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segunda-feira, julho 15, 2013

Uma Injecção de Woody Allen II

Woody Allen é um daqueles nomes que quanto mais se conhece, mais se adora. Agora sempre que me dedico a conhecer mais um pouco da sua filmografia os meus planos para ver um filme dele extendem-se em ver mais, como foi o caso este fim-de-semana em que vi três. Um filme de Allen por dia é uma alegria (estou a contar a sexta à noite).

Desde este post já vi o "Take the Money and Run" que é a segunda longa realizada por Allen e trata de uma história hilariante sobre o pior assaltante do mundo, Virgil Starkwell, interpretado, pois claro, por Woody Allen. Aquela cena em que Virgil (caramba até o nome é engraçado) ao assaltar o banco acaba por discutir a sua ortografia com o funcionário é um dos momentos mais icónicos do filme.

De seguida fui ao cinema ver "To Rome With Love", que mesmo estando furos abaixo do anterior "Midnight in Paris" é um filme bastante agradável e que gostei particularmente pela oportunidade de rever Allen na interpretação, que saudades.


Este fim-de-semana dediquei-me então aos seguintes, sobre os quais vou escrever muito breves apontamentos, porque de outra forma acabaria por não falar deles e são filmes que merecem ser espalhados como a boa nova:

Love and Death (1975)

Este é o filme com que Woody Allen encerra uma fase da sua carreira, uma mais ligada ao seu lado comediante. É verdade que o humor é algo que se mantém em quase todos os seus filmes, é parte essencial do seu charme, mas há uma clara distinção entre um Allen pré e pós-Annie Hall. Já o referi aqui, acho que a primeira fase de Allen também é genial, são filmes muito distintos dos futuros "mais sérios", mas que no seu género são do melhor que vi. Dificilmente imagino um filme que encerre melhor esta fase do que "Love and Death" que neste registo é Allen no seu expoente máximo. O filme tem um ritmo de piadas alucinante e, ainda por cima, vai buscar inspiração a alguns clássicos de literatura Russa, como obras de Tolstói e Dostoiévski - aquele diálogo final entre pai e filho sobre as personagens de Dostoiévski é fantástico. Posso estar a ser influenciado por o ter bem presente na memória agora, mas de momento parece-me o melhor filme de Allen pré-Annie Hall, pelo menos em termos de comédias malucas, as chamadas screwball comedies. Também se nota aqui, talvez pela primeira vez, o gosto de Allen pelo cinema de Ingmar Bergman, como se pode ver na sequência final da personagem de Diane Keaton, uma clara homenagem ao filme "Persona". A música, como não podia deixar de ser, tinha de ter uma forte identidade russa e o escolhido para a missão foi: Serguei Prokofiev. Curioso que pensava que "Match Point" era o primeiro filme com aquele teor tão negro de Allen e com uma banda sonora de música clássica em vez do típico Jazz usado pelo realizador. Agora após ter visto "Crimes and Misdemeanors" e este, já confirmei que estava errado nos dois pressupostos.




Sleeper (1973)


Este é o filme anterior a "Love and Death" uma viagem pelo mundo da ficção-científica e o primeiro em que entra Diane Keaton, cuja presença se manteria até "Manhattan". Miles Monroe (Woody Allen) é oriundo de 1973 e foi crio-preservado após complicações no hospital. Para sua grande surpresa vê-se despertado 200 anos no futuro por um grupo de rebeldes cuja missão é destronar o actual regime. Como Miles é o único humano que não está catalogado pode servir como um grande espião para a resitência. É mais um Allen cheio de momentos hilariantes que prima muito pela comédia fisica e também por isso mais reminiscente das comédias mudas - certamente que já quase todos passaram os olhos pela sua figura a imitar um robô. Gostei também particularmente do fim, quando Miles espelha a sua falta de fé no sistema político e na religião, referindo que as únicas coisas em que acredita na vida, são o sexo e a morte. As peripécias são sempre acompanhadas de um bom ritmo Jazz, com o próprio Allen no clarinete.





