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terça-feira, 15 de fevereiro de 2022

Will Eisner, um escolhido


Filho de imigrantes judeus, nado e criado no Bronx, Will Eisner (1917-2005) é um dos nomes maiores da 9ª Arte, sendo-lhe atribuído a cunhagem do termo graphic novel (novela ou romance gráfico). Enquanto autor, o longo percurso é marcado pela criação de Sheena, Rainha da Selva (1937), uma versão feminina de Tarzan, e, principalmente, The Spirit, publicado entre 1940 e 1952, um esplêndido policial de que falaremos em breve, que firmou Eisner como um autor de primeiríssima água. Após um período dilatado de afastamento da BD comercial, em 1978 publica um conjunto de quatro narrativas, Um Contrato com Deus e Outras Histórias de um Prédio, o livro que aqui nos traz.

Entre os comics infantis, as sagas de super-heróis exploradas à outrance e uma resposta underground e satirizante, havia na América pouco ou nenhum espaço para uma forma de expressão madura, não obstante nomes como Winsor McCay (Little Nemo), Harold Foster (Príncipe Valente) ou Charles M. Schulz (Peanuts), autores cujo génio fazia com que as respectivas obras atravessassem as fronteiras espessas dos quadradinhos. Eisner tinha consciência da especificidade da arte sequencial, que não se confundia com qualquer outra, começando assim a explorar uma forma de comics literários, até então quase um oxímoro, como salienta num prefácio de 2004. Através dela tudo podia dizer-se, como num filme ou um romance, na sua gramática própria.

Em Um Contrato com Deus (o resto do título perdeu-se na edição portuguesa), o autor oferece-nos evocações infanto-juvenis da vivência num prédio do Bronx, na ressaca da Grande Depressão de 1929. Um prédio, como um paquete de longo-curso ou até uma composição num caminho-de-ferro continental, é um habitat extraordinário para a criação literária, como se sabe, uma mina para quantos observam e trabalham o comportamento humano. E ele aí está, cru e humaníssimo a desfilar diante dos olhos. Na história que dá título ao livro, Frimme Hersch era um rapaz de tal modo altruísta que os aldeões vizinhos julgavam-no um escolhido de Deus. E assim, após mais um pogrom nessa Santa Mãe Rússia que periodicamente se dedicava a massacrar judeus, aqueles quotizam-se e enviam-no para a América. Antes, Frimme fixara na pedra um contrato com a divindade, em que se comprometia a dedicar a vida ao Bem. Um dia, já no Bronx, uma menina recém-nascida é depositada à sua porta, acomodada numa caixa de laranjas. Um sinal, certamente, e Frimme cria-a extremosamente como filha, até que uma doença arrebata-a, na flor da idade. O homem faz então a mesma pergunta que tantos judeus dirigiram ao longo da História à cruel potestade, da expulsão e conversão forçada nos reinos peninsulares, passando pelo suplício do Capitão Dreyfus, ao limiar das câmara de gás: “Se Deus exige que os homens honrem os seus compromissos / não está ele também sob compromisso??” Eisner perdera a única filha, de dezasseis anos; a agonia de Hersch é a sua, com um final perturbador. Mas o encantamento não acaba aqui: na próxima semana haverá mais Eisner.

O melhor realismo, desde Balzac e Dickens, (o primeiro, semideus de Eça de Queirós, o outro, nas palavras do escritor português, deus e semi), foi sempre o que considerou o homem como um amontoado visceral composto por coração, cabeça, estômago e espírito – o espírito que tudo aquilo misteriosamente produz, e que nalguns seres acontece suscitar o que um maravilhoso filósofo um pouco mais antigo qualificou como “necessidade metafísica” – algo que também assiste (ainda mais?…) aos ateus.

Will Eisner, ao assumir-se como repórter gráfico que documenta a angústia da existência e da subsistência, oferece uma obra que cala mais fundo em todos quantos pensam que a arte deve ter coisas a dizer para além de uma auto-referenciação excessiva, narcísica ou comiserada. “Gosto do realismo ou da realidade.” – escreveu Alexandre Pinheiro Torres (1923-1999), romancista e crítico de convicções fortes, por vezes erradas, e que não era para brincadeiras – “Sabe-me a maçã. Como quatro por dia.” Falar do outro é sempre uma forma de empatia; o que não interessa se despreza, ignora-se. Nesse recanto da Grande Maçã que foi e é o Bronx, Eisner conduz-nos pelas aspirações dos seus bonecos tão reais, sempre com empatia.

