Mostrar mensagens com a etiqueta Victor Hubinon. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Victor Hubinon. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 23 de agosto de 2022

quinta-feira, 4 de novembro de 2021

aviões de papel

 




Que fazem dois autores de BD quando pretendem desenvolver uma série de aviação, de aviões percebendo nada? Obviamente, tiram o brevê... Foi o que se passou com Jean-Michel Charlier (1924-1989) e Victor Hubinon (1924-1979), antes de estrearem a primeira aventura do coronel piloto-aviador Buck Danny, Les Japs Attaquent (1947), episódio de Pearl Harbour, no Pacífico, com uma forte inspiração de Terry e os Piratas, de Milton Caniff (1907-1988), terminada no ano anterior e substituída por Steve Canyon, também ele um ás Força Aérea Americana. Buck Danny é um coronel piloto-aviador, que desde cedo contará com a companhia de dois camaradas:  o capitão Tumbler e o tenente Tuckson. Acompanhando o tempo histórico em que cada álbum se publica, trata-se da mais antiga e bem-sucedida série de aviação de guerra da BD franco-belga: 58 álbuns, 40 dos quais assinados por esta dupla.

Livros como o de hoje, Histoires Courtes (1946-1969), destinam-se principalmente aos admiradores das séries e aficionados dos quadradinhos em geral. Compõem-se de episódios breves, curiosidades, pastiches, documentação. Neste caso, criteriosamente editado por Bernard L. Thouvanel, jornalista especializado em temas de aeronáutica, recolhe dez breves histórias, algumas inéditas outras dispersas, para além de fotografias históricas. Mas o leitor comum ficará sempre mais bem servido com a narrativa canónica das 46 páginas. 

O álbum começa com a pré-história de Buck Danny: "Pilotos de turismo" (1946), apenas de Hubinon, um trecho de humor que conta as peripécias por que passavam os candidatos ao brevê numa qualquer escola de aviação. Segue-se "A agonia do 'Bismark'", também de '46, em que ambos desenham: episódio verídico sobre o super-couraçado "Bismark", o mais poderoso vaso de guerra até então construído, que afundara o HMS Hood, orgulho da Royal Navy, na batalha naval do Estreito da Dinamarca (1941), representando uma séria ameaça, como afirmou Churchill: "Para que a Inglaterra sobreviva, custe o que custar, afundem o Bismark!" Os ingleses vão empreender uma perseguição fazendo pagar caro a pesporrência nazi. Pese a juventude dos autores, com 22 anos, o dinamismo narrativo é eficaz, com vinhetas esplêndidas de batalha aéreo-naval, e abundância de plano picado e contrapicado, como seria de esperar. "Duelo no Céu", "Missão Especial" e "Roubaram um Protótipo..." (1955-56) são histórias breves de quatro pranchas, agora já com o coronel Danny, durante a Guerra Fria, em que está sempre por detrás a acção de uma potência estrangeira, nunca nomeada. Se não acrescentam nada a este universo, também não deixam os créditos dos autores por mão alheias, embora Charlier detestasse escrever narrativas curtas por lhe queimarem vários cartuchos passíveis de usar num álbum canónico. Finalmente quatro pequenos episódios de humor e autopastiche: "As horripilantes aventuras de Buck Danny, veterano da U. S. Air Force" (1957); "Duck Flappy - Protótipo X-6432589" (1960); "Missão Especial" e "Uma História Inacreditável" (1969), cereja no topo: em pleno ar, o chefe da esquadrilha comporta-se estranha e perigosamente aos comandos, para espanto dos companheiros: chegados ao solo, Tumbler e Tucker dirigem-se furiosos ao comandante, quando vêem Gaston Lagaffe, o anti-herói criado por Franquin, vestido a preceito, trazendo na mão o manual "Piloto de Caça em Três Lições", e com justificação: uma vez que vira Buck Danny demasiado absorvido pela aventura da página 14, resolvera substituí-lo, naturalmente...

Les Aventures de Buck Danny - Histoires Courtes 1. (1946-1969)

Texto e desenhos: Jean-Michel Charlier e Victor Hubinon.

Edição: Dupuis, Marcinelle, 2020

«Leitor de BD»



domingo, 7 de fevereiro de 2021

«O Demónio das Caraíbas»

 


«Numa manhã de 1715, em pleno Mar das Caraíbas...» A voz do narrador neste recitativo da vinheta inicial de Barba Ruiva – O Demónio das Caraíbas introduz o tempo e o espaço da acção, encimando a imagem de um galeão espanhol em águas ainda alterosas após a passagem de um tornado. É um história de bucaneiros, ainda na idade de ouro da pirataria.

