juntam-se lanternas de um fiacre.
Poluídos para alguns os frutos do dia,
Deixam o mercado agora ermo,
Sem uvas nem girassóis.
Ouve-se música através dos muros,
No jardim alguém tenta calar o apelo
De um amor recusado, ainda em chaga,
Mas na cascata a água precipita-se,
Fresca, num jorro rápido.



II
Acabou o Sol & o sino da tarde leva
Os deuses, um a um, a um passado provisórios,
Donde irão emergir para o grande cisma
Do Inverno, o primeiro sopro do qual
Já se ouve subir os píncaros da serra.
Para a deusa branca chegou o fim do seu enigma,
A sua ruína coroa agora as ruínas do castelo:
Aqui morrem os deuses & as borboletas.
Rejeitados olhando apenas,
Recíproco, um brilho no vazio.

M.S. Lourenço (1936 – 2009)



(E pensar eu que vivi ali tão perto do poeta M.S.Lourenço, decerto me cruzei com ele algumas vezes  ali nas escadinhas ou no Largo do Vitor onde ele vivia e... nunca o conheci...)




terça-feira, 11 de dezembro de 2018

Incapacidades...


Tenho a nítida noção das minhas limitações (que são muitas) e das minhas muitas incapacidades. O que não quer dizer que lide bem com elas…

Enfureço-me quando dou de caras com as dificuldades em levar a cabo determinadas tarefas. Uma delas é acender a lareira. Normalmente vejo-me grega para a pôr com uma labareda de jeito com recuperador e tudo. E eu que até sou capaz de fazer um belo de um cozido à portuguesa, ou uma boa feijoada, ou até umas jeitosas de umas broas castelar; eu que até sou capaz de comentar um texto de Lobo Antunes ou mesmo uma cantiga de amor à maneira provençal; eu que até sou mulher para levar uma turma de 9º ano a Londres, ou dirigir uma escolona daquelas, não sou capaz de acender a lareira e pô-la com uma labareda de jeito?

Enfureço-me, a sério que só me apetece atirar com as achas e as acendalhas pelo ar… e, por muitos raminhos secos que lhe junte, por muitas tabuinhas finas que lhe acrescente, por muitas acendalhas com que a incendeie, a safada da lenha não pega! Uma hora nisto é de mais!

E é aí que eu penso como é que os incêndios nas florestas podem começar com um cisquinho de nada? (Quase) não dá para acreditar...




quarta-feira, 28 de novembro de 2018

Um pedido de desculpas do tamanho do mundo


Sabemos todos nós que por aqui escrevemos que o fazemos para sermos lidos e disso termos algum retorno, que é, de facto, onde tenho vindo a falhar. Cada vez mais. Tenho falhado na visita e mais ainda nos comentários aos textos dos meus amigos bloggers.

Como publiquei há dias na minha página do facebook, «na escola ensinam-nos o passado simples, mas não o futuro complicado»...



 ... e, o facto é que, neste momento, o presente e o futuro cá em casa estão muito complicados. E, por isso especialmente, junto com todas as atividades em que (felizmente e ainda bem para distração do espírito) me envolvi, não encontro ânimo nem tempo para vos visitar e ler e comentar como muito bem merecem. Por isso vos peço muita desculpa.

Mas não me levem a mal se por aqui continuar a aparecer com um ou outro texto, uma ou outra música ou poema, ou até com uma ou outra brincadeira – há que manter as rotinas, fazer com que não se esqueçam de mim e aliviar o sufoco d’alma…





sábado, 10 de novembro de 2018

Mais um lugar comum...


A internet está cheia de lugares comuns. Não desses em que estais pensando “viver um dia de cada vez”, “dar a volta por cima”, “é complicado”, “basicamente”, “então é assim” – e tantos, tantos outros.

O lugar comum a que hoje me refiro é de outro teor. Nos blogs e no facebook, pululam mensagens de real e profunda tristeza que dizem: «Pai, partiste há [tantos] anos…» ou «Faria hoje [tantos] a minha querida mãe/o meu querido pai partiu…»   

Temos, de facto, uma enorme necessidade de expurgar a saudade, o vazio que nos ficou na alma (e no espaço físico que é bem mais visível) e por isso expomo-los aos olhos de todos, talvez com a esperança de que as palavras carinhosas de retorno nos aliviem o coração (ou nos envaideçam o ego, sei lá!)

Pois hoje é dia de ser eu a vir aqui plantar mais um desses lugares comuns: a minha mãe foi, de certo, a pessoa que mais marcou a minha vida e, se bem que tenha partido inesperadamente há trinta anos, nem por um só dia deixo de me lembrar dela. E tantas vezes, ao fim da tarde, sinto aquela vontade de lhe telefonar como fazia todos os dias quando a deixei sozinha em Sintra para finalmente vir viver a minha vida de mulher casada.

Pois é: faria hoje anos – muitos, mas não posso esquecer que tão cedo partiu…

Parabéns, mamã. Tenho muitas saudades tuas.




sábado, 13 de outubro de 2018

Ai as pessoas que dizem ser frontais!


(daqui)

Talvez seja por ter sido educada para a contenção, mas não lido bem com quem apregoa aos quatro ventos que é frontal.

A frontalidade, assim como a assertividade, são conceitos atuais que têm por princípio a franqueza e a sinceridade, mas numa base de boas maneiras. E é este último traço é que falha muitas, mas muitas vezes.

Quando vejo alguém muito ufano a anunciar que é muito frontal, quase adivinho borrasca…

Quem tem uma qualidade, um talento, uma aptidão, não tem necessidade de andar a apregoá-los por aí, sob pena de mostrar que de facto não os tem, mas gostaria…

Uma pessoa que se dirige a outra ou a outras anunciando à partida alto e bom som «eu cá sou muito frontal» deixa, de imediato, prever que é daquelas que usa a chamada frontalidade para mostrar a sua grosseria. E logo, logo berra, gesticula e barafusta. Acontece muito com quem tem um enorme autoconceito e não sabe o que são bons modos.

Tenho pena de não conseguir reagir de igual forma quando sou alvo de um desses comportamentos. Sorrio e respondo o mais serenamente que consigo o que leva a pessoa “frontal” a pensar que ganhou o diálogo porque sou mesmo “totó”. Depois fico danada comigo própria e passam dias até que me passe a birra.

Aconteceu-me ontem à tarde e ainda não me passou…