Três narrativas seguem-se a “Um contrato com Deus”, todas esplêndidas. Em “O cantor de rua”, Eisner mostra como a vida prega partidas a quem fica a vê-la passar. Durante a Grande Depressão, havia homens a cantar árias nos becos dos prédios, esperando que lhes atirassem moedas. Figura perturbadora da infância que sensibilizava o coração romântico das mulheres, enquanto os maridos desconfiavam tratar-se de um qualquer batedor dum bando de larápios, Eddie é um desgraçado marcado pelo álcool e sem emprego,sequer para marido e pai. Um dia, o acaso cruza-o com uma “diva” decadente e retirada, que crê poder regressar à ribalta apadrinhando aquela bela voz. Mas, para Eddie, mesmo com o acaso a ajudar, os bolsos estão sempre rotos. “O zelador”, figura que representava o senhorio perante os locatários, por isso normalmente malquista, é uma história pungente de miséria moral, das coisas mais sórdidas que já nos foi dado ler, dum zelador alemão num prédio habitado por judeus. E é claro que a sordidez não está apenas num dos lados. Finalmente “Cookalein”, uma narrativa autobiográfica ternurenta e melancólica, deliciosa comédia de enganos, fala-nos das férias dos pobres, quando este iam para o campo passar uma semanas em casas particulares – como as dos Waltons (quem se lembra?…) –, cujos quartos eram arrendados por família e a cozinha era de uso comum, onde se faziam conhecimentos, tentava pescar-se noivos ricos e uns quantos adolescentes de sorte viviam a iniciação sexual.

Will Eisner retrata-se com os traços do Spirit – e a idade de ouro dos comics revive nestas páginas.


Um Contrato com Deus

texto e desenhos: Will Eisner

edição: Levoir, Lisboa, 2015

«Leitor de BD»,

aqui e aqui


quarta-feira, 2 de fevereiro de 2022

palavras a mais



 Na BD existem os artesãos, os artistas e os fora-de-série, inimitáveis, apesar das tentativas de emulação ou cópia, cuja marca permanece para sempre. Nos quadradinhos há centenas de bons ou muito bons artistas; mas um Will Eisner ou um Jean Giraud estão num patamar a que a maioria não acede.

Giraud (1938-2012), explode em 1963 com a abreviatura Gir, assinando um grande fresco intitulado Fort Navajo, cujo protagonista é o célebre Tenente Blueberry – tantas vezes já por aqui referido, mas ainda não aprofundado. Assistente de Jijé (1914-1980), na série Jerry Spring, que indica o nome de Giraud para trabalhar o argumento de Jean-Michel Charlier (1924-1989), dele dirá Tibet (Chick Bill, Ric Hochet), numa entrevista já aqui referida, que Gir fazia Jijé melhor que o próprio...

Moebius, é o pseudónimo que adopta na mesma época, mas só na década seguinte é assumido como uma via paralela, principalmente com o esplêndido Arzach (1975), com a prevalência de um onirismo liberto, que se contrapõe ao realismo cada vez mais sujo, cada vez mais belo, de Blueberry. Mas apesar de os dois trajectos se distinguirem bem, é interessante ver como, ao mesmo tempo, Gir importa de Moebius alguma tonalidade e fluidez. Embora se desempenhasse bem como argumentista, inclusivamente em Blueberry, após a morte de Charlier, o encontro com o chileno Alejandro Jodorowsky (Tocopilla, 1929) ocorre pouco depois de Arzach, e vem dar a Moebius o nefelibata que lhe faltava, e com quem assinará, entre outros trabalhos, O Incal (1981), que nos é dado a conhecer através da prospecção atenta de Jorge Magalhães, na Editorial Futura.

