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sexta-feira, maio 23, 2014
A Batalha – 14 de Agosto de 1385 | Pedro Massano
Na Rua de Baixo falo do mais recente livro de BD de Pedro Massano. Que esta vez se debruçou sobre a épica batalha de Aljubarrota, imortalizando-a nos seus traços e cores.
Para lerem mais cliquem aqui.
sexta-feira, março 14, 2014
MONSTRA 2014
A animação volta a ser rainha durante uma semana.
Continuo a achar que este é o festival que mais procura discutir outras expressões artísticas de forma a misturá-las com a linguagem da animação. Faz sentido se nos recordarmos que esta é uma arte que nasce do experimentalisto.
Mais sobre o festival aqui.
Continuo a achar que este é o festival que mais procura discutir outras expressões artísticas de forma a misturá-las com a linguagem da animação. Faz sentido se nos recordarmos que esta é uma arte que nasce do experimentalisto.
Mais sobre o festival aqui.
sexta-feira, setembro 13, 2013
Death Note vol. 6 – Toma Lá, Dá Cá
Com este 6º volume da série “Death Note”, intitulado “Toma Lá, Dá Cá”, a Devir chegou assim ao meio desta alucinante aventura. É de congratular a editora não só pela aposta em mangá mas, também, pela frequência com que este tem sido editado. O regresso da Devir às publicações de BD parece assim ganhar contornos cada vez mais seguros, nomeadamente no que toca ao mangá, tal como se pode comprovar com o início da publicação de “Naruto” e, igualmente, com a promessa de “Blue Exorcist” para um futuro muito próximo.
Até aqui tudo séries Shōnen (mangá direcionado maioritariamente ao sexo masculino dos 13 anos para cima), o que faz sentido se tivermos em conta que é o género de mangá mais popular. Porém, consoante a taxa de sucesso destas edições, talvez a Devir se arrisque por outros campos. Ainda assim, apesar de “Death Note” se encontrar nesta categoria, afasta-se dos restantes títulos mencionados por ter conteúdos mais maduros e que o aproximam do género Seinen (mangá direcionado maioritariamente ao sexo masculino entre os 18-30 anos), o que também poderá ter contribuído para o seu grande sucesso (é dos mangás mais vendidos no mundo) uma vez que tanto os habituais leitores de Shōnen como os de Seinen, poderão se interessar pela mesma. De qualquer das formas, o maior mérito do sucesso de “Death Note” prende-se com uma excelente premissa, cujo desenvolvimento tem sido do mais aliciante possível e, esse mérito, ninguém lho tira.
É de sublinhar que este texto, não desvendando o enredo deste volume, fará menções a acontecimentos passados nos antecedentes, sendo um texto direcionado a quem tem vindo a seguir os restantes capítulos. No volume anterior, o duelo entre L e Light havia assumido proporções tão hercúleas que algo teria de, obrigatoriamente, mudar na série. Depois de L nos ter proporcionado a maior reviravolta da história ao se revelar a Light (quem estava à espera desta?), a sua investigação começou a aproximar-se cada vez mais dos detentores dos dois cadernos da morte – Light e Misa. Da forma que a história estava a seguir, Tsugumi Ohba tinha de tomar uma decisão drástica: ou concluía este duelo de titãs ou, então, precisava de uma outra reviravolta – o autor optou pela segunda.
Em mais um desenvolvimento mirabolante – a como esta série nos tem bem habituado -, Light entrega-se a L, abdicando posteriormente da posse do caderno da morte e, por conseguinte, das suas memórias em relação ao mesmo. Claro que não o faz sem antes instruir o Shinigami Rem para entregar o caderno a outro humano, na condição de que este continue os seus julgamentos. Desta forma, com as acções de Kira a continuarem e com Light preso, L acaba por ver-se obrigado a libertá-lo, algo que não faz de bom grado.
