terça-feira, 2 de setembro de 2025
segunda-feira, 3 de janeiro de 2022
leituras de 2021
“Leituras” e não livros de 2021, dá título a esta crónica, pois é impossível ter acesso a tudo; além disso, combinar novidades e clássicos foi sempre o nosso propósito.
A grande banda desenhada pode e deve confrontar-se, sem complexos de inferioridade com os parentes mais próximos, a literatura e o cinema, no que ambos carregam de originalidade na abordagem das paixões humanas, como da técnica muito própria da narrativa: o estilo literário, o ritmo e a musicalidade, têm aqui a sua tradução vinheta a vinheta; a montagem cinematográfica encontra o equivalente na chamada découpage ou planificação dr cada prancha, como num storyboard; ou ainda o formato das séries televisivas ou do antigo folhetim que se ia publicando nos jornais, também com um paralelo nas famosas séries em continuação, em que o interesse do leitor deverá ser despertado para prosseguir no dia ou semana seguintes. Os doze títulos que se seguem são todos grande BD.
O Burlão nas Índias, de Ayroles e Guarnido: lemos o peso da desigualdade, a pilhagem e a dominação do outro, tal como sucede em Tex – Patagónia, de Boselli e Frisenda; em A Fera, de Zidrou e Frank Pé, sobressai o tema da compaixão e do preconceito; O Último Homem, por Félix e Gastine, o valor da amizade e da lealdade e ainda as implicações do progresso nas vidas de cada um; o apelo do sangue e a condição da velhice estão presentes em Ghost Kid, de Tiburce Ogier, e Monsieur Vadim, de Ghief, Mertens e Tanco; Gus, de Christophe Blain, e o desvario das relações humanas, a que também assistimos em Tu És a Mulher da Minha Vida, Ela a Mulher dos Meus Sonhos, de Brito e Fazenda; a denúncia da guerra, do racismo e a importância da liberdade de imprensa em Mademoiselle J. – Je ne Me Marierai Jamais, de Sente e Verron, e em L'Envoyé Spécial, com os novos autores dos Túnicas Azuis, BéKa e Munuera – a segregação também presente num notável Lucky Luke – Um Cowboy no Negócio do Algodão, de Jul e Achdé, também pelo humor; a precária condição humana agigantada em face dos elementos sobressai em Judea, de Diniz Conefrey sobre texto de Joseph Conrad.
Entre tantos outros que já não cabem aqui, fautores de comédias de enganos, e assombros vários diante da violência da História, os desenhos, do realista ao abstracto, do grotesco ao disneyesco, a prancha audaz, toda a gama de planos, cores aplicadas directamente com pincel ou espalhadas por computador – aqui fica um balanço, num anos de leituras de argumentistas como A.-P. Duchâteau, Alejandro Jodorowsky, Ed Brubaker, Henri Vernes, Jean-Michel Charlier, Lewis Trondheim; e desenhos de Émile Bravo, François Boucq, Mittëi, Moebius, Victor Hubinon; e autores completos como Bob de Moor, Dav Pilkey, E. C. Segar, Greg, Will Eisner. Foi um ano bom.
1. O Burlão nas Índias, Alain Ayrolles e Juanjo Guarnido (Ala dos Livros).
2. A Fera, Zidrou e Frank Pé, (A Seita)
3. O Último Homem, Jerôme Félix e Paul Gastine (Gradiva)
4. Gus – Nathalie, Christophe Blain (Gradiva)
5. Ghost Kid, Tiburce Ogier (Grand Angle)
6.Mademoiselle J. - Je ne Me Marierai Jamais, Yves Sente & Laurent Verron (Dupuis)
7. Monsieur Vadim #1 – Arthrose, Crime & Crustacés, Gihef, Didier Mertens e Morgann Tanco (Grand Angle)
8 . Les Tuniques Bleues – Envoyé Special, BéKa e Munuera (Dupuis)
9. Lucky Luke, Um Cowboy no Negócio do Algodão, Jul e Achdé (Asa)
10. Tu és a Mulher da Minha Vida, Ela a Mulher dos Meus Sonhos, Pedro Brito & João Fazenda, 2.ª ed. (A Seita e Comic Heart)