A Europa guerreava-se, no continente e nas possessões ultramarinas; e até a Rússia, que emerge como grande potência neste período, impor a doutrina da neutralidade armada, a que Portugal adere, o Atlântico era uma balbúrdia: o império luso aos bocados, os espanhóis, passado o Siglo de Oro, tornavam-se presas mais ou menos difíceis para ingleses e franceses, quem realmente mandava no Ocidente, com os holandeses pelos interstícios a abocanhar os restos. Pelo meio, aproveitando-se da confusão, com bases naturais nos arquipélagos das Antilhas, uma chusma fora da lei com a cabeça a prémio, aventureiros, renegados, fugitivos, desertores, revoltados, interceptava os barcos que cruzavam o oceano,

Em 1959, com a criação da revista Pilote, a dupla Jean-Michel Charlier (1924-1989) e Victor Hubinon (1924-1979) há muito que desenvolvia uma profícua colaboração no semanário Spirou: Buck Danny, o ás da aviação surgido em 1947 e que ainda hoje se publica, é a criação mais bem sucedida desse período; uma outra, sobre o corsário Surcouf (1773-1827), permitiu que reunissem uma vasta documentação para empreenderem uma sólida série de flibusteiros. Nasceu assim o pirata Barba Ruiva, comandante audaz, talentoso e cruel, que não fazia prisioneiros.

O galeão que avistámos na primeira vinheta será presa dos piratas do “Falcão Negro”, assim se nomeava o brigue, navio rápido de dois mastros, com seis a dez canhões, apropriado tanto para a abordagem aos pesados navios mercantes, como retiradas bruscas para dentro do arquipélago caribenho, em caso de perseguição de navios de armada hostil. A bordo do barco espanhol seguia um casal com um filho de tenra idade, que não tardará em ficar órfão, ou quase, uma vez que o pirata o adoptará. Eric Lerouge, assim vai chamar-se, será instruído por um velho pirata culto e perneta, Três-Patas, e por Babá, um homenzarrão negro, ex-escravo libertado por Barba Ruiva. E aqui o leitor já estará a vislumbrar a imagem dos desastrados piratas de Astérix, que pela difusão mundial que conhece o gaulês, tornou a paródia mais célebre que o original...

Charlier assimilou muito bem o espírito insurrecto e comunitário da pirataria, que conjugava disciplina férrea e desbragamento selvagem; Hubinon, que era uma máquina a desenhar aviões e couraçados, continuou exímio com os veleiros, perseguindo-se nesse mar sem lei. Tendo passado por vários autores, a série continua a publicar-se na mesma editora, a Dargaud.


Barba Ruiva- O Demónio das Caraíbas

texto: Jean-Michel Charlier

desenhos: Victor Hubinon

edição: Meribérica / Liber, Lisboa, s.d.

»Leitor de BD»



segunda-feira, 2 de novembro de 2020

Barba Ruiva

 


O flibusteiro que comanda o “Falcão Negro”, personagem mítica da pirataria desenhada, criada em 1959 por Jean-Michel Charlier e Victor Hubinon para a revista Pilote, está de regresso e em maus lençóis, na companhia do filho adoptivo, Eric, Três-Pernas, o poliglota, e Baba, um colosso negro. Todos os conhecemos, no original ou através da paródia que deles fizeram Goscinny e Uderzo. Les Nouvelle Aventures de Barbe-Rouge – Pendu Haut et Court, texto de Jean-Charles Krahen, desenhos de Stefano Carloni, Dargaud, Paris, 2020.

«Leitor de BD», jornal i

quarta-feira, 27 de novembro de 2019

toy stories

Alvitre ao leitor: quando estiver com este livro nas mãos, comece por não ler, mas observar; folheie demoradamente, deixe os olhos vogarem ao ritmo que o autor imprimiu a cada prancha, depois fixe as vinhetas, demore-se nas páginas, nos diversos e bem doseados planos dos quadradinhos, admire o excelente trabalho de claro-escuro, a partir, supomos, de vários tipos de canetas de feltro; chegue ao fim, e então comece a leitura. Está por sua conta.


Pum! / Qual Pum! É Bang! Isto é BD! / ? / Crack! à la Hugo Pratt. / Click! Vazio. // Toca a mexer malta, ou acabamos num caixote no sótão ou na Feira da Ladra.» Palavras iniciais deste livro de Filipe Abranches (Lisboa, 1965), Selva!!!: diálogos de soldadinhos de guerra em missão por floresta espessa ou sobre oceanos de mar revolto.


