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quinta-feira, 31 de março de 2022

paródia de paródia



Pela quarta vez, um álbum de Lucky Luke. Não por falta de imaginação – espera-se – e muito menos ausência de material sobre que escrever, embora nem todo acessível. Depois de La Mine d'Or de Dick Digger (1949), título inicial em livro de um herói criado três anos antes, publicado entre nós pela Asa; Um Cowboy no Negócio do Algoidão (também na Asa), um muito conseguido trabalho de Achdé e Jul, continuando o percurso de Morris, mas enriquecendo-o, leu-se também por aqui O Homem que Matou Lucky Luke, editado por A Seita, obra-prima de Matthieu Bonhomme, uma releitura da personagem, indo aos seus fundamentos, recreação, como temos dito equiparável à que Émile Bravo faz com Spirou em Joutnal d'un Ingénu e L'Espoir Malgré Tout (quatro tomos na Dupuis, a casa editora que o viu nascer). Tratando-se de uma homenagem, Bonhomme não se limita a seguir os passos de Morris, o que sucede com Achdé, também, crê-se, por disposição contratual.

Hoje trata-se de um outro tipo de homenagem, uma paródia, semelhante às esplêndidas “Aventuras de Philip e Francis” Nicolas Barral e Pierre Veys (edições portuguesas na Gradiva e Arte de Autor), um gozo às excelsas figuras de Blake e Mortimer. Entre Lucky Luke Muda de Sela, de Mawil, e o já anunciado Choco-Boys, de Ralph König, A Seita publicou recentemente Jolly Jumper Já não Responde, de Bouzard (Paris, 1968), autor com larga colaboração em periódicos como Fluide Glacial, Spirou, Libértion ou Le Canard Echainé.

Este paralelo que fizemos com “As Aventuras de Philp e Francis” levanta uma questão: enquanto que Blake e Mortimer é uma série de perfil realista, Lucky Luke é já de si uma paródia ao imaginário do Oeste americano; e a dúvida é esta: pode a paródia de uma paródia funcionar? Sim, pode, não apenas pelo mérito de Bouzard, como o de Morris, cujo universo verosímil, potenciado posteriormente num sentido de maior comicidade por Goscinny, torna-o um dos melhores westerns dos quadradinhos, mesmo na sua vertente humorística. Todas as grandes figuras e toda a paisagem, ou seja a mundividência desse imaginário que se universalizou em grande parte graças ao cinema e o melting pot, têm lugar em Lucky Luke, o que explica também tanto o êxito como a longevidade da série, assim como as metamorfoses por que tem passado.

Em Jolly Jumper Já não Responde, Bouzard oferece-nos um desastrado Luke, a braços com o que parece ser uma depressão do bravo e inteligente cavalo, que não só já não se sente picado para uma partida de xadrez nem responde às deixas dos dono, algo que costumava fazer com uma verve aguda, atravessando apático a narrativa inteira. Pelo meio, múltiplas referências a aventuras passadas, a presença sempre marcante dos Dalton, desta vez com aparição da Mamã Dalton e de um dos vilões mais inesquecíveis destas histórias, Phil Depher, cujo fácies Morris foi buscar a Jack Palance, brincadeira que repetiria em O Caçador de Prémios. Obrigatório para luckylukófilos.


Jolly Jumper Já não Responde

texto e desenhos: Bouzard

edição: A Seita, Prior Velho, 2021

«Leitor de BD»

terça-feira, 18 de janeiro de 2022

de A a Z - L, de Lucky Luke (Morris, 1946)




O cowboy que dispara mais rápido do que a própria sombra tornou-se para muitos a epítome do western em BD; e não apenas caricatural, tal a recriação profunda desse imaginário que logrou – sem esquecer Goscinny –, e que Matthieu Bonhomme recentemete certificou. Deixou de fumar, no que fez bem.

«Leitor de BD»

quarta-feira, 12 de janeiro de 2022

um pequeno país

Um país pequeno como a Bélgica, que em anteriores encarnações políticas foi pátria de van Eyck, van der Weyden, Bruegel, Rubens, van Dyck até, na figuração actual, Ensor, Magritte ou Delvaux, entre muitos outros, só encontra na opulenta Itália nação que com ela se meça com vantagem; assim também na BD a Bélgica na Europa, pese a França – Uderzo e Goscinny, por exemplo, afirmaram-se primeiro lá e só depois no país natal; ou Jacques Martin... – ou ainda a Itália, a terceira potência do Velho Continente. Historicamente, em face da Bélgica, só os Estados Unidos, com os seus comics.