Os Olhos do Gato (1978) é Moebius no seu esplendor, a partir de um texto minimalista de Jodorowsky, Publicado como brinde destinado aos leitores fiéis dos Humanoïdes Associés, que publicava a Métal Hurlant, foi objecto da avidez desses bichos estranhos que são os coleccionadores, suscitando ainda uma edição pirata por outros marginais da edição, bem-humorados, que se autodesignaram por “Androïdes Dissociés”... Tornado um livro de culto, os humanóides lançariam a edição comercial em 1981. São 48 ilustrações-BD e um frontispício num permanente campo e contracampo: nas páginas pares projecta-se a figura de um rapaz de costas e sempre na sombra com contornos de Yellow Kid (a obra pioneira de Richard F. Outcault, criada em 1896), “mirando” o skyline de uma cidade que dir-se-ia um misto de Metrópolis e Urbicanda. Nas ímpares, uma vinheta/ilustração cheia, em que o cenário parece ruinoso e pós-apocalíptico. “Mirando” veio atrás entre aspas, uma vez que a criatura tem os olhos vazados, comunicando telepaticamente com a águia Meduz, cuja missão bem definida é a de prover um novo e fresco par de olhos ao suposto tutor. Moebius é aqui o tal fora-de-série. Uma filactera final chegava e sobrava para acomodar os murmúrios do argumentista, se houvessem conhecido e meditado no dístico do poeta Alberto de Lacerda (1928-2007): “Palavras / Quase todas a mais”.


Os Olhos do Gato

Desenhos: Moebius.

Texto: Jodorowsky.

Edição: A Seita e Ala dos Livros, Prior Velho e Estoril, 2021

«Leitor de BD»

segunda-feira, 16 de novembro de 2020

uma outra montanha mágica


 

Recém-chegado de uma ilha ignota a uma cidade sem nome em busca de trabalho, Mafaldo Limparrim encontra colocação como penteador de manequins numa discreta loja de miudezas, à Rua dos Parâmetros Assertivos. O dono passava a maior parte do tempo na vilória do Poço Novo, numa encosta de montanha, da qual se dizia os ares serem pouco saudáveis. Quando Mafaldo vai de encontro ao patrão à cata de instruções, começa também uma viagem de eléctrico por um novo mundo que os quadradinhos portugueses até agora ignoravam, ciceroneado pelo lápis e pelas palavras de Paulo J. Mendes (Porto, 1965), autor e fanzinista durante 30 anos afastado da BD, mas não desligado das artes visuais, e cujo gosto retomou quando mão amiga fez chegar umas quantas novelas gráficas, género consagrado principalmente por Will Eisner.

Na apresentação, Mendes dá-nos o grande plano da narrativa: “Um território imaginado de contornos perfeitamente definidos, um punhado de situações surrealistas, e algumas peripécias vagamente baseadas em vivências reais, tudo temperado pelo gosto por paisagens e arquitecturas pitorescas, arte sacra e talha barroca, os eléctricos desde sempre acarinhados e sem esquecer a evocação, transpondo para o plano da fantasia, duma fascinante e estranha capela perdida – sim, existe mesmo – enigmática e quase tumular, com a qual tinha dado de caras há uns anos a percorrer certas serranias do Alto Minho.”

Mafaldo sobe de eléctrico (em vez de descer…) ao Poço Novo, tímido e receoso dos tais maus ares, pois quem de lá vem chega sempre num estado alterado de consciência, o que não é de admirar, já que nessa vila come-se bem (favas com chicória é o prato típico) e bebe-se melhor (o célebre “licor garganta”, do pároco); além disso, em cada esquina um amigo, e na porta em frente a possibilidade de uma cama com companhia. É todo um novo patamar de relacionamento humano que se abre ao protagonista, Hans Castorp virado do avesso sem divagações sobre o Tempo ou colóquios de filosofia política.

O Poço Novo é uma espécie de paraíso terreal de que as autoridades se esquecem; o lugar dá-se bem sem a autoridade. Não obstante, os seus representantes acabam por ser compelidos à vez pelo grupo de pândegos a conhecerem o que vale a pena. “Salsicho” o autarca, os soberanos Gelásio e Purgantina e o próprio pontífice Dligberto, cada qual em seu eléctrico (popular, real ou papal) rumo àquele torrão edénico parado no tempo. Mas o melhor achado é Atrofiel, o anjo-da-guarda estagiário recolhido na igreja de S. Barnabilro, que se empenha com pundonor em assegurar a felicidade de Mafaldo, pese embora a falta de competência.

O penteador é um delírio a ser lido, um microcosmos pessoal, um osso que o autor não deveria largar.