Manhattan (1979)



Já andava com o olho fisgado neste há muito tempo. Quando se fala de Woody Allen, todos mencionam "Annie Hall" e "Manhattan". Mas também por essa razão quis guardá-lo para ver posteriormente, como algo que guardamos com carinho para ver numa altura especial. Compreendo perfeitamente a paixão que o filme suscita, a bela Manhattan a ser filmada em preto-e-branco e os amores e desamores de Isaac, são Allen no seu melhor e adoro esta sua persona - quase de certeza auto-biográfica - de intelectual hipocondríaco. Allen tem dos melhores diálogos no Cinema, sempre com uma série de referências de valor. Lembro-me do seu primeiro encontro com Mary (Diane Keaton) em que discutem a sobre-valorização de certos autores, uma conversa excelente onde surgem nomes como os de Fitzgerald, Mahler e, claro, Ingmar Bergman. Se Isaac os defende a todos nota-se aqui, novamente, um destaque dado à importância que o autor dá ao cinema de Bergman, um dos realizadores por quem nutre maior admiração. É um filme ao qual é díficil não ficar rendido, Allen escreve muito bem sobre relações humanas e com uma cidade fantástica como pano de fundo. Um dos seus planos mais conhecidos tem de ser o dele ao lado de Keaton sobre a ponte de Brooklyn, após aquela longa e íntima conversa nocturna entre os dois e que foi posteriormente usada para o poster. A introdução ao filme é também uma cena marcante, enquanto visitamos a cidade Isaac tenta escrever o início do seu livro, uma história, que pelo que ele descreve, me parece ser a história de "Manhattan".

quinta-feira, outubro 27, 2011

Uma injecção de Woody Allen

Este fim-de-semana passado foi dedicado a Woody Allen. Um realizador com uma filmografia tão extensa como invejável.




Bananas



Até agora ainda só tinha visto um filme da fase "pré-Annie Hall" de Woody Allen, o Every Thing You Always Wanted to Know About Sex * But Were Afraid to Ask que se trata de um conjunto de divertidíssimas curtas.
Já tinha visto algumas cenas de determinados filmes também e adorado este tipo de humor que Allen praticava.
Bananas foi portanto um sucesso. O filme é hilariante do início ao fim.
Fielding Mellish (Woodie Allen) envolve-se amorosamente com uma fogosa activista. Quando o seu relacionamento termina, Fielding decide partir para a América do Sul até um país em opressão cujo grupo de rebeldes era apoiado pela sua ex-namorada (apoiado ideologicamente).
Fielding acaba por se encontrar envolvido numa disputa governamental entre a força ditatorial governante e a força libertadora rebelde que provam não ser tão diferentes assim. Um filme onde o humor é capaz de atingir níveis de parvoíce lendários (e digo isto como elogio) mas não descurando a crítica.
De salientar ainda que este é um dos primeiros filmes em que participa Stallone, futuro herói de acção, que aparece numa curta mas memorável cena.
Se rir é o mote então este é o filme a escolher.






Crimes and Misdemeanors




Costumo referir que considero Match Point o melhor filme de Woody Allen "pós-2000". Profiro tal afirmação por algumas razões. Nomeadamente porque, na minha opinião, é simplesmente o melhor filme de todo esse leque e porque é também o mais diferente da sua filmografia. O tom é mais negro que o habitual, o jazz é substituído pela clássica e não temos nenhuma personagem a encarnar Woody Allen, seja interpretado pelo próprio ou por outro.
Logo a seguir (depois do Scoop) veio Cassandra's Dream que se toca com Match Point em alguns pontos, principalmente no tom negro. Este não foi tão amado e concordando que não é melhor que o outro é bem capaz de ser o meu segundo favorito dele (de 2000 para a frente volto a lembrar). Ah e reforçou a minha ideia que o Colin Farrel é bom actor.

Isto tudo para dizer que desconhecia que Allen já tinha enveredado no passado por tais caminhos tão obscuros. Crimes And Misdemeanors já o tinha feito uns bons anos antes e com muita qualidade também.
Crimes and Misdeameanors divide-se em duas histórias. Numa temos Judah Rosenthal (Martin Landau) um famoso oftalmologista que começa a ter problemas com a sua obcecada amante e terá de decidir entre quebrar os seus ideais ou quebrar o seu casamento.
Do outro lado temos Cliff Stern (Woody Allen) um realizador de documentários que se vê obrigado a ter de realizar um sobre o seu pedante cunhado (Alan Alda).
No fundo temos aqui dois filmes completamente distintos que se tocam no final numa breve conversa entre a personagem de Landau e de Allen. De salientar que Martin Landau é um actor excepcional e aqui volta a brindar-nos com mais uma excelente interpretação.

