quarta-feira, 5 de outubro de 2022
quinta-feira, 31 de março de 2022
paródia de paródia
Pela quarta vez, um álbum de Lucky Luke. Não por falta de imaginação – espera-se – e muito menos ausência de material sobre que escrever, embora nem todo acessível. Depois de La Mine d'Or de Dick Digger (1949), título inicial em livro de um herói criado três anos antes, publicado entre nós pela Asa; Um Cowboy no Negócio do Algoidão (também na Asa), um muito conseguido trabalho de Achdé e Jul, continuando o percurso de Morris, mas enriquecendo-o, leu-se também por aqui O Homem que Matou Lucky Luke, editado por A Seita, obra-prima de Matthieu Bonhomme, uma releitura da personagem, indo aos seus fundamentos, recreação, como temos dito equiparável à que Émile Bravo faz com Spirou em Joutnal d'un Ingénu e L'Espoir Malgré Tout (quatro tomos na Dupuis, a casa editora que o viu nascer). Tratando-se de uma homenagem, Bonhomme não se limita a seguir os passos de Morris, o que sucede com Achdé, também, crê-se, por disposição contratual.
Hoje trata-se de um outro tipo de homenagem, uma paródia, semelhante às esplêndidas “Aventuras de Philip e Francis” Nicolas Barral e Pierre Veys (edições portuguesas na Gradiva e Arte de Autor), um gozo às excelsas figuras de Blake e Mortimer. Entre Lucky Luke Muda de Sela, de Mawil, e o já anunciado Choco-Boys, de Ralph König, A Seita publicou recentemente Jolly Jumper Já não Responde, de Bouzard (Paris, 1968), autor com larga colaboração em periódicos como Fluide Glacial, Spirou, Libértion ou Le Canard Echainé.
Este paralelo que fizemos com “As Aventuras de Philp e Francis” levanta uma questão: enquanto que Blake e Mortimer é uma série de perfil realista, Lucky Luke é já de si uma paródia ao imaginário do Oeste americano; e a dúvida é esta: pode a paródia de uma paródia funcionar? Sim, pode, não apenas pelo mérito de Bouzard, como o de Morris, cujo universo verosímil, potenciado posteriormente num sentido de maior comicidade por Goscinny, torna-o um dos melhores westerns dos quadradinhos, mesmo na sua vertente humorística. Todas as grandes figuras e toda a paisagem, ou seja a mundividência desse imaginário que se universalizou em grande parte graças ao cinema e o melting pot, têm lugar em Lucky Luke, o que explica também tanto o êxito como a longevidade da série, assim como as metamorfoses por que tem passado.
Em Jolly Jumper Já não Responde, Bouzard oferece-nos um desastrado Luke, a braços com o que parece ser uma depressão do bravo e inteligente cavalo, que não só já não se sente picado para uma partida de xadrez nem responde às deixas dos dono, algo que costumava fazer com uma verve aguda, atravessando apático a narrativa inteira. Pelo meio, múltiplas referências a aventuras passadas, a presença sempre marcante dos Dalton, desta vez com aparição da Mamã Dalton e de um dos vilões mais inesquecíveis destas histórias, Phil Depher, cujo fácies Morris foi buscar a Jack Palance, brincadeira que repetiria em O Caçador de Prémios. Obrigatório para luckylukófilos.
Jolly Jumper Já não Responde
texto e desenhos: Bouzard
edição: A Seita, Prior Velho, 2021
terça-feira, 18 de janeiro de 2022
de A a Z - L, de Lucky Luke (Morris, 1946)
O cowboy que dispara mais rápido do que a própria sombra tornou-se para muitos a epítome do western em BD; e não apenas caricatural, tal a recriação profunda desse imaginário que logrou – sem esquecer Goscinny –, e que Matthieu Bonhomme recentemete certificou. Deixou de fumar, no que fez bem.
quarta-feira, 12 de janeiro de 2022
um pequeno país
Um país pequeno como a Bélgica, que em anteriores encarnações políticas foi pátria de van Eyck, van der Weyden, Bruegel, Rubens, van Dyck até, na figuração actual, Ensor, Magritte ou Delvaux, entre muitos outros, só encontra na opulenta Itália nação que com ela se meça com vantagem; assim também na BD a Bélgica na Europa, pese a França – Uderzo e Goscinny, por exemplo, afirmaram-se primeiro lá e só depois no país natal; ou Jacques Martin... – ou ainda a Itália, a terceira potência do Velho Continente. Historicamente, em face da Bélgica, só os Estados Unidos, com os seus comics.
