Mostrar mensagens com a etiqueta Literatura. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Literatura. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, março 31, 2016

Crónicas: Os Monstros de Penny Dreadful



Com algumas mudanças na rubrica entrámos numa segunda temporada do "Crónicas". Para começar e porque "Penny Dreadful" está quase aí a regressar, aproveitei para recordar os seus monstros, os da fantasia e os do papel. Cliquem aqui para ver.

quarta-feira, julho 29, 2015

Teorema

" (...) E eu também irei crescendo na minha morte, irei crescendo dentro do rei que comeu o meu coração. D. Inês tomou conta das nossas almas. Ela abandona a carne e torna-se uma fonte, uma labareda. Entra devagar nos poemas e nas cidades. Nada é tão incorruptível como a sua morte. No crisol do Inferno manter-nos-emos todos três perenemente límpidos. O povo só terá de receber-nos como alimento, de geração para geração. E que ninguém tenha piedade. E Deus não é chamado para aqui."

em Teorema de Heberto Helder.

segunda-feira, maio 18, 2015

Os Livros que Devoraram o Meu Pai


O primeiro contacto com Afonso Cruz, veio através do livro infantil "Os Pássaros", que contém uma série de versos acompanhados de ilustrações feitas pelo próprio (o senhor é realmente multifacetado).

Mesmo sem este livro, o nome de Afonso Cruz já cresceu tanto que conhecer as suas palavras era obrigatório. "Os Livros que Devoraram o Meu Pai" foi amor à primeira leitura, Afonso Cruz tem uma prosa cuidada e que mostra uma forte identidade. É a sua voz de autor e a de mais nenhum.

A ideia é divertidíssima e faz-nos viajar por várias histórias, das quais sou grande fã. Através desse manto de diversão Cruz vai contando uma história séria e até sombria. Com muita brincadeira nos engana, ou melhor, nos apanha despercebidos. Fantástico.

segunda-feira, março 02, 2015

O Estrangeiro


Camus parece ter agrupado o seu trabalho em três grandes ciclos temáticos, o do absurdo, o da medida e o da rebelião. Quando li "A Peste" mencionei que apesar deste pertencer ao da rebelião, lhe reconhecia traços do absurdismo, corrente filosófica que comecei a conhecer na altura e que me interessava em particular por me identificar em vários aspectos com a mesma.

Agora, após ler "O Estrangeiro", posso dizer que este sim é o verdadeiro tratado ao absurdismo em forma de livro ficcional. Toda a construção da história evoca o pensamento absurdista, inclusivé a forma como está escrito em termos narrativos. Camus afasta-se da poesia literária (mas não sempre) e torna-se - a partir do seu protagonista - num observador prático, recorrendo a frases curtas e simples para descrever a acção. Toda esta atenção na construção deste "Estrangeiro" tornam o livro de Camus, numa peça literária de enorme valor.

Muito sucintamente, esta é a história de Meursault, um argeliano, que por não seguir as normas da sua sociedade, se torna um estrangeiro na sua própria cidade (no mundo). Um estrangeiro, precisamente, por ser diferente, acaba por não pertencer e, por isso mesmo, o seu comportamento é mais depressa julgado e condenado. Como podem ver, o título nada tem a ver com nacionalidades ou etnias, aliás, todos nós, em determinados momentos da noosa vida já fomos ou somos estrangeiros.

A edição da "Livros do Brasil" traz uma soberba introdução de Sartre, a qual ainda enriquece mais a leitura. Tudo o que poderia escrever aqui sobre "O Estrangeiro" Sartre disse-o melhor, por isso a sua leitura é muito recomendada. Caso tenham uma edição que não a contenha, vale a pena procurá-la.

Mais uma leitura obrigatório deste grande autor francês.

sábado, janeiro 03, 2015

Sugestões de Leitura - 2014


Neste primeiro ano do seu funcionamento o "Deus Me Livro" acaba o ano com uma lista de várias sugestões de leitura, por todos os colaboradores. Da minha parte, como é costume, ficou a BD.

Como é costume, é de sublinhar que não li tudo, por isso mais que uma lista dos melhores é mesmo uma lista de sugestões, bastante variada como eu bem gosto.  Livros que já haviam sido editados como "MAUS" e "A Pior Banda do Mundo" foram preteridos por novidades em Portugal (salvou-se a aniversariante MAfalda). Também é de salientar que além dos que me devo ter esquecido, houve livros que por serem editados no final do ano ficaram de fora. Só agora li "Zombies" de Marco Mendes e estou neste momento a meio do "Livro dos Dias" do Diniz Conefrey.

Mas é tempo de menos palavras e de mais sugestões. Aqui fica a lista do site.

Além da BD, apenas tenho uma sugestão a acresentar que são os "Poemas Completos" de Herberto Hélder editados pela Porto Editora. O autor português mais eremita está de regresso com aquele que considera o seu corpus definitivo na poesia. Tendo em conta que Hélder é conhecido pelas suas tiragens limitadas, esta edição é não só um dos maiores acontecimentos literários do ano, como do século também (das mais caras também).

domingo, outubro 12, 2014

Destruir - Diz ela


 - Interessam-se muito por ela, decididamente - diz Bernanrd Alione.
- Sim.
- Pode saber-se porquê? - a voz retomou força.
- Por razões literárias - diz Stein. Ri.
Stein ri. Alissa vê-o rir com deslumbramento.
- A minha melhor é uma personagem de romance? - Diz Bernand Alione.
Faz troça. Mas a sua voz continua inexpressiva apesar do esforço.
- Admirável - responde Max Thor.

terça-feira, setembro 23, 2014

Alice no país das maravilhas



Would you tell me, please, which way I ought to go from here?
That depends a good deal on where you want to get to, said the Cat. 
I don't much care where – said Alice. 
Then it doesn't matter which way you go, said the Cat. 
– so long as I get somewhere, Alice added as an explanation. 
Oh, you're sure to do that, said the Cat, if you only walk long enough.