Régine Vandamme (Bruges, 1961) uma escritora que se assume leitora, seleccionou, em 2003, 19 autores para um mimoso mini coffee table book, e escolhendo, também deixou de fora, inevitavelmente: Hermann (Bernard Prince, Comanche, Duke), a ausência mais gritante, mas ainda o próprio Greg (Achille Talon), E. Aidans (Tounga), François Craenhals (Chevalier Ardent) William Vance (Bruno Brazil, Ramiro, XIII) ou Dany (Olivier Rameau). Dito isto, as escolhas são todas respeitáveis e incontroversas na quase totalidade. Por ordem de nascimento, o livro abre com Edgar P. Jacobs (Blake e Mortimer), o “génio do estilo narrativo rigoroso e grafismo magistral”; em Hergé (Tintin), aponta o contraste entre a perfeição do herói com os múltiplos defeitos das restantes personagens, aliado à grande legibilidade do desenho. Willy Wandersteen (Bob e Bobette), apesar de Hergé lhe chamar o Bruegel da BD, está, quanto a nós, num patamar abaixo. Segue-se o grande Jijé (Jerry Spring), autor do primeiro western humanista, com grandes cenários e enquadramentos audaciosos; Morris (Lucky Luke), o pai da expressão 9.ª Arte; Paul Cuvelier (Corentin), desenho minucioso e sensual; Raymond Macherot (Clorofila, Coronel Clifton, Sibylinne), o animalismo negro da primeira série, a autora fala-nos da espantosa paleta do desenhador; André Franquim (Gaston Lagaffe, Ideias Negras), de quem Hergé dizia que era ele o grande artista; Peyo (João e Pirolito, Schtroumpfs), a clareza imaculada; Guy Peellaert (Jodelle), com a aproximação à Pop Art; Louis Joos e a paixão pelo jazz e o claro-escuro em técnica mista; Comès (Silêncio), a grande tradição do preto-e-branco, na esteira de Milton Caniff, Hugo Pratt e José Muñoz; Claude Renard (Galileu, Diário de um Herético), dum virtuosismo deslumbrante; Sokal (Canardo), um antropomorfismo em policial desbragado; Philippe Gelluck (O Gato), ou o triunfo do nonsense; o abençoado Frank Pé (La Bête), entre Franquin e Egon Schiele; François Schuitten (As Cidades Obscuras), entre Winsor McCay e Moebius; Yslaire (Sambre), uma das mais perturbantes criações da BD, e, por fim, Thierry Van Hasselt, cujas influências vão de Alberto Breccia a Francis Baco, ou a BD a reinventar-se como pintura e talvez a fugir dela própria.

Livro de uma senhora leitora, felizes os autores que são lidos com este amor.


Régine Vandamme, Les Maîtres de la BD Belge

Tournai, La Renaissance du Livre, 2003

«Leitor de BD»

terça-feira, 31 de agosto de 2021

aventuras de Ideiafix o gaulês




Tinha de ser: se Rantanplan, o cão mais estúpido do Oeste, criado por Morris & Goscinny, ou o Marsupilami, o bicho mais estranho da BD, de Franquin, se autonomizaram das figuras tutelares de Lucky Luke e Spirou, obtendo as próprias séries, também o cão de Obélix, fero guardador de menires e guardião das árvores do bosque em torno da aldeia gaulesa, teria de ser protagonista. O cenário é Lutécia, antes de o carismático bichon maltês (ou terrier das Highlands Ocidentais, outra das raças que lhe é atribuída), se encontrar com o fabricante de menires e o inseparável amigo Astérix, durante A Volta à Gália (álbum de 1963). Ideiafix lidera um bando heteróclito, em que figuram não apenas cães, mas também uma gata e um pombo. Extraído dos desenhos animados produzidos este ano, com desenhos de Jean Bastide e Philippe Fenech: Idéfix et les Irreductibles – Pas de Quartier pour le Latin!, Hachette, Paris, 2021.

«Leitor de BD»

domingo, 30 de maio de 2021

três mulheres para Lucky Luke


Depois do maravilhoso O Homemque Matou Lucky Luke, publicado originalmente para celebrar a personagem criada por Morris, Matthieu Bonhomme regressa com Procura-se Lucky Luke. E por quem é ele wanted? Por bandidos, decerto, mas também por três-mulheres-três, pondo à prova o vezo solitário do cowboy. Também a este pretendemos regressar. Edição A Seita, 2021.