Régine Vandamme (Bruges, 1961) uma escritora que se assume leitora, seleccionou, em 2003, 19 autores para um mimoso mini coffee table book, e escolhendo, também deixou de fora, inevitavelmente: Hermann (Bernard Prince, Comanche, Duke), a ausência mais gritante, mas ainda o próprio Greg (Achille Talon), E. Aidans (Tounga), François Craenhals (Chevalier Ardent) William Vance (Bruno Brazil, Ramiro, XIII) ou Dany (Olivier Rameau). Dito isto, as escolhas são todas respeitáveis e incontroversas na quase totalidade. Por ordem de nascimento, o livro abre com Edgar P. Jacobs (Blake e Mortimer), o “génio do estilo narrativo rigoroso e grafismo magistral”; em Hergé (Tintin), aponta o contraste entre a perfeição do herói com os múltiplos defeitos das restantes personagens, aliado à grande legibilidade do desenho. Willy Wandersteen (Bob e Bobette), apesar de Hergé lhe chamar o Bruegel da BD, está, quanto a nós, num patamar abaixo. Segue-se o grande Jijé (Jerry Spring), autor do primeiro western humanista, com grandes cenários e enquadramentos audaciosos; Morris (Lucky Luke), o pai da expressão 9.ª Arte; Paul Cuvelier (Corentin), desenho minucioso e sensual; Raymond Macherot (Clorofila, Coronel Clifton, Sibylinne), o animalismo negro da primeira série, a autora fala-nos da espantosa paleta do desenhador; André Franquim (Gaston Lagaffe, Ideias Negras), de quem Hergé dizia que era ele o grande artista; Peyo (João e Pirolito, Schtroumpfs), a clareza imaculada; Guy Peellaert (Jodelle), com a aproximação à Pop Art; Louis Joos e a paixão pelo jazz e o claro-escuro em técnica mista; Comès (Silêncio), a grande tradição do preto-e-branco, na esteira de Milton Caniff, Hugo Pratt e José Muñoz; Claude Renard (Galileu, Diário de um Herético), dum virtuosismo deslumbrante; Sokal (Canardo), um antropomorfismo em policial desbragado; Philippe Gelluck (O Gato), ou o triunfo do nonsense; o abençoado Frank Pé (La Bête), entre Franquin e Egon Schiele; François Schuitten (As Cidades Obscuras), entre Winsor McCay e Moebius; Yslaire (Sambre), uma das mais perturbantes criações da BD, e, por fim, Thierry Van Hasselt, cujas influências vão de Alberto Breccia a Francis Baco, ou a BD a reinventar-se como pintura e talvez a fugir dela própria.
Livro de uma senhora leitora, felizes os autores que são lidos com este amor.
Régine Vandamme, Les Maîtres de la BD Belge
Tournai, La Renaissance du Livre, 2003
terça-feira, 31 de agosto de 2021
aventuras de Ideiafix o gaulês
Tinha de ser: se Rantanplan, o cão mais estúpido do Oeste, criado por Morris & Goscinny, ou o Marsupilami, o bicho mais estranho da BD, de Franquin, se autonomizaram das figuras tutelares de Lucky Luke e Spirou, obtendo as próprias séries, também o cão de Obélix, fero guardador de menires e guardião das árvores do bosque em torno da aldeia gaulesa, teria de ser protagonista. O cenário é Lutécia, antes de o carismático bichon maltês (ou terrier das Highlands Ocidentais, outra das raças que lhe é atribuída), se encontrar com o fabricante de menires e o inseparável amigo Astérix, durante A Volta à Gália (álbum de 1963). Ideiafix lidera um bando heteróclito, em que figuram não apenas cães, mas também uma gata e um pombo. Extraído dos desenhos animados produzidos este ano, com desenhos de Jean Bastide e Philippe Fenech: Idéfix et les Irreductibles – Pas de Quartier pour le Latin!, Hachette, Paris, 2021.