Há quem diga que é um livro para crianças e há quem diga que é só aconselhado a adultos. Pois bem, e porque não, um livro para todos?

A magia do país das maravilhas é enorme e cabemos todos nela. Porque Lewis Carrol era um escritor imensamente talentoso, conseguiu criar o local perfeito para nos perdermos, cheio de mensagens, de símbolos, de magia.

Sempre um clássico (as ilustrações originais são de John Tenniel - ver imagem acima).

sexta-feira, setembro 05, 2014

O Mandarim



E todavia, ao expirar, consola-me prodigiosamente esta ideia: que do norte ao sul e do oeste a leste, desde a Grande Muralha da Tartária até ás ondas do Mar Amarelo, em todo o vasto Império da China, nenhum Mandarim ficaria vivo, se tu, tão facilmente como eu, o pudesses suprimir e herdar-lhe os milhões, ó leitor, criatura improvisada por Deus, obra má de má argila, meu semelhante e meu irmão!

Ia pegar no "Primo Basílio", mas um golpe do destino, colocou-me "O Mandarim" no colo primeiro (um golpe do destino aqui equivale a: um é meu e o outro é emprestado, logo teve primazia).

"O Mandarim" trata-se de uma história, que a partir de uma acção fantasista nos envolve numa enorme lição de vida. Tudo começa quando Teodoro, homem de classe média, se vê confrontado com a possibilidade de se tornar milionário com o mero tocar de uma campaínha. Qual o problema? Ao tocar na campaínha, um Mandarim morre. É uma ideia que tem sido explorada em outros meios, tenho quase a certeza que existe um episódio da "Twilight Zone" sobre isto e, também, um recente filme do realizador de "Donnie Darko" (um que não vi).

A ideia é muito simples e pretende mostrar-nos até que ponto Teodoro consegue realmente ser feliz ao ter recebido o dinheiro nestas condições. Aqueles que sofrem desse mal chamado consciência, provavelmente têm esta noção mais vincada, sabem que determinadas acções nunca terão o mesmo sabor se vierem contaminadas com venenos deste género. Porque somos mais felizes quando temos o coração livre. De qualquer das formas acabo por tender para o parágrafo final desta obra, achando, com pena, que a maioria iria mesmo tocar na campaínha, mas quem sou eu para atirar pedras enquanto não confrontado com similar situação.

É uma histórias bastante curta, sempre centrada numa única personagem, Teodoro. O homem cuja tentação do Diabo irá dar mote as acções desta histórias que decorrerão tanto em Portugal como na China, dois países que Eça de Queiroz descreve com detalhe e emoção.

No final fica sempre a lição, uma que todos já devíamos saber. Caminhem nesta vida orgulhosos, de coração aberto e NUNCA toquem nas campaínhas (a não ser que seja para entrar em algum lado).

terça-feira, julho 22, 2014

Lolita



She was Lo, plain Lo, in the morning, standing four feet ten in one sock. She was Lola in slacks. She was Dolly at school. She was Dolores on the dotted line. But in my arms she was always Lolita.


Tudo que escrevo por aqui é uma opinião de algo, num determinado momento da minha vida e tendo em conta o conhecimento que tenho sobre os assuntos. Nesse sentido, é desnecessário focar ao longo do texto frases como "na minha opinião", mesmo que já o tenha feito anteriormente. Além disso, se fosse reler hoje textos sobre determinadas obras, certamente que umas teriam crescido, outras diminuido no meu interesse e, quiçá, outras que se mantêm incólumes.

A minha área profissional não é nada a da literatura, tratando-se de uma paixão que tenho aprofundado a partir dos livros que vou escolhendo. Mesmo não sendo um especialista, considero-me um leitor interessado, e daquilo que conheço tenho de começar por dizer que "Lolita", de Vladimir Nabokov, é um portento literário. Um daqueles livros que mal o terminamos de ler, sabemos que entraram visceralmente na nossa lista de favoritos, qual tigre esfomeado a rasgar a carne de uma qualquer presa. Não é uma surpresa, verdade seja dita, este é um daqueles livros que tinha de ser obrigatoriamente muito bom para ser publicado nos anos 50, uma vez que aborda um dos assuntos mais controversos do mundo. O que me lembra que apesar de todos os problemas que se enfrentam no mundo, continuo a achar que caminhamos moralmente para a frente (lentamente mas para a frente). Que abolimos a escravatura e que, felizmente, já se percebeu há muitos anos que não é por uma mulher ter a menstruação que já tem maturidade para entrar na vida sexual adulta. Claro que me estou a focar na nossa realidade, ainda há países que sofrem muito com estas questões e outras.


Regressando ao livro e pasmem-se, ou não, "Lolita" é também um dos maiores romances que li. Porque chegados ao fim, não há dúvidas de que estamos perante uma história de amor. Uma que nunca devia ter existido, porque não há crime maior do que roubar uma criança da sua infância, mas ainda assim, uma história de amor. Em termos literários existe uma clara distinção na prosa que descreve os desejos proibidos do protagonista, Humbert Humbert e de outra personagem (que não posso revelar) que partilha dos mesmos pecados. Em Humbert Humbert há poesia e sensualidade nas suas descrições, enquanto que nas do segundo é a vulgaridade e deboche que imperam. Claro que é Humbert Humbert o narrador da história e estamos à sua mercê no que toca a descrição de factos. Porque no final há claras semelhanças entre ambas as personagens, mesmo que a segunda - o antagonista - seja, de facto, uma versão mais negra da primeira. Há humanidade nos monstros e é isso que torna tudo mais doloroso.