O Penteador

texto e desenhos: Paulo J. Mendes

edição: Escorpião Azul, Lisboa, 2020

«Leitor de BD», jornal i

quarta-feira, 2 de setembro de 2020

um Lucky Luke redivivo

Publicado em 2016, primeiro na Spirou, revista em que 70 anos antes o cowboy que dispara mais rápido que a própria sombra se estreou, L'Homme qui Tua Lucky Luke, de Matthieu Bonhomme (Paris, 1973), conhece a primeira edição portuguesa neste ano da desgraça de 2020.
Para um ano pesado um título duro: pois Lucky Luke deparou-se com alguém capaz de o (a)bater?...
Podemos abordar este álbum de duas formas interessantes: a primeira, apenas como western, o que será sempre difícil, mesmo não se tratando de um trabalho de Morris (alvo, aliás de uma tocante homenagem no cemitério de Frog Town), ou do sucessor Achdé. E então teremos um western escorreito e com tudo, ou quase: cavaleiro solitário, cidadezeca (Frog Town) perdida no Oeste, nascida em torno do garimpo, forças da lei&ordem ineficazes e/ou ao serviço de gente pouco recomendável, populações ora assustadas ora enfurecidas, índios na retranca, duelos, enfim, todo o pathos do género – só faltando a Cavalaria –, incluindo citações e homenagens ao cinema, como nota em texto final João Miguel Lameiras, um dos editores. Estamos, assim, diante de um western puro, não humorístico – o humor está presente de forma cirúrgica e eficaz –, com um estilo semi-realista muito expressivo, mas em tons macios. Lembra, com as devidas distâncias, os primeiros álbuns de Buddy Longway, de Derib, sem a sujidade característica das pranchas de Giraud ou Hermann; quanto às fisionomias mais grotescas, elas trazem à memória o traço de Will Eisner.
Mas este é um álbum de Lucky Luke, numa incursão até certo ponto comparável à que Émile Bravo está a fazer com Spirou, e que temos vindo a acompanhar. A primeira evidência que apetece salientar neste trabalho de revisitação – tratava-se de um sonho antigo de Matthieu Bonhomme – é que o livro resulta num preito principalmente ao primeiro Lucky Luke, época pré-Goscinny, em que após as histórias iniciais, ainda pueris e muito influenciadas pela animação, Morris, entretanto delineia o perfil da personagem: um “pistoleiro bom”, herói solitário, corajoso e leal, impiedoso se for caso disso, traços que progressivamente se vão desvanecendo com Goscinny, à medida que ganham protagonismo Jolly Jumper, os Dalton e Rantanplan; com Bonhomme, o cavalo de Lucky Luke, volta a ser uma montada, especial é certo, mas sem os atributos delirantes que lhe foram outorgados pelo também criador de Astérix. A circunstância de o já célebre Lucky Luke, acabado de chegar à cidade, ser questionado pelas crianças que o admiram por Phil Deefer ou os Dalton – criados por Morris, a partir de uns Dalton que existiram mesmo e acabaram abatidos, como sucede de resto na primeira encarnação na série, é um indício desse recuo de Bonhomme às raízes do nosso cowboy. Com poucas referências à série canónica – e uma vez que o autor estava proibido de voltar a desenhar Lucky Luke com um cigarro na boca –, Mathieu Bonhomme revela-nos a razão de o nosso herói ter deixado de fumar. É, claramente, uma das edições do ano.

O Homem que Matou Lucky Luke
texto e desenhos: Matthieu Bonhomme
edição: A Seita, Prior Velho, 2020


quinta-feira, 7 de novembro de 2019

um mundo à parte

Jeff Smith (The Rocks, Pensilvânia, 1960) integrou cedo a família de autores que criam o que gostariam de fruir, talvez farto das oferta corrente (mutantes e outras criaturas de várias cores em remultiplicação infinita). As influências são as dos velhos comics, de Walt Kelly (Pogo) a Carl Barks (Tio Patinhas), mas também Moebius. Will Eisner, entusiasmado, falou de Herriman (Krazy Kat); outros referiram-se a Schulz (Peanuts) – tudo gente de alto coturno, a que se juntam referências literárias (Mark Twain, Tolkien), para não falar do cinema (Star Wars). Daqui e do mais extraiu esta criação original que dá pelo nome de Bone, publicada entre 1991 e 2004.
Mundo à parte, em que o maravilhoso e o fantástico se conjugam, os Bones são criaturas alvas como um osso de BD. Três primos estão na base da série: Fone Bone, sensato e sensível, Phoney Bone, autoritário e ganancioso, Smiley Bone, um simplório. Execrado e expulso de Bonneville, Phoney leva consigo os dois parentes. Perdidos no meio dum deserto não assinalado nos mapas, são assaltados por uma nuvem de gafanhotos e dispersam-se. Fone Bone, a personagem principal, dá por si numa superfície escalavrada, avistando ao longe uma floresta – típico tópico de interdição e perigo – , com um vale no centro. Aí vive uma pré-adolescente por quem Fone se apaixona, chamada Thorne (‘Espinho’), com uma avó muito peculiar, e também afáveis criaturas do bosque, além de horrendas ratazanas do tipo pós-nuclear. Por todo o lado, um original dragão da guarda faz aparições inesperadas; e à medida que o enredo se intrinca, mais queremos entrar nesse estranho universo.