11. Tex – Patagónia, Mauro Boselli & Pasquale Frisenda, 2.ª ed. (Polvo)
12. Judea, Diniz Conefrey (Pianola Editores).
terça-feira, 21 de dezembro de 2021
a vez de Nadine
Ric Hochet, série policial e detectivesca criada em 1958 por André-Paul Duchâteau (1925-2020) e Tibet (Gilbert Gascard, 1931-2010) para a revista Tintin. É do melhor que se fez no género. Ao longo de 78 álbuns – o último é publicado no ano da morte de Tibet –, conta-nos de um jornalista irrequieto e glamoroso constantemente partícipe em thrillers levados da breca, cuja namorada, Nadine, é sobrinha do comissário de polícia Sigismond Bourdon – um trio que resulta sempre nos quadradinhos. Brevemente trataremos da série canónica, porque hoje o álbum pertence aos “Novos Inquéritos de Ric Hochet”, A vaga de revisitações que felizmente ocorre na BD franco-belga não podia deixá-lo de fora, sendo, em 2015, a personagem entregue a Zidrou (Anderlecht, 1962) – esplêndido argumentista de quem já aqui falámos algumas vezes – e a Simon van Liemt (Aix-en-Provence, 1974).
Em Comissaire Griot (2021), Zidrou situa temporalmente a acção em 1970 – uma inovação, uma vez que Ric Hochet pertence ao grupo de personagens que não envelhece, acompanhando o tempo presente. Motivado por um intercâmbio estabelecido entre as polícias de França e do Senegal, Bourdon desloca-se por dois meses a Casamansa, sendo substituído pelo comissário Ousmane Lamine Cissoko Dior, um gigante africano quase sempre irónico com os equívocos de teor racista de que é alvo, numa sociedade parisiense habituada a ver nos filhos das ex-colónias os concidadãos (?) da base da pirâmide social. Zidrou vai aqui de encontro ao espírito do tempo, fazendo-o do nosso ponto de vista, pelo ângulo certo, o do humor.
Outro assunto na ordem do dia é o do empoderamento (palavra horrível) feminino. Na série canónica, estreada há mais de sessenta anos, Nadine era uma fillette graciosa que servia para aligeirar a atmosfera pesada da trama, algo inconcebível actualmente. Agora vive com Ric, foi admitida como repórter no mesmo jornal em que este trabalha e já é não apenas a namoradinha do herói , mas uma parceira bastante mais expedita que o companheiro nos avanços amorosos, o que é sempre uma alegria para o olhar. De resto, nunca se viu tanta roupa interior nestas histórias outrora para rapazes bem comportados. Não tanto pelo que estarão a pensar – não de todo erradamente – ,mas porque um dos casos que aflige a polícia é o de um certo “Cupido”, que ataca mulheres na casa dos trinta, quarenta anos, atando-as a uma cadeira, cravando-lhes no coração um punhal, no qual se prende uma carta que lhe é destinada, sempre entoando uma canção romântica. Paralelamente, o cadáver de um velho exorcista é encontrado pela porteira do prédio, com o coração arrancado e depositado na mão, que o médico legista verificará não corresponder ao da vítima... Ao mesmo tempo, em África, Bourdon, em choque cultural, anseia pelo regresso.
Resumindo: um Ric Hochet aggiornato, mas secundarizado por uma esplêndida Nadine e pelo próprio comissário Dior (sem relação de parentesco com a famosa casa, como gosta de dizer...). Van Liemt cumpre com brio. Considerando estar a substituir Tibet, não é nada pouco.
Les Nouvelles Enquêtes de Ric Hochet t. 5 – Commisaire Griot
texto: Zidrou
desenhos: van Liemt
edição: Le Lombard, Bruxelas, 2021
terça-feira, 30 de março de 2021
o animal
Pegue-se numa personagem popular de BD criada há quase 70 anos (1952) destinada a um público infanto-juvenil, hoje a caminho da terceira idade, cpm características inusitadas: de indefinição morfológica e problemática classificação taxonómica, entre o símio e o felino, com pelagem às manchas, como um leopardo, cauda preênsil com mais de oito metros, e além disso marsupial...; a ferocidade aterradora se hostilizado, torna-o o rei da floresta da fictícia Palómbia; mas é dócil por temperamento e senhor dum apetite voraz e omnívoro. Um marsupilami, não é verdade?