«Leitor de BD»
domingo, 30 de maio de 2021
três mulheres para Lucky Luke
Depois do maravilhoso O Homemque Matou Lucky Luke, publicado originalmente para celebrar a personagem criada por Morris, Matthieu Bonhomme regressa com Procura-se Lucky Luke. E por quem é ele wanted? Por bandidos, decerto, mas também por três-mulheres-três, pondo à prova o vezo solitário do cowboy. Também a este pretendemos regressar. Edição A Seita, 2021.
quinta-feira, 11 de março de 2021
Lucky Luke: a terra a quem a trabalha!
O cowboy que dispara mais rápido que a própria sombra regressa ao Sul dos Estados Unidos, 84 álbuns depois de Subindo o Mississípi (1959/61), em Um Cowboy no Negócio do Algodão, o 123.º livro de Lucky Luke (sem as homenagens e os pastiches).
Em Nitchevonada, cidadezeca perdida no Kansas, Luke carrega baterias no saloon local, quando vê entrar os Dalton aprisionados por um velho amigo e mentor: Bass Reeves, personagem histórica (1838-1910), o primeiro marshall negro dos Estados Unidos, até há pouco razoavelmente ignorado nas façanhas do Oeste, não obstante os mais de três mil bandidos aprisionados, além dos catorze abatidos, vamos supor que em legítima defesa. Nessa ocasião, um telegrama faz com que o nosso cowboy se saiba proprietário da maior plantação de algodão do Luisiana, que uma admiradora dos seus feitos legou em testamento. Compelido a aceitar, em prol do sustento das centenas de trabalhadores e suas famílias, é neste contexto que o argumento de Jul (Vale do Marne, 1974) é bem conseguido no que respeita à situação dos negros americanos depois da Guerra da Secessão (1861-1865). Após a derrota do Sul rural e esclavagista, as elites brancas trataram de garantir que os quatro milhões de negros formalmente livres continuariam a ser mão-de-obra barata, submissa e ignara. O Ku-Klux-Klan foi criado nesta altura por um oficial da Confederação, e a segregação racial, instituída de jure através das famigeradas Leis de Jim Crow, prevaleceu até aos anos sessenta do século passado, isto é: até há bocado. Martin Luther King é nosso contemporâneo e a voz insubmissa de Mavis Staples anda aí a lembrar-nos o quanto a luta contra a infâmia é sempre gloriosa. Neste particular, cinco estrelas para o álbum.
Lucky Luke chega à plantação, não apenas com o firme propósito de ver-se livre dela, como passá-la para as mãos dos seus trabalhadores, o que suscita incredulidades várias, dos futuros beneficiários deste arrojo revolucionário e dos restantes proprietários dos campos de algodão. As alusões mais ou menos explícitas a E Tudo o Vento Levou, a Barack Obama (e a Trump...) ou a Oprah Winfrey; uma presença bem aguerrida duma jovem chamada Angela (a Davis, pois claro...) e a evocação dum certo Deep South, com a aparição balburdiosa de Tom Sawyer e Huckleberry Finn, vem na melhor tradição Morris & Goscinny. É claro que Jul não é Goscinny, mas atentai no encontro dos Dalton com os mascarados do Klan, humor de antologia...
Outra boa surpresa é-nos dada por Achdé (Lyon, 1961), que trabalhou directamente com Morris, e foi por este escolhido para dar continuidade à série. Boa surpresa porque, ao nono álbum, se distancia cada vez mais do seu mentor, e assim é que deve ser: a personalidade do autor expande-se, ganhando mais liberdade.