Além disto tudo, não contava que "Lolita" fosse também um policial, um daqueles que não se incomoda que a originalidade artística afaste leitores fiéis do género (brincando com palavras do autor). Toda a história é muito bem arquitectada, qual teia de aranha, em que pistas são espalhadas ao longo da trama para a grande tragédia final. É por isso mesmo um livro que pede obrigatoriamente uma segunda leitura (e certamente outras mais), para agora, com o conhecimento prévio de determinados aspectos, descobrirmos muitos mais pormenores maravilhosos que o autor foi semeando com tanta subtileza. A versão em inglês também ajudará, há uma tradução logo no prefácio que dificulta muito mais a sua segunda intenção. Já agora li a versão mais recente da "Relógio D'água" mas espreitei o inglês original, o qual será a próxima leitura quando voltar a pegar no livro.

A tradução de Margarida Vale de Gato, pareceu-me muito competente e, como a própria admite, há problemas cuja resolução ficará sempre aquém da obra inicial, a qual trabalha muito a lingua inglesa e francesa, bricando com as suas palavras. Se a segunda, por ser usada ocasionalmente, foi deixada no original, a outra só muito esporadicamente. Aqui confesso, em tom preguiçoso, que agradecia umas notas com o francês traduzido como acontece nos livros russos que tenho, mas pronto os diccionários existem para alguma coisa. Margarida Vale do Gato é também uma especialista em Edgar Allan Poe, algo que tinha de referir uma vez tratar-se de um autor tão importante na vida de Humbert Humbert.

Uma palavra ainda para um falso prefácio de um inventado John Ray Jr.'s, PhD.  A partir daqui Nabokov cria uma ilusão de que esta história foi verídica. Em adição é mais um momento em que o autor demonstra a sua postura crítica em relação à psicoanálise.


Seja desprezível ou arrogante, Humbert Humbert é uma personagem fascinante que terei muitas saudades de ler. E quanto a ti Lolita, o meu coração ainda chora por ti, merecias muito mais do que tiveste da vida. Merecias ser feliz.

quinta-feira, julho 10, 2014

Do not go gentle into that good night

Sem irmos pelo campo técnico e formal, simplesmente, há frases que falam mais connosco do que outras. Podemos apreciar a beleza de várias, mas umas, por determinadas razões, apertam-nos mais o coração, falam directamente para a nossa alma. Quando as acabamos de ler apetece-nos praguejar a alto e bom som para a seguir adicionar a frase "é mesmo isto!".

É assim que me sinto sempre que leio este magnífico poema de Dylan Thomas, um dos meus predilectos. Porque quero dar murros no destino e espernear quando a escuridão me puxar. Eventualmente perco, mas por vezes, mais que o resultado final, é a viagem que conta.


Do not go gentle into that good night,
Old age should burn and rave at close of day;
Rage, rage against the dying of the light.

Though wise men at their end know dark is right,
Because their words had forked no lightning they
Do not go gentle into that good night.

Good men, the last wave by, crying how bright
Their frail deeds might have danced in a green bay,

Rage, rage against the dying of the light.

Wild men who caught and sang the sun in flight,
And learn, too late, they grieved it on its way,
Do not go gentle into that good night.

Grave men, near death, who see with blinding sight
Blind eyes could blaze like meteors and be gay,
Rage, rage against the dying of the light.

And you, my father, there on that sad height,
Curse, bless, me now with your fierce tears, I pray.
Do not go gentle into that good night.
Rage, rage against the dying of the light.
 
Dylan Thomas

segunda-feira, maio 12, 2014

Paranoid Park


I stood there, watching her. The whole world was a dream, I realized. Everyone was acting in a bad soap opera. The whole world was one big FOX TV show.

Quando se pensa em obras de ficção que abordem o sentimento da culpa, aquela que costuma surgir em primeiro lugar na memória é o devastador Crime e Castigo de Dostoiévski. O autor Russo excedeu-se na sua exploração da mente humana, criando um verdadeiro estudo psicológico sobre o Homem. Por isso não é de estranhar que Blake Nelson comece por citar esse mesmo livro antes de começar o seu Paranoid Park. Aliás a homenagem ao autor Russo é bem sentida, mesmo mais tarde volta a ser mencionado através do seu Notas do Subterrâneo.

Paranoid Park é a história de um jovem de 16 anos que acidentalmente mata um segurança numa estação de comboios.  A partir daqui seguimos a viagem de culpa sentida pelo protagonista e como isso o afecta a nível individual e social. A maioria de nós tem a vida como garantida, se respeitarmos o próximo não teremos à partida problemas legais, nem de consciência, a este nível. Mas um acidente pode mudar isso, basta imaginar um qualquer problema que ocorra a conduzir e que resulte na morte de outra pessoa. Mesmo sem culpa é algo que pode "destruir" o espírito numa fracção de segundos. Neste caso, a história é diferente, mas o protagonista nunca teve intenções em matar, contudo, a forma como a acção se desenrolou despoleta uma forte dose de culpa.

Blake Nelson conta a história a partir do ponto de vista do protagonista. Não vivo na América, mas senti que o autor conseguiu captar bem a jovialidade da personagem. A sua "voz de autor" pareceu-me credível, genuína. Por isso mesmo não teremos aqui a mais fina prosa, estamos a ler o relato de um jovem de 16 anos, afinal de contas. Mas essa juventude também traz algo à obra, a visão de um adolescente perante uma situação tão adulta e tão trágica, o que funcionará bem num público dessa mesma faixa etária, haverá uma maior identificação. Apesar das diferenças entre todos nós, mesmo em termos de idade, parece-me que há sentimentos que, pura e simplesmente, são humanos. A descrição da forma como este rapaz reagia a determinadas situações tem qualquer coisa de universal, mesmo não tendo passado pelo mesmo conseguimos sentir uma familiaridade com o medo que esta sente. A estrutura do livro também é muito interessante, a história é contada sob a forma de cartas, um mecanismo cuja razão fica não só clara no final, como faz todo o sentido.