André Franquin (1924-1977) introduziu-o no álbum de Spirou e Fantásio, Os Herdeiros, um clássico, e, a partir de então tornou-se omnipresente até o autor abandonar a série. Spirou prosseguiu sem este extraordinário coadjuvante até a Dupuis comprar os direitos da personagem, integrando-a de novo em 2015, em La Colère du Marsupilami, de Yoann e Vehlmann.
No livro desta semana, La Bête / O Animal, trata-se dum outro marsupilami. No porto de Antuérpia, em finais de Novembro de 1955, um barco atracado carrega no bojo um cenário de pesadelo: animais exóticos traficados da América do Sul não resistiram na maioria às condições do transporte decorrentes de uma avaria que obrigou o navio a parar duas semanas ao largo do Brasil. Entre os sobreviventes, uma estranha criatura que não se deixa ver, confinado a um canto escuro. Como matou a fome e a sede? Não sabemos. E o capitão, o armador e o secretário que desceram ao porão também não saíram para contar. Evade-se o animal que erra até aos arredores de Bruxelas. Aí, desfalecido, será encontrado por Franz, ou François para os demais, um rapaz de dez anos que tem uma especial habilidade para lidar com todos os bichos, que recolhe quando os encontra maltratados. Talvez por François, filho de mãe solteira e fruto da união desta com um soldado germânico durante a ocupação, ser alvo de bullying, como agora se diz, por parte dos colegas, tal como a mãe é olhada de lado no mercado onde ganha a vida a vender bivalves. Sabemos como foi a purga das mulheres que dormiram com o inimigo, imagens que ninguém esquece. Há porém o Professor Bonifácio, bonacheirão com os traços de Franquin (uma homenagem), heterodoxo na pedagogia, também ele vítima da guerra, por outra razão: a jovem noiva cansou-se de esperar quando os soldados belgas derrotados partiram em cativeiro. A BD mudou muito desde há 70 anos...
A forma como Zidrou (Bruxelas, 1962 – temos falado nele) pegou neste ícone é apanágio só dos grandes argumentistas; Já Frank Pé (Ixelles, 1956) é um artista com um lápis abençoado, fazendo o que quer dos seus riscos. Notável cada vinheta, num traço semi-realista, com cor directa suavíssima.
La Bête é um livro excepcional que bem merece uma edição portuguesa, assim as grande editoras não andem a dormir ou as pequenas tenham algum oxigénio durante o estrangulamento viral que nos assola.
La Bête
texto: Zidrou
desenhos: Frank Pé
edição: Dupuis, Charleroi, 2020
quinta-feira, 31 de dezembro de 2020
12 livros de 2020
No ano em que o maior vilão deu pelo nome de SARS-CoV-2, 12 dos livros aqui registados:
Álbum do ano: O Homem que Matou Lucky Luke, de Matthieu Bonhomme (A Seita). Recriação fascinada e fascinante dum ícone, com o melhor preito de homenagem, que não é o da cópia servil. Sabemos também por que razão Luke deixou de fumar.
Frase do ano: “Abandonados por Deus, era inevitável que o Diabo se interessasse por nós...” Fala de Duke em A Última Vez que Rezei, desenhos de Hermann, texto de Yves H. (Arte de Autor). Um processo de autodescoberta que estamos a acompanhar, uma luta individual da ética com o instinto. Hermann, como um dos maiores autores de BD vivos, Yves H. procurando servir o pai com argumentos à altura do talento que o fez parir.
Prestidigitação do ano: Zardo, de Tiziano Sclavi e Emiliano Mammucari (Sergio Bonelli), argumento a confundir deliberadamente o leitor, em que nada é o que parece, a começar pelo protagonista.
Heróis do ano: de carne e osso, Maurício Hora, cuja história André Diniz pôs em quadrinhos em Morro da Favela (Polvo), em segunda edição aumentada, na companhia de D. Iracema, um sorriso colorido num meio dum certo inferno.
Sex appeal do ano: a volúpia divide-se entre Blandine, a stripper ex-hospedeira, irmã gémea de uma conceituada harpista clássica, ovelha negra do par, em L’Instant d’Aprés, de Zidrou e Éric Maltaite (Dupuis) ou a prattiana Lady Darksee, bela, vaporosa, destemida, insolente, em Raven, de Mathieu Lauffray (Dargaud), história de piratas.
