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quarta-feira, 21 de julho de 2021

Maurício de Sousa: outros mundos


Certo dia, por volta de 1970, um miúdo saía com a avó da tabacaria do Cruzeiro, no Estoril, levando uma revista aos quadradinhos com personagens desconhecidas. Na capa, um elefante verde bonacheirão servia de árvore de Natal, enquanto umas crianças, mais ou menos da sua idade, se divertiam a colocar gambiarras coloridas em torno do paquiderme. Era uma Mônica, com acento circunflexo, e lá dentro, universos diferentes, posto que aparentemente menos fantasiosos que uma Patópolis ou a Bedrock dos Flintstones. Começado o folheio, rapaz emigrou a salto e a salvo das chatices do universo adulto, e por lá foi ficando.

Maurício de Sousa (Santa Isabel, SP, 1935) é um criador de mundos, desde que em 1959 se estreou na paulista Folha da Manhã, e a capa da revista, que o miúdo guardou, representava uma espécie de crossover de dois dos habitats mauricianos: a Turma da Mônica, a menina dona da rua, de incisivos salientes, vestido vermelho e um eterno coelho de peluche com que punha k.o. os rapazes que a desafiavam – Cebolinha, cinco fios de cabelo, trocando os erres pelos eles; Cascão, alérgico a água, a glutona Magali, Franjinha, um pouco mais velho, dono do Bidu, um cão azul, Zé Luís, caixa d'óculos e engenhocas, entre outros – e Jotalhão, o protagonista da Turma da Mata, juntamente com Raposão, Coelho Caolho (118 filhos), Tarugo, tartaruga míope numa carapaça descapotável, Rita, a formiga apaixonada por Jotalhão, o Rei Leonino, num ambiente de fábula que não se esquece. Acresça-se Chico Bento, um menino caipira, versão benigna e infantil do inesquecível Jeca Tatu, de Monteiro Lobato; os hippies do momento, Rolo e Tina; Horácio, um pequeno tiranossauro meditabundo; Piteco e Tuga, um casal pré-histórico; e o Astronauta, viajante solitário pelo Cosmos, outra das suas grandes criações, foram a base para Maurício se tornar uma espécie de Walt Disney brasileiro, com o seu merchandising, os seus parques de diversões, a sua produção em série.

Do rol inicial falta referir a Turma do Penadinho, estrela do livro de hoje. Surgido em 1963, contracenando com Cebolinha, e então chamado Fantasminha, Maurício muda-lhe o nome e o cenário: lugar para personagens do outro mundo é o cemitério, e com ele outros seres, não de terror, mas de “terrir”, como se adverte na contracapa: Cranícola, um verdadeiro crânio, Muminho, espécime do Antigo Egipto, Dona Morte, de ar compassivo e gadanha ao ombro, os inevitáveis Zé Vampir, Lobi e Frank, entre outros. As Melhores Tiras do Penadinho coligem pequenas histórias recentes, nas quais, por entre muitas referências especificamente brasileiras, do folclore (a Mula sem cabeça), a ocorrência episódica dum vocabulário espírita ou um quotidiano violento que todos conhecemos, se brinca com o que de mais sério e assustador impende sobre as crianças: a morte. Fazer com que esbocem sorrisos em matéria tão dramática e traumatizante é sem dúvida um feito.


As Melhores Tiras do Penadinho, vol. 1

autor: Maurício de Sousa

edição: Maurício de Sousa Editora e Panini Books, São Paulo, 2008

«Leitor de BD»


quarta-feira, 11 de novembro de 2020

quadrinhos contra o preconceito


 Jeremias, o menino negro da Turma da Mônica, objecto de releitura na colecção “Graphic MSP”, como tem sucedido com as restantes personagens de Maurício. Nova edição de um livro publicado em 2018, texto de Rafael Calça, desenhos de Jefferson Costa, mostrando as adversidades por que passa Jeremias – e com ele todas as crianças na mesma situação –, devido à cor da pele, e de como a ultrapassou. Jeremias – Pele, Panini, São Paulo, 2020.

«Leitor de BD», jornal i

quarta-feira, 29 de julho de 2020

vida e morte

Uma das qualidades de Maurício de Sousa é a forma com que desde cedo abordou assuntos não evidentes para o público infanto-juvenil a que se destinava. Penadinho e a turma do cemitério é um desses exemplos de humor bem conseguido, abordando um tema pesado. Na colecção Graphic MSP, também da Panini, a dupla Paulo Crumbim e Cristina Eiko reescreve este mundo fantasma, num livro intitulado Vida.



quinta-feira, 23 de abril de 2020

Cascão lava as mãos

E a Covid 19 fez o milagre. Cascão, o rapaz mais sujo da Turma da Mônica, ultrapassou a aversão à água, em nome da saúde de todos. O feito pode ser comprovado gratuitamente no sítio desta patota que acompanhou o crescimento de muitos de nós: Turma da Mônica – Lavar as Mãos Salva Vidas, Maurício de Sousa Editora, 2020 – http://turmadamonica.uol.com.br/

segunda-feira, 20 de abril de 2020

Cascão outra vez

Quando as produções de Maurício de Sousa pareciam ter entrado num rame-rame – mais de meio século a produzir historinhas, é obra – eis que em 2012 alguém por lá teve a ideia de propor a releitura daqueles universos, convidando gente de fora, e em especial autores jovens. Deu-se assim início à colecção Graphic MSP, e os resultados não poderiam ter sido melhores. Em Casão – Tormenta, de Camilo Solano (Panini. São Paulo, 2020), vemos a ida contrafeita, por uns dias, do rapaz sujinho para casa de um tio, no interior rural. Ao contrário do aborrecimento previsto, Cascão irá descobrir mundos insuspeitados.