Vale a pena explicar que Paranoid Park é o nome de uma zona adoptada pelos Skaters para praticar. É descrita como uma zona mais perigosa, mas também como o melhor local para andar de Skate. Como o protagonista é skater o seu fascínio por Paranoid Park é expresso logo na primeiras linhas, contudo, é onde tudo começa.

Já li que Nelson considera este livro como um recontar do "Crime e Castigo", mas tal afirmação, a ser verdadeira, é exagerada. Compreendem-se as semelhanças e inspirações, mas o livro de Dostoiévski aprofunda mais questões. E mesmo o crime em si, nada tem de acidental, sendo antes algo bem calculado e com um objectivo bem definido (e que é amplamente explorado no livro). Não, isto de recontar não tem nada, é outra história diferente que parte da base de uma ideia de Dostoiévski.

Concluindo, é um livro com uma escrita muito simples - faz sentido - que consegue transmitir bem o sufoco que uma situação destas traria à nossa vida, essa corda que nos amarra o pescoço e nos deixa imóveis, mergulhados num estado de profundo terror e culpa. Será mais dirigido a um público adolescente, podemos até apelidá-lo de O Crime e Castigo Juvenil - não sei se isso será inteiramente justo, mas soa bem. De qualquer das formas acho que é uma história da qual não darão o vosso tempo por perdido, principalmente a quem se interessar por este tipo de temas, como eu.

Posteriormente foi adaptado ao cinema por Gus Van Sant, em 2007, tendo vencido a Palma D'Ouro desse mesmo ano.

sexta-feira, maio 09, 2014

arròsnegre


O fanzine, se não estou em erro, é uma abreviação de fanatic magazine, ou seja, é um magazine feito por fãs. Por questões óbvias o fanzine tem muitas vezes um invólucro físico mais "pobre", uma vez que não tem nenhuma editora por trás a investir. Contudo, quem tem contacto com este universo sabe bem que isto não é uma regra, existem fanzines cuja edição pode ser equiparada a qualquer uma profissional. Tal é o caso deste arròsnegre cuja impressão e design são realmente estupendos. Mas sobre fanzines, muito mais especialista do que eu é o Geraldes Lino e certamente no seu blog encontrarão toda a informação disponível sobre os nossos.

Até agora existem 4 publicações desta revista, que conheci a partir das duas últimas edições. Todas elas são temáticas previligiando uma cor em particular. A terceira é amarela e sobre o povo Árabe - tendo como mote o provérbio: "só se atiram pedras em árvores carregadas de frutas". Já a quarta debruça-se sobre a república espanhola, previligiando o tom roxo.

No conteúdo podem contar com banda desenhada, ilustração e contos em prosa. São vários os colaboradores e mostram que há muito talento jovem por Espanha. Se quiserem saber mais sobre este projecto natural de Valência, consultem a página oficial aqui, lá encontrarão também informação sobre a aquisição destes livros. A distribuição destes prrojectos costuma ser sempre o "Calcanhar de Aquiles", mas graças à internet as coisas foram facilitadas, por isso é de aproveitar.

Quantoa  mim, gostei do que vi, acho que arròsnegre tem muito potencial para continuar a interessar e deixou-me bem curioso em conhecer os dois primeiros volumes.

segunda-feira, abril 21, 2014

O Mercador de Veneza

Estava mais do que na hora de entrar nas peças de William Shakespeare (entenda-se entrar por começar a lê-las). Para primeiro livro deste autor aconselharam-me "O Mercador de Veneza", o que me parece ter sido uma excelente sugestão para começar. É uma peça simples e muito divertida. Curiosamente, acabei por começar por uma das mais polémicas de Shakespeare, uma vez que é acusada de anti-semitismo por causa da forma como a personagem Shylock, o vilão, é abordada.

Se calhar convém contextualizar este tipo de obras, "O Mercador de Veneza" foi escrito entre 1596 e 1598 e segundo os historiadores é um retrato fiel dos costumes, esterótipos e preconceitos da altura. Fosse em Inglaterra ou em Itália, o preconceito para com os judeus era real. Aliás o retrato de Shylock por Shakespeare é tudo menos orginal, já existindo uma série de personagens "tipo" como esta em obras mais antigas.


SPOILERS

Shylock é um judeu rico que explora outros a partir dos juros que aplica nos seus empréstimos. No início deste livro, António, o homem que dá título à peça, recorre aos seus serviços para poder dar dinheiro a um grande amigo seu, Bassânio. Como Shylock despreza António, sentido-se humilhado pela forma como este o tem vindo a tratar, arranja forma de criar um contrato em que António terá de pagar com um pedaço da sua própria carne, caso não devolva o dinheiro no prazo acordado. O livro foca-se muito no quanto Shylock não é capaz de mostrar mesericórdia perdoando a dívida de carne.

Quais as verdadeiras intenções do autor ao retratar Shylock desta forma tão cruel é que se mantêm uma incógnita. Seria Shakespeare um filho do seu tempo e, devido ao contexto em que foi criado, acreditava que os cristãos eram mais dotados de compaixão? É a conversão de Shylock no final, a sua tentativa de final feliz? Ou, por outro lado, aproveita Shakespeare esta generalização do povo judaico para mostrar o quanto somos todos, enquanto Homens, iguais? Depois de nos apresentar uma personagem odiosa como Shylock, no final do livro Shakespeare escreve-lhe um dos discursos mais poderosos de toda a peça, quando este compara os judeus aos cristão, mostrando que todos sangramos, todos comemos e todos sentimos o mesmo, culimando no facto de os cristãos também se vingarem daqueles que lhes querem mal.Shylock vai mais longe dizendo ainda que a vilania da vingança foi-lhe ensinada pelos próprios cristãos.
Nunca vamos ter uma prova definitiva sobre as intenções de Shakespeare, se realmente ele queria provar um ponto maior ou apenas criar uma simples comédia. Prefiro a ideia de uma visão mais profunda, claro. Acho que o poder desse discurso de Shylock faz-se sentir e que é muito possível que Shakespeare quisesse instruir melhor o povo que assistia às suas peças, fazendo-os questionar o estado das coisas. Ou então pode ser, simplesmente, um filho do seu tempo, como a maioria de nós é.

