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segunda-feira, 15 de março de 2021

a ladra

 


Paris medieval e Paris dos nossos dias, a mesma jovem em dois mundos paralelos. Linn, inadaptada e sobredotada é uma ladra talentosa que se apodera de uma medalha do deus Aton, de que não se conhecia qualquer representação desde que Amenófis IV ou Akhenaton (sempre ele) operara a revolução monoteísta no Antigo Egipto... Les Rivières du Passé – La Voleuse, texto de Stephen Desberg, desenhos de Yannick Corboz, Éditions Daniel Maghen, Paris, 2021.

«Leitor de BD»

sábado, 16 de janeiro de 2021

«O Mistério da Grande Pirâmide» (2)




A egiptologia foi pasto para o imaginário ocidental, da campanha militar de Napoleão à campanha arqueológica de Howard Carter, do espírito científico que deu Champollion às aldrabices ditas esotéricas, e de Hercule Poirot a Indiana Jones,

O Mistério da Grande Pirâmide de Jacobs mistura sabiamente os diversas aspectos deste fascínio, como deixa entrever Jacobs na autobiografia Un Opera de Papier – Les Mémoires de Blake et Mortimer (Gallimard, 1981). Assim, para além do lixo impresso em qualquer gazeta de baixa extracção, muniu-se dos autores clássicos, Heródoto, Estrabão, Abdalatife de Bagdade, e dos modernos como Maspero, citado no texto, ou Mariette – “o amigo íntimo de todas as múmias”, como lhe chamou Eça de Queirós, que com ele se cruzou na Ópera do Cairo, em 1869, onde estava para assistir à inauguração do Canal de Suez. (Para registo: Mortimer passa pelo mesmo hotel em que Eça se hospedou, o Shepheard, mas não consta que o cientista conhecesse a obra do escritor português, o drama dos países periféricos...).

O plot de O Mistério da Grande Pirâmide é pois condimentado com tudo isto: arqueologia (Mortimer em férias, encontra-se com o seu amigo, o Prof. Ahmed, director do Museu do Cairo), o romanesco policial (Olrik surge como testa de uma bem organizada rede de tráfico de antiguidades egípcias) e o mistério: um compartimento secreto até então inviolado, a “Câmara de Hórus”, que esconderia o tesouro e o legado de Aquenáton.

Amenófis IV, faraó da XVII Dinastia, reinando entre 1370 e 1357 a.C. operou uma revolução religiosa no Egipto faraónico: o culto monoteísta de Áton, o deus sol, alterando o nome para Aquenáton, o filho ou o instrumento de Aton, bizarria que a classe sacerdotal não iria deixar passar incólume, assim que o faraó herético fosse prestar contas ao Criador – e, na verdade, o povo também não aderiu a esta mudança. Há quem procure explicar tal desvio pela provável ascendência semita de Aquenáton; as feições do rei, podemos constatá-lo, são assaz peculiares dentro do fenótipo egípcio e a verdade é que a presença hebraica no país é histórica, não apenas pelos contactos comerciais como também pelo domínio dos Hicsos, povo semita, cerca de dois séculos antes. Além disso, mais espicaça a nossa curiosidade a circunstância de a mulher de Aquenáton ser Nefertiti, a mais bela das egípcias antes de Cleópatra, como nos revela o busto no Museu de Berlim, e as tocantes manifestações de afecto entre o casal que chegaram até nós.

Blake e Mortimer, depois de Olrik, terão acesso a essa câmara guardada desde então por descendentes do escriba do faraó, Paatenemheb, o último dos quais aparece na capa do segundo tomo. Será a escolha deste controverso faraó como mola da narrativa, que, quanto a nós, dará a esta aventura de Blake e Mortimer o plus que ainda hoje, passados setenta anos da sua estreia numa revista juvenil, mantém o interesse acrescido numa das grandes séries da BD mundial.


O Mistério da Grande Pirâmide,

Vol. 2. A Câmara de Hórus

texto e desenhos: Edgar P. Jacobs

edição: Livraria Bertrand, Venda Nova, 1982


terça-feira, 5 de janeiro de 2021

«O Mistério da Grande Pirâmide» (1)

 


Criada por Edgar Pierre Jacobs (1904-1987) e estreada em 1947 no número inaugural da revista Tintin, Blake e Mortimer é uma série que estará sempre na mão que conte pelos dedos as obras mais notáveis do género BD. Relatos de aventuras, envolvendo a espionagem, a ciência e também a História: ou como escreveu o sociólogo Jean-Bruno Renard, uma mistura de Júlio Verne, H. G. Wells e Maurice Leblanc, o criador de Arsène Lupin, faltando dizer que será isso tudo e algo mais, singularizado pela grande arte do autor, um antigo barítono cuja carreira fora interrompida pela guerra de 39-45.

Encontramos pela primeira vez os dois gentlemen britânicos – o Professor Phillip Angus Mortimer, escocês nascido na Índia, físico nuclear, inventor, arqueólogo amador, desportista, e o galês Sir Francis Percy Blake, capitão da RAF e futuro director do MI5 –, em O Segredo do Espadão, no Tibete, onde impera Basam-Damdu, o ditador que fará deflagrar a III Guerra Mundial, ainda a anterior terminara havia dois anos.… E contra eles, o Coronel Olrik, aventureiro e criminoso internacional, com provável origem nos países bálticos, cria Jacobs, criador de mais esta criatura cujo rosto em si mesmo fora inspirado...

Se todos as histórias se revestem de grande qualidade, os dois volumes de O Mistério da Grande Pirâmide (estreia em 1950 nas páginas daquela revista) e A Marca Amarela (publicada entre 1953 e 54) são consideradas as obras-primas. Em Portugal, ambas foram publicadas quase de seguida no Cavaleiro Andante, de Adolfo Simões Müller, cujos contactos com a Bélgica, vinham já de antes da guerra, nomeadamente com Hergé. Perfeccionista, Jacobs foi uma espécie de Flaubert da BD. O romancista francês esgotava os assuntos: para escrever Salammbô leu tudo sobre Cartago, autores antigos e modernos, consultou especialistas, foi à Tunísia, às ruínas púnicas. Jacobs procedia da mesma forma no que respeita à documentação e planificação do seu trabalho, que executava sempre sozinho. Há uma anedota reveladora dessa obsessão pela verosimilhança e rigor documental: em 1971, a revista publicava semanalmente As Três Fórmulas do Professor Sato, até que, para desespero da redacção, Jacobs resolveu que precisava de conhecer os modelos dos caixotes do lixo de Tóquio, imagens cujo acesso não era fácil à época – decerto que um guia regular da cidade não traria fotos da imundície urbana… Sem retomar o trabalho enquanto não chegassem imagens fiáveis, verá afinal que os nauseantes recipientes eram iguais aos de Nova Iorque, esses bem à mostra, até para quem os não quisesse ver... É à luz desta prática que o nosso autor situa Blake e Mortimer no Egipto do último faraó, Faruk I, um monarca manobrado pelos ingleses que controlavam o país, pálida sombra do fundador da sua dinastia, albanesa, Mohamed Ali, e um enigma envolvendo um outro soberano, a milénios de distância, o controverso Aquenáton mais um espólio que ficou por encontrar...

(continua)

O Mistério da Grande Pirâmide,

Vol. 1. O Papiro de Máneton

texto e desenhos: Edgar P. Jacobs

edição: Verbo, Lisboa, 1969

«Leitor de BD»