Como Light já não possui as suas memórias enquanto Kira, estamos agora perante uma personagem substancialmente diferente e que tem intenções sinceras quando se voluntaria em ajudar na investigação de L. Foi uma decisão sensata e interessante, esta do autor, que, apercebendo-se que uma determinada linha narrativa tinha chegado ao fim e em vez de a esticar até ao aborrecimento, optou antes por outro tipo de mudança radical. Agora, L e Light trabalham juntos – mesmo juntos porque estão algemados um ao outro uma vez que L ainda desconfia dele – para apanharem o novo Kira que, pela primeira vez, tem uma identidade também misteriosa para o leitor.
Este volume trata precisamente da história referente à investigação do novo Kira, que já havia sido iniciada no final do volume 5 e que Light já havia focado nos líderes da empresa Yotsuba. Seguimos assim, ao longo deste volume, uma operação policial com resultados bem mais produtivos do que quando Light era Kira. Quanto ao novo Kira, não é de longe uma personagem tão interessante como Light, mas é uma que vale a pena conhecer para termos a imagem do que outra pessoa faria com o caderno; neste caso, alguém mais avarento que usa o caderno apenas para enriquecer à custa da vida de outros, um objectivo muito mais banal e mesquinho que o de Light, mas que vale a pena mostrar. Este Kira assume-se logo distinto, por exemplo, quando ameaça a vida dos políticos se estes continuarem a tentar capturá-lo, o que leva a retirarem a polícia deste caso, uma decisão que terá as suas repercussões na equipa de L.
Há medida que a investigação vai evoluindo, Ohba mostra-nos como sabe construir uma tensão em crescendo ao longo de cada capítulo, até atingir níveis fervorosos num fantástico clímax final. Como é típico no mangá, estamos perante uma narração visual muito dinâmica e, neste caso em particular, onde há sempre algo relevante a acontecer e a ser descoberto.
Tsugumi Ohba ficou conhecido mundialmente através de “Death Note”. Contudo, no caso do desenhador Takeshi Obata o caso é outro, pois estamos perante um autor que já gozava de um maior reconhecimento – reconhecimento esse que volta a ser justificado em “Death Note”. Obata tem um traço fluido e uma atenção à caracterização das personagens, que dão uma vida não só muito enérgica mas, também, pessoal a esta série. Mesmo que os Shinigamis sejam de certeza das personagens mais engraçadas de desenhar, sente-se sempre que Obata se diverte muito com L – quiçá o detective mais peculiar a pisar as páginas de um mangá – e isso é um sentimento que passa para o leitor.
Depois deste final fica a questão no ar: qual será o novo rumo que a série seguirá? E será que Light abdicou mesmo do seu plano de ser Kira? É algo que custa a crer, tendo em conta a sua personalidade. De qualquer das formas, as respostas terão de aguardar pela edição do sétimo volume que, se tivermos em conta o que tem sido feito até aqui, promete ser épico.
Notas:
- Publicado originalmente no site da Rua de Baixo;
- Um comentário à série completa pode ser lido aqui
- Comentários a todos os episódios da série de animé aqui.
- Um agradecimento especial à Devir pelo livro.
quinta-feira, agosto 29, 2013
Anne Frank – Biografia Gráfica
Foi Winston Churchill quem disse que “aqueles que não
aprendem com a História estão condenados a repeti-la”. Quando pensamos
nos graves erros do passado, o Holocausto é um dos que nos surge
rapidamente na memória. De todas as grandes atrocidades cometidas ao
longo da História da Humanidade, as da segunda guerra mundial têm sido
das mais lembradas e focadas nos mais diversos meios de comunicação.
De todos os registos e explorações do tema, houve um
livro em particular que continua ainda hoje a constituir um dos relatos
mais importantes e fundamentais desta trágica época: o“Diário de Anne
Frank”, que tem a particularidade de nos dar a conhecer a impressão
desta (sobre)vivência a partir do ponto de vista de uma adolescente
judia.
A história de Anne Frank teve um impacto tão forte
que tem vindo ao longo dos anos a ser adaptada a outros meios, tais como
ao teatro, à televisão, ao cinema e, agora, à Banda-Desenhada. Pelas
mãos de Sid Jacobson e Ernie Colónsurge-nos a primeira adaptação oficial em BD desta história, editada recentemente em Portugal pela “Devir”: “Anne Frank - Biografia Gráfica”.