If you prick us, do we not bleed? if you tickle us, do we not laugh? if you poison us, do we not die? and if you wrong us, shall we not revenge?

Algo do qual esta obra não beneficiou foi do facto de ter sido usada como propaganda no regime nazi, em particular a personagem Shylock. A associação ao governo de Hitler é um daqueles tipos de sugidade que mancham algo para a vida.

Mas "O Mercador de Veneza" tem vida além de Shylock, pois também na história de Portia, Shakeaspere cria uma personagem feminina fortíssima, sendo a mais perspicaz de toda a obra. Adorei a ideia dos três cofres diferentes, cada um com uma mensagem e onde num deles se encontra guardada a imagem de Portia, correspondendo à sua mão em casamento, caso alguém o escolha. Portia é uma personagem encontadora e que demonstra possuir uma grande consciência da sua realidade. Quando aquele que ama vai tentar a sua sorte ao escolher um dos cofres, Portia tenta atrasá-lo, a fim de aproveitar mais tempo na sua companhia, uma vez que se errar na escolha este é forçado a abandonar o seu castelo imediatamente. No final é quem acaba por salvar o mercador de Veneza (António) onde todos os outros falharam ao tentar.

Também me parece que Shakespeare retrata nesta obra a paixão homosexual de António pelo seu grande amigo Bassânio (que casa com Portia). Nota-se uma grande intimidade entre os dois e a minha leitura leva-me a crer que é algo propositado. Claro que Shakespeare não pode explorar isto de forma directa, estamos em pleno século XVI, afinal de contas. Os tempos eram outros.

Por fim, é de salientar não só a mestria da escrita de Shakespeare, mas também o seu enorme conhecimento da situação que se vivia em Veneza, criando um retrato fidedigno da altura. Uma palavra de apreço ao tradutor desta edição da "Lello" que tem uma secção de notas muito boa e cujo nome acrescentarei aqui, quando voltar a ter o livro nas mãos.

terça-feira, abril 08, 2014

O Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de La Mancha II


A segunda parte deste monumento literário foi publicada 10 anos após a primeira. O que me apanhou de surpresa foi o facto da primeira parte existir dentro do livro. Passo a explicar. Quando Dom Quixote regressa às suas lides cavaleirescas com Sancho, rapidamente descobre que tem andado a circular um livro com as suas aventuras. Ora esse livro é precisamente o mesmo que nós, leitores, lemos, ou seja, a primeira parte do "Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de La Mancha". Nada que seja estranhado por Dom Quixote uma vez que os Cavaleiros estão habituados a ter as suas façanhas impressas e imortalizadas em livros.

Cervantes vai ainda mais longe nesta mistura entre a ficção e a realidade. É após o tempo em que saiu o primeiro livro um outro escritor - sem consentimento e conhecimento de Cervantes - publicou uma suposta continuação destas aventura. Esta segunda parte falsa também existe nesta história e é muito mal vista pelos olhos dos seus protagonistas (espelhando os do autor também) que não se revêem nesses feitos que lhes são atribuidos. Perto do final Cervantes até une Quixote com uma das personagens desse outro livro, colocando-os frente a frente. Aqui está "Dom Quixote" a ser também um trabalho de meta-ficção.

Nesta nova saída da Mancha por parte de Dom Quixote, existe uma grande diferença em relação às duas anteriores. É que desta vez o cavaleiro é reconhecido por todos aqueles que leram ou ouviram falar do seu livro. Como é exactamente o mesmo que lemos todos sabem que ele é louco e são muitos os que se aproveitam disso para o enganar e rir-se às suas custas. São situações tremendamente engraçadas, mas elaboradas à custa de uma série de enganos que fazem aos dois protagonistas. A forma como as pessoas se aproveitam da locura de Dom Quixote para proveito próprio é um dos grandes temas desta segunda parte. Ainda assim as coisas parecem ser piores para Sancho cujo pêlo leva das boas por causa das falsidades que outros plantam na mente de Dom Quixote.

SPOILERS

Por falar em Sancho Pança, que maravilhosa personagem, quem o viu e quem o vê no final deste livro. Surpreendemente sempre conseguiu ser Governador de uma Ínsula (tecnicamente não era uma Ínsula). Sancho Governador surpreendeu muito com os seus bons juizos, mas passar fome como passava, não era vida para ele e poucos dias durou o seu governo.

No final os seus amigos sempre conseguem convencer Dom Quixote a regressar a casa. Claro que para isso tiveram de o vencer segundo as regras da cavalaria exigindo que durante um ano abdicasse das armas. Como o bom cavaleiro que é Dom Quixote cumpriu o que lhe era suposto, mas abdicar desta vida foi demasiado para si e ao regressar não demorou muito a perder as forças e a aproximar-se da sua morte. Nos seus últimos momentos recupera a sanidade, crítica severamente os romances de cavalaria e volta a responder pelo seu nome de baptismo Alonso Quijano.

No final temos uma bela despedida de Cide Hamete o suposto escritor destas aventuras, que não é nada mais nada menos do que Miguel de Cervantes: "Para mim somente nasceu Dom Quixote, e eu para ele".