«Leitor de BD»

quinta-feira, 11 de março de 2021

Lucky Luke: a terra a quem a trabalha!

 



O cowboy que dispara mais rápido que a própria sombra regressa ao Sul dos Estados Unidos, 84 álbuns depois de Subindo o Mississípi (1959/61), em Um Cowboy no Negócio do Algodão, o 123.º livro de Lucky Luke (sem as homenagens e os pastiches).

Em Nitchevonada, cidadezeca perdida no Kansas, Luke carrega baterias no saloon local, quando vê entrar os Dalton aprisionados por um velho amigo e mentor: Bass Reeves, personagem histórica (1838-1910), o primeiro marshall negro dos Estados Unidos, até há pouco razoavelmente ignorado nas façanhas do Oeste, não obstante os mais de três mil bandidos aprisionados, além dos catorze abatidos, vamos supor que em legítima defesa. Nessa ocasião, um telegrama faz com que o nosso cowboy se saiba proprietário da maior plantação de algodão do Luisiana, que uma admiradora dos seus feitos legou em testamento. Compelido a aceitar, em prol do sustento das centenas de trabalhadores e suas famílias, é neste contexto que o argumento de Jul (Vale do Marne, 1974) é bem conseguido no que respeita à situação dos negros americanos depois da Guerra da Secessão (1861-1865). Após a derrota do Sul rural e esclavagista, as elites brancas trataram de garantir que os quatro milhões de negros formalmente livres continuariam a ser mão-de-obra barata, submissa e ignara. O Ku-Klux-Klan foi criado nesta altura por um oficial da Confederação, e a segregação racial, instituída de jure através das famigeradas Leis de Jim Crow, prevaleceu até aos anos sessenta do século passado, isto é: até há bocado. Martin Luther King é nosso contemporâneo e a voz insubmissa de Mavis Staples anda aí a lembrar-nos o quanto a luta contra a infâmia é sempre gloriosa. Neste particular, cinco estrelas para o álbum.

Lucky Luke chega à plantação, não apenas com o firme propósito de ver-se livre dela, como passá-la para as mãos dos seus trabalhadores, o que suscita incredulidades várias, dos futuros beneficiários deste arrojo revolucionário e dos restantes proprietários dos campos de algodão. As alusões mais ou menos explícitas a E Tudo o Vento Levou, a Barack Obama (e a Trump...) ou a Oprah Winfrey; uma presença bem aguerrida duma jovem chamada Angela (a Davis, pois claro...) e a evocação dum certo Deep South, com a aparição balburdiosa de Tom Sawyer e Huckleberry Finn, vem na melhor tradição Morris & Goscinny. É claro que Jul não é Goscinny, mas atentai no encontro dos Dalton com os mascarados do Klan, humor de antologia...

Outra boa surpresa é-nos dada por Achdé (Lyon, 1961), que trabalhou directamente com Morris, e foi por este escolhido para dar continuidade à série. Boa surpresa porque, ao nono álbum, se distancia cada vez mais do seu mentor, e assim é que deve ser: a personalidade do autor expande-se, ganhando mais liberdade.


Lucky Luke – Um Cowboy no Negócio do Algodão

texto: Jul

desenhos: Achdé

edição: Asa, Alfragide, 2020

«Leitor de BD»

terça-feira, 15 de dezembro de 2020

das duas américas


 


Muito se tem falado nas duas Américas, a propósito das eleições presidenciais nos Estados Unidos. É uma divisão que vem de longe, ainda antes da Guerra da Secessão (1861-65). O pretexto principal foi o da permanência da escravatura nas províncias meridionais, dependentes economicamente das culturas do tabaco e principalmente do algodão, conflito que estala com a eleição de Lincoln em 1861, um aberto abolicionista. Mas a questão é menos simples do que parece: houve estados esclavagistas a combaterem pelo Norte. em que prevalecia uma ideia mais centralizadora do estado, a União, onde prosperava uma elite industrial e financista, com grandes universidades e centros fabris que impulsionavam as inovações tecnológicas; do outro, a Confederação, de visão mais descentralizada, porventura romântica – assim os derrotados e seus descendentes gostam de salientar, forma de tentar esconder a nódoa ética de uma sociedade, por vezes faustosa, assente no trabalho de quatro milhões de negros escravizados. O resultado será um conflito fratricida arrepiante, 620 mil mortos – nunca os Estados Unidos conheceram um número aproximado de baixas em qualquer guerra –, um ressentimento no campo derrotado que não se desvaneceu e abjecções como o Ku Klux Klan, criado após a derrota, ou as infames leis segregacionistas.