É sempre de louvar uma tarefa destas, onde a partir
da BD a história de Anne Frank volta a ser recordada, podendo chegar
inclusive a mais pessoas. Nesse sentido, estamos perante uma adaptação
que tem uma vantagem logo à partida – a importância da história em
questão -, sendo esta mais uma forma de contribuir para a contínua
imortalização deste relato. Não é à toa que a frase citada no início do
texto se encontra exposta, actualmente, em Auschwitz.
Enquanto dupla, Sid Jacobson e Ernie Colón são dois
nomes bem conhecidos da BD em geral e das biografias em particular,
tendo trabalhado juntos na adaptação da vida de Che Guevara e dos
acontecimentos do11 de Setembro. Desta vez escolheram debruçar-se sobre a
vida da família Frank, mais especificamente de Anne, um projecto que
contou com o apoio da “Casa de Anne Frank” em Amesterdão a qual
disponibilizou todo o tipo de documentos que possuem sobre esta
história. Isto, aliado a vários testemunhos de pessoas que conheceram
Anne Frank, contribuiu para a construção de uma biografia rica em factos
e bastante realista.
Apesar de o “Diário de Anne Frank” assumir um papel
preponderante nesta história, uma vez que se trata de uma biografia, Sid
Jacobson foi além do livro, avançando tanto nos acontecimentos que lhe
são passado como nos que lhe são futuro, dando uma maior contextualidade
a toda a história. Desta forma, Jacobson iniciou esta narrativa com o
casamento dos pais de Anne e terminou-a a relatar os últimos dias do seu
pai, o único sobrevivente do grupo de pessoas que viveu dois anos
escondido naquela que é hoje conhecida por “Casa de Anne Frank”, em
Amesterdão. Tudo isto alternando com a história do Partido Nacional
Socialista dos Trabalhadores Alemães, liderado por Adolph Hitler,
mostrando-nos a sua subida ao poder e posterior declínio no final da
segunda guerra.
Sobre as partes da história que se encontram no
diário, o autor introduziu excertos escritos pela própria Anne Frank na
história que, tendo em conta a abordagem escolhida por Jacobson ao
material, resultaram num dos aspectos mais interessantes deste livro.
Em relação à adaptação em si, a voz do autor assumiu
um tom académico e de listagem de acontecimentos, ao invés de deixar as
personagens fluírem nas suas interacções, o que resultou num tom
narrativo rígido e pouco dinâmico. Uma vez que os autores tiveram acesso
a toda a informação disponível sobre Anne Frank, e não se tratando esta
de uma adaptação literal do diário, seria interessante ver a utilização
de todos estes factos na construção de uma novela gráfica. Apesar do
tom mais adulto, “MAUS”, de Art Spiegelman, vem à memória como exemplo. “Anne Frank – Biografia Gráfica” surge-nos então como um livro muito educacional, mas pouco estimulante do ponto de vista da BD, cuja linguagem artística podia ter sido melhor explorada.
Em termos gráficos, compreende-se a escolha de um
traço mais leve por parte de Ernie Colón quando estamos perante um livro
que parece mais direcionado para chegar até aos mais novos. Porém, de
uma forma geral, estamos perante um desenho desiquilibrado que, apesar
de ter bons momento,s é demasiado ínsipido e desinteressante na sua
maioria. Uma das mais valias de Colón neste trabalho esteve na
aproximação das personagens em relação aos seus retratos originais, algo
que o autor trabalhou a partir de fotografias, mas que por outro lado
também lhe parece ter dificultado a expressividade das suas faces em
determinadas cenas.
No que toca à importância dada ao tom realístico, o mesmo se pode dizer sobre o trabalho do desenhador no que toca a alguns edifícios que surgem na história, nomeadamente a casa em Amesterdão onde Anne Frank viveu com a família escondida e que se encontra caracterizada ao milímetro como era na altura. Na página 80 temos, por exemplo, uma descrição gráfica desta casa que é um dos momentos mais bem conseguidos pelo autor, tanto no traço como na cor que, de resto, está também longe de impressionar, particularmente no padrão de vários vestidos onde se nota um facilitismo digital que não correu nada bem.