Fora de Boneville
texto e desenhos: Jeff Smith
edição: Via Lettera, São Paulo, 2002



quarta-feira, 6 de novembro de 2019

resistir é vencer

Valério, arquitecto de meia-idade, passeia pelas ruas com um carrinho-de-mão carregado de tijolos. Em flashback, ficamos a saber que quando a Troika se instalou, a oficina de arquitectura onde trabalhava fechou portas, solidária à força com o empobrecimento geral do país, pobreza em que caíramos por entre esquemas de variegada proveniência, políticas de sentido único e prestidigitações financeiras. Nas mãos dos mercados, esse Shazam! da modernidade dos povos talhados para as alegrias do 5G, foi um ver-se-te-avias na degradação do nosso viver habitualmente. Os portugueses medianos, ingeridos sem esforço, tornaram-se bons nutrientes para a comilança da banca e a veniaga partidária; os pobrezinhos e sobrantes, alavancaram o elevador espiritual de muito bom praticante de banco alimentar, cujo Céu certamente foi ganho.
O desempregado Valério resolve então recuperar a casa que lhe ficara dos avós que, com espanto e indignação, descobre ocupada por gente sem-abrigo & outros desqualificados. Porém, à síncope que então o acometeu, seguida de internamento, sobreveio um outro olhar sobre o real, e tudo deixaria de ser como fora até aí: Valério passa a prestar atenção aos outros – «construir para resistir» torna-se uma divisa. E deste modo pretendeu edificar uma outra realidade, diferente da liquefação contemporânea sem horizontes para muitos, nem tecto ou chão, como se de um novo ajustamento se tratasse, desta vez o da decência, à margem da mercantilização da cidade e de quem nela vive.
Os portugueses, e os lisboetas em particular, passaram agora a andar ditosos com a procura turística. Não há cidade que aguente ou aeroporto que chegue para tanta oportunidade de fazer dinheiro Pelo meio desta “avidez da ganhuça” – para citar o escritor anarquista Assis Esperança (1892-1975) –, haverá sempre tipos estranhos que recolhem tijolos, para desdém dos empreendedores e desgosto dos presumíveis herdeiros.
Com uma composição dinâmica de cada prancha, em que a vinheta tradicional está implícita ou simplesmente não existe, a benefício da fluidez narrativa, Pedro Burgos (Lisboa, 1968), ilustrador e arquitecto que “gosta de desenhar histórias aos quadradinhos sem quadradinhos”, como reza a contracapa, dá-nos em O Coleccionador de Tijolos uma parábola dos tempos que correm.
A leitura lembrou-nos por vezes o Will Eisner do The Building, de que já falámos; outras, a poética do franco-grego Fred, criador do maravilhoso Philémon. A edição é cuidada, com atenção aos pormenores (por exemplo, a analepse impressa em papel doutra cor). Mestria na composição, solidez de ponto de vista, que não nos deixa indiferentes, humor e amor em doses comedidas – o que mais se pode querer de uma BD?
O Coleccionador de Tijolos
argumento e desenhos de Pedro Burgos
edição: Chili com Carne, Cascais, 2019