Na primeira história temos então o "Match Point". Judah após ter consentido no assassinato da sua amante para preservar a sua vida, começa a ser assombrado pela sua educação judaica. Sente que lhe é impossível retomar a sua vida, pois nenhum ser humano tem o direito de tirar a vida a outro. Como pode alguém recuperar de um acto tão cruel? Tudo isto acaba por culminar numa fantástica resolução do seu espírito humano, onde o tempo assume uma importância fulcral.
A segunda história é uma típica aventura de Woody Allen, onde este deambula entre um casamente falhado e uma paixão intelectualmente estimulante. Tudo isto enquanto ridiculariza o seu cunhado pelo caminho e vai discutindo os problemas da sua vida com aquela que melhor o compreende... a sobrinha.






Whatever Works



A minha maior vontade em ver este filme prendia-se com a curiosidade de ver Larry David trabalhar com Woody Allen. Afinal David é uma lenda televisiva graças ao seu trabalho em Seinfeld, uma das maiores séries de comédia de sempre.
A sua personagem, Boris Yellnikoff, é um reformado professor de física e ávido defensor da teoria das cordas que após um divórcio e tentativa falhada de suicídio se encontra a viver sozinho.
Sozinho mas sempre na companhia da sua arrogância, fobia de doenças e desilusão pelo mundo. Boris diz logo ao início que não é alguém com quem vamos simpatizar, tal como Alvy Singer o fez em Annie Hall, Boris também quebra a barreira que divide espectador e filme. Boris é portanto uma pessoa com uma visão muito pessimista da vida e dos outros, mas sempre com um toque de humor nas suas tiradas certeiras e por vezes letais.
No entanto a sua vida está prestes a sofrer uma severa mudança quando decide dar abrigo a Melodie St. Ann Celestine uma rapariga do Mississipi cuja cultura entra em choque com a de Boris. Com o tempo e a influência de Boris ela acaba por se apaixonar por esta figura que assumiu um papel de mentor na sua vida. E é aí que depois chega a sua família em peso e as coisas ainda se tornam mais divertidas.
Um dos aspectos mais engraçados do filme é ver como a vida em Nova Iorque afecta esta família oriunda do Mississipi que foi educada de uma forma muito religiosa e conservadora.
Claro que o melhor está mesmo em Boris. Vê-lo interagir com os outros é sempre um momento a reter, inlusivé crianças., ninguém escapa aos seus rotativos psicológicos.





Midnight In Paris




Já que estou a escrever um post intensivo deste realizador vou aproveitar para falar do seu mais recente, também visto há pouco tempo.
Eu gostei bastante deste novo filme, que de uma forma leve e descontraída nos faz visitar Paris numa época (duas até) em que a arte fervilhava por todos os poros da cidade, conseguindo juntar nomes como F. Scott Fitzgerald, Pablo Picasso, Ernest Hemingway, Cole Porter, Salvador Dali, Luis Buñuel, T.S. Elliot, entre outros.
Gosto do Owen Wilson, ele é sempre uma mais valia nos filmes do Wes Anderson e gosto dele em Midnight in Paris a fazer de Woody Allen. Sim ele não é o Woody Allen, esse só há um, mas também não tinha de o ser.
É verdade que o filme segue um caminho relativamente óbvio em certos aspectos, a sua relação amorosa por exemplo, mas nunca nada disto me fez sentir que o filme perde por isso, até porque óbvio ou não é um caminho que faz sentido percorrer.
A personagem "pedante" volta a marcar presença, Allen deve adorá-los. Em Crimes And Misdemenors era Alan Alda, aqui é Michael Sheen. Uma daqueles personagens que nos faz questionar como podem ser tão populares entre o meio feminino.
Outra personagem que é preciso salientar é Paris. Uma cidade tão bela como esta dificilmente fica mal como pano de fundo seja em que situação for.
Já agora com um poster tão bonito é curioso que Van Gogh não surja a dada altura no filme, ao lado de Toulouse Lautrec. Era a oportunidade perfeita.