Sobre a narração gráfica, sendo funcional para
relatar acontecimentos, é pouco cativante para o leitor. Por fim, a
balonagem perde com alguns erros relativos ao posicionamento incorrecto
de determinados balões em relação à ordem de leitura. Tudo isto deixa
bastante a desejar quando estamos a falar de Ernie Colón, um artista que
já provou várias vezes que é capaz de muito melhor.
É de salientar a belíssima edição em capa dura por parte da “Devir” e do segmento relativo a sugestões de leitura, organizadas pelos autores para quem quiser continuar a conhecer mais sobre a vida de Anne Frank.
Não se tratasse este livro da biografia de Anne Frank e o destaque que lhe foi dado seria certamente muito menor. Ainda assim o livro cumpre aquilo a que se propõe: contar a história trágica da família Frank e, com ela, dar-nos a conhecer um pouco do que decorreu durante a segunda guerra, em particular a partir de uma jovem que, infelizmente, não a sobreviveu, mas cujo testemunho é ainda hoje recordado e ensinado. Nesse sentido, é impossível não nos emocionarmos com o poder desta história, mas enquanto objecto artístico não convence.
Publicado originalmente no site da Rua de Baixo.
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quinta-feira, abril 11, 2013
Dead Combo: Sound Files
Foto de Orlando Almeida
O Jardim de Inverno do Teatro Municipal São Luiz, em Lisboa, foi palco do lançamento de “Dead Combo: Sound Files”, uma Banda Desenhada de Tó Trips (desenho) e Pedro Gonçalves (argumento) que pretende marcar o início da comemoração dos 10 anos dos Dead Combo, compilando uma série de tiras que ilustram vários episódios da vida deste - agora mais do que nunca - duo dinâmico. Não é uma ideia nada estranha, afinal de contas, os "Dead Combo" criaram duas figuras (Gangster e Cangalheiro) que facilmente poderiam ter saído das páginas de uma BD.
Estive presente no lançamento, onde aproveitei para ter o meu livro assinado, que ficou com um desenho bem estiloso de Tó Trips. Para lerem mais sobre o livro em si cliquem aqui, escrevi sobre ele na Rua de Baixo.
sexta-feira, abril 05, 2013
Psicose
Editado no final do ano passado pela “El Pep”, “Psicose” é um livro de Miguel Costa Ferreira (argumento) e João Sequeira (desenho) que reúne as colaborações entre esta dupla que se conheceu na célebre Tertúlia de BD de Lisboa de Geraldes Lino.
Em “Psicose”, a história que dá título ao livro, visitamos o que parece ser um hospício para seguirmos o narrador - um dos pacientes - na sua procura pela liberdade, após um momento de aparente consciência. Consciência essa que chega ao ponto de o fazer questionar a sua própria loucura
Tudo em “Psicose” é uma incógnita: não só o espaço e o tempo, como também o próprio narrador – inclusive a sua psicose ou sanidade. Será o narrador mesmo louco porque, simplesmente, a visão que tem do mundo é diferente da dos outros? Será que aqueles cuja percepção da realidade difere drasticamente da maioria são automaticamente doidos? Ou será que estão apenas num outro patamar de sanidade, num outro extremo? Os julgamentos, esses, os autores deixaram ao critério de cada um.
O aspecto mais interessante da história, e aquele que a destaca entre as demais, é o trabalho gráfico de Sequeira, que a partir da cor negra utiliza uma série de técnicas que resultam num produto final não só lúgubre e sujo – por vezes a relembrar o “Diário de K” de Filipe Abranches -, como também disfuncional e psicótico. De salientar a secção de material extra, no final do livro, com esboços de “Psicose” que revelam um pouco do funcionamento do processo de criação de João Sequeira.
Além da história principal, podemos contar ainda com mais três curtas: “Républica”, “Movimento Perpétuo” e “The Road”, todas desenhadas por Sequeira exclusivamente a negro, tal como em “Psicose”.