Lucky Luke – Um Cowboy no Negócio do Algodão
texto: Jul
desenhos: Achdé
edição: Asa, Alfragide, 2020
terça-feira, 15 de dezembro de 2020
das duas américas
Muito se tem falado nas duas Américas, a propósito das eleições presidenciais nos Estados Unidos. É uma divisão que vem de longe, ainda antes da Guerra da Secessão (1861-65). O pretexto principal foi o da permanência da escravatura nas províncias meridionais, dependentes economicamente das culturas do tabaco e principalmente do algodão, conflito que estala com a eleição de Lincoln em 1861, um aberto abolicionista. Mas a questão é menos simples do que parece: houve estados esclavagistas a combaterem pelo Norte. em que prevalecia uma ideia mais centralizadora do estado, a União, onde prosperava uma elite industrial e financista, com grandes universidades e centros fabris que impulsionavam as inovações tecnológicas; do outro, a Confederação, de visão mais descentralizada, porventura romântica – assim os derrotados e seus descendentes gostam de salientar, forma de tentar esconder a nódoa ética de uma sociedade, por vezes faustosa, assente no trabalho de quatro milhões de negros escravizados. O resultado será um conflito fratricida arrepiante, 620 mil mortos – nunca os Estados Unidos conheceram um número aproximado de baixas em qualquer guerra –, um ressentimento no campo derrotado que não se desvaneceu e abjecções como o Ku Klux Klan, criado após a derrota, ou as infames leis segregacionistas.
Isto e muito mais num número da revista GéoHistoire, dedicada à série humorística Os Túnicas Azuis / Les Tuniques Bleus, criada em 1968 para a revista Spirou por Raoul Cauvin (Antong, 1938), desenhada por Louis Salvérius (1933-1972) e continuada a meio do quarto álbum e até hoje por Willy Lambil (Tamines, 1936). Após a partida de Morris para a revista Pilote, o semanário precisava de um western que preenchesse a vaga deixada por Lucky Luke. As primeira aparições dão-se em gags, história breves em torno a questão índia. É já com Lambil que Cauvin vai explorar o filão da Guerra da Secessão, contando com mais de sessenta álbuns e 22 milhões de exemplares vendidos. Tal sucesso, deve-se aos dois protagonistas, de que falaremos em pormenor noutra ocasião – o cabo Blutch, o anti-herói, e o sargento Chesterfield –, mas também ao rigor com que Cauvin se documentou sobre tantos aspectos da contenda que, iniciada ainda à maneira das campanhas napoleónicas, será a primeira a prefigurar o calvário Grande Guerra de 1914-18, com as suas carnificinas (51 mil mortos na batalha de Gettysburg...), os primeiros couraçados e submarinos rudimentares, a vulnerabilidade das cidades, os motins... E foi também a primeira a ser objecto de reportagem fotográfica, através da lente de Mathew Brady, cujos imagens aí estão, disponíveis à distância de um clique.
Menos popular entre nós, por razões de história editorial, os artigos e entrevistas do número da GéoHistoire, não só enquadram historicamente esta longa série belga, como é ele próprio uma boa introdução a este universo dos Túnicas Azuis, uma forma humorística e leve – mas não ligeira – de tratar a maior guerra que a América viveu, em casa.
Les Tuniques Bleues et la Guerre de Sécession
GéHistoire #53
Outubro-Novembro de 2020
quarta-feira, 2 de setembro de 2020
um Lucky Luke redivivo
quarta-feira, 15 de julho de 2020
30 anos de História com Spirou
segunda-feira, 15 de junho de 2020
o primeiro Lucky Luke
sábado, 18 de abril de 2020
«Strapontam e o Monstro de Loch Ness»
domingo, 22 de março de 2020
O álbum de que todos falam
segunda-feira, 17 de agosto de 2015
à maneira do Lucky luke
| Lucky Luke, por Morris |