Todos quanto, rapazes (e raparigas, porque não?...), brincámos aos tiros com miniaturas, recordamo-nos dos incríveis teatros de guerra que criávamos. Índios e cowboys, aliados e nazis, unionistas e confederados, mouros e cruzados. Uns quantos livros de capa dura dispostos no chão do quarto dava para fazer um qualquer forte da cavalaria americana ou um castelo medieval, à falta de modelos de escala reduzida. Os bonecos eram da “Britains”, muito bem feitos, em resina de poliester com uma base verde, de metal; ou então uns bonecos da “Airfix”, para quem quisesse e tivesse paciência para pintá-los... Experimentavam-se as tácticas com a imaginação e a ajuda do cinema, televisão e revistas aos quadradinhos. Uma delas, aqui graficamente citada, o Falcão, com estupendas séries fixas, edições distribuídas pela Agência Portuguesa de Revistas: Sandor, Ogan, Oliver, Kalar e o Major Alvega.


História dentro da história, intromissão do real na ficção, uma vinheta em falta, pórticos que se atravessam, do mundo da imaginação ao mundo verdadeiro, onde a mentira é maior: a guerra tem sempre acoplada a palavra “Paz”, com maiúsculas e tudo. Ainda agora a vimos, na operação “Paz para a Primavera”, turcos contra curdos, uns que contemporizaram com o Daesh, outros que lutaram contra ele, também em nosso benefício. Parece que há mais verdade na BD, mesmo que os intervenientes sejam de poliester ou plástico.


No colofão, o autor lembra os pais, que lhe compravam saquetas com revistas aos quadradinhos para ler na praia, e agradece também ao “Buck Dany”, a quem roubou muitas vinhetas. Buck Dany, extraordinária BD de guerra e aviação criada pela dupla Jean-Michel Charlier – Victor Hubinon para a revista Spirou (os mesmos que conceberam o pirata Barba Ruiva para as páginas da Pilote). Sim, há aqui grandes quadr(ad)os inspirados na arte daquele mestre belga, homenagem com maturidade gráfica de quem já leva anos disto.


Selva!!!


texto e desenhos: Filipe Abranches


edição: Umbra Edições, 2019


terça-feira, 30 de julho de 2019

BDteca- José Abrantes & Miguel Rocha, O ENIGMA DIABÓLICO (1998): Mortimer encontra o Joker

O pastiche e a paródia, sobretudo em forma de homenagem, é uma prática comum em BD. Talvez o melhor exemplo seja a brincadeira de Uderzo e Goscinny com o pirata Barba Ruiva e tripulação, que vogavam nas páginas da revista Pilote, onde Jean-Michel Charlier e Victor Hubinon faziam publicar as aventuras do bucaneiro do 'Gavião Negro', as mesmas folhas que davam guarida a Astérix. E tão bem sucedida foi a graça, que os piratas recorrentemente postos a pique nos álbuns do pequeno gaulês se tornaram mais conhecidos que as personagens originais... A paródia pode mesmo constituir-se como subgénero: na revista Mad tem aí um dos seus pratos fortes; no mundo franco-belga, está nas bancas, inclusive em edição portuguesa, a bem sucedida charge a Blake e Mortimer, As Aventuras de Philip e Francis, de Nicolas Barral e Pierre Veys.
O pequeno volume da colecção «Quadradinho» #16, da autoria de Miguel Abrantes (Lisboa, 1960) e Miguel Rocha (Lisboa, 1968) é um despretensioso exemplo destas recriações. Título e capa remetem de imediato para as personagens de E. P. Jacobs: o primeiro é um divertido achado, combinando O Enigma da Atlântida  e A Armadilha Diabólica; o protagonista inominado, com barba passa-piolho, lembra o Prof. Mortimer, enquanto que o vilão não é o Coronel Olrik, mas um certo Conde Moloch, com acentuados traços do insano Joker, deslocado de Gotham para o lugar de Orelhos, onde se situa o solar lúgubre em que decorre a acção; em perigo e a pedir salvação, uma frágil jovem parecida com Adèle Blanc-Sec.  Melhores os desenhos que o texto, mas o conjunto funciona.  
O Enigma Diabólico (Associação Salão Internacional de Banda Desenhada do Porto, 1998)





segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Repostagens: Piratas

A figura do Barba Ruiva exerceu sempre sobre mim um fascínio a que não foram alheios o traço de Victor Hubinon e a destreza narrativa do grande Jean-Michel Charlier. Apesar disso, o poder caricatural duma certa dupla Albert-René foi tal, que não consigo pegar num álbum de aventuras do comandante do «Falcão Negro» sem que me venha à memória aquela angustiosa interjeição: «Os gau!... Os gaugau!...»

[29 de Abril de 2005, postado aqui]