“Républica” prima pelo seu argumento inteligente e irónico; em poucas páginas se mostra como o mundo continua a girar enquanto o Homem será sempre o Homem. Não é de admirar que tenha vencido o 1º prémio (escalão A+) no festival “Amadora BD”, em 2010. Já “Movimento Perpétuo” e “The Road” são, tal como “Psicose”, histórias menos sóbrias e mais surrealistas. Na primeira – vencedora do 1º prémio (escalão B) no festival Moura BD 2011 -, os autores voltam a abordar a percepção da realidade, enquanto em “The Road” (escrita em Inglês) focam que o mundo pode mudar e todos nós com ele, mas a estrada, esse caminho a percorrer, está sempre lá à nossa espera.
A edição em si é deveras curiosa. Por dentro tem um ar muito artesanal e pessoal, como se das páginas originais se tratassem – foi legendada à mão; por fora, a escolha da capa dura e da lombada demonstram um certo brio, uma certa preocupação em querer distingui-la numa qualquer livraria ou estante pessoal.
Publicado originalmente na Rua de Baixo.
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quinta-feira, março 21, 2013
Crulic: The Path to Beyond
O mais recente filme da romena Anca Damian, “Crulic: The Path to Beyond”, foi exibido esta semana no festival MONSTRA no âmbito da competição de longas metragens.
Neste filme, Anca Damian, pretende dar-nos a conhecer a história de um conterrâneo seu, Claudiu Crulic, um romeno que aos 33 anos de idade faleceu numa prisão polaca devido a uma greve de fome. O filme começa com a notícia da sua morte que, pela voz de Vlad Ivanov, nos irá recontar a história da sua vida a culminar neste fatídico e trágico dia.
Para saberem mais sobre o grande vencedor do festival MONSTRA (prémio melhor filme) - e o qual aconselho fortemente a sua visualização - falei dele aqui.
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segunda-feira, março 04, 2013
Los Olvidados
O nome Luís Buñuel tornou-se sinónimo de surrealismo no cinema. Ninguém hoje discute a exploração desta corrente artística na sétima arte sem mencionar o nome do realizador espanhol. No entanto, acima de tudo, Buñuel era um realizador de cinema, um que não tinha receios de experienciar e que durante a sua carreira explorou uma série de géneros diferentes.
“Los Olvidados”, apesar de conter elementos surrealistas, é na sua génese um filme profundamente realista, algo que era essencial a fim de desenvolver o seu objectivo, podendo ser incluindo no movimento artístico do realismo social. Logo a início o narrador alerta-nos para o problema em questão, a pobreza na infância, um problema que será demonstrado numa história – apresentada como real – que decorreu na Cidade do México, mas que poderia ter decorrido num outro lado qualquer. O narrador é também muito claro em afirmar que este filme tem apenas o intuito de evidenciar este problema e não de o resolver, as respostas, essas, cabem a todos nós procurar e descobrir, porque “Los Olvidados” pode ser um filme, mas o problema é muito real.
O filme tem início com o regresso de El Jaibo, um jovem delinquente que fugiu de uma casa de correcção e se reúne com o seu antigo grupo, onde rapidamente assume a posição de líder. De momento aquilo que mais o move é a procura por Julián quem ele crê ser o responsável pelo seu encarceramento. Todos no grupo admiram a sua tenacidade, todos incluindo Pedro, aquele que verá a sua vida intimamente ligada à de El Jaibo quando o assiste na sua sede de vingança.
A pobreza pode levar a vários cenários de terror, incluindo ao próprio abandono de um filho como é o caso do rapaz que ganha a alcunha de ojitos. Todas estas crianças têm uma história, um passado que as conduziu até onde estão hoje e todas estas histórias poderiam ser, cada uma delas, um outro filme, contudo, aqui é a história de Pedro que é revelada, aquela sobre qual Buñuel se debruça. Quando conhecemos o seu ambiente familiar – vive com a mãe e os irmãos – percebemos rapidamente que Pedro cresceu sem o sentimento mais importante no desenvolvimento de qualquer criança, o amor. Como alguém refere no filme, às vezes deviam ser os pais a ser presos e não os filhos. Mas, “Los Olvidados” não pretende julgar, pois por mais condenáveis que as acções da mãe de Pedro sejam também ela é uma vítima da sua própria realidade.