 Gostava de fazer justiça a esta obra com as palavras que escrevo. Talvez numa outra altura com maior disponibilidade. Pelo menos deixo aqui algum testemunho, para não deixar de mencionar aqui um dos melhores trabalhos literários que acompanhei. Escolho este verbo porque Dom Quixote e Sancho Pança são personagens tais que me despeço deles agora como se me despedisse de dois amigos. Agora continuarei eu a seguir as pisadas desse cavaleiros, que por mais louco que fosse, também foi um dos melhores homens a pisar a terra.

quarta-feira, fevereiro 19, 2014

O Deus das Moscas





SPOILERS

"Lord of the Flies" - no original - é o primeiro romance de William Golding. O seu nome remete-nos para o demónio Belzebu cuja tradução é literalmente o "Senhor/deus das Moscas". Isto captou-me de imediato a atenção e sabia que, fosse qual fosse, o conteúdo do livro, este teria de ser profundamente negro e tenebroso. Não estava enganado.

A partir de um grupo de crianças que se despenhou numa ilha, Golding, consegue construir um trabalho de ficção em torno da natureza humana absolutamente notável. Ao lê-lo acabei por reconhecer também a sua marca em outros produtos, nomeadamente, na série "Lost".

Golding apresenta-nos à história logo após a queda de um avião. É, aliás, a partir das descrições das crianças perdidas que nos apercebemos do que aconteceu. Um avião caiu e nenhum adulto sobreviveu. Com excepção de um grupo de coro, as crianças não parecem conhecer-se, o que reforça a ideia de que esta viagem era uma de salvamento, uma fuga de um local atacado por uma bomba atómica. As crianças (que rondam os 6 e 12 anos), agora entregues a si próprias, acabam por ir construindo uma sociedade à semelhança da que conhecem e apesar das dificuldades inerentes, as suas vidas acabam por ir fluindo de forma pacífica e democrática. Contudo, com o passar do tempo assistimos à influência que as pessoas e os seus medos irracionais podem ter numa comunidade. Há toda uma dinâmica de grupo que é explorada desde o civismo até à selvajaria. 

Todas as crianças que são salientadas na obra têm um papel preponderante na mesma. O protagonista Ralph é um dos que está do lado do racional e que se tornou naturalmente o líder deste grupo. Com o tempo ele reconhece as suas limitações, procurando sempre da melhor forma manter o grupo no caminho certo, que na sua opinião é o de tentarem ser salvos da ilha. Ralph espelha a democracia, uma vez que a sua liderança foi votada pelas crianças. Ao seu lado costuma estar Piggy, aquele cujo nome nunca conhecemos, e que devido às suas características (menino de óculos, gordo e com asma) é o mais gozado. Mas Piggy é também o mais racional, aquele que simboliza as ciências e a razão que, infelizmente, muitas vezes são deitadas abaixo por crenças mais bárbaras.

Do lado oposto temos Jack, que antes desta aventura já era o líder dos meninos de coro. Nesta nova comunidade ele torna-se o responsável pela caça, liderando novamente os seus colegas do coro. Se a início Jack e Ralph demonstram uma profunda amizade, com o tempo os sentimentos dos dois rapazes vão-se tornando cada vez mais distantes. Jack simboliza um lado mais negro da humanidade. Se as coisas seguirem o percurso que quer está tudo bem, mas quando confrontado não responde da forma adequada. Jack não consegue viver segundo a máxima de que as necessidades do grupo superam as necessidades individuais e pouco a pouco vai corrompendo a pequena comunidade que se havia formado. Muitos fazem o paralelismo do seu comportamento ao fascismo em directo contraste com a via democrática que Ralph tenta manter. De salientar também a forma como Jack se vai apercebendo do poder por detrás das máscaras, quando começa a camuflar-se durante as suas caçadas.

Ainda queria salientar mais duas personagem em particular. Começo por Simon porque de todos é aquele que parece nutrir os melhores sentimentos. Ele foi a única criança que não acreditou na existência de um monstro na ilha, que conseguiu ver que essa criatura apenas foi criada pelos receios de todos. Ele é claramente diferente dos outros, podendo sofrer de algum tipo de condição psicológica, mas a qual nunca é exposta. A sua morte é um dos momentos mais marcantes porque nos mostra os perigos das dinâmicas de um grupo que cede ao medo irracional e porque marca deliberadamente a perda da inocência, um dos grandes temas do livro. Curioso que a dada altura Simon acredita que Ralph será salvo, não proferindo a frase no plural.

Quanto a Roger está no espectro oposto de Simon. Ele carrega o que de mais negativo existe no Homem. A início a personagem ainda mantém um certo código que lhe foi ensinado na sua vida anterior. Mas ao compreender as repercussões da sua nova vida e que nesta não tem de se cingir pelos mesmos códigos, reverte para a sua faceta mais selvagem, tornando-se uma das crianças mais perigosas e assustadoras.

A simbologia está sempre muito presente ao longo do livro. De um lado temos o búzio  e o fogo. O primeiro é usado para convocar as reuniões representando o espírito da democracia, enquanto o segundo é um símbolo de esperança e utilidade - mas também de perigo quando mal utilizado. Do outro lado temos o tal monstro existente apenas nas mentes destas crianças. A sua fragilidade começa a construir histórias que não existem, propagando um sentimento que rapidamente contagia os restante. A partir deste temor nasce o "Deus das Moscas", essa "entidade" que representa as trevas no Homem.

Depois de um último capítulo imensamente tenso, em que seguimos Ralph na sua fuga por entre a ilha na esperança de não ser apanhado pelo restante grupo, chegamos ao momento do salvamento. Quando aquele marinheiro encontra Ralph e as restantes crianças, parece que tudo cai por terra. Mas a inocência, essa foi perdida para sempre, para nunca mais regressar. Neste momento estava tão absorvido no que tinha acontecido que nem prestei muita atenção a uma cena em particular e que é a lição mais importante deste final. Após o marinheiro criticar o comportamento destas crianças ele dá um rápido vislumbre ao seu navio. Este navio simboliza a guerra dos adultos e este momento, logo após a crítica ao que aconteceu, é a cereja no topo do bolo. Acima de tudo por causa desta comparação com o mundo adulto, era essencial que esta história fosse contada com crianças como personagens.