Isto e muito mais num número da revista GéoHistoire, dedicada à série humorística Os Túnicas Azuis / Les Tuniques Bleus, criada em 1968 para a revista Spirou por Raoul Cauvin (Antong, 1938), desenhada por Louis Salvérius (1933-1972) e continuada a meio do quarto álbum e até hoje por Willy Lambil (Tamines, 1936). Após a partida de Morris para a revista Pilote, o semanário precisava de um western que preenchesse a vaga deixada por Lucky Luke. As primeira aparições dão-se em gags, história breves em torno a questão índia. É já com Lambil que Cauvin vai explorar o filão da Guerra da Secessão, contando com mais de sessenta álbuns e 22 milhões de exemplares vendidos. Tal sucesso, deve-se aos dois protagonistas, de que falaremos em pormenor noutra ocasião – o cabo Blutch, o anti-herói, e o sargento Chesterfield –, mas também ao rigor com que Cauvin se documentou sobre tantos aspectos da contenda que, iniciada ainda à maneira das campanhas napoleónicas, será a primeira a prefigurar o calvário Grande Guerra de 1914-18, com as suas carnificinas (51 mil mortos na batalha de Gettysburg...), os primeiros couraçados e submarinos rudimentares, a vulnerabilidade das cidades, os motins... E foi também a primeira a ser objecto de reportagem fotográfica, através da lente de Mathew Brady, cujos imagens aí estão, disponíveis à distância de um clique.

Menos popular entre nós, por razões de história editorial, os artigos e entrevistas do número da GéoHistoire, não só enquadram historicamente esta longa série belga, como é ele próprio uma boa introdução a este universo dos Túnicas Azuis, uma forma humorística e leve – mas não ligeira – de tratar a maior guerra que a América viveu, em casa.


Les Tuniques Bleues et la Guerre de Sécession

GéHistoire #53

Outubro-Novembro de 2020

«Leitor de BD», jornal i

quarta-feira, 2 de setembro de 2020

um Lucky Luke redivivo

Publicado em 2016, primeiro na Spirou, revista em que 70 anos antes o cowboy que dispara mais rápido que a própria sombra se estreou, L'Homme qui Tua Lucky Luke, de Matthieu Bonhomme (Paris, 1973), conhece a primeira edição portuguesa neste ano da desgraça de 2020.
Para um ano pesado um título duro: pois Lucky Luke deparou-se com alguém capaz de o (a)bater?...
Podemos abordar este álbum de duas formas interessantes: a primeira, apenas como western, o que será sempre difícil, mesmo não se tratando de um trabalho de Morris (alvo, aliás de uma tocante homenagem no cemitério de Frog Town), ou do sucessor Achdé. E então teremos um western escorreito e com tudo, ou quase: cavaleiro solitário, cidadezeca (Frog Town) perdida no Oeste, nascida em torno do garimpo, forças da lei&ordem ineficazes e/ou ao serviço de gente pouco recomendável, populações ora assustadas ora enfurecidas, índios na retranca, duelos, enfim, todo o pathos do género – só faltando a Cavalaria –, incluindo citações e homenagens ao cinema, como nota em texto final João Miguel Lameiras, um dos editores. Estamos, assim, diante de um western puro, não humorístico – o humor está presente de forma cirúrgica e eficaz –, com um estilo semi-realista muito expressivo, mas em tons macios. Lembra, com as devidas distâncias, os primeiros álbuns de Buddy Longway, de Derib, sem a sujidade característica das pranchas de Giraud ou Hermann; quanto às fisionomias mais grotescas, elas trazem à memória o traço de Will Eisner.
Mas este é um álbum de Lucky Luke, numa incursão até certo ponto comparável à que Émile Bravo está a fazer com Spirou, e que temos vindo a acompanhar. A primeira evidência que apetece salientar neste trabalho de revisitação – tratava-se de um sonho antigo de Matthieu Bonhomme – é que o livro resulta num preito principalmente ao primeiro Lucky Luke, época pré-Goscinny, em que após as histórias iniciais, ainda pueris e muito influenciadas pela animação, Morris, entretanto delineia o perfil da personagem: um “pistoleiro bom”, herói solitário, corajoso e leal, impiedoso se for caso disso, traços que progressivamente se vão desvanecendo com Goscinny, à medida que ganham protagonismo Jolly Jumper, os Dalton e Rantanplan; com Bonhomme, o cavalo de Lucky Luke, volta a ser uma montada, especial é certo, mas sem os atributos delirantes que lhe foram outorgados pelo também criador de Astérix. A circunstância de o já célebre Lucky Luke, acabado de chegar à cidade, ser questionado pelas crianças que o admiram por Phil Deefer ou os Dalton – criados por Morris, a partir de uns Dalton que existiram mesmo e acabaram abatidos, como sucede de resto na primeira encarnação na série, é um indício desse recuo de Bonhomme às raízes do nosso cowboy. Com poucas referências à série canónica – e uma vez que o autor estava proibido de voltar a desenhar Lucky Luke com um cigarro na boca –, Mathieu Bonhomme revela-nos a razão de o nosso herói ter deixado de fumar. É, claramente, uma das edições do ano.