Alfonso Mejía está soberbo no papel de Pedro, o rapaz tem um brilho nos olhos que nos faz instantaneamente acreditar nele sem serem precisas palavras ou acções, é um sentimento que paira no ar e nos faz saber que dada a oportunidade Pedro será um dos bons, que por muito que a sua moral tenha sido corrompida, o seu coração ainda está no sítio certo.
Vencedor do prémio de melhor realizador em 1951 no festival de Cannes, “Los Olvidados” é um daqueles filmes que após visto fica connosco para sempre, nunca mais nos largando.
Nota: Este texto foi publicado originalmente no site da Rua de Baixo, onde fiz uma perninha na secção de Cinema para falar de um clássico da sétima arte à minha escolha.
segunda-feira, fevereiro 25, 2013
Entrevista a Filipe Melo
Em 2010 falámos com Filipe Melo sobre um novo projecto de BD intitulado “As incríveis aventuras de Dog Mendonça e Pizzaboy”. Dog Mendonça, então um desconhecido, é hoje um nome estimado pelos leitores portugueses, cujas aventuras se aproximam do terceiro e último volume. Enquanto por cá preparamos uma despedida aos heróis, os norte-americanos apenas recentemente começaram a conhecê-lo através da edição do primeiro volume da série e, também, da prequela “The Untold Tales of Dog Mendonca & Pizzaboy”, editada pela “Dark Horse Comics”. Para falar desta nova aventura nas terras do Tio Sam, e também do volume final que se aproxima, a Rua de Baixo voltou à conversa com Filipe Melo.
Para lerem a entrevista cliquem aqui.
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quarta-feira, fevereiro 20, 2013
The Untold Tales of Dog Mendonca & Pizzaboy
Depois de Filipe Melo, Juan Cavia e Santiago Villa terem conquistado Portugal com as suas “incríveis (volume 1) e extraordinárias (volume 2) aventuras de Dog Mendonça e Pizzaboy”, chegou a vez de atravessarem o atlântico, até os Estados Unidos da América, em busca de novos duelos.
Para saberem mais sobre "The Untold Tales of Dog Mendonca & Pizzaboy" - o primeiro livro de Dog Mendonça a ser editado pela Dark Horse - cliquem aqui, para ler o texto que escrevi na "Rua de Baixo".
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sexta-feira, dezembro 07, 2012
Portugal
Este ano de 2012 tem sido prolífico para a BD em Portugal. Prova disso foram as edições de, não um, mas dois livros de Cyril Pedrosa: “Três Sombras”, editado pela Polvo e este “Portugal”, pela ASA. Ambos os livros foram lançados durante (ou próximos) do Festival da Amadora, aproveitando, muito bem, a presença do autor em solo nacional.
Ao analisar tanto o título do livro como o apelido do autor, chega-se rapidamente à conclusão que devemos estar perante um luso-descendente. E assim o é. Os avós de Pedrosa fazem parte da geração de emigrantes portugueses dos anos 30 que se deslocaram em abundância para França. Na capa surge-nos um belíssimo retrato do bairro alto, onde uma horta e roupas estendidas nas varandas dificilmente deixam margem para dúvidas. Estamos em Portugal, estamos em casa.
Mesmo que “Portugal” não o seja na sua totalidade, tem claros elementos autobiográficos. Trata-se assim de uma história onde a realidade e a ficção se misturam, nunca nos revelando onde termina uma e começa a outra. O livro encontra-se dividido em três capítulos, que se estendem ao longo de três gerações: segundo o filho (Simon), segundo o pai (Jean) e, por fim, segundo o avô (Abel). Apesar da ênfase dada em cada capítulo a cada uma das personagens que lhe dá nome, a história desenrola-se em torno do filho, o protagonista.