Um livro extraordinário, um daqueles fortes murros no estômago. Para quem gosta deste tipo de histórias este é um clássico imperdível. Antes de terminar vale a pena lembrar que o livro já foi adaptado cerca de três vezes ao cinema, mas a versão mais referenciada é a de 1963. Sempre quis ler primeiro, por isso devo espreitá-la no futuro.

quarta-feira, janeiro 22, 2014

Escrever


Creio que é isso que eu censuro aos livros em geral: o facto de não serem livres. Vêmo-lo através da escrita: são fabricados, são organizados, regulamentados, poderíamos dizer, conformes. Uma função de revisão que o escritor tem muitas vezes em relação a si próprio. O escritor, então, torna-se no seu próprio chui. Quero dizer com isso a procura da boa forma, quer dizer, da forma mais corrente, mais clara e mais inofensiva. Há ainda gerações de mortos que fazem livros pudibundos. Mesmo os jovens: livros encantadores, sem qualquer prolongamento, sem noite. Sem silêncio. Por outras palavras: sem verdadeiro autor. Livros diurnos, de passatempo, de viagem. Mas não livros que se incrustem no pensamento e que digam o luto negro de todas as vidas, o lugar-comum de todos os pensamentos.

Em "Escrever" temos reunidos cinco ensaios de Marguerite Duras: Escrever; A morte do jovem aviador inglês; Roma; O número puro e A exposição da pintura.

A início questionei-me se este livro teria sido a escolha mais certeira para começar a ler Duras, uma vez que a autora faz menção a outros livros seus que desconheço. Mas nada disto me tirou o grande prazer que foi esta leitura. Gosto da forma como ela escreve sobre a escrita, sobre a solidão e, pois claro, sobre a vida. Gosto da sua paixão, da sua independência e força. Sem dúvida uma autora a continuar a conhecer, uma autora que escreve, sem receio, livros livres.

segunda-feira, janeiro 13, 2014

Short Movies


A fechar o ano de 2013 no campo da literatura li este "Short Movies" de Gonçalo M. Tavares. O livro trata-se de um conjunto de planos cinematográficos imaginados pelo autor. Determinadas cenas que ficam no ar em aberto, susciptando a projecção de um filme na nossa mente. Ao lermos cada cena, o autor coloca-nos pela perspectiva de uma câmara que segue aquelas determinadas personagens e objectos.

É uma ideia curiosa e muito diferente do habitual, um livro que acho mais adequado para os fãs de Tavares e não tanto para aqueles que querem começar a ler o autor. Como referi, estes segmentos não são contos e por isso não têm uma estrutura com início, meio e fim.

A escrita de Tavares continua a mostrar-se de grande qualidade, sempre munida de questões filosóficas, de questões humanas. A forma como este autor descrever e explora as suas personagens num determinado quotidiano (por vezes muito surreal), continua a ser um dos aspectos que mais me cativa a lê-lo.

quinta-feira, dezembro 19, 2013

O Vento nos Salgueiros


A primeira vez que tive contacto com o clássico de 1908, “O Vento nos Salgueiros”, de Kenneth Grahame, foi com uma série de animação que passou há uns bons anos na TV. Podem espreitar o genérico aqui, para recordarem. Lembro-me de muito pouco em torno da série, no que tocava à história, mas os bonecos, as personagens, essas ficaram gravadas para sempre.


 
Desde há uns tempos para cá que a paixão por este universo criado por Grahame se foi intensificando e hoje possuo na estante três livros deste clássico da literatura infantil. Tenho uma versão com ilustrações na língua original e outra em português (ver imagem acima) e ainda uma BD. A adaptação em BD é de Michel Plessix e encontra-se dividida em duas partes (com 4 livros cada). Na realidade ainda não tenho a colecção completa deste - falta-me a segunda parte -, mas aproveitei as férias na Bélgica para comprar o número 1 da primeira parte, que segundo sei está esgotadíssimo cá. Tenho ideia também que por cá só se publicaram os primeiro 4. Em relação aos desenhos de Plessix, são absolutamente maravilhosos. A forma como ele deu imagem às palavras de Grahame rende-nos imediatamente sem nos dar qualquer hipótese de resistir.


Quanto à edição da Tinta da China, as ilustrações que contém são de E. H. Shepard (também conhecido pelo seu trabalho em “Winnie-the-Pooh”) e datam de 1931. São desenhos dotados de uma grande sensibilidade, que enriquecem em muito esta, já por si, bonita edição. Tenho ideia que Grahame não queria ver o seu mundo ilustrado, mas o trabalho de Shepard, fê-lo dar o braço a torcer.


Esta é a história do perspicaz senhor Toupeira, do poeta Rato d’Água, do sapiente Texugo e do excêntrico Sapo. Quatro amigos que nos levarão a conhecer um mundo cheio de aventuras, magia e bons sentimentos. Não sei se livros como este e o “Livro da Selva” ainda são muito lidos às crianças - nem se alguma vez o foram -, mas deviam, sem dúvida que deviam.

terça-feira, dezembro 03, 2013

A MORTE DE IVAN ILIITCH


Em poucas páginas Tolstói conta-nos a trágica e dolorosa história da morte de Ivan Iliitch, ou melhor, da vida de Ivan Iliitch, com especial incidência no desenvolvimento da sua doença que o conduziu àquilo que todos esperamos desde que pomos os olhos no título deste livro.