Patife do ano: Denis, “o executor”, assassino em missões oficiais, que se descobre com um resquício de consciência: Le Tueur –Affaires d'État 1. Traitement Négatif, por Matz & Jacamon (Casterman).
Escapismo do ano: a fantasia histórica de Colt & Pepper – Pandemonium à Paragusa, texto de Darko Marcan, desenhos de Igor Kordej (Delcourt), América, século XVII, coabitação entre monstros e homens, tiranos e sublevados.
Maluquice do ano: as desventuras de Mafaldo Limparrim na vila imaginária de Poço Novo (Alto Minho), em O Penteador, desnovela gráfica e insana de Paulo J. Mendes (Escorpião Azul).
Vírus do ano: o SARS-CoV-2, foi invectivado pelo catalão Max em Manifestamente Anormal (Panfleto e Catarse), diário do confinamento em que ninguém escapa (separata do jornal A Batalha, #288-289, Centro de Estudos Libertários). Mas os vírus não se ficaram por aqui: a epidemia de febre amarela foi este ano recuperada com a reedição de No Lazareto de Lisboa (1881), de Rafael Bordalo Pinheiro (Pim! e Museu Bordalo Pinheiro), enquanto que, em narrativa pós-apocalíptica, um misterioso organismo vindo do centro da terra destruiu todos os metais, voltando a Humanidade à madeira e ao couro: Le Convoyeur [o entregador], argumento de Tristan Roulot e desenhos de Dimitri Armand (Le Lombard).
O Homem que Matou Lucky Luke, de Mathieu Bonhomme (A Seita)
Duke – A Última Vez que Rezei, por Hermann & Yves H. (Arte de Autor)
Raven 1. Némesis, de Mahtieu Laufray (Dargaud)
Le Convoyeur #1 . Nymphe, de Roulot & Armand (Le Lombard)
Manifestamente Anormal, de Max (encarte de A Batalha).
O Penteador, de Paulo J. Mendes (Escorpião Azul)
Zardo, por Sclavi & Mammucari (Sergio Bonelli Editore)
Le Tueur – Affaires d’État #1. Traitement Négatif, de Matz & Jacamon (Casterman)
L’Instant d’Aprés, de Zidrou & Maltaite (Dupuis)
Colt & Pepper – Pandemonium à Paragusa, por Markan & Kordej (Delcourt)
Morro da Favela, de André Dinis, 2.ª ed., aumentada (Polvo)
No Lazareto de Lisboa, de Rafael Bordalo Pinheiro (Pim! Edições e Museu Bordalo Pinheiro)
quarta-feira, 30 de setembro de 2020
Spirou (1 a 5) e o Marsupilami
Spirou – 1. Guerra Fria: o Conde de Champignac foi raptado pelo KGB. Os soviéticos precisam da colaboração do excêntrico sábio na concepção dum vírus do comunismo, a disseminar pelo mundo inteiro. Uma piscadela de olho a Tintin?... Spirou chez les Sovietes, por Fabrice Tarrin e Fred Neidhart, Dupuis 2020.
Spirou – 2. Intriga internacional no Pacific Palace, hotel onde se refugia um ditador fugido da Europa Oriental, e com ele a jovem filha, a que Spirou também não ficará indiferente. Para tudo se tornar mais estranho nesta espécie de huis clos em extremo tensional, Fantásio é também groom, e como sempre desastrado. Por Christian Durieux, em curso de publicação no magnífico semanário de BD que leva o seu nome.
Spirou – 3. A dupla Vehlmann & Yoann, uma das boas que lhe assina as histórias, prossegue com o inofensivo “Supergroom”.
Spirou – 4. Mas talvez a grande dupla que pegou neste ícone belga tenha sido Tome & Janry, criadores também da série divertidíssima do Pequeno Spirou. Com a morte recente do argumentista, Janry prossegue com os gags.
Spirou 5. Entretanto, Émile Bravo desunha-se com a terceira parte da tetralogia L'Espoir Malgré Tout, que temos vindo a acompanhar. O álbum terá 112 páginas.
...e o Marsupilami. Mas o universo de Spirou é inesgotável. Antes de Champignac e Zorglub terem as sua próprias séries, o estranho animal criado por Franquin em 1952 é assegurado por Batem, entre outros. Mas ainda outra dupla, Zidrou e Frank Pê propõem uma outra leitura, também em curso de publicação autónoma, brinde aos assinantes da revista.