No primeiro capítulo é-nos apresentado Simon, um autor francês de BD, mas neto de emigrantes portugueses. Curiosamente, estamos perante dois aspectos intrínsecos da sua vida, mas que, de momento, se encontram ambos tão distantes do mesmo. Neste momento, Simon encontra-se um pouco “perdido” na sua vida, algo distante tanto a nível amoroso como profissional. O seu relacionamento com Claire parece seguir num determinado caminho, enquanto ele se mantém imóvel no mesmo local. Em relação à BD existe também um afastamento, mais consciente, da sua parte. Um afastamento amargurado, que espelha um certo descontentamento e até vazio com este processo de criação.
No que toca às suas raízes, Portugal é uma terra à qual não regressa desde criança e que por consequência foi caindo no esquecimento. Fruto, também, de uma família que se foi dispersando com o tempo e de um pai que pouco ou nada partilhou sobre as suas origens.
Contudo, já lá dizia o ditado, se” Maomé não vai à montanha, a montanha vai a Maomé”. E tudo está prestes a mudar na vida de Simon, graças a um convite para um festival de BD em Portugal – numa clara alusão ao Salão Internacional “Sobreda-BD” organizado pelo GBS (Grupo Bedéfilo Sobredense) à qual o autor atendeu em 2006. Esta curta passagem por terras lusas teve um efeito de grande comunhão entre o autor e o país, tornando um eventual regresso em algo indispensável.
Quando Simon regressa a França decide ir, juntamente com o seu pai, Jean, até Borgonha para o casamento de uma prima. Uma escolha que, possivelmente, se tornou mais apelativa após a sua passagem por Portugal. Neste segundo capítulo, Simon volta a estar em maior contacto com o seu pai e respectivos tios. É um daqueles grandes momentos familiares que, por ser tão esporádico, acaba por ter sempre uma intensidade imensa. Tanto a viagem a Portugal como este reencontro familiar levam Simon a partir numa viagem de regresso ao nosso país – desta vez à terra do seu avô Abel – Marinha da Costa -, em busca da sua história, das suas raízes e, acima de tudo, da sua própria identidade.
A nível gráfico, “Portugal” é uma verdadeira ode ao desenho. Os esboços de Pedrosa dão uma vida singular e sonhadora a este maravilhoso conto, cuja aura tão pessoal e genuína o tornam singular. O autor desenhou e pintou de forma distinta cada capítulo, a fim de dotá-los de um tom muito particular.
Para o primeiro e terceiro capítulo, o autor pintou as pranchas a aguarela. No primeiro utilizando maioritariamente uma só cor, mais aguada e privilegiando um tom escuro a fim de evocar uma certa melancolia que está inerente à história. Já nas cenas passadas em Portugal as cores são mais variadas e quentes, que resultam num desabrochar da história e de Simon também.
No capítulo segundo o seu pai, e ao contrário dos outros dois, o traço do autor é claramente mais forte, a evocar um traço mais sério. É o capítulo mais distinto em termos gráficos, nem que seja pelo facto de a própria coloração não ser em aguarela como nos restantes.
É, sem qualquer dúvida, um dos melhores livros de BD editados este ano e, a sua aquisição, torna-se obrigatória para qualquer apaixonado desta arte.
Publicado originalmente no site da Rua de Baixo
quarta-feira, novembro 07, 2012
Zona Desenha
A “Zona Desenha” já se encontra disponível desde o passado Sábado, 3 de Novembro, onde foi apresentada no festival “Amadora BD”.
Este novo desafio da “Zona” foi lançado a 20 autores, onde cada um teve quatro páginas dedicadas ao seu trabalho. As primeiras duas consistem em duas pranchas de BD originais sob a temática “O desenho e eu” e as restantes duas contêm uma curta biografia, uma entrevista, esboços, fotos do local de trabalho e o URL de cada autor.
Escrevi sobre o livro na RDB (Rua de Baixo), a quem estiver interessado em conhecer melhor, é só clicar aqui.
De salientar que dia 12 de Novembro será inaugurada na Baixa-Chiado PT Bluestation uma exposição dedicada a esta revista que contará com a presença de vários autores e com desenho ao vivo. Esta exposição decorre no âmbito da parceria entre a RDB e a PT e irá manter-se durante uma semana.
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