O Homem que Matou Lucky Luke
texto e desenhos: Matthieu Bonhomme
edição: A Seita, Prior Velho, 2020


quarta-feira, 15 de julho de 2020

30 anos de História com Spirou

Depois de números consagrados a Uderzo e a Morris, a publicação Historia BD #3 dedica as suas páginas a Franquin, passando em revista o tempo e os tempos que acompanharam o genial autor belga, no período em que se dedicou às histórias do groom do Hotel Moustique: Spirou par Franquin et les Trente Glorieuses – 1945-1975, Paris, Julho de 2020.


segunda-feira, 15 de junho de 2020

o primeiro Lucky Luke

No fim da II Guerra Mundial, o jovem Maurice de Bevère (1923-2001) trabalhava nuns estúdios de animação em Bruxelas, na companhia doutros futuros talentos da BD: Franquin (Spirou e Gaston), Peyo (Schtroumpfs) e Eddy Paape (Luc Orient). A concorrência dos grandes estúdios norte americanos era avassaladora, e a pequena empresa fechou. Os jovens viraram-se para a banda desenhada, actividade supostamente contígua; porém, como viriam a descobrir, a linguagem é outra e de outra natureza é a arte praticada.
Morris – nome artístico de Maurice, homofonia adoptada para sempre – estava longe de imaginar que a personagem que criara, para o Almanaque Spirou, no fim de 1946, figurando numa breve narrativa intitulada Arizona 1880, viria a ser um dos maiores ícones dos quadradinhos mundiais, no que respeita a difusão e popularidade. Chamava-se Lucky Luke, personagem de que nunca mais se desligou, sendo um dos raríssimos casos em autores de BD a trabalhar exclusivamente a mesma figura. Até Hal Foster, que não imaginamos a fazer outra coisa que não o Príncipe Valente, desenhou previamente um Tarzan…
Em 1948, Morris partiu para os Estados Unidos, na companhia de Jijé e Franquin, e por lá ficou seis anos a trabalhar. Em Nova Iorque, três anos depois, irá dar-se um encontro decisivo com René Goscinny, decisivo para ambos, pois será em consequência dele que o futuro criador de Astérix se lançará como argumentista de BD.
O Lucky Luke inicial tem ainda características de boneco para animação: traços muito arredondados, quatro dedos em cada mão, mas também já algumas das características que o distinguirão: tiro certeiro, um punch de aço, espírito abnegado e corajoso.
Este primeiro álbum, publicado em 1949 na sua edição inicial, traz duas histórias: A Mina de Ouro de Dick Digger (1947) e O Sósia de Lucky Luke  (1951). Na primeira, o mapa de uma mina dum velho pesquisador é roubado por dois bandidos, com o jovem cavalheiresco prometendo à mulher de Dick Digger a sua recuperação; na segunda, Mad Jim é um desperado que aterroriza o Arizona; acontece que é também um sósia de Luke, vestindo a mesma indumentária: este é capturado e Mad Jim faz-se passar pelo nosso herói. Jolly Jumpper, porém, que à época ainda não aprendera a jogar xadrez, não se deixou enganar. A narrativa termina com o original a abater a cópia. No tempo de Morris a solo, Lucky Luke matava; Goscinny acabou com isso.
 A partir de Carris na Pradaria (1955), o argumentista vem acrescentar ao carisma inicial uma refinamento no humor e um carácter menos naïf, além do cómico de situação, reinventando uns primos Dalton (os irmãos originais haviam também sido mortos pelo cowboy solitário) e o cão mais estúpido do Oeste, Rantanplan. Depois foram vieram livros como O Juiz O 20º de CavalariaA CaravanaCalamity Jane, Canyon Apache, ou Os Dalton no Psicanalista, entre outras obras, primas atrás de primas.