"A Morte de Ivan Iliitch" foi publicado em 1986 após "Anna Karenina" (1977) e "Guerra e Paz" (1869), numa fase em que o autor cada vez mais abdicava da sua interiorização em prol da sua exteriorização. Algo que provavelmente se deve à sua recente conversão religiosa que ocorre no final dos anos 70. Tolstói é um Homem de grande consciência e bondade, na fase em que este livro foi escrito, cada vez mais o autor abandonava o acto de escrita solitária e egoísta em prol do contacto com a sociedade e pela escrita de outros géneros de livros - segundo o posfácio de Vladimir Nabokov. O acto da escrita pode ser solitário e egoísta, mas o resultado de livros como "Guerra e Paz" é tudo menos isso e a sua  inspiração e legado perdurarão para a eternidade.

Nesta história nota-se um tom de fábula, algo intencional e ligado a este lado mais espiritual do autor. Ivan Illitch foi alguém que levou uma vida isolada e vazia de significado, acabando por ter na morte uma experiência mais agitada, consciente e, por consequência, sofredora. São vários os sentimentos e temas ao longo do livro, mas a resumi-lo, em uma frase, teria de ser algo similar a esta que escrevi, citando Nabokov: "Ivan viveu uma vida má e visto que uma vida má é apenas a morte da vida, este viveu uma morte viva". Até no final, Illicth aceita aquilo que vinha sempre a negar, a inocuidade da sua existência, haverá revelação pior do que esta ao nos aproximarmos do fim?

Independentemente da lição o retrato da personagem e seu posterior desenvolvimento são de uma mestria impressionante. O percurso de vida de Illitch e seus objectivos são apresentados em metade do livro, seguindo-se o surgimento da doença, algo que nunca sabemos especificamente do que se trata, bem como a sua causa. A forma como a sua (Iliitch) percepção da realidade vai mudando, bem como a relação que mantém com os outros, é descrita de forma magistral. Sem falar naquele sentimento de esperança, que por mais miserável que seja, nos obriga a agarrar-nos a ele. Acho que foi Dostoievski em "Crime e Castigo" que disse que um Homem mesmo que esteja a viver numa pequena ilha (que lhe segura apenas o corpo) se irá lá manter, agarrando-se sempre à oportunidade de viver (algo assim, não me lembro da frase ao certo). De facto, isto acontece a Illitch e quem de nós o pode censurar? Illitch, homem ligado ao direito, racional e que privilegia a lógica, chega a questionar a própria fé em determinados momentos. Porque mal não faz e se houver uma esperança de vida...

A morte sempre atormentou e continua a atormentar a humanidade. O vazio de uma existência, o derradeiro final é um tema que me faz sofrer a mim e a muitos por antecipação. Se existe razão para a criação de credos e religiões, passa muito pela justificação desse desconhecido que tanto nos assusta. A vida para aqueles que têm algo mais a que se agarrar poderá ser mais reconfortante nestes instantes, pois para aqueles que não acreditam em nada mais, estas questões são ainda mais sufocantes. Apesar de não me identificar com o protagonista e sua forma de vida (tanto profissional, como social e familiar), o seguir o seu desenvolvimento foi extremamente doloroso e arrepiante. Há momentos na vida que se sobrepõem a personalidades e gostos. A morte e questões existencialistas, são exemplos disso. Aqui não é só Illitch que se questiona sobre o propósito da existência, mas o autor também.

O primeiro capítulo que nos apresenta a história é o único que decorre após a morte de Illitch, uma decisão interessante e, penso que na altura, diferente. O título não deixa margens para dúvidas, não há surpresas a estragar. Nesta abordagem o autor apresenta-nos o protagonista a partir dos seus amigos e mulher, mas mais do que isso, a forma como a morte dos outros nos a afecta a nós, em diferentes estágios. Também o relato do velório e do que se passa dentro de nós nestes momentos é mais um excelente retrato da sociedade. Sejamos russos ou portugueses, há aspectos que são humanos, independentemente da nação. E Tolstói é um dos grandes mestres cronistas dos tempos e da sociedade.

De salientar ainda o posfácio de Vladimir Nabokov que fui mencionado ao longo do texto. Nabokov era um conhecido apaixonado pela escrita de Tolstói, principalmente deste e de "Anna Karenina". Um bom suplemento para ler após concluída a viagem de Ivan Illitch.

Para quem não tem este suplemento vou escrever o que foi referido pelo autor de "Lolita" sobre a escolha do nome do protagonista:

- Em russo Ivan é John, que em hebraico significa "Deus é bom, é gracioso". Illiitch por sua vez é filho de Ilya, a versão russa do nome Elias que em hebraico é Jeová (Deus).

- Ilya é um nome comum em russo que se pronúncia com uma sonoridade muito parecida ao il y a francês.

- Por fim, em inglês se separarmos o apelido temos Ill (doente) + Iitch (comichão), os males e as comichões  da vida mortal.


Concluindo: obra-prima.

domingo, novembro 17, 2013

Contos de Máximo Gorki: Vinte e seis e mais uma



Poema

Em pouco tempo calávamos quem ousava dizer tal coisa: precisávamos de amar alguma coisa - tínhamo-la encontrado e amávamo-la; como tal, essa coisa que nós, todos os 26, amávamos, tinha de ser inacessível, como se fosse sagrada, e qualquer um que nos fizesse frente nessa questão era nosso inimigo.


Tchelkashe

Gavrilo continuava a rir, olhando estupidamente para o seu patrão. Aquele olhava-o também, pensativo e lúcido. Via à sua frente um homem cuja vida estava nas suas patas de lobo. Tchelkashe sentia que podia controlá-lo a seu gosto. Podia rasgá-lo em pedaços, como uma carta de jogar, ou podia ajudá-lo a fazer-se um homem sério.