quinta-feira, 12 de setembro de 2019

oh as casas

A nossa casa é, idealmente, o lugar por excelência onde melhor nos sentimos, refúgio, castelo, recinto privilegiado em que assistimos ao desenrolar das vidas dos que nos são próximos. Um edifício abandonado ou em ruínas confronta-nos desapiedadamente com vida vivida, para sempre desaparecida ali e, por consequência, com a melancolia da finitude. É sobre isto que nos fala The Building (O Edifício, na tradução brasileira), de Will Eisner (1917-2005), dos autores mais talentosos que a BD já conheceu, criador do Spirit, e um dos pioneiros da graphic novel.
O Edifício é uma história sobre um prédio nova-iorquino situado no cruzamento de duas avenidas, que albergou dezenas de famílias e indivíduos ao longo de décadas, silenciosa testemunha de outras tantas existências. Uma epígrafe inicial de John Ruskin, dá o tom: «Os edifícios antigos não nos pertencem. Em parte são propriedade daqueles que os construíram; em parte das gerações que estão por vir. Os mortos ainda têm direitos sobre eles: aquilo por que se empenharam não cabe a nós tomar.»
Com o desenho singular que o caracteriza, o tratamento opulento da prancha como vinheta isolada ou superfície única para várias vinhetas, com sem cercadura, Eisner consegue o pleno na arte combinatória da novela gráfica.
Will Eisner, O Edifício

Editora Abril, São Paulo, 1987

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

50 álbuns: 12. Will Eisner, O EDIFÍCIO (1987) -- o espírito do lugar

A primeira prancha apresenta-nos, em vinheta única, um edifício de esquina com 14 pisos, construído em finais do século XIX, inícios do seguinte. Um edifício em que, por algumas gerações, se viveu, nasceu e morreu, com tudo o que isso implica. Até que o prédio foi demolido, e com ele o lastro imaterial de aspirações humanas que acolheu.
Tratam disto as duas primeiras pranchas de um dos livros da minha biblioteca de BD que mais prezo: O Edifício, do enorme Will Eisner (1907-2005). No prefácio a esta sua obra, Eisner diz-se convicto de que não é impunemente que estes imóveis acolhem vidas durante vidas: «[...] estou certo de que essas estruturas marcadas por risos e manchadas por lágrimas são mais do que edifícios inertes»; e o livro é também uma insurgência contra a depredação dum património cultural, arquitectónico, artístico e imaterial a que se assiste numa cidade. Nada mais eloquente do que a epígrafe de John Ruskin: «Os edifícios antigos não nos pertencem. Em parte, são propriedade daqueles que os construíram; em parte das gerações que estão por vir. Os mortos ainda têm direitos sobre eles: aquilo por que se empenharam não cabe a nós tomar.» 

Will Eisner, O Edifício [The Building, 1987], tradução anónima, São Paulo, Editora Abril, 1989, pranchas 1-2.

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

a poesia dos quadradinhos #3 -- Rui Knopfli

[...] Havia também / Marina, filha mais velha do pianista / do casino, pernas magras enfeitiçando, / qual deusa na selva dos comic books, / o meu desejo obscuro. [...]

Rui Knopfli, «Rua de Coolela», O Monhé das Cobras  (1997), 2.ª ed., Lisboa, Editorial Caminho, 1998.


uma capa de Will Eisner


segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Rorschach

13-VIII-2013

Acabei a madrugada a lerWatchmen (1986) de Alan Moore & Dave Gibbons. Não sou um indefectível dos comics, Batman (dos grandes autores) e The Spirit (do Eisner) à parte, entre poucos outros.
Tour de force que deu mais densidade às narrativas de super-heróis (apesar de Bruce Wayne ou Peter Parker...), touxe-nos também um fantasmagórico Rorschach. Walter Kovaks de seu nome civil, filho de prostituta e produto do que se julga poder ser o crescimento infantil, dos alcoices até à institucionalização, traumas cuja existência se adivinha.
Chapéu, gabardine amarrotada, tanto quanto o gorro que exibe variáveis imagens de Rorschach, a cujo autor o anti-herói vai buscar o nome. Intuitivo, inteligente, Rorschach odeia os maus visceralmente, infligindo-lhe provações de violência e quase sádica, inflingindo terror aos delinquentes, como se fosse um Hannibal Lecter do bem, descontando-se a desordem canibal.
Capturado na sequência de uma cilada, cuja orquestração remete para o nó da narrativa, Rorschach é encarcerado numa prisão com mais de um recluso a querer ajustar contas passadas. Em anotações de trabalho, o psicoterapeuta da cadeia -- excelente momento do cap. VI -- resume um grave incidente ocorrido no refeitório, entre o mais fascinante watchman e outros companheiros de cárcere: "Vocês não estão a perceber. Eu não estou aqui fechado convosco, são vocês que estão aqui fechados comigo."