Lucky Luke – La Mine d'Or de Dick Digger
texto e desenhos: Morris
edição: Dupuis, Marcinelle, 1969.
edição portuguesa: Asa, Porto, 2005.


sábado, 18 de abril de 2020

«Strapontam e o Monstro de Loch Ness»

Criado em 1958, por Berck (Arthur Berckmans, Lovaina, 1929) com argumentos de René Goscinny (1926-1977), Strapontam, fardado e ao volante de uma dona-elvira amarela, não é o taxista das voltas ao obeslico da Praça da Concórdia, mas antes o chofer das corridas improváveis... Strapontam, para respeitar a fonética original do nome deste motorista bonacheirão, Strapontin, e não acontecer o que se passou com Tintin, que entre nós nunca foi Tantam, a não ser para quantos frequentaram o liceu francês...
Publicado na revista Tintin belga em 1961 e no ano seguinte em álbum, Strapontam e o Monstro de Loch Ness fala-nos de uma deslocação à Escócia, a pedido de um amigo, o Professor Feijão Verde (Petitpois, no original) – o cientista que descobriu o carburador em pó... –, para que o filho, o jovem Wimpy, aperfeiçoe o inglês, numa temporada no castelo do velho tio Mac Lloyd, situado à beira do célebre Loch Ness, Com ambos segue o cão Gerardo, cujas características antecipam de algum modo uma outra criação de Goscinny, agora com Morris: Rantanplan, o cão mais estúpido do Oeste, surgido no álbum de Lucky Luke, também em 1962, Na Pista dos Dalton.
Goscinny tira partido das idiossincrasias dos britânicos: a condução à direita, a horrível dieta à base de carneiro cozido, molho de hortelã e o plum-pudding, aliás, o tipo de humor que vamos encontrar em Astérix entre os Bretões (1965); na Escócia: problemas com falsários de uísque, a personalidade forte dos escoceses, com os seus kilts e gaitas de foles, e o inevitável Nessie.
Na segunda história, Strapontam e o Gorila (1962), o taxista acompanha Feijão Verde, Wimpy e Gerardo ao território de Grododo, onde coexistem os grandes símios e os acérrimos Molomolós. O professor desta vez engendrara um extracto à base de hormonas de peixe, cabeças de fósforo e cenouras, susceptível de desenvolver a inteligência dos primatas, ao ponto de pôr o gorila a falar latim – ou seja, Goscinny puro, com uma certa inversão do paternalismo, em que os indígenas, por entre os trajes e práticas tradicionais, exibem um discurso de habitantes sofisticados das metrópoles. O mesmo sucederá com Astérix...
O traço de Berck é muito característico. Vindo da BD religiosa, publicada pelos jesuítas belgas, as suas influências estão nos comics americanos. Parece haver ali algum reflexo de Chester Gould (Dick Tracy), adaptado à sensibilidade infanto-juvenil da época e, comprovadamente, de E. C. Segar, o criador de Popeye – o nome da personagem Wimpy,, é uma homenagem àquele, evocando o inenarrável comilão de hambúrgueres. Em suma, pode dizer-se, entre o desenho característico de Berck e o álacre humor de Goscinny, que a série envelheceu, mas bem, apesar de tudo.

Strapontam e o Monstro de Loch Ness, seguido de Strapontam e o Gorila
texto: René Goscinny
desenhos: Berck
edição: Editorial Íbis, Lisboa, 1965

domingo, 22 de março de 2020

O álbum de que todos falam

Não se afigurava possível, mas parece que alguém “limpou” o cowboy que atira mais rápido do que a própria sombra… Uma homenagem de Matthieu Bonhomme, já de 2016, a Morris e à grande personagem criada em 1946, agora em edição de A Seita, O Homem que Matou Lucky Luke.

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

à maneira do Lucky luke



Lucky Luke, por Morris
«Na recepção, um tipo magro, esquálido, de alguns trinta anos. Cigarro apagado, à maneira do Lucky Luke.»

Paulo Castilho, Fora de Horas (1989)